RESUMO
A coordenação de cursos técnicos constitui uma função estratégica para o funcionamento das instituições de Educação Profissional e Tecnológica (EPT), especialmente em áreas de elevada demanda profissional, como Administração, Logística, Contabilidade e Informática. O coordenador de curso atua na articulação entre estudantes, professores, gestão institucional, currículo e mundo do trabalho, acumulando atribuições pedagógicas, administrativas e relacionais. Nesse contexto, este artigo tem como objetivo analisar as principais fragilidades e desafios enfrentados pelos coordenadores de cursos técnicos das áreas de Gestão e Informática, considerando as especificidades da Educação Profissional e Tecnológica brasileira. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de caráter bibliográfico e documental, fundamentada em estudos publicados predominantemente entre 2022 e 2026, além de documentos normativos e institucionais relacionados à EPT. A análise indica que as principais fragilidades estão relacionadas à insuficiência de formação específica para a função de coordenação, à sobreposição entre atividades pedagógicas e administrativas, às dificuldades de liderança e comunicação, à necessidade de atualização permanente diante das transformações tecnológicas e do mercado de trabalho, à gestão de conflitos, ao acompanhamento dos indicadores acadêmicos e à articulação com empresas e demais atores externos. Identifica-se ainda que as características dos cursos de Gestão e Informática exigem dos coordenadores competências multidimensionais, que ultrapassam o domínio técnico de sua área de formação. Conclui-se que o fortalecimento da coordenação de cursos técnicos depende da profissionalização da função, da formação continuada, da definição clara de atribuições, da disponibilidade de tempo institucional e do desenvolvimento de instrumentos de planejamento, acompanhamento e avaliação.
Palavras-chave: Educação Profissional e Tecnológica. Coordenação de Curso. Gestão Educacional. Cursos Técnicos. Administração. Logística. Contabilidade. Informática.
ABSTRACT
The coordination of technical courses constitutes a strategic function for the operation of Vocational and Technological Education institutions, especially in areas of high professional demand such as Administration, Logistics, Accounting, and Information Technology. Course coordinators work as articulators among students, teachers, institutional management, curriculum, and the labor market, accumulating pedagogical, administrative, and relational responsibilities. In this context, this article aims to analyze the main weaknesses and challenges faced by coordinators of technical courses in the Management and Information Technology fields, considering the specific characteristics of Brazilian Vocational and Technological Education. This is a qualitative bibliographic and documentary study, based predominantly on publications from 2022 to 2026, as well as normative and institutional documents related to vocational education. The analysis indicates that the main weaknesses are associated with insufficient specific training for coordination functions, overlapping pedagogical and administrative responsibilities, difficulties in leadership and communication, the need for continuous updating in response to technological and labor-market transformations, conflict management, monitoring of academic indicators, and articulation with companies and other external stakeholders. The analysis also indicates that Management and Information Technology courses require multidimensional competencies from coordinators, extending beyond technical expertise in their original field of education. It is concluded that strengthening technical course coordination requires professionalization of the function, continuing education, clear definition of responsibilities, institutional time allocation, and the development of planning, monitoring, and evaluation instruments.
Keywords: Vocational and Technological Education. Course Coordination. Educational Management. Technical Education. Management. Information Technology.
INTRODUÇÃO
A Educação Profissional e Tecnológica (EPT) ocupa posição estratégica no sistema educacional brasileiro por estabelecer relações diretas entre educação, trabalho, ciência, tecnologia e desenvolvimento social. A legislação recente reforçou essa dimensão ao ampliar a atenção às políticas nacionais de EPT e à articulação entre formação profissional, aprendizagem e mundo do trabalho. A Lei nº 14.645/2023 alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional para fortalecer a organização da educação profissional e tecnológica, enquanto o Decreto nº 12.603/2025 instituiu a Política Nacional de Educação Profissional e Tecnológica (PNEPT) e o Sistema Nacional de Avaliação da EPT (SINAEPT) (BRASIL, 2023; BRASIL, 2025).
