A contribuição da fisioterapia para a funcionalidade de idosos com Doença de Alzheimer: uma revisão de literatura
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
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RESUMO: O presente trabalho tem como objetivo revisar a literatura científica sobre a contribuição da fisioterapia para a funcionalidade de idosos com doença de Alzheimer (DA), destacando os tipos de intervenção empregados, os instrumentos de avaliação utilizados e as barreiras à efetividade do tratamento. OBJETIVO: Analisar, na produção científica nacional dos últimos dez anos, as evidências sobre a contribuição da fisioterapia para a funcionalidade de idosos com Alzheimer, considerando os diferentes estágios clínicos da doença. METODOLOGIA: Trata-se de uma revisão de literatura de caráter descritivo e narrativo, com dados coletados nas bases SciELO, PubMed/Medline, Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e Google Acadêmico, a partir dos descritores "fisioterapia", "funcionalidade", "doença de Alzheimer", "exercício físico" e "idoso", em publicações de autoria brasileira entre 2016 e 2026. RESULTADOS: Os estudos analisados demonstram que programas fisioterapêuticos multicomponentes, compostos por exercícios de força, equilíbrio, marcha e dupla tarefa, favorecem a preservação da funcionalidade e da independência nas atividades de vida diária, com efeitos mais consistentes em protocolos mantidos por período superior a 12 semanas; a baixa adesão ao tratamento e as barreiras de acesso no Sistema Único de Saúde (SUS), contudo, ainda comprometem a efetividade e a continuidade do cuidado. CONCLUSÃO: A fisioterapia representa recurso relevante para retardar o declínio funcional em idosos com Alzheimer, sendo necessários mais ensaios clínicos nacionais randomizados, com amostras maiores, protocolos padronizados por estágio clínico e acompanhamento a longo prazo.

Palavras-chave: Doença de Alzheimer. Fisioterapia. Funcionalidade. Idoso. Revisão de literatura.

ABSTRACT

ABSTRACT: This study aims to review the national scientific literature on the contribution of physical therapy to functional performance in elderly patients with Alzheimer's disease (AD), highlighting the types of intervention used, the assessment instruments employed, and the barriers to treatment effectiveness in the Brazilian context. OBJECTIVE: To analyze, in the national scientific production of the last ten years, the evidence on the contribution of physical therapy to functionality in elderly patients with Alzheimer's, considering the different clinical stages of the disease. METHODOLOGY: This is a descriptive, narrative literature review, with data collected from the SciELO, PubMed/Medline, Virtual Health Library (BVS) and Google Scholar databases, using the descriptors "physiotherapy", "functionality", "Alzheimer's disease", "physical exercise" and "elderly", in publications by Brazilian authors between 2016 and 2026. RESULTS: The studies analyzed show that multicomponent physical therapy programs, comprising strength, balance, gait and dual-task exercises, favor the preservation of functionality and independence in activities of daily living, with more consistent effects in protocols maintained for longer than 12 weeks; low treatment adherence and access barriers within the Brazilian Unified Health System (SUS), however, still compromise the effectiveness and continuity of care. CONCLUSION: Physical therapy represents a relevant resource for delaying functional decline in elderly patients with Alzheimer's, and further randomized national clinical trials are needed, with larger samples, protocols standardized by clinical stage, and long-term follow-up.

Keywords: Alzheimer's disease. Physical therapy. Functionality. Elderly. Literature review.

INTRODUÇÃO

A doença de Alzheimer (DA) é a principal causa de demência em idosos, respondendo por cerca de 50% a 60% dos casos de demência no Brasil (MELO et al., 2020). Estimativas baseadas no Estudo de Carga Global de Doenças indicam que, entre 2000 e 2016, a prevalência de DA e outras demências cresceu de forma consistente no país, alcançando cerca de 1,5 milhão (MELO et al., 2020). Esse cenário tende a se agravar com o envelhecimento acelerado da população: de acordo com o Censo 2022 do IBGE o número de idosos brasileiros com 65 anos ou mais cresceu 57,4% entre 2010 e 2022, saltando de cerca de 14,1 milhões para mais de 22,1 milhões de pessoas, o que reforça a tendência de aumento constante da demanda por cuidados especializados (IBGE, 2023).Clinicamente, a DA evolui em estágios com repercussões funcionais distintas, e estudos brasileiros confirmam que o estágio da demência constitui fator preditivo importante do comprometimento funcional do idoso (TALMELLI et al., 2013). Na fase leve predominam esquecimentos e dificuldade em tarefas complexas, com relativa preservação da independência; na fase moderada surgem desorientação, maior dificuldade em atividades instrumentais e alterações comportamentais, exigindo supervisão constante; já na fase grave a dependência é quase total, com comprometimento da comunicação, da mobilidade e das atividades básicas de vida diária (TALMELLI et al., 2013). Essa progressão por estágios é central para a fisioterapia, pois os objetivos e os protocolos de intervenção mudam conforme o grau de comprometimento cognitivo e motor do paciente (FERREIRA; SANTOS, 2018).

