RESUMO
Este artigo analisa as possibilidades de utilização do grafismo indígena como metodologia ativa no contexto da educação intercultural, considerando suas relações com os saberes tradicionais, o território e os processos de aprendizagem. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, de abordagem qualitativa e caráter exploratório, realizada a partir de publicações científicas produzidas entre 2020 e 2026, identificadas em bases e periódicos científicos nacionais e internacionais. A análise das produções selecionadas evidenciou que o grafismo indígena ultrapassa sua dimensão estética e constitui uma importante forma de expressão cultural, relacionada à identidade, à memória, ao pertencimento e à transmissão de conhecimentos entre gerações. Os estudos analisados demonstram maior concentração de experiências nas áreas de Matemática, Etnomatemática e Artes, destacando possibilidades de exploração de padrões, formas, simetrias e outros conhecimentos presentes nas manifestações culturais. Entretanto, os resultados também indicam potencial para abordagens interdisciplinares envolvendo diferentes componentes curriculares. A análise permitiu identificar que o grafismo pode assumir características de metodologia ativa quando utilizado como ponto de partida para processos de problematização, investigação, diálogo com a comunidade, produção e socialização de conhecimentos. Ressalta-se, contudo, a necessidade de evitar abordagens folclorizadas ou descontextualizadas, considerando as especificidades de cada povo e a participação dos sujeitos responsáveis pela transmissão dos conhecimentos culturais. Conclui-se que o grafismo indígena apresenta potencial para contribuir com práticas pedagógicas territorializadas, participativas e interculturais, aproximando os conhecimentos escolares dos saberes produzidos nos territórios indígenas.
Palavras-chave: Grafismo indígena. Metodologias ativas. Educação intercultural. Saberes tradicionais. Território.
ABSTRACT
This article analyzes the possibilities of using Indigenous graphism as an active learning methodology in the context of intercultural education, considering its relationships with traditional knowledge, territory, and learning processes. This is an integrative literature review with a qualitative and exploratory approach, based on scientific publications produced between 2020 and 2026 and identified in national and international scientific databases and journals. The analysis of the selected studies showed that Indigenous graphism goes beyond its aesthetic dimension and constitutes an important form of cultural expression related to identity, memory, belonging, and the intergenerational transmission of knowledge. The studies analyzed show a greater concentration of experiences in Mathematics, Ethnomathematics, and Arts, highlighting possibilities for exploring patterns, shapes, symmetries, and other forms of knowledge present in cultural manifestations. However, the findings also indicate potential for interdisciplinary approaches involving different areas of the curriculum. The analysis demonstrated that graphism can assume characteristics of an active learning methodology when used as a starting point for processes involving problematization, investigation, dialogue with the community, knowledge production, and dissemination. Nevertheless, the study emphasizes the need to avoid folklorized or decontextualized approaches, considering the specificities of each Indigenous people and the participation of those responsible for transmitting cultural knowledge. It is concluded that Indigenous graphism has the potential to contribute to territorialized, participatory, and intercultural pedagogical practices, bringing school knowledge closer to knowledge produced within Indigenous territories.
Keywords: Indigenous graphism. Active learning methodologies. Intercultural education. Traditional knowledge. Territory.
RESUMEN
Este artículo analiza las posibilidades de utilización del grafismo indígena como metodología activa en el contexto de la educación intercultural, considerando sus relaciones con los saberes tradicionales, el territorio y los procesos de aprendizaje. Se trata de una revisión integrativa de la literatura, de enfoque cualitativo y carácter exploratorio, realizada a partir de publicaciones científicas producidas entre 2020 y 2026 e identificadas en bases de datos y revistas científicas nacionales e internacionales. El análisis de los estudios seleccionados evidenció que el grafismo indígena trasciende su dimensión estética y constituye una importante forma de expresión cultural relacionada con la identidad, la memoria, el sentido de pertenencia y la transmisión intergeneracional de conocimientos. Los estudios analizados presentan una mayor concentración de experiencias en las áreas de Matemáticas, Etnomatemática y Artes, destacando posibilidades de exploración de patrones, formas, simetrías y otros conocimientos presentes en las manifestaciones culturales. Sin embargo, los resultados también indican potencial para enfoques interdisciplinarios que involucren diferentes componentes curriculares. El análisis permitió identificar que el grafismo puede asumir características de metodología activa cuando se utiliza como punto de partida para procesos de problematización, investigación, diálogo con la comunidad, producción y socialización de conocimientos. No obstante, se destaca la necesidad de evitar enfoques folclorizados o descontextualizados, considerando las especificidades de cada pueblo indígena y la participación de los sujetos responsables de la transmisión de los conocimientos culturales. Se concluye que el grafismo indígena presenta potencial para contribuir al desarrollo de prácticas pedagógicas territorializadas, participativas e interculturales, aproximando los conocimientos escolares a los saberes producidos en los territorios indígenas.
