Hipertensão arterial e doença renal crônica em idosos: revisão das evidências sobre evolução clínica e tratamento
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
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Resumo

A hipertensão arterial sistêmica (HAS) e a insuficiência renal crônica (IRC) figuram entre as condições crônicas mais prevalentes em idosos, coexistindo frequentemente e agravando mutuamente seus desfechos. Essa interação compromete a qualidade de vida e aumenta o risco de complicações cardiovasculares e renais, tornando seu manejo um desafio significativo. O presente estudo analisou a influência da hipertensão na progressão da insuficiência renal em idosos e avaliou a efetividade das estratégias terapêuticas disponíveis. Trata-se de uma pesquisa bibliográfica de abordagem qualitativa, baseada em estudos publicados entre 2015 e 2025 nas bases PubMed, SciELO, LILACS e CINAHL, incluindo artigos completos em português, inglês e espanhol que abordassem a coexistência de HAS e IRC em idosos. Os achados indicam que a hipertensão mal controlada é o principal fator de progressão da IRC, cujo caráter assintomático favorece o diagnóstico tardio e o aumento de complicações. Estratégias terapêuticas como IECAs, BRAs, diuréticos e medidas não farmacológicas mostraram-se eficazes; contudo, baixa adesão, polifarmácia e limitações no acompanhamento reduzem sua efetividade. Conclui-se que a associação entre HAS e IRC exige protocolos individualizados, ações educativas e rastreamento precoce, a fim de melhorar o controle pressórico, preservar a função renal e reduzir a morbimortalidade em idosos.

Palavras-chave: Pressão Arterial. Envelhecimento. Risco Cardiovascular. Progressão da Doença. Terapia Anti-hipertensiva.

Abstract

Systemic arterial hypertension (SAH) and chronic kidney disease (CKD) are among the most prevalent chronic conditions in the elderly, frequently coexisting and mutually exacerbating their outcomes. This interaction compromises quality of life and increases the risk of cardiovascular and renal complications, making its management a significant challenge. This study analyzed the influence of hypertension on the progression of kidney disease in the elderly and evaluated the effectiveness of available therapeutic strategies. This is a qualitative bibliographic research, based on studies published between 2015 and 2025 in the PubMed, SciELO, LILACS, and CINAHL databases, including full articles in Portuguese, English, and Spanish that addressed the coexistence of SAH and CKD in the elderly. The findings indicate that poorly controlled hypertension is the main factor in the progression of CKD, whose asymptomatic nature favors late diagnosis and increased complications. Therapeutic strategies such as ACE inhibitors, ARBs, diuretics, and non-pharmacological measures proved effective; However, low adherence, polypharmacy, and limitations in follow-up reduce its effectiveness. It is concluded that the association between hypertension and chronic kidney disease requires individualized protocols, educational actions, and early screening in order to improve blood pressure control, preserve renal function, and reduce morbidity and mortality in the elderly.

Keywords: Hypertension. Chronic Kidney Disease. Elderly.

INTRODUÇÃO

A hipertensão arterial sistêmica (HAS) e a insuficiência renal crônica (IRC) são comuns em idosos, frequentemente coexistindo e agravando-se mutuamente. O envelhecimento aumenta a incidência de doenças crônicas e, quando diagnosticadas tardiamente, comprometem a funcionalidade e a qualidade de vida, favorecendo sarcopenia, fadiga, alterações de marcha, perda de apetite e peso. A HAS, diabetes mellitus e doença renal crônica (DRC) são os principais fatores desse declínio (Silva et al., 2019). A HAS, além de prevalente, é uma das principais causas de DRC, devido ao mecanismo central envolve a lesão endotelial e a hipertrofia da musculatura lisa vascular induzidas pela pressão arterial persistentemente elevada, resultando em esclerose glomerular e perda progressiva da função renal (Truck, 2019) e quando associadas, essas patologias elevam expressivamente o risco de eventos cardiovasculares adversos, como acidente vascular cerebral, insuficiência cardíaca e doença arterial coronariana, configurando o que se convencionou chamar de “síndrome cardiorrenal”, tornando o manejo clínico desses pacientes um desafio significativo.

