A influência da taxa Selic no desempenho dos fundos de investimento no Brasil: uma análise do período de 2016 a setembro de 2026.
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
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RESUMO

A taxa Selic exerce papel central na condução da política monetária brasileira e influencia diferentes segmentos da economia, incluindo o mercado financeiro e as decisões de investimento. Diante disso, o presente estudo tem como objetivo analisar de que maneira as variações da taxa Selic estiveram relacionadas ao desempenho dos fundos de investimento no Brasil entre 2016 e setembro de 2026. A pesquisa apresenta abordagem predominantemente quantitativa, complementada por análise qualitativa, e caracteriza-se como bibliográfica e documental, utilizando dados secundários provenientes de instituições como Banco Central do Brasil (BCB), Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (ANBIMA) e B3. A análise considera diferentes cenários de política monetária, contemplando períodos de elevação, redução e estabilidade da taxa básica de juros, além do comportamento de diferentes categorias de fundos. Os resultados levantados indicam que a relação entre Selic e fundos de investimento não ocorre de maneira uniforme entre as diferentes classes. Os fundos de renda fixa apresentam maior sensibilidade ao nível dos juros, enquanto fundos multimercados, de ações e imobiliários são influenciados também por expectativas econômicas, condições de mercado, risco e composição das carteiras. No segmento imobiliário, a evolução do IFIX demonstra que a relação entre juros e desempenho dos fundos não é exclusivamente linear, reforçando a necessidade de considerar outras variáveis econômicas na interpretação dos resultados. Conclui-se que as mudanças na Selic constituem importante fator de influência sobre a indústria de fundos, mas seus efeitos dependem das características de cada classe e do contexto econômico observado.

Palavras-chave: Taxa Selic. Fundos de investimento. Política monetária. Mercado financeiro. Rentabilidade.

ABSTRACT

The Selic rate plays a central role in the conduct of Brazilian monetary policy and influences various segments of the economy, including the financial market and investment decisions. Given this context, this study aims to analyze how variations in the Selic rate were related to the performance of investment funds in Brazil between 2016 and September 2026. The research adopts a predominantly quantitative approach, complemented by qualitative analysis, and is characterized as a bibliographic and documentary study, utilizing secondary data from institutions such as the Central Bank of Brazil (BCB), the Securities and Exchange Commission of Brazil (CVM), the Brazilian Financial and Capital Markets Association (ANBIMA), and B3. The analysis considers different monetary policy scenarios, covering periods of increase, reduction, and stability of the benchmark interest rate, as well as the behavior of different categories of funds. The findings indicate that the relationship between the Selic rate and investment funds does not occur uniformly across different asset classes. Fixed-income funds show higher sensitivity to interest rate levels, while multi-market, equity, and real estate funds are also influenced by economic expectations, market conditions, risk, and portfolio composition. In the real estate segment, the evolution of the IFIX demonstrates that the relationship between interest rates and fund performance is not exclusively linear, reinforcing the need to consider other economic variables when interpreting the results. It is concluded that changes in the Selic rate constitute an important influencing factor on the fund industry, but their effects depend on the characteristics of each asset class and the observed economic context.

Keywords: Selic rate. Investment funds. Monetary policy. Financial market. Profitability.

1 INTRODUÇÃO

A política monetária exerce papel fundamental na condução da economia brasileira, tendo entre seus principais instrumentos a taxa Selic, definida pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central do Brasil. A taxa constitui uma referência para o custo do dinheiro na economia e influencia condições de crédito, decisões de consumo, investimentos e preços dos ativos financeiros.

As alterações na taxa básica de juros ocorrem de acordo com a avaliação do cenário econômico e das perspectivas para a inflação. Em períodos de maior pressão inflacionária, a elevação dos juros pode contribuir para reduzir a demanda agregada e controlar o processo inflacionário. Em sentido contrário, reduções da taxa podem contribuir para estimular o crédito e a atividade econômica, dependendo das demais condições presentes no ambiente macroeconômico.

Os efeitos das mudanças na Selic também alcançam o mercado financeiro. A intensidade desses efeitos, entretanto, varia conforme a natureza dos ativos e a estratégia adotada pelos fundos. Em fundos de renda fixa, por exemplo, a relação com as taxas de juros tende a ser mais direta, especialmente em carteiras compostas por títulos públicos e privados sensíveis às condições de mercado. Já fundos de ações, multimercados e imobiliários estão sujeitos a outros fatores, como expectativas de crescimento econômico, inflação, risco, condições de crédito e comportamento dos investidores.

