RESUMO
Introdução: A pele é a interface direta entre o atleta e o ambiente esportivo, sendo particularmente vulnerável às demandas mecânicas e ambientais impostas pelos esportes de endurance (corrida, ciclismo, natação e triatlo). Objetivo: Sintetizar os dados de incidência e prevalência de lesões cutâneas nesses atletas, organizados por mecanismo fisiopatológico e por modalidade esportiva. Métodos: Revisão narrativa da literatura em bases eletrônicas (PubMed, Google Scholar e repositórios institucionais), com síntese qualitativa dos achados. Resultados: As lesões traumático-mecânicas (bolhas, assaduras, calosidades, hematoma subungueal e lesões perineais em ciclistas) são as mais prevalentes, atingindo até 50% dos corredores para bolhas isoladamente. Infecções cutâneas, sobretudo dermatofitoses, e dermatoses ambientais (fotodano actínico, dermatoses aquáticas) completam o espectro de acometimento, com implicações que vão do desconforto agudo ao risco cumulativo de câncer de pele. Conclusão: As lesões cutâneas são altamente prevalentes e clinicamente relevantes em atletas de endurance, mas a literatura carece de estudos prospectivos e padronizados por modalidade esportiva.
Palavras-chave: Dermatologia esportiva; Traumatismos em atletas; Corrida; Ciclismo; Natação; Triatlo; Incidência.
ABSTRACT
Background: Skin is the direct interface between the athlete and the sporting environment, making it particularly vulnerable to the mechanical and environmental demands of endurance sports (running, cycling, swimming and triathlon). Objective: To summarize incidence and prevalence data on skin lesions in these athletes, organized by pathophysiological mechanism and sport modality. Methods: Narrative literature review using electronic databases, with qualitative synthesis of findings. Results: Traumatic-mechanical lesions (blisters, chafing, calluses, subungual hematoma and perineal lesions in cyclists) are the most prevalent, affecting up to 50% of runners for blisters alone. Skin infections, mainly dermatophytosis, and environmental dermatoses (actinic photodamage, aquatic dermatoses) complete the clinical spectrum, ranging from acute discomfort to cumulative skin cancer risk. Conclusion: Skin lesions are highly prevalent and clinically relevant in endurance athletes, but the literature still lacks prospective, sport-specific, standardized studies.
Keywords: Sports dermatology; Athletic injuries; Running; Cycling; Swimming; Triathlon; Incidence.
1. INTRODUÇÃO
A pele é o maior órgão do corpo humano e localiza-se na interface entre o atleta e o meio esportivo, tornando-se particularmente exposta às demandas físicas e ambientais dos esportes de endurance (1,3). Diferentemente das modalidades de contato, nas quais predominam infecções virais e bacterianas decorrentes do contato pele a pele, os atletas de endurance apresentam um perfil dermatológico próprio, moldado por três mecanismos principais: trauma mecânico repetitivo (atrito, pressão e calor), exposição ambiental prolongada (radiação ultravioleta, calor, umidade e contato com água doce ou salgada) e alterações imunológicas induzidas pelo exercício, que favorecem infecções cutâneas oportunistas (1,2,3,4).
Embora raramente ameacem a vida, essas lesões estão entre as queixas mais prevalentes em tendas médicas de provas de rua e triatlo, podendo comprometer o desempenho, motivar a interrupção da prova e, cronicamente, aumentar o risco de neoplasias cutâneas (6,26). O objetivo desta revisão é sintetizar os dados de incidência e prevalência disponíveis na literatura sobre lesões de pele em atletas de endurance, organizando-os por mecanismo fisiopatológico (traumático-mecânico, infeccioso e ambiental) e por modalidade esportiva (corrida, ciclismo, natação e triatlo).
