Bem-estar preventivo e aptidão para a jornada na relocação internacional de cães e gatos
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
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Resumo

Este estudo analisa o bem-estar de cães e gatos na relocação internacional a partir da interação entre as características individuais do animal e as condições concretas da jornada. O objetivo foi revisar criticamente conhecimentos científicos, sanitários, comportamentais, operacionais e técnico-documentais relacionados ao transporte internacional dessas espécies e analisar a fundamentação e a aplicabilidade dos conceitos de Bem-Estar Preventivo e Aptidão para a Jornada. Trata-se de pesquisa aplicada, de abordagem qualitativa e caráter descritivo-analítico, desenvolvida por meio de revisão bibliográfica e documental, complementada pela análise técnica dos princípios empregados no planejamento e acompanhamento de operações de relocação internacional. A análise indica que a conformidade sanitária e operacional, embora indispensável, não contempla isoladamente a capacidade de cada animal enfrentar determinada jornada. Características clínicas, fisiológicas e comportamentais interagem com fatores como modalidade de transporte, duração, conexões, condições ambientais, confinamento, possibilidade de acesso, monitoramento e intervenção, podendo modificar as necessidades e vulnerabilidades individuais. Os resultados evidenciam a importância da integração entre conhecimento médico-veterinário e conhecimento operacional, do planejamento individualizado e da preparação para intercorrências. Conclui-se que o Bem-Estar Preventivo e a Aptidão para a Jornada constituem abordagens complementares para antecipar fatores de risco e orientar decisões individualizadas, permanecendo necessária a ampliação da produção científica específica sobre o transporte internacional de cães e gatos.

Palavras-chave: bem-estar animal; transporte aéreo; cães e gatos; aptidão para o transporte; relocação internacional.

Abstract

This study analyzes the welfare of dogs and cats during international relocation based on the interaction between the individual characteristics of the animal and the specific conditions of the journey. The objective was to critically review scientific, sanitary, behavioral, operational, and technical-documentary knowledge related to the international transport of these species and to analyze the foundations and applicability of the concepts of Preventive Welfare and Fitness for the Journey. This is an applied study with a qualitative, descriptive-analytical approach, conducted through a bibliographic and documentary review complemented by a technical analysis of the principles employed in the planning and monitoring of international relocation operations. The analysis indicates that sanitary and operational compliance, although essential, does not by itself encompass each animal’s ability to cope with a particular journey. Clinical, physiological, and behavioral characteristics interact with factors such as transport modality, duration, connections, environmental conditions, confinement, accessibility to the animal, monitoring, and the possibility of intervention, potentially modifying individual needs and vulnerabilities. The results highlight the importance of integrating veterinary and operational knowledge, individualized planning, and preparation for contingencies. It is concluded that Preventive Welfare and Fitness for the Journey constitute complementary approaches to anticipating risk factors and guiding individualized decisions, while further scientific research specifically addressing the international transport of dogs and cats remains necessary.

Keywords: animal welfare; air transport; dogs and cats; fitness for transport; international relocation.

1. Introdução

A relocação internacional de cães e gatos constitui uma atividade complexa que envolve medicina veterinária, saúde animal, comportamento, bem-estar, requisitos sanitários internacionais, transporte aéreo e logística. A crescente integração dos animais de companhia às famílias, associada à mobilidade das pessoas entre países, ampliou a necessidade desses deslocamentos e, consequentemente, a participação de médicos-veterinários, transportadores especializados, companhias aéreas, autoridades sanitárias, aeroportos e tutores no planejamento e na execução das viagens.

Diferentemente de um deslocamento doméstico, a relocação internacional depende inicialmente da possibilidade sanitária de trânsito entre os países envolvidos. Os requisitos para ingresso do animal são estabelecidos pelo país de destino e devem ser cumpridos no país de origem, com certificação pela autoridade veterinária competente. Esses procedimentos estão relacionados às condições zoossanitárias e aos acordos sanitários estabelecidos entre as autoridades competentes dos países envolvidos. Dessa forma, a existência de ligação aérea entre dois países não significa, por si só, que cães e gatos possam ser transportados diretamente entre eles. Em determinadas situações, a ausência desses acordos ou de condições sanitárias reconhecidas impede a importação direta, como pode ocorrer em determinadas rotas internacionais, exigindo procedimentos específicos por intermédio de país elegível.

Superada a viabilidade sanitária, inicia-se uma segunda dimensão do planejamento. Companhias aéreas estabelecem condições próprias de aceitação; aeroportos possuem estruturas e procedimentos distintos; autoridades sanitárias e aeroportuárias exercem funções específicas; médicos-veterinários avaliam a saúde dos animais e participam da certificação sanitária; transportadores especializados planejam e executam diferentes etapas da logística; e tutores tomam decisões que interferem diretamente na preparação e realização da viagem. A relocação internacional constitui, portanto, uma cadeia formada por diferentes participantes, cujos conhecimentos, atribuições e responsabilidades são distintos, porém interdependentes.

As normas sanitárias, técnicas e operacionais são indispensáveis para o funcionamento dessa cadeia. No transporte aéreo de animais vivos, o Live Animals Regulations (LAR), da International Air Transport Association (IATA), constitui uma das principais referências internacionais para procedimentos de aceitação, manuseio e transporte, incluindo requisitos relacionados aos contentores e às condições aplicáveis às diferentes espécies (IATA, 2026). Entretanto, normas e regulamentos, por sua própria natureza, precisam estabelecer critérios padronizados aplicáveis a grandes populações. O cumprimento dessas regras é fundamental para a segurança e organização do transporte, mas a padronização necessária ao sistema não elimina a variabilidade existente entre os indivíduos submetidos a ele.

Cães e gatos não constituem populações homogêneas quanto à capacidade de adaptação às condições de transporte. Espécie, raça, conformação anatômica, idade, peso e condição corporal representam apenas parte dessa variabilidade. Estado de saúde, presença de doenças preexistentes, medicamentos em uso, condicionamento físico, temperamento, comportamento diante de pessoas e ambientes desconhecidos, resposta ao confinamento, experiências anteriores e aclimatação à caixa ou bolsa de transporte são características individuais capazes de modificar a forma como cada animal responde à jornada. Consequentemente, mesmo indivíduos da mesma espécie, raça e faixa etária podem apresentar necessidades e vulnerabilidades distintas.

Algumas condições tornam essa individualização particularmente relevante. Cães braquicefálicos apresentam particularidades anatômicas e fisiológicas relacionadas às vias aéreas e à termorregulação; animais geriátricos podem possuir menor reserva fisiológica e maior prevalência de doenças crônicas ou subclínicas; filhotes e indivíduos de raças toy apresentam particularidades metabólicas e termorregulatórias; animais obesos podem apresentar limitações respiratórias, locomotoras e de dissipação de calor; e gatos apresentam respostas comportamentais e fisiológicas próprias diante do confinamento e das mudanças ambientais. Entretanto, pertencer a determinado grupo não determina isoladamente o risco, pois saúde, condição física, comportamento e temperamento permanecem características individuais.

Da mesma forma que os animais são diferentes, as jornadas também são. Modalidade de transporte, duração total, número e tempo das conexões, aeroportos utilizados, época do ano, condições climáticas, períodos de permanência em solo, tempo de confinamento, disponibilidade de água e alimento, possibilidade de acesso ao animal, procedimentos de manuseio e capacidade de monitoramento e intervenção podem produzir exposições distintas, mesmo quando o tempo de voo é semelhante. O período dentro da aeronave representa apenas uma etapa de uma cadeia logística que começa antes da chegada ao aeroporto e pode terminar muitas horas após o pouso.

Além disso, a jornada efetivamente realizada nem sempre corresponde à jornada planejada. Atrasos, cancelamentos, alterações de rota ou aeronave, perda de conexões e outras intercorrências operacionais podem prolongar significativamente o tempo total de transporte, modificar períodos previstos de alimentação e hidratação, aumentar o confinamento e a permanência em aeroportos e expor o animal a condições ambientais inicialmente não previstas. Dessa forma, planejar o bem-estar significa considerar não apenas aquilo que deverá ocorrer em condições normais, mas também aquilo que poderá ocorrer e quais possibilidades de resposta existirão diante de uma intercorrência.

O risco associado ao transporte, portanto, não necessariamente resulta de um único fator. Uma característica individual de pequena relevância quando considerada isoladamente pode assumir maior importância quando associada a calor, ansiedade, confinamento prolongado, atraso, conexão extensa ou impossibilidade de acesso ao animal. A avaliação de cada elemento separadamente pode não representar adequadamente a condição experimentada pelo indivíduo durante toda a relocação.

Essa interação entre indivíduo e jornada estabelece uma questão particularmente importante para a medicina veterinária. O exame pré-viagem permite avaliar as condições clínicas do animal e integrar os procedimentos necessários ao cumprimento das exigências sanitárias. Entretanto, estar clinicamente saudável no momento do exame é necessariamente equivalente a estar apto para qualquer jornada?

A avaliação pode ser ampliada para além da pergunta “este animal está saudável para viajar?”, incorporando uma segunda questão: “este animal apresenta condições adequadas para realizar esta jornada específica, desta forma e neste momento?” Essa perspectiva caracteriza a Aptidão para a Jornada, na qual condições clínicas, fisiológicas e comportamentais do indivíduo são consideradas em conjunto com as características e os possíveis desafios da viagem planejada. Para realizar essa avaliação de forma individualizada, entretanto, o médico-veterinário necessita conhecer informações relevantes sobre a jornada, uma vez que duração total, modalidade de transporte, conexões, condições ambientais e possibilidades de acesso, monitoramento e intervenção podem modificar a importância clínica de determinadas características do animal. A Canadian Veterinary Medical Association (CVMA) sustenta diretamente essa construção ao recomendar avaliação da condição física e mental do animal em relação à jornada pretendida, além de planejamento, monitoramento e manejo de acordo com os riscos da viagem.

Essa necessidade estabelece também um desafio para o transportador especializado. Conhecer documentação, requisitos sanitários, companhias aéreas, rotas, aeroportos e procedimentos operacionais é indispensável, mas pode não ser suficiente quando o objeto do transporte é um organismo vivo com necessidades individuais. O planejamento logístico precisa considerar se as condições efetivamente disponíveis são compatíveis com as necessidades daquele animal. Uma recomendação veterinária, por exemplo, somente poderá exercer sua função preventiva se houver possibilidade operacional de executá-la no momento em que for necessária.

Surge, assim, uma necessária integração de conhecimentos. O médico-veterinário não pode avaliar adequadamente a Aptidão para a Jornada sem conhecer suficientemente a jornada, e o transportador não pode planejá-la adequadamente sem conhecer suficientemente as necessidades do animal. Isso não significa sobreposição de competências: o transportador não substitui o médico-veterinário na avaliação clínica, assim como o veterinário não necessariamente domina as particularidades operacionais de cada modalidade, companhia, aeroporto ou rota. Significa reconhecer que o compartilhamento responsável de conhecimentos pode permitir decisões mais adequadas do que aquelas produzidas por informações analisadas isoladamente.