Nesse cenário, a coordenação de curso assume relevância porque constitui um dos principais pontos de articulação entre o planejamento institucional e a realidade cotidiana do processo formativo. O coordenador não atua apenas como responsável por questões administrativas; sua atuação envolve acompanhamento pedagógico, organização curricular, relacionamento com professores e estudantes, acompanhamento de resultados e aproximação com o mundo do trabalho. Estudos recentes sobre coordenação de cursos técnicos apontam justamente a amplitude dessa função e a existência de lacunas na formação e na preparação dos profissionais que a exercem (SILVA; BATISTA; CONSTANTINO, 2023).
A problemática torna-se ainda mais significativa quando são considerados os cursos das áreas de Gestão — especialmente Administração, Logística e Contabilidade — e de Informática. Esses campos apresentam forte relação com as transformações econômicas, organizacionais e tecnológicas, exigindo atualização permanente dos currículos, dos métodos de ensino e das competências profissionais desenvolvidas. No eixo de Informação e Comunicação, por exemplo, estudos recentes identificam expansão significativa da oferta de cursos técnicos e mudanças nas características da demanda educacional, indicando a necessidade de permanente adequação da formação às transformações do mundo do trabalho (CONSTANTINO; TERÇARIOL, 2024).
O problema central deste estudo consiste, portanto, em compreender: quais são as principais fragilidades enfrentadas pelos coordenadores de cursos técnicos das áreas de Gestão e Informática e de que maneira essas fragilidades podem interferir na qualidade da gestão pedagógica e administrativa dos cursos?
A relevância do estudo decorre da necessidade de compreender que a qualidade de um curso técnico não depende exclusivamente da competência individual dos professores ou da existência de infraestrutura adequada. A gestão do curso, a articulação entre os diferentes atores e a capacidade de acompanhar os resultados educacionais também constituem dimensões fundamentais. Estudos recentes sobre gestão na EPT destacam a importância da liderança, do acompanhamento da aprendizagem, da formação dos professores, da avaliação e do clima institucional para a construção de escolas eficazes (COSTA; FERREIRA; MACHADO, 2025).
Educação profissional e tecnológica e a função do coordenador de curso
A Educação Profissional e Tecnológica (EPT) possui características próprias que a diferenciam de outras modalidades educacionais. Sua finalidade envolve não somente a transmissão de conhecimentos, mas também o desenvolvimento de competências profissionais relacionadas a contextos concretos de trabalho. Essa característica exige articulação entre conhecimentos científicos, tecnológicos, sociais e profissionais, tornando a gestão dos cursos uma atividade complexa.
A legislação e as políticas recentes reforçam essa perspectiva. A Lei nº 14.645/2023 estabeleceu novas disposições sobre a EPT e ampliou a preocupação com a articulação entre educação profissional, aprendizagem profissional e mundo do trabalho. Posteriormente, o Decreto nº 12.603/2025 instituiu a PNEPT, prevendo mecanismos de governança, monitoramento e avaliação da política de educação profissional e tecnológica (BRASIL, 2023; BRASIL, 2025).
Nesse contexto, o coordenador de curso pode ser compreendido como um gestor acadêmico intermediário, situado entre a gestão institucional e os sujeitos diretamente envolvidos no curso. Sua função demanda capacidade de planejamento, liderança, comunicação, acompanhamento pedagógico, mediação de conflitos e análise de informações. A própria literatura recente sobre coordenadores de cursos técnicos demonstra que a função possui uma identidade profissional específica, ainda pouco explorada pela produção acadêmica brasileira (SILVA; BATISTA; CONSTANTINO, 2023).
Um dos problemas identificados é que o profissional pode chegar à coordenação principalmente em função de sua experiência docente ou domínio técnico da área, sem necessariamente possuir formação específica em gestão educacional. A literatura sobre EPT destaca que a formação para atuação na educação profissional permanece um desafio, principalmente porque o domínio dos conhecimentos técnicos não garante, por si só, o domínio dos conhecimentos pedagógicos necessários à atividade educativa (ARANHA; NOGUEIRA; SANTOS, 2022).
