O uso da liberação miofascial na cefaleia cervicogênica: revisão de literatura
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
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RESUMO

Introdução: A cefaleia Cervicogênica é classificada como uma condição secundária decorrente de disfunções e alterações musculoesqueléticas localizadas na coluna cervical. Clinicamente, caracteriza-se pela presença de dor de cabeça referida originada em estruturas anatômicas como músculos, articulações e ligamentos, sendo habitualmente acompanhada de dor no pescoço, limitação da amplitude de movimento, hipertonia muscular, presença de pontos-gatilho e alterações na postura. No âmbito do tratamento fisioterapêutico, a liberação miofascial destaca-se como uma técnica manual promissora, atuando diretamente sobre restrições fasciais e tensões nos tecidos moles, aspectos frequentemente envolvidos na manutenção e exacerbação do quadro doloroso. Objetivo: Este estudo teve como objetivo analisar, por meio de revisão de literatura, o uso da liberação miofascial no tratamento fisioterapêutico da cefaleia cervicogênica. Métodos: Foram avaliadas 19 publicações em português e inglês, com prioridade para estudos publicados entre 2016 e 2026, selecionados nas bases SciELO, PubMed/MEDLINE, PEDro, Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Google Scholar e periódicos científicos da área da saúde. De modo geral, os achados indicam que a técnica pode auxiliar na redução da dor, na diminuição da frequência das crises, na melhora da mobilidade cervical e na redução da incapacidade funcional. Também se observa que seus efeitos tendem a ser mais consistentes quando associados a exercícios terapêuticos, controle motor cervical, correção postural e orientações de autocuidado. Conclusão: Assim, a liberação miofascial mostra-se como um recurso complementar importante no manejo da cefaleia cervicogênica, especialmente quando inserida em um plano fisioterapêutico individualizado e multimodal. Apesar disso, ainda são necessários estudos clínicos com amostras maiores, protocolos mais padronizados e acompanhamento em médio e longo prazo.

Palavras-chave: Cefaleia cervicogênica; Liberação miofascial; Fisioterapia; Terapia manual; Dor cervical.

ABSTRACT

Cervicogenic headache is classified as a secondary condition resulting from musculoskeletal dysfunctions and alterations located in the cervical spine. Clinically, it is characterized by referred headache originating from anatomical structures such as muscles, joints, and ligaments, usually accompanied by neck pain, limited range of motion, muscle hypertonia, trigger points, and postural changes. In the context of physiotherapy treatment, myofascial release stands out as a promising manual technique, acting directly on fascial restrictions and soft tissue tension, aspects frequently involved in maintaining and exacerbating the painful condition. This study aimed to analyze, through a literature review, the benefits of myofascial release in the physiotherapeutic treatment of cervicogenic headache. A total of 19 publications in Portuguese and English were analyzed, prioritizing studies published between 2016 and 2026 and selected from SciELO, PubMed/MEDLINE, PEDro, Virtual Health Library (BVS), Google Scholar and scientific journals in the health field. The results suggest that myofascial release may help reduce pain intensity, decrease headache episode frequency, improve cervical range of motion, reduce functional disability, and promote greater comfort and better performance in daily activities. These effects appear to be more consistent when the technique is combined with therapeutic exercises, cervical motor control, postural correction and self-care guidance. It is concluded that myofascial release is a promising and complementary resource in the management of cervicogenic headache and should be part of an individualized and multimodal physiotherapeutic approach. Despite the positive findings, further clinical studies with larger samples, standardized protocols, comparison between techniques and medium- and long-term follow-up are still required.

Keywords: Cervicogenic headache. Myofascial release. Physiotherapy. Manual therapy. Neck pain.

1 INTRODUÇÃO

Dor de cabeça é uma das queixas de saúde mais comuns na população e, portanto, uma causa importante de incapacidade funcional, perda de produtividade e redução da qualidade de vida. São consideradas primárias quando a dor faz parte da doença, como na enxaqueca e na cefaleia por tensão muscular, enquanto são secundárias quando apresentam disfunção estrutural, vascular ou musculoesquelética (CARVALHO FILHO et al., 2022; SOUZA; CELESTINO; MUNDIM, 2021). Essa diferença direciona o diagnóstico diferencial e, portanto, a escolha do tratamento.

