Internações por dependência química no Brasil nos anos de 2016 à 2025
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
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RESUMO

Introdução: Os transtornos mentais e comportamentais decorrentes do uso de substâncias psicoativas constituem importante problema de saúde pública, associados à elevada morbidade, necessidade de hospitalização, reinternações e impactos sociais e econômicos. No Brasil, a magnitude dessas internações apresenta diferenças segundo características sociodemográficas, substâncias envolvidas e regiões, tornando relevante o monitoramento de sua distribuição e evolução temporal. Objetivo: Analisar o perfil epidemiológico e a tendência temporal das internações hospitalares relacionadas aos transtornos decorrentes do uso de substâncias psicoativas no Brasil. Métodos: Estudo epidemiológico, descritivo e retrospectivo, baseado em dados do Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SIH/SUS). Foram analisadas internações ocorridas entre janeiro de 2016 e dezembro de 2025 , segundo sexo, faixa etária, raça/cor, substância psicoativa, região e evolução temporal. Resultados: Houve predominância do sexo masculino (75%) e da faixa etária de 25 a 44 anos (60%). Indivíduos pardos representaram 40% das internações, seguidos por brancos (38%) e pretos (18%). O álcool foi a principal substância envolvida (52%), seguido por cocaína/crack (28%), múltiplas drogas (14%) e canabinoides/outras substâncias (6%). A Região Sudeste concentrou 43% das internações, seguida pelas regiões Sul (23%) e Nordeste (17%). Observou-se redução das hospitalizações em 2020 e crescimento progressivo a partir de 2021, com pico em 2025. Conclusão: O perfil das internações evidencia maior concentração entre homens adultos jovens e predominância do álcool, acompanhada de expansão das hospitalizações relacionadas à cocaína/crack. Os achados reforçam a necessidade de fortalecer ações preventivas e a Rede de Atenção Psicossocial, considerando as especificidades regionais.

Palavras-chave: Transtornos relacionados a substâncias; Dependência química; Internação hospitalar; Saúde mental; Sistema Único de Saúde.

ABSTRACT

Introduction: Mental and behavioral disorders resulting from psychoactive substance use constitute an important public health problem and are associated with high morbidity, hospitalization, readmissions, and social and economic impacts. In Brazil, the magnitude of these hospitalizations varies according to sociodemographic characteristics, substances involved, and geographic regions, making it important to monitor their distribution and temporal trends. Objective: To analyze the epidemiological profile and temporal trend of hospitalizations related to disorders resulting from psychoactive substance use in Brazil. Methods: This was a descriptive, retrospective epidemiological study based on data from the Hospital Information System of the Brazilian Unified Health System (SIH/SUS) Hospitalizations occurring between January 2017 and December 2026 were analyzed according to sex, age group, race/skin color, psychoactive substance, geographic region, and temporal evolution. Results: There was a predominance of males (75%) and individuals aged 25–44 years (60%). Brown/mixed-race individuals accounted for 40% of hospitalizations, followed by White individuals (38%) and Black individuals (18%). Alcohol was the main substance involved (52%), followed by cocaine/crack (28%), multiple substances (14%), and cannabinoids/other substances (6%). The Southeast region accounted for 43% of hospitalizations, followed by the South (23%) and Northeast (17%). A reduction in hospitalizations was observed in 2020, followed by progressive growth from 2021 onward, with a peak in 2025. Conclusion: The hospitalization profile showed a higher concentration among young adult men and a predominance of alcohol-related disorders, accompanied by an expansion of hospitalizations associated with cocaine/crack. These findings reinforce the need to strengthen preventive actions and the Psychosocial Care Network while considering regional epidemiological specificities.

Keywords: Substance-related disorders; Substance dependence; Hospitalization; Mental health; Unified Health System.

RESUMEN

Introducción: Los trastornos mentales y conductuales derivados del consumo de sustancias psicoactivas constituyen un importante problema de salud pública y se asocian con elevada morbilidad, hospitalizaciones, readmisiones e impactos sociales y económicos. En Brasil, la magnitud de estas hospitalizaciones varía según las características sociodemográficas, las sustancias involucradas y las regiones geográficas, por lo que es relevante monitorear su distribución y evolución temporal. Objetivo: Analizar el perfil epidemiológico y la tendencia temporal de las hospitalizaciones relacionadas con trastornos derivados del consumo de sustancias psicoactivas en Brasil. Métodos: Estudio epidemiológico, descriptivo y retrospectivo, basado en datos del Sistema de Información Hospitalaria del Sistema Único de Salud de Brasil (SIH/SUS). Se analizaron las hospitalizaciones ocurridas entre enero de 2017 y diciembre de 2026, según sexo, grupo etario, raza/color de piel, sustancia psicoactiva, región geográfica y evolución temporal. Resultados: Se observó predominio del sexo masculino (75%) y del grupo etario de 25 a 44 años (60%). Las personas pardas representaron el 40% de las hospitalizaciones, seguidas por las personas blancas (38%) y negras (18%). El alcohol fue la principal sustancia involucrada (52%), seguido de cocaína/crack (28%), múltiples sustancias (14%) y cannabinoides/otras sustancias (6%). La región Sudeste concentró el 43% de las hospitalizaciones, seguida por las regiones Sur (23%) y Nordeste (17%). Se observó una reducción de las hospitalizaciones en 2020, seguida de un crecimiento progresivo a partir de 2021, con un pico en 2025. Conclusión: El perfil de las hospitalizaciones mostró una mayor concentración entre hombres adultos jóvenes y predominio de los trastornos relacionados con el alcohol, acompañado de una expansión de las hospitalizaciones asociadas con cocaína/crack. Los hallazgos refuerzan la necesidad de fortalecer las acciones preventivas y la Red de Atención Psicosocial, considerando las particularidades epidemiológicas regionales.

Palabras clave: Trastornos relacionados con sustancias; Dependencia de sustancias; Hospitalización; Salud mental; Sistema Único de Salud.

1 INTRODUÇÃO

A dependência química representa um importante problema de saúde pública no Brasil, com impacto direto na prática médica, especialmente nas áreas de clínica médica, psiquiatria e medicina de família e comunidade. Nos últimos dez anos, as internações por transtornos mentais e comportamentais decorrentes do uso de álcool e outras substâncias psicoativas evidenciaram mudanças no perfil epidemiológico e nas demandas assistenciais hospitalares, refletindo tanto transformações sociais quanto alterações nas políticas de saúde mental (Leitzke et al., 2024). Nesse contexto, compreender a dinâmica dessas hospitalizações é fundamental para o planejamento de estratégias terapêuticas e preventivas.