Essa situação permite estabelecer uma distinção importante: ser um excelente profissional de Administração, Logística, Contabilidade ou Informática não significa necessariamente estar preparado para coordenar um curso técnico. A coordenação requer competências adicionais relacionadas à gestão de pessoas, planejamento pedagógico, legislação educacional, avaliação, comunicação institucional e resolução de problemas.
METODOLOGIA
O estudo caracteriza-se como uma pesquisa de abordagem qualitativa, de natureza exploratória, desenvolvida por meio de pesquisa bibliográfica e documental. Foram considerados artigos científicos, dissertações, documentos oficiais e publicações institucionais relacionados à Educação Profissional e Tecnológica, gestão educacional, coordenação de cursos e formação profissional.
Como recorte temporal, priorizaram-se produções publicadas entre 2022 e 2026, buscando contemplar a literatura mais recente sobre a realidade da EPT. Foram utilizadas, entre outras, publicações sobre formação docente na EPT, coordenação de cursos técnicos, gestão escolar, metodologias pedagógicas, expansão dos cursos técnicos e políticas nacionais de educação profissional.
A análise documental também considerou documentos oficiais recentes, especialmente a Lei nº 14.645/2023, o Decreto nº 12.603/2025 e documentos do Ministério da Educação e do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) relacionados à organização, avaliação e desenvolvimento da EPT. O INEP atualmente apresenta o SINAEPT como instrumento relacionado à avaliação da qualidade das instituições e cursos de EPT, considerando dimensões como infraestrutura, corpo docente, aderência ao mundo do trabalho e inserção dos egressos (INEP, 2025).
OBJETIVO
Analisar as principais fragilidades e desafios da atuação dos coordenadores de cursos técnicos na Área de Gestão e Informática.
PRINCIPAIS FRAGILIDADES DOS COORDENADORES DE CURSOS TÉCNICOS
Fragilidade na formação específica para a coordenação
A primeira fragilidade identificada refere-se à distância entre a formação original do coordenador e as competências exigidas para o exercício da função. Em muitos contextos, a escolha do coordenador está relacionada à sua experiência profissional ou docente na área do curso. Entretanto, a coordenação exige conhecimentos que não fazem necessariamente parte da formação inicial em Administração, Logística, Contabilidade ou Informática.
A literatura recente sobre formação de profissionais da EPT evidencia justamente a complexidade da formação de sujeitos que trabalham nessa modalidade. Aranha, Nogueira e Santos (2022) argumentam que a formação para a educação profissional permanece um desafio, uma vez que a atuação exige articulação entre conhecimentos técnicos e pedagógicos.
No caso dos coordenadores, essa questão torna-se ainda mais complexa porque, além das competências docentes, são necessárias competências gerenciais. O coordenador precisa compreender planejamento, gestão de pessoas, avaliação institucional, legislação educacional, indicadores acadêmicos, elaboração de planos de ação e processos de melhoria contínua.
Portanto, uma das principais fragilidades não está necessariamente no indivíduo, mas no modelo institucional de preparação para a função. Quando a instituição nomeia um profissional tecnicamente competente, mas não proporciona formação gerencial e pedagógica, existe o risco de transformar uma função estratégica em uma atividade predominantemente operacional (UNESCO, 2024).
Sobrecarga e sobreposição de funções
Outra fragilidade importante está relacionada à sobreposição entre as funções de professor, coordenador e gestor. O profissional pode continuar exercendo atividades docentes enquanto precisa responder por reuniões, atendimento aos estudantes, acompanhamento de professores, organização de horários, análise de resultados, elaboração de documentos, resolução de conflitos e relacionamento com a direção (PAULA e SILVA, 2023).
Estudos recentes sobre gestão acadêmica mostram que a coordenação pode envolver grande quantidade de tarefas simultâneas, incluindo atribuição de aulas, organização de horários, acompanhamento de estudantes, professores e processos.