A indústria brasileira de fundos apresenta elevada diversidade de estratégias e classes de ativos. A Comissão de Valores Mobiliários disponibiliza dados sobre fundos de investimento que permitem analisar informações como valor das cotas, rentabilidade, aplicações e resgates, possibilitando a realização de estudos sobre o comportamento do setor ao longo do tempo.

O período escolhido para esta pesquisa apresenta particular relevância devido às diferentes fases vivenciadas pela economia brasileira. Entre 2016 e setembro de 2026, a Selic passou por períodos de níveis elevados, forte redução, manutenção em patamares historicamente baixos, novo ciclo de elevação e posterior processo de redução. Em 2020, por exemplo, a taxa básica atingiu níveis reduzidos em meio às medidas de enfrentamento dos efeitos econômicos da pandemia. Posteriormente, a inflação e as condições econômicas contribuíram para a retomada de um ciclo de alta dos juros.

Nos anos mais recentes, novamente ocorreram alterações relevantes. Em 2025, a Selic alcançou 15% ao ano e permaneceu nesse patamar até o início de 2026. A partir de março de 2026, o Copom iniciou um processo de redução, levando a taxa para 14,75%, 14,50% e 14,25% nas reuniões seguintes. Em setembro de 2026, a taxa foi reduzida para 13,75% ao ano.

Esse ambiente permite observar diferentes comportamentos dos fundos em cenários de juros distintos. A ANBIMA, por exemplo, registrou em 2016 que a indústria de fundos apresentou captação líquida de R$ 109,1 bilhões, enquanto fundos de renda fixa e multimercados apresentaram comportamentos distintos ao longo do processo de mudança das condições monetárias.

Em 2020, período marcado pela pandemia e pela redução da taxa de juros, também foram observadas alterações relevantes nos fluxos da indústria. A ANBIMA registrou crescimento da captação em fundos multimercados e de ações ao longo daquele ano, em um contexto de juros reduzidos e busca por alternativas de rentabilidade.

No segmento de fundos imobiliários, a relação com a Selic também merece atenção. O IFIX apresentou variações relevantes ao longo do período analisado, incluindo valorização de 35,98% em 2019, queda de 10,24% em 2020, nova queda de 2,28% em 2021 e crescimento de 21,15% em 2025. Esses dados demonstram que o desempenho dos fundos imobiliários não pode ser explicado exclusivamente pelo comportamento da Selic.

Diante desse contexto, o presente estudo busca responder à seguinte questão: como as variações da taxa Selic estiveram relacionadas ao desempenho e à atratividade dos fundos de investimento no Brasil entre 2016 e setembro de 2026?

O objetivo geral consiste em analisar a relação entre as variações da taxa Selic e o desempenho dos fundos de investimento no Brasil durante o período selecionado. Especificamente, busca-se compreender a evolução da taxa Selic; identificar características das principais categorias de fundos; analisar o comportamento dos fundos em diferentes cenários de juros; comparar períodos de alta, estabilidade e queda da Selic; e observar alterações nos fluxos de recursos da indústria de fundos.

A relevância da pesquisa está relacionada à importância da taxa de juros para o mercado financeiro brasileiro e à expansão da participação dos investidores em diferentes produtos de investimento. A compreensão dessa relação pode contribuir tanto para estudos acadêmicos sobre política monetária e mercado financeiro quanto para uma interpretação mais adequada dos diferentes comportamentos observados entre as classes de fundos.

2 REFERENCIAL TEÓRICO

2.1 MACROECONOMIA E POLÍTICA MONETÁRIA

A macroeconomia estuda o funcionamento da economia em uma perspectiva agregada, considerando variáveis como inflação, produto, emprego, juros e crescimento econômico. Essas variáveis estão relacionadas e ajudam a compreender as condições econômicas de determinado país.

Entre os instrumentos utilizados para influenciar as condições econômicas está a política monetária. No Brasil, o Banco Central utiliza instrumentos de política monetária tendo como referência o regime de metas para a inflação. Nesse contexto, a taxa Selic ocupa posição central.