A cefaleia cervicogênica (CCG) é uma cefaleia secundária, que se apresenta como dor referida à cabeça a partir de quaisquer disfunções musculoesqueléticas locais da coluna cervical. Tais fontes nociceptivas podem ser as articulações entre C1 e C3, os discos intervertebrais (DIV), os ligamentos, bem como a musculatura suboccipital e pericervical (JUNG et al., 2024; NÚÑEZ-CABALEIRO; LEIRÓS-RODRÍGUEZ, 2022). Atualmente, acredita-se que o mecanismo mais amplamente aceito envolve a convergência de aferências provenientes das raízes cervicais superiores no núcleo trigeminocervical com aquelas da primeira divisão do nervo trigeminal, causando que o estímulo de origem cervical seja percebido como dor em áreas occipitais, frontais, temporais ou orbitais (GURUNG; TIWARI, 2026). De modo geral, a dor é unilateral, intensificando-se com movimentos do pescoço ou ao manter posturas inadequadas.

Além disso, geralmente vem acompanhada de restrição cervical na rotação, hipertonía e pontos-gatilho miofasciais ativos (BAE; SONG, 2024; KIM; SHIN, 2024). Essas alterações, quando persistentemente prejudicadas, estão associadas à ansiedade, ao estresse e a distúrbios do sono (BECHER et al., 2023; OVERMANN et al., 2024), prejudicando as atividades da vida diária e o desempenho no trabalho. A fisioterapia é uma das principais estratégias conservadoras e não farmacológicas de tratamento para esses pacientes, e seus recursos associados incluem terapia manual, treinamento de controle motor cervical, fortalecimento dos músculos profundos do pescoço, educação para a dor e reeducação postural (BINI et al., 2022; HERRANZ-GÓMEZ et al., 2021; REHMAN et al., 2026; XU; LING, 2025).

A liberação miofascial (MFR) é uma das técnicas mais atuais empregadas no tratamento conservador dos tecidos moles entre as intervenções de terapia manual. O procedimento envolve aplicar pressão e realizar deslizamentos sobre a fáscia e o músculo, com o objetivo de atuar sobre o colágeno e, em seguida, passar para a matriz extracelular (CABRERA-MARTOS et al., 2022; LU et al., 2024). Seus efeitos são explicados pela melhora da viscoelasticidade da fáscia, estimulação de mecanorreceptores, aumento da circulação local e redução do tônus nos pontos-gatilho (SILVA; BENTO; CASTILLO, 2021; YOUSUF et al., 2024), o que justifica seu uso quando componentes miofasciais influenciam a origem das dores na região do pescoço e cefálica.

Embora o uso desses protocolos esteja se expandindo, os estudos de LMF disponíveis na literatura diferem quanto ao tempo de pressão, à frequência das sessões e às regiões tratadas, à associação com outros recursos, e a maior parte das evidências considera principalmente cefaleias ou dor cervical inespecífica (KANYA; SEPI, 2026; OVERMANN et al., 2024). Portanto, revisar o que já foi publicado especificamente sobre CCG pode oferecer evidências mais robustas para embasar a prática clínica. Nesse contexto, este estudo teve como objetivo investigar, por meio de uma revisão da literatura, o uso da liberação miofascial no tratamento fisioterapêutico da cefaleia cervicogênica.

2 METODOLOGIA

Este trabalho caracteriza-se como uma revisão de literatura. A pesquisa foi conduzida a partir da seguinte questão norteadora: quais benefícios a liberação miofascial pode oferecer no tratamento fisioterapêutico da cefaleia cervicogênica?

