Resumo
O pré-natal constitui importante estratégia para o acompanhamento da gestação e a promoção da saúde materno-infantil, sendo a humanização da assistência essencial para favorecer o acolhimento, a escuta qualificada e a participação da gestante no cuidado. Este estudo teve como objetivo analisar a assistência de enfermagem no pré-natal sob a perspectiva da humanização, considerando a percepção das gestantes e da enfermeira responsável pelo atendimento. Trata-se de pesquisa de campo, com análise descritiva e inferencial, realizada em uma unidade de Atenção Primária à Saúde do município de Alterosa-MG, com a participação de 55 gestantes e uma enfermeira, no período compreendido entre a segunda quinzena de junho e julho de 2026. A coleta de dados ocorreu por meio de questionários estruturados, aplicados individualmente. Os dados foram organizados e analisados de forma descritiva, por meio de frequências absolutas e relativas. Os resultados demonstraram avaliação predominantemente favorável da assistência pelas gestantes, especialmente quanto ao acolhimento, à escuta, ao esclarecimento de dúvidas, ao respeito às escolhas e à participação nas decisões relacionadas ao cuidado. Por outro lado, foram observadas fragilidades nas orientações referentes ao parto e à amamentação e no incentivo à presença de acompanhante durante as consultas. De modo geral, os achados evidenciam a presença de práticas alinhadas à humanização da assistência, ao mesmo tempo em que apontam aspectos que podem ser aprimorados para fortalecer a qualidade do cuidado de enfermagem durante o acompanhamento pré-natal.
Palavras-chave: Pré-natal; Humanização da assistência; Enfermagem; Gestante; Atenção Primária à Saúde.
Abstract
Prenatal care is an important strategy for monitoring pregnancy and promoting maternal and child health, with humanized care being essential to foster welcoming, qualified listening, and the participation of pregnant women in their own care. This study aimed to analyze nursing care during prenatal care from a humanization perspective, considering the perceptions of pregnant women and the nurse responsible for the care provided. This is a field study with descriptive and inferential analysis, conducted in a Primary Health Care unit in the municipality of Alterosa, Minas Gerais, Brazil, involving 55 pregnant women and one nurse, during the period from the second half of June to July 2026. Data collection was carried out using structured questionnaires administered individually. The data were organized and analyzed descriptively using absolute and relative frequencies. The results demonstrated a predominantly favorable assessment of care by the pregnant women, particularly regarding welcoming, listening, clarification of doubts, respect for choices, and participation in decisions related to care. On the other hand, weaknesses were identified in guidance regarding childbirth and breastfeeding, as well as in encouraging the presence of a companion during consultations. Overall, the findings demonstrate the presence of practices aligned with humanized care, while also indicating aspects that can be improved to strengthen the quality of nursing care during prenatal follow-up.
Keywords: Prenatal Care; Humanization of Care; Nursing; Pregnant Women; Primary Health Care
1 Introdução
A gestação é um período marcado por transformações físicas, emocionais e sociais, tornando o acompanhamento pré-natal fundamental para a promoção da saúde materna e fetal. Mais do que o acompanhamento dos aspectos clínicos, a assistência pré-natal deve considerar as necessidades individuais da gestante, proporcionando acolhimento, escuta qualificada, orientação e respeito às suas escolhas.
Nesse contexto, o enfermeiro desempenha papel importante na assistência pré-natal, por meio das consultas de enfermagem, avaliação das condições de saúde, identificação de fatores de risco e realização de ações educativas. A atuação profissional também envolve o esclarecimento de dúvidas e orientações relacionadas aos cuidados durante a gestação, contribuindo para que a mulher participe ativamente do próprio cuidado e fortaleça sua autonomia.
A humanização da assistência está relacionada à construção de uma relação de confiança entre a gestante e a equipe de saúde, considerando suas necessidades e percepções durante o acompanhamento. Entretanto, ainda podem existir dificuldades relacionadas ao acolhimento, à comunicação e à oferta de orientações, o que reforça a importância de avaliar como essas práticas são vivenciadas pelas gestantes e desenvolvidas pelos profissionais.
