Resumo:
Objectivo: Este artigo tem como objectivo analisar os dados epidemiológicos da Hanseníase (Lepra) nos últimos 10 anos. Materiais e métodos: Trata-se de um estudo epidemiológico descritivo e retrospectivo, realizado com base em dados secundários, provenientes do Relatório epidemiológico da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre hanseníase publicado no dia 12 de setembro de 2025. A análise foi realizada por meio de medidas de tendência central e dispersão para variáveis quantitativas, frequências e percentagem para variáveis qualitativas. Resultados e Discussões: A evolução temporal dos casos de lepra em Angola entre 2015 a 2024 evidencia comportamento oscilatório, caracterizado por redução inicial, queda acentuada durante o período da pandemia de COVID-19 e crescimento consistente após 2020. O maior número de casos foi observado em 2024 (883), enquanto o menor ocorreu em 2020 (422), sugerindo impacto da pandemia na capacidade diagnóstica e posterior recuperação das atividades de vigilância. Apesar das oscilações, o aumento global de aproximadamente 7,3% entre 2015 a 2024 demonstra que a hanseníase permanece como importante desafio de saúde pública no país. Os dados foram organizados e analisados por meio de estatística descritiva e análise de tendências, permitindo identificar padrões de ocorrência da doença ao longo do período estudado. Espera-se que os resultados evidenciem a evolução dos indicadores epidemiológicos, apontando avanços na deteção precoce e no tratamento, bem como desafios persistentes relacionados à transmissão ativa, ao diagnóstico tardio e à ocorrência de incapacidades físicas. Conclusão: Conclui-se que a monitorização contínua dos indicadores epidemiológicos é essencial para fortalecer as políticas públicas, orientar intervenções direcionadas e contribuir para o alcance das metas globais de eliminação da hanseníase como problema de saúde pública.
Palavras-chave: Hanseníase; Epidemiologia; Vigilância em Saúde; Saúde Pública; Angola
Abstract:
Objective: This article aims to analyze epidemiological data on Hansen's disease (leprosy) over the last 10 years. Materials and Methods: This is a descriptive, retrospective epidemiological study based on secondary data from the World Health Organization (WHO) epidemiological report on leprosy published on September 12, 2025. The analysis was conducted using measures of central tendency and dispersion for quantitative variables, and frequencies and percentages for qualitative variables. Results and Discussion: The temporal evolution of leprosy cases in Angola between 2015 and 2024 shows an oscillating pattern, characterized by an initial reduction, a sharp decline during the COVID-19 pandemic, and consistent growth after 2020. The highest number of cases was observed in 2024 (883), while the lowest occurred in 2020 (422), suggesting the pandemic impacted diagnostic capacity and that surveillance activities subsequently recovered. Despite these fluctuations, the overall increase of approximately 7.3% between 2015 and 2024 demonstrates that leprosy remains a significant public health challenge in the country. The data were organized and analyzed using descriptive statistics and trend analysis, enabling the identification of disease occurrence patterns throughout the study period.The results are expected to highlight the evolution of epidemiological indicators, pointing to advances in early detection and treatment, as well as persistent challenges related to active transmission, late diagnosis, and the occurrence of physical disabilities. Conclusion: It is concluded that continuous monitoring of epidemiological indicators is essential to strengthen public policies, guide targeted interventions, and contribute to achieving the global goals of eliminating leprosy as a public health problem.
Keywords: Leprosy; Epidemiology; Health Surveillance; Public Health; Angola
INTRODUÇÃO
A análise dos dados epidemiológicos constitui uma ferramenta indispensável para compreender a evolução da doença, identificar tendências temporais, caracterizar a distribuição dos casos segundo variáveis demográficas e clínicas e avaliar o impacto das intervenções implementadas.
Esses indicadores permitem orientar o planeamento das ações de prevenção, deteção precoce, tratamento e reabilitação, contribuindo para o fortalecimento das políticas públicas de controlo da hanseníase.
Neste contexto, o presente estudo propõe uma análise dos dados epidemiológicos da hanseníase em Angola no período de 2015 a 2024, visando descrever a evolução dos principais indicadores da doença, identificar padrões epidemiológicos e fornecer evidências que possam subsidiar a tomada de decisões pelos gestores de saúde, bem como contribuir para o alcance das metas estabelecidas pela Estratégia Global para a Hanseníase da Organização Mundial da Saúde.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (2026), a lepra, também denominada hanseníase, é uma doença infecciosa crónica geralmente causada pela bactéria Mycobacterium leprae, que afeta principalmente a pele, os nervos periféricos, as mucosas das vias respiratórias superiores e os olhos. Quando não é diagnosticada e tratada precocemente, pode provocar incapacidades físicas permanentes.
