A influência do medo e da ansiedade infantil no tratamento odontológico
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
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RESUMO

O medo e a ansiedade infantis são reações frequentes no atendimento odontológico, podendo comprometer a cooperação do paciente e o sucesso do tratamento. Este trabalho analisa a influência desses fatores e as estratégias para seu controle, abordando técnicas não farmacológicas (como comunicação positiva e distração) e farmacológicas (como sedação inalatória e oral). Conclui-se que o manejo adequado dessas emoções é essencial para um atendimento humanizado e eficaz, contribuindo para uma relação positiva da criança com a odontologia. A escolha da abordagem deve ser individualizada, priorizando o bem-estar físico e emocional do paciente infantil.

Palavras-chave: Manejo do comportamento. Odontopediatria. Técnicas farmacológicas. Técnicas não farmacológicas. Medo e ansiedade.

ABSTRACT

Childhood fear and anxiety are common reactions to dental care and can compromise patient compliance and treatment success. This study analyzes the influence of these factors and strategies for their control, addressing non-pharmacological techniques (such as positive communication and distraction) and pharmacological techniques (such as inhaled and oral sedation). It concludes that appropriate management of these emotions is essential for humane and effective care, contributing to a positive relationship between children and dentistry. The choice of approach should be individualized, prioritizing the physical and emotional well-being of the child patient.

Keywords: Behavior management. Pediatric dentistry. Pharmacological techniques. Non-pharmacological techniques. Fear and anxiety.

1. INTRODUÇÃO

Situações que geram medo e ansiedade nas crianças podem ocorrer em função de experiências odontológicas anteriores negativas (dor, desconforto, procedimentos invasivos), ambiente clínico (cheiro de materiais odontológicos, som do motor de alta rotação), instrumentos desconhecidos (agulhas, alavancas, espelhos odontológicos), separação dos pais durante a consulta, histórias ou relatos negativos de familiares ou amigos sobre tratamentos odontológicos.

A compreensão do medo e da ansiedade em Odontopediatria possibilita o desenvolvimento de estratégias para reduzir a ansiedade infantil contribuindo para um atendimento mais humanizado e eficaz, de maneira a melhorar a adesão ao tratamento odontológico, reduzir experiências traumáticas e favorecer uma relação positiva da criança com o dentista.

Dessa forma, esta revisão de literatura busca explorar como o medo e a ansiedade podem influenciar no tratamento odontológico infantil, destacando as principais causas e consequências do medo e da ansiedade infantil no contexto odontológico, além de destacar estratégias que podem ser aplicadas para tornar a experiência mais confortável e segura.

2. OBJETIVOS

Discorrer sobre a influência do medo e ansiedade no tratamento odontológico infantil dando ênfase às abordagens farmacológicas e não farmacológicas adotadas para reduzir ou eliminar estes quadros.

3. METODOLOGIA

Este estudo consiste em uma revisão de literatura narrativa com abordagem qualitativa, que utilizará busca e análise de artigos científicos, livros e diretrizes de órgãos ligados à área da Odontopediatria. Foram utilizadas as seguintes bases de dados: Scielo, PubMed, Google Acadêmico, Biblioteca Virtual, e livros sobre o tema.

As seguintes palavras-chave e descritores BOOLEANOS foram usados para busca textual: “manejo do comportamento” E “odontopediatria” E “técnicas farmacológicas” E “técnicas não farmacológicas” E “crianças” E “medo” E “ansiedade”.

Foram incluídos artigos em português ou inglês, com acesso ao texto completo e foco em pacientes pediátricos. A seleção dos artigos seguiu a leitura do título, resumo e, posteriormente, análise do texto completo. A sistematização dos dados se deu de forma descritiva, visando comparar e sintetizar os achados.