A análise das tendências nacionais demonstra que as internações relacionadas ao uso de álcool continuam ocupando posição de destaque entre os transtornos associados à dependência química, embora com variações ao longo do período analisado (Carrett Krause et al., 2026). O álcool, por sua ampla disponibilidade e aceitação cultural, permanece como uma das principais substâncias associadas a quadros de intoxicação aguda, síndrome de abstinência e complicações clínicas como hepatopatias, pancreatite e transtornos neuropsiquiátricos. Do ponto de vista médico, esses desfechos frequentemente demandam hospitalização para estabilização clínica e manejo de comorbidades.

Além do álcool, outras substâncias psicoativas como cocaína, crack, maconha, opioides e psicofármacos utilizados de forma não prescrita também contribuem significativamente para o aumento das internações hospitalares no país (Souza et al., 2025). Cada classe de droga apresenta mecanismos neurobiológicos distintos, mas todas compartilham o potencial de induzir alterações no sistema de recompensa cerebral, especialmente envolvendo vias dopaminérgicas, favorecendo o desenvolvimento de tolerância, dependência e síndrome de abstinência. Essas alterações justificam a necessidade de acompanhamento médico contínuo e intervenções multiprofissionais.

Os sintomas da dependência química variam conforme a substância utilizada, a duração do uso e as condições clínicas do indivíduo. De maneira geral, incluem compulsão pelo consumo, perda de controle, aumento progressivo da dose (tolerância), sintomas de abstinência (como ansiedade, irritabilidade, tremores, sudorese, insônia e, em casos graves, delirium e convulsões) além de prejuízo funcional significativo nas esferas social, ocupacional e familiar. Em nível hospitalar, complicações psiquiátricas como surtos psicóticos, ideação delirante e episódios depressivos graves também estão entre as principais causas de internação (Benigno Neto et al., 2024).

No âmbito regional, estudos demonstram variações importantes no perfil das internações, influenciadas por determinantes socioeconômicos e pela organização da rede de atenção psicossocial. A análise de internações psiquiátricas de pessoas alcoolistas ao longo de uma década evidencia a persistência de quadros recorrentes e reinternações, sugerindo falhas na continuidade do cuidado ambulatorial e na adesão ao tratamento (Jesus, 2025). Esses dados reforçam a importância da atuação médica integrada à rede de atenção básica e especializada.

As causas da dependência química são multifatoriais e envolvem fatores biológicos, psicológicos e sociais. Predisposição genética, transtornos psiquiátricos prévios, exposição precoce a substâncias, vulnerabilidade social, violência e desestruturação familiar são elementos frequentemente associados ao início e à manutenção do uso abusivo (Urano; Souza, 2025). A compreensão desses determinantes é essencial para que o médico atue não apenas no tratamento das complicações, mas também na prevenção e na identificação precoce de indivíduos em risco.

Paralelamente ao manejo hospitalar, a reabilitação psicossocial constitui etapa indispensável para reduzir reinternações e promover reinserção social. Estratégias terapêuticas que envolvem acompanhamento multiprofissional, suporte familiar, psicoterapia e articulação com a rede comunitária demonstram impacto positivo na recuperação funcional dos pacientes (Ferreira; Costa; Nonato, 2025).

Diante desse cenário, as internações por dependência química nos últimos dez anos revelam não apenas a magnitude do problema, mas também a necessidade de aprimoramento das estratégias de prevenção, diagnóstico precoce e tratamento integral. A análise das tendências temporais e dos perfis epidemiológicos permite compreender os padrões de adoecimento e direcionar políticas públicas mais eficazes (Carrett Krause et al., 2026; Souza et al., 2025). Para a medicina, o desafio consiste em integrar conhecimento clínico, evidências epidemiológicas e atuação interdisciplinar, visando reduzir a morbimortalidade e melhorar a qualidade de vida dos pacientes acometidos pela dependência química no Brasil.

A investigação das internações por dependência química no Brasil nos últimos dez anos justifica-se pela magnitude do impacto dessa condição na prática médica e na organização do sistema de saúde. O aumento da demanda por leitos clínicos e psiquiátricos, associado à complexidade dos casos, impõe desafios à assistência hospitalar e exige capacitação técnica constante dos profissionais de saúde. Nesse cenário, compreender o perfil das hospitalizações é fundamental para qualificar o cuidado prestado.

A dependência de álcool e outras substâncias psicoativas está frequentemente associada a complicações clínicas graves, como insuficiência hepática, distúrbios cardiovasculares, alterações neurológicas e quadros psiquiátricos agudos. Essas condições elevam o risco de morbidade e mortalidade, além de prolongarem o tempo de permanência hospitalar. Assim, estudar as internações permite identificar padrões clínicos e fatores de risco que possam ser abordados precocemente.

Outro ponto relevante é a sobrecarga dos serviços de urgência e emergência, onde muitos pacientes com intoxicação aguda ou síndrome de abstinência procuram atendimento. A ausência de acompanhamento ambulatorial eficaz contribui para a recorrência de episódios graves, culminando em reinternações sucessivas. A análise desse fenômeno é essencial para o planejamento de estratégias preventivas e fortalecimento da atenção primária.

A dependência química também apresenta forte relação com determinantes sociais de saúde, como vulnerabilidade socioeconômica, desemprego, violência e exclusão social. Tais fatores influenciam tanto o início quanto a manutenção do uso de substâncias, impactando diretamente o perfil das internações. Avaliar essas variáveis contribui para uma abordagem médica mais ampla, baseada no modelo biopsicossocial.

Além disso, as diferenças regionais no Brasil refletem desigualdades na oferta de serviços especializados, como centros de atenção psicossocial e programas de reabilitação. Em algumas localidades, a hospitalização acaba sendo a principal forma de cuidado disponível, o que reforça a importância de analisar a distribuição geográfica e as características dessas internações.

A reincidência de hospitalizações evidencia fragilidades na continuidade do cuidado após a alta. A falta de adesão ao tratamento, o estigma social e a insuficiência de suporte familiar e comunitário favorecem recaídas e novos episódios de descompensação clínica. Investigar esses aspectos pode auxiliar na formulação de estratégias que reduzam readmissões e promovam maior estabilidade clínica.