Porque a lepra é também denominada de Hanseníase?
Hector Rodriguez (2024) explica que a lepra foi considerada durante séculos uma maldição ou castigo divino, até que a descoberta do seu agente causador por Gerhard Henrik Armauer Hansen mudou a compreensão científica da doença.
A lepra passou a ser também denominada Hanseníase em referência ao médico norueguês Gerhard Henrik Armauer Hansen, que descobriu o agente causador da doença (Mycobacterium leprae) em 1873.
O nome de Hansen é indissociável da descoberta do agente que causa a lepra, tanto que esta terrível doença também é conhecida como “mal ou doença de Hansen” (Rodriguez H. , 2024).
Como ela pode ser transmitida?
A transmissão ocorre por gotículas expelidas pelo nariz e pela boca durante contacto próximo, frequente e prolongado com uma pessoa doente que ainda não iniciou o tratamento. A doença não é transmitida por apertos de mão, abraços, partilhas de alimentos ou contacto casual (OMS, 2026).
Sinais e sintomas da Lepra:
Vários autores descrevem os sinais e sintomas da lepra (Hanseníase) de forma semelhante à Organização Mundial da Saúde, mas enfatizam aspectos específicos da doença, como o acometimento neurológico, dermatológico e resposta imunológica do hospedeiro.
Segundo os autores de Mandell, Dougla e Bennett: Princípios e Prática das Doenças infecciosas, a hanseníase manifesta-se principalmente por lesões cutâneas associadas à perda de sensibilidade, espessamento dos nervos periféricos e neuropatia progressiva. Os autores destacam que o comprometimento neurológico é a principal causa das incapacidades físicas decorrentes da doença (Bennett, 2020).
Autores do livro Princípios de Medicina interna, afirmam que a hanseníase caracteriza-se por lesões cutâneas hipopigmentadas ou eritematosas com perda da sensibilidade, espessamento dos nervos periféricos, fraqueza muscular e alterações automáticas, como diminuição da sudorese. Nas formas multibacilares podem surgir nódulos, infiltração difusa da pele e comprometimento de vários órgãos (Jameson, 2022).
Segundo a Organização Mundial da Saúde, os principais sinais e sintomas da lepra (Hanseníase) são: manchas na pele esbranquiçadas, avermelhadas ou acastanhadas, perda total ou parcial da sensibilidade ao calor, à dor e ao tacto nas manchas, placas ou nódulos na pele, diminuição da transpiração na área afetada, pele seca, queda de pelos e especialmente na sobrancelhas.
No foro neurológico, os principais sinais e sintomas são: Dormência ou formigamento nas mãos, pés, braços ou pernas, diminuição da força muscular, espessamento e dor dos nervos periféricos, dificuldades para segurar objectos ou caminhar, perda de sensibilidade dos membros.
Quando houver comprometimento ocular, o paciente pode apresentar ressecamento dos olhos, dificuldades para fechar as pálpebras, diminuição da visão e em casos graves cegueira. O paciente com lepra também pode apresentar congestão nasal persistente, sangramento nasal, úlceras plantares devido à perda da sensibilidade e deformidades nas mãos e nos pés quando a doença não é tratada precocemente.
Uma pessoa deve ser investigada para hanseníase quando apresentar uma ou mais manchas na pele com perda de sensibilidade, espessamentos de nervos periféricos associados à perda de sensibilidade ou fraqueza muscular e alterações motoras ou sensitivas sem outras causas aparentes.
Como é classificada a lepra?
A lepra (Hanseníase) é classificada por Jameson et al. (2022) como uma doença infecciosa crónica granulomatosa, causada pelo Mycobacterium leprae, caracterizada pelo comprometimento da pele e dos nervos periféricos. Já a Sociedade Brasileira de Dermatologia, classifica a Hanseníase como uma doença infecciosa crónica, de evolução lenta e curável, cuja principal característica é o acometimento da pele e dos nervos periféricos. Enquanto que a Organização Mundial da Saúde (2021), na Estratégia Global para a Hanseníase 2021-2030, a doença continua a ser considerada como uma doença tropical negligenciada (DTN) e uma prioridade de saúde pública mundial. Além dessa classificação geral, a OMS utiliza uma classificação operacional para orientar o tratamento com poliquimioterapia (PQT):
- Hanseníase Paucibacilar (PB): Apresenta 1 a 5 lesões cutâneas, baixa carga bacilar e o tratamento recomendado tem a duração de 6 meses.