Nesse processo, o tutor permanece responsável pela decisão de realizar ou não a relocação e, se necessário, contratar uma empresa capacitada. Para que essa decisão seja consciente, porém, é necessário que receba informações claras e tecnicamente fundamentadas sobre possibilidades, limitações, necessidades específicas e riscos previsíveis. A existência de uma solução operacionalmente possível não significa necessariamente que ela represente a alternativa mais adequada para determinado animal.

A ciência do bem-estar animal também passou por importante evolução. Modelos historicamente concentrados na prevenção de fome, sede, desconforto, dor, doença, medo e restrições comportamentais foram progressivamente ampliados para considerar de maneira mais abrangente os estados físicos e mentais, as experiências positivas e negativas, o ambiente e a capacidade de adaptação dos animais. Essa evolução permite questionar se, no transporte internacional, a observância das exigências existentes deve representar o limite das ações de proteção ou se o conhecimento disponível pode ser utilizado também para antecipar problemas e aprimorar continuamente as condições de transporte.

A partir da experiência prática no planejamento e acompanhamento de relocação internacional de cães e gatos, a Transporte Pet Internacional desenvolveu uma abordagem denominada Bem-Estar Preventivo, fundamentada na identificação antecipada de fatores capazes de interferir no estado físico, comportamental e emocional do animal ao longo da jornada. A proposta parte do princípio de que cumprir requisitos sanitários, técnicos e operacionais é indispensável, mas que o conhecimento sobre o indivíduo e sobre a jornada pode permitir identificar vulnerabilidades, antecipar dificuldades e buscar alternativas capazes de reduzir riscos. Essa abordagem integra conhecimentos da logística e da medicina veterinária (LAGE; OLIVEIRA, 2026).

A experiência profissional que origina uma abordagem, contudo, não deve ser considerada isoladamente como comprovação de sua importância ou eficácia. Seus fundamentos precisam ser confrontados com o conhecimento científico e técnico disponível, suas limitações devem ser reconhecidas e suas proposições devem permanecer abertas à investigação, crítica e aperfeiçoamento. Da mesma forma, lacunas de conhecimento identificadas durante esse processo podem constituir oportunidades para novas pesquisas veterinárias e para o desenvolvimento de melhores práticas de transporte.

Nesse sentido, Bem-Estar Preventivo e Aptidão para a Jornada são propostos como conceitos complementares. A Aptidão para a Jornada busca avaliar se as características físicas, clínicas e comportamentais de determinado indivíduo são compatíveis com as condições concretas da viagem planejada. O Bem-Estar Preventivo busca antecipar, identificar e, quando possível, eliminar, reduzir ou manejar fatores capazes de comprometer o bem-estar antes e ao longo da relocação. Não se pretende estabelecer uma nova lista de regras, mas estimular uma abordagem na qual conhecimento científico, experiência operacional, avaliação individual e planejamento sejam continuamente utilizados em benefício do animal.

Essa perspectiva também pressupõe que o conhecimento relacionado ao transporte internacional de animais não permaneça restrito a empresas, profissionais ou instituições. O compartilhamento de experiências e informações tecnicamente fundamentadas pode estimular médicos-veterinários a investigar questões ainda pouco exploradas, transportadores a ampliar sua qualificação e compreender melhor as necessidades dos animais, companhias aéreas e organizações técnicas a aperfeiçoar procedimentos e autoridades reguladoras a avaliar continuamente a adequação de normas diante da evolução do conhecimento. O aprimoramento do transporte depende, portanto, não apenas da existência de regras, mas também da disposição de questioná-las tecnicamente, produzir evidências e aperfeiçoar práticas quando houver possibilidade de proporcionar melhores condições aos animais.

Diante desse cenário, o presente trabalho tem como objetivo revisar criticamente os conhecimentos científicos, sanitários, comportamentais, operacionais e técnico-documentais relacionados à relocação internacional de cães e gatos e analisar a fundamentação e a aplicabilidade dos conceitos de Bem-Estar Preventivo e Aptidão para a Jornada como abordagem complementar à avaliação individualizada, à identificação antecipada de fatores de risco e ao planejamento do transporte. Busca-se, adicionalmente, identificar lacunas de conhecimento e estimular a pesquisa, a qualificação profissional, o compartilhamento de informações e o aperfeiçoamento contínuo das práticas e normas relacionadas ao transporte internacional de animais de companhia.

2. Revisão da Literatura

O conceito de bem-estar animal passou por importante evolução nas últimas décadas. Inicialmente, grande parte das abordagens destinadas à avaliação das condições de vida dos animais foi fundamentada nas Cinco Liberdades, que estabeleceram princípios relacionados à ausência de fome e sede, desconforto, dor e doença, medo e sofrimento, além da possibilidade de expressão de comportamentos próprios da espécie. Embora essas diretrizes tenham exercido papel fundamental na consolidação ética e científica do bem-estar animal, modelos posteriores ampliaram essa perspectiva ao reconhecer que a avaliação do bem-estar não deve se limitar à prevenção de estados negativos.

Nesse processo, o Modelo dos Cinco Domínios incorporou de maneira mais abrangente aspectos relacionados à nutrição, ambiente físico, saúde, interações comportamentais e estado mental. A evolução desse modelo contribuiu para deslocar a avaliação do bem-estar de uma perspectiva predominantemente baseada na ausência de sofrimento para outra que considera simultaneamente experiências negativas e positivas e a forma como o indivíduo percebe e responde às condições às quais é submetido. Dessa maneira, o bem-estar passou a ser compreendido como um estado dinâmico, dependente da interação entre condições físicas, ambientais e comportamentais (MELLOR, 2017; MELLOR et al., 2020).

Essa perspectiva apresenta particular importância durante o transporte de animais. O deslocamento modifica temporariamente diversos elementos do ambiente habitual, expondo o indivíduo a contenção, temperatura, mudanças de espaço, ruídos, odores desconhecidos, movimentação, manipulação por pessoas não familiares, alteração de rotina e, dependendo da duração e da modalidade utilizada, mudanças nos padrões de alimentação, hidratação e oportunidades para atendimento às necessidades fisiológicas. A resposta a esses estímulos apresenta grande variabilidade entre indivíduos e espécies, tornando o transporte uma situação na qual fatores ambientais, fisiológicos e comportamentais podem atuar simultaneamente.

Estudos sobre o transporte de animais demonstram que o impacto sobre o bem-estar não depende exclusivamente da distância percorrida. Duração total, condições ambientais, densidade de alojamento (espaço disponível por animal), qualidade do manejo, experiência prévia, condições clínicas e capacidade individual de adaptação podem modificar a resposta ao transporte. Embora grande parte da literatura histórica sobre bem-estar durante o transporte tenha sido produzida em animais de produção e equinos, os princípios relacionados à avaliação da aptidão para o transporte também são aplicáveis ao reconhecimento de que indivíduos debilitados, lesionados, doentes ou fisiologicamente vulneráveis podem apresentar capacidade reduzida para enfrentar determinadas jornadas.

O conceito de fitness for transport, ou aptidão para o transporte, encontra-se estabelecido na literatura veterinária e em regulamentações relacionadas ao bem-estar durante o transporte de animais. O Regulamento (CE) nº 1/2005 estabelece que um animal somente deve ser transportado quando estiver apto para a jornada pretendida (fit for the intended journey), relacionando essa condição à ausência de lesões, debilidades fisiológicas ou processos patológicos incompatíveis com o transporte. O conceito é particularmente desenvolvido na literatura referente a animais de produção e equinos, na qual condições clínicas e fisiológicas do indivíduo são analisadas em relação às exigências impostas pelo deslocamento. Mais recentemente, recomendações específicas para cães e gatos também passaram a enfatizar a avaliação de sua aptidão física e mental para a jornada pretendida, considerando duração, condições ambientais, alimentação, hidratação, monitoramento e vulnerabilidades individuais. Dessa forma, a aptidão para o transporte não deve ser interpretada exclusivamente como ausência de doença, mas como a capacidade do indivíduo de enfrentar as condições previstas para determinada jornada sem comprometimento significativo de sua saúde e bem-estar( UNIÃO EUROPEIA, 2005).

No transporte de cães e gatos, entretanto, a produção científica específica permanece substancialmente menor do que aquela disponível para animais de produção. Estudos recentes sobre viagens aéreas de cães têm demonstrado que os animais transportados apresentam ampla diversidade de idade, condição clínica, histórico comportamental e experiência anterior, podendo existir alterações físicas, mentais ou emocionais percebidas durante ou após as viagens. Esses achados também evidenciam a importância da orientação prévia aos tutores e da participação de profissionais capacitados no planejamento do transporte.

O ambiente da viagem aérea possui características próprias. A jornada não se restringe ao tempo decorrido entre a decolagem e o pouso. Deslocamentos terrestres, antecedência obrigatória para apresentação no aeroporto, procedimentos de check-in, inspeções de segurança, entrega aos setores responsáveis pelo transporte, movimentações em solo, conexões, desembarque, fiscalização sanitária e liberação no destino podem ampliar significativamente o período total durante o qual o animal permanece submetido às condições associadas à viagem.

As diferentes modalidades de transporte também modificam as condições de exposição. Animais transportados na cabine de passageiros (PETC) permanecem próximos ao responsável, possibilitando maior observação. No transporte no compartimento de carga como bagagem acompanhada (AVIH) e, principalmente, na modalidade Manifest Cargo, o animal passa por processos logísticos distintos, que podem envolver períodos de permanência em terminais, movimentações por diferentes equipes e intervalos durante os quais o acesso direto ao animal é inexistente ou limitado. Dessa forma, o tempo de voo, isoladamente, não representa o tempo total de exposição aos fatores associados ao transporte.

Além disso, operações aéreas estão sujeitas a eventos capazes de modificar o planejamento inicialmente estabelecido. Condições meteorológicas, manutenção de aeronaves, tráfego aéreo, atrasos acumulados, cancelamentos, alterações de aeronave e perda de conexões podem aumentar a duração da jornada e modificar as condições originalmente previstas. Sob a perspectiva do bem-estar, essas alterações são relevantes porque podem prolongar confinamento, permanência em aeroportos e intervalos entre oportunidades de alimentação, hidratação, eliminação e manejo.

A capacidade de enfrentar essas condições também varia entre os animais. Cães e gatos apresentam diferenças fisiológicas, anatômicas e comportamentais importantes entre espécies, raças, fases da vida e indivíduos. A classificação por raça ou idade permite reconhecer algumas predisposições, mas não substitui a avaliação individual do estado de saúde, condição corporal, comportamento e temperamento.

