Os desafios enfrentados pela medicina atual na assistência dos cuidados paliativos
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
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Resumo

A medicina contemporânea enfrenta inúmeros desafios na oferta de cuidados paliativos, especialmente diante do aumento da incidência de doenças crônicas e terminais em uma população cada vez mais envelhecida. Apesar dos avanços tecnológicos e científicos, observa-se uma lacuna significativa na humanização do atendimento e na integração dos cuidados paliativos como parte essencial do tratamento de pacientes com doenças sem possibilidade de cura. Nesse contexto, o objetivo geral deste estudo é analisar criticamente os principais obstáculos enfrentados pela medicina atual na implementação e qualificação dos cuidados paliativos, considerando aspectos estruturais, éticos, profissionais e institucionais. Trata-se de uma pesquisa de natureza qualitativa e bibliográfica, baseada na análise de livros, artigos científicos e documentos oficiais que abordam a temática dos cuidados paliativos sob uma perspectiva multidisciplinar. A investigação busca identificar as deficiências mais recorrentes no sistema de saúde, como a escassez de equipes multidisciplinares capacitadas, a falta de preparo dos profissionais para lidar com a terminalidade da vida, além da ausência de políticas públicas específicas e efetivas que garantam o acesso equitativo a esse tipo de cuidado. Espera-se que os resultados contribuam para o debate científico e social sobre a importância da valorização dos cuidados paliativos como uma prática que visa não apenas prolongar a vida, mas sobretudo garantir qualidade, dignidade e alívio do sofrimento aos pacientes e seus familiares. A pesquisa propõe, ainda, a reflexão sobre a necessidade de uma formação médica mais humanizada, que considere o sofrimento em sua dimensão física, emocional, social e espiritual, e reforce o compromisso ético da medicina com a promoção do bem-estar em todas as fases da vida. Assim, este trabalho visa fornecer subsídios teóricos para a formulação de políticas públicas mais eficazes e para a transformação das práticas assistenciais voltadas ao cuidado paliativo no Brasil.

Palavras-chave: Cuidados paliativos. Medicina contemporânea. Humanização da saúde. Políticas públicas. Qualidade de vida.

Abstract

Contemporary medicine faces numerous challenges in the provision of palliative care, especially given the increasing incidence of chronic and terminal illnesses in an increasingly aging population. Despite technological and scientific advances, there remains a significant gap in the humanization of healthcare and in the integration of palliative care as an essential part of the treatment of patients with incurable diseases. In this context, the general objective of this study is to critically analyze the main obstacles faced by contemporary medicine in the implementation and improvement of palliative care, considering structural, ethical, professional, and institutional aspects. This is a qualitative and bibliographic study based on the analysis of books, scientific articles, and official documents that address palliative care from a multidisciplinary perspective. The research seeks to identify the most recurrent shortcomings in the healthcare system, such as the shortage of qualified multidisciplinary teams, the lack of preparedness among healthcare professionals to deal with end-of-life issues, as well as the absence of specific and effective public policies that ensure equitable access to this type of care. The results are expected to contribute to the scientific and social debate on the importance of recognizing palliative care as a practice aimed not only at prolonging life, but above all at ensuring quality of life, dignity, and relief from suffering for patients and their families. The study also proposes reflection on the need for more humanized medical education that considers suffering in its physical, emotional, social, and spiritual dimensions and reinforces medicine’s ethical commitment to promoting well-being at all stages of life. Thus, this study aims to provide theoretical support for the development of more effective public policies and for the transformation of healthcare practices related to palliative care in Brazil.

Keywords: Palliative care. Contemporary medicine. Humanization of healthcare. Public policies. Quality of life.

1. INTRODUÇÃO

Os cuidados paliativos são definidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma abordagem que visa melhorar a qualidade de vida de pacientes e familiares que enfrentam doenças que ameaçam a continuidade da vida. Essa assistência se dá por meio da prevenção e alívio do sofrimento, identificação precoce, avaliação e tratamento da dor, bem como da atenção a problemas de ordem física, psicossocial e espiritual (Gomes e Othero, 2016).