Diante disso, este estudo teve como objetivo analisar a assistência de enfermagem no pré-natal sob a perspectiva da humanização, considerando a percepção das gestantes e da enfermeira responsável pelo atendimento, com ênfase no acolhimento, na escuta, nas orientações, no respeito às escolhas e na participação da gestante no cuidado.
2 Revisão da Literatura
A enfermagem possui papel estratégico no acompanhamento pré-natal por integrar ações assistenciais, educativas e preventivas. A consulta de enfermagem permite acompanhar a evolução da gestação, identificar riscos e orientar a gestante quanto ao autocuidado, à alimentação, à suplementação, à vacinação e à preparação para o parto e a maternidade. Na Atenção Primária à Saúde, essa atuação contribui para a continuidade do cuidado e para a identificação de necessidades individuais (NASCIMENTO et al., 2021; SEHNEM et al., 2020).
A humanização pressupõe reconhecer a mulher como protagonista do cuidado, respeitando sua autonomia, suas preferências e suas necessidades. A escuta ativa, a comunicação clara e o envolvimento da família favorecem a confiança no serviço e fortalecem o vínculo entre profissional e gestante. A OMS recomenda que a experiência da mulher seja considerada parte da qualidade da assistência pré-natal (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2016).
Entre as práticas humanizadas, destacam-se a orientação individualizada, a preparação para o parto e o aleitamento materno e a atenção às necessidades emocionais. A educação em saúde realizada de maneira contínua e adaptada à realidade da gestante pode favorecer a compreensão das informações e a adoção de práticas de autocuidado (DUARTE; ALMEIDA, 2014; SEHNEM et al., 2020).
A participação do acompanhante também pode ampliar a rede de apoio e favorecer a segurança e a corresponsabilidade no cuidado. A legislação brasileira assegura à parturiente o direito à presença de acompanhante durante o trabalho de parto, parto e pós-parto imediato (BRASIL, 2005). No âmbito do pré-natal, o estímulo à participação de pessoa escolhida pela gestante pode fortalecer a rede de apoio e o vínculo familiar.
A preparação para o parto e a amamentação deve integrar o acompanhamento pré-natal. A literatura aponta que orientações iniciadas ainda durante a gestação podem ampliar o conhecimento das mulheres e favorecer atitudes positivas diante da amamentação (DEMITTO et al., 2010). A OMS também recomenda a proteção, promoção e apoio ao aleitamento materno como componente do cuidado materno e neonatal (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2017).
A dimensão emocional é igualmente relevante. Ansiedade e depressão podem ocorrer durante a gestação e estão relacionadas a diferentes fatores psicossociais, reforçando a necessidade de escuta e identificação de necessidades emocionais durante o acompanhamento (BIAGGI et al., 2016; SILVA et al., 2017).
3 Metodologia
O presente estudo trata-se de uma pesquisa de campo, realizada em uma unidade de Atenção Primária à Saúde vinculada à Secretaria Municipal de Saúde de Alterosa, Minas Gerais. Participaram 55 gestantes em acompanhamento pré-natal e uma enfermeira responsável pelas consultas no serviço de saúde pesquisado, durante o período compreendido entre a segunda quinzena de junho e o mês de julho de 2026.
O estudo teve como objetivo analisar a percepção das gestantes sobre a consulta de pré-natal realizada pela enfermagem e a percepção da enfermeira sobre a assistência prestada, considerando aspectos relacionados à humanização do cuidado.
A pesquisa foi conduzida em conformidade com os princípios éticos estabelecidos pela Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde. A realização do estudo foi autorizada pelo secretário municipal de Saúde, mediante assinatura do Termo de Conhecimento de Realização de Pesquisa, e aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UNIFENAS, sob o parecer consubstanciado nº 8.418.205.
A participação das mulheres foi voluntária, mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), após o recebimento de informações sobre os objetivos, benefícios e possíveis riscos da pesquisa, bem como sobre a garantia de confidencialidade das informações, a preservação da identidade e o direito de desistir da participação a qualquer momento, sem qualquer prejuízo.