Palabras clave: Grafismo indígena. Metodologías activas. Educación intercultural. Saberes tradicionales. Territorio.
INTRODUÇÃO
A educação escolar indígena constitui um espaço de encontro entre diferentes formas de produzir, transmitir e significar conhecimentos. Nesse contexto, a construção de práticas pedagógicas interculturais exige superar abordagens homogeneizadoras e reconhecer as especificidades culturais dos estudantes e de suas comunidades. Estudos sobre a educação de estudantes indígenas na região Norte apontam que currículos pouco contextualizados, a insuficiente formação docente e a ausência de materiais pedagógicos adequados ainda constituem obstáculos para a construção de práticas educacionais culturalmente sensíveis (SOUZA, et al, 2025).
Entre as diferentes manifestações culturais indígenas, o grafismo apresenta particular potencial educativo. Presente em pinturas corporais, cestarias, cerâmicas, tecidos e outros artefatos, constitui uma forma de expressão relacionada à identidade, à memória, ao território e aos processos de transmissão de conhecimentos. Entretanto, sua utilização no contexto escolar não deve restringir-se à reprodução de desenhos ou à ornamentação de atividades. O grafismo pode ser compreendido como uma manifestação cultural que possibilita investigar diferentes conhecimentos e estabelecer relações entre saberes tradicionais e conhecimentos escolares.
Estudos recentes demonstram essa potencialidade, especialmente nas áreas de Matemática, Artes e Etnomatemática. Nery (2025) identifica a presença de padrões geométricos em diferentes grafismos e artefatos indígenas, enquanto Souza, Padilha e Lopes (2025) evidenciam possibilidades de articulação entre grafismos, trançados e ensino de geometria. Experiências realizadas em Manaus também demonstram que o trabalho com grafismos pode aproximar conhecimentos matemáticos dos saberes ancestrais e das experiências culturais dos estudantes (SANTOS; LORENZONI; BASÍLIO, 2025).
Essa perspectiva pode ser aproximada do campo das metodologias ativas, compreendidas como abordagens que valorizam a participação, a investigação, a colaboração, a problematização e a produção do conhecimento pelos estudantes. Freire, Almeida e Matias (2025) destacam que a articulação entre metodologias ativas e educação intercultural pode favorecer práticas pedagógicas mais participativas e significativas diante da diversidade sociocultural presente na escola. Assim, o grafismo pode ultrapassar a condição de recurso didático e constituir o ponto de partida para processos investigativos nos quais os estudantes observam, questionam, pesquisam, dialogam com membros da comunidade, sistematizam informações e produzem conhecimentos.
Apesar dessas possibilidades, observa-se uma lacuna na produção científica: embora existam estudos sobre grafismo indígena e ensino de Matemática, Artes, Etnomatemática e educação intercultural, ainda são reduzidas as pesquisas que articulam essas dimensões para discutir o grafismo como metodologia ativa, interdisciplinar e territorializada. Essa lacuna é particularmente relevante no contexto amazônico, marcado pela diversidade de povos, territórios, línguas e sistemas próprios de produção e transmissão de conhecimentos.
Diante desse cenário, este estudo busca responder à seguinte questão: de que maneira o grafismo indígena pode ser compreendido e utilizado como metodologia ativa para favorecer aprendizagens contextualizadas, protagonismo estudantil e valorização dos saberes tradicionais?
O objetivo é analisar, a partir da literatura científica recente, as possibilidades de utilização do grafismo indígena como metodologia ativa na educação escolar, considerando suas contribuições para a aprendizagem, o protagonismo estudantil, a interdisciplinaridade e a valorização dos conhecimentos tradicionais. Especificamente, pretende-se discutir as relações entre grafismo, cultura e produção de conhecimentos; identificar experiências pedagógicas que utilizam grafismos indígenas; e analisar suas possibilidades e desafios como estratégia pedagógica intercultural.
Parte-se, portanto, do entendimento de que trabalhar com grafismos indígenas não significa apenas utilizar uma manifestação cultural para ensinar determinado conteúdo, mas criar condições para que os estudantes investiguem os conhecimentos associados a essa prática e estabeleçam relações entre território, cultura e currículo. Nessa perspectiva, o grafismo pode constituir uma possibilidade de construção de práticas educativas mais participativas, contextualizadas e interculturais.
