RESUMO
O tabagismo é um importante fator de risco evitável para doenças crônicas e mortes prematuras. Na Atenção Primária à Saúde (APS), a cessação requer ações integradas, associando tratamento farmacológico e intervenções psicossociais. Este relato de experiência apresenta a implantação de um grupo terapêutico para cessação do tabagismo nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) de Espigão do Oeste, Rondônia. Participam usuários em tratamento para dependência de nicotina, acompanhados por equipe multiprofissional. A Psicologia atua no manejo de demandas emocionais, prevenção de recaídas, fortalecimento da rede de apoio e desenvolvimento de estratégias de enfrentamento. Os encontros são inicialmente quinzenais, com escuta qualificada, acolhimento, psicoeducação e compartilhamento de experiências. A experiência indica que o grupo favorece vínculos, motivação, adesão e estratégias para lidar com fissuras e situações desencadeadoras. Conclui-se que a intervenção psicológica grupal constitui recurso complementar para o cuidado integral de pessoas em processo de cessação do tabagismo na APS.
Palavras-chave: Tabagismo; Atenção Primária à Saúde; Psicologia; Grupos Terapêuticos; Sistema Único de Saúde.
ABSTRACT
Smoking is an important preventable risk factor for chronic diseases and premature death. In Primary Health Care (PHC), smoking cessation requires integrated actions combining pharmacological treatment and psychosocial interventions. This qualitative, descriptive experience report presents the implementation of a therapeutic group for smoking cessation in Basic Health Units (UBSs) in Espigão do Oeste, Rondônia, Brazil. Participants are users undergoing treatment for nicotine dependence and receiving multidisciplinary care. Psychology focuses on emotional demands, relapse prevention, strengthening social support, and developing coping strategies. Group meetings are initially held every two weeks and emphasize active listening, welcoming, psychoeducation, and experience sharing. The experience indicates that the group supports bonding, motivation, treatment adherence, and the development of strategies to manage cravings and triggering situations. It is concluded that group-based psychological intervention is a relevant complementary resource for comprehensive care of people undergoing smoking cessation in Primary Health Care.
Keywords: Smoking; Primary Health Care; Psychology; Therapeutic Groups; Unified Health System.
INTRODUÇÃO
O tabagismo permanece entre as principais causas evitáveis de morbidade e mortalidade e está associado ao desenvolvimento de doenças crônicas, incluindo câncer e doenças cardiovasculares e respiratórias. No Brasil, apesar dos avanços das políticas de controle do tabaco, a cessação continua sendo um desafio para o Sistema Único de Saúde (SUS), especialmente na Atenção Primária à Saúde (APS). Dados do Instituto Nacional de Câncer indicam a relevância do tabagismo como problema de saúde pública (INCA, 2022).
As Unidades Básicas de Saúde (UBSs), pela proximidade com a população, constituem espaço estratégico para ações de promoção da saúde, prevenção de agravos e tratamento da dependência de nicotina. O cuidado no SUS combina avaliação clínica, abordagem comportamental e, quando indicada, terapia medicamentosa, conforme as diretrizes nacionais (BRASIL, 2020). A atuação multiprofissional possibilita acompanhar diferentes dimensões do processo de cessação, incluindo sintomas de abstinência, fissuras, fatores emocionais e situações sociais associadas ao consumo.
Nesse contexto, a Psicologia contribui para o acolhimento, a escuta qualificada, a psicoeducação, o desenvolvimento de estratégias de enfrentamento e a prevenção de recaídas. O trabalho grupal também favorece a troca de experiências, o reconhecimento de dificuldades comuns e a construção de apoio entre os participantes. Estudos sobre grupos de cessação apontam benefícios relacionados à adesão, ao apoio social e à permanência no tratamento (PRETTO; RECH; FAUSTINO-SILVA, 2022).
