Puberdade precoce associada ao uso de mídias digitais (tempo de tela/redes sociais): uma revisão sistemática da literatura.
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
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Os registros foram exportados e as duplicatas removidas. A seleção ocorreu em duas etapas: (1) triagem por título e resumo; (2) avaliação do texto completo para elegibilidade. Foram identificados 245 registros; 150 duplicatas foram removidas; 95 registros foram triados por título/resumo, com exclusão de 75. Em seguida, 20 textos completos foram avaliados, com exclusão de 14 por não atenderem aos critérios, restando 6 estudos incluídos. De cada estudo foram extraídos: autor/ano, país, delineamento, características da amostra, definição e mensuração da exposição digital (tempo de tela e/ou sedentarismo), definição do desfecho puberal, principais resultados e limitações.

Avaliação do risco de viés

A qualidade metodológica foi apreciada de acordo com o delineamento (por exemplo, checklists do Joanna Briggs Institute para estudos transversais e caso–controle), considerando seleção da amostra, mensuração de exposição/desfecho e controle de confundidores. A interpretação foi apresentada de forma descritiva, classificando-se o risco de viés como baixo, moderado ou alto.

Síntese dos dados

Devido à heterogeneidade entre os estudos (populações, definições de puberdade precoce/adiantada e instrumentos de mensuração do tempo de tela), não foi realizada metanálise. Os achados foram organizados em síntese narrativa, com ênfase nos possíveis mediadores (sedentarismo, excesso de peso e sono) e no contexto da pandemia por COVID-19.

Figura 1 – Fluxograma PRISMA

Fluxograma PRISMA — dados estruturados

Etapa

Descrição

n

Identificação

Registros identificados

245

Identificação

Duplicatas removidas

150

Triagem

Registros triados

95

Triagem

Registros excluídos

75

Elegibilidade

Textos completos avaliados

20

Elegibilidade

Textos completos excluídos

14

Inclusão

Estudos incluídos

6

Resultados

Foram incluídos seis estudos observacionais (transversais, caso–controle e retrospectivos), publicados entre 2022 e 2024, com predominância de amostras femininas e desfechos relacionados à puberdade precoce central (puberdade precoce central) ou desenvolvimento puberal precoce/adiantado. Três estudos avaliaram o contexto da pandemia por COVID-19 e três investigaram tempo de tela e/ou sedentarismo (com medidas complementares de atividade física e sono) em populações escolares ou clínicas. A Tabela 1 resume as características e os principais achados dos estudos incluídos.

Características dos estudos incluídos

Tabela 1 – Síntese dos estudos incluídos (título, delineamento e principais resultados).

Título do artigo (Português / Inglês)

Nome do autor

Ano

Metodologia

Resultado

Identificação e otimização de fatores contribuintes para puberdade precoce por aprendizado de máquina.

(Identification and optimization of contributing factors for precocious puberty by machine learning.)

Pang, X. et al.

2022

China — transversal (aprendizado de máquina em base escolar)

Modelo de aprendizado de máquina identificou como variáveis importantes: idade, medidas de adiposidade, padrões de sono, nível de atividade física e tempo de exposição a telas. Sugere utilidade para triagem/predição, mas não permite inferir relação de causa e efeito.

Fatores implicados no aumento de casos de puberdade precoce central durante a pandemia de COVID-19.

(Implicating factors in the increase in cases of central precocious puberty during the COVID-19 pandemic.)

Barberi, A. et al.

2022

Itália — retrospectivo + questionário

Observou-se aumento de diagnósticos de puberdade precoce central durante o período de restrições por COVID-19, em paralelo a mudanças comportamentais relatadas (por exemplo, maior uso de computador e telefone celular). Estudo observacional: não permite afirmar relação de causa e efeito.

Puberdade precoce central durante a pandemia de COVID-19 e distúrbios do sono: um estudo exploratório.


(Central precocious puberty during COVID-19 pandemic and sleep disturbance: an exploratory study.)

Umano, G. R. et al.

2022

Itália — retrospectivo caso–controle

A frequência de novos casos de puberdade precoce central foi maior durante o período pandêmico; meninas com puberdade precoce central apresentaram pior qualidade e rotina do sono em comparação aos controles. O uso de telefone celular ao deitar não diferiu entre os grupos.

Impactos da pandemia de COVID-19 no diagnóstico de puberdade precoce central idiopática em meninas.


(Impacts of the COVID-19 pandemic on the diagnosis of idiopathic central precocious puberty in pediatric females)

Baby, A. et al.

2023

EUA — retrospectivo

No período pandêmico, observou-se maior ativação puberal em meninas avaliadas por puberdade precoce central idiopática, com valores mais elevados de estradiol e hormônio luteinizante e maiores volumes ovarianos. Pais/crianças relataram estresse de intensidade moderada a grave.

