Resumo: Este artigo apresenta uma análise comparativa do crescimento e desenvolvimento socioeconômico dos municípios de Araguaína e Gurupi, considerados os dois principais polos de desenvolvimento regional do Estado do Tocantins. Fundamentando-se nas teorias de desenvolvimento regional e localização espacial, em especial a Teoria dos Lugares Centrais de Christaller e a Teoria dos Polos de Crescimento de Perroux, o estudo busca identificar os fatores estruturais, locacionais e de políticas públicas que impulsionaram essas cidades à condição de potências econômicas estaduais. A metodologia adota uma abordagem qualitativa e descritiva, apoiada em levantamento bibliográfico e pesquisa documental com dados secundários do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Sistema FIRJAN (Índice FIRJAN de Desenvolvimento Municipal - IFDM e Índice FIRJAN de Gestão Fiscal - IFGF) no período de 2006 a 2016. Os resultados indicam que ambos os municípios registraram desenvolvimento socioeconômico moderado ao longo da década analisada. Araguaína destacou-se com maior dinamismo econômico, alcançando o patamar de alto desenvolvimento nos anos de 2011 a 2013 e registrando um crescimento superior no Produto Interno Bruto (PIB), impulsionado precipuamente pelo setor de serviços e pela expansão industrial. Gurupi apresentou evolução contínua em indicadores de saúde e educação, consolidando-se como entreposto estratégico no sul do Estado. Conclui-se que a localização geográfica ao longo da rodovia BR-153 e a capacidade de oferta de bens e serviços regionais foram determinantes para a consolidação de ambas as cidades como centros dinamizadores do Tocantins.
Palavras-chave: Desenvolvimento econômico; Crescimento econômico; Indicadores socioeconômicos; Polos de desenvolvimento; Tocantins.
Abstract: This article presents a comparative analysis of socioeconomic growth and development in the municipalities of Araguaína and Gurupi, considered the two main regional development poles in the State of Tocantins, Brazil. Based on regional development and spatial location theories, particularly Christaller's Central Place Theory and Perroux's Growth Poles Theory, the study seeks to identify the structural, locational, and public policy factors that drove these cities to become state economic powerhouses. The methodology adopts a qualitative and descriptive approach, supported by a literature review and documentary research using secondary data from the Brazilian Institute of Geography and Statistics (IBGE) and the FIRJAN System (FIRJAN Municipal Development Index - IFDM and FIRJAN Fiscal Management Index IFGF) from 2006 to 2016. The results indicate that both municipalities experienced moderate socioeconomic development over the analyzed decade. Araguaína stood out with greater economic dynamism, reaching high development levels between 2011 and 2013 and recording higher Gross Domestic Product (GDP) growth, driven mainly by the services sector and industrial expansion. Gurupi demonstrated steady progress in health and education indicators, consolidating itself as a strategic hub in the southern region. It is concluded that geographic location along the BR-153 highway and the regional supply of goods and services were decisive in establishing both cities as dynamic regional poles in Tocantins.
Keywords: Economic development; Economic growth; Socioeconomic indicators; Development poles; Tocantins.
1 Introdução
O Estado do Tocantins, criado a partir do texto da Constituição Federal de 1988, estruturou sua dinâmica econômica fortemente voltada para os setores agropecuário e agroindustrial. Integrante da Amazônia Legal e com cerca de 88% de seu território coberto pelo bioma Cerrado, o Estado conta com 139 municípios distribuídos em uma extensão territorial de 277.621 km². No cenário do desenvolvimento regional tocantinense, destacam-se duas cidades de fundamental relevância econômica e administrativa: Araguaína, situada no extremo norte, e Gurupi, localizada no extremo sul do Estado.
Esses dois municípios se consolidaram como verdadeiras potências econômicas regionais e polos de suporte para dezenas de cidades circunvizinhas. A posição estratégica de Araguaína e Gurupi ao longo da rodovia BR-153 (Rodovia Belém-Brasília) permitiu-lhes usufruir de vantagens locacionais, facilidade logística, atração de investimentos e expansão do setor de comércio e serviços.
A escolha das duas cidades para este estudo comparativo se justifica pela relevância do crescimento industrial e comercial que apresentaram ao longo das últimas décadas, além do papel central que desempenham na rede urbana tocantinense. O problema de pesquisa orienta-se pela seguinte questão: quais teorias econômicas auxiliam na compreensão do crescimento e desenvolvimento dessas cidades e de que maneira elas se condicionam como os principais polos socioeconômicos do Estado do Tocantins?
O objetivo geral deste artigo é analisar e comparar a evolução do desenvolvimento socioeconômico dos municípios de Araguaína e Gurupi no período compreendido entre os anos de 2006 e 2016. Para alcançar esse propósito, busca-se contextualizar o processo histórico de formação territorial dessas cidades, discutir os aportes teóricos da economia regional, avaliar os indicadores sintéticos de desenvolvimento e gestão fiscal (IFDM e IFGF/FIRJAN) e comparar o desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) e de suas composições setoriais.