Mediante isso, de acordo com Carla et al. (2021), no Brasil, a implementação dessa abordagem tem ganhado destaque nas últimas décadas, apresentando uma mudança significativa no paradigma de assistência à saúde, que passa a valorizar não apenas a cura, mas também o conforto e a dignidade do paciente em fases avançadas de doenças.

No Brasil, a implementação dos cuidados paliativos tem ganhado destaque nas últimas décadas, refletindo uma mudança significativa no paradigma da assistência à saúde. Tradicionalmente focada na cura, a medicina passou a reconhecer a importância do conforto e da dignidade do paciente, especialmente em estágios avançados de doenças graves. Estudos indicam que a inclusão da temática nos currículos de graduação em Medicina contribui para preparar os futuros profissionais para enfrentar as limitações e desafios dessa prática, promovendo uma assistência mais qualificada e humanizada (Correia et al., 2018).

Entretanto, a crescente prevalência de doenças crônicas e degenerativas, somada ao envelhecimento populacional, tem ampliado a demanda por cuidados paliativos no país. Apesar desse cenário, a efetiva implementação dessa assistência ainda enfrenta desafios, especialmente no que se refere à padronização de condutas e protocolos clínicos, à formação de profissionais capacitados e à atuação de equipes multiprofissionais, que são essenciais para atender às necessidades complexas dos pacientes (Hermes e Lamarca, 2013).

Nesse contexto, surge o questionamento: quais são os principais desafios enfrentados pela medicina atual na assistência aos cuidados paliativos?

Justifica-se a relevância desta pesquisa pela necessidade de compreender os obstáculos da implementação eficaz dos cuidados paliativos no Brasil. Espera-se que este estudo contribua para a melhoria da assistência oferecida a pacientes com doenças crônicas e terminais, fornecendo subsídios para o aprimoramento das práticas médicas e da formação profissional.

Dessa forma, esta pesquisa tem como objetivo geral analisar os desafios enfrentados pela medicina atual na assistência aos cuidados paliativos, considerando a existência e a aplicabilidade de protocolos, as condutas médicas adotadas e o perfil dos pacientes que necessitam desse tipo de atendimento.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA

2.1 O Conceito e a Importância dos Cuidados Paliativos

A literatura sobre cuidados paliativos destaca a necessidade de uma abordagem integral ao paciente, indo além da intervenção curativa. Segundo Gomes e Othero (2016), os cuidados paliativos não objetivam a cura da doença, mas sim a melhoria da qualidade de vida, garantindo conforto e suporte para os pacientes e seus familiares. Essa perspectiva demonstra a importância da humanização no atendimento médico, algo que ainda enfrenta resistências dentro de um modelo assistencial tradicionalmente centrado na cura.

Além disso, conforme apontam Sepúlveda et al. (2018), os cuidados paliativos devem ser introduzidos precocemente no tratamento de doenças crônicas e terminais, permitindo um acompanhamento contínuo e multidisciplinar. No entanto, um dos principais desafios enfrentados é a falta de capacitação adequada dos profissionais de saúde para lidar com esses pacientes e suas necessidades específicas.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) caracteriza os cuidados paliativos como uma abordagem que melhora a qualidade de vida de pacientes e famílias que enfrentam doenças que ameaçam a vida, por meio da prevenção e alívio do sofrimento, identificação precoce e tratamento impecável da dor e outros problemas físicos, psicossociais e espirituais.

A evolução demográfica, especialmente nos países desenvolvidos, tem levado a um aumento das necessidades de cuidados paliativos entre os idosos, frequentemente associados a condições de longo prazo além do câncer, nas quais o início do processo de morte é muitas vezes difícil de determinar.

Estudos demonstram que os serviços de cuidados paliativos domiciliares aumentam a chance de os pacientes morrerem em casa e reduzem a carga de sintomas, especialmente em pacientes com câncer, sem impactar negativamente o luto dos cuidadores.

É fundamental que os profissionais de saúde recebam educação e treinamento adequados em cuidados paliativos para compreender e atender às necessidades dos pacientes e de suas famílias. De acordo com uma revisão sistemática realizada por Chan et al. (2021), programas de educação em cuidados paliativos são eficazes em melhorar o conhecimento, atitudes e confiança dos profissionais de saúde na prestação desses cuidados.