Além disso, a polifarmácia, comum nessa faixa etária, pode aumentar o risco de efeitos adversos, interações medicamentosas e comprometimento renal. Assim, é essencial avaliar a evolução clínica desses pacientes para identificar estratégias terapêuticas que promovam o controle eficaz da hipertensão sem agravar a insuficiência renal, visando prevenir complicações adicionais. Aliado a isso, a avaliação clínica desses pacientes idosos com HAS e insuficiência renal requer uma abordagem abrangente, que considere as particularidades fisiológicas do envelhecimento e as alterações hemodinâmicas associadas à função renal comprometida. A urgência em evitar o subdiagnóstico e o subtratamento dessas comorbidades em idosos, bem como, a necessidade de oferecer uma maior sobrevida capaz de fornecer alívio clínico satisfatório para esses pacientes, representam um tópico de grande importância e impacto na esfera científica e social.

Diante disso, a compreensão da interação entre hipertensão e função renal é fundamental para a implementação de intervenções que retardem a progressão da doença e melhorem a qualidade de vida desses pacientes. Assim, a justificativa para a escolha do tema se baseia na necessidade urgente de compreender melhor a interação entre essas duas condições crônicas, especialmente no que se refere à questão medicamentosa e evitar os subdiagnósticos dessas comorbidades.

Dessa forma, o presente estudo tem como objetivo sintetizar evidências disponíveis acerca do impacto da hipertensão e da insuficiência renal na qualidade de vida e no prognóstico de pacientes idosos, identificando fatores de risco e comorbidades associadas que influenciam a evolução clínica. Espera-se que os resultados contribuam para a otimização do cuidado e para a elaboração de diretrizes clínicas mais eficazes no manejo dessa condição.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA

2.1 Características Clínicas da Hipertensão e da Insuficiência Renal em Idosos

A hipertensão arterial sistêmica (HAS) é uma condição prevalente em idosos e pode se manifestar de forma isolada ou associada a outras comorbidades, como a insuficiência renal crônica (IRC). Nos idosos, a hipertensão arterial frequentemente se apresenta como hipertensão sistólica isolada, um reflexo da rigidez das artérias devido ao envelhecimento (Bortolotto, 2023).

Essa forma de hipertensão é particularmente relevante, pois está associada a um aumento do risco de complicações cardiovasculares e renais. Em pacientes com 6 insuficiência renal, a hipertensão tem um papel crucial na progressão da doença renal, levando a um agravamento da função renal ao longo do tempo.

As lesões em órgãos-alvo, como o coração, cérebro e rins, são mais prevalentes em pacientes hipertensos, sendo um reflexo da persistência da pressão alta. No caso da insuficiência renal, a doença se caracteriza pela redução gradual da função renal, o que é medido pela taxa de filtração glomerular (TFG) (Pereira, 2015).

A presença de proteinúria, que indica lesão renal, também é um marcador importante na avaliação do paciente hipertenso com IRC. Para diagnosticar adequadamente esses pacientes, é fundamental observar as características clínicas da hipertensão, a classificação da IRC e a presença de lesões nos órgãos-alvo, o que pode ajudar na escolha do tratamento mais adequado para controlar a pressão arterial e retardar a progressão da doença renal (Bezerra et al., 2023).

2.2 Prevalência da Insuficiência Renal Crônica Associada à Hipertensão em Idosos

A insuficiência renal crônica (IRC) é uma condição comum em idosos hipertensos, com estudos apontando que a hipertensão é uma das principais causas de DRC. A associação entre essas duas condições é um problema significativo para a saúde pública, dado que ambas têm prevalência elevada entre a população idosa (Aguiar, et al., 2020).

A hipertensão mal controlada é um fator de risco crucial para a progressão da IRC, e essa relação é exacerbada por outros fatores, como a presença de diabetes mellitus, que também é prevalente em idosos (Araújo, et al., 2021). Além disso, a perda progressiva da função renal associada à hipertensão pode ser observada em diferentes estágios da DRC, com uma redução da taxa de filtração glomerular (TFG) e o surgimento de proteinúria (Da Costa Ramos, 2019). A prevalência de DRC em pacientes com hipertensão é um reflexo do controle inadequado da pressão arterial, que acelera o dano renal.