METODOLOGIA
Este estudo caracteriza-se como uma revisão integrativa da literatura, de abordagem qualitativa e natureza exploratória, desenvolvida com o propósito de identificar, analisar e sistematizar produções científicas relacionadas ao uso de grafismos indígenas no contexto educacional, com atenção especial às suas relações com metodologias ativas, educação intercultural, saberes tradicionais e práticas pedagógicas contextualizadas. A escolha pela revisão integrativa justifica-se pela possibilidade de reunir diferentes tipos de estudos e experiências, permitindo uma compreensão abrangente do conhecimento produzido sobre a temática.
A busca bibliográfica foi orientada pela seguinte questão: quais são as contribuições e possibilidades do uso de grafismos indígenas como estratégia pedagógica e metodologia ativa no contexto escolar? Para a identificação das produções, foram considerados estudos publicados entre 2020 e 2026, período definido com o objetivo de privilegiar discussões recentes sobre educação intercultural, práticas pedagógicas contextualizadas e metodologias ativas.
As buscas foram realizadas nas bases SciELO, Portal de Periódicos CAPES, Google Scholar e periódicos científicos nacionais, utilizando combinações dos seguintes descritores e operadores booleanos: “grafismo indígena” e educação; “grafismo indígena” e ensino; “grafismo indígena” e “metodologia ativa”; “grafismo indígena” e etnomatemática; “grafismo indígena” e interculturalidade; “grafismo indígena” e aprendizagem; e “grafismo” e “saberes tradicionais” e escola. Também foram consideradas referências identificadas nas listas bibliográficas dos estudos selecionados, quando apresentavam pertinência direta com o objeto investigado.
Foram estabelecidos como critérios de inclusão: a) artigos científicos, trabalhos completos publicados em eventos científicos, dissertações e teses disponíveis em texto completo; b) publicações em português, espanhol ou inglês; c) estudos publicados entre 2020 e 2026; d) trabalhos que abordassem diretamente grafismos indígenas, práticas educativas, ensino, aprendizagem, educação intercultural, Etnomatemática ou metodologias pedagógicas relacionadas aos conhecimentos indígenas; e) estudos que apresentassem contribuições teóricas ou experiências educacionais pertinentes ao problema de pesquisa.
Foram excluídos: a) trabalhos duplicados; b) publicações sem relação direta com educação ou processos de ensino e aprendizagem; c) estudos que mencionassem grafismos indígenas apenas de maneira secundária; d) textos sem acesso ao conteúdo necessário para análise; e) produções exclusivamente voltadas à descrição estética ou antropológica dos grafismos, sem relação com o campo educacional.
A seleção dos estudos ocorreu inicialmente pela leitura dos títulos e resumos, seguida da leitura integral dos trabalhos considerados potencialmente relevantes. Posteriormente, os estudos selecionados foram organizados em uma matriz de análise contendo informações referentes a autor(es), ano de publicação, tipo de estudo, contexto educacional, povo ou território envolvido, área do conhecimento, abordagem pedagógica, principais resultados e contribuições para a utilização dos grafismos no processo educativo.
Para a análise do material selecionado, adotou-se uma perspectiva de análise temática, buscando identificar recorrências, aproximações e lacunas presentes na produção científica. Os estudos foram posteriormente agrupados em categorias analíticas construídas a partir dos objetivos da pesquisa: a) grafismo, identidade e saberes tradicionais; b) grafismo e educação intercultural; c) grafismo e Etnomatemática/Matemática; d) grafismo e práticas pedagógicas ativas; e) possibilidades interdisciplinares e territorializadas.
A análise não teve como finalidade apenas quantificar as publicações encontradas, mas compreender como a literatura tem concebido o grafismo indígena no campo educacional, quais estratégias pedagógicas têm sido desenvolvidas, quais aprendizagens são favorecidas e quais desafios permanecem. Dessa forma, buscou-se identificar elementos que permitam discutir a passagem do grafismo de uma utilização predominantemente ilustrativa ou artística para uma abordagem em que ele possa atuar como ponto de partida para investigação, problematização, colaboração, produção de conhecimentos e protagonismo estudantil.
Por se tratar de pesquisa de natureza bibliográfica, baseada exclusivamente em produções científicas disponíveis publicamente, não houve participação direta de seres humanos ou coleta de dados primários. A análise foi conduzida com atenção à fidelidade das informações apresentadas nos estudos originais e à adequada identificação das fontes utilizadas.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise da produção científica selecionada evidencia que o uso de grafismos indígenas no contexto educacional vem sendo abordado principalmente a partir de quatro perspectivas: valorização dos saberes tradicionais e da identidade cultural; educação intercultural; articulação com a Etnomatemática e outros componentes curriculares; e desenvolvimento de práticas pedagógicas participativas. Embora ainda seja reduzido o número de estudos que utilizem explicitamente a expressão “grafismo como metodologia ativa”, as experiências identificadas apresentam características associadas à participação, investigação, colaboração, produção e protagonismo dos estudantes.