2. MÉTODOS
Foi realizada revisão narrativa da literatura, com buscas não sistemáticas nas bases PubMed, Google Scholar e repositórios institucionais, utilizando os termos "skin lesions", "dermatoses", "endurance athletes", "runners", "cyclists", "swimmers", "triathlon" e "incidence"/"prevalence", isolados ou combinados. Foram priorizados estudos epidemiológicos, revisões sistemáticas ou narrativas e séries de tenda médica publicados em periódicos indexados, sem restrição de data, complementados por capítulos de referência em dermatologia esportiva. Dada a natureza narrativa da revisão, não foi realizada avaliação formal de qualidade metodológica dos estudos incluídos, o que constitui limitação reconhecida deste trabalho.
3. LESÕES CUTÂNEAS DE ORIGEM TRAUMÁTICO-MECÂNICA
3.1 Bolhas de atrito
As bolhas de atrito constituem a lesão dermatológica mais frequente entre corredores, resultando do cisalhamento repetido entre pele, meia e calçado, agravado por umidade e calor (8). A incidência relatada varia amplamente conforme o método de coleta (autorrelato versus atendimento médico) e a distância da prova, situando-se entre 0,2% e 42% em maratonas, podendo chegar a 69% em recrutas militares submetidos a marchas prolongadas (8). Em corredores de rua brasileiros, as bolhas foram a queixa dermatológica mais prevalente, presentes em 50% da amostra avaliada (5). Em ultramaratonas de múltiplas etapas, o efeito é cumulativo: cerca de 34% dos atletas desenvolvem bolhas já após a primeira etapa (aproximadamente equivalente a uma maratona), e estudos retrospectivos relatam incidências de 26% a 58% ao longo de todo o evento (8). Em provas de trail e montanha, a proporção de corredores que buscam atendimento médico especificamente por bolhas varia de 8% a 16,7%, a depender do terreno, da distância e da altitude (10). É relevante destacar que nenhuma medida profilática isolada — tipo de meia, antiperspirantes, talco, lubrificantes ou fita preventiva — demonstrou redução consistente da incidência; o único fator preditivo de proteção identificado foi a experiência prévia em provas de ultrarresistência (8).
3.2 Assaduras e mamilo do corredor
A dermatite de fricção, ou assadura, decorre do atrito repetitivo entre a pele e a roupa ou entre superfícies cutâneas adjacentes, sendo a segunda queixa dermatológica mais comum em corredores, presente em até 42,1% dos atletas avaliados em estudo brasileiro (5). Uma manifestação específica é o "mamilo do corredor" (jogger's nipple), causado pelo atrito entre o tecido da camiseta e o mamilo, mais frequente em climas frios — que promovem ereção mamilar e maior contato com a roupa — e em mulheres que correm sem sutiã ou homens que utilizam tecidos ásperos; sua prevalência varia de 2% a 16,3% dos maratonistas conforme diferentes levantamentos, sendo significativamente mais frequente entre corredores que treinam mais de 64 km por semana (5,11).
3.3 Calosidades e alterações ungueais
Calosidades plantares são adaptações comuns em corredores de longa distância, relatadas em 34,2% da amostra brasileira avaliada, com frequência significativamente maior entre os que correm mais de 64 km semanais (5). Entre as alterações ungueais, destaca-se o hematoma subungueal (popularmente "unha preta do corredor", jogger's toe), resultante do impacto repetido do hálux contra a parte anterior do calçado, sobretudo em descidas ou com calçados mal ajustados; sua incidência em provas de maratona varia de 0,1% a 14% dos participantes (12). A onicomadese, descolamento e desprendimento progressivo da lâmina ungueal, foi relatada em 31,5% dos corredores brasileiros avaliados (5).
3.4 Lesões da região do selim em ciclistas e triatletas
No ciclismo, o contato prolongado e sob pressão entre o selim e a região perineal origina o espectro de lesões conhecido como saddle sores (feridas do selim), que inclui abrasões, foliculite, ulcerações, formação de nódulos (nódulo do ciclista ou induração nodular perineal) e, em mulheres, edema ou hipertrofia labial crônica (13). Estudos com ciclistas competitivas do sexo feminino relatam prevalências de 39% a 89%, havendo indícios de maior suscetibilidade em mulheres em razão da distribuição de pressão perineal na posição aerodinâmica (14). Ainda faltam, contudo, estudos epidemiológicos prospectivos amplos que quantifiquem a incidência real dessas lesões na população geral de ciclistas de endurance (13).