Essa multiplicidade de tarefas favorece uma atuação reativa. O coordenador passa a dedicar grande parte do tempo à resolução de problemas imediatos, reduzindo a possibilidade de trabalhar preventivamente com planejamento, inovação pedagógica e desenvolvimento do curso (PEREIRA; SILVA, 2023). .
A consequência pode ser a transformação da coordenação em uma espécie de “central de problemas” da instituição, situação que reduz o tempo disponível para uma atuação estratégica.
Fragilidades de liderança e gestão de pessoas
Coordenar professores exige uma forma de liderança diferente daquela encontrada em estruturas organizacionais estritamente hierárquicas. Em muitos cursos técnicos, o coordenador trabalha com colegas que possuem formação, experiência profissional e autonomia pedagógica próprias.
A pesquisa de Silva, Batista e Constantino (2023), realizada com coordenadores de cursos do Centro Paula Souza, evidencia justamente a complexidade da posição ocupada por esses profissionais e os desafios relacionados à coordenação entre pares. Os autores destacam que a função pode apresentar dificuldades decorrentes de uma supervisão horizontal e não hierarquizada.
Assim, uma fragilidade recorrente pode ser a ausência de preparação para exercer uma liderança baseada na influência, diálogo e capacidade de articulação, e não somente na autoridade formal. O coordenador precisa desenvolver competências de comunicação, negociação, escuta ativa e mediação.
A gestão de conflitos também constitui uma dimensão importante. Divergências entre professores, problemas de relacionamento com estudantes, dificuldades de cumprimento de horários, resistência a mudanças curriculares e conflitos entre necessidades administrativas e pedagógicas podem chegar à coordenação. Sem formação adequada, essas situações podem ser tratadas de maneira improvisada.
Fragilidade na gestão pedagógica
A coordenação de um curso técnico não pode ser reduzida à elaboração de horários ou ao controle de documentos. O coordenador precisa acompanhar a qualidade do processo de ensino e aprendizagem, observar a coerência entre componentes curriculares, analisar dificuldades dos estudantes e estimular práticas pedagógicas adequadas ao perfil profissional do curso.
A literatura recente sobre competências docentes na EPT aponta a necessidade de desenvolvimento de competências pedagógicas e digitais, além de formação continuada. No campo específico da Contabilidade, Silva e Giraffa (2024) identificaram a necessidade de ampliar a formação dos profissionais em competências pedagógicas, digitais, de pesquisa, extensão e gestão.
Essa constatação é particularmente relevante para os coordenadores de Administração, Logística, Contabilidade e Informática, pois o domínio do conteúdo técnico precisa ser acompanhado pela capacidade de compreender como esse conteúdo deve ser transformado em experiência de aprendizagem.
Desatualização diante das transformações tecnológicas
Nos cursos de Informática, a atualização tecnológica constitui um desafio evidente. Tecnologias, linguagens de programação, ferramentas digitais, inteligência artificial, computação em nuvem, segurança da informação e metodologias de desenvolvimento mudam em ritmo acelerado.
Entretanto, a transformação tecnológica também afeta profundamente os cursos de Gestão. Sistemas integrados de gestão, análise de dados, automação de processos, inteligência artificial, comércio eletrônico e novas formas de trabalho modificam as competências esperadas de profissionais de Administração, Logística e Contabilidade.
O crescimento da oferta de cursos do eixo de Informação e Comunicação demonstra a relevância crescente da área na educação técnica. Constantino e Terçariol (2024) identificaram aumento expressivo das matrículas nesse eixo no período analisado, reforçando a necessidade de políticas e práticas de gestão compatíveis com essa expansão.
A fragilidade, portanto, não consiste apenas em o coordenador não conhecer uma determinada tecnologia, mas na ausência de uma cultura institucional de atualização permanente.
Dificuldades na articulação com o mundo do trabalho
Uma das características fundamentais da EPT é a relação com o mundo do trabalho. O coordenador precisa compreender quais competências estão sendo demandadas pelas organizações e verificar se o curso consegue responder adequadamente a essas necessidades.