Grafismo indígena, identidade e saberes tradicionais
Os estudos analisados evidenciam que o grafismo não pode ser compreendido apenas como representação visual ou manifestação artística. Sua produção está relacionada a conhecimentos construídos historicamente pelos povos indígenas e transmitidos por diferentes gerações, estabelecendo relações com identidade, território, memória e pertencimento.
Apalai e Barreiros (2018), destacam o grafismo Aparai como elemento relacionado à produção artesanal e à transmissão de conhecimentos entre gerações, demonstrando que sua utilização no ensino de Arte pode contribuir para a valorização do patrimônio cultural indígena. Nessa perspectiva, o processo educativo não se limita à aprendizagem de técnicas de desenho, mas envolve a compreensão dos significados associados às produções culturais.
Essa dimensão também aparece em pesquisas que relacionam grafismos, trançados e conhecimentos tradicionais. Souza, Padilha e Lopes (2025) demonstram que práticas culturais presentes nas comunidades podem constituir referências para a construção de conhecimentos escolares, particularmente no ensino de geometria. A aproximação entre os saberes tradicionais e o currículo permite, nesse sentido, reconhecer que determinados conhecimentos matemáticos podem estar presentes em práticas culturais antes mesmo de serem sistematizados pela escola.
A valorização dos saberes tradicionais apresenta ainda uma dimensão política. Ao reconhecer as práticas culturais indígenas como formas legítimas de produção de conhecimento, a escola contribui para questionar uma concepção hierarquizada que historicamente atribuiu maior legitimidade aos conhecimentos científicos e escolares em detrimento dos conhecimentos produzidos nos territórios.
Dessa maneira, o trabalho pedagógico com grafismos pode contribuir para fortalecer o sentimento de pertencimento dos estudantes e ampliar a compreensão de que seus territórios e suas comunidades também constituem espaços de aprendizagem.
Grafismo e educação intercultural
Outra dimensão recorrente na literatura refere-se à relação entre grafismo e educação intercultural. Nesse campo, a utilização de manifestações culturais indígenas precisa superar abordagens superficiais, nas quais elementos da cultura são incorporados ao currículo sem considerar seus significados e os sujeitos responsáveis por sua transmissão.
Oliveira e Almeida (2023), ao investigarem práticas pedagógicas relacionadas à temática indígena, identificaram a permanência de estereótipos e limitações na abordagem escolar das culturas indígenas. Os autores demonstram, entretanto, que experiências interculturais podem contribuir para modificar essas representações, especialmente quando possibilitam contato com diferentes perspectivas e formas de conhecimento.
Esse aspecto é fundamental para a utilização dos grafismos. A escola não deve simplesmente apresentar imagens de diferentes povos indígenas e solicitar que os estudantes as reproduzam. Uma proposta efetivamente intercultural precisa problematizar a origem, os significados e os contextos de utilização de cada grafismo.
Essa preocupação é reforçada por Wenczenovicz e Monteiro (2024), que destacam a importância das pedagogias ancestrais e dos processos próprios de aprendizagem no contexto das escolas indígenas. A educação intercultural, nessa perspectiva, pressupõe o reconhecimento das especificidades culturais e linguísticas dos povos e a construção de práticas educativas que estabeleçam diálogo entre diferentes formas de conhecimento.
Assim, o grafismo pode constituir um importante mediador intercultural quando utilizado para promover o diálogo entre escola, estudantes e comunidade. A atividade pedagógica pode partir de um grafismo presente no território, mas avançar para a investigação de sua história, seus significados, seus usos e das pessoas responsáveis pela sua transmissão. Essa mudança é significativa porque desloca o foco da reprodução do grafismo para a compreensão do conhecimento associado ao grafismo.
Grafismo e Etnomatemática: do objeto cultural ao conhecimento escolar
Entre as áreas investigadas, a Matemática apresenta um número expressivo de experiências relacionadas aos grafismos indígenas. A aproximação ocorre principalmente por meio da Etnomatemática, possibilitando reconhecer conhecimentos matemáticos presentes em diferentes práticas culturais.
Nery (2025) identifica padrões geométricos em cestarias, pulseiras, cuias, cerâmicas, esculturas e pinturas corporais, demonstrando que essas manifestações podem ser utilizadas como elementos de articulação entre conhecimentos culturais e conteúdos matemáticos. Essa abordagem amplia a compreensão de Matemática ao demonstrar que ideias relacionadas a formas, padrões, simetrias e organização espacial também estão presentes em práticas desenvolvidas fora do ambiente escolar.