2 Revisão da Literatura
O estudo do desenvolvimento regional exige a diferenciação conceitual entre crescimento econômico e desenvolvimento econômico. Enquanto o crescimento econômico refere-se ao incremento quantitativo da produção de bens e serviços de uma determinada região, mensurado comumente pela variação do Produto Interno Bruto (PIB), o desenvolvimento econômico pressupõe transformações estruturais, elevação da produtividade, avanços tecnológicos e, obrigatoriamente, melhoria na qualidade de vida e nos indicadores sociais da população (Souza, 1999; Oliveira, 2002).
Como ressalta Souza (2005), o crescimento econômico é condição necessária, porém insuficiente, para que haja desenvolvimento econômico, uma vez que a mera expansão da atividade produtiva pode ocorrer de forma concentrada sem beneficiar a sociedade de maneira ampla. Schumpeter (1911) já destacava que o desenvolvimento decorre de inovações e mudanças estruturais capazes de alterar a trajetória do sistema produtivo.
No âmbito da Geografia Econômica e da Economia Regional, teóricos pioneiros da Teoria da Localização, como Von Thünen (1826) e Weber (1909), demonstraram a centralidade dos custos de transporte, da distância dos mercados consumidores e do acesso às matérias-primas na tomada de decisão de localização das atividades produtivas. Weber (1909) destacou que a aglomeração industrial é impulsionada pela busca de minimização dos custos de transporte e de mão de obra, aliada aos fatores locais de atração.
Complementando essa perspectiva, Christaller (1933) formulou a Teoria dos Lugares Centrais, argumentando que o espaço geográfico se organiza de forma hierárquica a partir de centros urbanos (lugares centrais) que ofertam bens e serviços à população de suas respectivas áreas de influência. Quanto menor a oferta de determinado serviço em cidades menores, maior a tendência de deslocamento da população para centros urbanos de maior hierarquia, gerando arranjos espaciais em forma de áreas de mercado.
No tocante aos polos regionais, Perroux (1972) desenvolveu a Teoria dos Polos de Crescimento, conceituando o polo como um centro motor ou aglomerado de indústrias-chave que exercem forças de atração e repulsão (forças centrípetas e centrífugas) sobre seu entorno geoeconômico. Segundo essa formulação, o crescimento não surge de maneira uniforme em todo o espaço, mas se manifesta em pontos ou polos com intensidades variáveis, difundindo seus efeitos multiplicadores sobre a economia regional.
Historicamente, o surgimento e a expansão de Araguaína e Gurupi estão intrinsecamente associados à construção da rodovia BR-153 na década de 1950, durante a execução do Plano de Metas do governo Juscelino Kubitscheck. A abertura da rodovia integrou o norte goiano (atual Tocantins) aos grandes centros nacionais, atraindo migrantes, produtores rurais e comerciantes que viram na região um solo fértil para a agropecuária e a expansão mercantil.
3 Metodologia
Para atender aos objetivos propostos, realizou-se uma pesquisa de natureza aplicada, com abordagem qualitativa e quantitativa dos dados, enquadrando-se quanto aos fins como descritiva e documental (Gil, 2002; Minayo, 1993). A fundamentação teórica baseou-se em revisão bibliográfica de obras clássicas e contemporâneas sobre desenvolvimento regional e teorias de localização.
A coleta de dados secundários fundamentou-se em informações de acesso público provenientes de duas plataformas institucionais de referência: o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Sistema FIRJAN). O recorte temporal selecionado para a análise dos indicadores do IFDM abrange o decênio de 2006 a 2016, intervalo consistente disponibilizado de forma padronizada pelo estudo da FIRJAN.
Foram analisados os seguintes indicadores:
a) Índice FIRJAN de Desenvolvimento Municipal (IFDM): indicador sintético que varia de 0 a 1 e avalia três dimensões fundamentais: Emprego & Renda, Educação e Saúde. A classificação do IFDM obedece às categorias: Baixo (0 a 0,4), Regular (0,4 a 0,6), Moderado (0,6 a 0,8) e Alto Desenvolvimento (0,8 a 1,0).
b) Índice FIRJAN de Gestão Fiscal (IFGF): composto pelos indicadores de Autonomia, Gastos com Pessoal, Liquidez e Investimentos, avaliando o desempenho orçamentário dos municípios no período de 2013 a 2020.
c) Produto Interno Bruto (PIB) Municipal: dados fornecidos pelo IBGE referentes ao valor adicionado bruto da Agropecuária, Indústria, Serviços e Impostos no período de 2006 a 2016.
4 Resultados e Discussão
Nesta seção, apresentam-se os dados socioeconômicos levantados para os municípios de Araguaína e Gurupi, seguidos da análise comparativa das trajetórias de crescimento e gestão municipal.
4.1 Análise Socioeconômica de Araguaína
Localizada no norte do Tocantins, Araguaína destaca-se como a segunda maior cidade do Estado em população e a capital econômica regional, impulsionada pelo forte setor agropecuário e de serviços. A Tabela 1 sintetiza a evolução do IFDM de Araguaína no período de 2006 a 2016.
Tabela 1: Índice FIRJAN de Desenvolvimento Municipal (IFDM) – Consolidado – 2006 a 2016-
Fonte: elaboração própria com dados do IFDM, 2026.
