Factores críticos de insucesso no ensino do português, língua não-materna: um estudo junto dos professores do ensino primário no município do Cuvango
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
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Resumo: Embora estudos recentes apontem para a emergência de um português angolano, reconhece-se esta língua como sendo um idioma herdado durante um longo período de colonização portuguesa, o que a torna, em determinados contextos e situações sociais, numa língua não-materna, como é o caso aqui tratado. Portanto, foi pensando neste aspecto real que a presente investigação propôs-se a fazer uma indagação no domínio do ensino da língua portuguesa, língua não-materna, numa perspectiva descritiva sobre os factores críticos que estão na base do insucesso no seu ensino, com realce para os professores do subsistema de ensino primário no município do Cuvango, província da Huíla.

Palavras-chave: língua materna; língua não materna; ensino da língua não materna; factores críticos de insucesso.

Resumen: Aunque estudios recientes apuntan al surgimiento del portugués angoleño, esta lengua es reconocida como una lengua heredada durante un largo período de colonización portuguesa, lo que la convierte, en determinados contextos y situaciones sociales, en una lengua no materna, como es el caso aquí comentado. Por lo tanto, fue con este aspecto real en mente que la presente investigación se propuso investigar el campo de la enseñanza de la lengua portuguesa, lengua no materna, desde una perspectiva descriptiva sobre los factores críticos que subyacen al fracaso en su enseñanza, particularmente para los profesores del subsistema de educación primaria en el municipio de Cuvango, provincia de Huíla.

Palabras clave: lengua materna; lengua no materna; enseñanza en lengua materna; factores críticos de fracaso.

Abstract: Although recent studies point to the emergence of an Angolan Portuguese, this language is recognized as being an inherited language during a long period of Portuguese colonization, which makes it, in certain contexts and social situations, a non-mother tongue, which is the case discussed here. Therefore, it was with this real aspect in mind that the present investigation proposed to make an inquiry in the field of teaching Portuguese, a non-mother tongue, from a descriptive perspective on the critical factors that underlie failure in its teaching, with emphasis on teachers of the primary education subsystem in the municipality of Cuvango, province of Huíla.

Keywords: mother tongue; non-mother tongue; teaching of a non-native language; critical factors of failure.

1. Introdução

Com intuito de oferecermos um estudo que versasse a indagação de factores críticos de insucesso no ensino do português, língua não-materna, no subsistema do ensino primário na comuna Sede, município do Cuvango, propusemo-nos produzir a presente investigação, cuja natureza é descritiva, e que se insere nos estudos da didáctica das línguas.

Neste trabalho apresentam-se reflexões em torno do ensino da Língua Portuguesa, tendo como objecto de análise os factores do insucesso escolar dos alunos com o português língua não-materna, (segunda). Essas reflexões fitaram-se em determinados factores que podem estar adjacentes ao insucesso no ensino do português, enquanto língua não-materna no I Ciclo do Ensino Primário, no município do Cuvango, província da Huíla. Em relação à sua estrutura, o mesmo é composto por três capítulos principais, para além da nota introdutória, das conclusões e respectivas sugestões.

2. Revisão Bibliográfica

Há mais de uma década que linguistas e investigadores angolanos, vêm intensificando esforços na elaboração e publicação de trabalhos científicos e de teorias, visando apresentar um retrato da real situação sociolinguística do país. O caminho afigura-se longo e trabalhoso, porquanto, embora exista esta preocupação por parte de alguns académicos, tais frutos não podem continuar a circunscrever-se, tão-somente, a dissertações, teses e/ou artigos. Mas deveriam ser mais aproveitados por parte dos decisores políticos, numa verdadeira conjugação de esforços para transformação destes resultados em autênticos materiais didácticos que possam impactar cada vez mais e melhor a prática de ensinar o português e em português nos diferentes contextos e situações sociolinguísticas.

Na opinião de Gaspar (2015), embora determinados programas estejam a dar os primeiros passos para uma metodologia de ensino do português como língua não-materna, a formação de professores continua a não contemplar esta realidade linguística e educativa. A autora sustenta essa ideia com a afirmação de Rodrigues ao asseverar:

Cria-se, assim, uma notória discrepância entre a política educacional para o ensino da língua portuguesa e o uso diário desta língua na escola. Os professores, que deveriam ter um papel decisivo na transmissão desta norma, por falta de formação sentem uma grande insegurança linguística, o que se reflecte na sua prática profissional e afecta, naturalmente, os alunos. (Rodrigues, apud Gaspar. 2015: 25)

A prática do ensino da língua portuguesa, como diremos mais adiante, obedece aos procedimentos de um ensino de uma língua materna, no qual se privilegiam técnicas expositivas e memorizações das regras gramaticais.

É notório o interesse de determinadas individualidades em apresentar soluções e alternativas educativas, quer em contextos multiculturais, quer de ensino e aprendizagem de português língua não-materna.