Souza, Padilha e Lopes (2025) apresentam resultados semelhantes ao discutir os saberes tradicionais relacionados aos grafismos e trançados e suas possibilidades para o ensino de geometria. A utilização desses elementos permite aproximar conceitos abstratos de situações concretas e culturalmente situadas, favorecendo uma aprendizagem contextualizada.
Experiência desenvolvida em Manaus por Santos, Lorenzoni e Basílio (2025) reforça essa possibilidade ao articular grafismos indígenas e Matemática com estudantes da Educação de Jovens e Adultos. A presença de um indígena, artista e praticante do grafismo possibilitou a aproximação entre os conhecimentos ancestrais e os conteúdos matemáticos, contribuindo para ampliar a percepção dos estudantes acerca das relações entre Matemática, cultura e cotidiano.
Essas experiências apresentam uma característica importante para a discussão das metodologias ativas: o conteúdo escolar deixa de ser apresentado exclusivamente de forma abstrata e passa a ser investigado a partir de uma situação cultural concreta.
Nesse processo, os estudantes podem observar padrões, formular hipóteses, identificar regularidades, comparar formas, construir representações e discutir os significados culturais das produções. A aprendizagem ocorre, portanto, por meio da ação e da investigação.
Entretanto, é necessário estabelecer uma ressalva. A utilização de grafismos apenas para ensinar conceitos matemáticos pode resultar em uma nova forma de instrumentalização da cultura. O desafio consiste em construir uma abordagem na qual o conhecimento matemático seja trabalhado em diálogo com o significado cultural do grafismo, e não em substituição a ele.
Do recurso didático à metodologia ativa
Os estudos analisados permitem identificar uma importante possibilidade de deslocamento conceitual: o grafismo pode deixar de ser compreendido apenas como recurso didático e passar a constituir um elemento organizador do processo de aprendizagem.
Essa distinção é fundamental. Um recurso didático é utilizado pelo professor para auxiliar na apresentação ou compreensão de determinado conteúdo. Uma metodologia, por outro lado, envolve a organização do processo educativo e define como os estudantes irão participar da construção do conhecimento.
Quando o professor apresenta um grafismo e solicita apenas sua reprodução, temos predominantemente uma atividade de execução. Quando, entretanto, os estudantes são convidados a investigar sua origem, entrevistar conhecedores da comunidade, registrar informações, analisar seus padrões, discutir seus significados e produzir conhecimentos a partir da investigação, ocorre uma mudança metodológica.
Freire, Almeida e Matias (2025) destacam que metodologias ativas articuladas à educação intercultural podem favorecer autonomia, participação e aprendizagens significativas. Essa perspectiva permite interpretar as experiências com grafismos sob uma nova dimensão: o potencial metodológico não está necessariamente no grafismo em si, mas na forma como ele é incorporado ao processo educativo.
Nesse sentido, pode-se estabelecer uma sequência pedagógica baseada em cinco movimentos:
problematizar → investigar → dialogar → produzir → socializar.
Na problematização, os estudantes entram em contato com o grafismo e formulam questões. Na investigação, buscam informações sobre sua origem e seus significados. No diálogo, estabelecem relações com os conhecimentos dos membros da comunidade. Na produção, sistematizam e representam os conhecimentos construídos. Por fim, na socialização, compartilham os resultados com os demais estudantes e com a comunidade.
Essa dinâmica apresenta características próprias das metodologias ativas, pois desloca o estudante da condição de receptor para a posição de participante e produtor do conhecimento.
Protagonismo estudantil e aprendizagem contextualizada
Outro aspecto identificado na literatura é a possibilidade de utilização dos grafismos para favorecer maior aproximação entre o currículo escolar e as experiências dos estudantes.
Quando o objeto de estudo está relacionado ao território ou às práticas culturais da comunidade, os estudantes podem mobilizar conhecimentos prévios e experiências familiares. Essa aproximação pode favorecer maior significado aos conteúdos escolares, uma vez que o processo de aprendizagem parte de situações concretas.
Experiências como as relatadas por Alves et al. (2024) e Santos, Lorenzoni e Basílio (2025) demonstram que a aproximação entre grafismos, cultura e conteúdos escolares pode criar situações de aprendizagem nas quais os estudantes estabelecem relações entre conhecimentos que anteriormente poderiam ser percebidos como separados.
Esse movimento também favorece o protagonismo estudantil. O estudante pode assumir diferentes papéis durante o processo: pesquisador, entrevistador, observador, produtor, artista, sistematizador e apresentador. A aprendizagem deixa de ocorrer exclusivamente na sala de aula e passa a envolver outros espaços educativos, especialmente o território e a comunidade.