- Hanseníase Multibacilar (MB): Apresenta mais de 5 lesões cutâneas, maior carga bacilar e maior risco de transmissão quando não é tratada e o tratamento recomendado tem a duração de 12 meses.
Materiais e Métodos:
Trata-se de um estudo epidemiológico, descritivo, retrospectivo e de abordagem quantitativa, desenvolvido a partir da análise de dados secundários. As informações utilizadas foram extraídas do Relatório Epidemiológico Global sobre Hanseníase da Organização Mundial da Saúde (OMS), publicado em 12 de setembro de 2025, o qual reúne dados oficiais de vigilância epidemiológica reportados pelos países membros da organização.
Os dados foram organizados e submetidos à análise descritiva, utilizando frequências absolutas, frequências relativas, médias e elaboração de tabelas, de acordo com a natureza dos dados. A interpretação dos resultados foi realizada à luz da literatura científica e das recomendações da Organização Mundial da Saúde.
Por se tratar de um estudo baseado exclusivamente em dados secundários, de domínio público e sem identificação individual dos participantes, não houve necessidade de submissão ao Comité de Ética em Pesquisa, em conformidade com as normas éticas vigentes para pesquisas que utilizam bases de dados públicos.
Discussões e Resultados:
A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou, no dia 12 de setembro de 2025, os dados globais mais recentes sobre a hanseníase no mundo, referentes ao ano 2024. Globalmente, foram identificados 172.717 novos casos em 2024 em 188 países, evidenciando que a doença ainda está ativa em diversas regiões do mundo. Desse total, 5,4% ocorreram em crianças menores de 15 anos, o que indica transmissão recente e persistente da doença. Outro dado crítico, refere-se aos casos diagnosticados já com incapacidades físicas visíveis (grau 2), que totalizaram mais de 9 mil casos globalmente, um indicador direto de diagnóstico tardio e falhas na detenção oportuna.
A distribuição global da hanseníase é altamente concentrada. Países como a Índia, Brasil e Indonésia respondem aproximadamente por 80% dos casos registados, configurando um cenário de persistência da doença em territórios específicos. Nas Américas, a situação é ainda mais concentrada: mais de 90% dos casos ocorrem no Brasil, o que reforça o papel central do país no enfrentamento da doença na região.
De acordo com o relatório epidemiológico da Organização Mundial da Saúde divulgado em 2025, para o continente africano, constam os seguintes dados:
Número de novos casos detetados: 19.171 casos;
Taxa de deteção de novos casos por milhão de habitantess: 15,1 casos;
Número de novos casos pediátrico detetados: 1400 casos;
Taxa de deteção de novos casos pediátricos por milhão de habitantess: 2,7 casos por milhão de habitantess;
Número de novos casos entre as mulheres: 7.148 casos; Proporção de mulheres entre os novos casos: 37,3%.
Número de novos casos detetados com incapacidade de Grau 2 (G2D): 2.919 casos;
Grau 2 de Incapacidade por milhão de habitantess: 2,3 casos por milhão de habitantess.
Tabela 1. Evolução de números de novos casos pediátricos de lepra em África detetados por milhão de habitantes no período de 2015 a 2024:
Fonte: Relatório epidemiológico da OMS sobre hanseníase-12 de setembro de 2025.
Tabela 2. Evolução de números de novos casos de Grau 2 de Incapacidade de lepra em África, detetados por milhão de habitantes no período de 2015 a 2024:
Fonte: Relatório epidemiológico da OMS sobre hanseníase-12 de setembro de 2025.
Tabela 3. Evolução de números de novos casos de lepra detetados em Angola no período de 2015 a 2024:
Fonte: Relatório epidemiológico da OMS sobre hanseníase-12 de setembro de 2025.
Com base nos dados da tabela 3, evolução de números de novos casos de lepra detetados em Angola no período de 2015 a 2024, é possível realizar uma análise epidemiológica e estatística, indo muito além da simples descrição dos números.