As decisões de política monetária afetam as condições financeiras e, por consequência, podem influenciar decisões de consumo, investimento e alocação de recursos. Uma elevação dos juros tende a aumentar o custo de financiamento e modificar a relação entre retorno e risco dos ativos financeiros.

Essa relação é particularmente importante para o mercado de fundos, uma vez que alterações na taxa de juros podem modificar tanto a remuneração de ativos de renda fixa quanto as expectativas utilizadas na precificação de ativos de renda variável.

2.2 TAXA SELIC

A Selic é a taxa básica de juros da economia brasileira e é definida pelo Copom. Além de ser utilizada como instrumento de política monetária, a taxa serve como importante referência para as condições financeiras do país.

O Banco Central disponibiliza uma série histórica da Selic com periodicidade diária, permitindo acompanhar sua evolução ao longo dos anos. A série é mantida pelo Departamento de Operações do Mercado Aberto e constitui uma das principais bases oficiais para pesquisas sobre o comportamento dos juros brasileiros.

A influência da Selic sobre os investimentos ocorre por diferentes canais. Nos ativos de renda fixa pós-fixados, a relação pode ser mais direta, enquanto nos ativos de renda variável os efeitos podem ocorrer por meio das expectativas de crescimento, custo de oportunidade, inflação, crédito e percepção de risco.

Assim, uma análise sobre a relação entre Selic e fundos de investimento deve considerar que diferentes classes podem responder de maneiras distintas ao mesmo movimento da taxa básica.

2.3 FUNDOS DE INVESTIMENTO

Os fundos de investimento constituem uma modalidade de aplicação coletiva na qual recursos de diferentes investidores são reunidos e administrados de acordo com uma política de investimento previamente estabelecida.

Uma das principais características dos fundos é a possibilidade de diversificação. Dependendo da classe e da estratégia, a carteira pode reunir diferentes ativos, permitindo ao investidor acessar estratégias que, individualmente, poderiam exigir maior conhecimento técnico ou maior volume de recursos.

A indústria de fundos brasileira apresenta diferentes categorias, entre elas renda fixa, ações, multimercados e fundos estruturados. A classificação e a regulamentação sofreram alterações ao longo do período analisado, especialmente com a implementação da Resolução CVM 175.

2.3.1 FUNDOS DE RENDA FIXA

Os fundos de renda fixa possuem carteiras predominantemente compostas por ativos relacionados ao mercado de renda fixa. Sua sensibilidade às condições de juros depende da composição da carteira, prazo dos títulos, risco de crédito e estratégia de gestão.

Em cenários de juros elevados, ativos pós-fixados vinculados às taxas de juros podem apresentar maior remuneração nominal. A ANBIMA registrou, por exemplo, que em 2016 fundos de renda fixa apresentaram desempenho favorecido pelo ambiente de juros elevados, enquanto estratégias de maior duração também se beneficiaram da expectativa de redução dos juros.

2.3.2 FUNDOS MULTIMERCADOS

Os fundos multimercados apresentam maior flexibilidade de estratégia, podendo combinar diferentes classes de ativos. Por essa característica, sua relação com a Selic não ocorre de forma exclusivamente direta.

O desempenho pode depender das decisões do gestor, da exposição a juros, câmbio, ações, commodities e mercados internacionais, entre outros fatores.

Em períodos de juros reduzidos, a busca por alternativas de retorno pode aumentar a atratividade de estratégias com maior exposição a risco. Entretanto, o comportamento efetivo dos fundos depende de suas estratégias e das condições específicas de mercado.

2.3.3 FUNDOS DE AÇÕES

Os fundos de ações concentram seus investimentos predominantemente em ativos do mercado acionário. Seu desempenho está relacionado principalmente às variações dos preços das ações presentes na carteira.

A taxa Selic pode afetar indiretamente esses fundos por meio do custo de oportunidade dos investimentos, das expectativas de crescimento econômico, das condições de crédito e da percepção de risco.

Portanto, não é adequado pressupor que toda redução da Selic produzirá automaticamente valorização dos fundos de ações, uma vez que diversos outros fatores interferem na formação dos preços.