A coleta de dados foi realizada por meio de um questionário estruturado, elaborado para a pesquisa. O mesmo instrumento foi aplicado às 55 gestantes e à enfermeira, permitindo conhecer as diferentes percepções acerca da consulta de pré-natal. O questionário contemplou questões sociodemográficas e obstétricas e aspectos relacionados à assistência, como acolhimento, escuta, disponibilidade para esclarecimento de dúvidas, respeito às escolhas da gestante, orientações sobre alimentação, suplementação, vacinação, parto e amamentação, além da participação da gestante nas decisões sobre seu cuidado e do incentivo à presença do acompanhante. A aplicação ocorreu individualmente, de modo a preservar a privacidade dos participantes.
Após a coleta, os dados foram submetidos à análise descritiva e inferencial. Inicialmente, as respostas foram organizadas em frequências absolutas e relativas. Para verificar se as proporções de respostas positivas diferiam significativamente do que seria esperado ao acaso (50%), aplicou-se o teste binomial exato a cada item da assistência, com hipótese nula H₀: p = 0,50. A distribuição das variáveis sociodemográficas foi avaliada pelo teste qui-quadrado de aderência, comparando as frequências observadas com a distribuição uniforme esperada. Para comparar a proporção de respostas positivas entre diferentes itens da assistência (ex.: acolhimento versus incentivo ao acompanhante), utilizou-se o teste z para diferença de duas proporções. Adicionalmente, foram calculados intervalos de confiança de 95% para proporções pelo método de Wilson, que é mais adequado para amostras pequenas e proporções extremas. Adotou-se nível de significância de α = 0,05, considerando-se significativos os resultados com p < 0,05. As análises foram realizadas no software R (funções binom.test, chisq.test e prop.test) ou equivalente estatístico.
Posteriormente, os resultados foram discutidos com base na literatura científica relacionada à assistência de enfermagem e à humanização do pré-natal.
4 Resultados e Discussão
Foram entrevistadas 55 gestantes em acompanhamento pré-natal, no município de Alterosa, Minas Gerais, durante o período compreendido entre a segunda quinzena de junho e o mês de julho de 2026. As respostas foram analisadas quanto às características sociodemográficas das participantes e à percepção sobre a assistência de enfermagem durante o pré-natal humanizado:
Tabela 1 - Caracterização das gestantes entrevistadas, Alterosa-MG, 2026
Fonte: Dados da pesquisa, 2026
A Tabela 1 apresenta a caracterização sociodemográfica das 55 gestantes participantes da pesquisa. Em relação à idade, observou-se predominância de gestantes na faixa etária de 20 a 29 anos, correspondendo a 52,7% da amostra, seguida da faixa de 30 a 39 anos, com 36,4%. As participantes com menos de 20 anos representaram 7,3%, enquanto aquelas com 40 anos ou mais corresponderam a 3,6%. Quanto à escolaridade, verificou-se maior frequência de gestantes com ensino médio completo, representando 52,7% da amostra, seguido do ensino superior completo, com 16,4%. Em relação ao estado civil, houve predominância de participantes solteiras, correspondendo a 40,0%, seguidas pelas casadas, com 29,1%, e pelas que declararam união estável, com 20,0%.
4.1 Teste qui-quadrado de aderência (perfil sociodemográfico)
Tabela 2 – Teste qui-quadrado de aderência para as variáveis sociodemográficas, Alterosa-MG, 2026
Fonte: Dados da pesquisa, 2026
A distribuição das gestantes não foi uniforme em nenhuma das variáveis sociodemográficas (Tabela 2), evidenciando um perfil concentrado: predomínio de gestantes de 20 a 29 anos (52,7%), com ensino médio completo (52,7%) e solteiras (40,0%) — todas as diferenças estatisticamente significativas.
Tabela 3 - Percepção das gestantes sobre a assistência de enfermagem durante o pré-natal, Alterosa-MG, 2026
Fonte: Dados da pesquisa, 2026
A Tabela 3 demonstra a percepção das gestantes quanto à assistência de enfermagem durante o pré-natal. Observou-se uma avaliação predominantemente positiva em relação ao atendimento recebido. Todas as participantes (100,0%) relataram que foram bem recebidas pelo enfermeiro, tiveram tempo suficiente para esclarecer suas dúvidas, receberam orientação sobre vitaminas e suplementos e pretendiam seguir as orientações do pré-natal. Além disso, 100,0% afirmaram ter sido ouvidas com atenção pelo profissional.