A atuação de enfermagem integra esse cuidado por meio do acolhimento, acompanhamento clínico, educação em saúde, monitoramento de sintomas e articulação com os demais profissionais. A literatura indica que o suporte comportamental associado ao tratamento medicamentoso aumenta as possibilidades de cessação quando comparado a orientações breves isoladas (LINDSON et al., 2023). Assim, a integração entre Psicologia, Enfermagem e Medicina amplia a continuidade do cuidado e a integralidade da assistência.
Diante desse cenário, este estudo tem como objetivo descrever a experiência de implantação de um grupo terapêutico para tratamento do tabagismo nas UBSs de Espigão do Oeste – Rondônia, com ênfase na atuação psicológica e nas estratégias utilizadas para favorecer a adesão e o enfrentamento de fatores emocionais relacionados à cessação.
MÉTODO
Trata-se de um relato de experiência, de abordagem qualitativa e caráter descritivo, sobre a atuação de um grupo terapêutico para tratamento do tabagismo nas UBSs de Espigão do Oeste – RO. A experiência é desenvolvida pelo Núcleo de Psicologia do Programa de Residência Multiprofissional em Saúde da Família, em articulação com as equipes da Estratégia Saúde da Família (ESF). O município conta com seis UBSs, nas quais o programa é desenvolvido de forma descentralizada.
O público-alvo é composto por usuários de ambos os sexos que iniciaram tratamento para cessação do tabagismo nas UBSs. O ingresso ocorre por demanda espontânea. A avaliação clínica inicial é realizada por médicos e enfermeiros das equipes, incluindo avaliação do grau de dependência à nicotina e indicação de tratamento farmacológico quando necessário. O acompanhamento teve início em 9 de maio de 2025. Entre os recursos disponibilizados pelo SUS estão a terapia de reposição de nicotina, por meio de adesivos, gomas e pastilhas, e o cloridrato de bupropiona, conforme avaliação profissional e diretrizes do tratamento (BRASIL, 2020).
A equipe de enfermagem permanece integrada ao acompanhamento, realizando consultas conforme a necessidade, orientações sobre o uso das terapias farmacológicas, monitoramento de sinais e sintomas da abstinência e identificação de dificuldades que possam comprometer a adesão. Quando necessário, ocorre encaminhamento para reavaliação médica. Essa organização busca garantir a continuidade do cuidado e articulação entre as diferentes categorias profissionais.
Paralelamente, os psicólogos da APS realizam o acompanhamento psicossocial em grupos terapêuticos. As atividades são organizadas em rodas de conversa, priorizando escuta acolhedora, troca de experiências e desenvolvimento de estratégias para lidar com ansiedade, fissuras, gatilhos e situações de risco para recaída. A periodicidade inicial é quinzenal, podendo ser ajustada para encontros mensais conforme a fase do tratamento e a avaliação da equipe.
Como recurso complementar, foi produzido o informativo “Conexão Psi”, elaborado pelos psicólogos do programa e entregue aos participantes. O material reúne informações sobre os malefícios do tabagismo, benefícios da cessação, histórias de superação e orientações para o manejo de dificuldades frequentes durante o processo de parar de fumar.
INTERVENÇÕES DESENVOLVIDAS
Durante o desenvolvimento do grupo, são utilizadas técnicas e recursos psicológicos voltados ao enfrentamento da abstinência, manejo da fissura e prevenção de recaídas. As estratégias são escolhidas de acordo com as necessidades identificadas nos encontros.
A mudança de rotina é trabalhada como forma de reduzir a exposição a situações associadas ao cigarro. Os participantes são estimulados a identificar hábitos e contextos que funcionam como gatilhos e a planejar alternativas, como modificar horários, trajetos ou atividades relacionadas ao consumo.
A Regra dos Cinco Minutos é apresentada como estratégia para adiar a resposta imediata diante da fissura. Também são utilizados exercícios de respiração e relaxamento, distração e mudança de foco, incentivando atividades alternativas que mantenham a atenção e as mãos ocupadas, como caminhar, ouvir música ou conversar com alguém de confiança.
