A incidência e tendência da sífilis primária em idosos no estado da Bahia entre 2015 e 2025: estudo ecológico
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
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RESUMO

Este estudo ecológico e quantitativo analisa a incidência e a tendência da sífilis primária em idosos (60 anos ou mais) na Bahia entre 2015 e 2025. O aumento dos casos está associado ao envelhecimento populacional, à maior longevidade e à falta de educação sexual voltada para essa faixa etária. Foram utilizados dados secundários do SINAN, disponíveis no DATASUS/Tabnet, permitindo quantificar os casos e avaliar a tendência temporal por meio de regressão linear. Os achados revelam crescimento expressivo e contínuo em grande parte das macrorregiões de saúde, enquanto apenas três delas — Sudoeste, Oeste e Extremo Sul — apresentaram tendência estacionária. Esse cenário demonstra a urgência de fortalecer ações de saúde pública, com foco na prevenção, na educação em saúde e no diagnóstico precoce. Destaca-se, assim, o papel estratégico da Atenção Primária na identificação, acompanhamento e interrupção da transmissão da sífilis em idosos.

Palavras-chave: Sífilis. Idoso. Saúde do Idoso.

ABSTRACT

This ecological and quantitative study analyzes the incidence and trend of primary syphilis in elderly individuals (60 years or older) in Bahia between 2015 and 2025. The increase in cases is associated with population aging, greater longevity, and a lack of sexual education aimed at this age group. Secondary data from SINAN, available on DATASUS/Tabnet, were used, allowing for the quantification of cases and the evaluation of temporal trends through linear regression. The findings reveal significant and continuous growth in most of the health macro-regions, while only three—Southwest, West, and Far South—showed a stationary trend. This scenario demonstrates the urgency of strengthening public health actions, focusing on prevention, health education, and early diagnosis. The strategic role of Primary Care in identifying, monitoring, and interrupting syphilis transmission in the elderly is thus highlighted.

Keywords: Syphilis. Elderly. Elderly Health.

INTRODUÇÃO

A melhoria no padrão de vida da população tem contribuído significativamente para mudanças no processo de transição epidemiológica e demográfica, especialmente no que se refere ao envelhecimento populacional. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2015), a expectativa de vida está aumentando rapidamente, e esse envelhecimento é considerado uma das maiores transformações sociais do século XXI. Entretanto, não basta viver mais: é fundamental garantir qualidade de vida. Observa-se que, à medida que a população envelhece, cresce também a incidência de condições crônicas não transmissíveis, bem como de algumas Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST).

No que concerne às IST, destaca-se a sífilis adquirida como um relevante problema de saúde pública, especialmente entre idosos na primeira década da terceira idade, cujos números vêm aumentando de forma expressiva. Entre 2011 e 2019, foram registrados no Brasil 62.765 novos casos de sífilis primária em pessoas com mais de 60 anos (Barros et al., 2023), representando um aumento significativo em comparação com períodos anteriores. Além disso, um estudo epidemiológico realizado entre 2010 e 2020 identificou alta prevalência de sífilis adquirida entre idosos, evidenciando que essa infecção ainda é negligenciada por essa população (Silva et al., 2023). No estado da Bahia, observa-se tendência semelhante, acompanhando o cenário nacional quanto ao crescimento da incidência da doença (SESAB, 2024).

O aumento dos casos de sífilis em idosos tem se configurado como uma preocupação emergente, desafiando concepções tradicionais sobre a prevalência dessa infecção em faixas etárias avançadas. Diversos fatores contribuem para esse cenário, como mudanças nos padrões sociais, culturais e médicos, uma vez que os avanços tecnológicos e terapêuticos, como o uso da reposição hormonal e medicamentos para disfunção erétil, possibilitam uma vida sexual mais ativa entre os idosos, representando, assim, um fator de bem-estar (Vieira et al., 2011). Entretanto, essa parcela da população ainda enfrenta barreiras como a desinformação, o estigma e o preconceito, o que evidencia sua maior vulnerabilidade às IST.

A escassez de educação sexual, somada ao preconceito direcionado à população idosa, favorece o aumento do risco relacionado às práticas sexuais e à ausência de medidas preventivas. Segundo Uchôa et al. (2016), envelhecer não significa tornar-se assexual; entretanto, fatores como a influência familiar e religiosa podem atuar como inibidores da expressão da sexualidade na terceira idade. Nesse contexto, os profissionais de saúde assumem papel fundamental como agentes de educação em saúde, oferecendo informações qualificadas e promovendo a conscientização sobre práticas seguras e prevenção das IST. Esse cenário reforça a necessidade de estratégias de saúde pública inclusivas e sensíveis ao envelhecimento populacional, pautadas na integralidade e na promoção da autonomia sexual do idoso.