Outro elemento que justifica o estudo é o impacto econômico das internações prolongadas e repetidas, que geram custos significativos para o sistema público de saúde. A compreensão detalhada do perfil epidemiológico e clínico dos pacientes pode contribuir para otimizar recursos e direcionar investimentos em prevenção e tratamento precoce.

Por fim, analisar as internações por dependência química na última década é essencial para subsidiar políticas públicas e aprimorar protocolos clínicos. A produção de conhecimento atualizado permite fortalecer ações de prevenção, diagnóstico precoce, manejo adequado da abstinência e reabilitação psicossocial, promovendo um cuidado médico mais integral, humanizado e baseado em evidências.

O estudo teve como objetivo analisar o perfil epidemiológico das internações por dependência química no Brasil no período de janeiro de 2016 a dezembro de 2025, identificando as características dos pacientes internados segundo sexo, faixa etária, raça/cor (etnia), substância psicoativa envolvida e distribuição regional. Além disso, buscou descrever a tendência temporal das internações ao longo do período analisado e comparar as diferenças entre as cinco regiões brasileiras quanto à frequência e ao perfil epidemiológico das hospitalizações relacionadas à dependência química, contribuindo para a compreensão da dinâmica desse agravo e fornecendo subsídios para o planejamento de políticas públicas e estratégias de prevenção e assistência em saúde mental.

2 REFERENCIAL TEÓRICO

2.1 Dependência química e transtornos relacionados ao uso de substâncias psicoativas

A dependência química constitui um importante problema de saúde pública, caracterizado pela relação problemática e persistente com substâncias psicoativas, podendo produzir consequências físicas, psicológicas, sociais e familiares. Os transtornos mentais e comportamentais relacionados ao uso de álcool e outras drogas apresentam diferentes manifestações clínicas e graus de gravidade, podendo variar desde padrões de consumo prejudiciais até quadros de dependência que demandam acompanhamento especializado e, em determinadas situações, internação hospitalar. No Brasil, a dimensão desse problema pode ser observada por meio dos registros de hospitalizações, que permitem identificar grupos populacionais mais atingidos e mudanças no comportamento epidemiológico ao longo do tempo (Leitzke et al., 2024; Souza et al., 2025).

A dependência relacionada ao álcool apresenta particular relevância devido à elevada frequência de consumo e à diversidade de complicações associadas. O uso prolongado e excessivo pode estar relacionado a transtornos mentais e comportamentais, doenças orgânicas, acidentes, violência e outras condições que aumentam a utilização dos serviços de saúde. Estudos nacionais sobre as internações demonstram que os transtornos decorrentes do uso de álcool representam importante parcela das hospitalizações relacionadas às substâncias psicoativas, configurando um problema persistente no sistema de saúde brasileiro (Ferreira et al., 2026; Carrett Krause et al., 2026).

Além do álcool, substâncias como cocaína, crack, cannabis, opioides, sedativos, estimulantes e combinações de múltiplas drogas também podem provocar importantes repercussões clínicas. O uso simultâneo de diferentes substâncias pode aumentar a complexidade dos quadros clínicos e dificultar o tratamento. Entre adolescentes, particularmente, os transtornos relacionados ao uso de múltiplas drogas constituem preocupação relevante, considerando os impactos sobre o desenvolvimento, a saúde mental, o desempenho escolar e as relações familiares e sociais (Alves; Oliveira, 2025; Nunes et al., 2024).

A dependência química deve ser compreendida, portanto, a partir de uma perspectiva multifatorial, não sendo adequada sua interpretação exclusivamente como resultado de escolhas individuais. Fatores sociais, familiares, econômicos, psicológicos e ambientais podem influenciar o início, a manutenção e a evolução do consumo problemático. Nesse sentido, as políticas públicas brasileiras reconhecem a necessidade de estratégias articuladas de prevenção, tratamento, reinserção social e monitoramento epidemiológico das consequências relacionadas ao uso de drogas (Brasil, 2021).

2.2 Internações por dependência química no Brasil: panorama epidemiológico

As internações hospitalares constituem um importante indicador da magnitude dos transtornos relacionados ao uso de substâncias psicoativas, especialmente quando os indivíduos apresentam complicações clínicas ou psiquiátricas que exigem assistência de maior complexidade. A análise dos registros hospitalares possibilita identificar padrões segundo sexo, idade, substância envolvida, região de residência, evolução do atendimento e distribuição temporal. Estudos nacionais demonstram que as hospitalizações relacionadas ao uso de álcool e outras drogas permanecem relevantes no cenário brasileiro, embora apresentem diferenças segundo os períodos e regiões analisados (Leitzke et al., 2024; Souza et al., 2025).

A análise da série histórica entre 2016 e 2025 é particularmente importante por possibilitar a identificação de tendências epidemiológicas em um período de dez anos. Estudos que avaliaram períodos próximos demonstram que as internações por transtornos mentais e comportamentais relacionados ao uso de substâncias apresentam variações temporais, podendo ser influenciadas por alterações nos padrões de consumo, mudanças sociais, disponibilidade de serviços de saúde e transformações na organização da assistência (CARDOSO; SOUZA, 2022; LEITZKE et al., 2024).

Em diferentes estudos brasileiros, observa-se predominância de internações entre indivíduos do sexo masculino, embora a distribuição possa variar conforme a substância e a região analisada. Essa maior participação masculina também é identificada em estudos sobre internações por uso de álcool e outras substâncias, indicando a necessidade de estratégias preventivas e terapêuticas que considerem as características epidemiológicas específicas desse grupo. Entretanto, o crescimento ou a identificação de casos entre mulheres também deve ser considerado, evitando que as políticas de saúde sejam estruturadas exclusivamente a partir do perfil masculino (RODRIGUES et al., 2024; SILVA et al., 2024).

A idade constitui outro importante componente do perfil epidemiológico das hospitalizações. A ocorrência de internações entre adolescentes chama atenção devido à possibilidade de início precoce do consumo e às consequências que podem acompanhar essa exposição ao longo do ciclo de vida. Nunes et al. (2024) identificaram a presença de hospitalizações por transtornos mentais e comportamentais decorrentes do uso de álcool e outras substâncias entre adolescentes brasileiros, evidenciando a necessidade de ações preventivas precoces. Da mesma forma, estudos específicos sobre adolescentes apontam a relevância dos transtornos relacionados ao uso de múltiplas drogas nessa população (Alves; Oliveira, 2025).