A análise do IFDM consolidado de Araguaína mostra que o município permaneceu em patamar de desenvolvimento moderado entre 2006 e 2010, ascendeu ao nível de Alto Desenvolvimento entre 2011 e 2013 (atingindo o ápice de 0,8160 em 2013) e retornou ao estágio moderado entre 2014 e 2016 devido ao recuo no indicador de Emprego & Renda. No entanto, as dimensões de Educação e Saúde demonstraram constante evolução ascendente, alcançando 0,8109 e 0,8657 em 2016, respectivamente.
Em termos de composição econômica, a Tabela 2 apresenta o comportamento do PIB municipal por setores (em milhares de reais):
Tabela 2: Produto Interno Bruto (PIB) por setores
Fonte: Elaboração própria dos dados do IBGE 2022. - Valores (x 1000) R$
O PIB de Araguaína demonstrou crescimento expressivo, passando de R$1,17 bilhão em 2006 para R$3,79 bilhões em 2016 (aumento superior a 220%). O setor de serviços consolidou-se como o principal gerador de riquezas do município, seguido pelo setor industrial e pela agropecuária.
4.2 Análise Socioeconômica de Gurupi
Gurupi, situada na porção sul tocantinense, figura como o terceiro maior município do Estado. Sua estrutura econômica também se apoia no comércio, prestação de serviços, agropecuária e polo universitário. A Tabela 3 apresenta a evolução do IFDM de Gurupi.
Tabela 3. Índice FIRJAN de Desenvolvimento Municipal (IFDM) – Consolidado – 2006 a 2016- Gurupi/TO.
Fonte: elaboração própria com dados do IFDM, 2026.
Gurupi manteve seu IFDM consolidado na faixa de desenvolvimento moderado ao longo de todo o período, oscilando entre 0,6891 (2006) e 0,7772 (2016). Destaca-se o avanço consistente nos pilares de Saúde (de 0,7236 para 0,8834) e Educação (de 0,6316 para 0,8193), ambos alcançando patamares de Alto Desenvolvimento ao final da série.
A Tabela 4 evidencia a evolução setorial do PIB de Gurupi entre 2006 e 2016 (valores em milhares de reais):
Tabela 4: Evolução setorial do PIB de Gurupi (2006–2016)
Fonte: Elaboração própria dos dados do IBGE 2022. - Valores (x 1000) R$
O PIB de Gurupi expandiu-se de R$742,1 milhões em 2006 para R$2,03 bilhões em 2016, registrando um crescimento de 174%. A exemplo de Araguaína, o setor de serviços constitui o pilar central da economia local, seguido pelas atividades industriais e agropecuárias.
4.3 Comparação Integrada dos Indicadores
Ao comparar os dois municípios, verifica-se que Araguaína manteve uma dianteira contínua quanto
ao volume do PIB e ao dinamismo de atração industrial, confirmando sua condição de polo regional dominante conforme a conceituação de Perroux (1972). Contudo, em termos de bem-estar social refletido nos indicadores de Saúde e Educação do IFDM, ambas as cidades convergiram para patamares elevados de alto desenvolvimento ao final de 2016.
No âmbito do Índice FIRJAN de Gestão Fiscal (IFGF, 2013-2020), ambos os municípios apresentaram médias enquadradas na faixa de Boa Gestão (0,6 a 0,8). Araguaína demonstrou maior controle sobre gastos com pessoal e liquidez orçamentária, ao passo que Gurupi enfrentou maiores oscilações nos gastos com funcionalismo público, compensando com recuperações nos níveis de investimentos a partir de 2018.
5 Conclusão
A análise comparativa entre Araguaína e Gurupi revelou que ambos os municípios exercem papel determinante no desenvolvimento regional do Estado do Tocantins no período de 2006 a 2016. Sustentados teoricamente pelos modelos de Lugares Centrais e Polos de Crescimento, os resultados demonstram que o posicionamento geográfico estratégico ao longo do eixo rodoviário da BR-153 atuou como vetor propulsor para o fortalecimento do comércio, dos serviços e da base industrial.
Araguaína destacou-se por sua maior escala econômica, triplicando seu PIB no decênio analisado e registrando anos de alto desenvolvimento sintético no IFDM. Gurupi apresentou uma trajetória sólida de avanços na infraestrutura social, com índices de saúde e educação em patamares elevados e crescimento constante na atividade de serviços.
Conclui-se que os investimentos contínuos em políticas públicas voltadas à infraestrutura, atração de investimentos e qualificação da mão de obra são cruciais para que esses polos regionais continuem a mitigar disparidades socioeconômicas e a impulsionar o desenvolvimento autossustentado no Estado do Tocantins.
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Professor Doutor, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Tocantins (IFTO) – Campus Palmas. Palmas – TO – Brasil. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-8372-042X ↑
Profa. Dra. do Instituto Federal do Tocantins (IFTO), Universidade Federal do Pará (UFPA) e Universidade Federal do Tocantins (UFT). ORCID: (https://orcid.org/0000-0002-1548-6088) ↑

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