RESUMO: Este trabalho busca responder ao questionamento sobre a importância da intervenção fonoaudiológica realizada com crianças dentro do transtorno do espectro autista. Trata-se de um trabalho de revisão bibliográfica, que utilizou artigos relacionados ao tema realizados entre 2015 e 2023. A busca foi realizada em plataformas como Google Acadêmico, SciELO Brasil e revista de saúde, totalizando oito artigos. Após análise dos documentos ficou evidente que a abordagem fonoaudiológica é essencial para o desenvolvimento comunicativo e social das crianças dentro do espectro autista (TEA). Quanto à forma da abordagem, ela deve ser realizada de forma direta e indireta, com o envolvimento dos responsáveis, pois estes são os que passam a maior parte do tempo com estas crianças e, portanto, podem dar continuidade à estimulação da linguagem e fala em casa. Ademais, faz-se necessária a realização de avaliações periódicas para documentar a evolução das habilidades a serem desenvolvidas.
Palavras-Chave: Fonoaudiologia. Linguagem e fala. Intervenção fonoaudiológica.
ABSTRACT This work seeks to answer the question about the importance of speech therapy intervention carried out with children with autism spectrum disorder. It refers to a bibliographic review work using articles related to the topic and dated from 2015 to 2023. The search was carried out on platforms such as Google Scholar, SciELO Brasil and health magazine, totaling eight articles. After analyzing the documents, it became evident that the speech therapy approach is important for the communicative and social development of children within the autism spectrum (ASD), that the approach must be carried out directly and indirectly, with the involvement of those responsible, as the family and/or guardians spend most of their time with these children and therefore can continue to stimulate language and speech at home, making it necessary to carry out periodic assessments to document the evolution of the skills to be developed.
Keywords: Speech therapy. Language and speech. Speech therapy intervention
1 INTRODUÇÃO
Dentro das especialidades terapêuticas indicadas para o desenvolvimento de habilidades comportamentais, comunicativas e sociais de crianças dentro do espectro autista, destaca-se a fonoaudiologia, ciência que tem a comunicação humana como objeto de estudo. Seu campo de atuação envolve prevenção, tratamento e reabilitação das alterações dos aspectos relacionados com as habilidades comunicativas. Durante o desenvolvimento das habilidades comunicativas, algumas crianças apresentam alterações que persistem durante a vida. Podemos citar os atrasos de linguagem e fala, bem como os distúrbios de fala e linguagem. Crianças dentro do espectro autista podem apresentar distúrbio de fala e linguagem durante seu processo de aprendizagem.
Nos atrasos de linguagem, apesar de o desenvolvimento não ocorrer no período esperado, com a terapia precoce é possível resolver este atraso. No entanto, quando falamos em distúrbios de linguagem, caso não seja dada a devida atenção ao quadro, este pode ser agravado e prejudicar a fala e linguagem de forma a dificultar a comunicação destas crianças com seus pares, propiciando assim agravamento também comportamental devido ao não entendimento de suas necessidades.
Pensando em estudos que tratam de aspectos comunicativos, este trabalho apresenta a importância da intervenção fonoaudiológica com crianças diagnosticadas dentro do espectro autista. Com este trabalho se pretende responder a questionamentos que podem ocorrer, tais como: Qual o trabalho desenvolvido pelo fonoaudiólogo? A intervenção fonoaudiológica é importante dentro do trabalho desenvolvido por uma equipe multidisciplinar com foco no autismo? O que o fonoaudiólogo pode fazer para contribuir com a melhora do quadro de alterações encontradas nas crianças com transtorno do espectro autista?
Vale ressaltar que este tema surgiu durante o trabalho desenvolvido em uma instituição que assiste crianças diagnosticadas dentro do espectro do autismo, sendo os atendimentos realizados por uma equipe multidisciplinar na cidade de Teresina-Piauí. Esta equipe é composta por pedagogos, psicopedagogos, fonoaudiólogos, neuropsicóloga, psicólogos, fisioterapeutas, músicos e educadores físicos. Acredita-se que o desenvolvimento do trabalho fonoaudiológico em equipes multiprofissionais por vezes pode trazer dúvidas quanto aos limites de atuação e quanto mais claros estes limites estiverem expostos, mais podemos contribuir em relação ao que é esperado pelos responsáveis, sobre nossa atuação, não para nos limitarmos, mas para facilitarmos o entendimento e a troca de informações que possam ajudar os responsáveis.
Trata-se de uma revisão bibliográfica, de abordagem qualitativa, analítica, pois, após a leitura dos artigos e livros relacionados, foram analisados os dados encontrados.