Nesse sentido, o grafismo pode contribuir para uma concepção ampliada de espaço escolar. A comunidade deixa de ser apenas objeto de estudo e passa a atuar como espaço de produção e circulação de conhecimentos.
Interdisciplinaridade e territorialização das práticas pedagógicas
A literatura também permite identificar que o trabalho com grafismos apresenta potencial para superar a fragmentação curricular. Embora Matemática e Artes sejam as áreas mais recorrentes, os conhecimentos associados aos grafismos podem estabelecer relações com História, Geografia, Língua Portuguesa, Ciências da Natureza e Educação Ambiental.
Em Matemática, podem ser explorados padrões, formas, simetrias e relações espaciais. Em Artes, processos de criação, composição e técnicas. Em História, memória e ancestralidade. Em Geografia, território e territorialidade. Em Língua Portuguesa, entrevistas, narrativas e registros de conhecimentos. Em Ciências, podem ser investigados pigmentos naturais, plantas utilizadas na produção de tintas e relações entre cultura e ambiente. Essa característica permite compreender o grafismo como possibilidade de construção de projetos interdisciplinares territorializados.
A territorialização é especialmente importante porque impede que a prática pedagógica seja construída exclusivamente a partir de exemplos externos à realidade dos estudantes. O ponto de partida pode ser um grafismo efetivamente utilizado pela comunidade, investigado junto aos seus conhecedores e posteriormente relacionado aos conteúdos curriculares.
Assim, o território assume função pedagógica e epistemológica. Ele não constitui apenas o espaço onde a escola está localizada, mas uma fonte de conhecimentos que pode participar ativamente do processo educativo.
Limites e desafios identificados na literatura
Apesar das possibilidades apontadas, os estudos também permitem identificar desafios. O primeiro refere-se ao risco de folclorização das culturas indígenas. A reprodução de grafismos sem contextualização pode reforçar estereótipos e reduzir manifestações culturais complexas a atividades decorativas.
Outro desafio refere-se à necessidade de adequação das práticas pedagógicas às especificidades culturais dos diferentes povos indígenas. Pesquisas sobre a educação indígena na região Norte como de Souza, et al, (2025) evidenciam que a utilização de currículos homogêneos e a ausência de materiais pedagógicos contextualizados podem dificultar processos educativos que respeitem a diversidade cultural e fortaleçam a identidade e o pertencimento dos estudantes. No caso dos grafismos, essa preocupação é ainda mais relevante, uma vez que seus significados, formas de produção e contextos de utilização variam entre os diferentes povos.
Também se destaca a necessidade de participação dos detentores dos conhecimentos. A escola deve estabelecer diálogo com anciãos, artesãos, artistas, professores indígenas, lideranças e demais sujeitos reconhecidos pela comunidade como conhecedores das práticas culturais. Outro limite diz respeito à formação docente. A utilização pedagógica dos grafismos requer professores preparados para trabalhar com diversidade cultural e epistemológica, evitando tanto a apropriação indevida quanto a simplificação dos conhecimentos tradicionais.
Por fim, a literatura revela uma lacuna metodológica. São encontradas diversas experiências e propostas pedagógicas, mas ainda são poucos os estudos que avaliam sistematicamente os efeitos dessas práticas sobre a aprendizagem, o protagonismo dos estudantes e o desenvolvimento de competências interdisciplinares.
Síntese dos achados e a emergência de uma nova perspectiva
A análise da literatura permite sustentar que o grafismo indígena possui potencial para atuar em três níveis articulados: como expressão cultural, como fonte de conhecimentos e como elemento organizador de práticas pedagógicas ativas.
Como expressão cultural, contribui para trabalhar identidade, memória, território e pertencimento. Como fonte de conhecimentos, possibilita estabelecer relações entre saberes tradicionais e diferentes áreas do currículo. Como elemento metodológico, pode organizar processos de investigação, diálogo, produção e socialização.
A principal contribuição dessa perspectiva consiste em superar uma utilização meramente ilustrativa dos grafismos. O foco deixa de estar exclusivamente no produto final, o desenho ou a pintura e passa para o processo de aprendizagem construído em torno dele.
Dessa forma, o grafismo pode ser compreendido como metodologia ativa territorializada quando o seu uso pedagógico envolve participação dos estudantes, investigação da realidade, diálogo com os conhecimentos comunitários, interdisciplinaridade e produção coletiva.
Entretanto, a literatura também demonstra que essa possibilidade ainda necessita de maior fundamentação empírica. São necessárias pesquisas que investiguem diferentes povos e territórios, especialmente na Amazônia, bem como estudos que acompanhem os processos de aprendizagem decorrentes dessas práticas.