A busca bibliográfica foi realizada nas bases SciELO, PubMed/MEDLINE, PEDro, Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Google Scholar e em periódicos científicos voltados à fisioterapia e à saúde. Foram priorizados estudos publicados entre 2016 e 2026, nos idiomas português e inglês. Para localizar as publicações, utilizaram-se descritores em português e inglês, como: cefaleia cervicogênica, liberação miofascial, terapia manual, fisioterapia, dor cervical, exercício terapêutico, myofascial release, cervicogenic headache, manual therapy, therapeutic exercise e neck pain.

Foram incluídos artigos de revisão, revisões sistemáticas, metanálises, ensaios clínicos, estudos experimentais e publicações relacionadas ao tratamento fisioterapêutico da cefaleia cervicogênica ou de cefaleias associadas a disfunções cervicais e miofasciais. Foram excluídos estudos sem relação com fisioterapia, publicações duplicadas, textos sem acesso às informações essenciais e materiais com enfoque exclusivamente farmacológico.

Para organizar o processo de seleção dos estudos, utilizou-se o modelo PRISMA de forma adaptada. Esse modelo permite apresentar, de maneira clara e sequencial, as etapas de identificação, remoção de duplicados, triagem, elegibilidade e inclusão dos artigos analisados. Dessa forma, o fluxograma contribui para demonstrar com maior transparência como as publicações foram selecionadas para compor a revisão de literatura.

Figura 1 – Fluxograma de seleção dos estudos incluídos na revisão, conforme modelo PRISMA adaptado

Fonte: Elaborado pelo autor, 2026.

3 RESULTADOS

Após a triagem, foram selecionadas 19 publicações que abordavam a Cefaleia Cervicogênica, a atuação fisioterapêutica e os efeitos de técnicas manuais, especialmente a liberação miofascial. Também foram considerados estudos sobre exercícios terapêuticos e recursos voltados à dor cervical, por apresentarem relação direta com os mecanismos envolvidos nesse tipo de cefaleia. Para facilitar a leitura, os estudos foram organizados por autor, ano, tema principal e contribuição para a discussão do tratamento fisioterapêutico.





Quadro 1 – Publicações incluídas na revisão de literatura

4 DISCUSSÃO

A leitura dos estudos selecionados permite observar que a liberação miofascial pode ser um recurso útil no tratamento da cefaleia cervicogênica, sobretudo quando aplicada dentro de uma abordagem que considera dor, mobilidade cervical, função muscular e postura. Em diferentes publicações, os autores descrevem melhora da dor, redução da frequência das crises, ganho de amplitude de movimento e menor incapacidade funcional após intervenções fisioterapêuticas voltadas à região cervical (LU et al., 2024; TAVAKKOLI et al., 2024; YOUSUF et al., 2024).

Ao analisar estudos sobre fisioterapia em cefaleias, percebe-se que as intervenções conservadoras continuam tendo papel importante, principalmente quando há participação do sistema musculoesquelético. Carvalho Filho et al. (2022), Silva, Bento e Castillo (2021) e Souza, Celestino e Mundim (2021) relatam que técnicas manuais, exercícios, orientações posturais e estratégias para reduzir tensão muscular podem aliviar a dor e favorecer a qualidade de vida. Mesmo quando o foco desses trabalhos é a cefaleia tensional, seus resultados ajudam a compreender como alterações miofasciais cervicais podem influenciar quadros de dor de cabeça.

No caso específico da cefaleia cervicogênica, os estudos apontam que a origem cervical da dor exige uma avaliação cuidadosa da mobilidade articular, da sensibilidade muscular, da postura e da função dos músculos cervicais profundos. Revisões sistemáticas e metanálises indicam que a combinação entre terapia manual e exercícios terapêuticos apresenta resultados favoráveis na redução da intensidade e da frequência da cefaleia, além de contribuir para melhora funcional (BECHER et al., 2023; BINI et al., 2022; JUNG et al., 2024; NÚÑEZ-CABALEIRO; LEIRÓS-RODRÍGUEZ, 2022).