2.3.4 FUNDOS DE INVESTIMENTO IMOBILIÁRIO

Os Fundos de Investimento Imobiliário (FIIs) são veículos de investimento relacionados ao mercado imobiliário e podem apresentar diferentes estratégias, incluindo investimentos em imóveis físicos e títulos relacionados ao setor.

A relação entre Selic e FIIs é especialmente relevante porque os investidores podem comparar o retorno esperado dos fundos com alternativas de renda fixa. Além disso, os preços das cotas podem responder às expectativas para os juros futuros, às condições do mercado imobiliário e aos resultados dos próprios fundos.

A evolução histórica do IFIX demonstra que essa relação não é necessariamente linear. Dados da B3 mostram variações anuais relevantes no índice entre 2016 e 2026, incluindo períodos de forte valorização e períodos de queda.

2.3.5 FIDC, FIC E FIAGRO

Além das classes mais conhecidas, a indústria de fundos inclui produtos com estratégias específicas.

Os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) investem preponderantemente em direitos creditórios, como recebíveis originados de operações comerciais ou financeiras.

Os Fundos de Investimento em Cotas (FIC) destinam parte relevante de seu patrimônio à aquisição de cotas de outros fundos, permitindo a construção de estratégias baseadas em diferentes gestores e carteiras.

Os Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagro) estão relacionados ao financiamento e investimento na cadeia do agronegócio, podendo apresentar estruturas diferentes de acordo com a estratégia adotada.

Essas modalidades reforçam a diversidade da indústria de fundos e demonstram por que a análise da influência da Selic precisa considerar as características específicas de cada produto.

3 METODOLOGIA

A presente pesquisa caracteriza-se como exploratória e descritiva, com abordagem predominantemente quantitativa, complementada por análise qualitativa.

Quanto aos procedimentos, trata-se de uma pesquisa bibliográfica e documental. A pesquisa bibliográfica foi desenvolvida a partir de livros, artigos científicos e estudos acadêmicos relacionados à política monetária, taxa Selic, mercado financeiro e fundos de investimento.

A pesquisa documental utilizou dados secundários disponibilizados por instituições oficiais e entidades representativas do mercado financeiro, especialmente Banco Central do Brasil, Comissão de Valores Mobiliários, ANBIMA e B3.

O período analisado compreende janeiro de 2016 a setembro de 2026. A adoção de setembro de 2026 como limite ocorre porque o ano ainda se encontra em andamento, evitando a utilização de informações futuras como se fossem dados efetivamente observados.

Para a análise da política monetária, foi utilizada a série histórica da taxa Selic disponibilizada pelo Banco Central do Brasil. Para a análise da indústria de fundos, foram consideradas informações referentes à rentabilidade, captação e resgates disponíveis nas bases da CVM e da ANBIMA. A CVM informa que seus dados permitem análises de rentabilidade, aplicações, resgates e comportamento dos fundos em diferentes períodos.

No segmento imobiliário, utilizou-se o IFIX como indicador de referência para observar o comportamento dos fundos imobiliários. Os dados históricos do índice foram obtidos na B3.

A análise foi estruturada por meio da comparação entre diferentes regimes de juros, considerando períodos de elevação, redução e estabilidade da Selic. Também foram observadas as diferenças entre categorias de fundos, evitando atribuir um comportamento uniforme à indústria.

Os resultados foram interpretados à luz da literatura revisada, buscando identificar possíveis relações entre as alterações na taxa básica de juros e o desempenho ou fluxo de recursos dos fundos.

Ressalta-se que a análise possui caráter descritivo e não permite afirmar, isoladamente, que as variações da Selic sejam a única causa das mudanças observadas nos fundos. Variáveis como inflação, crescimento econômico, câmbio, risco fiscal, condições internacionais e características específicas das carteiras também podem influenciar os resultados.

4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

4.1 EVOLUÇÃO DA SELIC NO PERÍODO ANALISADO

O período entre 2016 e setembro de 2026 foi marcado por diferentes ciclos da política monetária brasileira. A taxa Selic iniciou o período em patamar elevado, passou por uma trajetória de redução nos anos seguintes, atingiu níveis historicamente baixos durante a pandemia e posteriormente iniciou um novo ciclo de alta.

A partir de 2021, o processo de elevação da taxa ganhou intensidade. Em 2022 e 2023, a Selic permaneceu em patamares elevados, chegando a 13,75% ao ano e permanecendo nesse nível durante parte de 2023.