Diante da gravidade da sífilis, torna-se essencial adotar estratégias eficazes para reduzir sua incidência na população idosa, especialmente por meio do acompanhamento contínuo, da ampliação do acesso ao cuidado precoce e da realização regular de exames sorológicos. A detecção oportuna é fundamental para interromper a cadeia de transmissão e garantir intervenções adequadas, uma vez que a prevenção e o diagnóstico precoce dependem diretamente de ações sistematizadas nos serviços de saúde (Nobre et al., 2018).

Nesse contexto, o papel da Atenção Primária à Saúde (APS) é estratégico na promoção e educação sobre as IST. De acordo com Bonfim e Trivellatto (2025), a APS é responsável por desenvolver ações de prevenção, diagnóstico e tratamento da sífilis em idosos, por meio da educação em saúde, monitoramento e acompanhamento dos casos. Contudo, observa-se que os serviços de saúde ainda não estão plenamente preparados para atender às demandas do envelhecimento, devido à falta de políticas específicas, à escassez de profissionais capacitados e ao subinvestimento em ações preventivas. Dessa forma, a APS se consolida como espaço essencial para o fortalecimento das práticas de informação, educação e comunicação (IEC), voltadas à promoção da saúde sexual da pessoa idosa.

METODOLOGIA

Este estudo caracteriza-se como ecológico, de abordagem quantitativa, cujo objetivo é analisar a taxa de incidência de sífilis primária em idosos no período de 2014 a 2025, considerando as diferentes regiões de saúde do estado da Bahia. A coleta de dados será realizada por meio do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS), utilizando-se a plataforma Tabnet.

As informações serão extraídas do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), adotando-se, a partir de 2007, filtros específicos como “Ano de Diagnóstico” para quantificar os casos notificados anualmente no intervalo de 2015 a 2024. A análise da tendência temporal da sífilis primária nas regiões de saúde da Bahia utilizará filtros como “Macrorregião de Saúde (CIR) de residência” e “Ano de Diagnóstico”. Para avaliar a evolução dos casos, serão empregados os filtros “Ano de Diagnóstico” e “Evolução”.

Os dados obtidos serão organizados em formato tabular e gráfico. A análise de tendência será conduzida a partir de modelos de regressão linear, utilizando o coeficiente angular da reta, o coeficiente de determinação (R²) e o valor de p. Considerou-se tendência estacionária quando não houve variação estatisticamente significativa das propriedades ao longo do período analisado e tendência crescente quando se verificou aumento estatisticamente relevante ao longo da série temporal.

Por se tratar de dados secundários, de domínio público e disponibilizados de forma anonimizada, a submissão deste estudo ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) não se faz necessária, conforme as diretrizes éticas vigentes para pesquisas que utilizam informações públicas e sem identificação de indivíduos.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O número de casos de sífilis adquirida em idosos (indivíduos com 60 anos ou mais) no Brasil tem demonstrado um aumento expressivo e contínuo ao longo dos anos, assim como no estado da Bahia. A sífilis emergiu como uma Infecção Sexualmente Transmissível (IST) de crescente relevância entre a população idosa, o que indica mudanças no perfil epidemiológico brasileiro. Conforme demonstrado no Gráfico 1, a taxa de incidência da doença apresentou comportamento variável ao longo da última década, com períodos de crescimento mais acentuado e oscilações entre os anos analisados. Ainda assim, observa-se uma tendência geral de aumento dos casos.

Gráfico 1 – Taxa de incidência de sífilis em idosos entre 2014 e 2024. Bahia, 2025.

Fonte: autor.

Observa-se que a sífilis na população idosa representa um desafio crescente para a saúde pública, evidenciado pelo aumento expressivo dos casos notificados em todo o Brasil, especialmente no período pós-pandemia. Conforme demonstrado no Gráfico 1, a taxa de incidência da sífilis em indivíduos com 60 anos ou mais apresenta tendência de crescimento ao longo dos anos. Esses achados reforçam a necessidade de estratégias específicas de prevenção, diagnóstico precoce e educação em saúde direcionadas à população idosa.

Essa disparidade regional e específica evidencia a vulnerabilidade social e econômica da população idosa, grupo que historicamente recebeu menor atenção nas políticas públicas voltadas à prevenção e ao controle das ISTs. Além disso, fatores como a baixa escolaridade, frequentemente associada à menor compreensão sobre medidas preventivas e ao acesso limitado às informações em saúde, contribuem para o aumento da suscetibilidade dessa população à infecção. Somam-se a isso as dificuldades de acesso aos serviços de saúde e a insuficiência de ações educativas direcionadas aos idosos, favorecendo a disseminação da sífilis nesse grupo etário.

Dados mais recentes, de 2014 a 2023, reforçam a ausência de estabilidade. A análise da tendência absoluta demonstrou crescimento significativo nas cinco regiões do Brasil. A única queda observada nas notificações nacionais ocorreu em 2020, e essa redução foi associada ao impacto negativo da pandemia de COVID-19 na rotina dos serviços de saúde e à subsequente subnotificação, e não a uma tendência de estabilidade ou controle da doença. De modo semelhante, nos dados da Bahia, podemos observar, no geral, uma tendência crescente na maioria das regiões, como mostra a Tabela 1.

