RESUMO
Este estudo investiga de forma aprofundada o fenômeno da evasão escolar nos cursos superiores de Engenharia de Produção (ENP), Engenharia Civil (ENC) e Engenharia Ambiental e Sanitária (EAS) do Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG), campus Governador Valadares, compreendendo o recorte temporal de 2022.1 a 2024.1. O objetivo central desta pesquisa foi diagnosticar as causas determinantes do abandono acadêmico e, a partir deste mapeamento, propor e implementar intervenções estratégicas que fomentem a permanência e o êxito discente na instituição. A metodologia consistiu em uma análise quantitativa e qualitativa de dados institucionais, revelando que a maior parte das desistências com motivo identificado (11,3%) ocorreu devido à necessidade dos estudantes de conciliar o trabalho com a carga horária dos estudos. Outros fatores significativos registrados incluem os impactos residuais da pandemia e dificuldades com o ensino remoto (5,3%), transferências de curso ou instituição (4,6%) e a falta de identificação com a área escolhida (4,3%). Um dado crítico revelado pela análise é o índice de 47,7% de evasões sem motivo especificado ou por falta de resposta do aluno, evidenciando uma lacuna de comunicação que o projeto buscou mitigar. Como resposta prática ao diagnóstico, o estudo promoveu ações de suporte psicopedagógico e acolhimento, como a realização de palestras sobre saúde mental focadas em ansiedade e depressão, além da implementação de um programa de apadrinhamento para calouros. Nestas ações, estudantes veteranos atuam como mentores para auxiliar na integração emocional e no suporte às dúvidas acadêmicas. Conclui-se que a intervenção precoce e o fortalecimento dos vínculos institucionais são fundamentais para reduzir a rotatividade discente e garantir a formação profissional pretendida.
Palavras-chave: Evasão Escolar; Curso Superior; Permanência e Êxito Escolar; Suporte Psicopedagógico.
ABSTRACT
This study provides an in-depth investigation into the phenomenon of school dropout in the higher education programs of Production Engineering (ENP), Civil Engineering (ENC), and Environmental and Sanitary Engineering (EAS) at the Federal Institute of Minas Gerais (IFMG), Governador Valadares campus, covering the period from 2022.1 to 2024.1. The central objective of this research was to diagnose the determining causes of academic abandonment and, based on this mapping, propose and implement strategic interventions to promote student persistence and success within the institution. The methodology consisted of a quantitative and qualitative analysis of institutional data, revealing that most dropouts with an identified reason (11.3%) are due to the students' need to balance work with their study workload. Other significant recorded factors include the residual impacts of the pandemic and difficulties with remote learning (5.3%), course or institution transfers (4.6%), and a lack of identification with the chosen field (4.3%). A critical piece of data revealed by the analysis is the 47.7% dropout rate with no specified reason or lack of student response, highlighting a communication gap that the project aimed to mitigate. In practical response to the diagnosis, the study promoted psychopedagogical support and welcoming actions, such as lectures on mental health focused on anxiety and depression, in addition to the implementation of a freshman mentoring program. In these actions, senior students act as mentors to assist in emotional integration and support regarding academic questions. It is concluded that early intervention and the strengthening of institutional bonds are essential to reduce student turnover and ensure the intended professional training.
Keywords: School Dropout; Higher Education; School Retention and Success; Psychopedagogical Support.
1. INTRODUÇÃO
A evasão no ensino superior público brasileiro representa um desafio crônico que compromete a eficiência das políticas de inclusão social e o desenvolvimento tecnológico do país. No contexto dos Institutos Federais, que possuem uma missão voltada para a verticalização do ensino e a fixação de profissionais em suas regiões de origem, o abandono de um curso superior implica em desperdício de recursos públicos e na interrupção de projetos de vida. No campus Governador Valadares, essa realidade exige um olhar atento às especificidades locais.
O ingresso no ensino superior traz consigo uma carga de estresse e cobranças que nem sempre o discente está preparado para absorver. A transição para o ambiente universitário envolve adaptações pedagógicas e sociais que, se não mediadas pela instituição, podem levar ao desengajamento. Diante deste cenário, surge a seguinte pergunta problema: Quais são os principais fatores que levam os alunos das Engenharias do IFMG-GV a abandonarem seus cursos e como ações de acolhimento podem mitigar esse fenômeno?