A liberação miofascial ganha relevância nesse contexto por atuar sobre tecidos moles, restrições fasciais e pontos-gatilho que podem contribuir para a dor cervical e para a dor referida à cabeça. Lu et al. (2024) encontraram resultados favoráveis da técnica em diferentes tipos de cefaleia, enquanto Tavakkoli et al. (2024), Yousuf et al. (2024) e Gurung e Tiwari (2026) concentraram suas análises em intervenções direcionadas à região suboccipital e cervical. Esses achados chamam atenção para a importância dos músculos suboccipitais e da coluna cervical superior no planejamento do tratamento.

Além do alívio da dor, os estudos sugerem que a técnica pode favorecer a mobilidade cervical e reduzir a tensão muscular. Pesquisas envolvendo dor cervical crônica, como as de Cabrera-Martos et al. (2022), Overmann et al. (2024), Kim e Shin (2024) e Bae e Song (2024), observaram melhora em dor, amplitude de movimento e incapacidade. Embora esses trabalhos não tratem exclusivamente da cefaleia cervicogênica, eles oferecem suporte para compreender os efeitos da liberação miofascial na região cervical, área diretamente relacionada à origem e à manutenção dos sintomas.

Outro ponto relevante é a relação entre postura, controle motor cervical e sintomas cervicogênicos. Kanya e Sepi (2026) relatam melhora de dor, postura, incapacidade e mobilidade em paciente com cefaleia cervicogênica associada à anteriorização da cabeça, sugerindo que a correção postural pode potencializar os efeitos das técnicas miofasciais. Esse aspecto é coerente com a proposta de tratamento multimodal, na qual a liberação miofascial não atua isoladamente, mas integrada a exercícios, orientações e estratégias de reeducação postural.

De maneira geral, os autores indicam que abordagens combinadas tendem a trazer respostas mais completas do que o uso de uma única técnica. Mobilizações, manipulações, exercícios de controle motor, alongamentos, fortalecimento e educação em saúde podem atuar sobre diferentes fatores envolvidos na cefaleia cervicogênica. Essa compreensão aparece em estudos que discutem exercício, terapia manual e tratamento osteopático em cefaleias relacionadas a disfunções musculoesqueléticas (HERRANZ-GÓMEZ et al., 2021; REHMAN et al., 2026; XU; LING, 2025).

Apesar dos resultados favoráveis, é importante considerar algumas limitações das publicações analisadas, como amostras pequenas, curto período de acompanhamento, diversidade de protocolos e diferentes formas de mensuração dos desfechos. Essas diferenças dificultam a comparação direta entre os estudos e impedem afirmar que a liberação miofascial, isoladamente, seja superior a outras intervenções. Ainda assim, sua aplicação se mostra clinicamente relevante quando associada a uma avaliação individualizada e a um plano terapêutico mais amplo.

Assim, a análise da literatura mostra que a liberação miofascial pode contribuir para o manejo da cefaleia cervicogênica por seus efeitos sobre a tensão muscular, a mobilidade dos tecidos moles, a dor cervical e a funcionalidade. No entanto, sua aplicação parece fazer mais sentido quando integrada a outros recursos fisioterapêuticos, como exercícios, correção postural e orientações de autocuidado, respeitando as necessidades individuais de cada paciente.



5 CONCLUSÃO

Com base nas publicações analisadas, a liberação miofascial apresenta-se como um recurso relevante no tratamento fisioterapêutico da cefaleia cervicogênica. Seus benefícios estão relacionados principalmente à redução da dor, ao relaxamento de estruturas tensas, à melhora da mobilidade cervical e à diminuição da incapacidade funcional, fatores que interferem diretamente nas atividades diárias do paciente.

Ainda assim, os achados indicam que a técnica não deve ser vista de forma isolada, mas como parte de um plano terapêutico mais amplo, associado a exercícios, controle motor cervical, alongamentos, correção postural e orientações para autocuidado. Novos estudos clínicos, com amostras maiores e protocolos mais bem definidos, são necessários para fortalecer as evidências sobre sua efetividade e orientar melhor sua aplicação na prática fisioterapêutica.

REFERÊNCIAS

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