Nesse sentido, a principal lacuna identificada não está na ausência de experiências com grafismos, mas na insuficiência de estudos que sistematizem essas experiências a partir do referencial das metodologias ativas. Essa constatação reforça a pertinência de discutir o grafismo como uma possibilidade metodológica capaz de articular cultura, território, currículo e protagonismo estudantil.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presente revisão de literatura permitiu analisar as possibilidades de utilização do grafismo indígena como metodologia ativa no contexto educacional, evidenciando que essa manifestação cultural ultrapassa sua dimensão estética e pode constituir importante elemento de articulação entre cultura, território, conhecimentos tradicionais e currículo escolar. Os estudos analisados demonstram que grafismos, pinturas, cestarias e outros elementos visuais podem favorecer experiências de aprendizagem contextualizadas, especialmente quando seus significados culturais são preservados e considerados no desenvolvimento das práticas pedagógicas.
Os resultados indicam que as experiências mais consolidadas concentram-se nas áreas de Matemática, Etnomatemática e Artes, com destaque para o trabalho com geometria, simetria, padrões, formas e processos de criação artística. Entretanto, a análise também evidencia possibilidades de ampliação para outras áreas do conhecimento, especialmente quando o grafismo é tomado como ponto de partida para processos investigativos e interdisciplinares.
A principal contribuição desta revisão está na compreensão de que o grafismo pode ultrapassar a condição de recurso didático e assumir uma função metodológica. Isso ocorre quando sua utilização envolve problematização, investigação, diálogo com os conhecimentos comunitários, produção coletiva e socialização dos resultados. Nessa perspectiva, os estudantes deixam de ocupar uma posição predominantemente receptiva e passam a participar ativamente da construção do conhecimento, assumindo funções de pesquisadores, produtores e sistematizadores de saberes.
A articulação entre grafismo e metodologias ativas também apresenta potencial para fortalecer uma educação intercultural. Contudo, essa utilização exige cuidados éticos e epistemológicos. Os grafismos não devem ser tratados como elementos genéricos da “cultura indígena”, pois cada povo possui sistemas próprios de representação, significados, contextos de utilização e formas de transmissão. Dessa maneira, a prática pedagógica deve evitar a folclorização, a reprodução descontextualizada e a apropriação indevida dos conhecimentos culturais.
Outro aspecto relevante refere-se à participação das comunidades. A utilização pedagógica dos grafismos tende a ser mais consistente quando construída em diálogo com anciãos, artistas, artesãos, professores indígenas, lideranças e demais sujeitos reconhecidos pela comunidade como detentores desses conhecimentos. Essa aproximação contribui para que a escola não apenas ensine sobre os povos indígenas, mas estabeleça relações de aprendizagem com os conhecimentos produzidos nos próprios territórios.
Apesar dos avanços identificados, a literatura ainda apresenta uma lacuna importante. São relativamente poucos os estudos que analisam explicitamente o grafismo como metodologia ativa, sobretudo em uma perspectiva interdisciplinar e territorializada. A maior parte das pesquisas concentra-se em experiências específicas relacionadas à Matemática, Artes ou Etnomatemática. Assim, permanece a necessidade de ampliar as investigações sobre como essas práticas podem contribuir para diferentes dimensões da aprendizagem e para a transformação das relações entre escola, currículo e território.
Como perspectivas para pesquisas futuras, recomenda-se o desenvolvimento de estudos empíricos que acompanhem a aplicação de metodologias baseadas em grafismos em diferentes etapas da Educação Básica e da Educação Escolar Indígena. Também são necessários estudos comparativos entre diferentes povos, considerando suas especificidades culturais e territoriais, evitando generalizações sobre os significados e usos dos grafismos.
Outra possibilidade consiste em investigar a utilização dos grafismos no ensino de componentes curriculares ainda pouco explorados pela literatura, como Ciências da Natureza, Biologia, Geografia, História, Língua Portuguesa e Educação Ambiental. Pesquisas nessa direção podem contribuir para ampliar a compreensão do potencial interdisciplinar dos grafismos e fortalecer propostas curriculares contextualizadas.
Recomenda-se, ainda, investigar a utilização de tecnologias digitais na documentação, sistematização e socialização dos conhecimentos relacionados aos grafismos, incluindo a produção de acervos digitais, jogos educativos, mapas culturais, materiais audiovisuais e recursos didáticos construídos com participação das comunidades. Essas pesquisas devem considerar, entretanto, questões relacionadas à autorização, propriedade intelectual, proteção dos conhecimentos tradicionais e controle comunitário sobre sua divulgação.