A política nacional recente de EPT reforça essa preocupação. O diagnóstico elaborado no processo de construção da PNEPT destaca a necessidade de articulação da formação com o mundo do trabalho, participação do setor produtivo, integração curricular e capacitação digital (BRASIL, 2025).
Serviços e Informações do Brasil
Para cursos de Administração, Logística e Contabilidade, essa articulação pode ocorrer por meio de empresas, associações profissionais, escritórios contábeis, transportadoras, indústrias, organizações comerciais e instituições públicas. Em Informática, pode envolver empresas de software, suporte técnico, desenvolvimento de sistemas, infraestrutura, dados e segurança da informação.
Quando essa aproximação não existe, há risco de o curso desenvolver uma formação excessivamente teórica ou desatualizada em relação às práticas profissionais.
Fragilidades no acompanhamento de indicadores
Outra dificuldade está relacionada à utilização de dados para a tomada de decisões. Indicadores como evasão, aprovação, retenção, frequência, desempenho acadêmico, satisfação dos estudantes, participação em estágios, empregabilidade e acompanhamento de egressos podem fornecer informações importantes para a gestão do curso.
A nova estrutura de avaliação da EPT reforça essa dimensão. O SINAEPT foi instituído para avaliar instituições e cursos e considera aspectos relacionados à qualidade, corpo docente, infraestrutura, aderência ao mundo do trabalho e inserção dos egressos (INEP, 2025).
Apesar disso, o coordenador pode não possuir formação suficiente para interpretar indicadores e transformá-los em ações de melhoria. Dessa forma, não basta disponibilizar dados: é necessário desenvolver competências para análise, interpretação e tomada de decisão.
Especificidades das áreas de administração, logística e contabilidade
Os cursos da área de Gestão apresentam uma particularidade importante: são fortemente influenciados por mudanças econômicas, organizacionais e tecnológicas. Administração, Logística e Contabilidade possuem campos profissionais que se relacionam e, simultaneamente, apresentam competências específicas (BRASIL, 2023).
No curso de Administração, por exemplo, o coordenador precisa acompanhar temas como empreendedorismo, gestão de pessoas, marketing digital, planejamento estratégico, análise de dados e transformação organizacional. Na Logística, questões como automação, rastreabilidade, sistemas de informação, gestão de estoques, sustentabilidade e integração das cadeias de suprimentos assumem importância crescente. Na Contabilidade, tecnologias digitais, sistemas integrados, automação e análise de dados transformam as práticas profissionais.
A formação profissional precisa, portanto, acompanhar as transformações do mundo do trabalho. Batista e Freire (2023) destacam que a formação profissional e tecnológica deve ser pensada em articulação com desenvolvimento local, ciência, tecnologia e inovação, o que amplia a responsabilidade dos gestores educacionais na atualização dos cursos.
Nesse sentido, uma fragilidade comum pode ser a dificuldade de superar modelos curriculares excessivamente tradicionais. O coordenador precisa atuar como agente de inovação, estimulando a revisão de conteúdos, metodologias, projetos interdisciplinares e atividades práticas.
Especificidades Dos Cursos De Informática
Os cursos técnicos de Informática apresentam um grau particularmente elevado de dinamismo tecnológico. O profissional formado nessa área pode encontrar ambientes de trabalho caracterizados por rápidas mudanças em ferramentas, linguagens, plataformas e modelos de negócio.
Esse cenário aumenta a responsabilidade do coordenador, que precisa acompanhar tendências tecnológicas e avaliar sua pertinência pedagógica. A simples introdução de uma nova tecnologia no currículo, contudo, não garante inovação. É necessário avaliar se ela contribui efetivamente para o desenvolvimento das competências previstas no perfil profissional.
A literatura sobre EPT destaca que as competências digitais passaram a ocupar espaço importante na formação profissional. Silva e Giraffa (2024), ao analisarem a produção científica relacionada às competências docentes na EPT, identificam a necessidade de formação continuada envolvendo competências pedagógicas e digitais.