Em 2024, houve inicialmente continuidade do processo de redução, com a taxa chegando a 10,50% ao ano. Posteriormente, diante da mudança do cenário econômico, iniciou-se novo ciclo de elevação. Em 2025, a taxa chegou a 15% ao ano e permaneceu nesse patamar até o início de 2026.

Em 2026, ocorreu uma mudança no sentido da política monetária. A Selic foi reduzida para 14,75% em março, 14,50% em abril, 14,25% em junho, 14% em agosto e, posteriormente, 13,75% em setembro.

Esse comportamento permite dividir o período em diferentes fases para fins de análise: um ciclo de juros elevados e posterior redução entre 2016 e 2020; um período de juros excepcionalmente baixos entre 2020 e 2021; um ciclo de forte elevação entre 2021 e 2023; uma fase de redução em 2024; nova elevação em 2025; e um novo ciclo de redução iniciado em 2026.

Essa alternância oferece condições para observar como diferentes segmentos da indústria de fundos responderam a mudanças relevantes no ambiente monetário.

4.2 SELIC E COMPORTAMENTO DOS FUNDOS DE RENDA FIXA

Os fundos de renda fixa apresentam uma relação particularmente relevante com a taxa básica de juros devido à composição de suas carteiras.

Em 2016, a ANBIMA registrou que a indústria de fundos apresentou captação líquida de R$ 109,1 bilhões, sendo R$ 45,9 bilhões correspondentes à classe de renda fixa. No mesmo período, estratégias de renda fixa de maior duração apresentaram desempenho favorecido pela expectativa de redução dos juros.

Esse resultado demonstra que a relação entre juros e fundos de renda fixa não deve ser interpretada apenas pelo nível corrente da Selic. As expectativas sobre os movimentos futuros também podem afetar o preço dos títulos e, consequentemente, a rentabilidade dos fundos.

Em 2020, em um contexto de juros reduzidos e elevada volatilidade provocada pela pandemia, a indústria apresentou movimentos importantes de captação e resgate. Ao longo daquele ano, multimercados e ações apresentaram captações relevantes, enquanto posteriormente os fundos de renda fixa também registraram recuperação de entradas de recursos.

No primeiro semestre de 2026, novamente foi observada forte participação da renda fixa na captação da indústria. Segundo a ANBIMA, os fundos registraram captação líquida de R$ 184,7 bilhões no período, sendo R$ 108,4 bilhões provenientes da renda fixa. Os fundos de renda fixa de determinadas categorias apresentaram rentabilidade acumulada de 6,8%, equivalente ao CDI no período.

Os dados indicam, portanto, que ambientes de juros elevados podem aumentar a atratividade relativa dos fundos de renda fixa, especialmente daqueles com estratégias mais diretamente relacionadas às taxas de juros.

4.3 SELIC E FLUXO DE RECURSOS PARA FUNDOS DE MAIOR RISCO

A relação entre juros e fluxo de recursos também pode ser observada nas classes multimercado e ações.

Em 2020, período de juros reduzidos, a ANBIMA registrou captação significativa em fundos multimercados e de ações. Até agosto daquele ano, essas duas classes haviam captado, respectivamente, R$ 71 bilhões e R$ 61 bilhões, em um contexto de busca por alternativas de rentabilidade diante do baixo patamar dos juros de curto prazo.

Entretanto, o comportamento dos fluxos não deve ser atribuído exclusivamente à Selic. O ano de 2020 foi marcado por mudanças econômicas excepcionais, elevada volatilidade nos mercados e políticas de estímulo monetário e fiscal. Dessa forma, os resultados observados refletem a combinação de diferentes fatores.

A própria evolução posterior da indústria demonstra que ciclos de juros elevados podem modificar essa dinâmica. Em 2023, por exemplo, dados da ANBIMA mostraram resultados negativos de captação em diversas classes tradicionais, enquanto algumas categorias estruturadas apresentaram resultados positivos.

Assim, os dados sustentam a existência de associação entre ambiente de juros e decisões de alocação, mas também demonstram que a resposta dos investidores depende das condições econômicas mais amplas.