Cabe aqui mencionar Gaspar, 2015; João Fernandes e Zavoni Ntondo, 2002; Mingas, 2002; Costa, 2002; Figueiredo, 2003; Cabral, 2005; Adriano, 2011 e 2014; Rodrigues, 2012; Undolo, 2016; António, 2022; Carrasco, 2022, Ntondo, 2023 entre outros que discutem e comparam aspectos convergentes e, principalmente, divergentes da variante angolana e a europeia.

Os resultados destes estudos apontam, na sua quase totalidade, como potenciais causas desta divergência, os fenómenos, não só de natureza linguística, mas, principalmente os fenómenos de natureza social, em parte, conforme garante António (2020: 12), “há um distanciamento entre o Português falado pelos angolanos e o Português europeu, apontando-se como causa, entre outras, os fenómenos de contacto linguístico”.

Como se pode prever, esta e outras observações podem, ao falarmos do ensino do português, língua não-materna, nos sugerir uma imensidão de etapas/fases que precedem e acompanham a espinhosa, mas nobre missão de ensino e aprendizagem de uma língua “nova”, língua não-materna. Esta missão de ensinar é, no dizer de Filho, apenas uma das várias etapas/fases:

Esse ensinar vamos representar teoricamente como uma grande operação de quatro estações/fases ou dimensões: o planeamento curricular e de cursos, a produção/avaliação de materiais, o ensino propriamente dito consubstanciado num método (procedimental) com experiências na nova língua, e a avaliação de rendimento e proficiência na língua-alvo. Todas as estações mutuamente se influenciam e todas se orientam pela abordagem ou filosofia maior de ensino a que estão atreladas. (cf. Filho, (s/d: s/p).

Podemos inferir que no contexto de Angola, caracterizado por uma pluralidade de povos e línguas com características peculiares, exige-se um redimensionamento na concepção de políticas adequadas/adaptáveis a cada realidade e necessidade sociais.

Não pretendemos, com esta investigação, esgotar a questão das etapas/fases ou dimensões na concepção de políticas no sector da educação em geral, pois assim estaríamos a limitar o estudo, quer aos planos curriculares de cada nível de ensino, quer aos programas, quer ainda aos respectivos materiais didácticos ou conteúdos, simplesmente. Pretende-se, no entanto, fazer uma descrição dos procedimentos metodológicos adoptados pelos professores na adequação e adaptação dos programas e dos conteúdos a ministrar para garantir o sucesso escolar no ensino do português, língua não-materna ao nível do subsistema de ensino básico nas zonas rurais. Pois, entendemos tratar-se de uma prática profissional que requer uma necessária e específica formação profissional, contínua e teórico-científica alicerçada em conhecimentos e processos de ensino e aprendizagem de uma segunda língua.

3. Identificação do problema

Entendemos ser oportuno contribuir com reflexões ao nível de desenvolvimento e implementação de metodologias de ensino mais adequadas a diferentes contextos, de maneira que, dependendo das circunstâncias, o professor seja capaz de seleccionar as opções adequadas aos seus alunos. Mediante o exposto, o trabalho procura responder ao seguinte problema de investigação:

Que metodologias utilizar no ensino da língua portuguesa em contexto de língua não-materna, (língua segunda)?

4. Objectivos

Para dar corpo à investigação e responder à anterior pergunta de partida, prosseguem-se os objectivos subsequentes:

  • Analisar os procedimentos metodológicos no ensino do português, língua não-materna (segunda), tendo em conta o perfil linguístico dos alunos das zonas rurais;
  • Caracterizar o I Ciclo do Ensino Primário – Iniciação, 1ª e 2ª Classes;
  • Identificar os factores críticos de insucesso no ensino do português, língua não-materna (segunda).

5. Metodologia utilizada

Com vista ao alcance dos objectivos previamente traçados, e ao cumprimento cabal do presente trabalho, faz-se necessário utilizar um procedimento técnico e metodológico.

Assim, no que diz respeito à metodologia utilizada, seguiram-se, como principais métodos: os métodos teóricos que se socorreram das técnicas indutivo-dedutivo e análise-síntese, possibilitando tirar inferências sobre determinados aspectos que influenciam negativamente no sucesso do ensino da língua portuguesa. No quadro de tratamento de dados, seguiram-se os métodos empíricos consubstanciados nas técnicas de amostragem não probabilística intencional, utilizando um inquérito por questionário e estatístico.

6. Discussão dos resultados

Com vista à plena realização do presente trabalho, efectuou-se uma sondagem de opiniões dirigida aos professores, como já dito, do ensino primário, mais precisamente que trabalham com a Iniciação, 1ª e 2ª Classes, da comuna Sede do município do Cuvango, província da Huíla.