A distribuição territorial das internações também apresenta importância para a compreensão do fenômeno. Estudos realizados em estados e regiões brasileiras evidenciam diferenças na frequência das hospitalizações, demonstrando que o problema não se distribui de maneira uniforme pelo território nacional. No Piauí, por exemplo, foram identificadas internações relacionadas aos transtornos mentais e comportamentais decorrentes do uso de álcool e outras substâncias ao longo de uma série histórica, reforçando a necessidade de análises regionais articuladas ao panorama nacional (Benigno Neto et al., 2024). Da mesma maneira, investigações realizadas na Região Centro-Oeste e no estado do Pará demonstram a existência de padrões regionais específicos (Rodrigues et al., 2024; Silva et al., 2024).

2.3 Impactos clínicos, mortalidade e custos das internações

As consequências dos transtornos relacionados ao uso de substâncias psicoativas ultrapassam o episódio de internação e podem produzir importantes repercussões clínicas. A intoxicação, a abstinência, os transtornos psicóticos, as alterações cardiovasculares e neurológicas e outras complicações podem demandar atendimento de urgência e hospitalização. Dados do Ministério da Saúde destacam a relevância dos atendimentos hospitalares relacionados a surtos psicóticos secundários ao abuso de drogas ilícitas, demonstrando que o uso de substâncias pode desencadear manifestações psiquiátricas graves (Ministério Da Saúde, 2023).

Além da morbidade, a dependência química está relacionada à mortalidade. A evolução desfavorável pode ocorrer em decorrência direta da intoxicação ou de complicações clínicas e psiquiátricas associadas ao consumo. Estudos epidemiológicos brasileiros que analisaram internações e mortalidade demonstram que os transtornos mentais e comportamentais relacionados ao uso de substâncias constituem importante problema de saúde, sendo necessária a análise conjunta dos indicadores de hospitalização e óbito para compreender sua magnitude (Costa et al., 2025; Souza et al., 2025).

A mortalidade relacionada às substâncias psicoativas também deve ser compreendida considerando as diferenças existentes entre os grupos populacionais e os tipos de substâncias utilizadas. A ocorrência de complicações graves pode estar relacionada ao padrão de consumo, ao uso concomitante de diferentes drogas, às condições clínicas preexistentes e ao acesso oportuno aos serviços de saúde. Nesse contexto, a análise epidemiológica da mortalidade permite complementar os dados de internação e identificar situações de maior gravidade no cenário brasileiro (Oliveira; Santos, 2026).

Outro aspecto importante refere-se ao impacto econômico das hospitalizações. As internações por dependência química representam custos diretos para o sistema de saúde, relacionados à utilização de leitos, medicamentos, exames, procedimentos e recursos humanos. Além desses custos, existem repercussões indiretas decorrentes do afastamento das atividades profissionais, perda de produtividade e necessidade de suporte familiar. Estudos que analisam o perfil dos consumidores e os custos assistenciais hospitalares reforçam a importância econômica da dependência química para o sistema de saúde brasileiro (Souza; Reis, 2025).

A utilização repetida dos serviços hospitalares pode ampliar ainda mais esse impacto. Pessoas que apresentam recaídas ou dificuldades de continuidade do tratamento podem retornar aos serviços de urgência e hospitalização em diferentes momentos. Nesse sentido, a prevenção de novas internações depende não apenas da resolução do episódio agudo, mas também da continuidade do cuidado após a alta hospitalar, com acompanhamento especializado e articulação entre os diferentes serviços da rede de atenção (Machado, 2025; Ferreira; Costa; Nonato, 2025).

2.4 Rede de atenção psicossocial, tratamento e reabilitação

O cuidado às pessoas com dependência química deve ser realizado de maneira integral e articulada, envolvendo diferentes pontos da Rede de Atenção Psicossocial. A atenção hospitalar representa apenas um dos componentes dessa rede, sendo necessária a integração com serviços ambulatoriais, atenção primária, serviços especializados e dispositivos de reabilitação psicossocial. A organização de uma rede integrada possibilita maior continuidade do cuidado e pode contribuir para reduzir a recorrência de situações que resultam em hospitalização (Brasil, 2021).

Os dispositivos especializados em saúde mental possuem papel relevante no acompanhamento de indivíduos com transtornos decorrentes do uso de álcool e outras drogas. A abordagem terapêutica deve considerar as necessidades clínicas e psicossociais de cada pessoa, valorizando o vínculo entre usuário e equipe de saúde. A percepção dos próprios usuários sobre as estratégias terapêuticas utilizadas pelos dispositivos de atenção psicossocial é um elemento importante para avaliar a qualidade e a efetividade do cuidado oferecido (Machado, 2025).

A reabilitação psicossocial constitui uma etapa essencial do tratamento, especialmente porque a dependência química pode comprometer vínculos familiares, atividades profissionais, relações sociais e autonomia. O processo de recuperação deve ultrapassar a perspectiva de interrupção do consumo e contemplar a reconstrução de projetos de vida e a reinserção social. Estudos sobre dependentes químicos destacam a importância de estratégias psicossociais e da atuação multiprofissional para favorecer a recuperação e a autonomia dos usuários (Ferreira; Costa; Nonato, 2025).

A família também apresenta papel fundamental no processo terapêutico, embora frequentemente seja afetada pelas consequências do uso problemático de substâncias. A convivência com uma pessoa dependente pode gerar sobrecarga emocional, conflitos, alterações nas relações familiares e sofrimento psicológico. Dessa maneira, as estratégias de cuidado devem incluir, quando pertinente, ações direcionadas aos familiares, oferecendo orientação, apoio e mecanismos de enfrentamento (Santos et al., 2025; Urano; Souza, 2025).

A redução das internações não deve ser considerada apenas como resultado da diminuição da ocorrência de dependência química, pois também pode refletir mudanças na organização da assistência. A ampliação de estratégias de cuidado territorial, acompanhamento ambulatorial e reabilitação pode evitar que determinados casos evoluam para situações que necessitem de hospitalização. Assim, a avaliação das internações deve ser realizada conjuntamente com a análise da oferta e do funcionamento dos serviços de saúde mental e atenção psicossocial (Brasil, 2021; Machado, 2025).

2.5 Políticas públicas, vigilância epidemiológica e perspectivas para o período de 2016 a 2025

O enfrentamento da dependência química no Brasil requer políticas públicas fundamentadas em evidências epidemiológicas e articuladas entre diferentes setores. O planejamento nacional deve considerar informações sobre consumo de substâncias, perfil das populações afetadas, distribuição territorial, internações, mortalidade e capacidade de atendimento dos serviços. O Guia Metodológico do Plano Nacional de Políticas sobre Drogas destaca a importância do diagnóstico, planejamento, monitoramento e avaliação das políticas relacionadas às drogas no país (Brasil, 2021).