A justificativa deste estudo reside na necessidade de otimizar o investimento público e garantir que a função social do IFMG seja plenamente atingida, reduzindo a ociosidade de vagas e fortalecendo a formação de engenheiros na região leste de Minas Gerais. A Engenharia de Produção oferece ferramentas valiosas para tratar a trajetória acadêmica como um fluxo que deve ser gerido para evitar perdas.
O objetivo geral desta pesquisa é analisar os fatores determinantes da evasão nos cursos superiores de Engenharia do IFMG-GV entre 2022.1 e 2024.1, propondo intervenções para promover a permanência discente. Como objetivos específicos, buscou-se: levantar os motivos de evasão nos registros da secretaria acadêmica; comparar os índices entre os cursos de Produção, Civil e Ambiental; e implementar ações práticas de suporte psicopedagógico e apadrinhamento. Através da análise dos dados coletados diretamente junto aos registros da secretaria acadêmica do campus entre 2022 e 2024, foram estruturadas as ações de acolhimento relatadas neste trabalho.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
A literatura sobre evasão escolar destaca que o fenômeno é multifatorial, envolvendo dimensões individuais, institucionais e externas. Segundo autores como Vincent Tinto (1975), a integração acadêmica e social é o pilar da permanência; quando o aluno não se sente pertencente ao ambiente ou não vê sentido prático no que estuda, a probabilidade de desistência aumenta significativamente. Nos Institutos Federais, essa integração é ainda mais crucial devido ao perfil diversificado dos alunos.
Outro ponto relevante na fundamentação deste estudo é a influência das variáveis socioeconômicas. Silva Filho (2007) argumenta que, no Brasil, a necessidade de ingressar precocemente no mercado de trabalho é um dos maiores preditores de evasão em cursos de engenharia. Isso corrobora os dados encontrados nesta pesquisa, onde a conciliação com o trabalho aparece como a principal causa declarada para o abandono no IFMG-GV.
A saúde mental tem ganhado destaque nas discussões acadêmicas recentes. O aumento dos casos de ansiedade e depressão entre universitários, potencializado pelo período de ensino remoto e crises econômicas, cria uma barreira invisível, mas potente, ao aprendizado (SANTOS, 2024). Intervenções que tratam do bem-estar emocional não são apenas complementares, mas essenciais para a manutenção do vínculo acadêmico, como apontado em estudos sobre psicologia educacional (SILVA FILHO, 2007).
Pelo viés da Engenharia de Produção, a evasão pode ser analisada sob a ótica da gestão da qualidade. Aplicar o ciclo PDCA (Planejar, Fazer, Checar e Agir) à retenção de alunos permite que a instituição monitore constantemente os indicadores de satisfação e desempenho. A utilização de dados históricos para prever tendências de abandono transforma a gestão educacional em uma prática mais assertiva e menos reativa.
Por fim, a teoria do acolhimento defende que os primeiros meses de curso são decisivos (TINTO, 1975). O estabelecimento de redes de apoio entre pares (estudante-estudante) funciona como um sistema de amortecimento para as dificuldades iniciais. O apadrinhamento, portanto, encontra respaldo teórico na ideia de "comunidades de prática", onde o conhecimento e o suporte são compartilhados horizontalmente para fortalecer o grupo como um todo (SANTOS, 2024).
3. METODOLOGIA
A metodologia aplicada neste estudo foi dividida em duas fases principais: a análise diagnóstica retrospectiva e a implementação de ações de intervenção. Na fase inicial, procedeu-se ao levantamento de dados quantitativos junto ao registro acadêmico do IFMG-GV, focando nos alunos que evadiram entre o primeiro semestre de 2022 e o primeiro semestre de 2024. Foram contatados 302 alunos com o objetivo de identificar os motivos da evasão.
Para a organização das informações, os dados foram categorizados em variáveis como: motivo da evasão, curso de origem e período do abandono. O processamento foi realizado com o auxílio de planilhas eletrônicas para a geração de gráficos estatísticos que facilitassem a visualização dos principais "ofensores" da permanência discente no campus.
A segunda fase da metodologia, de caráter qualitativo e intervencionista, baseou-se nos resultados da primeira fase. Foram organizadas reuniões com a coordenação de curso e o setor de psicologia para desenhar ações que respondessem diretamente aos problemas mapeados. A escolha dos temas das palestras e o formato do programa de apadrinhamento foram decididos com base na recorrência das reclamações dos próprios alunos durante o processo de coleta de dados.