Entre os grupos que apresentam particularidades relevantes estão os cães braquicefálicos. A conformação craniofacial característica dessas raças pode estar associada à Síndrome Obstrutiva das Vias Aéreas dos Braquicefálicos, envolvendo diferentes graus de estenose de narinas, alterações de palato mole, comprometimento laríngeo e outras modificações anatômicas capazes de aumentar a resistência ao fluxo aéreo. Estudos também demonstram menor eficiência termorregulatória e menor tolerância ao exercício em indivíduos afetados, especialmente quando submetidos a calor, excitação ou aumento da demanda ventilatória. A gravidade dessas alterações apresenta, contudo, considerável variação individual, tornando inadequado interpretar todos os animais braquicefálicos como fisiologicamente equivalentes.

A condição corporal constitui outro fator relevante. O excesso de peso pode aumentar a demanda metabólica, reduzir eficiência locomotora e interferir na termorregulação e na função respiratória. Em animais braquicefálicos, a associação entre conformação craniofacial desfavorável e condição corporal elevada pode aumentar as limitações respiratórias e térmicas. Dessa forma, características individuais podem interagir com predisposições relacionadas à raça.

Animais geriátricos constituem outra população heterogênea. O envelhecimento pode estar associado à redução das reservas funcionais dos sistemas cardiovascular, respiratório, renal e musculoesquelético, além de maior prevalência de doenças crônicas e alterações cognitivas. Entretanto, idade cronológica não constitui, isoladamente, indicador suficiente de capacidade funcional. Animais da mesma idade podem apresentar condições clínicas e fisiológicas substancialmente diferentes, reforçando a necessidade de avaliação individual.

Filhotes e cães de pequeno porte também apresentam particularidades fisiológicas relevantes. Indivíduos jovens possuem sistemas de regulação metabólica e térmica ainda em desenvolvimento, enquanto animais de muito baixo peso apresentam maior relação entre superfície corporal e massa, característica que pode aumentar a velocidade de troca térmica com o ambiente. Em determinados indivíduos, reservas energéticas reduzidas também podem aumentar a vulnerabilidade a alterações glicêmicas quando alimentação, atividade e estresse se combinam durante períodos prolongados.

Os gatos apresentam particularidades comportamentais especialmente relevantes ao transporte. A espécie possui forte relação com território e previsibilidade ambiental, e mudanças de ambiente, contenção e manipulação podem desencadear respostas de medo e estresse. A utilização da caixa de transporte constitui um dos principais elementos dessa experiência. Quando o recipiente é apresentado apenas imediatamente antes da viagem ou associado predominantemente a experiências negativas, sua presença pode desencadear respostas aversivas antes mesmo do início do deslocamento.

A literatura sobre comportamento felino demonstra que estratégias de familiarização gradual com o transportador e manejo de baixo estresse podem reduzir algumas respostas negativas relacionadas ao confinamento e à manipulação. Entretanto, também entre gatos existe considerável variabilidade individual. Alguns animais toleram mudanças ambientais e contenção com relativa facilidade, enquanto outros apresentam medo intenso, vocalização, tentativa de fuga, agressividade defensiva ou redução importante da ingestão de água e alimento (PRATSCH et al., 2018).

O comportamento e o temperamento também possuem importância significativa em cães. Indivíduos com histórico de ansiedade, medo de ruídos, dificuldade de separação, baixa tolerância ao confinamento ou elevada reatividade podem apresentar resposta significativamente diferente daquela observada em cães com experiências prévias positivas e boa adaptação à caixa de transporte. Dessa forma, ausência de doença física não necessariamente corresponde à ausência de vulnerabilidade comportamental.

A preparação prévia pode modificar parte dessas respostas. Processos graduais de familiarização e condicionamento positivo à caixa ou bolsa de transporte permitem que o recipiente deixe de representar exclusivamente contenção e passe a fazer parte do ambiente habitual do animal. O tempo necessário para essa adaptação varia segundo espécie, indivíduo, experiência anterior e intensidade das respostas apresentadas.

A alimentação e a hidratação durante viagens também exigem avaliação individualizada. Recomendações excessivamente generalizadas podem não contemplar diferenças relacionadas à espécie, idade, condição clínica, duração da jornada e predisposição a alterações metabólicas ou gastrointestinais. Da mesma maneira, a oferta de água durante o transporte depende não apenas da existência de um recipiente, mas da capacidade do animal de utilizá-lo, das condições de acesso e das características operacionais da modalidade empregada.

A utilização de medicamentos destinados à redução do medo ou da ansiedade deve ser diferenciada da sedação ou tranquilização e analisada também à luz das normas e restrições aplicáveis ao transporte aéreo. A sedação de animais durante viagens aéreas é restringida pelas companhias aéreas devido aos potenciais efeitos adversos durante o transporte, podendo não aceitar animais sedados para embarque. Isso não impede a utilização de estratégias não sedativas destinadas à redução do estresse, como aclimatação prévia, manejo comportamental e, quando apropriado, feromônios ou outros recursos que não comprometam o estado de consciência e as funções fisiológicas do animal. Intervenções farmacológicas destinadas ao controle de ansiedade ou medo, quando consideradas necessárias, devem ser avaliadas e prescritas pelo médico-veterinário, considerando o estado clínico, o comportamento, a resposta individual, a realização de teste prévio quando indicado e as regras da companhia aérea e da modalidade de transporte utilizada.

Dessa forma, qualquer estratégia deve ser individualizada e compatível tanto com as necessidades do animal quanto com as condições e limitações da jornada.

Além das características do animal, a interação entre diferentes fatores ao longo da jornada também deve ser considerada. No transporte aéreo, diferentes etapas e participantes formam uma sequência na qual alterações ocorridas em um ponto podem repercutir sobre os seguintes. A duração inicialmente prevista, por exemplo, pode aumentar após um atraso; esse atraso pode provocar perda de conexão; a perda da conexão pode prolongar o confinamento e alterar oportunidades de alimentação, hidratação e manejo. Assim, fatores que isoladamente poderiam apresentar pequena repercussão podem adquirir maior importância quando associados ao longo da jornada.

Nesse contexto, a atuação dos diferentes profissionais envolvidos torna-se complementar. O médico-veterinário possui papel central na avaliação clínica e na identificação de condições fisiológicas ou patológicas capazes de influenciar a resposta do animal ao transporte. Entretanto, determinadas recomendações dependem do conhecimento das condições reais da jornada para que possam ser adequadamente aplicadas.

Da mesma forma, profissionais responsáveis pela organização do transporte necessitam compreender que modalidades, rotas e procedimentos diferentes podem produzir condições distintas de exposição. O conhecimento operacional permite informar ao médico-veterinário e ao tutor quanto tempo o animal poderá permanecer confinado, em quais momentos estará acessível, quais procedimentos ocorrerão durante conexões, quais limitações são impostas pelas companhias e quais alternativas podem existir diante de intercorrências.

A integração dessas informações permite que conhecimentos veterinários e logísticos sejam considerados conjuntamente, preservando as competências específicas de cada profissional. O médico-veterinário permanece responsável pelas decisões clínicas, enquanto o transportador especializado é responsável pelas informações e decisões relacionadas à organização e execução logística dentro de sua área de atuação. A comunicação entre ambos pode fornecer elementos adicionais para o planejamento das condições de viagem.

Os conhecimentos atualmente disponíveis em diferentes áreas indicam que o bem-estar durante o transporte pode ser influenciado tanto por características do indivíduo quanto pelas condições às quais ele é submetido. Estudos relacionados ao bem-estar animal, comportamento, fisiologia, aptidão para o transporte e transporte de animais descrevem, separadamente ou em diferentes combinações, a importância de fatores como saúde, comportamento, espécie, conformação, idade e condição corporal, bem como duração da jornada, condições ambientais, confinamento e manejo. Entretanto, esses conhecimentos encontram-se dispersos entre diferentes áreas, e a literatura específica sobre sua integração no planejamento da relocação aérea internacional de cães e gatos permanece limitada.

3. Metodologia

O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa aplicada, de abordagem qualitativa e caráter descritivo-analítico, desenvolvida por meio de revisão bibliográfica e documental, complementada pela análise técnica dos princípios empregados no planejamento e acompanhamento da relocação internacional de cães e gatos.

A revisão bibliográfica contemplou publicações científicas relacionadas ao bem-estar animal, transporte de cães e gatos, aptidão para o transporte (fitness for transport e fitness for the intended journey), fisiologia do estresse, comportamento, manejo de baixo estresse, aclimatação ao contentor ( caixa ou bolsa de transporte ), termorregulação, alimentação, hidratação e particularidades associadas a diferentes espécies, faixas etárias, conformações anatômicas, condições corporais e estados de saúde. Foram também considerados estudos relacionados a animais braquicefálicos, geriátricos, filhotes, cães de pequeno porte, animais obesos e indivíduos com alterações comportamentais, com o objetivo de compreender como características individuais podem modificar a resposta às condições de transporte.

Foram consultados trabalhos científicos disponíveis em bases de dados acadêmicas e publicações de referência em medicina veterinária e ciência do bem-estar animal. A pesquisa utilizou combinações de descritores em português e inglês relacionados a animal welfare, dog transport, cat transport, air transport, air travel, fitness for transport, fitness for the intended journey, transport stress, brachycephalic dogs, geriatric dogs and cats, animal behaviour, crate training, low-stress handling e outros termos relacionados aos temas analisados. Foram priorizados artigos revisados por pares, revisões de literatura, documentos técnico-científicos e trabalhos considerados relevantes para a compreensão dos fatores fisiológicos, comportamentais e ambientais relacionados ao transporte.

A pesquisa documental compreendeu a análise de normas, regulamentos e orientações técnicas aplicáveis à movimentação internacional e ao transporte aéreo de cães e gatos. Foram considerados, entre outros documentos pertinentes, o Live Animals Regulations (LAR) da International Air Transport Association (IATA), regulamentações e orientações da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), requisitos sanitários aplicáveis à movimentação internacional de animais de companhia e documentos emitidos por autoridades e organizações veterinárias relacionados ao bem-estar e à aptidão de animais para o transporte. Esses documentos foram utilizados para compreender as condições sanitárias, operacionais e regulatórias às quais a relocação internacional está submetida, não sendo tratados como substitutos da literatura científica nas questões relacionadas à fisiologia, comportamento ou medicina veterinária.

A análise considerou a relocação internacional como uma jornada contínua, iniciada na preparação do animal e nos deslocamentos anteriores ao aeroporto e concluída após os procedimentos de chegada e entrega no destino. Dessa forma, não foi considerado apenas o período de permanência na aeronave, mas também etapas como deslocamento terrestre, check-in, procedimentos sanitários e aduaneiros, permanência em terminais, movimentação em solo, conexões, desembarque e liberação do animal.