Vale ressaltar que a progressão da DRC não depende exclusivamente da presença da hipertensão, a literatura analisada demonstra que múltiplas condições podem contribuir para um pior prognóstico, incluindo diabetes mellitus, obesidade e outros fatores cardiovasculares. Sabe-se que condições como envelhecimento, sexo masculino, obesidade, antecedentes familiares e o consumo de tabaco aumentam a probabilidade tanto de desenvolvimento da hipertensão quanto de eventos cardíacos (Santisteban; Idecola; Carnevale, 2023).

Portanto, a identificação precoce da hipertensão em idosos é fundamental para a prevenção e o manejo da insuficiência renal, já que a abordagem terapêutica correta pode retardar a progressão da doença renal e prevenir complicações adicionais. A prevalência da DRC em idosos com hipertensão é uma preocupação crescente na medicina geriátrica, refletindo a necessidade de estratégias de controle mais eficazes para essa população.

2.3 Efetividade do Tratamento Anti-hipertensivo em Idosos com Insuficiência Renal

O tratamento da hipertensão em idosos com insuficiência renal crônica (IRC) exige um cuidado especial, devido às características dessa faixa etária e à interação entre as comorbidades presentes (Bonfá, 2015).

A terapia anti-hipertensiva em idosos com IRC deve ser adaptada para evitar efeitos adversos que possam agravar a função renal. O uso de inibidores da enzima conversora de angiotensina (IECA) e bloqueadores dos receptores de angiotensina II (BRA) é comum, uma vez que essas classes de medicamentos são eficazes no controle da pressão arterial e na proteção da função renal (Bonfá, 2015).

Contudo, é importante monitorar de perto a função renal durante o uso desses medicamentos, já que podem ocorrer efeitos adversos, como a elevação dos níveis de potássio e a deterioração da função renal, especialmente em casos de insuficiência renal avançada.

Além do tratamento farmacológico, medidas não farmacológicas, como a redução da ingestão de sal, o aumento da atividade física e a modulação do peso corporal, têm demonstrado eficácia no controle da hipertensão e na preservação da função renal. Essas estratégias não só ajudam a reduzir a pressão arterial, mas também contribuem para a melhora do quadro renal e cardiovascular geral (Rabelo, 2020).

Por fim, a adesão ao tratamento é um desafio significativo em idosos, principalmente devido à polifarmácia e aos efeitos colaterais dos medicamentos, sendo necessário um acompanhamento contínuo para garantir a eficácia das intervenções terapêuticas e a qualidade de vida do paciente.

3 METODOLOGIA

3.1 Tipo de pesquisa

Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa do tipo bibliográfica, de natureza qualitativa. A investigação será realizada por meio da análise de literatura científica disponível em bases de dados especializadas na área da saúde, com o objetivo de compreender e discutir, a partir de estudos já publicados, a evolução clínica da hipertensão arterial em pacientes idosos que apresentam quadro de insuficiência renal. A pesquisa bibliográfica permite reunir informações relevantes sobre o tema, sem a necessidade de contato direto com os sujeitos da pesquisa, o que é adequado ao objetivo proposto.

3.2 Local da pesquisa

A pesquisa foi desenvolvida de forma remota, com acesso aos materiais por meio de plataformas digitais acadêmicas. O levantamento dos dados ocorrerá por meio da consulta a bases de dados internacionais e nacionais, acessíveis online, o que proporciona amplo alcance a publicações científicas atualizadas e relevantes para o objeto de estudo.

3.3 População e amostra

A população deste estudo é composta por publicações científicas que abordam a relação entre hipertensão arterial e insuficiência renal em idosos. A amostra foi composta por artigos, diretrizes clínicas, revisões sistemáticas e estudos observacionais que tratam da evolução clínica desta condição em pacientes com idade igual ou superior a 60 anos. A seleção da amostra seguirá critérios definidos de relevância, atualidade e adequação ao tema proposto.