4. REVISÃO DE LITERATURA

4.1 CONCEITO DE MEDO E ANSIEDADE NA ODONTOPEDIATRIA

O medo e a ansiedade são reações emocionais comuns em crianças diante de situações desconhecidas ou percebidas como ameaçadoras, como o atendimento odontológico. Fatores como experiências negativas anteriores, ambiente clínico e instrumentos desconhecidos podem contribuir para a intensificação desses sentimentos, impactando diretamente a adesão ao tratamento (AMORIM; SILVA; SOUZA, 2024).

Medo é a resposta emocional a um perigo real ou percebido, de origem externa, caracterizado por reações fisiológicas e comportamentais de defesa (FERNANDES FERREIRA et al., 2023), definido como uma resposta emocional frente a um perigo real ou percebido, sendo comum em situações que envolvem dor ou experiências negativas anteriores (KLAUSNER et al., 2018). Por conseguinte, a ansiedade é o estado emocional antecipatório, muitas vezes relacionado à expectativa do procedimento odontológico, mesmo na ausência de uma ameaça concreta, caracterizado por apreensão e nervosismo diante de uma situação desconhecida ou temida, cujo estado de tensão é mais duradouro (RAFFA et al., 2019; FERNANDES FERREIRA et al., 2023).

O medo e a ansiedade são comuns no atendimento odontológico infantil, podendo interferir diretamente no comportamento da criança durante as consultas. A ansiedade frente ao tratamento odontológico pode ocorrer em decorrência de experiências prévias ou por influência dos pais, apresentando, ainda, influências de aspectos sociais, psicológicos, crenças, atitudes e preferências (HUYNH, et al., 2023; WALI, 2016; OLIVEIRA et al., 2024).

A compreensão desses aspectos é essencial para que profissionais da área odontológica desenvolvam abordagens mais eficazes, visando minimizar o impacto emocional da consulta e favorecer um atendimento mais humanizado (MELLO, CARVALHO, FERREIRA, 2023).

Na Odontopediatria, o medo costuma surgir em razão de experiências anteriores negativas, relatos de terceiros, ambiente desconhecido, ou até mesmo pela visão de instrumentos clínicos e, portanto, pode gerar quadros de ansiedade antes mesmo da consulta, resultando em agitação, choro, resistência ao tratamento ou comportamento evasivo (BARROS E BOMBANA, 2016).

A ansiedade odontológica, portanto, tem diversas causas, sendo as principais o medo de sentir dor, experiências odontológicas traumáticas prévias e influência da família (OLIVEIRA ET AL., 2024).

4.2 MANEJO DO COMPORTAMENTO: ABORDAGEM

FARMACOLÓGICA

A abordagem farmacológica é indicada em situações de fobia severa, tratamentos extensos que exigem colaboração da criança, bem como para atendimento de pessoa com deficiência (necessidades especiais), ou para qualquer caso cujas estratégias não farmacológicas não são suficientes para controlar o comportamento negativo da criança, sendo as principais abordagens a Sedação Inalatória e Consciente com Óxido Nitroso e Oxigênio (N₂O/O₂), a sedação oral e a anestesia geral (MACHADO et al., 2019).

4.2.1 Sedação Inalatória e Consciente Com Óxido Nitroso e Oxigênio

A sedação inalatória e consciente com óxido nitroso e oxigênio é uma técnica amplamente utilizada por sua eficácia e segurança. Apesar de seu mecanismo de ação não ser bem estabelecido, sabe-se que o óxido nitroso atua como ansiolítico e sedativo leve, reduzindo a percepção de dor e o medo por atuar em receptores gama-aminobutíricos do tipo A (GABA-A) a nível de córtex cerebral (FIORILLO, 2019). Por não ter afinidade com a hemoglobina, o gás é rapidamente eliminado pelos pulmões, apresentando início de ação e recuperação rápidos (dois a três minutos) (MACHADO et al. 2019).