Foram analisadas as principais modalidades utilizadas no transporte aéreo de cães e gatos — transporte em cabine de passageiros (PETC), transporte no compartimento de carga como bagagem acompanhada (AVIH) e transporte como carga manifestada (Manifest Cargo) — considerando as diferenças operacionais relacionadas ao tempo total de trânsito, acesso ao animal, possibilidade de monitoramento e intervenção, número de manipulações, participação de terceiros e exposição às diferentes etapas da cadeia logística. Adicionalmente, foi analisado o Transporte Técnico Acompanhado, desenvolvido pela Transporte Pet Internacional como uma estratégia de acompanhamento especializado aplicável às modalidades PETC e AVIH. Nessa abordagem, o planejamento e a organização da operação são realizados pela Transporte Pet Internacional, enquanto o Especialista em Transporte Técnico Acompanhado (ETTA) é responsável pelo acompanhamento do animal durante a jornada. O serviço pode ser utilizado tanto quando o tutor não pode realizar pessoalmente o transporte quanto por opção pelo acompanhamento profissional especializado, inclusive quando o tutor realiza a mesma viagem.

Durante a jornada, o ETTA atua considerando as características e necessidades individuais do animal, as orientações médico-veterinárias e as condições efetivamente encontradas, possuindo autonomia para adotar, dentro dos limites operacionais e regulamentares, as medidas que considerar necessárias à preservação do bem-estar e da segurança do animal, inclusive interromper a continuidade da viagem quando as circunstâncias assim justificarem. Durante o transporte, o ETTA dispõe ainda de suporte de médico-veterinário de plantão disponibilizado pela Transporte Pet Internacional, ao qual pode recorrer, sempre que as condições de comunicação permitirem, para esclarecimento de dúvidas ou orientação diante de situações relacionadas à saúde e ao bem-estar do animal. A análise considerou as possibilidades e vantagens dessa estratégia quanto à prevenção de riscos, acompanhamento e manejo nas etapas em que houver acesso ao animal, identificação de intercorrências e capacidade de resposta diante de alterações da jornada.

Como componente adicional, foram considerados eventos capazes de modificar a jornada originalmente planejada, incluindo atrasos, cancelamentos, alterações de rota ou aeronave e perda de conexões. Esses eventos foram analisados quanto à possibilidade de prolongar o confinamento, modificar períodos previstos para alimentação, hidratação e manejo, aumentar a permanência em aeroportos ou produzir outras condições capazes de interferir no bem-estar animal.

A análise das características dos animais foi conduzida sob uma perspectiva individualizada. Espécie, raça, conformação anatômica, idade e condição corporal foram consideradas conjuntamente com estado de saúde, doenças preexistentes, utilização de medicamentos, comportamento, temperamento, adaptação ao confinamento e experiências anteriores de transporte. O objetivo dessa abordagem foi evitar que a avaliação de vulnerabilidade fosse fundamentada exclusivamente em categorias populacionais, reconhecendo que indivíduos pertencentes a um mesmo grupo podem apresentar capacidades adaptativas distintas.

Como elemento metodológico complementar, foram analisados os princípios da abordagem denominada Bem-Estar Preventivo, desenvolvida pela Transporte Pet Internacional a partir da experiência acumulada no planejamento e acompanhamento de operações de relocação internacional de cães e gatos. Essa abordagem foi examinada quanto à sua relação com os conhecimentos identificados na literatura científica e documental, especialmente no que se refere à identificação antecipada de vulnerabilidades, planejamento individualizado, redução de fatores de risco, possibilidade de monitoramento e preparação para intercorrências durante a jornada.

A experiência operacional e os protocolos utilizados pela empresa foram considerados objeto de análise e fonte de questões técnicas, não sendo utilizados isoladamente como evidência de eficácia do modelo proposto. A análise buscou confrontar os princípios desenvolvidos na prática com o conhecimento científico disponível, identificando convergências, limitações, lacunas e aspectos que demandam investigação adicional.

O conceito de Aptidão para a Jornada foi analisado a partir da literatura e de documentos veterinários que empregam os conceitos de fitness for transport e fitness for the intended journey. A partir dessa fundamentação, foram examinadas as possíveis relações entre as condições físicas, clínicas e comportamentais do indivíduo e as características concretas da jornada, incluindo modalidade, duração, conexões, ambiente, acesso ao animal e possibilidade de intervenção.

Por fim, os conhecimentos provenientes da literatura científica, documentação sanitária e operacional e análise técnica da experiência de transporte foram integrados de forma descritiva e interpretativa. A análise foi orientada pela interação entre quatro dimensões principais: características individuais do animal, características da jornada, condições ambientais e capacidade de prevenção e resposta dos profissionais envolvidos. Essa integração serviu de base para a discussão da aplicabilidade conjunta dos conceitos de Bem-Estar Preventivo e Aptidão para a Jornada na relocação internacional de cães e gatos.

4. RESULTADOS E DISCUSSÃO

4.1. Da conformidade documental à Aptidão para a Jornada

A análise da literatura e dos documentos técnicos evidencia que a relocação internacional de cães e gatos é estruturada sobre diferentes níveis de exigência. O primeiro refere-se à viabilidade sanitária, determinada pelos requisitos estabelecidos pelo país de destino e cumpridos no país de origem. O segundo compreende a viabilidade operacional, relacionada às regras das companhias aéreas, modalidades de transporte disponíveis, características dos contentores, aeroportos, rotas e procedimentos necessários à execução da viagem. Entretanto, o atendimento a essas duas dimensões não responde necessariamente a uma terceira questão: as condições do animal são compatíveis com as características concretas daquela jornada?

Um animal pode cumprir integralmente os requisitos sanitários do país de destino, possuir documentação válida, contentor adequado e reserva confirmada pela companhia aérea e, ainda assim, apresentar características clínicas, fisiológicas ou comportamentais que mereçam consideração adicional diante da jornada planejada. A conformidade documental e operacional constitui condição indispensável para o transporte, mas não deve ser interpretada isoladamente como avaliação do bem-estar ou da capacidade individual de enfrentar todas as condições da viagem.

Essa distinção é particularmente relevante porque o conceito de fitness for transport e, de maneira ainda mais específica, a expressão fit for the intended journey, encontrada em documentos relacionados ao transporte e bem-estar animal, relacionam a condição do indivíduo às características da jornada pretendida. A pergunta deixa, portanto, de ser exclusivamente se o animal está saudável e passa a considerar se está apto para aquele transporte específico.

No contexto da relocação internacional de cães e gatos, essa interpretação amplia o papel da avaliação pré-viagem. Um exame clínico realizado sem conhecimento suficiente sobre a jornada pode não fornecer ao médico-veterinário todos os elementos necessários para avaliar a relevância de determinadas condições. Duração total, modalidade de transporte, conexões, períodos sem acesso ao animal, temperatura, possibilidade de alimentação e hidratação e capacidade de intervenção podem modificar significativamente a importância de uma vulnerabilidade individual.

Um animal de pequeno porte com necessidade de alimentação em intervalos determinados, por exemplo, pode ser considerado clinicamente apto para viajar. Entretanto, essa recomendação precisa ser confrontada com a realidade operacional da modalidade escolhida. Se determinadas etapas da jornada impedirem o acesso ao animal durante período incompatível com a orientação estabelecida, a questão deixa de ser apenas clínica ou logística e passa a exigir integração entre ambas.

O mesmo raciocínio pode ser aplicado a animais braquicefálicos, geriátricos, obesos, portadores de doenças crônicas controladas, gatos altamente reativos ao confinamento ou indivíduos com outras particularidades. A presença de uma característica de vulnerabilidade não determina automaticamente a impossibilidade do transporte. Entretanto, pode modificar quais modalidades, rotas, períodos do ano, tempos de conexão, estratégias de preparação ou formas de acompanhamento são mais adequados para aquele indivíduo.

Dessa perspectiva, a Aptidão para a Jornada não deve ser interpretada simplesmente como autorização ou proibição de viajar. Ela pode funcionar como instrumento para identificar condições necessárias para que determinada viagem seja realizada de maneira mais adequada. Em alguns casos, a conclusão poderá ser pela realização da jornada conforme planejada; em outros, poderá indicar necessidade de preparação prévia, alteração de rota, modalidade, data ou condições de acompanhamento; e, diante de determinadas circunstâncias, poderá justificar o adiamento ou a não realização do transporte naquele momento.

Essa interpretação também evita transformar a avaliação veterinária em um procedimento meramente documental. O atestado ou certificado continua cumprindo sua finalidade sanitária e legal específica, mas a atuação médico-veterinária pode contribuir adicionalmente para identificar necessidades individuais que deverão ser consideradas por quem planeja e executa a logística.

Surge, entretanto, uma limitação prática: o médico-veterinário somente pode considerar adequadamente a jornada se conhecer suas condições reais. Essa constatação conduz diretamente à necessidade de integração entre medicina veterinária e conhecimento operacional do transporte, questão discutida nos tópicos seguintes.

Entretanto, o conhecimento médico-veterinário necessário para avaliar o animal e o conhecimento operacional necessário para compreender integralmente uma relocação aérea internacional pertencem a campos distintos. Informações como modalidade de transporte, tempo total estimado da jornada, períodos de inacessibilidade ao animal, procedimentos aeroportuários, conexões, condições de permanência em solo e possibilidades reais de alimentação, hidratação, monitoramento e intervenção podem não fazer parte da rotina profissional do médico-veterinário. Essa lacuna não diminui sua competência clínica, mas evidencia a necessidade de que informações operacionais relevantes sejam disponibilizadas pelo transportador para subsidiar uma avaliação verdadeiramente relacionada à jornada.

4.2. O animal individual e a jornada individual

A análise conjunta dos conhecimentos disponíveis evidencia uma limitação das abordagens excessivamente baseadas em categorias. Classificações relacionadas à espécie, raça, idade, porte ou condição clínica são importantes para reconhecer predisposições, porém não determinam isoladamente a forma como determinado animal responderá ao transporte. Da mesma maneira, classificar uma viagem apenas pela duração do voo ou pela distância percorrida não representa necessariamente a exposição real enfrentada pelo indivíduo. A avaliação do bem-estar exige, portanto, considerar simultaneamente quem é o animal e qual é a jornada à qual ele será submetido.

Essa distinção pode ser observada entre animais pertencentes a grupos reconhecidamente mais vulneráveis. Cães braquicefálicos, por exemplo, apresentam características anatômicas e fisiológicas que podem aumentar a predisposição a comprometimentos respiratórios e dificuldades termorregulatórias, mas existe grande variabilidade entre indivíduos quanto à conformação, condição corporal, presença e gravidade de alterações respiratórias, idade, condicionamento físico e tolerância ao estresse. Dessa forma, a identificação da braquicefalia constitui um importante indicador de atenção, mas não substitui a avaliação individual.