3.4 Critérios de inclusão e exclusão

Foram incluídos na pesquisa artigos científicos completos disponíveis em texto integral, publicados nos idiomas português, inglês ou espanhol, entre os anos de 2015 e 2025, que abordem especificamente a hipertensão arterial em pacientes idosos com diagnóstico de insuficiência renal.

Foram aceitos estudos disponíveis nas seguintes plataformas: U.S. National Library of Medicine (PubMed), Scientific Electronic Library Online (SciELO), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), e Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature (CINAHL). Os descritores utilizados para a busca foram: “hipertensão arterial”, “insuficiência renal”, “idosos” e seus correspondentes em inglês. Foram excluídos resumos, editoriais, cartas ao editor, estudos que abordam somente uma das condições (apenas hipertensão ou apenas insuficiência renal) sem a associação entre ambas, bem como publicações duplicadas ou fora do período estipulado.

3.5 Procedimentos e instrumentos

A coleta de dados foi realizada por meio da análise documental de estudos previamente publicados, acessados em bases de dados científicas consolidadas. Os instrumentos utilizados para essa coleta foram as próprias plataformas de pesquisa acadêmica, que permitirão o acesso aos textos completos dos estudos selecionados.

A busca foi estruturada com a utilização de descritores controlados e livres, combinados por operadores booleanos (AND, OR), com o objetivo de refinar os resultados e garantir a pertinência das publicações localizadas.

A proposta de seleção das leituras adotará uma abordagem seletiva, crítica e analítica: a leitura seletiva permitirá a triagem inicial dos títulos e resumos para identificação dos estudos que atendam aos critérios de inclusão; a leitura crítica foi aplicada para avaliar a qualidade metodológica e a robustez dos dados apresentados; e a leitura analítica permitirá extrair e organizar as informações centrais, de acordo com os objetivos do estudo. Todos os artigos incluídos passarão por um processo de fichamento sistemático, que servirá como instrumento de organização e análise dos dados coletados.

3.6 Análise dos dados

A análise dos dados foi de natureza qualitativa, com foco na técnica de análise de conteúdo. O material coletado foi agrupado em categorias temáticas, como fatores que influenciam a evolução clínica da hipertensão em idosos com insuficiência renal, intervenções terapêuticas relatadas, impactos na qualidade de vida e complicações associadas. A partir dessas categorias, foi possível identificar padrões e divergências entre os estudos, permitindo a construção de um panorama crítico e fundamentado sobre o tema.

3.7 Princípios éticos e legais

Considerando que esta pesquisa se baseia exclusivamente em fontes secundárias e não envolve a participação de seres humanos nem o uso de dados sensíveis ou confidenciais, não foi necessária a submissão do projeto ao Comitê de Ética em Pesquisa, conforme disposto na Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde. Não foram realizados experimentos, entrevistas ou qualquer forma de interação direta com indivíduos. Sendo assim, não há riscos associados à pesquisa, nem necessidade de Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) ou Termo de Assentimento. Ainda assim, todos os princípios da ética em pesquisa científica foram respeitados, com ênfase na correta citação das fontes, na integridade dos dados apresentados e na observância das boas práticas acadêmicas.