Nesse contexto, os sistemas de informação em saúde representam instrumentos fundamentais para o acompanhamento das hospitalizações. A análise de dados hospitalares possibilita identificar tendências temporais, diferenças regionais e características dos indivíduos internados. Estudos nacionais realizados com dados do Sistema Único de Saúde demonstram a utilidade dessas informações para caracterizar o perfil epidemiológico das internações e avaliar mudanças ao longo dos anos (Leitzke et al., 2024; Costa et al., 2025).

A análise do período de 2016 a 2025 apresenta ainda relevância por abranger diferentes momentos do cenário brasileiro, incluindo o período anterior à pandemia de COVID-19, os anos de maior impacto da emergência sanitária e o processo posterior de reorganização dos serviços. A comparação desses períodos pode contribuir para identificar alterações no comportamento das internações e verificar possíveis mudanças no perfil das pessoas atendidas. Estudos recentes sobre séries temporais de internações por álcool e outras substâncias reforçam a importância da avaliação longitudinal desses indicadores (Carrett Krause et al., 2026; Ferreira et al., 2026).

Outro aspecto relevante é a necessidade de considerar as desigualdades regionais e populacionais. Os dados disponíveis demonstram que as internações apresentam características distintas entre estados e regiões, como observado em estudos realizados no Piauí, São Paulo, Pará e Centro-Oeste. Essas diferenças podem estar relacionadas tanto à magnitude do consumo e dos transtornos quanto à disponibilidade de serviços, características socioeconômicas e formas de organização da assistência (Benigno Neto et al., 2024; Cardoso; Souza, 2022; Rodrigues et al., 2024; Silva et al., 2024).

Dessa forma, investigar as internações por dependência química no Brasil entre 2016 e 2025 possibilita ampliar o conhecimento sobre a evolução desse importante problema de saúde pública. A análise de uma série temporal de dez anos permite identificar padrões epidemiológicos, grupos mais vulneráveis, diferenças territoriais e possíveis alterações na demanda hospitalar. Os resultados podem contribuir para o planejamento de ações de prevenção, fortalecimento da atenção psicossocial, redução da mortalidade e qualificação da assistência às pessoas que apresentam transtornos relacionados ao uso de álcool e outras substâncias psicoativas (Souza et al., 2025; Brasil, 2021).

  1. METODOLOGIA

Tratou-se de um estudo ecológico, descritivo, retrospectivo e de abordagem quantitativa, desenvolvido no campo da Saúde Coletiva e da Epidemiologia Clínica, fundamentado em dados secundários de domínio público. A investigação utilizou informações disponibilizadas pelo Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS), base oficial do Ministério da Saúde que consolida os dados assistenciais do Sistema Único de Saúde (SUS). O recorte temporal compreendeu o período de janeiro de 2016 a dezembro de 2025, conforme os dados disponíveis na plataforma, possibilitando avaliar a evolução das internações por dependência química no Brasil sob a perspectiva da assistência hospitalar.

A coleta de dados foi realizada por meio do Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS), acessado através da ferramenta TABNET. Foram selecionadas as internações cujo diagnóstico principal estava classificado na Classificação Internacional de Doenças – 10ª Revisão (CID-10), especificamente nos códigos F10 a F19, correspondentes aos transtornos mentais e comportamentais decorrentes do uso de álcool e outras substâncias psicoativas. Essa delimitação diagnóstica proporcionou maior precisão clínica e alinhamento com a prática médica e psiquiátrica.

As variáveis analisadas incluíram faixa etária, região geográfica, sexo, substância psicoativa envolvida e raça/cor. A seleção dessas variáveis justificou-se por sua relevância clínica e epidemiológica, permitindo compreender o perfil dos pacientes internados e a distribuição das hospitalizações relacionadas à dependência química no país.

O procedimento metodológico consistiu inicialmente no acesso ao portal eletrônico do DATASUS, com seleção da opção "Informações de Saúde (TABNET)" e posterior escolha do banco de dados do SIH/SUS. No ambiente de tabulação, foram aplicados filtros referentes ao período estudado, às categorias diagnósticas (CID-10 F10–F19) e às variáveis de interesse. Os dados foram exportados em formato compatível (CSV ou XLS) para organização, tratamento e análise em planilhas eletrônicas e software estatístico.

Foram incluídas todas as internações hospitalares registradas no SUS com diagnóstico principal relacionado à dependência química no período selecionado. Foram excluídos registros que apresentaram inconsistências evidentes, ausência de informações essenciais ou campos ignorados que comprometessem a análise estatística. Por se tratar de dados secundários, agregados e de domínio público, sem identificação nominal dos pacientes, a pesquisa foi dispensada da obtenção do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, em conformidade com a Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde.

Após a coleta, realizou-se análise descritiva dos dados, com cálculo de frequências absolutas e relativas, distribuição proporcional segundo faixa etária, sexo, região geográfica, raça/cor e substância psicoativa envolvida. Também foram calculadas as variações percentuais ao longo dos anos, permitindo a construção de séries temporais para identificação de tendências de aumento, redução ou estabilidade das internações por dependência química no período analisado.

Realizou-se ainda análise comparativa entre as cinco regiões brasileiras (Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul), com o objetivo de identificar possíveis desigualdades na distribuição das internações. A estratificação por faixa etária (adolescentes, adultos jovens, adultos e idosos) possibilitou identificar os grupos populacionais mais vulneráveis às hospitalizações decorrentes do uso de substâncias psicoativas, subsidiando a discussão sobre estratégias de prevenção, assistência e reabilitação.

Por fim, os resultados foram interpretados à luz da organização da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e das políticas públicas de saúde mental vigentes durante o período estudado, considerando seus possíveis impactos sobre a demanda hospitalar. A metodologia adotada assegurou rigor científico, consistência epidemiológica e aplicabilidade clínica, contribuindo para a compreensão do panorama nacional das internações por dependência química entre 2016 e 2025 e fornecendo subsídios para o aprimoramento das políticas públicas e da assistência integral às pessoas com transtornos relacionados ao uso de substâncias psicoativas.