A participação e a autonomia também apresentaram resultados expressivos: 98,2% relataram poder participar das decisões e 98,2% afirmaram que suas escolhas e opiniões foram respeitadas. Esse resultado é compatível com a perspectiva de cuidado centrado na mulher, que valoriza comunicação, dignidade e participação nas decisões (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2016). Achados semelhantes foram observados por Goulart et al. (2026), que identificaram percepções positivas de gestantes quanto ao acolhimento, à escuta e à empatia na assistência de enfermagem.
Quanto à educação em saúde, 96,4% receberam orientação sobre alimentação, 100,0% sobre vitaminas e suplementos e 98,2% sobre vacinação. Além disso, 98,2% afirmaram que as orientações contribuíram para melhorar seus hábitos de saúde. Esses achados reforçam a importância da educação em saúde como parte da consulta de enfermagem, favorecendo o autocuidado e a prevenção de riscos (DUARTE; ALMEIDA, 2014; SEHNEM et al., 2020).
Apesar da avaliação favorável, foram identificadas fragilidades em dois aspectos. A orientação sobre parto e amamentação foi relatada por 78,2% das gestantes, enquanto 21,8% não receberam essas informações. A preparação para o parto e a amamentação deve integrar o acompanhamento pré-natal, com informações adequadas e contínuas. Estudos sobre educação em saúde apontam a relevância de orientar a mulher ainda durante a gestação para ampliar seu conhecimento e favorecer atitudes positivas diante do aleitamento (DEMITTO et al., 2010; WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2017).
O incentivo à presença de acompanhante também apresentou menor frequência: 76,4% responderam positivamente e 23,6% negativamente. Embora a Lei nº 11.108/2005 assegure o direito ao acompanhante durante o trabalho de parto, parto e pós-parto imediato, o estímulo à participação desde o pré-natal pode fortalecer a rede de apoio da gestante (BRASIL, 2005). Ferreira e Silva (2025) também destacam a inclusão do parceiro e a escuta ativa como componentes relevantes da assistência humanizada.
No componente emocional, 90,9% das gestantes afirmaram ter recebido orientações sobre saúde emocional e bem-estar, e 92,7% relataram que o atendimento ajudou a diminuir ansiedade ou medo. Esses dados sugerem que o atendimento foi percebido como fonte de apoio, embora não permitam afirmar que tenha ocorrido avaliação clínica sistemática da saúde mental. Biaggi et al. (2016) demonstram que a ansiedade e a depressão antenatais estão associadas a múltiplos fatores psicossociais, reforçando a importância da identificação de necessidades emocionais. Silva et al. (2017) também evidenciaram a frequência da ansiedade na gestação e a importância de medidas preventivas na assistência pré-natal.
Todas as gestantes declararam intenção de seguir as orientações do pré-natal. Esse achado demonstra elevada intenção declarada de adesão, mas deve ser interpretado com cautela, pois a pesquisa não avaliou indicadores objetivos, como comparecimento às consultas, realização de exames, atualização vacinal ou cumprimento das orientações ao longo do acompanhamento. Assim, não é possível afirmar, a partir desses dados, que a humanização tenha produzido impacto causal sobre a adesão.
4.2 Teste binomial exato
Tabela 4 - Teste binomial exato (H₀: p = 0,50) aplicado aos itens da assistência, Alterosa-MG, 2026
Fonte: Dados da pesquisa, 2026
Todos os itens da assistência apresentaram proporções de respostas positivas significativamente superior a 50% (p < 0,001 para todos os itens), indicando que a avaliação favorável não decorre do acaso (Tabela 4).
4.3 Intervalos de confiança de 95% (Wilson)
Tabela 5 - Proporção de respostas positivas e intervalo de confiança de 95% (Wilson), Alterosa-MG, 2026
Fonte: Dados da pesquisa, 2026
Os intervalos de confiança confirmam a robustez das avaliações positivas nos itens centrais da humanização, enquanto os itens com menor adesão apresentam limites inferiores mais baixos (Tabela 5).