Raciocínio semelhante aplica-se aos animais geriátricos. A idade cronológica, isoladamente, não determina a capacidade de enfrentar uma viagem. Um animal idoso clinicamente estável, adaptado ao confinamento e submetido a uma jornada curta e adequadamente planejada pode apresentar condições distintas das de outro animal da mesma idade portador de doença crônica, redução de reserva fisiológica, alterações cognitivas ou dificuldade de adaptação. A avaliação deve considerar não apenas a idade, mas sua interação com saúde, funcionalidade, comportamento e características da jornada.

Filhotes e animais de raças toy também demandam atenção às suas particularidades. Baixo peso corporal, reservas energéticas reduzidas e características metabólicas e termorregulatórias podem tornar determinados indivíduos mais sensíveis a períodos prolongados de jejum ou condições ambientais adversas. Nesse caso, uma orientação médico-veterinária sobre alimentação e hidratação somente poderá ser efetivamente incorporada ao planejamento quando confrontada com a realidade operacional da viagem, incluindo os períodos em que haverá ou não acesso ao animal.

Nos gatos, a análise individual assume particular importância diante das respostas comportamentais ao confinamento, manipulação e mudanças ambientais. Alguns indivíduos apresentam boa adaptação à caixa de transporte e toleram deslocamentos com alterações comportamentais discretas, enquanto outros podem demonstrar medo intenso, vocalização, tentativa de fuga, agressividade defensiva, recusa de água ou alimento e outras respostas relacionadas ao estresse. Assim, considerar apenas que determinado gato está clinicamente saudável pode não representar adequadamente sua capacidade de enfrentar uma jornada longa, especialmente quando não houve preparação prévia para o confinamento e para as condições associadas ao transporte.

O temperamento e o comportamento também precisam ser considerados nos cães. Um indivíduo saudável, mas altamente reativo, com medo intenso de ruídos, dificuldade de separação ou baixa tolerância ao confinamento pode experimentar uma jornada de maneira substancialmente diferente de outro animal clinicamente semelhante e previamente adaptado à caixa de transporte. Nesse sentido, saúde física e capacidade comportamental de adaptação não devem ser interpretadas como dimensões independentes do bem-estar.

Entretanto, a vulnerabilidade não está somente no animal. As características da jornada podem aumentar, reduzir ou modificar a relevância de determinada condição individual. Um mesmo animal pode apresentar condições adequadas para uma viagem direta, realizada em determinada modalidade e sob condições ambientais favoráveis, e demandar avaliação diferente quando a alternativa disponível envolve múltiplas conexões, longos períodos de confinamento, temperaturas desfavoráveis ou etapas prolongadas sem possibilidade de acesso e intervenção.

Essa relação torna particularmente importante a distinção entre tempo de voo e tempo de jornada. Uma viagem anunciada como um voo de oito ou dez horas pode representar período substancialmente maior quando considerados deslocamento terrestre, antecedência necessária no aeroporto, procedimentos de aceitação, permanência em terminais, movimentação até a aeronave, desembarque, fiscalização sanitária, procedimentos aduaneiros e entrega final. Nas operações realizadas como Manifest Cargo, algumas dessas etapas podem exigir antecedência e períodos adicionais de processamento, aumentando a diferença entre a duração do voo e o tempo total durante o qual o animal permanece submetido à cadeia logística.

As conexões acrescentam outra variável. Uma rota com dois voos de menor duração não é necessariamente mais adequada do que um voo direto mais longo. Cada conexão pode representar desembarque, movimentação em solo, permanência em ambiente intermediário, alteração das condições climáticas e operacionais, participação de novas equipes e possibilidade adicional de atrasos ou perda do voo subsequente. Por outro lado, determinadas conexões podem permitir acesso ao animal, alimentação, hidratação, eliminação ou descanso, dependendo da modalidade, do aeroporto e das regras aplicáveis. Portanto, o número de conexões não deve ser interpretado isoladamente como indicador de maior ou menor bem-estar; é necessário conhecer o que efetivamente acontecerá com o animal durante cada uma delas.

Essa análise também modifica a compreensão sobre a escolha de rotas. A alternativa mais curta em distância ou tempo previsto nem sempre representa necessariamente a melhor jornada. Horário dos voos, temperatura prevista nos aeroportos, duração das conexões, estrutura disponível, modalidade aceita pela companhia, possibilidade de acesso ao animal e existência de alternativas diante de intercorrências podem tornar outra rota mais adequada às necessidades de determinado indivíduo.

A imprevisibilidade inerente ao transporte aéreo acrescenta uma dimensão adicional. Uma jornada considerada adequada em condições normais pode modificar-se após atraso, cancelamento, alteração de aeronave ou perda de conexão. A relevância dessa alteração também depende do animal. Algumas horas adicionais podem representar apenas prolongamento do transporte para determinado indivíduo, mas podem assumir importância maior para um animal com necessidades específicas de alimentação, hidratação, medicação, controle térmico ou manejo comportamental.

Consequentemente, a análise da jornada não deve se limitar ao cenário em que tudo ocorre conforme programado. Uma rota pode ser considerada não apenas pela sua eficiência quando o planejamento é cumprido, mas também pela capacidade de oferecer alternativas quando ele falha. A escolha de horários com outras possibilidades de voo no mesmo dia, conexões que ofereçam margem operacional adequada e rotas nas quais existam alternativas compatíveis com o transporte do animal são exemplos de decisões que podem reduzir as consequências de uma intercorrência.

Essa perspectiva não significa que todos os riscos possam ser eliminados. O transporte aéreo está sujeito a fatores que não podem ser controlados pelo médico-veterinário, transportador ou tutor. Entretanto, parte de seus efeitos pode ser antecipada durante o planejamento. O conhecimento prévio das vulnerabilidades do animal permite avaliar quais intercorrências poderiam produzir maior impacto, enquanto o conhecimento operacional permite identificar alternativas capazes de reduzir essa exposição.

Dessa forma, a individualização deve ocorrer em duas direções complementares: individualizar o animal e individualizar a jornada. Avaliar apenas o primeiro desconsidera as condições às quais será submetido; avaliar apenas a segunda pressupõe que todos os animais responderão de maneira semelhante às mesmas condições. A Aptidão para a Jornada surge precisamente da interação entre essas duas dimensões.

Essa relação pode ser sintetizada por uma questão prática: não se trata apenas de perguntar se determinado cão ou gato pode viajar, mas de avaliar como aquele indivíduo pode realizar aquela jornada da forma mais adequada possível e quais condições precisam estar presentes para isso. Em determinadas situações, a resposta poderá envolver preparação comportamental ou clínica; em outras, alteração de data, horário, rota, modalidade ou forma de acompanhamento; e, quando as condições disponíveis forem incompatíveis com as necessidades do animal, o adiamento ou a interrupção da viagem também deve permanecer como possibilidade.

4.3. Integração entre conhecimento médico-veterinário e conhecimento operacional

A avaliação da Aptidão para a Jornada evidencia a necessidade de integração entre dois campos de conhecimento que, embora diretamente relacionados durante a relocação internacional de cães e gatos, frequentemente são exercidos por profissionais distintos. O médico-veterinário possui competência para avaliar saúde, condição clínica, particularidades fisiológicas, necessidades terapêuticas e

aspectos comportamentais do animal. O transportador especializado, por sua vez, conhece as características operacionais da jornada, incluindo modalidades disponíveis, rotas, conexões, procedimentos aeroportuários, regras das companhias aéreas, tempos de processamento e períodos nos quais o acesso ao animal será possível ou restrito.

Isoladamente, cada uma dessas avaliações pode apresentar limitações. O médico-veterinário somente pode considerar adequadamente a jornada se conhecer suas condições reais, enquanto o transportador somente pode planejar adequadamente a operação se conhecer as necessidades e limitações relevantes daquele animal. Essa interdependência não implica sobreposição de competências, mas evidencia a necessidade de compartilhamento de informações entre os profissionais envolvidos.

Uma orientação médico-veterinária aparentemente simples pode adquirir importância operacional significativa. Recomendações relacionadas à alimentação, hidratação, administração de medicamentos, controle térmico, redução de estresse ou necessidade de observação dependem da possibilidade concreta de serem executadas durante a modalidade e a rota escolhidas. Uma orientação adequada do ponto de vista clínico pode tornar-se inviável se determinada etapa da jornada impedir o acesso ao animal pelo período necessário para sua realização.

O inverso também deve ser considerado. Uma rota considerada eficiente do ponto de vista logístico pode não representar a alternativa mais adequada para determinado indivíduo. Menor preço, menor distância ou menor duração prevista do voo não contemplam necessariamente fatores como tempo total da jornada, quantidade e características das conexões, condições ambientais, períodos sem acesso ao animal e existência de alternativas diante de atrasos ou cancelamentos. Para que essas variáveis sejam corretamente ponderadas, o responsável pelo planejamento precisa conhecer as necessidades individuais identificadas na avaliação médico-veterinária.

Essa integração torna-se ainda mais relevante diante das diferenças existentes entre PETC, AVIH e Manifest Cargo. A possibilidade de acesso ao animal, alimentação, hidratação, observação e intervenção não é equivalente entre as modalidades. Consequentemente, uma recomendação veterinária não deveria ser analisada independentemente da forma pela qual o animal será transportado. Da mesma maneira, a escolha da modalidade não deveria ocorrer exclusivamente com base na disponibilidade operacional, quando características individuais relevantes indicarem a necessidade de condições específicas durante a jornada.

Nesse contexto, o transportador especializado assume uma responsabilidade que ultrapassa a execução de reservas, documentação e procedimentos aeroportuários. Seu conhecimento operacional deve permitir traduzir a jornada para o médico-veterinário, informando, quando relevante, duração estimada e total do deslocamento, modalidade, conexões, períodos previstos sem acesso ao animal, possibilidades de alimentação e hidratação, condições de permanência em aeroportos e alternativas existentes diante de intercorrências. Essas informações permitem que as recomendações clínicas sejam formuladas considerando condições mais próximas daquelas que o animal efetivamente enfrentará.

Da mesma forma, não se pretende transformar o transportador em profissional da medicina veterinária. A identificação de uma necessidade durante o planejamento ou de uma alteração durante a jornada não autoriza diagnóstico, prescrição ou realização de procedimentos privativos do médico-veterinário. O papel do transportador consiste em reconhecer informações relevantes, incorporá-las ao planejamento dentro de sua competência e, quando necessário, buscar orientação profissional adequada.

Essa divisão de responsabilidades também deve permanecer durante a execução da viagem. A ocorrência de atraso, cancelamento, alteração de rota ou mudança na condição observável do animal pode tornar inadequado um planejamento originalmente considerado satisfatório. Nesses casos, a comunicação entre os envolvidos e a existência de alternativas previamente consideradas podem permitir decisões mais adequadas do que a simples continuidade automática da viagem.

O Bem-Estar Preventivo propõe que essa integração ocorra antes que uma intercorrência obrigue os profissionais a interagir. Em vez de o veterinário ser procurado somente para emissão de documentos ou após o aparecimento de um problema, informações clínicas relevantes podem participar do planejamento. Da mesma forma, informações operacionais podem ser apresentadas previamente ao médico-veterinário sempre que forem necessárias para avaliar as condições da jornada.