A integração precoce dos cuidados paliativos no tratamento de doenças crônicas avançadas é essencial para proporcionar um cuidado abrangente e centrado no paciente, melhorando a qualidade de vida e aliviando o sofrimento. Segundo uma revisão de literatura realizada por Aldridge et al. (2016), a educação, implementação e políticas são barreiras significativas para uma maior integração dos cuidados paliativos, destacando a necessidade de estratégias eficazes para superar esses desafios.

Em resumo, os cuidados paliativos desempenham um papel crucial na assistência a pacientes com doenças graves, focando na melhoria da qualidade de vida e no alívio do sofrimento, por meio de uma abordagem multidisciplinar e humanizada.

2.2 Protocolos e Condutas na Medicina Paliativa

A definição de protocolos e diretrizes para a implementação dos cuidados paliativos é fundamental para garantir a qualidade da assistência. De acordo com a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG, 2021), o Brasil ainda carece de uma regulamentação uniforme que estabeleça diretrizes objetivas para a prática dos cuidados paliativos em diferentes níveis de atenção à saúde. Essa lacuna normativa resulta em abordagens heterogêneas entre as instituições de saúde, o que impacta diretamente a qualidade do atendimento prestado aos pacientes.

Silva (2016) demonstra que a criação de protocolos institucionais melhora significativamente a assistência prestada, pois auxilia os profissionais na tomada de decisão e no alinhamento das condutas médicas. No entanto, a adesão a esses protocolos ainda é um desafio, especialmente devido à escassez de treinamentos específicos e à sobrecarga dos serviços de saúde.

2.3 Perfil dos Pacientes e as Necessidades na Assistência Paliativa

O perfil dos pacientes que necessitam de cuidados paliativos é bastante diversificado, abrangendo desde idosos com doenças degenerativas até pacientes oncológicos e portadores de enfermidades crônicas avançadas. Conforme estudo de Correia et al. (2018), o envelhecimento populacional tem levado ao aumento da demanda por cuidados paliativos, especialmente para pacientes com doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson.

Além disso, é fundamental considerar as necessidades multidimensionais desses pacientes. Leão e Lopes (2020) destacam que a atuação de equipes multiprofissionais nos cuidados paliativos é essencial para atender não apenas às necessidades físicas, mas também às demandas emocionais, sociais e espirituais dos pacientes. Essa abordagem holística contribui para a melhoria da qualidade de vida e para a dignidade do paciente no final da vida.

A complexidade das condições crônicas em idosos requer uma atenção especial às necessidades específicas dessa população. Costa et al. (2016) ressaltam que a implementação de cuidados paliativos para idosos com multimorbidades visa não apenas o controle de sintomas, mas também a promoção de um envelhecimento digno e com qualidade de vida.

A dimensão espiritual também desempenha um papel crucial nos cuidados paliativos. Silva (2016) enfatiza que a atenção às necessidades espirituais dos pacientes contribui para o alívio do sofrimento e para a promoção de um cuidado humanizado e integral.

Portanto, a assistência paliativa deve ser planejada e implementada considerando a diversidade do perfil dos pacientes e suas necessidades multidimensionais, garantindo uma abordagem holística que promova a qualidade de vida e o bem-estar no final da vida.

2.4 Desafios na Implementação dos Cuidados Paliativos

Apesar da crescente valorização dos cuidados paliativos, diversos desafios ainda dificultam sua implementação efetiva. Um dos principais obstáculos é a falta de formação específica dos profissionais de saúde.

Segundo pesquisa realizada por Guimarães; Manginelli; Godoi (2023), a maioria dos currículos dos cursos de Medicina no Brasil ainda não inclui disciplinas obrigatórias sobre cuidados paliativos, o que compromete a capacitação dos futuros médicos nessa área.

Outro fator relevante é a resistência cultural à aceitação dos cuidados paliativos, tanto por parte dos profissionais quanto dos próprios pacientes e familiares. Para muitos, a transição do tratamento curativo para o paliativo é vista como uma desistência, em vez de uma abordagem focada no conforto e na qualidade de vida (Guimarães; Manginelli; Godoi, 2023). Essa percepção equivocada reforça a necessidade de campanhas educativas para esclarecer a população sobre o papel e os benefícios dessa modalidade de assistência.