4.4 EVOLUÇÃO DO IFIX E RELAÇÃO COM A SELIC

O comportamento dos fundos imobiliários merece análise específica devido à sua exposição ao mercado de renda variável e à sensibilidade às condições de juros.

Segundo dados da B3, o IFIX apresentou valorização de 32,33% em 2016, 19,41% em 2017, 5,62% em 2018 e 35,98% em 2019. Em 2020, entretanto, o índice apresentou queda de 10,24%. Em 2021, registrou nova queda de 2,28%, enquanto em 2022 apresentou alta de 2,22%. Nos anos seguintes, houve valorização de 15,50% em 2023, queda de 5,89% em 2024 e forte valorização de 21,15% em 2025.

Esses dados mostram que não existe uma correspondência mecânica entre Selic e IFIX.

A queda do IFIX em 2020, por exemplo, ocorreu justamente em um período de forte redução dos juros, demonstrando que outros fatores podem se sobrepor ao efeito da taxa básica. A pandemia provocou elevada incerteza econômica e alterou as expectativas relacionadas ao mercado imobiliário, ao emprego, ao consumo e aos contratos de locação.

A análise histórica também mostra que o IFIX apresentou forte valorização em 2019, antes do período de juros mínimos observado em 2020. Isso reforça a importância de analisar o efeito das expectativas e das condições econômicas gerais, e não somente o nível corrente da Selic.

Em 2025, mesmo com a Selic elevada, o IFIX apresentou valorização anual de 21,15%. Esse comportamento é particularmente relevante porque demonstra que fundos imobiliários podem apresentar desempenho positivo mesmo em ambientes de juros elevados, dependendo das características das carteiras, dos preços dos ativos, dos rendimentos distribuídos e das expectativas do mercado.

Portanto, a relação entre Selic e FIIs deve ser compreendida como uma relação indireta e condicionada por outras variáveis.

4.5 COMPARAÇÃO ENTRE ALTA, ESTABILIDADE E QUEDA DA SELIC

A comparação entre diferentes regimes de juros permite observar três comportamentos principais.

Em períodos de alta da Selic, a renda fixa tende a ganhar atratividade relativa porque a remuneração de ativos pós-fixados aumenta. Esse movimento pode elevar o custo de oportunidade dos investimentos de maior risco. Entretanto, isso não significa que todas as demais classes necessariamente apresentem desempenho negativo.

Em períodos de estabilidade, as decisões de investimento tendem a depender mais das expectativas quanto aos próximos movimentos dos juros, da inflação e do desempenho econômico. A estabilidade da taxa corrente não significa estabilidade dos preços dos ativos, uma vez que o mercado antecipa mudanças futuras.

Em períodos de queda da Selic, ocorre redução da remuneração dos investimentos diretamente vinculados às taxas de juros. Esse ambiente pode aumentar a busca por ativos com maior potencial de valorização. Porém, novamente, o desempenho efetivo depende das condições econômicas e das expectativas incorporadas aos preços.

A experiência recente de 2026 reforça essa observação. Mesmo com o início do ciclo de cortes, a Selic permaneceu em patamar elevado. Em setembro de 2026, a taxa foi reduzida para 13,75%, depois de ter permanecido em 15% ao longo de grande parte de 2025 e início de 2026.

Assim, uma redução da taxa não significa necessariamente que os investimentos de maior risco passarão imediatamente a superar os ativos de renda fixa. A velocidade e a intensidade dos efeitos dependem das expectativas e da composição das carteiras.

4.6 COMPARAÇÃO ENTRE FUNDOS E TESOURO SELIC

O Tesouro Selic pode ser utilizado como referência para comparação porque sua remuneração está relacionada à taxa básica de juros. Entretanto, a comparação com fundos precisa considerar diferenças de risco, tributação, taxas, liquidez e composição das carteiras.

Fundos de renda fixa podem apresentar comportamento semelhante ao de investimentos pós-fixados, especialmente quando possuem carteiras concentradas em ativos de baixo risco e elevada correlação com o CDI. Entretanto, custos de administração, composição da carteira e estratégia de gestão podem fazer com que a rentabilidade final seja diferente.

Já fundos multimercados, de ações e imobiliários não devem ser comparados apenas pela rentabilidade nominal com o Tesouro Selic. Essas classes apresentam níveis de risco e fontes de retorno diferentes.