4 RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS

4.1 Fisiopatologia da Hipertensão Arterial Sistêmica em Idosos com Insuficiência Renal Crônica.

A análise da literatura evidencia que a hipertensão arterial sistêmica (HAS) em idosos apresenta particularidades clínicas e fisiopatológicas que influenciam diretamente sua associação com a insuficiência renal crônica (IRC). Entre as alterações mais relevantes nessa faixa etária, destaca-se a prevalência da hipertensão sistólica isolada, consequência da perda de elasticidade arterial e aumento da sua rigidez, associadas ao processo de envelhecimento. Segundo Bortolotto (2023), essas alterações contribuem para a elevação da pressão arterial sistólica e estão relacionadas ao aumento do risco de lesões em órgãos-alvo, especialmente coração, rins e sistema nervoso central.
Além das alterações relacionadas ao envelhecimento vascular, a literatura analisada demonstra que a coexistência de outros fatores de risco pode intensificar a progressão das complicações cardiovasculares e renais. Araújo et al. (2021) destacam fatores como diabetes mellitus, obesidade, tabagismo e histórico familiar de doenças cardiovasculares, evidenciando o caráter multifatorial envolvido na evolução clínica do paciente hipertenso. Em idosos, essa associação adquire maior relevância em razão da coexistência frequente de múltiplas comorbidades e das alterações fisiológicas próprias do envelhecimento.
Nesse contexto, os marcadores clínicos mais utilizados para estratificação são a taxa de filtração glomerular (TFG) e a presença de proteinúria. A TFG, parâmetro que expressa o volume de plasma filtrado pelos glomérulos por minuto, é diretamente dependente das forças de pressão envolvidas na barreira de filtração glomerular, que incluem a pressão hidrostática capilar (em média 55 mmHg), a pressão coloidosmótica plasmática (cerca de 30 mmHg) e a pressão hidrostática capsular (em torno de 15 mmHg). Alterações neste equilíbrio reduzem a taxa de filtração, comprometendo a homeostase hidroeletrolítica e ácido-básica do organismo. A presença de proteinúria indica lesão da barreira de filtração glomerular e está associada tanto à gravidade da doença renal quanto ao risco cardiovascular aumentado (Pinho; Oliveira; Pierin, 2015).
Além disso, Tkachuk (2019) reforça que a hipertensão contribui para a deterioração renal por meio de mecanismos hemodinâmicos e inflamatórios. O aumento sustentado da pressão arterial leva a um estado de hiperfiltração glomerular inicial, que, ao longo do tempo, causa estresse mecânico sobre as células endoteliais e podocitárias. Essa agressão favorece processos de fibrose glomerular e tubular, culminando em queda progressiva da TFG. Em idosos, esse processo é intensificado pela redução da capacidade autorregulatória renal, dependente de mecanismos como a resposta miogênica da arteríola aferente e a retroalimentação tubuloglomerular, mediados pela mácula densa e pelas células justaglomerulares (Silverthorn, 2017).
A coexistência de HAS e IRC impõe ao idoso um risco elevado de morbimortalidade. Acerca disso, Souza et al. (2019) apontam que apenas uma fração dos pacientes idosos hipertensos consegue atingir as metas pressóricas preconizadas, refletindo a dificuldade de controle clínico nessa população. A evolução clínica, portanto, é marcada por complicações cardiovasculares e renais, resultando em maior número de internações hospitalares e redução da qualidade de vida.

Ademais, os fatores relacionados à evolução clínica desses pacientes não se restringem aos mecanismos fisiopatológicos. Araújo et al. (2021) destacam a influência de elementos sociodemográficos e comportamentais associados à hipertensão, indicando que fatores relacionados às condições de vida e aos hábitos de saúde também devem ser considerados na abordagem do paciente. Dessa forma, os achados apontam para a necessidade de uma assistência que ultrapasse o controle isolado dos níveis pressóricos e incorpore estratégias de prevenção, educação em saúde e acompanhamento longitudinal.

Além disso, a abordagem terapêutica da hipertensão em idosos deve considerar complicações inerentes dessa faixa etária, como hipotensão postural e maior sensibilidade a efeitos adversos dos medicamentos (Costa, 2019). Tais fatores reforçam que as características clínicas da HAS e da IRC nos idosos são complexas, multidimensionais e exigem monitoramento rigoroso para prevenir desfechos desfavoráveis.

4.2 Prevalência da Insuficiência Renal Crônica associada à Hipertensão em Idosos

Os dados epidemiológicos são alarmantes. A prevalência da IRC aumenta exponencialmente com a idade, e a HAS é um dos seus principais impulsionadores. Em inquérito epidemiológico nacional, a prevalência da doença renal crônica está intimamente ligada ao controle inadequado da pressão arterial (Aguiar et al. 2020).

O tratamento anti-hipertensivo em idosos com IRC apresenta desafios particulares, sobretudo pela baixa adesão decorrente da polifarmácia, efeitos adversos e esquemas terapêuticos complexos (Bonfá, 2016). Intervenções multiprofissionais e estratégias educativas têm se mostrado essenciais para melhorar resultados clínicos (Pereira, 2015; Machado et al., 2016).

