Entre o trabalho e o esquecimento de si: uma leitura crítica de Homem-Aranha: um novo dia.
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
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Resumo

Frequentar o cinema sempre foi uma das minhas paixões, porém fiquei um tempo sem frequentar o que eu chamo de "Tela Mágica". Numa quinta-feira, 3 de setembro de 2026, combinei com uma amiga, Cremilda, de irmos "desopilar" um pouco e marcamos um cineminha. Almoçamos em um ambiente agradável e de lá fomos comprar os ingressos e, como já havíamos combinado anteriormente, fomos assistir ao filme: Homem-Aranha: Um Novo Dia. Esse artigo surgiu após assisti-lo e ver-me completamente nele, juntamente com minha amiga, Cremilda, e entre tantos outros colegas de trabalho. Sim, somos professores. Havia-me esquecido disso; acontece, às vezes, aliás, pouquíssimas vezes. O cinema frequentemente apresenta personagens que, embora fictícios, representam dilemas profundamente humanos. Homem-Aranha: Um Novo Dia permite uma reflexão sobre solidão, vínculos afetivos, responsabilidade e, sobretudo, sobre a dificuldade de conciliar o cuidado com os outros e o cuidado consigo mesmo. A trajetória do personagem dialoga com uma realidade cada vez mais presente: pessoas que se ocupam continuamente, trabalham excessivamente e assumem responsabilidades para evitar perdas, conflitos ou sentimentos de vazio. Nesse contexto, este artigo propõe uma reflexão sobre profissionais (professores) que, ao dedicarem grande parte de sua existência ao trabalho e às necessidades alheias, acabam negligenciando a própria vida.

Palavras-chave: trabalho; autocuidado; relações sociais; professor; saúde emocional; sociedade contemporânea.

Abstract

Attending the cinema has always been one of my passions, but I spent some time away from what I call the "Magic Screen". On Thursday, September 3, 2026, I arranged with a friend, Cremilda, to unwind a little and go to the movies. We had lunch in a pleasant environment and from there we went to buy the tickets and, as previously agreed, we went to watch the film: Spider-Man: Brand New Day. This article emerged after watching it and seeing myself completely in it, along with my friend, Cremilda, and among many other coworkers. Yes, we are teachers. I had forgotten it; it happens sometimes, actually, very rarely. Cinema frequently features characters who, although fictional, represent deeply human dilemmas. Spider-Man: Brand New Day allows a reflection on loneliness, emotional bonds, responsibility and, above all, the difficulty of balancing care for others with self-care. The character's trajectory dialogues with an increasingly present reality: people who are continuously occupied, work excessively and take on responsibilities to avoid loss, conflict or feelings of emptiness. In this context, this article proposes a reflection on professionals (teachers) who, by dedicating a large part of their existence to work and the needs of others, end up neglecting their own lives.

Keywords: work; self-care; social relations; teacher; emotional health; contemporary society.

INTRODUÇÃO

O Homem-Aranha sempre foi mais do que um super-herói. Por trás da máscara existe uma pessoa que precisa lidar com perdas, responsabilidades, escolhas e consequências. Essa dimensão humana torna sua história particularmente interessante para pensar a sociedade contemporânea, cheia de desafios diários em todos os campos da vida.

Em Homem-Aranha: Um Novo Dia, a ideia de reconstrução da própria vida pode ser relacionada a uma realidade vivida por muitas pessoas: depois de determinadas perdas ou rupturas, o indivíduo procura preencher o vazio mantendo-se permanentemente ocupado. Trabalha, resolve problemas, cuida dos outros, assume responsabilidades e raramente encontra tempo para perguntar a si mesmo: "E quem está cuidando de mim?"

Essa pergunta é especialmente importante quando pensamos na profissão docente.

TRABALHAR NÃO É O MESMO QUE VIVER

"Viver é diferente de tá vivo" ou "Viver é diferente de estar vivo", bordão do cantor Natanzinho Lima, viralizado nas redes sociais. Existe uma diferença significativa entre estar ocupado e estar vivendo.

O trabalho pode proporcionar sentido, realização e pertencimento. Entretanto, quando todas as horas são preenchidas por aulas, tarefas, planejamentos, correções, reuniões, responsabilidades familiares e preocupações com outras pessoas, a atividade profissional pode deixar de ser apenas uma dimensão da vida e passar a ocupar a própria existência.

É possível estar extremamente produtivo e, ao mesmo tempo, emocionalmente distante de si. Acontece muito na realidade de muitos profissionais comprometidos, em especial os profissionais da educação.

O problema não está em trabalhar muito ou em cuidar dos outros. O problema surge quando o indivíduo utiliza a ocupação permanente como estratégia para não perceber suas próprias necessidades.

Nesse sentido, esquecer-se de si não significa necessariamente abandonar suas responsabilidades. Às vezes, significa exatamente o contrário: assumir tantas responsabilidades que já não sobra espaço para existir além delas.

O PROFESSOR E A SÍNDROME DO "EU RESOLVO"

A realidade do professor evidencia esse fenômeno de maneira particular.