Sobre a pesquisa bibliográfica temos que:
A pesquisa bibliográfica é desenvolvida com base em material já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos. Embora em quase todos os estudos seja exigido algum tipo de trabalho dessa natureza, há pesquisas desenvolvidas exclusivamente a partir de fontes bibliográficas (Gil, 2002.pag 44)
Sendo assim, a busca pelos dados primários foi realizada durante os meses de abril e junho de 2024, utilizou-se artigos publicados e disponibilizados em plataformas como SciELO, Google Acadêmico e fontes materiais com conteúdo científico com abordagem referente ao tema. Inicialmente foram selecionados dez artigos, porém, após o uso do critério de exclusão para a não utilização de artigos que não contribuíam para o desenvolvimento da pesquisa e trabalhos anteriores ao ano de 2015, restaram oito artigos. Os artigos selecionados datam de 2015 a 2023. O trabalho está organizado em introdução, desenvolvimento e conclusão. O desenvolvimento apresenta seção e subseção, onde podemos citar a legislação fonoaudiológica e conceitos gerais, nas subseções destacam-se a atuação fonoaudiológica e autismo, do atendimento inicial com os responsáveis e o processo avaliativo, posteriormente, comunicação fala e linguagem, diferenciando estes termos para melhor entendimento
Ao término do trabalho, pretendeu-se através da análise e exposição dos resultados evidenciar a importância do profissional fonoaudiólogo nas intervenções com crianças e/ou adolescentes diagnosticados dentro do espectro autista, bem como disponibilizar à comunidade mais uma opção de leitura que possa somar a outras já existentes a fim de dirimir as dúvidas que possam existir sobre este tema, deixando claro que este tema não se esgota aqui, sendo necessários ainda trabalhos que possam ajudar a criar consciência sobre este profissional e sua atuação.
2 LEGISLAÇÃO E CONCEITOS FONOAUDIOLÓGICOS
Atuando dentro da instituição Associação de Amigos dos Autistas do Piauí (AMA), que presta assistência a crianças e adultos com transtorno do espectro autista, sendo as intervenções realizadas por uma equipe multidisciplinar, surgiu a necessidade de evidenciar a importância da fonoaudiologia nas atividades desenvolvidas com estas crianças e adultos por este grupo de profissionais.
De acordo com a Lei n° 6.965, de 9 de dezembro de 1981, o artigo 1°, parágrafo único, especifica que o fonoaudiólogo é o profissional com graduação plena em fonoaudiologia, que atua em pesquisa, prevenção, avaliação e terapia fonoaudiológicas na área da comunicação oral e escrita, voz e audição, bem como em aperfeiçoamento dos padrões da fala e voz, sendo, portanto, importante destacar sua relevância dentro de uma equipe multiprofissional. Sendo assim, o fonoaudiólogo trabalhando sozinho ou em equipe multiprofissional, é o responsável por desenvolver atividades que visem à melhoria da linguagem e fala.
Crianças com diagnóstico de transtorno do espectro autista necessitam de atendimentos que visem melhorar seu desempenho em áreas específicas que se encontram prejudicadas, tais como: déficits na interação social, interesses repetitivos, prejuízos em aspectos da vida diária, comunicação oral e escrita e fala. Dentre as áreas que necessitam cuidado, destaca-se a área da comunicação que é de responsabilidade do fonoaudiólogo.
Sobre este transtorno, de acordo com o CID-11, o código 6A02, em substituição ao CID-10 F84.0, identifica o autismo relacionado com a presença ou não de deficiência intelectual e/ou comprometimento da linguagem funcional. Em se tratando da linguagem funcional, esta pode estar alterada de forma leve até a ausência de linguagem funcional.
2.1 Aspectos relacionados à atuação fonoaudiológica e autismo
A intervenção fonoaudiológica ocorre em etapas, após uma anamnese profunda realizada com o responsável, ocorre a avaliação com a criança, nessa, pode-se recorrer à presença do responsável para observação em conjunto. Durante a avaliação podemos utilizar testes e protocolos para avaliação quantitativa. Conforme Zorzi (2004, p. 12)” quatro procedimentos podem se diferenciados: testes linguísticos, e ou/ psicolinguísticos, análise de amostras de linguagem espontânea e dirigida, escalas de desenvolvimento e observação comportamental”.
O uso de avaliação qualitativa com interação entre terapeuta realizado de forma lúdica também é importante, pois a partir da interação as atividades propostas podem ser desenvolvidas com maior aceitabilidade por parte da criança. Após a aplicação dos testes e protocolos é realizada a análise das habilidades e inabilidades encontradas posteriormente, realização de plano de atendimento e devolutiva à família.
Quando falamos em avaliação com crianças com transtorno do espectro autista (TEA), é necessário verificar a existência de comunicação verbal ou não verbal, assim a abordagem pode ser adaptada. Sabemos que crianças com TEA podem apresentar níveis diferentes de suporte, de acordo com o DSM V, sendo apresentado nível I, nível II e nível III, com variação quanto ao transtorno de aprendizagem, apresentação de estereotipias, transtorno do desenvolvimento intelectual, dificuldade de socialização, presença de autoagressão, rigidez cognitiva, déficit de atenção e hiperatividade. Para a classificação são observadas a frequência e a intensidade dos achados. Os déficits de comunicação social e interação social são persistentes.