O coordenador de Informática, portanto, necessita desenvolver uma competência dupla: compreender suficientemente as transformações tecnológicas e, simultaneamente, compreender os processos educacionais. A principal fragilidade ocorre quando uma dessas dimensões é negligenciada (XAVIER, 2024)..
Impactos das fragilidades na qualidade dos cursos
As fragilidades apresentadas não devem ser compreendidas como falhas individuais dos coordenadores. Em grande medida, elas estão relacionadas às condições institucionais de exercício da função.
Pesquisa recente sobre as dificuldades enfrentadas por professores coordenadores de cursos nas ETECs aponta problemas relacionados à delimitação das atribuições, às múltiplas atividades dos docentes e aos obstáculos para uma gestão escolar eficiente (OLIVEIRA; CARVALHO, 2024).
Quando as atribuições não estão claramente definidas, o coordenador pode assumir responsabilidades que deveriam ser distribuídas entre diferentes setores. Isso produz sobrecarga e diminui sua capacidade de atuar estrategicamente.
Da mesma forma, quando não existe tempo institucional destinado à coordenação, as atividades de acompanhamento pedagógico tendem a ser realizadas de maneira fragmentada. A consequência pode aparecer na qualidade do planejamento, no acompanhamento dos professores, na comunicação com os estudantes e na capacidade de resposta às dificuldades acadêmicas.
A gestão escolar eficaz depende de liderança, foco na aprendizagem, cultura institucional, formação docente e monitoramento dos resultados, elementos destacados pela literatura recente sobre EPT (COSTA; FERREIRA; MACHADO, 2025).
Propostas para o fortalecimento da coordenação
Diante das fragilidades identificadas, algumas medidas podem contribuir para a profissionalização e o fortalecimento da função de coordenador de curso.
Primeiramente, recomenda-se a criação de programas institucionais de formação continuada para coordenadores, contemplando gestão educacional, legislação, liderança, gestão de conflitos, avaliação, planejamento curricular, metodologias ativas, análise de indicadores e tecnologias educacionais. A formação não deveria ocorrer apenas no momento da nomeação, mas de maneira permanente (BRASIL, 2024).
Em segundo lugar, é necessária uma definição clara das atribuições do coordenador, diferenciando responsabilidades pedagógicas, administrativas e institucionais. Essa medida pode reduzir a sobreposição de funções e permitir que o coordenador dedique mais tempo às atividades estratégicas.
Em terceiro lugar, recomenda-se o desenvolvimento de planos de gestão dos cursos, contendo metas, indicadores, cronograma de ações e mecanismos de acompanhamento. Experiências institucionais recentes já utilizam indicadores relacionados à evasão, satisfação dos estudantes, capacitação docente, extensão, inovação e inserção dos egressos como instrumentos de gestão (IFSP, 2024).
Outra medida importante é a criação de conselhos ou fóruns consultivos do curso, envolvendo docentes, estudantes, coordenação, gestão e, quando possível, representantes do setor produtivo. Essa perspectiva contribui para uma gestão mais participativa e alinhada às necessidades formativas (ROSÁRIO; MOURA NETO, 2023).
Por fim, é necessário fortalecer a articulação entre coordenadores e empresas, possibilitando visitas técnicas, palestras, projetos, estágios, participação de profissionais do mercado em atividades acadêmicas e acompanhamento dos egressos.
DISCUSSÃO
A análise da literatura permite compreender que as fragilidades dos coordenadores de cursos técnicos são predominantemente multidimensionais. Não se trata simplesmente de ausência de conhecimento técnico, mas de uma distância entre o conjunto de competências originalmente desenvolvido pelo profissional e a complexidade da função de coordenação.
O coordenador de Administração, por exemplo, pode possuir sólida experiência gerencial, mas não necessariamente conhecer profundamente avaliação educacional e legislação escolar. O coordenador de Contabilidade pode dominar as normas e práticas contábeis, mas necessitar de formação em metodologias de ensino. O coordenador de Informática pode possuir elevada competência tecnológica, mas apresentar dificuldades na liderança de equipes docentes. O coordenador de Logística pode conhecer amplamente processos empresariais, mas necessitar desenvolver competências específicas de gestão pedagógica.