Nesse cenário, a fisioterapia vem sendo estudada como estratégia não farmacológica capaz de atuar sobre a funcionalidade, por meio de exercícios de fortalecimento muscular, treino de equilíbrio, marcha, exercícios de dupla tarefa e atividades funcionais adaptadas (DIAS et al., 2020; SIQUEIRA et al., 2019). Apesar desses avanços, a literatura nacional que sustenta a indicação da fisioterapia para idosos com Alzheimer ainda é heterogênea quanto ao desenho dos estudos (FERREIRA; SANTOS, 2018; DIAS et al., 2020).

Diante disso, questiona-se qual é a contribuição da fisioterapia, evidenciada pela produção científica nacional dos últimos dez anos, para a funcionalidade de idosos com doença de Alzheimer. O envelhecimento populacional acelerado no Brasil e a relevância crescente do tema para a saúde pública justificam a realização desta revisão, que tem como objetivo analisar essas evidências e evidenciar as lacunas metodológicas e as barreiras práticas que ainda comprometem a efetividade dessas intervenções.

METODOLOGIA

Trata-se de uma revisão de literatura de caráter descritivo e narrativo, delineamento que se diferencia da revisão sistemática por não exigir protocolo de busca registrado previamente, o que confere maior flexibilidade para a discussão ampla do tema, ainda que às custas de menor rigor metodológico e de maior suscetibilidade a viés de seleção (ROTHER, 2007). A busca foi realizada nas bases SciELO, PubMed/Medline, Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e Google Acadêmico, utilizando os descritores "fisioterapia", "funcionalidade", "doença de Alzheimer", "exercício físico" e "idoso", combinados por meio dos operadores booleanos AND e OR em diferentes arranjos, de modo a ampliar a sensibilidade da busca sem comprometer a especificidade dos resultados recuperados. Inicialmente, os títulos e os resumos dos estudos localizados foram lidos na íntegra pelas autoras, de forma independente, para verificação da adequação ao tema proposto; os estudos considerados potencialmente elegíveis foram então lidos em texto completo, para confirmação do atendimento aos critérios de inclusão e exclusão estabelecidos.

Foram incluídos estudos de autoria brasileira, publicados entre 2016 e 2026, que abordassem a atuação da fisioterapia ou do exercício físico sobre a funcionalidade, a mobilidade, o equilíbrio ou a capacidade de realizar atividades de vida diária em idosos com Alzheimer, incluindo estudos de intervenção, revisões integrativas, revisões sistemáticas e revisões com meta-análise. Foram excluídos estudos focados exclusivamente na percepção do cuidador, resumos de eventos científicos sem texto completo disponível e publicações fora do recorte temporal estabelecido. Ao término do processo de seleção, foram incluídos 11 estudos, apresentados no Quadro 1: Aguiar et al. (2016), Ferreira e Santos (2018), Castilho Júnior et al. (2019), Siqueira et al. (2019), Dias et al. (2020), Monteiro et al. (2022), Silva et al. (2023), Cavalcanti, Clericuzi e Santos (2023), Andrade et al. (2024), Brandão e Silva (2024) e Penhoela et al. (2025).