Ainda de acordo com o DSM V, os distúrbios de comunicação, incluem distúrbios de linguagem, distúrbios de som e da fala.
2.2 Comunicação fala e linguagem
A comunicação refere-se ao ato de troca de mensagens entre emissor e receptor, necessitando de um tema a ser abordado e entendimento do mesmo. Também podemos citar que algumas crianças têm intenção comunicativa, embora nem todas as pessoas possam entender o modo como ela tenta se comunicar.
Ao falarmos em linguagem devemos lembrar que esta pode ser apresentada de forma oral, escrita, desenhos, pictografias e através de libras (língua brasileira de sinais). Quanto à linguagem, de acordo com Syder (1997, p. 4), “Linguagem refere-se à nossa habilidade em manipular os símbolos”, estes símbolos podem ser usados na linguagem oral, escrita ou de língua de sinais, as imagens em gravuras, etc.
Vale salientar que:
Muitas vezes no trabalho fonoaudiológico, este deverá realizar o manejo de questões comportamentais que possam interferir no processo terapêutico sem, contudo, transformá-los em foco desse processo (Fernandes 2014, pag371).
Então, se uma criança apresenta comportamento de birra, fuga, ou comportamento de autoagressão, este deve ser resolvido para podermos dar continuidade ao processo terapêutico.
Destacamos que ao avaliarmos a linguagem infantil devemos avaliar seus subsistemas, sendo eles: pragmático, semântico, sintático e morfológico, e que o trabalho a ser desenvolvido deve envolver todos os subsistemas.
Quanto à fala, refere-se à produção de símbolos verbais. Essa fala pode ainda ser referenciada como funcional e não funcional, isto porque a criança pode falar palavras e frases fora do contexto comunicativo quando solicitado.
No momento da avaliação, devemos verificar possíveis falhas no processamento motor da fala, ou seja, na programação dos movimentos articulatórios, o que pode dificultar a inteligibilidade da fala.
Quando falamos de crianças com transtorno do espectro autista, podemos encontrar tais modalidades de fala dependendo da compreensão do que é emitido verbalmente e da intenção demonstrada durante a emissão verbal.
Segundo Fernandes (2010, p. 363), “um modelo para determinação do perfil comunicativo sugere que os atos comunicativos sejam divididos em portadores de conteúdo, reguladores de conversação, expressões de estado e outros.”
3 ACHADOS REFERENCIADOS PELOS RESPONSÁVEIS
Nos artigos analisados podemos perceber que a atuação fonoaudiológica com crianças autistas é importante, pois como citado por Perissinoto (2015), a intervenção fonoaudiológica realizada de forma direta com as crianças ou indireta, sendo realizada com orientação e aconselhamento junto aos responsáveis, proporciona evolução dos quadros comunicativos.
Quando solicitada aos responsáveis a percepção deles sobre a atuação fonoaudiológica, encontramos trabalhos como o de Bastos (2020), onde os responsáveis veem como positiva a atuação, referindo ganhos na comunicação, seja de forma gestual, com utilização de troca de figuras (PECS) ou oralmente, com melhora na linguagem expressiva, interação social e comportamento. Em todos os artigos selecionados, percebe-se que a atuação fonoaudiológica foi benéfica, não em todos os aspectos escolhidos, mas em todos os casos houve ganho, o que torna o trabalho relevante para a sociedade.
A seguir apresenta-se um quadro comparativo, onde podemos vislumbrar os temas referentes aos artigos incluídos na pesquisa, destacando-se: título, ano, base de dados e autores.
3.1 Quadro 1: Categorização dos Artigos quanto ao ano, base de dados e autores.
Fonte: Google. 2024
Apresentaremos a seguir o quadro evidenciando os achados fonoaudiológicos relacionados a cada artigo analisado.
3.1 Quadro 2: Achados fonoaudiológicos nos trabalhos analisados
Fonte: Google. 2024
Conclusão:
Com base na análise dos artigos citados e livros pesquisados, percebe-se que a atuação fonoaudiológica é de suma importância para a evolução dos indivíduos dentro do espectro autista quando falamos em comunicação e interação social, sendo com atendimento individual ou dentro de equipes multiprofissionais. Percebe-se também que a evolução se torna mais eficiente e o tempo de atendimento menor com o envolvimento de outros atores, como a família e outros membros da equipe, caso atue em equipe, com troca de informações, também ressaltamos que a avaliação criteriosa favorece o entendimento das possíveis alterações e habilidades apresentadas pelas crianças ajudando a criação do plano de atendimento individual que contemple atividades que desenvolvam habilidades ainda não adquiridas. Não podemos esquecer que avaliações da evolução dos aprendizados, reorganização dos objetivos propostos ou para traçar novos objetivos são importantes que sejam realizadas durante todo o processo terapêutico.
Referências:
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