4.4 Comparação entre itens da assistência
Tabela 6 - Comparação de proporções entre itens da assistência (teste z), Alterosa-MG, 2026
Fonte: Dados da pesquisa, 2026
As comparações entre proporções revelaram que os itens com menor frequência “orientação sobre parto e amamentação” (78,2%) e “incentivo ao acompanhante” (76,4%) diferem significativamente dos itens centrais do “acolhimento” (100,0%), configurando lacunas reais e estatisticamente confirmadas na assistência (Tabela 6).
Tabela 7 - Caracterização da enfermeira participante da pesquisa, Alterosa-MG, 2026
Fonte: Dados da pesquisa, 2026
A análise do instrumento aplicado à enfermeira responsável pelo atendimento pré-natal em Alterosa-MG evidencia uma profissional com experiência e formação direcionadas à assistência à mulher. A participante possui 41 anos, mais de 10 anos de formação profissional e mais de dois anos de atuação no atendimento pré-natal. Apresenta pós-graduação em Enfermagem Ginecológica e Obstétrica, formação específica em Saúde da Mulher e Obstetrícia, além de relatar participação em cursos de atualização em pré-natal nos últimos dois anos e capacitação em humanização (Tabela 7).
Tabela 8 – Percepção da enfermeira sobre sua atuação na assistência pré-natal, Alterosa-MG, 2026
Fonte: Dados da pesquisa, 2026
Observação: Na questão sobre alimentação adequada durante a gestação, a enfermeira marcou “Não” e registrou que a abordagem é realizada de forma superficial, pois há nutricionista no pré-natal.
Na avaliação de sua própria atuação, a enfermeira respondeu afirmativamente aos itens referentes ao acolhimento, escuta, respeito às escolhas, suplementação, vacinação, saúde emocional, parto e amamentação, confiança, participação nas decisões, presença de acompanhante, hábitos saudáveis, redução da ansiedade e seguimento das orientações. O único item respondido negativamente foi a orientação sobre alimentação, justificada pela presença de nutricionista no serviço.
A comparação entre as perspectivas evidencia convergência em diversos componentes da humanização, especialmente acolhimento, escuta, respeito à autonomia e educação em saúde. Ao mesmo tempo, a percepção das gestantes identifica lacunas específicas nas orientações sobre parto e amamentação e no incentivo à presença de acompanhante. Essa diferença reforça a importância de avaliar a assistência também a partir da experiência das usuárias, e não apenas da perspectiva profissional.
Entre as limitações, destacam-se a realização do estudo em um único município, a participação de 55 gestantes e uma enfermeira e a utilização de percepções autorreferidas. Assim, os resultados não permitem generalização para outros serviços nem estabelecem causalidade. Também pode existir viés de satisfação ou de resposta socialmente desejável. Apesar dessas limitações, os achados contribuem para compreender a experiência das gestantes no contexto estudado e apontam áreas específicas para qualificação da assistência.
Gráfico 1 – Comparação do percentual de respostas “SIM” por dimensão avaliada entre gestantes e enfermeira, Alterosa-MG, 2026
No gráfico 1 pode-se observar uma comparação entre as respostas sinalizadas como SIM por gestantes e pela enfermeira que assiste ao pré-natal no município avaliado. A intenção é reforçar que as respostas foram muito similares e predominantemente positivas.
Gráfico 2 – Comparação do percentual de respostas “NÃO” por dimensão avaliada entre gestantes e enfermeira, Alterosa-MG, 2026
Já o gráfico 2 demonstra a comparação entre as respostas sinalizadas como NÃO por gestantes e pela enfermeira que assiste ao pré-natal no município avaliado. Neste caso, a enfermeira justificou não fazer orientações sobre alimentação, uma vez que fica a cargo do nutricionista da equipe, conforme apresentado anteriormente. Entretanto apenas 3,6% das gestantes referiram não terem sido informadas sobre alimentação por parte da enfermeira, o que provavelmente justifica-se pelo fato de que como receberam a informação pelo nutricionista, sentiram-se orientadas sobre o assunto.