A hipertensão mal controlada é identificada como a principal causa secundária da IRC, principalmente em idosos com múltiplas comorbidades. Sobre isso, a atenção primária à saúde exerce papel estratégico no diagnóstico precoce da doença renal em hipertensos, permitindo intervenções que retardam sua evolução. Contudo, a fragilidade dos sistemas de rastreamento e acompanhamento ainda compromete a efetividade dessa estratégia no Brasil (Bastos, 2016).

A prevalência da insuficiência renal crônica (IRC) em idosos hipertensos é uma questão de grande relevância epidemiológica, já que a hipertensão arterial sistêmica (HAS) constitui um dos principais fatores de risco para a deterioração da função renal. No Brasil, os dados disponíveis ainda são fragmentados e muitas vezes subestimam a real magnitude do problema, sobretudo em razão do caráter silencioso da doença renal crônica em estágios iniciais. A seguir, a Tabela 1 apresenta um panorama de estudos nacionais que descrevem a prevalência de hipertensão e de insuficiência renal em idosos.

Tabela 1. Prevalência de hipertensão arterial sistêmica e insuficiência renal crônica em idosos

Fonte: Brasil (2017); Lima (2022); Freitas (2016).

Os dados evidenciam que a hipertensão é altamente prevalente em idosos brasileiros, com taxas acima de 60% tanto em adultos mais velhos (≥ 65 anos) quanto em octogenários. Entretanto, a prevalência da insuficiência renal crônica varia de acordo com o método de diagnóstico: enquanto a Pesquisa Nacional de Saúde (2019) mostrou apenas 3% de autorrelato de insuficiência renal em idosos com 80 anos ou mais, o estudo populacional em Rio Branco identificou prevalência muito superior (21,4%), quando utilizados critérios laboratoriais objetivos (TFG e albuminúria).

Essa discrepância demonstra que os dados baseados em autodeclaração tendem a subestimar a magnitude da doença, reforçando a necessidade de rastreamento laboratorial sistemático. Além disso, a associação estatisticamente significativa encontrada em Rio Branco (OR=1,82) confirma que a hipertensão não só é prevalente, mas também contribui diretamente para a progressão da doença renal crônica em idosos. Assim, observa-se que o impacto da HAS sobre a função renal permanece um dos principais desafios da saúde pública brasileira, exigindo políticas de prevenção, diagnóstico precoce e adesão terapêutica.

A grande preocupação reside no fato de que a DRC é uma doença silenciosa em seus estágios iniciais (estágios 1 a 3). Muitos idosos hipertensos possuem uma TFG reduzida ou albuminúria (um marcador precoce de lesão renal), mas são assintomáticos. Essa ausência de sintomas leva ao subdiagnóstico e à perda da janela de oportunidade para intervenções nefroprotetoras, resultando em um diagnóstico tardio, já em fases avançadas da doença.

Estudos nacionais reforçam a magnitude do problema. Nesse sentido, foi identificada alta prevalência de hipertensão mal controlada entre idosos em capitais brasileiras, com taxas preocupantes de não adesão ao tratamento. Esse quadro contribui para o aumento da incidência de complicações renais e cardiovasculares (Souza et al., 2019). Assim, a revisão de literatura aponta que a hipertensão em idosos está frequentemente subdiagnosticada e subtratada, aumentando a chance de evolução para IRC (Vieira; Silva et al, 2021).

A presença de lesões em órgãos-alvo, como proteinúria e hipertrofia ventricular esquerda, é mais comum em hipertensos com doença renal já estabelecida. Essa constatação sugere que a coexistência das duas condições não é apenas prevalente, mas também clinicamente mais grave, exigindo intervenções rápidas e efetivas (Pinho; Oliveira; Pierin, 2015).

Dessa forma, a prevalência da IRC em idosos hipertensos é elevada e crescente, refletindo falhas no diagnóstico precoce, dificuldades de controle pressórico e a interação com outros fatores de risco. Esse panorama confirma que a hipertensão representa o principal determinante modificável na prevenção da progressão da doença renal nesta população

4.3 Efetividade do tratamento anti-hipertensivo em idosos com insuficiência renal

A efetividade do tratamento anti-hipertensivo em idosos com IRC é um tema amplamente discutido, especialmente diante das particularidades dessa população. A adesão ao tratamento é um dos maiores desafios, sendo influenciada por fatores como baixa escolaridade, esquemas terapêuticos complexos e efeitos colaterais (Bonfá, 2016). Estratégias interdisciplinares, com ênfase em acompanhamento multiprofissional e programas contínuos de educação em saúde, são fundamentais para otimizar resultados e reduzir complicações (Pereira, 2015).