Além disso, a escassez de recursos estruturais e humanos também representa um grande entrave. Conforme aponta a Comissão Nacional de Cuidados Paliativos (CNCP, 2021), há uma grande desigualdade na distribuição dos serviços de cuidados paliativos no Brasil, com a maioria concentrada em centros urbanos e poucas opções disponíveis para populações em áreas remotas. Essa limitação compromete o acesso equitativo a um direito fundamental garantido pela OMS.

2.5 Possibilidades de Melhorias e Recomendações

Diante dos desafios enfrentados pela medicina atual na assistência aos cuidados paliativos, algumas estratégias podem ser sugeridas para aprimorar essa prática no Brasil. Em primeiro lugar, é fundamental a inclusão da disciplina de cuidados paliativos nos currículos acadêmicos dos cursos de Medicina e outras áreas da saúde, garantindo a capacitação adequada dos futuros profissionais (Guimarães; Manginelli; Godoi, 2023).

Outra medida importante é a criação de políticas públicas que garantam a estruturação e a expansão dos serviços de cuidados paliativos em todo o território nacional. Além disso, a padronização de protocolos clínicos e diretrizes assistenciais pode contribuir para uma abordagem mais uniforme e eficaz dessa prática (SBGG, 2021).

Portanto, a conscientização da sociedade sobre a importância dos cuidados paliativos é essencial para quebrar estigmas e ampliar o acesso a essa modalidade de assistência. Iniciativas de educação e sensibilização podem ajudar pacientes e familiares a compreenderem melhor o papel dos cuidados paliativos na promoção da dignidade e qualidade de vida.

3. METODOLOGIA

A presente pesquisa foi de natureza qualitativa, com abordagem bibliográfica e documental fundamentando-se em materiais já publicados, como artigos científicos, livros, teses, dissertações e documentos institucionais nacionais e internacionais.

Foram incluídos na pesquisa artigos e obras publicadas entre os anos de 2015 e 2025, disponíveis em português, espanhol e inglês, que tratem especificamente dos cuidados paliativos em contextos clínicos diversos, e que discutam os principais desafios enfrentados pela medicina na atualidade. Foram excluídas publicações que abordem o tema de forma superficial, textos duplicados, resumos sem acesso ao texto completo, bem como materiais que não apresentem rigor metodológico claro ou não estejam vinculados a fontes acadêmicas confiáveis.

Os dados foram coletados por meio da análise de publicações disponíveis nas seguintes bases de dados científicas: Scientific Electronic Library Online (SciELO), PubMed (Public Medical Literature Analysis and Retrieval System Online), Google Scholar, Portal de Periódicos da CAPES e Journal/Author Name Estimator (JANE). Foram utilizados descritores como: cuidados paliativos, medicina paliativa, desafios na terminalidade, assistência multidisciplinar, qualidade de vida no fim da vida e seus equivalentes em inglês. A seleção das leituras foi feita com abordagem seletiva e reflexiva, priorizando estudos com metodologia consistente, resultados relevantes e discussões aprofundadas. Após leitura exploratória dos resumos, os textos completos dos materiais selecionados foram lidos integralmente e analisados por meio de fichamento crítico.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS

4.1 PROTOCOLOS E CONDUTAS EXISTENTES PARA OS CUIDADOS PALIATIVOS

NA MEDICINA ATUAL: APLICABILIDADE E EFICÁCIA

A análise da literatura revela que os cuidados paliativos têm sido reconhecidos como uma necessidade crescente em diferentes contextos clínicos, mas sua implementação ainda enfrenta obstáculos relacionados à ausência de protocolos uniformes e à baixa adesão às condutas já existentes. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, os cuidados paliativos devem ser ofertados de forma precoce, integrados ao tratamento curativo, garantindo não apenas o controle da dor, mas também a atenção às dimensões emocionais e espirituais do paciente (Sepúlveda et al., 2018). Contudo, essa recomendação global ainda encontra entraves no Brasil e em diversos países em desenvolvimento.