Essa abordagem também amplia a responsabilidade dos profissionais de transporte. Conhecer regras sanitárias, procedimentos aeroportuários e políticas das companhias aéreas permanece indispensável, mas o transporte de animais vivos exige compreensão progressivamente maior sobre como essas condições operacionais podem interagir com saúde, comportamento e bem-estar. Experiência operacional, portanto, não deve ser compreendida apenas como quantidade de animais transportados, mas também como capacidade de reconhecer problemas, buscar conhecimento, aprender com as jornadas realizadas e incorporar esse aprendizado às operações futuras.

A mesma lógica pode ser ampliada para além da relação entre médico-veterinário e transportador. Companhias aéreas, pesquisadores, universidades, autoridades e organizações relacionadas ao transporte animal possuem conhecimentos e responsabilidades distintos. A evolução do bem-estar no transporte internacional provavelmente depende menos da atuação isolada de cada setor e mais da capacidade de compartilhar problemas observados, formular perguntas, produzir evidências e transformar conhecimento em práticas operacionalmente viáveis.

Assim, a integração entre medicina veterinária e conhecimento operacional constitui um dos fundamentos do Bem-Estar Preventivo. Não se propõe transferir responsabilidades entre profissionais, mas fazer com que cada decisão seja tomada com acesso às informações necessárias para compreender o animal e a jornada como partes de um mesmo processo.

O Transporte Técnico Acompanhado e a atuação do ETTA representam, portanto, uma alternativa atualmente existente e documentada de acompanhamento especializado nas modalidades PETC e AVIH, podendo ser utilizada por opção do tutor e assumindo especial relevância quando as características do animal ou da jornada indicarem maior necessidade de acompanhamento.

4.4. Modalidades de transporte e suas implicações para o bem-estar

As modalidades utilizadas no transporte aéreo internacional de cães e gatos apresentam diferenças operacionais que podem modificar de maneira significativa a exposição do animal a estímulos, o grau de manuseio por terceiros, as condições ambientais, o tempo de permanência em espaço limitado e a possibilidade de acompanhamento e intervenção durante a jornada. Dessa forma, PETC, AVIH e Manifest Cargo não devem ser avaliados apenas como alternativas logísticas, mas também como condições distintas de transporte que podem influenciar o bem-estar do indivíduo.

No PETC, o animal permanece na cabine de passageiros, acondicionado no contentor e próximo ao responsável durante o voo. Embora essa modalidade reduza etapas de separação e manuseio por terceiros, o animal continua exposto a estímulos relacionados ao ambiente aeroportuário e à própria aeronave, incluindo movimentação, ruídos, iluminação, presença de pessoas desconhecidas, procedimentos de segurança, confinamento e duração da jornada. A proximidade do acompanhante não elimina esses estímulos, mas permite que alterações comportamentais ou sinais perceptíveis de desconforto sejam identificados mais rapidamente, além de possibilitar maior capacidade de manejo, dentro das regras aplicáveis.

No AVIH, embora o animal viaje no porão climatizado da mesma aeronave em que viaja o responsável, sua jornada inclui etapas adicionais de separação e manuseio. Após o check-in, o animal é conduzido por terceiros até a área operacional, permanece acondicionado no contentor, é submetido à movimentação necessária até a aeronave e posteriormente ao processo inverso no destino. Durante essas etapas, podem ocorrer exposição a ruídos, iluminação, movimentação de equipamentos, procedimentos de segurança, espera e permanência mais prolongada em espaço limitado. A possibilidade de exposição a diferenças de temperatura nas etapas externas da operação e a menor possibilidade de observação direta durante determinados períodos acrescentam fatores de risco que devem ser considerados no planejamento.

No Manifest Cargo, a operação apresenta características adicionais. O animal normalmente deve ser entregue antecipadamente no terminal de cargas, podendo permanecer por período prolongado sob responsabilidade da estrutura operacional antes do embarque. A jornada pode envolver diferentes setores, profissionais e etapas de movimentação, além dos procedimentos específicos de aceitação, armazenamento temporário, transporte até a aeronave, carregamento e posterior processamento no destino. Em determinadas operações internacionais, a participação de broker ou agente responsável pelos procedimentos de liberação na chegada também integra a logística. O maior número potencial de etapas e manuseios aumenta a importância do planejamento prévio e da avaliação das condições às quais o animal poderá ser submetido.

As diferenças entre as modalidades tornam inadequado avaliar sua segurança exclusivamente pelo local ocupado pelo animal dentro da aeronave. O risco deve ser analisado considerando toda a jornada, desde a preparação e saída do local de origem até a entrega no destino, incluindo tempos de espera, deslocamentos internos, conexões, condições ambientais, manuseio, possibilidade de observação e capacidade de resposta diante de intercorrências.

A modalidade disponível também pode ser determinada pelas características do próprio animal. Restrições relacionadas a peso, dimensões do contentor, raça, conformação anatômica, comportamento ou políticas específicas das companhias aéreas podem impedir a utilização de determinadas alternativas. Cães agressivos ou animais que representem risco durante o manejo, por exemplo, podem necessitar de contentores específicos e não apresentar condições compatíveis com circulação em áreas de passageiros ou permanência na cabine.

Os cães e gatos braquicefálicos representam exemplo particularmente relevante dessa relação entre características individuais e modalidade. Muitas companhias aéreas estabelecem restrições ao transporte desses animais em AVIH ou Manifest Cargo em razão dos riscos associados à sua conformação anatômica. Essas políticas, entretanto, não são uniformes. Existem companhias que admitem determinadas exceções mediante critérios próprios, como ocorre com a TAP Air Portugal, que prevê situações específicas de aceitação mediante certificação veterinária. Dessa forma, a avaliação não deve partir apenas da denominação da modalidade, mas das condições efetivamente oferecidas pela companhia, das regras aplicáveis e das características do indivíduo.

Outro aspecto importante é que as regras gerais de transporte, embora fundamentais para padronização e segurança operacional, não necessariamente contemplam de maneira individualizada todas as particularidades clínicas, comportamentais e fisiológicas dos diferentes animais. A aplicação das normas deve, portanto, ser associada à avaliação individual e ao planejamento da jornada.

Assim, embora o PETC apresente menor exposição a determinados fatores de risco operacional, não se propõe uma classificação absoluta aplicável a todos os animais e situações, uma vez que sua utilização depende das características do indivíduo e das restrições operacionais existentes. Propõe-se reconhecer que existem diferenças objetivas de exposição, riscos de intercorrências e possibilidade de intervenção entre as modalidades e que essas diferenças devem participar da avaliação da Aptidão para a Jornada.

A escolha da modalidade deve, portanto, considerar simultaneamente as características do animal, as condições da rota, as regras da companhia aérea, as restrições regulamentares, a duração prevista da jornada, as condições ambientais e

as possibilidades de acompanhamento e intervenção. Dentro da perspectiva do Bem-Estar Preventivo, a modalidade de transporte deixa de ser apenas uma decisão logística e passa a constituir uma das variáveis relevantes para o planejamento individualizado da jornada.

4.5 O Especialista em Transporte Técnico Acompanhado (ETTA) como estratégia de aplicação do Bem-Estar Preventivo

O Especialista em Transporte Técnico Acompanhado (ETTA) é um profissional idealizado pela Transporte Pet Internacional (TPI) para realizar o acompanhamento presencial de cães e gatos durante viagens aéreas nacionais e internacionais quando o tutor não pode viajar ou quando, mesmo presente na viagem, opta pelo acompanhamento especializado do animal. Sua atuação ocorre nas modalidades em que o animal viaja acompanhado — PETC ou AVIH — não constituindo, portanto, uma nova modalidade de transporte aéreo, mas uma estratégia de acompanhamento técnico incorporada à jornada planejada pela empresa.

O ETTA é capacitado para compreender as particularidades operacionais do transporte aéreo de animais e realizar o manejo durante a jornada dentro dos limites de sua atuação. Sua formação inclui primeiros socorros, Etologia Aplicada ao Manejo de Baixo Estresse e protocolos de Bem-Estar Preventivo, além do conhecimento dos procedimentos aeroportuários e das regras aplicáveis ao transporte. O profissional não substitui o médico-veterinário, não realiza diagnóstico ou prescrição e não modifica condutas clínicas estabelecidas. Sua função é acompanhar o animal, executar as orientações previamente definidas, observar alterações durante a jornada e tomar decisões operacionais quando as condições inicialmente planejadas se modificarem.

A proposta do acompanhamento especializado não surge apenas como construção teórica deste estudo. O ETTA foi desenvolvido a partir da experiência operacional da TPI e já foi abordado em trabalhos técnicos anteriores publicados pelos autores. No estudo dedicado ao transporte aéreo internacional de felinos (OLIVEIRA; RODRIGUES, 2026), o acompanhamento especializado foi analisado diante das particularidades fisiológicas e comportamentais da espécie e das limitações de acesso ao animal nas diferentes modalidades de transporte. O trabalho destacou que o PETC possibilita supervisão direta e intervenções de manejo durante a jornada, enquanto AVIH e Manifest Cargo apresentam períodos nos quais não existe possibilidade de assistência direta ao animal.

Essa diferença adquire relevância porque a necessidade de acompanhamento não é determinada exclusivamente pela existência de doença. Determinados indivíduos podem apresentar necessidades previsíveis de manejo mesmo estando clinicamente aptos para viajar. Animais braquicefálicos, cães e gatos de porte muito reduzido (toy), geriátricos, felinos com particularidades comportamentais, indivíduos mais susceptíveis ao estresse e animais que necessitem de hidratação, alimentação, higiene ou observação em intervalos determinados constituem exemplos nos quais a duração e as condições da jornada devem ser consideradas juntamente com as características individuais.

Nos animais transportados em cabine (PETC), o ETTA permanece com o pet durante toda a jornada, incluindo permanência no aeroporto, procedimentos de segurança, embarque, voo, conexões e desembarque. Essa característica permite observação contínua e, quando necessário, realização de procedimentos de manejo compatíveis com as regras da companhia aérea, como hidratação, alimentação, higiene, reorganização do ambiente de contenção e medidas de redução de estresse. A possibilidade de observar mudanças comportamentais ou físicas também permite reconhecer precocemente situações que justifiquem reavaliação da continuidade da viagem.

No AVIH, a atuação apresenta uma limitação importante: durante o período compreendido entre a entrega do animal à companhia aérea e sua devolução ao acompanhante, não existe acesso direto ao pet. O ETTA, entretanto, permanece responsável pelo acompanhamento nas demais etapas da jornada, permitindo preparação imediatamente anterior à entrega, avaliação após o desembarque e manejo durante conexões quando houver devolução e novo procedimento de embarque. A impossibilidade de acesso durante determinadas etapas deve, portanto, integrar a avaliação de Aptidão para a Jornada e a escolha da modalidade.