Associação conjunta de sobrepeso/obesidade, alto tempo de exposição a telas eletrônicas e desenvolvimento puberal precoce em meninas.


(Joint association of overweight/obesity, high electronic screen time and early pubertal development in girls.)

Li, X. et al.

2024

China — caso–controle

O tempo de exposição a telas eletrônicas, isoladamente, não se associou de forma consistente ao desenvolvimento puberal precoce; porém, a combinação de sobrepeso/obesidade, alto tempo de tela e baixo nível de atividade física de intensidade moderada a vigorosa apresentou maior chance de puberdade precoce em meninas.

Associação entre exposição a telas/comportamento sedentário e puberdade precoce/puberdade adiantada.


(Association of screen exposure/sedentary behavior and precocious puberty/early puberty.)

Wu, Y. et al.

2024

China — transversal

Maior tempo em comportamento sedentário associou-se a risco aumentado de puberdade precoce/adiantada em meninas. A associação com tempo de tela perdeu significância estatística após ajuste por fatores de confusão.

Avaliação do risco de viés

Tabela 2 – Síntese do risco de viés (avaliação descritiva).

Estudo

Delineamento

Ferramenta

Síntese do risco de viés

Principais limitações

PANG et al., 2022

Transversal

Joanna Briggs Institute (analítico transversal)

Moderado

Exposição e desfecho baseados em questionário; possibilidade de confundimento; desenho não causal.

BARBERI et al., 2022

Retrospectivo + questionário

Joanna Briggs Institute (coorte/analítico)

Moderado

Centro único; parte dos dados por questionário; potenciais mudanças de acesso ao serviço durante pandemia.

UMANO et al., 2022

Caso–controle retrospectivo

Joanna Briggs Institute (caso–controle)

Moderado a alto

Amostra pequena; mensuração de sono por questionários; sem acompanhamento longitudinal.

BABY et al., 2023

Retrospectivo

Joanna Briggs Institute (coorte/analítico)

Moderado

Tamanho amostral limitado; possíveis vieses de seleção e de encaminhamento durante pandemia.

LI et al., 2024

Caso–controle

Joanna Briggs Institute (caso–controle)

Moderado

Tempo de tela/atividade física autorrelatados; possíveis confundidores residuais; definição de exposição categórica.

WU et al., 2024

Transversal

Joanna Briggs Institute (analítico transversal)

Moderado

Tempo de tela e sedentarismo autorrelatados; possibilidade de erro de classificação; associação transversal.

Síntese dos achados

Em síntese, os estudos indicaram que o contexto de maior uso de dispositivos e sedentarismo durante a pandemia por COVID-19 coincidiu com aumento de encaminhamentos/diagnósticos de puberdade precoce central em serviços especializados. Em estudos analíticos com avaliação individual, o tempo sedentário mostrou associação com desfechos puberais em meninas, enquanto a exposição a telas isoladamente apresentou resultados inconsistentes, tornando-se mais relevante quando combinada a sobrepeso/obesidade e menor atividade física. Distúrbios do sono e estresse psicossocial foram descritos como potenciais mediadores. A qualidade metodológica geral foi considerada moderada, com limitações inerentes a delineamentos observacionais e ao uso frequente de autorrelato para mensurar tempo de tela, sono e atividade física.

Discussão

Os achados desta revisão sugerem que o ambiente digital pode se relacionar ao adiantamento puberal, porém esse efeito não parece depender exclusivamente do tempo de tela. Em estudos analíticos, a associação direta entre exposição a telas e puberdade precoce/adiantada foi heterogênea, mantendo-se mais consistente quando o tempo de tela se associa a sedentarismo, pior sono e excesso de peso (LI et al., 2024; WU et al., 2024). Assim, o conjunto de comportamentos (tela–sono–atividade física) parece mais informativo do que um marcador isolado de uso de telas, especialmente em meninas.

Do ponto de vista fisiopatológico, um mecanismo plausível é a mediação metabólica: maior tempo em telas tende a reduzir o gasto energético e aumentar o comportamento sedentário, favorecendo balanço energético positivo e ganho ponderal. O excesso de adiposidade relaciona-se a alterações hormonais e metabólicas (como leptina e resistência à insulina), que podem atuar como sinais permissivos para ativação do eixo hipotálamo–hipófise–gonadal e antecipação puberal (GUYTON; HALL, 2021). Nesse sentido, o estudo caso–controle de LI et al. (2024) mostrou que o maior risco ocorreu na combinação de sobrepeso/obesidade, baixa atividade física e alta exposição a telas, reforçando a hipótese de efeito sinérgico.