No Brasil, a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG, 2021) destaca que não existe uma padronização nacional robusta de protocolos, o que leva a práticas heterogêneas entre instituições. Tal lacuna resulta em disparidades significativas na qualidade da assistência, pois enquanto algumas instituições hospitalares contam com diretrizes próprias, outras ainda tratam os cuidados paliativos como medidas pontuais, sem integração à rotina clínica. Isso confirma a análise de Silva (2016), para quem a elaboração de protocolos institucionais é essencial para orientar a tomada de decisão médica e alinhar condutas, reduzindo inconsistências no cuidado.

Estudos internacionais reforçam essa visão. Uma revisão conduzida por Aldridge et al. (2016) aponta que os maiores obstáculos para a integração dos cuidados paliativos são de ordem educacional, política e prática. A ausência de políticas públicas consolidadas e a baixa difusão de diretrizes claras contribuem para que a prática continue fragmentada. No mesmo sentido, Carla et al. (2021) destacam que a qualidade do cuidado e a segurança do paciente dependem da criação de mecanismos de padronização que favoreçam a educação permanente e a gestão em saúde, fatores diretamente relacionados à eficácia do atendimento paliativo.

Outro aspecto relevante é o impacto positivo da educação continuada para que protocolos sejam efetivamente aplicados. Chan, Chu e Wong (2021) demonstraram em revisão sistemática que programas de capacitação em cuidados paliativos aumentam a confiança, o conhecimento e a atitude dos profissionais de saúde diante da terminalidade. Isso sugere que a eficácia das condutas não está apenas em sua existência formal, mas também na sua apropriação prática pelos profissionais.

O Relatório Nacional sobre Cuidados Paliativos (CNCP, 2021) reforça que, apesar dos avanços nos últimos anos, há grande desigualdade de acesso entre regiões do Brasil, sendo a maioria dos serviços concentrada no eixo Sul-Sudeste. Tal concentração de recursos impacta diretamente a aplicabilidade dos protocolos, já que em muitas localidades sequer há equipes capacitadas para colocá-los em prática. Correia et al. (2021) ressaltam que a efetividade dos cuidados depende não apenas da existência de documentos orientadores, mas também da disponibilidade de equipes multiprofissionais estruturadas, o que ainda é limitado em grande parte do território.

Portanto, verifica-se que a eficácia dos protocolos e condutas em cuidados paliativos depende da integração entre três dimensões: a criação de diretrizes claras, a capacitação permanente dos profissionais e a infraestrutura adequada para garantir sua execução. Quando um desses elementos falha, os cuidados tornam-se fragmentados e perdem efetividade no alívio do sofrimento e na preservação da dignidade do paciente.

4.2 PERFIL CLÍNICO E NECESSIDADES DOS PACIENTES EM CUIDADOS PALIATIVOS

O perfil dos pacientes que demandam cuidados paliativos é diversificado e reflete as transformações demográficas e epidemiológicas das últimas décadas. Tradicionalmente, esses cuidados eram destinados a pacientes oncológicos em estágios avançados. Contudo, atualmente há uma ampliação significativa de sua abrangência para incluir pacientes com doenças crônicas degenerativas, neurológicas, cardiovasculares e respiratórias, especialmente em uma população cada vez mais idosa (Gomes; Othero, 2016).

Estudos brasileiros evidenciam que o envelhecimento populacional é um dos principais fatores para o aumento da demanda. Correia et al. (2018) destacam que a maior longevidade da população tem sido acompanhada pela elevação da prevalência de doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson, que exigem cuidados prolongados e complexos. Nesse sentido, Costa et al. (2016) argumentam que os cuidados paliativos em idosos visam não apenas o manejo de sintomas físicos, mas também a promoção da qualidade de vida em uma perspectiva bioética, que considera o envelhecimento como uma etapa a ser vivida com dignidade.

Outro aspecto do perfil dos pacientes refere-se às necessidades multidimensionais que extrapolam o campo biomédico. Leão e Lopes (2020) ressaltam a importância da atuação multiprofissional para dar conta das demandas emocionais, sociais e espirituais. Essa perspectiva amplia a noção de cuidado, ao reconhecer que a terminalidade da vida não pode ser reduzida a um processo fisiológico, mas envolve também dimensões subjetivas que precisam ser amparadas.