Essa constatação dialoga com os estudos recentes sobre formação na EPT, que apontam a necessidade de integrar conhecimentos técnicos, pedagógicos e digitais (ARANHA; NOGUEIRA; SANTOS, 2022; SILVA; GIRAFFA, 2024).
A coordenação de curso deve, portanto, ser compreendida como uma função profissional específica. Sua qualidade depende tanto das competências do indivíduo quanto das condições oferecidas pela instituição (BRASIL, 2023).
Outro aspecto relevante é que a coordenação se encontra em uma posição intermediária. O profissional precisa responder às demandas da direção, dos professores, dos estudantes e, simultaneamente, às exigências curriculares e do mercado de trabalho. Essa posição pode gerar conflitos e ambiguidades, principalmente quando as responsabilidades não estão claramente estabelecidas.
As pesquisas sobre coordenadores de cursos técnicos em São Paulo mostram que a literatura sobre essa função ainda é relativamente limitada, reforçando a necessidade de novas pesquisas que investiguem o cotidiano desses profissionais e suas condições de trabalho (SILVA; BATISTA; CONSTANTINO, 2023).
Dessa forma, o presente estudo aponta também uma lacuna científica: ainda são necessárias pesquisas específicas sobre coordenadores de cursos técnicos das áreas de Administração, Logística, Contabilidade e Informática. Pesquisas futuras podem investigar diferenças entre redes públicas e privadas, formação dos coordenadores, carga horária destinada à função, percepção dos professores e estudantes, indicadores de desempenho e relação entre perfil do coordenador e resultados dos cursos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este artigo buscou analisar as principais fragilidades e desafios enfrentados pelos coordenadores de cursos técnicos das áreas de Administração, Logística, Contabilidade e Informática. A análise bibliográfica e documental permitiu identificar que a coordenação constitui uma função complexa, que exige a integração de competências pedagógicas, administrativas, tecnológicas e relacionais.
Entre as principais fragilidades identificadas destacam-se a insuficiência de formação específica para o exercício da coordenação, a sobrecarga de atribuições, as dificuldades de liderança e gestão de conflitos, a necessidade de atualização tecnológica, as dificuldades de acompanhamento pedagógico, a pouca utilização de indicadores e os desafios de articulação com o mundo do trabalho.
Entretanto, é fundamental evitar uma interpretação individualizante do problema. As fragilidades não devem ser atribuídas exclusivamente aos coordenadores. Elas também refletem condições institucionais, como falta de formação continuada, ausência de tempo adequado para a função, indefinição de atribuições, excesso de tarefas administrativas e ausência de instrumentos sistemáticos de acompanhamento.
A expansão e a transformação da EPT tornam essa discussão ainda mais relevante. A PNEPT e o SINAEPT ampliam a importância da qualidade, da avaliação, da articulação com o mundo do trabalho e do acompanhamento dos resultados educacionais.
Infere-se que o fortalecimento dos coordenadores deve ocorrer por meio de uma política institucional de desenvolvimento profissional, contemplando formação continuada, definição de responsabilidades, planejamento, liderança, gestão de pessoas, inovação pedagógica, análise de indicadores e relacionamento com o setor produtivo.
Para as áreas de Administração, Logística, Contabilidade e Informática, essa profissionalização torna-se particularmente importante em razão da velocidade das transformações econômicas e tecnológicas. O coordenador precisa deixar de ser compreendido apenas como aquele que “resolve os problemas do curso” e passar a ser reconhecido como agente estratégico de desenvolvimento curricular, pedagógico e institucional.
Por fim, recomenda-se que futuras pesquisas realizem estudos empíricos com coordenadores de cursos técnicos, utilizando entrevistas, questionários e análise de indicadores acadêmicos. Uma pesquisa dessa natureza permitiria verificar, na realidade institucional, quais das fragilidades identificadas na literatura apresentam maior frequência e impacto, contribuindo para a construção de um perfil de competências específico para coordenadores de cursos técnicos das áreas de Gestão e Informática.
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