4 RESULTADOS

A análise das internações hospitalares por dependência química no Brasil, no período de janeiro de 2016 a dezembro de 2025, evidenciou acentuada predominância do sexo masculino, responsável por 75% das hospitalizações, enquanto o sexo feminino representou 25% dos casos (Gráfico 1). Esse padrão demonstra maior demanda de leitos hospitalares entre homens, indicando um perfil epidemiológico caracterizado pela maior frequência de internações nesse grupo populacional ao longo de toda a série histórica analisada.

Gráfico 1 - Distribuição percentual por sexo das internações hospitalares por dependência química no Brasil (2016 - 2025).


Fonte: Autores, 2026.

A distribuição das internações segundo a faixa etária revelou maior concentração entre indivíduos de 25 a 44 anos, que corresponderam a 60% do total de hospitalizações no período analisado, seguida pelas faixas de 18 a 24 anos e de 45 anos ou mais, ambas com 20% dos registros (Figura 2). Esses resultados evidenciam que a demanda assistencial por dependência química esteve predominantemente concentrada na população adulta em idade economicamente ativa durante toda a série histórica de janeiro de 2016 a dezembro de 2025.

Gráfico 2 - Distribuição das internações por dependência química segundo a faixa etária predominante (2016 - 2025).

Fonte: Autores, 2026.

Gráfico 3 - Perfil epidemiológico das hospitalizações por dependência química segundo a autoclassificação de raça/cor/etnia (2016 - 2025).


Fonte: Autores, 2026.

A distribuição das internações segundo raça/cor evidenciou predominância de indivíduos autodeclarados pardos, correspondendo a 40% dos registros, seguidos por indivíduos brancos (38%) e pretos (18%), enquanto as demais categorias representaram 4% das hospitalizações (Gráfico 3). Os resultados demonstram maior concentração das internações entre os grupos pardo e branco ao longo do período de janeiro de 2016 a dezembro de 2025, caracterizando o perfil epidemiológico da população hospitalizada por dependência química no Brasil.

Gráfico 4 – Tendência Temporal de Internações, milhares de internos (2016-2025).


Fonte: Autores, 2026.

A análise da série temporal das internações hospitalares por transtornos mentais e comportamentais decorrentes do uso de substâncias psicoativas evidenciou dois padrões distintos entre janeiro de 2016 e dezembro de 2025 (Gráfico 4). No período de 2016 a 2020 observou-se relativa estabilidade no número de internações, com discreta redução dos casos relacionados ao uso de álcool, comportamento compatível com a ampliação das ações desenvolvidas pela Rede de Atenção Psicossocial e pelos Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD).

A partir de 2021 verificou-se mudança no comportamento da série histórica, caracterizada por tendência crescente das internações, culminando em aumento aproximado de 30% até 2025. Esse crescimento foi acompanhado pela maior participação dos transtornos relacionados ao uso de cocaína, crack e outras substâncias estimulantes, evidenciando um aumento da demanda por assistência hospitalar no Sistema Único de Saúde e uma mudança no perfil das internações ao longo do período analisado.

Gráfico 5 – Substâncias Envolvidas nas internações (2016-2025).


Fonte: Autores, 2026.

A análise da evolução temporal das internações por transtornos mentais e comportamentais decorrentes do uso de substâncias psicoativas no Sistema Único de Saúde evidenciou importantes oscilações entre 2016 e 2025 (Gráfico 5). Entre 2016 e 2019 observou-se relativa estabilidade, com discreta redução do número de internações, passando de aproximadamente 118.500 para 114.100 casos. Em 2020 ocorreu queda acentuada, totalizando cerca de 98.600 internações, período que coincidiu com a reorganização da assistência hospitalar durante a pandemia de COVID-19 e a redução da disponibilidade de leitos para internações não relacionadas à doença.

A partir de 2021 verificou-se retomada progressiva das hospitalizações, com crescimento contínuo ao longo dos anos subsequentes. O número de internações aumentou de aproximadamente 104.300 casos em 2021 para 125.800 em 2025, ultrapassando os níveis observados antes da pandemia. O incremento foi acompanhado pelo aumento da demanda por atendimento de pacientes com comorbidades psiquiátricas e episódios agudos relacionados ao uso de substâncias psicoativas, culminando no maior quantitativo de internações registrado em toda a série histórica.

Quanto à distribuição das substâncias envolvidas, o álcool permaneceu como o principal motivo de internação, correspondendo a 52% dos casos, seguido pela cocaína/crack (28%), múltiplas drogas e outras substâncias (14%) e canabinoides/outras drogas (6%). Apesar da predominância do álcool no volume acumulado de hospitalizações, observou-se crescimento proporcional mais expressivo das internações relacionadas à cocaína e ao crack no bloco final da série histórica, evidenciando mudanças no perfil epidemiológico dos pacientes atendidos e maior participação de casos caracterizados por recorrência, reinternações e elevada complexidade clínica.

Gráfico 6 – Distribuição Regional das Internações (2016-2025).


Fonte: Autores, 2026.

A distribuição regional das internações evidenciou predomínio da Região Sudeste, responsável por aproximadamente 43% das hospitalizações, seguida pelas regiões Sul (23%), Nordeste (17%), Centro-Oeste (11%) e Norte (6%) (Gráfico 6). Observou-se que o Sudeste concentrou o maior volume absoluto de internações, com destaque para casos relacionados ao uso de cocaína e crack nos grandes centros urbanos, enquanto a Região Sul apresentou elevada participação de internações associadas ao uso abusivo de álcool. No Nordeste verificou-se crescimento proporcional das hospitalizações entre adolescentes e adultos jovens, ao passo que o Centro-Oeste concentrou casos em áreas metropolitanas e a Região Norte apresentou menor frequência de internações, possivelmente influenciada por limitações no acesso aos serviços especializados e na cobertura assistencial.

Gráfico 7 – Principais Indicadores Epidemiológicos – Região Nordeste (2016-2025).


Fonte: Autores, 2026.

No Nordeste, as internações por transtornos relacionados ao uso de substâncias psicoativas corresponderam a aproximadamente 17% do total nacional, com maior concentração nos estados da Bahia, Pernambuco e Ceará (Gráfico 7). O álcool permaneceu como a principal substância associada às hospitalizações, representando 48% dos casos, especialmente em municípios do interior, enquanto as internações relacionadas ao uso de cocaína, crack e múltiplas drogas apresentaram crescimento expressivo nas regiões metropolitanas entre 2021 e 2025. O perfil epidemiológico regional caracterizou-se ainda pela predominância do sexo masculino (79%) e da faixa etária de 20 a 44 anos (68%), além de maior participação de adolescentes (11%) em comparação à média nacional.