O Manual de Cuidados Paliativos da SBGG (2021) sistematiza esse perfil, indicando que pacientes candidatos a cuidados paliativos geralmente apresentam: doenças crônicas em estágio avançado, múltiplas comorbidades, fragilidade funcional, limitação progressiva das atividades diárias e elevada demanda por suporte familiar e institucional. Essa caracterização reforça a necessidade de protocolos abrangentes que considerem a diversidade de condições clínicas e sociais.

Outro ponto que merece destaque é a inserção precoce dos pacientes em programas de cuidados paliativos. Vanbutsele et al. (2018), em estudo randomizado, demonstraram que a integração sistemática desses cuidados desde o início de doenças graves, como o câncer avançado, não apenas melhora a qualidade de vida, mas também reduz hospitalizações desnecessárias. Isso evidencia que o perfil dos pacientes não deve se restringir ao estágio terminal, mas abranger aqueles em condições crônicas que já apresentam sofrimento significativo.

A dimensão espiritual também aparece como característica marcante. Silva (2016) sublinha que muitos pacientes relatam sofrimento existencial diante da proximidade da morte, e que o suporte espiritual deve ser entendido como parte integrante do cuidado integral. Essa visão contribui para consolidar o perfil dos pacientes não apenas sob o ponto de vista clínico, mas também humano, inserindo a espiritualidade como componente essencial do processo de cuidado.

Assim, observa-se que o perfil dos pacientes em cuidados paliativos é marcado pela diversidade, pelo predomínio de idosos com multimorbidades e por necessidades que transcendem a esfera médica. Reconhecer essa complexidade é fundamental para a formulação de políticas públicas, protocolos assistenciais e programas de capacitação que estejam à altura das demandas atuais.

4.3 DESAFIOS ENFRENTADOS PELOS PROFISSIONAIS NA ASSISTÊNCIA AOS

CUIDADOS PALIATIVOS

Os profissionais de saúde que atuam na área de cuidados paliativos enfrentam dificuldades de ordem estrutural, ética e emocional que impactam diretamente a qualidade da assistência prestada. Uma das principais barreiras é a ausência de formação específica durante a graduação em Medicina e em outras áreas da saúde. Guimarães, Manginelli e Godoi (2023) demonstram que, no Brasil, a maioria das escolas médicas ainda não oferece disciplinas obrigatórias sobre cuidados paliativos, o que resulta em profissionais despreparados para lidar com a complexidade da terminalidade da vida.

Essa falta de preparo tem repercussões éticas significativas. Hermes e Lamarca (2013) identificaram que muitos profissionais enfrentam dificuldades em reconhecer os limites terapêuticos, prolongando tratamentos invasivos e dolorosos em pacientes sem perspectiva de cura. Tal postura, além de aumentar o sofrimento, contraria os princípios da medicina paliativa, que prioriza a dignidade e o conforto.

O impacto emocional sobre os profissionais também constitui um desafio expressivo. A convivência cotidiana com a finitude da vida exige um preparo psicológico que nem sempre é oferecido. Correia et al. (2021) observam que muitos profissionais relatam sentimentos de frustração, impotência e exaustão diante da impossibilidade de oferecer cura. Esse quadro pode levar à síndrome de burnout e ao afastamento da prática clínica, reduzindo ainda mais a disponibilidade de profissionais capacitados.

Do ponto de vista estrutural, o Relatório da CNCP (2021) evidencia a desigualdade no acesso aos cuidados paliativos, com serviços concentrados em grandes centros urbanos. Essa concentração acarreta sobrecarga das equipes que atuam nesses locais e, ao mesmo tempo, exclui populações em áreas rurais ou regiões menos desenvolvidas. Essa limitação estrutural é agravada pela falta de recursos materiais, de leitos específicos e de suporte multiprofissional adequado.

Além disso, a percepção cultural equivocada sobre os cuidados paliativos representa um entrave para os profissionais. Guimarães, Manginelli e Godoi (2023) apontam que muitos pacientes e familiares interpretam a introdução do cuidado paliativo como desistência do tratamento, o que gera resistência e dificulta a adesão. Esse fator cultural pressiona os profissionais a prolongarem tratamentos curativos mesmo quando já não são benéficos, aumentando o sofrimento.

Estudos internacionais também corroboram essas dificuldades. Vanbutsele et al.