Por fim, a metodologia incluiu uma etapa de feedback pós-intervenção. Durante a palestra sobre ansiedade, utilizou-se a observação participante e o registro de depoimentos dos alunos para validar a relevância da ação. Esse método permitiu ajustar o projeto de acolhimento para que ele atendesse não apenas às dúvidas técnicas (como montagem de grade), mas também às necessidades emocionais dos ingressantes.
Quadro 1 – Classificação da metodologia aplicada no estudo
Critério | Classificação | Justificativa |
|---|---|---|
Natureza | Pesquisa Aplicada | Geração de soluções para o IFMG-GV. |
Abordagem | Qualiquantitativa | Dados da secretaria + Análise subjetiva. |
Fins | Descritiva e Exploratória | Mapeamento e investigação de causas. |
Procedimentos | Documental e Levantamento | Registros acadêmicos e depoimentos. |
Fonte: Adaptado de Feevale (2024).
4. ANÁLISE DOS RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise dos dados revela um cenário complexo no IFMG-GV. Do total de 302 registros analisados, o dado mais impactante é que 144 alunos (47,7%) não responderam ou não informaram o motivo da desistência. Isso aponta para uma evasão silenciosa, onde o vínculo é rompido sem que a instituição tenha a chance de intervir ou entender a causa, dificultando ações preventivas imediatas.
Figura 1 – Distribuição percentual dos motivos de evasão no IFMG-GV (2022-2024)
Fonte: Dados da pesquisa extraídos da secretaria acadêmica (2024).
Dentre os que declararam um motivo, a conciliação entre trabalho e estudo lidera com 34 casos (11,3%). Isso reflete a realidade de muitos alunos de Engenharia que, por necessidade financeira ou oportunidade de carreira, priorizam o emprego em detrimento das exigências de carga horária integral ou noturna pesada. A pandemia e questões de saúde aparecem logo em seguida com 16 casos (5,3%), mostrando que os reflexos do isolamento e do ensino remoto ainda persistem na vida acadêmica.
Outras causas significativas incluem:
- Transferência de curso ou instituição: 14 casos (4,6%), o que é comum em campus de interior onde alunos utilizam a nota do ENEM para migrar posteriormente para capitais ou outros cursos.
- Falta de identificação com o curso: 13 casos (4,3%), evidenciando a necessidade de uma melhor orientação vocacional no ingresso.
- Dificuldade nas disciplinas: Embora represente apenas 2,6% (8 casos) de forma declarada, sabe-se que o desempenho acadêmico insatisfatório é frequentemente o gatilho para outros motivos de desistência.
Na comparação entre os cursos, a Engenharia Ambiental e Sanitária (EAS) e a Engenharia Civil (ENC) apresentam índices idênticos de 19,2% das desistências totais mapeadas. Já a Engenharia de Produção (ENP) obteve o menor índice entre os três, com 11,5%. Essa diferença pode estar relacionada à percepção de mercado ou às metodologias de ensino específicas de cada coordenação, algo que merece estudos futuros mais detalhados.
Figura 2 – Percentual de evasão por curso superior no IFMG-GV (2022-2024)
Fonte: Dados da pesquisa extraídos da secretaria acadêmica (2024).
5. PROPOSTAS DE INTERVENÇÃO E AÇÕES REALIZADAS
Após o diagnóstico, o projeto evoluiu para a execução de ações diretas no campus. O objetivo foi criar uma rede de proteção que envolvesse tanto o suporte profissional especializado quanto o suporte comunitário entre os próprios estudantes, focando nos dois pilares identificados: saúde mental e integração acadêmica.
As ações foram estruturadas para serem sustentáveis a longo prazo, não sendo apenas eventos isolados, mas parte de uma cultura de acolhimento que deve ser mantida pelas próximas turmas de Engenharia de Produção e pela coordenação do IFMG-GV.
5.1 Saúde Mental e Palestras Educativas
Em setembro de 2025, foi realizada uma palestra fundamental intitulada "Ansiedade e Depressão: análise Comportamental e Contextual", conduzida pela professora Mariana Sarro Pereira de Oliveira, Docente do IFMG, campus Governador Valadares. O diferencial dessa ação foi o espaço aberto para o diálogo; os alunos não foram apenas ouvintes, mas participantes ativos que compartilharam histórias reais de pressões no ambiente profissional e acadêmico. Esse "desabafo coletivo" validou o sentimento de muitos alunos que se sentiam isolados em suas dificuldades.