4.2.2 Sedação Oral

Consiste na administração de medicamentos por via oral, como o midazolam, que possui efeito ansiolítico, sedativo e amnésico. É indicada em crianças com ansiedade moderada a severa, sendo necessário o monitoramento rigoroso dos sinais vitais durante o procedimento (DIAS et al., 2020).

4.2.3 Anestesia Geral

A anestesia geral é um estado de inconsciência, caracterizado pelo relaxamento muscular, perda dos reflexos protetores, padrão de respiração e amnésia. O paciente permanece completamente inconsciente e sem resposta a estímulos durante todo o procedimento. Requer atuação multidisciplinar em centro cirúrgico com monitoramento e execução por médico anestesista (SILVA; QUEIROZ, 2020).

4.3 MANEJO DO COMPORTAMENTO: ABORDAGEM NÃO

FARMACOLÓGICA

As abordagens não farmacológicas são o primeiro recurso utilizado pelo cirurgião-dentista. Elas visam estabelecer uma relação de confiança, adaptar o comportamento da criança ao ambiente clínico e proporcionar uma experiência mais tranquila.

4.3.1 Comunicação Verbal Positiva

Envolve o uso de linguagem acessível e encorajadora, evitando termos que possam causar medo, como “agulha” ou “dor”.

4.3.2 Dizer - Mostrar - Fazer

Esta técnica, muito utilizada na rotina clínica, é caracterizada pela explicação de todo o passo a passo do procedimento, demonstração e, finalmente, a execução propriamente dita. Todo o processo é feito em linguagem compatível com a cognição do paciente e busca demonstrar a execução do procedimento através de estímulos auditivos, visuais e táteis (MOREIRA et al., 2021)

4.3.3. Reforço Positivo

No reforço positivo busca-se reforçar o comportamento desejado a partir do uso de artifícios como expressão facial, controle da voz e elogios ou por meio de recompensas pelo bom comportamento, reconhecendo os esforços do paciente e o estimulando a repetir o comportamento desejado (OLIVEIRA et al., 2022).

4.3.4. Controle da Voz

Técnica que busca a cooperação e atenção do paciente tendo como premissas a entonação, velocidade da fala e o volume. Sua única contraindicação é para pacientes com dificuldade auditiva (OLIVEIRA et al., 2022).

4.3.5 Distração

Nesta técnica são utilizados artifícios e ferramentas que têm o intuito de desviar a atenção da criança. São exemplos o uso de desenhos animados, jogos, música e contação de histórias (SANT’ANNA et al., 2020).

4.3.6 Dessensibilização

Nesta técnica há progressão no grau de complexidade do procedimento a ser executado. Assim, são priorizados, inicialmente, procedimentos menos invasivos, aumentando a complexidade à medida que o profissional ganha a confiança do paciente, não sendo possível sua execução apenas em casos de urgência (OLIVEIRA et al., 2022).

4.3.7 Modelagem Comportamental

Na técnica da modelagem, o paciente observa o atendimento de um ou mais indivíduos que demonstrem comportamento adequado com o intuito de que, a partir desta observação, o comportamento positivo seja reproduzido. Esta exposição pode ser feita através de filmagem ou observação em tempo real (SANT’ANNA et al., 2020; OLIVEIRA et al., 2022).

4.3.8 Mão sobre a boca

Essa técnica já não se usa mais pelo cirurgião-dentista no qual coloca a mão sobre a boca da criança e explica, de forma clara e calma, as etapas a serem seguidas no procedimento odontológico, sendo utilizada em casos de histeria em que as outras técnicas falharam. É importante dizer que deve haver uma via aérea liberada e deve ser imediatamente pausada com a colaboração da criança (ALBUQUERQUE et al., 2010).

4.3.9 Presença/Ausência dos Pais

A aplicação desta técnica requer autorização por meio de assinatura de Termo de Consentimento Livre e Esclarecido dos responsáveis legais pela criança e consiste na negociação da permanência ou não dos responsáveis no consultório ou na sala de espera, a depender da colaboração da criança, bem como colaboração dos pais durante o atendimento clínico (SANT’ANNA et al., 2020; OLIVEIRA et al., 2022).