Do ponto de vista farmacológico, os inibidores da enzima conversora de angiotensina (IECA) e os bloqueadores dos receptores de angiotensina II (BRA) representam pilares terapêuticos. Ambos reduzem a proteinúria, retardam a progressão da doença renal e conferem proteção cardiovascular (Goldman, 2019). Contudo, em idosos com função renal comprometida, seu uso requer monitoramento rigoroso da taxa de filtração glomerular (TFG) e do potássio sérico, devido ao risco de hiperpotasemia e de deterioração aguda da função renal. Os BRA são alternativas adequadas em casos de intolerância aos IECA, apresentando menor incidência de tosse e angioedema (Costa, 2019).

Os diuréticos têm papel igualmente relevante no controle pressórico e no manejo do volume extracelular. Os tiazídicos (como clortalidona e indapamida) são eficazes nos estágios iniciais da IRC, mas perdem potência quando a TFG cai abaixo de 30 mL/min, com exceção da metolazona, que mantém efeito em TFG reduzida. Já os diuréticos de alça (furosemida, bumetanida, furosemida) são indicados em estágios avançados da doença, promovendo intensa natriurese e controle de edema, embora apresentem risco de hipocalemia, hipomagnesemia e, em altas doses, ototoxicidade. Por outro lado, os diuréticos poupadores de potássio (espironolactona, eplerenona, amilorida) possuem uso restrito na IRC devido ao elevado risco de hiperpotasemia, devendo ser empregados apenas em situações específicas e sob monitoramento frequente.

Outras classes de fármacos também podem ser utilizadas de forma complementar. Os betabloqueadores (metoprolol, carvedilol, bisoprolol) são particularmente úteis quando coexistem insuficiência cardíaca ou doença coronariana, exigindo ajuste posológico em função da TFG. Os alfabloqueadores (doxazosina, prazosina) e vasodilatadores diretos (hidralazina, minoxidil) são geralmente reservados para hipertensão resistente, em associação com outras classes, mas seu uso demanda cautela devido a efeitos adversos como retenção hídrica e taquicardia reflexa. Assim, a seleção do esquema anti-hipertensivo deve ser individualizada, muitas vezes requerendo combinações farmacológicas para atingir metas terapêuticas com segurança, tendo em vista que apesar das evidências, as taxas de controle da pressão arterial em idosos permanecem insatisfatórias, refletindo dificuldades de adesão e limitações no acompanhamento clínico (Souza et al., 2019).

Tabela 2. Combinações Medicamentosas

Fonte: ArtMed

Medidas não farmacológicas complementam a terapia medicamentosa e são indispensáveis para o controle efetivo da pressão arterial. A redução do consumo de sal, o controle do peso corporal, a prática regular de atividade física adaptada e a cessação do tabagismo contribuem de forma significativa para a eficácia do tratamento (Rabelo et al, 2020; Vieira; Silva et al, 2021). Além disso, programas de educação em saúde contínuos reforçam a adesão e aumentam a compreensão dos pacientes sobre a importância do seguimento terapêutico (Machado et al., 2016).

Estudos internacionais reforçam que o controle adequado da pressão arterial em idosos com IRC não apenas melhora o prognóstico renal, mas também reduz os riscos de comprometimento cognitivo e disfunção neurovascular. Isso amplia a relevância das estratégias de tratamento, que devem ser vistas como ferramentas de preservação global da saúde do idoso (Santisteban; Iadecola; Carnevale, 2023).