Os dados mostram que Angola notificou 7.416 novos casos de lepra durante o período de 2015 a 2024, correspondendo a uma média anual de aproximadamente 742 casos. Embora existam oscilações importantes, observa-se uma tendência de crescimento da deteção de casos após 2020.
O período pode ser dividido em três fases distintas:
Primeira fase (2015 – 2017): redução gradual.
823 Casos em 2015
619 Casos em 2016
605 Casos em 2017.
Houve redução de cerca de 26,5% entre 2015 e 2017 e esta diminuição pode significar redução real da transmissão, Diminuição da capacidade diagnóstica ou Subnotificação. Sem outros indicadores epidemiológicos, não é possível afirmar que a doença realmente diminuiu.
Segunda fase (2018 – 2020): grande instabilidade.
Em 2018 ocorreu um aumento expressivo comparativamente ao ano anterior tendo um registro de 847 casos (+40%) e segue:
721 Casos em 2019
422 Casos em 2020
A queda para 422 casos em 2020 representa o menor número de toda a série histórica. Este comportamento coincide com a pandemia da COVID-19. É provável que neste período, muitos casos não tenham sido diagnosticados ou tenham sido diagnosticadoss tardiamente ou ainda não tenham sido notificados. Portanto, o número registrado em 2020 provavelmente não representa redução real da incidência, mas sim redução da capacidade dos serviços de saúde em detetar novos casos.
Terceira fase (2021 – 2024): recuperação da vigilância:
Após a pandemia observa-se: 422 Casos em 2020 e 797 Casos em 2021. Aumento de aproximadamente 89%.
Depois:
860 Casos em 2022
839 Casos em 2023
883 Casos em 2024
Em 2024 Angola apresenta o maior número de toda a série. Isto pode indicar: recuperação das atividades de busca ativa, melhoria do diagnóstico, aumento da cobertura dos serviços, existência de transmissão contínua da doença.
Comparando o primeiro e o último ano, em 2015 foram registrados 823 casos. E em 2024 foram registados 883 casos, observando-se uma diferença de +60 casos com um crescimento aproximado de 7,3%. Ou seja, após dez anos Angola terminou com um número de casos superior ao observado no início da série. Isso demonstra que a lepra continua sendo um importante problema de saúde pública.
Variabilidade dos dados: Existe elevada oscilação anual. O maior número foi registrado em 2024 = 883 casos e o menor número em 2020 = 422 casos.
Amplitude: 883 − 422 = 461 casos. Essa grande variação mostra que fatores externos influenciaram fortemente a deteção da doença.
Média antes e depois da pandemia: Antes da COVID-19 (2015 – 2019), Números de casos: 823 + 619 + 605 + 847 + 721 fazendo um total: 3615 com uma média de 723 casos por ano.
Após a COVID-19 (2021 – 2024) Números de casos: 797 + 860 + 839 + 883 fazendo um total de 3379 com uma média de 845 casos por ano. Ou seja, houve aumento de aproximadamente: 17% em relação ao período pré-pandemia.
A série histórica dos novos casos de lepra em Angola entre 2015 a 2024 revela um comportamento epidemiológico complexo, caracterizado por oscilações significativas que refletem não apenas a dinâmica da transmissão da doença, mas também a capacidade do sistema de saúde em identificar, diagnosticar e notificar os novos casos. Assim, uma interpretação baseada apenas no número absoluto de casos seria insuficiente e poderia conduzir a conclusões equivocadas.
O primeiro aspecto que merece destaque é a ausência de uma tendência consistente de redução da doença ao longo da década. Embora os dados mostrem uma diminuição dos casos entre 2015 (823 casos) e 2017 (605 casos), essa tendência não se manteve nos anos subsequentes. Em 2018 verificou-se um aumento expressivo para 847 casos, seguido por nova redução em 2019 e, posteriormente, por uma queda acentuada em 2020, quando foram registados apenas 422 casos, o menor número de toda a série histórica. Contudo, essa redução coincide com a pandemia da COVID-19, período em que diversos países enfrentaram limitações na oferta de serviços de saúde, interrupção das atividades de vigilância epidemiológica, redução das consultas e menor procura pelos serviços devido às medidas de confinamento e ao receio da população em frequentar unidades sanitárias.