Os estudos realizados no contexto da pandemia por COVID-19 funcionam como um “experimento natural” de mudanças abruptas na rotina, com provável aumento de sedentarismo, alterações de sono e maior uso de dispositivos eletrônicos. Em centro europeu, foi observado aumento no número de casos de puberdade precoce central durante e após o lockdown, acompanhado de maior uso de dispositivos (BARBERI et al., 2022). Em outra coorte, a incidência de puberdade precoce central aumentou no período pandêmico, com alterações de rotina e pior qualidade do sono (UMANO et al., 2022). Além disso, BABY et al. (2023) relataram maior estresse familiar e diferenças em marcadores laboratoriais e ultrassonográficos no grupo da pandemia, o que sugere que fatores psicossociais e biológicos podem ter atuado em conjunto.

Quanto ao sono, a hipótese circadiana merece destaque: rotinas digitais noturnas podem atrasar o horário de dormir e fragmentar o sono, e a melatonina, além de regular o ciclo sono–vigília, tem sido proposta como neuromoduladora da maturação do eixo reprodutivo (SADLER, 2016). No estudo de UMANO et al. (2022), meninas com puberdade precoce central apresentaram hora de dormir mais tardia e pior escore de distúrbios do sono; entretanto, a exposição a smartphone antes de dormir não diferiu entre casos e controles, sugerindo que o sono pode ser afetado por múltiplos determinantes além do uso do aparelho em si.

Os resultados também apontam para a importância de modelos integrativos. Um estudo de aprendizado de máquina (PANG et al., 2022) identificou que variáveis relacionadas a adiposidade, sono, atividade física e uso de telas contribuíram para predizer puberdade precoce em meninas, destacando o papel de fatores comportamentais e metabólicos combinados. Essa perspectiva é coerente com estudos observacionais que mostram maior risco de desenvolvimento puberal adiantado quando alto tempo de tela se associa a excesso de peso e menor atividade física (LI et al., 2024) e com achados de associação entre sedentarismo/tempo de tela e marcadores de puberdade precoce/adiantada em escolares (WU et al., 2024).

Apesar da relevância do tema, as evidências disponíveis ainda não permitem inferência causal. Predominam delineamentos observacionais, com mensuração de tempo de tela e comportamentos frequentemente baseada em autorrelato, variabilidade na definição de puberdade precoce/adiantada e risco de confundimento residual (por dieta, nível socioeconômico, estresse, ambiente familiar e fatores genéticos). Ademais, muitos estudos medem “tempo de tela” de forma agregada, sem discriminar tipos de uso (por exemplo, redes sociais, jogos, estudo), o que limita conclusões específicas. Estudos longitudinais e intervenções, com medidas objetivas de atividade/sedentarismo e caracterização detalhada do uso digital, são prioritários para elucidar mecanismos e orientar recomendações.

Conclusão

Esta revisão sistemática indica que comportamentos ligados ao uso de mídias digitais (tempo de tela, sedentarismo associado e alterações do sono) podem se relacionar ao adiantamento puberal em crianças e adolescentes, sobretudo em meninas. Entretanto, a evidência é heterogênea e sugere que o tempo de tela isolado tem efeito inconsistente, tornando-se mais relevante quando associado a excesso de peso, redução de atividade física e pior padrão de sono. Assim, estratégias de promoção da saúde devem priorizar educação digital, higiene do sono e redução do comportamento sedentário, além do estímulo à atividade física e à alimentação saudável. Recomenda-se a realização de estudos longitudinais e intervenções que diferenciem tipos de uso digital (incluindo redes sociais) e empreguem medidas padronizadas e, quando possível, objetivas.

Referências

BABY, A. et al. Impacts of the COVID-19 pandemic on the diagnosis of idiopathic central precocious puberty in pediatric females. Journal of Pediatric Endocrinology and Metabolism, Berlin, v. 36, n. 6, p. 517-522, 2023. DOI: 10.1515/jpem-2022-0628.

BARBERI, A. et al. Implicating factors in the increase in cases of central precocious puberty during the COVID-19 pandemic. Frontiers in Endocrinology, Lausanne, v. 13, 1032914, 2022. DOI: 10.3389/fendo.2022.1032914.

GUYTON, A. C.; HALL, J. E. Tratado de fisiologia médica. 14. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.

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UMANO, G. R. et al. Central precocious puberty during COVID-19 pandemic and sleep disturbance: an exploratory study. Italian Journal of Pediatrics, London, v. 48, 60, 2022. DOI: 10.1186/s13052-022-01256-z.

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WU, Y. et al. Association of screen exposure/sedentary behavior and precocious puberty/early puberty. Frontiers in Pediatrics, Lausanne, v. 12, 1447372, 2024. DOI: 10.3389/fped.2024.1447372.

  1. Discente do curso de medicina - Universidade Federal do Acre.

  2. Discente do curso de medicina - Universidade Federal do Acre.

  3. Docente do curso de medicina - Universidade Federal do Acre.

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Copyright (c) 2026 Bruno Rodrigues dos Santos Fernandes, Thiago Dutra Ramos Braña, Carolina Pontes Soares (Autor)

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