4.3.10 Estabilização Protetora

A estabilização protetora é a técnica não farmacológica de escolha quando as técnicas anteriores falham. O objetivo é criar um ambiente seguro, com manutenção da integridade física do paciente e da equipe por meio da imobilização e contenção dos movimentos físicos. São pré-requisitos primordiais à sua aplicação: consentimento informado, a ponderação dos riscos/benefícios e a informação aos responsáveis (ALVER; BARROS; CAMARGO, 2024).

4.4 MEDO, ANSIEDADE E SUAS INFLUÊNCIAS SOBRE O ATENDIMENTO ODONTOLÓGICO

Apesar da evolução técnica da Odontologia, ainda é uma área associada à dor e sofrimento, o que inevitavelmente gera medo e ansiedade (Souza et al., 2019). As consequências envolvem taquicardia, sudorese e menor cooperação frente ao tratamento.

O acolhimento se revela como um fator determinante no manejo infantil frente ao tratamento odontológico, iniciando ainda na recepção com conversa ao longo do trajeto até o consultório (ALBUQUERQUE, 2010; COELHO; COELHO; COSTA, 2021). O fato é que a redução da tensão gerada ao início do atendimento reduz as chances de experiências negativas pela criança, de modo a torná-la mais receptiva ao atendimento odontológico (COELHO; COELHO; COSTA, 2021).

Apesar dos apontamentos descritos até o momento, fica evidente que é importante não apenas conhecer as técnicas de manejo do comportamento em Odontopediatria, mas também compreender como o medo e ansiedade influenciam no tratamento odontológico infantil, como apontado neste tópico.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise conduzida ao longo deste trabalho evidencia que o medo e a ansiedade infantis são fatores determinantes que influenciam diretamente a qualidade, a eficácia e o sucesso do tratamento odontológico. Ficou claro que a superação desses desafios emocionais não se restringe à mera execução de procedimentos técnicos, mas exige do profissional uma postura empática, comunicativa e estrategicamente planejada. As técnicas de manejo comportamental, sejam não farmacológicas ou farmacológicas, não devem ser vistas como excludentes, mas como recursos complementares de um arsenal terapêutico que deve ser adaptado às necessidades de cada criança.

Conclui-se que a abordagem não farmacológica é a base do atendimento humanizado em Odontopediatria, sendo capaz de resolver a maioria dos casos de ansiedade leve a moderada através da construção de um vínculo de confiança. Por outro lado, a abordagem farmacológica representa um instrumento valioso e seguro para situações específicas, permitindo o acesso ao cuidado de pacientes que, de outra forma, permaneceriam sem tratamento adequado. A escolha entre as diferentes estratégias deve ser sempre fundamentada em uma avaliação criteriosa, considerando o bem-estar físico e emocional da criança como prioridade máxima.

Por fim, este estudo reforça a importância de o cirurgião-dentista estar capacitado para identificar precocemente os sinais de medo e ansiedade e para implementar as técnicas de manejo mais apropriadas. Investir no conforto e na segurança psicológica do paciente infantil não é apenas uma questão de ética profissional, mas uma condição essencial para garantir a efetividade do tratamento e para fomentar uma geração de adultos com menor aversão aos cuidados odontológicos. Futuras pesquisas que avaliem a eficácia comparativa de longo prazo dessas técnicas são encorajadas para contínuo aprimoramento da prática clínica.

REFERÊNCIAS

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  1. Graduanda de Odontologia pela UniBRAS, GO. E-mail: samira.mota@soubraseducacional.com.br ↑

  2. Francyenne Maira Castro Gonçalves Titulação: doutorado do Curso de Odontologia da UniBRAS, GO. E-mail: francyenne.goncalves@braseducacional.com.br ↑

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