O acompanhamento torna-se particularmente relevante quando ocorrem situações não previstas no planejamento original. Atrasos, cancelamentos, alterações de rota, perda de conexões, mudanças meteorológicas ou aumento significativo do tempo total de trânsito transformam as condições da jornada. Um animal considerado apto para determinado itinerário pode não apresentar a mesma adequação quando essa jornada sofre alterações substanciais. Nesses casos, o ETTA possui autonomia operacional, dentro dos protocolos da TPI, para priorizar o bem-estar do animal, buscar alternativas e, quando necessário, interromper a continuidade da viagem.

Essa possibilidade constitui um dos pontos de integração entre o ETTA e o Bem-Estar Preventivo. O acompanhamento não deve ser entendido apenas como a presença física de um profissional ao lado do animal. Sua função é permitir que o planejamento preventivo permaneça ativo durante a execução da jornada, possibilitando reconhecer alterações entre aquilo que foi planejado e aquilo que efetivamente está acontecendo.

O Transporte Técnico Acompanhado e a atuação do ETTA representam, portanto, uma alternativa atualmente existente e documentada de acompanhamento especializado nas modalidades PETC e AVIH, podendo ser utilizada por opção do tutor e assumindo especial relevância quando as características do animal ou da jornada indicarem maior necessidade de acompanhamento.

Ao contrário, a proposta do Bem-Estar Preventivo pressupõe que novas alternativas possam e devam ser desenvolvidas. Transportadores, médicos-veterinários, pesquisadores, companhias aéreas e demais participantes da cadeia possuem experiências e conhecimentos distintos que podem originar novos protocolos, formas de acompanhamento, tecnologias e soluções destinadas à redução dos riscos e à melhoria das condições de transporte. Essas propostas devem ser compartilhadas, documentadas e, sempre que possível, submetidas à investigação científica.

Nesse sentido, iniciativas internacionais que incorporam o conceito de fitness for transport demonstram a possibilidade de maior participação da medicina veterinária na discussão sobre transporte de animais. A Canadian Veterinary Medical Association, por exemplo, estabelece em seu posicionamento sobre transporte de cães e gatos que os animais devem ser avaliados quanto à aptidão para a jornada pretendida e recomenda maior planejamento, monitoramento e manejo em jornadas prolongadas ou situações de maior risco.

No Brasil, essa discussão também poderia ser ampliada com a participação do Sistema CFMV/CRMVs, universidades, pesquisadores e entidades representativas da medicina veterinária. O próprio CFMV mantém uma Comissão Nacional de Bem-Estar Animal com atribuições que incluem produção de conteúdo técnico, proposição de planos de ação e ampliação do diálogo com agentes internos e externos sobre bem-estar animal.

A evolução do transporte aéreo de cães e gatos provavelmente não resultará de uma única empresa, profissão ou organização. Ela dependerá da aproximação entre aqueles que conhecem o animal, aqueles que conhecem a jornada e aqueles que podem pesquisar, regulamentar e transformar o conhecimento produzido em melhores práticas.

O ETTA constitui uma das alternativas surgidas desse processo. Outras poderão ser propostas e estudadas. O objetivo central não deve ser demonstrar qual empresa ou modelo é superior, mas produzir conhecimento capaz de identificar riscos, desenvolver alternativas e melhorar continuamente o bem-estar dos animais submetidos ao transporte aéreo.

4.6 Aptidão para a Jornada como condição dinâmica

A avaliação da aptidão de um animal para o transporte não deve ser dissociada das características da jornada que será realizada. A Canadian Veterinary Medical Association (CVMA), em seu posicionamento sobre o transporte de cães e gatos, recomenda que sejam consideradas previamente as condições físicas e mentais do animal em relação à jornada pretendida, incluindo duração, acesso à água e alimentação, condições de ventilação e temperatura, possibilidade de monitoramento e situações de maior vulnerabilidade. A entidade também ressalta que animais idosos, debilitados ou submetidos a jornadas prolongadas demandam maior planejamento, monitoramento e manejo.

Essa perspectiva é particularmente relevante porque estar clinicamente saudável não significa necessariamente possuir a mesma capacidade de adaptação diante de diferentes condições de transporte. Embora grande parte da literatura sobre fitness for transport tenha sido desenvolvida para animais de produção, o conceito reconhece que a duração e a qualidade da jornada podem impor desafios mesmo a animais inicialmente considerados saudáveis e aptos. Para cães e gatos, a literatura específica permanece limitada (TATEO; NANNI COSTA; PADALINO, 2022), e revisões recentes apontam importantes lacunas de conhecimento sobre os efeitos do transporte nessas espécies.

Nesse contexto, propõe-se neste estudo que a Aptidão para a Jornada seja compreendida não apenas como uma condição clínica determinada antes do embarque, mas como resultado da interação entre as características individuais do animal e as condições previstas para a viagem. Assim, a pergunta “este animal está apto para viajar?” pode ser insuficiente quando formulada sem conhecimento da rota, modalidade de transporte, duração total estimada, conexões, períodos de espera, condições ambientais, possibilidade de acompanhamento e demais fatores capazes de modificar as exigências impostas ao indivíduo.

Essa interpretação permite compreender que um mesmo animal pode apresentar condições adequadas para determinada jornada e condições menos favoráveis para outra. Um voo direto e acompanhado, por exemplo, não impõe necessariamente as mesmas demandas que uma viagem com múltiplas conexões ou períodos prolongados sem acesso ao animal. Da mesma forma, características que podem assumir menor relevância em uma jornada curta podem adquirir maior importância à medida que aumentam o tempo de trânsito, o confinamento ou a exposição a estímulos ambientais.

Entretanto, o planejamento inicial representa apenas uma previsão das condições da viagem. A operação aérea é dinâmica. Atrasos, cancelamentos, alterações de rota, perda de conexões, mudanças de aeroporto, indisponibilidade de voos e condições meteorológicas podem modificar substancialmente uma jornada após seu início. Consequentemente, uma viagem inicialmente planejada para determinado período pode prolongar-se por várias horas ou exigir uma alternativa operacional completamente diferente.

Sob a perspectiva do Bem-Estar Preventivo, essas alterações devem desencadear uma nova análise: as condições que justificaram a realização daquela jornada permanecem válidas diante do novo cenário? Dessa forma, propõe-se que a Aptidão para a Jornada seja considerada uma condição potencialmente dinâmica, sujeita à reavaliação quando ocorrerem modificações relevantes nas circunstâncias inicialmente consideradas.

Essa reavaliação não significa que o profissional responsável pelo transporte deva realizar nova avaliação clínica, atribuição que permanece médico-veterinária. Significa reconhecer alterações operacionais capazes de modificar a exposição do animal aos riscos previamente identificados. Quando essas mudanças forem relevantes, o transportador deve considerar as orientações estabelecidas no planejamento e, quando necessário, estabelecer contato com o médico-veterinário responsável ou buscar assistência veterinária antes de prosseguir.

Essa abordagem também amplia o significado do planejamento preventivo. Planejar uma jornada não consiste somente em estabelecer a melhor rota disponível, mas também em antecipar alternativas para situações previsíveis de falha operacional. Sempre que possível, a seleção de voos pode considerar a existência de alternativas posteriores, tempos adequados para conexões, estrutura disponível nos aeroportos e possibilidades de interrupção ou reorganização da viagem. Dessa forma, a existência de um plano alternativo passa a constituir parte da estratégia de redução de riscos, especialmente para indivíduos considerados mais vulneráveis.

Um exemplo é a utilização do último voo disponível em determinado trecho. Embora essa opção possa ser operacionalmente adequada em condições normais, um cancelamento ou perda de conexão pode eliminar alternativas para continuidade da viagem naquele mesmo dia, aumentando o tempo total de trânsito e eventualmente exigindo permanência prolongada em aeroporto ou pernoite. A consideração desse cenário ainda na fase de planejamento permite avaliar se uma opção anterior, quando disponível, oferece maior margem de resposta diante de uma intercorrência.

Essa lógica também modifica a interpretação do sucesso operacional. Concluir o itinerário originalmente contratado não deve ser o único parâmetro para determinar uma viagem bem-sucedida. Se as condições se modificarem de maneira que a continuidade represente aumento relevante e evitável de risco ao animal, adiar, alterar ou interromper a jornada pode representar uma decisão compatível com o Bem-Estar Preventivo, ainda que isso implique mudança do planejamento inicial.

A abordagem encontra pontos de convergência com recomendações internacionais recentes. A World Small Animal Veterinary Association (WSAVA), em material dedicado ao bem-estar de cães e gatos durante o transporte, recomenda considerar saúde física, mental e emocional, raça, idade e condições médicas, além de prever acesso à água, alimentação, eliminação e verificação do bem-estar durante jornadas prolongadas quando possível. A CVMA, por sua vez, relaciona expressamente a aptidão do animal à jornada pretendida e recomenda planejamento para potenciais problemas relacionados ao transporte (WSAVA; WVA, 2025).

Entretanto, a proposta de considerar a Aptidão para a Jornada como uma condição dinâmica ao longo do transporte constitui uma ampliação conceitual apresentada neste trabalho. São necessários estudos que investiguem como alterações de duração, conexões, temperatura, modalidade, acesso ao animal e outras intercorrências modificam indicadores fisiológicos e comportamentais em cães e gatos e em que condições esses fatores justificariam a revisão da decisão inicial de prosseguir com a viagem.

Nesse sentido, o Bem-Estar Preventivo propõe substituir uma lógica exclusivamente reativa por uma abordagem baseada em antecipação, planejamento, observação e capacidade de adaptação. O objetivo não é eliminar todos os riscos — condição inviável em qualquer operação de transporte —, mas identificá-los previamente, reduzir aqueles que possam ser evitados e manter alternativas disponíveis quando a jornada real deixar de corresponder àquela que foi originalmente planejada.

Assim, a Aptidão para a Jornada não deve responder apenas se o animal pode iniciar uma viagem, mas se as condições às quais ele será efetivamente submetido permanecem compatíveis com sua capacidade de realizá-la com segurança e bem-estar.

4.7 Limitações atuais, inovação e perspectivas de pesquisa

A análise realizada também evidencia uma limitação importante do conhecimento atualmente disponível. Embora existam estudos relacionados ao transporte de cães e gatos, ao estresse, à aptidão para o transporte, ao comportamento e às particularidades fisiológicas de diferentes grupos de animais, a literatura específica sobre a integração dessas variáveis no transporte aéreo internacional permanece limitada.

Essa limitação assume especial importância quando são propostas estratégias desenvolvidas a partir da experiência operacional, como o Bem-Estar Preventivo e o Transporte Técnico Acompanhado. A existência dessas abordagens não constitui, isoladamente, demonstração científica de sua eficácia, mas também não deve impedir que sejam descritas, analisadas e submetidas à investigação.