A evolução temporal demonstrou redução das internações em 2020, seguida por aumento contínuo entre 2022 e 2025, com maior gravidade dos casos atendidos nos serviços hospitalares. Os resultados evidenciam diferenças importantes entre o interior e os grandes centros urbanos da região, destacando a persistência do alcoolismo crônico em áreas interioranas e a expansão do uso de múltiplas substâncias nas capitais. Esses achados reforçam a necessidade de fortalecimento da Rede de Atenção Psicossocial, ampliação da cobertura dos CAPS, especialmente para crianças e adolescentes, e implementação de estratégias preventivas voltadas ao diagnóstico precoce e ao tratamento oportuno, contribuindo para reduzir hospitalizações evitáveis e qualificar a assistência à saúde mental no Nordeste.

5 DISCUSSÃO

Os resultados evidenciaram predominância das internações entre indivíduos do sexo masculino e na faixa etária de 25 a 44 anos, corroborando o perfil epidemiológico descrito em diferentes estudos nacionais sobre transtornos mentais e comportamentais relacionados ao uso de substâncias psicoativas (Cardoso; Souza, 2022; Lima; Silva, 2024; Costa et al., 2025; Ferreira et al., 2026). Esse padrão sugere maior vulnerabilidade da população masculina em idade economicamente ativa, refletindo tanto a elevada exposição ao consumo de álcool e outras drogas quanto a maior gravidade clínica dos casos que culminam em hospitalização. Além disso, o aumento das internações observado em estudos recentes reforça o impacto crescente desses transtornos sobre a demanda assistencial e os custos do Sistema Único de Saúde (Souza; Reis, 2025; Ibross, 2026).

Em relação à raça/cor, verificou-se predominância de indivíduos autodeclarados pardos, seguidos pelos brancos, resultado semelhante ao observado em diferentes análises epidemiológicas brasileiras realizadas com dados de internações por transtornos relacionados ao uso de álcool e outras substâncias psicoativas. A maior frequência de pessoas pardas entre os indivíduos hospitalizados não deve ser interpretada como uma característica biológica ou racial relacionada à maior predisposição à dependência química, mas principalmente como possível reflexo das desigualdades sociais e estruturais que atravessam a população brasileira. Historicamente, a população parda apresenta maior exposição a situações de vulnerabilidade socioeconômica, como menor renda, precarização das condições de trabalho, desigualdade educacional, insegurança habitacional e maior dificuldade de acesso contínuo aos serviços de saúde, fatores que podem favorecer a exposição a situações de risco, retardar a identificação precoce do uso problemático e dificultar a continuidade do tratamento. Além disso, diferenças territoriais na oferta de serviços de saúde mental e de atenção psicossocial podem contribuir para que determinados grupos cheguem aos serviços hospitalares em condições mais graves, aumentando a probabilidade de internação. Dessa forma, a predominância de indivíduos pardos entre as hospitalizações deve ser compreendida sob a perspectiva dos determinantes sociais da saúde, considerando que raça/cor funciona, no contexto brasileiro, como marcador de desigualdades históricas e de acesso a oportunidades e serviços, e não como fator causal isolado da dependência química (BRASIL, 2021; RODRIGUES et al., 2024; COSTA et al., 2025).

Em conjunto, os achados reforçam a necessidade de fortalecer as estratégias de prevenção, identificação precoce e acompanhamento contínuo na Atenção Primária à Saúde e na Rede de Atenção Psicossocial, especialmente entre homens adultos em idade produtiva e populações socialmente vulneráveis. O direcionamento das políticas públicas para esses grupos pode contribuir para reduzir hospitalizações evitáveis, minimizar os impactos sociais e econômicos da dependência química e qualificar a assistência ofertada pelo Sistema Único de Saúde, conforme sugerem estudos recentes sobre o perfil epidemiológico e a organização da atenção aos usuários de substâncias psicoativas (Machado, 2025; Santos et al., 2025; Oliveira; Santos, 2026).

Os resultados demonstraram que os transtornos relacionados ao uso de álcool permaneceram como a principal causa de internação hospitalar, representando mais da metade dos casos, seguidos pelos transtornos associados ao uso de cocaína/crack. Esse perfil é consistente com estudos epidemiológicos nacionais que apontam o álcool como a substância psicoativa de maior impacto sobre a morbidade hospitalar devido à sua ampla disponibilidade, elevada prevalência de consumo e associação com complicações clínicas e psiquiátricas (Lima; Silva, 2024; Silva et al., 2024; Ferreira et al., 2026). Entretanto, observa-se um crescimento expressivo das internações relacionadas à cocaína/crack nos últimos anos, acompanhado por maiores taxas de reinternação e maior complexidade assistencial, evidenciando mudanças importantes no perfil epidemiológico do uso de substâncias psicoativas no Brasil (Costa et al., 2025; Ibross, 2026).

Embora os transtornos associados aos canabinoides e ao uso de múltiplas drogas tenham apresentado menor participação relativa, sua presença evidencia a crescente complexidade dos casos atendidos na rede pública, especialmente diante da ocorrência de policonsumo e de comorbidades psiquiátricas. Esse cenário reforça a necessidade de estratégias específicas para prevenção, diagnóstico precoce e tratamento individualizado, conforme preconizado pelo Plano Nacional de Políticas sobre Drogas, priorizando intervenções integradas na Rede de Atenção Psicossocial para reduzir reinternações, complicações clínicas e o impacto econômico decorrente da dependência de substâncias psicoativas (Brasil, 2021; Machado, 2025; Souza; Reis, 2025).

A distribuição regional das internações evidenciou concentração na Região Sudeste, seguida pelas regiões Sul e Nordeste, refletindo tanto a maior densidade populacional quanto a maior capacidade instalada da rede hospitalar nessas localidades. Além do maior volume absoluto de internações, o Sudeste apresentou predominância de casos relacionados ao uso de cocaína/crack, enquanto a Região Sul manteve maior participação dos transtornos associados ao álcool e o Nordeste destacou-se pela elevada ocorrência de múltiplas substâncias entre pacientes mais jovens. As regiões Centro-Oeste e Norte apresentaram menor participação relativa, embora fatores como expansão do consumo em áreas urbanas e limitações no acesso aos serviços de saúde e na notificação dos casos possam influenciar esses indicadores. Esses achados são compatíveis com análises epidemiológicas nacionais que demonstram importantes diferenças regionais na distribuição das internações por transtornos relacionados ao uso de substâncias psicoativas, reforçando a necessidade de políticas públicas regionalizadas e adaptadas às especificidades epidemiológicas de cada região do país (Ministério Da Saúde, 2023; Rodrigues et al., 2024; Costa et al., 2025).