Após a seleção final, os estudos incluídos foram organizados em um quadro sintético (Quadro 1), contemplando autoria, ano de publicação, tipo de delineamento, amostra ou contexto avaliado, objetivo do estudo e principais resultados encontrados, de modo a permitir a comparação entre os achados e a identificação de padrões, convergências e lacunas na produção nacional sobre o tema. A análise dos dados foi realizada de forma qualitativa, por meio de leitura crítica e categorização dos achados conforme o estágio clínico da doença de Alzheimer abordado em cada estudo (leve, moderado ou grave), quando essa informação estava disponível, e conforme o tipo de intervenção fisioterapêutica empregada, como fortalecimento muscular, treino de equilíbrio, marcha, exercícios de dupla tarefa e uso de realidade virtual, entre outras modalidades.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O comprometimento funcional na DA não é uniforme: acompanha o estadiamento clínico da doença (TALMELLI et al., 2013). Na fase leve, o declínio é sobretudo cognitivo (memória recente, linguagem), com repercussão discreta sobre a mobilidade, o que torna esse o período de maior janela terapêutica para intervenções preventivas. Na fase moderada, alterações de marcha, redução da velocidade de caminhada e piora do equilíbrio tornam-se mais evidentes, elevando o risco de quedas. Na fase grave, a dependência é quase total, a mobilidade fica gravemente reduzida e complicações secundárias como infecções respiratórias e disfagia tornam-se frequentes, o que desloca o foco fisioterapêutico da reabilitação funcional para a prevenção de complicações e a manutenção do conforto. Essa distinção por estágios é relevante porque grande parte da literatura nacional analisada não diferencia claramente os resultados por fase da doença, o que dificulta comparar diretamente estudos com amostras em estágios distintos (FERREIRA; SANTOS, 2018).

Os estudos brasileiros analisados convergem quanto ao potencial benéfico da fisioterapia sobre a funcionalidade, mas variam consideravelmente em rigor metodológico. Aguiar et al. (2016) e Castilho Júnior et al. (2019), em desenhos de intervenção, mostraram que programas estruturados de exercícios físicos produzem ganhos funcionais mensuráveis, inclusive em idosos institucionalizados. As revisões integrativas de Ferreira e Santos (2018) e de Dias et al. (2020) reforçam que programas multicomponentes combinando força, equilíbrio e marcha são os que mais se associam à preservação da funcionalidade, embora ambas destacam a heterogeneidade metodológica como limitação recorrente da área. Siqueira et al. (2019), em revisão sistemática sobre exercícios de dupla tarefa, acrescentam que a combinação de estímulo motor e cognitivo simultâneo potencializa ganhos que exercícios puramente motores não alcançam isoladamente.

Estudos do início dos anos 2020 ampliaram o escopo das intervenções investigadas. Cavalcanti, Clericuzi e Santos (2023) voltaram-se ao equilíbrio postural e à mobilidade, evidenciando redução do risco de quedas. Monteiro et al. (2022) investigaram o uso da realidade virtual como recurso complementar, com benefícios relatados em cognição, deambulação e desempenho em atividades básicas de vida diária, ainda que reconheçam tratar-se de evidência preliminar. Silva et al. (2023), em revisão que selecionou 8 de 293 artigos identificados, verificaram que exercícios aeróbicos, funcionais e de dupla tarefa foram as modalidades mais empregadas, contribuindo para a manutenção da capacidade funcional e para o retardo dos déficits cognitivos.

Já os estudos de 2024 e 2025 representam um salto de rigor metodológico dentro da produção nacional. Andrade et al. (2024) seguiram as diretrizes PRISMA 2020, registraram o protocolo no PROSPERO e avaliaram o risco de viés com a ferramenta Cochrane RoB2; entre os 11 estudos incluídos, identificaram que, além dos ganhos funcionais, fatores como baixa adesão, fadiga e agitação comportamental frequentemente comprometem a continuidade do tratamento. Brandão e Silva (2024) avançaram ao reunir os dados em uma meta-análise, cuja síntese quantitativa reforça o efeito positivo do exercício físico sobre desfechos funcionais, com maior consistência em programas multimodais e de maior duração. Penhoela et al. (2025), utilizando a estratégia PICO em revisão que selecionou 12 de 42 estudos localizados, identificaram que programas com duração superior a 12 semanas produzem benefícios mais sólidos e duradouros, e destacaram a baixa adesão e as barreiras de acesso no SUS como principais obstáculos à efetividade da fisioterapia nessa população.