Apesar dos avanços e da ampla disponibilidade de recursos terapêuticos, as taxas de controle da pressão arterial nessa população ainda permanecem insatisfatórias, refletindo dificuldades de adesão e limitações no acompanhamento clínico. Assim, a efetividade do tratamento anti-hipertensivo em idosos com IRC depende de uma abordagem multifatorial, que associa terapias farmacológicas ajustadas à função renal, medidas não farmacológicas eficazes e apoio multiprofissional sustentado. O desafio central continua sendo garantir adesão, monitoramento contínuo e personalização terapêutica, elementos indispensáveis para reduzir complicações e melhorar a qualidade de vida desses pacientes.

5 CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente estudo buscou analisar o impacto da hipertensão arterial e da insuficiência renal crônica na qualidade de vida e no prognóstico de pacientes idosos, considerando as características clínicas dessas condições, sua prevalência e a efetividade das estratégias de tratamento. A revisão da literatura permitiu identificar que a coexistência dessas enfermidades configura um dos maiores desafios da medicina geriátrica contemporânea, em razão da complexidade clínica, da alta morbimortalidade e da necessidade de acompanhamento contínuo e individualizado.

Em relação às características clínicas, observou-se que a hipertensão em idosos tende a se manifestar como hipertensão sistólica isolada, associada à rigidez arterial própria do envelhecimento, aumentando o risco de lesões em órgãos-alvo. Já a insuficiência renal é marcada pela queda progressiva da taxa de filtração glomerular e pela presença de proteinúria, parâmetros essenciais para a estratificação da gravidade da doença. A associação entre HAS e IRC intensifica complicações cardiovasculares e renais, exigindo monitoramento rigoroso e protocolos terapêuticos específicos.

Quanto à prevalência, verificou-se que a hipertensão constitui um dos principais fatores desencadeadores e aceleradores da doença renal crônica. Estudos demonstram que o controle pressórico inadequado em idosos está diretamente relacionado ao aumento da incidência de insuficiência renal, sendo agravado por fatores como diabetes, obesidade, tabagismo e histórico familiar de doenças cardiovasculares. Tal cenário confirma que a prevenção e o controle da hipertensão são estratégias fundamentais para reduzir a carga de doenças renais nesta população.

No que se refere ao tratamento, a análise mostrou que tanto as terapias farmacológicas quanto às medidas não farmacológicas apresentam eficácia no controle da pressão arterial e na preservação da função renal. Contudo, a adesão dos pacientes idosos permanece como um dos principais obstáculos, influenciada por polifarmácia, efeitos adversos e fatores socioeconômicos. O acompanhamento multiprofissional, com destaque para o papel da equipe e de ações educativas, mostrou-se essencial para ampliar a adesão e garantir melhores resultados clínicos.

O sucesso no manejo depende não apenas da escolha terapêutica, mas também do acompanhamento contínuo, da educação em saúde e da personalização das estratégias conforme o perfil do paciente. Além disso, a ampliação de políticas públicas voltadas ao rastreamento precoce, ao acesso a terapias adequadas e à promoção de estilos de vida saudáveis é indispensável para reduzir os impactos dessas doenças na saúde da população idosa. Assim, a integração entre conhecimento científico, prática clínica e políticas de saúde constitui o caminho mais promissor para enfrentar os desafios impostos pela hipertensão e pela insuficiência renal em idosos, promovendo maior qualidade de vida e melhores perspectivas de sobrevida para essa população.

REFERÊNCIAS

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  1. Discente do Curso Superior de Medicina do Instituto Aparício Carvalho Campus FIMCA e-mail: beatriz.medaguiar@gmail.com;
    1Discente do Curso Superior de Medicina do Instituto Aparício Carvalho Campus FIMCA e-mail: Juliagauer2003@gmail.com;
    1Discente do Curso Superior de Medicina do Instituto Aparício Carvalho Campus FIMCA e-mail: nicollycnb2@gmail.com

  2. Médico Docente do Curso Superior de Medicina do Instituto Aparício Carvalho Campus FIMCA. Mestre em Geriatria (PPGMAD/UNIR). e-mail: michel.hosananh@gmail.com.br

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Copyright (c) 2026 Beatriz Aguiar Medeiros, Julia Gauer Gomides Tavares, Nicolly Cristine Nobre Bredun, Michel Hosananh Vasconcelos (Autor)

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