O Diário da Fissura auxilia no registro dos episódios de desejo de fumar, considerando contexto, intensidade da vontade e estratégias utilizadas. O recurso permite reconhecer padrões de comportamento e planejar respostas preventivas. Nas rodas de conversa, os participantes compartilham sentimentos, dificuldades e experiências de enfrentamento, fortalecendo vínculos e sentimento de pertencimento.
Também são discutidos os benefícios percebidos com a cessação, como melhora da disposição, respiração, paladar e olfato, além da economia financeira. O registro dos avanços individuais é utilizado para reforçar a motivação. Práticas de atenção ao momento presente, inspiradas em princípios de mindfulness, são empregadas para auxiliar os participantes a reconhecer a fissura como uma experiência transitória. O grupo ainda trabalha na resolução de problemas para ampliar alternativas diante de situações estressantes anteriormente associadas ao uso do cigarro.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Até o momento, a experiência apresenta resultados qualitativos considerados relevantes pela equipe. O grupo vem se consolidando como espaço de apoio psicossocial, acolhimento e troca de experiências. Durante os encontros, os participantes relatam maior reflexão sobre as vantagens de abandonar o cigarro e maior percepção de benefícios relacionados ao bem-estar físico e emocional.
Também são observados relatos de melhora do paladar, percepção de odores, qualidade do hálito e disposição. A participação nas atividades e os relatos espontâneos indicam fortalecimento da motivação para a manutenção da abstinência. Esses achados são compreendidos, neste relato, como resultados qualitativos da experiência, não como estimativa de eficácia clínica, uma vez que não foram utilizados indicadores quantitativos de abstinência ou comparação entre grupos.
A experiência reforça a importância do SUS para o acesso ao tratamento. Participantes relatam que teriam dificuldade para manter, de forma particular, os custos relacionados ao tratamento farmacológico e ao acompanhamento profissional. A oferta pública possibilita a articulação entre tratamento medicamentoso e suporte psicossocial, em consonância com as diretrizes nacionais (BRASIL, 2020). O INCA destaca que o tratamento do tabagismo no SUS inclui avaliação, abordagem individual ou em grupo e, quando indicada, terapia medicamentosa associada à abordagem intensiva (INCA, 2026).
A atuação psicológica mostrou-se especialmente relevante no manejo das demandas emocionais, na identificação de gatilhos, na construção de estratégias de enfrentamento e na prevenção de recaídas. O formato grupal favorece a identificação entre os participantes e a percepção de que dificuldades relacionadas à cessação podem ser compartilhadas. Essa dimensão é compatível com estudos que apontam o papel dos grupos no apoio social e na adesão ao tratamento (PRETTO; RECH; FAUSTINO-SILVA, 2022).
O trabalho integrado com a Enfermagem e a Medicina amplia a capacidade de acompanhamento. Enquanto a avaliação clínica e o tratamento farmacológico são conduzidos conforme as competências profissionais e as diretrizes do SUS, a Psicologia atua sobre aspectos emocionais e comportamentais. A literatura aponta melhores resultados quando o suporte comportamental é associado ao tratamento farmacológico e ao seguimento continuado (LINDSON et al., 2023).
A experiência também dialoga com o relato de Leitão et al. (2017), que discute a participação da Psicologia em grupos de tabagismo e a importância da escuta dos aspectos subjetivos envolvidos no consumo. No presente relato, a escuta é articulada a estratégias psicoeducativas e comportamentais, considerando a realidade da APS e as necessidades apresentadas pelos usuários.