Desta forma, é altamente provável que o número reduzido de casos em 2020 represente um fenómeno de subdiagnóstico e subnotificação, e não uma diminuição real da incidência da doença.
A recuperação observada a partir de 2021 reforça essa hipótese. O número de casos praticamente duplicou em relação a 2020, alcançando 797 casos, mantendo-se elevado nos anos seguintes (860 em 2022, 839 em 2023 e 883 em 2024).
Esse comportamento demonstra que os casos que deixaram de ser diagnosticados durante a pandemia foram progressivamente identificados após a normalização dos serviços de saúde. Entretanto, o facto de 2024 apresentar o maior número de casos de toda a série histórica evidencia que Angola continua a enfrentar importantes desafios na interrupção da cadeia de transmissão da hanseníase.
Do ponto de vista epidemiológico, o aumento das notificações após 2020 não deve ser interpretado exclusivamente como agravamento da situação da doença.
Em programas de controlo da hanseníase, um aumento inicial das notificações pode refletir o fortalecimento das ações de vigilância, da busca ativa de casos e da capacidade diagnóstica dos profissionais de saúde. Ou seja, identificar mais casos pode representar um sistema de saúde mais eficiente, capaz de revelar uma carga oculta da doença que anteriormente permanecia sem diagnóstico. Contudo, quando esse aumento persiste durante vários anos consecutivos, como observado entre 2021 e 2024, ele também pode indicar que a transmissão comunitária permanece ativa e que as medidas de prevenção ainda não são suficientes para reduzir a incidência.
Outro aspecto relevante é que a persistência de elevados números de casos nos últimos anos, sugere a existência de diagnóstico tardio. Segundo a Organização Mundial da Saúde (2018), a hanseníase possui um período de incubação prolongado, podendo variar de dois a mais de vinte anos, o que significa que muitos indivíduos convivem com a doença durante longos períodos antes de serem diagnosticados.
Durante esse intervalo, continuam a transmitir o Mycobacterium leprae aos seus contactos próximos, especialmente no ambiente familiar. Assim, elevados números de casos novos podem refletir não apenas transmissão recente, mas também falhas históricas na deteção precoce, na investigação de contactos e na educação em saúde.
Sob a perspetiva da saúde pública, os dados indicam que Angola permanece entre os países prioritários para o controlo da hanseníase porque a transmissão da doença ainda não foi interrompida.
A estabilidade dos números elevados nos últimos quatro anos demonstram que as estratégias implementadas têm sido suficientes para identificar novos casos, mas ainda insuficientes para reduzir significativamente a ocorrência da doença.
Isso, evidência a necessidade de fortalecer a vigilância epidemiológica, ampliar a investigação sistemática dos contactos domiciliares, descentralizar o diagnóstico para os cuidados primários de saúde, capacitar continuamente os profissionais e desenvolver campanhas educativas que reduzam o estigma associado à doença, um dos principais fatores responsáveis pelo atraso na procura dos serviços de saúde.
Relação com as metas da Organização Mundial da Saúde:
A Estratégia Global para a Hanseníase 2021–2030 da Organização Mundial da Saúde (OMS) representa uma mudança de paradigma no controlo da doença, ao estabelecer que o sucesso das intervenções não deve ser medido apenas pela redução da prevalência ou do número absoluto de casos novos, mas também pela diminuição da transmissão, das incapacidades físicas e das consequências sociais da doença.
Entre os objetivos centrais da estratégia encontram-se a interrupção da transmissão do Mycobacterium leprae, o diagnóstico precoce, o tratamento imediato com poliquimioterapia (PQT), a prevenção de incapacidades e a eliminação da discriminação e do estigma associados à hanseníase.
O diagnóstico precoce constitui um dos pilares fundamentais da estratégia, uma vez que permite iniciar rapidamente o tratamento, reduzindo a infecciosidade do doente, prevenindo danos neurológicos permanentes e diminuindo a ocorrência de incapacidades físicas. Para alcançar este objetivo, a OMS recomenda o fortalecimento da vigilância epidemiológica, a investigação sistemática dos contactos domiciliários e sociais dos doentes, bem como a capacitação contínua dos profissionais de saúde para reconhecer os sinais iniciais da doença.
A redução do número de casos em crianças com menos de 15 anos é outro indicador prioritário definido pela OMS, pois a ocorrência da doença nesta faixa etária demonstra que a transmissão permanece ativa na comunidade. Assim, a diminuição da incidência infantil reflete maior eficácia das medidas de vigilância, do diagnóstico precoce e do tratamento oportuno, constituindo um importante indicador da interrupção da cadeia de transmissão.