Tabela 1 – Tendência de sífilis em idosos na Bahia por macrorregião, entre 2015 e 2024. Bahia, 2025.

Fonte: autor.

Na Bahia, os dados epidemiológicos acompanham a tendência observada no cenário nacional, revelando aumento progressivo das notificações de sífilis entre idosos. A Tabela 1 demonstra a evolução das taxas de detecção da doença nas diferentes regiões de saúde do estado ao longo da última década, evidenciando a necessidade de ampliar as estratégias de promoção da saúde sexual, prevenção das ISTs e acesso aos serviços de diagnóstico e tratamento. Tal cenário aponta para a importância da implementação de políticas públicas mais direcionadas às demandas da população idosa, considerando suas especificidades e vulnerabilidades.

O aumento da incidência de sífilis entre pessoas idosas no Brasil reflete um descompasso entre a manutenção da atividade sexual nessa faixa etária, decorrente do aumento da expectativa de vida e da melhoria das condições de saúde, e a insuficiência de políticas públicas voltadas à educação e à prevenção em saúde sexual para esse grupo populacional. Essa lacuna contribui para a maior vulnerabilidade dos idosos às Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), evidenciando a necessidade de estratégias específicas de promoção da saúde, prevenção e cuidado integral.

Além disso, esse cenário reforça a importância da ampliação do acesso à informação e aos serviços de saúde, bem como da oferta de testes diagnósticos e do fortalecimento das ações de educação em saúde sexual direcionadas à população idosa. Investimentos nessas medidas são fundamentais para promover o diagnóstico precoce, reduzir a transmissão da sífilis e garantir uma assistência mais qualificada e abrangente a essa faixa etária.

Os resultados reforçam que o envelhecimento populacional, associado ao aumento da expectativa de vida e à manutenção da atividade sexual na terceira idade, tem contribuído para a maior exposição dos idosos às Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST). Entretanto, esse fenômeno não é acompanhado, na mesma proporção, por ações de educação sexual, prevenção e promoção da saúde direcionadas especificamente a essa faixa etária. Aspectos como baixa percepção de risco, insuficiência de campanhas educativas voltadas aos idosos, barreiras no acesso aos serviços de saúde e persistência de tabus relacionados à sexualidade na velhice podem favorecer o diagnóstico tardio e a continuidade da cadeia de transmissão da sífilis.

Além disso, o estudo evidencia que a sífilis em idosos deve ser compreendida não apenas como uma condição clínica individual, mas como um indicador das fragilidades existentes nas políticas públicas voltadas ao envelhecimento saudável. A crescente incidência observada sugere a necessidade de fortalecer a vigilância epidemiológica, aprimorar a notificação dos casos e ampliar a realização de testes rápidos e exames sorológicos nos serviços de saúde, especialmente na Atenção Primária à Saúde, principal porta de entrada do Sistema Único de Saúde.

Nesse contexto, destaca-se o papel estratégico da equipe multiprofissional, especialmente da Enfermagem, na identificação precoce dos casos, na realização de ações educativas, no acompanhamento do tratamento, na busca ativa e no incentivo desses indivíduos a realizar consultas rotineiras na UBS mais próxima da sua residência. Vale destacar, ainda, que a implementação de estratégias específicas para a população idosa, considerando suas particularidades biopsicossociais e culturais, pode contribuir significativamente para a redução da incidência da doença.

CONCLUSÃO

Conclui-se que a sífilis em idosos constitui um importante e crescente problema de saúde pública no Estado da Bahia. A análise da tendência temporal entre 2015 e 2025 demonstrou aumento progressivo dos casos na maioria das macrorregiões de saúde, evidenciando que a infecção tem acompanhado as transformações demográficas e epidemiológicas observadas nas últimas décadas. Das nove macrorregiões analisadas, apenas Sudoeste, Oeste e Extremo Sul apresentaram comportamento estacionário, enquanto as demais demonstraram tendência crescente, indicando expansão da doença em diferentes contextos territoriais do estado.

Por fim, os achados reforçam a necessidade de investimentos contínuos em políticas públicas de prevenção das IST voltadas à população idosa, bem como o desenvolvimento de campanhas educativas que abordem a sexualidade na terceira idade de forma inclusiva e livre de estigmas. Ainda se faz necessária a realização de novas pesquisas que investiguem os fatores que afetam e se correlacionam com o crescimento da sífilis em idosos, permitindo subsidiar intervenções mais eficazes e direcionadas. Dessa forma, será possível fortalecer as ações de controle da doença e promover um envelhecimento mais saudável, seguro e com melhor qualidade de vida para a população idosa baiana.

REFERÊNCIAS

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  1. Faculdade AGES; Jacobina-Bahia-Brasil; https://orcid.org/0000-0003-1180-404X

  2. Faculdade AGES; Jacobina-Bahia-Brasil; https://orcid.org/0009-0006-7629-932X

  3. Faculdade AGES; Jacobina-Bahia-Brasil; https://orcid.org/0009-0005-2206-2426

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