No que concerne ao nível de escolaridade dos professores-informantes, foi de nosso interesse constatar o grau de formação que os mesmos ostentam e se o mesmo lhes possibilita ou não na adequação e/ou contextualização dos programas nas situações em que tal procedimento é requerido. O gráfico que se segue expõe, percentualmente, o nível académico dos informantes:

Gráfico 1: Representação gráfica do nível de escolaridade dos professores-informantes

Pelos dados patentes no gráfico, verifica-se que a maior parte dos professores-informantes só têm o ensino médio concluído. Este dado chama-nos particular atenção, sobretudo quando aliado à especialização, pois, nenhum deles tem a formação de professores sendo que, a única escola de formação média no município, até então, é a escola de formação geral, também designada por Liceu de onde são provenientes, e que em nosso entender esse dado pode estar associado ao fraco entendimento sobre estratégias de ensino de uma língua não-materna e a consequente dificuldade de adaptabilidade dos planos curriculares, programas e conteúdos.

No que a sua língua materna diz respeito, do total de professores-informantes, doze (12) têm o Ngangela como língua materna representando 50%, sete (7) a língua Umbundu numa percentagem de 29%. A língua Portuguesa e o Olunyaneka vêm a seguir com três (3) e um (1) professores-informantes falantes nativos, representando, respectivamente, 13% e 4%, sendo que um (1) representando 4% não indicou a sua língua materna, tal como se pode observar na tabela que se segue.

Tabela 1: Língua materna dos professores-informantes

Como se pode depreender, metade dos professores-informantes têm a língua Ngangela como sendo língua materna. Esta situação justifica-se, por tratar-se de uma região limítrofe com a província do Cuando Cubango, província habitada, maioritariamente, por este grupo etnolinguístico, dos Ovangangela. É igualmente forte a presença de um outro povo do grupo bantu – os Ovimbundu daí a considerável percentagem de professores-informantes deste grupo.

A exemplo da representação numérica dos professores-informantes, os alunos, maioritariamente, vêm de casa para escola falando exclusivamente a língua Ngangela, sendo sua língua materna, conforme os dados na tabela que se segue:

Tabela 2: Língua materna dos alunos

De acordo com a tabela referente à língua materna dos alunos, no cômputo geral mais de 85% dos alunos com que trabalham os nossos informantes, vêm de casa para a escola falando apenas ou o Ngangela e o Cokwe. Quer isto dizer que apenas um pouco mais de 20% dos alunos chegam para a escola falando já o português.

Este dado é aqui interpretado como sendo um dos factores inibidores do sucesso no ensino-aprendizagem da língua portuguesa, que para muitos alunos é uma língua não-materna, (língua segunda) o que exige dos professores a utilização de metodologias adequadas para o ensino de uma língua segunda visando o desenvolvimento das habilidades linguísticas dos aprendentes (alunos) não falantes do português. Como se sabe, o aluno, e não só, tem, regra geral, uma tendência natural de se comunicar na língua que melhor domina.

7. Conclusões

De tudo quanto foi dito, pode-se inferir que os factores que estão na base do insucesso escolar no ensino e aprendizagem do português língua não-materna são de ordem linguística e não linguística, mormente:

  • O facto de os alunos terem contacto com português apenas na escola;
  • A existência de professores que não dominam a língua materna dos alunos;
  • A uniformidade no ensino da L. Portuguesa;
  • A ignorância, nos programas curriculares, dos diferentes contextos sociolinguísticos.

7.1 Sugestões

Decorrente destas e doutras conclusões a que se chegou com a presente investigação, sugere-se:

  • A concepção de planos curriculares diferenciados, capazes de respeitar os diferentes contextos sociais, geográfico-linguísticos dos alunos;
  • A implementação de um ensino nas línguas locais, por exemplo, nas zonas rurais, o ensino nos primeiros anos de escolaridade far-se-ia nas línguas locais, ao mesmo tempo que se vai introduzindo, gradualmente, a língua portuguesa.

Referências

ADRIANO, Paulino Soma. (2014). Tratamento morfossintáctico de expressões e estruturas frásicas do português em Angola. Divergências em relação à norma europeia. Universidade de Évora.

CLÁUDIO, Augusta Nalufe. (2011). Currículo da Educação Pré-Escolar. 2ª Edição. Luanda. INIDE.

FERNANDES, João e NTONDO, Zavoni. (2002). Angola: Povos e Línguas. 1ª Edição. Luanda. Editorial Nzila.

GASPAR, Sofia Isabel Neves Fernandes. (2015). A língua Portuguesa em Angola. Contributos para uma metodologia de Língua Segunda. Universidade Nova de Lisboa.

NTONDO, Zavoni. (2023). Manual de Linguística Bantu. 1ª Edição. Luanda. Mayamba Editora.

UNDOLO, Márcio. (2020). Introdução à Linguística Aplicada ao Ensino de Português. 1ª Edição. Edições EC

  1. Médico e docente do Instituto Superior Politécnico do Waku-Kungo (ISP Waku-Kungo), graduado em Medicina pela Universidade José Eduardo dos Santos. ORCID: https://orcid.org/0009-0009-9716-389

  2. Licenciado no Instituto Superior Politécnico da Caála e Docente do Instituto Superior Privado do Waku Cungo

  3. ORCID: https://orcid.org/0009-0002-8443-8634

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