Outro objetivo estratégico consiste em reduzir significativamente os casos diagnosticados com incapacidade física de grau 2. A presença de deformidades visíveis no momento do diagnóstico evidencia atraso na deteção da doença e
limitações no acesso aos serviços de saúde. Consequentemente, a redução deste indicador representa um avanço tanto na qualidade da assistência prestada como na capacidade dos sistemas de saúde em identificar precocemente os casos.
A OMS também reconhece que a hanseníase não constitui apenas um problema biomédico, mas também um importante desafio social. O estigma e a discriminação associados à doença continuam a comprometer o diagnóstico precoce, favorecem o isolamento social, dificultam a adesão ao tratamento e afetam negativamente a saúde mental, a educação, o emprego e a qualidade de vida das pessoas afetadas. Por esse motivo, a Estratégia Global defende a implementação de políticas públicas que promovam os direitos humanos, combatam todas as formas de discriminação e incentivem a inclusão social das pessoas acometidas pela doença.
Além disso, a estratégia incentiva a integração dos serviços de hanseníase nos cuidados primários de saúde, garantindo que o diagnóstico, o tratamento e o acompanhamento estejam disponíveis de forma descentralizada e acessível. A educação em saúde dirigida à população, a participação comunitária e o fortalecimento dos sistemas nacionais de vigilância epidemiológica são considerados componentes essenciais para reduzir o número de casos ocultos e interromper a transmissão da doença.
Em síntese, a Estratégia Global para a Hanseníase 2021–2030 propõe uma abordagem abrangente, baseada na combinação de intervenções clínicas, epidemiológicas e sociais. O seu propósito vai além da redução dos indicadores epidemiológicos, procurando assegurar que nenhuma pessoa desenvolva incapacidades evitáveis, sofra discriminação ou seja excluída dos serviços de saúde em consequência da hanseníase. Dessa forma, a eliminação da doença como problema de saúde pública depende não apenas do tratamento eficaz, mas também do fortalecimento dos sistemas de saúde, da vigilância contínua, da educação comunitária e da promoção da equidade e dos direitos humanos.
Conclusão:
Finalmente, a série histórica demonstra que a avaliação do controlo da hanseníase não pode basear-se exclusivamente na redução do número absoluto de casos. É indispensável interpretar esses dados em conjunto com outros indicadores epidemiológicos, como a taxa de deteção em menores de 15 anos, a proporção de casos com incapacidade física grau 2 no momento do diagnóstico, a percentagem de contactos examinados e a taxa de cura.
Apenas a integração desses indicadores permitirá determinar se o aumento observado representa uma melhoria na capacidade de deteção ou a persistência da transmissão da doença na comunidade.
Em síntese, os dados de 2015 a 2024 revelam que a hanseníase continua a constituir um importante problema de saúde pública em Angola. A queda observada em 2020 está fortemente associada ao impacto da pandemia da COVID-19 sobre os serviços de saúde, enquanto o aumento contínuo registado entre 2021 a 2024 evidencia tanto a recuperação das atividades de vigilância quanto a manutenção da circulação do Mycobacterium leprae na população.
Assim, o principal desafio para Angola não consiste apenas em aumentar a deteção dos casos, mas em interromper efetivamente a transmissão da doença por meio do diagnóstico precoce, do tratamento oportuno, da vigilância ativa dos contactos e da implementação integral das estratégias preconizadas pela Organização Mundial da Saúde.
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Licenciado em Enfermagem pela Universidade Cuito Cuanavale, Profissional de saúde no Hospital Sanatório do Cubango Centro de Tratamento da tuberculose e lepra e Docente no Instituto Superior Waku Kungo. ↑
Licenciado em Medicina pela Universidade José Eduardo dos Santos, Médico Clínico geral no Hospital Municipal de Menongue, Docente no Instituto Superior Waku Kungo. ↑
Mestre em Línguas e Literatura em Língua Inglesa pela Faculdade de Humanidades da Universidade Agostinho Neto (Angola), Docente no Instituto Superior Waku Kungo. ↑
Licenciado em Medicina pela Universidade José Eduardo dos Santos, Médico Interno de Medicina Interna no Hospital Geral do Huambo. ↑

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