A comparação, portanto, é mais adequada quando se considera o retorno ajustado às características e aos riscos de cada investimento.

4.7 EVIDÊNCIAS MAIS RECENTES: 2026

Os dados mais recentes reforçam a importância de diferenciar as classes de fundos.

No primeiro semestre de 2026, a indústria de fundos registrou captação líquida de R$ 184,7 bilhões, sendo R$ 108,4 bilhões provenientes dos fundos de renda fixa. Na mesma base, determinadas categorias de renda fixa registraram rentabilidade acumulada de 6,8%, equivalente ao CDI do período.

Nos multimercados, os resultados foram diferentes. A categoria de juros e moedas apresentou retorno de 6,4%, enquanto o IHFA avançou 3,3% no semestre. Entre os fundos de ações, a categoria mono ação registrou ganho de 13,2%, acima da valorização de 6,8% do Ibovespa no mesmo período.

Esses resultados são importantes porque mostram que a existência de uma Selic elevada não impede o desempenho positivo de outras classes de fundos. O nível de juros é uma variável relevante, mas não explica isoladamente os resultados.

No segmento imobiliário, o IFIX apresentou valorização de 21,15% em 2025 e registrava, em 2026, comportamento mais moderado em comparação ao ano anterior.

Dessa maneira, os dados recentes reforçam a necessidade de analisar a influência da Selic em conjunto com outros fatores de mercado.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente estudo teve como objetivo analisar a relação entre as variações da taxa Selic e o desempenho dos fundos de investimento no Brasil entre 2016 e setembro de 2026.

A análise demonstrou que a taxa Selic constitui uma variável relevante para compreender o comportamento da indústria de fundos, especialmente porque as alterações na taxa básica modificam as condições de remuneração da renda fixa, o custo de oportunidade dos investimentos e as expectativas dos participantes do mercado.

Ao longo do período analisado, foram identificados diferentes ciclos de política monetária, incluindo períodos de juros elevados, redução da taxa, manutenção em níveis historicamente baixos, novo ciclo de elevação e posterior retomada dos cortes em 2026.

Os resultados também demonstraram que os efeitos da Selic não são uniformes entre as classes de fundos. Os fundos de renda fixa apresentam relação mais direta com as condições de juros, principalmente aqueles que investem em ativos pós-fixados ou apresentam elevada exposição a títulos sensíveis às taxas de mercado.

Nos fundos multimercados e de ações, a influência da Selic ocorre de maneira mais indireta e se combina com fatores como expectativas de crescimento econômico, comportamento das bolsas, câmbio, inflação e decisões dos gestores.

No caso dos fundos imobiliários, a análise do IFIX mostrou que não existe uma relação linear simples entre o nível da Selic e o desempenho do índice. Embora os juros sejam importantes para a avaliação desses ativos e para a comparação com investimentos de renda fixa, fatores específicos do mercado imobiliário, expectativas, preços das cotas e rendimentos distribuídos também exercem influência.

A análise dos fluxos de recursos reforçou a existência de mudanças no comportamento dos investidores em diferentes cenários. Em períodos de juros baixos, observaram-se momentos de maior procura por estratégias com maior exposição ao risco, enquanto ambientes de juros elevados aumentaram a atratividade relativa da renda fixa.

Entretanto, os resultados não permitem afirmar que a Selic seja responsável isoladamente pelas mudanças observadas na rentabilidade ou na captação dos fundos. O mercado financeiro é influenciado por diversas variáveis simultaneamente, e os movimentos dos ativos podem ocorrer antecipadamente às decisões efetivas do Banco Central.

Dessa forma, conclui-se que a taxa Selic constitui um importante fator explicativo do comportamento dos fundos de investimento, mas sua influência deve ser analisada considerando as características específicas de cada classe e o contexto econômico em que as decisões são tomadas.

Como limitação da pesquisa, destaca-se o caráter predominantemente documental e descritivo da análise. Estudos futuros poderão ampliar a investigação utilizando modelos econométricos capazes de estimar a intensidade e a significância estatística da relação entre a Selic e a rentabilidade de categorias específicas de fundos, incorporando também variáveis como IPCA, Ibovespa, câmbio e expectativas de mercado.

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Copyright (c) 2026 Adriéli Roberta Picchi (Autor)

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