(2018) indicam que a integração precoce dos cuidados paliativos encontra resistência justamente porque ainda prevalece a ideia de que só devem ser oferecidos em estágios terminais. Aldridge et al. (2016), por sua vez, reforçam que barreiras políticas e educacionais afetam diretamente a atuação profissional, pois a falta de políticas públicas claras gera insegurança e limita a atuação das equipes.

Outro aspecto relevante é a dificuldade em lidar com as dimensões espirituais e sociais dos pacientes. Costa et al. (2016) ressaltam que muitos profissionais se concentram no manejo de sintomas físicos, deixando em segundo plano aspectos existenciais que são fundamentais para o paciente e sua família. Essa lacuna reflete tanto a falta de preparo acadêmico quanto a ausência de equipes multiprofissionais completas.

Portanto, as dificuldades enfrentadas pelos profissionais de saúde na prestação de cuidados paliativos estão interligadas e abrangem desde limitações formativas e estruturais até pressões culturais e emocionais. Superá-las exige investimentos em capacitação, políticas públicas que ampliem o acesso e uma mudança de paradigma na compreensão social da medicina paliativa.

5. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente estudo analisou os desafios enfrentados pela medicina atual na assistência aos cuidados paliativos, com foco na aplicabilidade de protocolos, no perfil dos pacientes e nas dificuldades vivenciadas pelos profissionais de saúde. Os resultados evidenciaram que, apesar dos avanços institucionais e acadêmicos na valorização dessa prática, ainda existem barreiras significativas que limitam sua consolidação como parte essencial da assistência em saúde.

A análise demonstrou que os protocolos e condutas voltados aos cuidados paliativos, embora reconhecidos como instrumentos fundamentais, carecem de padronização e de ampla difusão no território nacional. Em muitos contextos, sua aplicabilidade está comprometida pela escassez de equipes capacitadas, pela desigualdade na distribuição dos serviços e pela ausência de políticas públicas que assegurem a integração dessa abordagem nos diferentes níveis de atenção.

Quanto ao perfil dos pacientes, verificou-se que a demanda não se restringe apenas a pessoas em estágio terminal de doenças oncológicas, mas também inclui indivíduos idosos, portadores de doenças crônicas degenerativas e com múltiplas comorbidades. Esse cenário exige um olhar multiprofissional e holístico, que ultrapasse o tratamento de sintomas físicos e contemple dimensões emocionais, sociais e espirituais. A diversidade desse perfil reforça a necessidade de estratégias de cuidado integral, pautadas na humanização e na dignidade.

No que se refere aos profissionais de saúde, foram identificadas dificuldades que englobam a formação acadêmica insuficiente, a sobrecarga emocional diante da terminalidade da vida, a escassez de recursos estruturais e a resistência cultural de pacientes e familiares. Esses fatores, somados, revelam a necessidade de maior investimento em capacitação, suporte institucional e sensibilização da sociedade sobre o verdadeiro papel da medicina paliativa.

A superação dos obstáculos formativos, estruturais e culturais é indispensável para garantir que esses cuidados sejam reconhecidos não como uma desistência da terapêutica, mas como uma prática voltada à preservação da qualidade de vida, ao alívio do sofrimento e ao respeito à dignidade humana. Assim, reforça-se a urgência de ampliar o debate e a implementação de estratégias que fortaleçam a medicina paliativa no Brasil, promovendo uma assistência mais justa, integral e humanizada.

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  1. Discente do Curso Superior de Medicina, do Instituto FIMCA Campus Porto Velho e-mail:

    anakfrmed@gmail.com ↑

  2. Discente do Curso Superior de Medicina, do Instituto FIMCA Campus Porto Velho e-mail: brisa.sulzba@gmail.com ↑

  3. Discente do Curso Superior de Medicina, do Instituto FIMCA Campus Porto Velho e-mail: taiianna.souza@gmail.com ↑

  4. Docente do Curso Superior de Medicina do Instituto Fimca Campus Porto Velho. Mestre em Biologia Experimental (UNIR). e-mail: prof.ygor.riquelme@fimca.com.br ↑

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Copyright (c) 2026 Ana Karolina Fernandes Rodrigues, Brisa Sulzbacher Ramos, Taiana Carvalho de Souza, Ygor Riquelme Antunes (Autor)

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