Entre os instrumentos mais citados na literatura nacional para mensurar os efeitos da fisioterapia sobre a funcionalidade estão o Timed Up and Go (TUG), que avalia mobilidade funcional e risco de quedas; o Short Physical Performance Battery (SPPB), que mede desempenho físico global; e a Escala de Katz, que qualifica o grau de independência nas atividades básicas de vida. O quadro a seguir sintetiza os principais estudos de autoria brasileira incluídos nesta revisão.

A análise conjunta dos estudos indica um relativo consenso na literatura brasileira quanto aos benefícios da fisioterapia para a funcionalidade de idosos com Alzheimer, especialmente quando os protocolos combinam exercícios de força, equilíbrio, marcha e atividades funcionais, com ou sem componente de dupla tarefa (DIAS et al., 2020; SIQUEIRA et al., 2019; ANDRADE et al., 2024; BRANDÃO E SILVA, 2024). Esse padrão se repete tanto em estudos de intervenção quanto em revisões integrativas, sistemáticas e na meta-análise identificada, o que fortalece a plausibilidade dos achados. Ao mesmo tempo, a comparação cronológica revela uma evolução metodológica clara dos trabalhos de 2016-2022, majoritariamente revisões integrativas com amostras pequenas, aos de 2024-2025, já com registro prospectivo de protocolo e síntese quantitativa por meta-análise (ANDRADE et al., 2024; BRANDÃO E SILVA, 2024; PENHOELA et al., 2025) o que eleva a confiabilidade das conclusões mais recentes, mas também expõe os limites da área, como o número ainda pequeno de ensaios controlados e randomizados brasileiros específicos sobre Alzheimer.

Além dos efeitos clínicos, destacam-se as barreiras que limitam a efetividade da fisioterapia na prática: a baixa adesão ao tratamento, associada à fadiga e a sintomas comportamentais como agitação e apatia (ANDRADE et al., 2024), e, no âmbito do SUS, a descontinuidade do acompanhamento fisioterapêutico (PENHOELA et al., 2025) e a limitação de profissionais especializados em neurofuncional geriátrico. Por fim, cabe reconhecer os limites desta própria revisão: por não seguir um protocolo sistemático registrado nem aplicar avaliação formal de risco de viés sobre os estudos incluídos, seus achados devem ser interpretados como um panorama qualitativo da produção nacional, e não como uma síntese de evidência de alto nível metodológico (ROTHER, 2007).

CONCLUSÃO

A produção científica brasileira dos últimos dez anos aponta a fisioterapia como estratégia relevante para a preservação e a melhora da funcionalidade de idosos com doença de Alzheimer, com destaque para programas multicomponentes voltados à força, equilíbrio, marcha, dupla tarefa e atividades funcionais, sobretudo quando mantidos por mais de 12 semanas (DIAS et al., 2020; PENHOELA et al., 2025). Os estudos mais recentes (2024-2025), com maior rigor metodológico e uma meta-análise já disponível na literatura nacional, reforçam essa direção (ANDRADE et al., 2024; BRANDÃO E SILVA, 2024), ao mesmo tempo em que evidenciam obstáculos práticos baixa adesão, sintomas comportamentais e barreiras de acesso no SUS que precisam ser enfrentados para que os benefícios observados em pesquisa se traduz em cuidado efetivo (ANDRADE et al., 2024; PENHOELA et al., 2025).

Ainda assim, a heterogeneidade metodológica dos estudos disponíveis e a escassa diferenciação por estágio da doença limitam a generalização dos resultados (FERREIRA; SANTOS, 2018; TALMELLI et al., 2013), evidenciando a necessidade de mais ensaios clínicos nacionais randomizados, com amostras maiores, protocolos padronizados por fase clínica e acompanhamento a longo prazo. Diante do exposto, entende-se que a fisioterapia deve ser compreendida não como uma intervenção isolada, mas como parte de um cuidado multiprofissional continuado, capaz de se adaptar às necessidades específicas de cada estágio da doença de Alzheimer (FERREIRA; SANTOS, 2018). Considera-se, portanto, que o avanço da produção científica nacional, aliado ao fortalecimento das políticas públicas de atenção ao idoso no âmbito do SUS (PENHOELA et al., 2025), é essencial para que os benefícios funcionais já demonstrados em pesquisa se traduzem, de fato, em ganhos concretos na prática clínica cotidiana.

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