Os testes estatísticos confirmaram que a avaliação positiva da assistência não é casual: todos os 14 itens avaliados apresentaram proporções significativamente superior a 50% (p < 0,001), com intervalos de confiança de 95% cujos limites inferiores permanecem elevados nos componentes centrais da humanização (acolhimento, escuta, esclarecimento de dúvidas e respeito à autonomia). Esses achados corroboram a literatura que associa a humanização do pré-natal a práticas de acolhimento, escuta qualificada e participação da gestante no cuidado (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2016; GOULART et al., 2026).
O diferencial estatístico mais relevante, contudo, reside nas comparações entre itens: “orientações sobre parto e amamentação” (78,2%) e “incentivo à presença de acompanhante” (76,4%) que foram significativamente inferiores ao acolhimento (100,0%) (p < 0,001). Isso indica que as fragilidades identificadas não são flutuações amostrais, mas lacunas sistemáticas da assistência, que permanecem mesmo em um serviço com avaliação globalmente positiva. A literatura enfatiza que a preparação para o parto e o aleitamento deve integrar o pré-natal desde a gestação para favorecer atitudes positivas diante da amamentação (DEMITTO et al., 2010; WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2017), e que o estímulo ao acompanhante fortalece a rede de apoio e a corresponsabilidade no cuidado (BRASIL, 2005; FERREIRA; SILVA, 2025).
A comparação entre a percepção das gestantes e a da enfermeira revelou convergência na maioria dos componentes, porém uma divergência relevante: enquanto 96,4% das gestantes relataram ter recebido orientação sobre alimentação, a enfermeira declarou não realizar essa orientação, justificando a existência de nutricionista no serviço. Essa discrepância sugere que as gestantes podem perceber as orientações nutricionais recebidas de outros profissionais como parte integrante do pré-natal, ou que a enfermeira subestima sua própria contribuição educativa — aspecto que merece investigação qualitativa complementar.
No componente emocional, a proporção de gestantes que relatou redução de ansiedade ou medo (92,7%) e a de que recebeu orientações sobre saúde emocional (90,9%) foram significativas, porém a comparação com o incentivo ao acompanhante (76,4%) atingiu significância marginal (p = 0,039), sugerindo que o apoio emocional é mais presente do que o incentivo à participação da rede de apoio familiar — um ponto de atenção para a integralidade do cuidado (BIAGGI et al., 2016; SILVA et al., 2017).
5 Conclusão
A pesquisa evidenciou que, segundo a percepção das gestantes entrevistadas, a assistência de enfermagem no pré-natal em Alterosa-MG apresenta características predominantemente humanizadas. Destacaram-se o acolhimento, a escuta qualificada, o esclarecimento de dúvidas, o respeito às escolhas, a participação nas decisões, a educação em saúde e a confiança estabelecida com o profissional.
Foram identificadas, entretanto, oportunidades de aprimoramento, principalmente nas orientações sobre parto e amamentação e no incentivo à presença de acompanhante. Embora todas as participantes tenham declarado intenção de seguir as orientações recebidas, os dados não permitem afirmar impacto efetivo sobre a adesão, pois não foram avaliados indicadores objetivos.
Conclui-se que o enfermeiro possui papel relevante na condução de um pré-natal integral, individualizado e centrado nas necessidades da gestante. Recomenda-se fortalecer e sistematizar as ações educativas e relacionais, especialmente quanto à preparação para o parto, amamentação, saúde emocional e participação do acompanhante. Sugere-se que futuras pesquisas incluam diferentes profissionais, protocolos assistenciais e indicadores objetivos de adesão e qualidade.
Referências
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Unifenas–Alfenas–MG–Brasil. ORCID: https://orcid.org/0009-0005-4652-5042. ↑
Unifenas–Alfenas–MG–Brasil. ORCID: https://orcid.org/0009-0003-5580-6247. ↑
Unifenas–Alfenas–MG–Brasil. ORCID: https://orcid.org/0009-0007-0603-5510. ↑
Unifenas–Alfenas–MG–Brasil. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-7343-6188. ↑
Unifenas–Alfenas–MG–Brasil. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-1989-2670. ↑

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