No caso do Transporte Técnico Acompanhado, ainda são necessários estudos comparativos capazes de mensurar seus efeitos sobre indicadores fisiológicos, comportamentais e operacionais e determinar em quais circunstâncias seus benefícios são mais relevantes. A experiência acumulada pode contribuir para formular hipóteses, identificar variáveis importantes e orientar o desenho de futuras pesquisas, mas seus resultados devem ser avaliados por métodos independentes sempre que possível.

Da mesma forma, o Bem-Estar Preventivo deve ser compreendido como uma abordagem aberta ao aperfeiçoamento. Sua fundamentação atual resulta da convergência entre conhecimentos já estabelecidos sobre bem-estar animal, comportamento, aptidão para o transporte, características individuais e fatores operacionais da jornada, associados à experiência prática de relocação internacional. Entretanto, a integração específica desses elementos em protocolos aplicados ao transporte aéreo de cães e gatos ainda demanda maior investigação.

São particularmente necessários estudos prospectivos e retrospectivos envolvendo diferentes modalidades de transporte, durações de jornada, condições ambientais, perfis individuais, respostas comportamentais e indicadores fisiológicos. A comparação entre viagens acompanhadas e não acompanhadas, diferentes estratégias de preparação, diferentes configurações de rota e distintos níveis de possibilidade de intervenção também poderá contribuir para identificar quais fatores apresentam maior impacto sobre o bem-estar.

Essa necessidade de pesquisa não implica que iniciativas existentes devam permanecer invisíveis até que todos os seus efeitos sejam quantificados. A inovação prática pode constituir ponto de partida para investigação científica, desde que suas limitações sejam explicitadas e que a experiência não seja apresentada como substituta de evidência.

Outros transportadores podem desenvolver diferentes estratégias de acompanhamento e prevenção. Médicos-veterinários, universidades e pesquisadores podem investigar essas práticas, propor modificações ou desenvolver novos protocolos. Companhias aéreas, entidades profissionais e órgãos reguladores também podem contribuir para essa evolução.

Nesse processo, a relação entre experiência e ciência pode ser compreendida de forma complementar: a experiência operacional identifica problemas e produz perguntas; a pesquisa testa essas perguntas e produz conhecimento; e o conhecimento pode retornar à prática na forma de procedimentos progressivamente mais adequados.

Sob essa perspectiva, o Bem-Estar Preventivo não propõe simplesmente acrescentar procedimentos ao transporte, mas modificar a pergunta central da operação. Em vez de considerar apenas “como fazer este animal chegar ao destino?”, propõe-se considerar também:

“como planejar, executar e adaptar esta jornada para reduzir, tanto quanto possível, os riscos e impactos impostos a este indivíduo?”

5. CONCLUSÃO

O transporte aéreo internacional de cães e gatos constitui uma jornada complexa, na qual o cumprimento das exigências sanitárias, documentais, técnicas e operacionais é indispensável, mas não contempla, isoladamente, todos os fatores capazes de interferir no bem-estar do animal. As características individuais, a modalidade de transporte, a duração total da jornada, as conexões, as condições ambientais, o confinamento, o manuseio por terceiros e as possibilidades de acompanhamento e intervenção modificam a exposição aos riscos e devem ser consideradas de forma integrada.

A análise realizada neste estudo indica que a avaliação do transporte não deve se limitar à constatação de que o animal se encontra clinicamente saudável ou documentalmente habilitado para viajar. A Aptidão para a Jornada amplia essa perspectiva ao relacionar as condições físicas, clínicas e comportamentais do indivíduo às características concretas da viagem pretendida. Dessa forma, a questão deixa de ser apenas se determinado cão ou gato pode viajar e passa a considerar se aquele indivíduo apresenta condições adequadas para realizar aquela jornada específica, daquela forma e naquele momento.

Essa interpretação possui implicações práticas importantes. Uma condição individual que represente pequena vulnerabilidade em determinada jornada pode adquirir maior relevância diante de confinamento prolongado, temperaturas desfavoráveis, múltiplas conexões, impossibilidade de acesso ao animal ou alterações inesperadas da operação. Da mesma maneira, características tradicionalmente associadas a maior risco — como braquicefalia, idade avançada, baixo peso corporal, obesidade ou determinadas respostas comportamentais — não devem ser interpretadas isoladamente como determinantes da impossibilidade de transporte. A avaliação deve considerar a interação entre o indivíduo e as condições às quais ele efetivamente será submetido.

A Aptidão para a Jornada também deve ser compreendida como potencialmente dinâmica. A avaliação inicial ocorre diante de uma viagem planejada, mas atrasos, cancelamentos, alterações de aeronave ou rota, perda de conexões, mudanças meteorológicas e outras intercorrências podem transformar substancialmente a jornada efetivamente realizada. Nessas circunstâncias, as condições inicialmente consideradas compatíveis com determinado animal podem deixar de sê-lo, tornando necessária a reconsideração das decisões previamente estabelecidas.

Nesse contexto, o Bem-Estar Preventivo propõe incorporar a identificação antecipada dessas vulnerabilidades ao planejamento da viagem. Seu princípio não consiste em eliminar todos os riscos inerentes ao transporte aéreo, objetivo que dificilmente poderia ser alcançado, mas em utilizar o conhecimento disponível sobre o animal e sobre a jornada para reconhecer riscos previsíveis, reduzir exposições desnecessárias, estabelecer medidas preventivas e preparar alternativas para situações capazes de modificar as condições inicialmente planejadas.

Essa abordagem evidencia a importância da integração entre conhecimentos que pertencem a diferentes áreas profissionais. O médico-veterinário possui competência para avaliar as condições clínicas, fisiológicas e comportamentais do animal, enquanto o transportador especializado detém informações relacionadas às modalidades disponíveis, rotas, conexões, procedimentos aeroportuários, períodos de inacessibilidade ao animal e possibilidades reais de alimentação, hidratação, acompanhamento e intervenção. A integração dessas informações não representa sobreposição de competências, mas permite que decisões clínicas e operacionais sejam tomadas considerando condições mais próximas daquelas que o animal efetivamente enfrentará durante a jornada.

As modalidades de transporte também não devem ser analisadas exclusivamente como alternativas logísticas. PETC, AVIH e Manifest Cargo produzem diferentes condições de exposição, manuseio, confinamento, acesso ao animal e possibilidade de intervenção. Entre as modalidades analisadas neste estudo, o PETC apresentou menor exposição a determinados fatores de risco operacional, especialmente pela permanência do animal próximo ao acompanhante, menor manuseio por terceiros e maior possibilidade de observação. Entretanto, limitações relacionadas a peso, dimensões do contentor e políticas das companhias aéreas restringem significativamente sua utilização, especialmente para cães de médio e grande porte.

O Transporte Técnico Acompanhado, desenvolvido pela Transporte Pet Internacional e executado por meio do Especialista em Transporte Técnico Acompanhado (ETTA), representa uma alternativa atualmente aplicada às modalidades PETC e AVIH. Sua proposta é permitir que o planejamento preventivo permaneça ativo durante a execução da jornada, possibilitando acompanhamento, observação, manejo e tomada de decisões operacionais dentro dos limites de atuação do profissional. O ETTA não substitui o médico-veterinário, não realiza diagnóstico ou prescrição e deve atuar integrado às orientações previamente estabelecidas e ao suporte veterinário quando necessário.

A existência dessa alternativa, entretanto, não permite concluir, com o conhecimento científico atualmente disponível, que o acompanhamento especializado produza necessariamente melhores resultados em todas as situações. Ainda são necessários estudos comparativos capazes de avaliar seus efeitos sobre indicadores fisiológicos, comportamentais e operacionais e identificar em quais circunstâncias seus benefícios são mais relevantes. Da mesma forma, o Bem-Estar Preventivo deve permanecer aberto à investigação científica, à crítica e ao aperfeiçoamento. O próprio estudo reconhece expressamente essa limitação e a necessidade de pesquisas futuras.

A escassez de pesquisas específicas sobre o transporte aéreo de cães e gatos constitui uma das principais limitações para o estabelecimento de recomendações amplamente baseadas em evidências. Estudos prospectivos e retrospectivos envolvendo diferentes modalidades, durações de jornada, condições ambientais, características individuais e indicadores fisiológicos e comportamentais poderão contribuir para avaliar práticas atualmente utilizadas, identificar novas vulnerabilidades e desenvolver estratégias progressivamente mais adequadas às necessidades dos animais.

O Bem-Estar Preventivo e o Transporte Técnico Acompanhado são, portanto, apresentados neste trabalho não como soluções únicas ou definitivas, mas como contribuições atualmente existentes para uma área ainda em desenvolvimento. Outros transportadores podem propor diferentes estratégias; médicos-veterinários, universidades e pesquisadores podem investigar e aperfeiçoar essas práticas; companhias aéreas podem desenvolver novos procedimentos; e entidades profissionais e órgãos reguladores podem incorporar o conhecimento produzido à evolução das recomendações e normas. Essa abertura a outras soluções já constitui parte importante da formulação original do trabalho.

A evolução do transporte internacional de cães e gatos provavelmente dependerá, portanto, da aproximação entre aqueles que conhecem o animal, aqueles que conhecem a jornada e aqueles capazes de transformar observações em conhecimento científico, procedimentos técnicos e melhores práticas. O cumprimento das normas deve constituir o ponto de partida indispensável dessa evolução, mas o conhecimento disponível pode permitir que a proteção ao bem-estar avance além da simples reação às intercorrências.

Sob essa perspectiva, chegar ao destino não deve constituir o único indicador de uma viagem bem-sucedida. As condições enfrentadas pelo animal durante o percurso também precisam ser consideradas. Em determinadas circunstâncias, modificar uma rota, interromper temporariamente a jornada, adiar sua continuidade ou mesmo reconsiderar o transporte pode representar uma medida de proteção ao bem-estar, e não uma falha operacional.

O desafio não consiste em tornar o transporte aéreo de animais completamente isento de riscos, mas em substituir progressivamente uma lógica predominantemente reativa por uma abordagem também preventiva: conhecer o animal, conhecer a jornada, avaliar a compatibilidade entre ambos, antecipar dificuldades e estar preparado para modificar decisões quando as condições mudarem.

Nesse sentido, talvez a principal contribuição do Bem-Estar Preventivo seja também a mais simples: não esperar que um problema aconteça para começar a pensar no bem-estar do animal que será transportado.

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  1. Médica-veterinária da Transporte Pet Internacional LTDA – Nova Lima – MG – Brasil. CRMV-MG 4202.

  2. Especialista em transporte internacional de cães e gatos da Transporte Pet Internacional LTDA – Nova Lima – MG – Brasil. ORCID: https://orcid.org/0009-0000-8413-3449

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Copyright (c) 2026 Aléxia Rodrigues Lage, Daniel Pinto Coelho Martins de Oliveira (Autor)

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