Figura 3 – Palestra sobre Saúde Mental realizada no Auditório do IFMG-GV
Fonte: Elaborado pelo autor (2025).
Figura 4 – Equipe do projeto e palestrante (da esquerda para a direita: Cristiany Seppe Faria, Mariana Sarro, Thalita Rabelo e Victor Duarte)
Fonte: Elaborado pelo autor (2025).
Ao fim do evento, foi apresentado formalmente a psicóloga do campus, Cristiany Seppe Faria. A estratégia foi humanizar o suporte psicológico, mostrando que existe uma profissional acessível e pronta para realizar o atendimento clínico e pedagógico. Essa conexão direta é vital para diminuir o estigma de buscar ajuda mental dentro de um curso de exatas.
Além das intervenções presenciais, a estratégia de combate à evasão e suporte à saúde mental estendeu-se ao ambiente digital, reconhecendo a importância das redes sociais como canal direto de comunicação com o corpo discente. Durante o mês de setembro, foram realizadas campanhas ativas de conscientização em alusão ao 'Setembro Amarelo', por meio de postagens informativas nos perfis oficiais do campus e em grupos de mensagens instantâneas das turmas de engenharia.
Essas publicações não se limitaram à divulgação de dados, mas serviram como um ponto de acolhimento virtual, oferecendo mensagens de apoio e reforçando, de maneira constante, os canais de atendimento disponíveis. O objetivo foi garantir que, mesmo fora do ambiente físico da sala de aula, o estudante se sentisse amparado pela instituição, combatendo o isolamento que muitas vezes precede o abandono do curso.
5.2 Programa de Acolhimento e Apadrinhamento
Outra frente de ação é o programa de Acolhimento de Calouros. Estudantes veteranos (a partir do 3º período) assumem o papel de "padrinhos" dos novos alunos. As responsabilidades incluem:
- Auxílio técnico na montagem de grades horárias, especialmente para quem precisa conciliar com o trabalho.
- Suporte emocional para lidar com a frustração em disciplinas de alta reprovação, como o Cálculo e Física.
Integração social para que o calouro sinta que faz parte da comunidade IFMG-GV desde a primeira semana.
6. CONCLUSÃO
O presente estudo cumpriu seu objetivo geral ao diagnosticar as causas da evasão no IFMG-GV e implementar ações que transformaram números frios em estratégias humanas. Os problemas encontrados durante a pesquisa revelaram que o maior entrave institucional é a "evasão silenciosa", evidenciada pelos 47,7% de alunos que não justificam sua saída, além do conflito crítico entre a carga horária dos cursos de engenharia e a necessidade de trabalho dos discentes.
Ficou evidente que o combate à evasão exige um suporte empático que entenda o aluno como um ser humano sob pressão. As intervenções realizadas, como a palestra sobre saúde mental e o sistema de apadrinhamento, mostraram-se eficazes ao fortalecer o vínculo entre veteranos e calouros e humanizar o suporte psicológico oferecido pelo campus.
Como sugestões para trabalhos futuros, recomenda-se a institucionalização do acompanhamento semestral desses dados e a ampliação do programa de apadrinhamento para todos os cursos do campus. Sugere-se ainda o desenvolvimento de estudos qualitativos específicos com o grupo de alunos que evadiu por questões de trabalho, visando propor flexibilizações pedagógicas que aumentem as taxas de permanência e êxito.
REFERÊNCIAS
ABNT. NBR 6022: Informação e documentação: artigo em publicação periódica técnica e/ou científica: apresentação. Rio de Janeiro, 2018.
IFMG-GV. Dados Internos de Evasão Acadêmica (2022.1 - 2024.1). Governador Valadares: Coordenação de Engenharia de Produção, 2024.
SILVA FILHO, R. L. L. et al. A evasão no ensino superior brasileiro. Cadernos de Pesquisa, v. 37, n. 132, 2007.
TINTO, V. Dropout from Higher Education: A Theoretical Synthesis of Recent Research. Review of Educational Research, 1975.
SANTOS, Victor Duarte Anunciação. Relatório de Estudo de Evasões IFMG-GV. Governador Valadares, 2024.

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.
Copyright (c) 2026 Victor Duarte Anunciação Santos, Thalita Rabelo Almeida dos Santos (Autor)