A análise da série temporal demonstrou dois períodos distintos no comportamento das internações por transtornos mentais e comportamentais relacionados ao uso de substâncias psicoativas. Entre 2016 e 2020 observou-se relativa estabilidade, com discreta redução das internações atribuídas ao uso de álcool, comportamento que pode estar relacionado à ampliação da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e à expansão dos Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD), favorecendo o manejo ambulatorial e reduzindo a necessidade de hospitalizações (Silva et al., 2024; Ferreira et al., 2026). Esse cenário está em consonância com os dados do SIH/SUS e com análises epidemiológicas que apontam avanços na organização da assistência em saúde mental no período pré-pandemia (Ministério Da Saúde, 2023).

A partir de 2021, verificou-se mudança importante na tendência temporal, com crescimento aproximado de 30% das internações até 2025. Esse aumento coincide com o período pós-pandemia de COVID-19, marcado pelo agravamento dos transtornos mentais, maior vulnerabilidade psicossocial e incremento do consumo de substâncias psicoativas, especialmente cocaína, crack e outros estimulantes. Estudos recentes demonstram que esse contexto contribuiu para maior demanda por atendimento hospitalar, aumento das reinternações e maior complexidade clínica dos pacientes acompanhados pelo Sistema Único de Saúde (Alves; Oliveira, 2025; Costa et al., 2025; Ibross, 2026).

Em conjunto, a evolução temporal evidencia que, embora os investimentos na atenção psicossocial tenham produzido efeitos positivos no período inicial da série histórica, os impactos sociais e sanitários observados após 2020 modificaram significativamente o perfil das internações no país. Esses resultados reforçam a necessidade de fortalecer as políticas públicas de prevenção, ampliar a cobertura da Rede de Atenção Psicossocial e implementar estratégias específicas para o enfrentamento da crescente dependência de estimulantes, considerando o aumento sustentado da demanda hospitalar observado nos últimos anos (Brasil, 2021; Machado, 2025; Oliveira; Santos, 2026).

No Nordeste, as internações por transtornos relacionados ao uso de substâncias psicoativas corresponderam a aproximadamente 17% do total nacional, com maior concentração nos estados da Bahia, Pernambuco e Ceará. O álcool permaneceu como a principal substância associada às hospitalizações, especialmente em municípios do interior, evidenciando a persistência do alcoolismo crônico como importante problema de saúde pública na região. Em contrapartida, observou-se crescimento expressivo das internações por cocaína, crack e múltiplas drogas nas regiões metropolitanas, particularmente entre 2021 e 2025, acompanhando o processo de urbanização do consumo e o aumento da complexidade dos casos atendidos. Além disso, verificou-se predominância do sexo masculino e da faixa etária de 20 a 44 anos, perfil semelhante ao observado em âmbito nacional, porém com participação proporcionalmente maior de adolescentes, indicando início mais precoce do consumo de substâncias psicoativas (Lima; Silva, 2024; Nunes et al., 2024; Costa et al., 2025).

Esses achados evidenciam importantes desafios para a organização da Rede de Atenção Psicossocial no Nordeste. A persistência do alcoolismo no interior, associada à expansão do uso de crack e de múltiplas substâncias nos grandes centros urbanos, exige estratégias diferenciadas de prevenção e assistência. Adicionalmente, estados com menor cobertura de serviços especializados tendem a registrar hospitalizações em estágios mais avançados da doença, refletindo dificuldades no diagnóstico precoce e na continuidade do cuidado. Nesse contexto, o fortalecimento da Atenção Primária à Saúde, a ampliação da cobertura dos CAPS, especialmente para crianças e adolescentes, e a implementação de ações preventivas voltadas à população jovem constituem medidas fundamentais para reduzir hospitalizações evitáveis e minimizar o impacto social e econômico da dependência química na região (Brasil, 2021; Machado, 2025; Santos et al., 2025).

6 CONCLUSÃO

A análise das internações por transtornos mentais e comportamentais decorrentes do uso de substâncias psicoativas no Brasil evidenciou a persistência da dependência química como um importante problema de saúde pública, caracterizado pela predominância de homens adultos jovens, maior frequência de internações relacionadas ao álcool e crescimento expressivo dos casos associados à cocaína, crack e ao uso de múltiplas substâncias nos anos mais recentes. A série temporal demonstrou estabilidade no período pré-pandemia, seguida de aumento significativo das internações a partir de 2021, indicando o impacto das mudanças sociais e do agravamento dos transtornos mentais sobre a demanda hospitalar do Sistema Único de Saúde.

Também foram identificadas importantes desigualdades regionais, com maior concentração de internações na Região Sudeste e características epidemiológicas específicas no Nordeste, onde o alcoolismo permanece como principal causa de hospitalização no interior, enquanto os grandes centros urbanos apresentam expansão das internações por estimulantes e múltiplas drogas. Além disso, a maior participação de adolescentes em algumas localidades reforça a necessidade de intervenções preventivas precoces e do fortalecimento da atenção especializada para esse grupo etário.

Diante desse cenário, torna-se imprescindível ampliar as ações de promoção da saúde, prevenção do uso de substâncias psicoativas, diagnóstico precoce e tratamento contínuo, fortalecendo a Rede de Atenção Psicossocial e a integração entre a Atenção Primária à Saúde e os serviços especializados. Investimentos em políticas públicas regionalizadas, ampliação da cobertura dos CAPS e estratégias voltadas às populações mais vulneráveis são fundamentais para reduzir hospitalizações evitáveis, minimizar os custos assistenciais e qualificar o cuidado em saúde mental. Por fim, recomenda-se a realização de estudos longitudinais que incorporem variáveis clínicas, socioeconômicas e de acesso aos serviços de saúde, contribuindo para o aprimoramento das estratégias de enfrentamento da dependência química no Brasil.

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  1. Graduanda em medicina pelo Centro Universitário Tecnológico de Teresina (UNI-CET). E-mail: gisellegomessm@outlook.com/ moliviaeduarda@gmail.com

  2. Mestre em saúde da família ( Centro Universitário Uninovafapi), E-mail: danilodantasmed@gmail.com.

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