O docente não trabalha apenas quando está dentro da sala de aula. Planeja, estuda, corrige, avalia, produz materiais, participa de reuniões, acompanha alunos, conversa com famílias e responde às inúmeras demandas que chegam diariamente à escola.

Além disso, existe o professor enquanto pessoa: alguém que possui família, amigos, sonhos, preocupações e necessidades afetivas.

Pensemos, por exemplo, na figura do professor Pedro (este que escreve este artigo à meia-noite) em Teresina, que, na correria cotidiana, procura cuidar de tudo e de todos: alunos, colegas, família, amigos e responsabilidades profissionais. Há uma grandeza nesse compromisso, mas também existe um risco silencioso: cuidar de tantas pessoas a ponto de esquecer que também é necessário cuidar de si.

O professor pode tornar-se uma espécie de "super-herói" cotidiano. Resolve problemas, encontra soluções, ajuda pessoas e continua trabalhando mesmo quando está cansado.

Mas os professores não são super-heróis. São seres humanos.

QUANDO A OCUPAÇÃO SE TRANSFORMA EM FUGA

A sociedade contemporânea valoriza excessivamente a produtividade. Estar ocupado tornou-se, muitas vezes, sinônimo de ser importante.

  • "Estou sem tempo."
  • "Tenho muitas coisas para fazer."
  • "Depois eu descanso."
  • "Primeiro preciso resolver isso."

Essas frases parecem demonstrar responsabilidade, mas também podem esconder uma dificuldade de parar. Parar significa encontrar-se consigo mesmo. E esse encontro nem sempre é confortável.

Por isso, algumas pessoas trabalham incessantemente, não necessariamente porque precisam produzir mais, mas porque não sabem mais como ficar consigo mesmas quando não estão produzindo para os outros.

O Homem-Aranha pode ser compreendido, nessa perspectiva, como uma metáfora do indivíduo que carrega responsabilidades demais e acredita que precisa continuar salvando o mundo, mesmo quando sua própria vida pede atenção (tudo isso é muito silencioso).

O VERDADEIRO "NOVO DIA"

Talvez o significado mais profundo de um "novo dia" não seja simplesmente começar novamente a trabalhar, lutar ou cumprir obrigações de rotina. Talvez seja aprender a começar novamente consigo mesmo.

Um novo dia pode significar reconhecer limites, recuperar amizades, permitir-se descansar, cuidar da saúde emocional, voltar a fazer aquilo que proporciona prazer — ir ao cinema, por exemplo — e compreender que nossa existência não se resume àquilo que fazemos pelos outros.

Para o professor, essa reflexão é ainda mais necessária. Cuidar dos alunos não deveria significar abandonar o próprio cuidado. Ensinar exige dedicação, mas a dedicação não precisa significar autodestruição.

O professor também precisa de tempo para ser simplesmente Pedro, Cremilda, San-Mara, Joelma, Francisca ou qualquer outro nome que exista por trás do profissional.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A reflexão provocada por Homem-Aranha: Um Novo Dia ultrapassa os limites da ficção. Em uma sociedade marcada pela pressa, pela produtividade e pelo excesso de responsabilidades, muitas pessoas estão aprendendo a cuidar de todos, menos de si mesmas.

O desafio contemporâneo talvez não seja apenas encontrar tempo para trabalhar, mas encontrar coragem para parar. Porque existe uma diferença entre ocupar-se para construir uma vida e ocupar-se para não perceber que a própria vida está ficando para depois.

O professor ensina, orienta, acolhe e transforma vidas. Mas também precisa lembrar-se de uma verdade simples: ele não pode ser presença para todos se estiver continuamente ausente de si mesmo.

Talvez o verdadeiro "novo dia" comece justamente quando deixamos de perguntar apenas "o que preciso fazer hoje?" e passamos a perguntar: "O que eu preciso fazer hoje por mim?"

E essa talvez seja uma das maiores responsabilidades que alguém pode assumir: não permitir que, enquanto tenta cuidar do mundo inteiro, acabe esquecendo a própria existência.

REFERÊNCIAS

HOMEM-ARANHA: Um Novo Dia (Spider-Man: Brand New Day). Direção: Destin

Daniel Cretton. Roteiro: Chris McKenna e Erik Sommers. Produção: Columbia Pictures, Marvel Studios e Pascal Pictures. Estados Unidos: Sony Pictures Releasing, 2026. 1 filme cinematográfico (2h 24min), som, color.

LIMA, Natanzinho. Viver é diferente de estar vivo. In: @natanzinholimaoficial. [S. l.], 2026. Redes Sociais.

  1. Graduado em Licenciatura Plena em Normal Superior pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI). Pós-graduado em Docência do Ensino Superior (UESPI), Tecnologias Educacionais (PucRio) e em Gestão e Supervisão Escolar (Faculdade Evangélica do Meio Norte(FAEME). Atualmente, atua como professor da Rede Municipal de Teresina (Piauí) e da Rede Municipal de Timon (Maranhão). E-mail: pedro.1423jp@gmail.com / https://orcid.org/0009-0005-4561-6903. ↑

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Copyright (c) 2026 Pedro Rodrigues de Sousa (Autor)

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