Outra frente relevante refere-se à formação inicial e continuada de professores. Estudos futuros podem investigar quais conhecimentos e competências são necessários para que os docentes desenvolvam práticas pedagógicas com grafismos de maneira intercultural, ética e metodologicamente consistente. Também podem ser analisadas experiências de formação construídas conjuntamente entre universidades, escolas e comunidades indígenas.
Por fim, recomenda-se a realização de pesquisas longitudinais que avaliem os efeitos dessas práticas sobre aprendizagem, protagonismo estudantil, identidade cultural, pertencimento territorial e participação comunitária. Tais investigações poderão fornecer evidências mais consistentes sobre os resultados educacionais do uso dos grafismos e contribuir para superar uma lacuna ainda presente na literatura.
Conclui-se, portanto, que o grafismo indígena apresenta potencial para constituir uma metodologia ativa territorializada, desde que sua utilização esteja fundamentada no diálogo intercultural, no respeito aos conhecimentos tradicionais e na participação dos sujeitos e comunidades que os produzem e preservam. Mais do que um recurso para ilustrar conteúdos escolares, o grafismo pode contribuir para construir experiências educativas nas quais cultura, território, conhecimento e aprendizagem estejam articulados. O avanço dessa perspectiva depende, contudo, da ampliação de pesquisas empíricas e da construção de práticas pedagógicas que reconheçam os povos indígenas não apenas como objetos de estudo, mas como sujeitos e produtores legítimos de conhecimentos.
Como perspectivas para pesquisas futuras, recomenda-se o desenvolvimento de estudos empíricos que acompanhem a aplicação de metodologias baseadas em grafismos em diferentes etapas da Educação Básica e da Educação Escolar Indígena, assim como investigações comparativas entre distintos povos que considerem suas especificidades culturais e territoriais, evitando generalizações sobre os significados e usos dos grafismos. Outra possibilidade consiste em ampliar o escopo disciplinar, explorando a utilização dos grafismos no ensino de componentes curriculares ainda pouco abordados pela literatura, tais como Ciências da Natureza, Biologia, Geografia, História, Língua Portuguesa e Educação Ambiental, o que poderá fortalecer a compreensão do potencial interdisciplinar dessas manifestações culturais.
Ademais, sugere-se investigar o uso de tecnologias digitais para documentação, sistematização e socialização dos conhecimentos relacionados aos grafismos, contemplando a produção de acervos digitais, jogos educativos, mapas culturais, materiais audiovisuais e recursos didáticos construídos com participação comunitária, sempre atentando para questões de autorização, propriedade intelectual, proteção dos conhecimentos tradicionais e controle comunitário sobre sua divulgação. No âmbito da formação docente, revela-se necessário investigar quais conhecimentos e competências são fundamentais para que os professores desenvolvam práticas pedagógicas com grafismos de maneira intercultural, ética e metodologicamente consistente, bem como analisar experiências formativas construídas colaborativamente entre universidades, escolas e comunidades indígenas.
Por fim, recomenda-se a realização de pesquisas longitudinais que avaliem os efeitos dessas práticas sobre a aprendizagem, o protagonismo estudantil, a identidade cultural, o pertencimento territorial e a participação comunitária, de modo a fornecer evidências mais robustas sobre os resultados educacionais do uso dos grafismos e contribuir para a superação das lacunas ainda presentes na literatura.
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Doutoranda em Ciências da Educação, Universidad de la Integración de Las Américas (UNIDA), Asunción, Paraguay. E-mail: gracyfr@gmail.com ↑
Doutoranda em Ciências da Educação, Universidad de la Integración de Las Américas (UNIDA), Asunción, Paraguay. E-mail: geane36barbosa@gmail.com ↑
Doutorando em Ciências da Educação, Universidad de la Integración de Las Américas (UNIDA), Asunción, Paraguay. E-mail: jhonesmeninas@hotmail.com ↑
Doutoranda em Ciências da Educação - Universidad de lá Integración de Las Américas (UNIDA), Asunción, Paraguay. E-mail: norma.smelo2014@gmail.com ↑
Doutoranda em Ciências da Educação, Universidad de la Integración de Las Américas (UNIDA), Asunción, Paraguay. E-mail: lkussler@yahoo.com.br ↑
Mestre em Ciências da Educação, Universidad de La Integración de Las Américas (UNIDA), Asunción, Paraguay. E-mail:p psipsi08@gmail.com ↑
Doutoranda em Ciências da Educação Universidad de La Integración de Las Américas (UNIDA) Asunción, Paraguay. E-mail: cardoso.socorro@gmail.com ↑
Doutor em Ciências da Educação, Universidad de la Integración de Las Américas (UNIDA), Asunción, Paraguay. E-mail: atilabio@hotmail.com ↑

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