No triatlo, levantamentos retrospectivos com atletas de provas Ironman mostram que contusões e abrasões cutâneas foram o tipo de lesão mais relatado ao longo da vida esportiva, afetando 51,1% dos triatletas entrevistados — proporção maior do que a de lesões musculotendíneas (33,1%) ou ligamentares (29,0%) (15). Durante o próprio evento, entre 20% e 30,7% dos atletas de Ironman procuram atendimento médico, sendo bolhas e abrasões os achados predominantes, especialmente relacionados ao segmento de ciclismo (16,17).
4. LESÕES CUTÂNEAS INFECCIOSAS
Embora infecções cutâneas sejam classicamente associadas a esportes de contato, como luta olímpica, futebol americano e rúgbi, atletas de endurance também apresentam risco aumentado, sobretudo por dermatofitoses. A tinea pedis (frieira) foi identificada em 18,4% dos corredores de rua avaliados no Brasil, com frequência significativamente maior entre os que treinam distâncias semanais superiores a 64 km, provavelmente em razão da maior exposição à umidade e ao calor no interior do calçado (5). A onicocriptose (unha encravada) também foi descrita em 14,5% da mesma amostra (5). Estudos comparativos entre modalidades esportivas mostram que, embora lesões traumáticas predominem em esportes de contato como futebol e luta, infecções fúngicas são mais comuns entre nadadores e jogadores de futebol, refletindo o papel da exposição a ambientes úmidos compartilhados, como vestiários e piscinas (18). De forma mais ampla, revisões epidemiológicas em populações atléticas em geral — não restritas ao endurance — estimam que infecções cutâneas respondam por cerca de 21% das condições de saúde relatadas em atletas universitários e por 8,5% em atletas do ensino médio, com as maiores taxas concentradas em modalidades de contato (19).
5. LESÕES CUTÂNEAS DE ORIGEM AMBIENTAL
5.1 Fotodano actínico e câncer de pele
Atletas de endurance ao ar livre acumulam doses de radiação ultravioleta (UV) muito superiores às da população geral, tanto no treinamento quanto na competição (20,26). Estudos dosimétricos mostram que ciclistas podem exceder os limites internacionais de exposição em mais de 30 vezes, enquanto triatletas de provas Ironman podem acumular, em uma única prova, exposição equivalente a 8,3 vezes a dose eritematosa mínima (20). A sudorese intensa remove o protetor solar e aumenta a fotossensibilidade cutânea, o que, somado à imunossupressão transitória induzida pelo exercício extenuante, é apontado como possível fator de maior risco de melanoma e de carcinomas não melanoma (basocelular e espinocelular) em corredores de maratona, ciclistas, surfistas e nadadores (20,26). Apesar disso, o comportamento de fotoproteção permanece aquém do ideal: em levantamento com 2.445 corredores portugueses, apenas 23,5% apresentavam comportamento adequado de exposição e proteção solar, e 45,1% relataram ao menos um episódio de queimadura solar no ano anterior (21). Entre corredores brasileiros, 62% relataram uso de protetor solar e 19,7% referiram episódios de queimadura solar (5).
5.2 Dermatoses relacionadas à água
Nadadores e triatletas estão sujeitos a um grupo específico de dermatoses ambientais. A exposição repetida ao cloro remove o manto lipídico protetor da pele, causando xerose ("pele de nadador"), prurido e descamação (22). Em água doce, pode ocorrer a dermatite cercariana ("coceira do nadador"), reação de hipersensibilidade a larvas de esquistossomos de aves e mamíferos que penetram na pele em águas rasas; estudo conduzido em lago norte-americano relatou incidência de 6,8 episódios por 100 dias de exposição à água (24). Em água salgada, destacam-se a erupção do banhista (seabather's eruption), causada por larvas de cnidários retidas sob o traje de banho, e as picadas de água-viva, cujos sintomas variam de ardor e urticária linear a reações sistêmicas mais graves (22,23). Essas dermatoses aquáticas são particularmente relevantes para triatletas que treinam em águas abertas — mar, lagos e represas —, ambiente cada vez mais comum na preparação para provas de longa distância no Brasil.
6. PANORAMA COMPARATIVO POR MODALIDADE ESPORTIVA
A Tabela 1 sintetiza as principais lesões cutâneas e suas incidências relatadas por modalidade de endurance.
Tabela 1. Síntese da incidência de lesões cutâneas por modalidade esportiva de endurance.
7. DISCUSSÃO: FATORES DE RISCO E IMPLICAÇÕES PRÁTICAS
Alguns padrões emergem da literatura revisada. Primeiro, o volume de treinamento é um fator de risco consistente e dose-dependente: no estudo brasileiro com corredores, o aumento do volume semanal acima de 64 km associou-se a maior frequência de calosidades, mamilo do corredor, queilite simples e tinea pedis (5). Segundo, a duração e as condições ambientais da prova — calor, umidade, tipo de terreno e altitude — modulam a incidência de bolhas e de lesões actínicas, com efeito cumulativo evidente em provas de múltiplos dias (8,10). Terceiro, fatores individuais como sexo (maior prevalência de saddle sores em mulheres ciclistas), experiência prévia (fator protetor contra bolhas) e fototipo cutâneo (risco de queimadura solar e de câncer de pele) modulam a suscetibilidade individual (8,14,20). Por fim, chama atenção a escassez de estudos prospectivos, padronizados e específicos por modalidade esportiva — a maior parte dos dados disponíveis provém de séries retrospectivas de tenda médica ou de inquéritos transversais com amostras pequenas e heterogêneas, o que dificulta comparações diretas entre estudos e limita a força das recomendações preventivas (4,10,19).
Do ponto de vista prático, as medidas de prevenção com respaldo mais consistente na literatura incluem: ajuste adequado do calçado, para reduzir bolhas e hematoma subungueal; uso de cremes ou pomadas anti-atrito e de tecidos técnicos de baixa fricção, para assaduras e mamilo do corredor; higiene e vestimenta específica no ciclismo, incluindo bermuda com chamois e selim adequado, para redução das saddle sores; controle da umidade nos pés, com meias técnicas e troca oportuna de calçados, para prevenção de tinea pedis; e fotoproteção estruturada — protetor solar resistente à água, reaplicação periódica, roupas com fator de proteção ultravioleta e planejamento de horários de treino — para redução do dano actínico cumulativo (5,8,10,13,20,21).
8. CONCLUSÃO
As lesões cutâneas são altamente prevalentes entre atletas de endurance, com espectro que varia de condições benignas e autolimitadas — como bolhas, assaduras e calosidades — a complicações potencialmente crônicas, como o câncer de pele actínico e as lesões nodulares perineais em ciclistas. O perfil de risco difere conforme a modalidade esportiva, o volume de treinamento e as condições ambientais da prova, mas converge em três mecanismos fisiopatológicos centrais: trauma mecânico repetitivo, infecção oportunista favorecida por umidade e imunomodulação induzida pelo exercício, e agressão ambiental cumulativa por radiação ultravioleta e exposição à água. A literatura ainda carece de registros de vigilância dermatológica padronizados e prospectivos por modalidade esportiva, o que representa uma lacuna relevante para a medicina esportiva e a dermatologia, e uma oportunidade de pesquisa original para profissionais que atuam na interface entre essas duas áreas.
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Curso de Medicina, Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI), Itajaí, SC, Brasil. ↑

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Copyright (c) 2026 Matheus Henrique Roque Duro, Vanessa Santini Tibolla, Davi Duarte Barreto Ferreira, Matheus Oliveira Figueiró, Marina Peplau Mendes (Autor)