Embora o projeto esteja em andamento, os resultados observados até o momento apontam para a relevância do grupo como dispositivo de cuidado. A continuidade do acompanhamento permitirá observar a permanência dos participantes e, futuramente, incorporar indicadores clínicos e taxas de abstinência que possibilitem avaliação mais objetiva dos resultados.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A experiência com o grupo terapêutico para cessação do tabagismo evidencia o potencial das intervenções psicossociais como complemento ao tratamento farmacológico na Atenção Primária à Saúde. O grupo favorece acolhimento, vínculo, troca de experiências, motivação e desenvolvimento de estratégias para lidar com fissuras, gatilhos e situações de risco para recaída.
A integração entre Psicologia, Enfermagem, Medicina e demais profissionais possibilita cuidado mais abrangente, articulando avaliação clínica, tratamento farmacológico, educação em saúde e acompanhamento psicossocial. No contexto estudado, a Psicologia contribui especialmente para o manejo das demandas emocionais, fortalecimento da autonomia e construção de recursos de enfrentamento.
Como o projeto permanece em desenvolvimento, recomenda-se o acompanhamento longitudinal dos participantes e a adoção de indicadores de adesão, permanência e abstinência. Tais medidas poderão complementar os achados qualitativos e ampliar a avaliação da experiência. O relato, portanto, contribui para a discussão sobre práticas multiprofissionais de cessação do tabagismo no SUS e sobre o papel da APS na oferta de cuidado integral.
Figura 1 – Informativo “Conexão Psi”, edição 5. Espigão do Oeste, Rondônia.
Fonte: Núcleo de Psicologia da Residência Multiprofissional em Saúde da Família (2025).
REFERÊNCIAS
BRASIL. Ministério da Saúde. Instituto Nacional de Câncer. Diretrizes para cessação do tabagismo. Rio de Janeiro: INCA, 2008. Disponível em: https://www.inca.gov.br/sites/ufu.sti.inca.local/files//media/document//diretrizes-cessacaotabagismo.pdf. Acesso em: 24 jun. 2025.
BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Tabagismo.
Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2020. Disponível em: https://www.inca.gov.br/publicacoes/relatorios/protocolo-clinico-e-diretrizes-terapeuticas-dotabagismo. Acesso em: 19 ago. 2026.
INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER JOSÉ ALENCAR GOMES DA SILVA (INCA).
Mortalidade por tabagismo no Brasil em 2020. Brasília, DF: INCA, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/inca. Acesso em: 17 jun. 2025.
LEITÃO, I. B. et al. Intervenção com um grupo participante do programa de tabagismo a partir do olhar da psicanálise: relato de experiência. Revista Psicologia e Saúde em Debate, v. 2, n. 2, p. 96-111, 2017. DOI: https://doi.org/10.22289/2446-922X.V2N2A6.
LINDSON, N. et al. Behavioural support for smoking cessation. Cochrane Database of Systematic Reviews, Oxford, 2023.
PRETTO, J. Z.; RECH, R. S.; FAUSTINO-SILVA, D. D. Grupos de cessação de tabaco: série histórica de um serviço de atenção primária à saúde no sul do Brasil. Cadernos Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 30, p. 244-254, 2022.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. WHO Framework Convention on Tobacco Control. Geneva: WHO, 2003. Disponível em: https://apps.who.int/iris/handle/10665/42811. Acesso em: 24 jun. 2025.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. WHO report on the global tobacco epidemic 2023. Geneva: World Health Organization, 2023.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. WHO clinical treatment guideline for tobacco cessation in adults. Geneva: World Health Organization, 2024.
Psicólogo, Pós-graduando em Gestão de Pessoas, residente no Programa de Residência Multiprofissional em Saúde da Família, atuo como psicólogo na Atenção Básica e Saúde da Família, Espigão do Oeste, RO. E-mail: palloherrique@gmail.com ↑
Psicóloga, Especialista em Terapia Cognitivo Comportamental, tutora do núcleo de psicologia no Programa de Residência Multiprofissional em Saúde da Família, atua como psicóloga clínica no CAPS – Centro de Atenção
Psicossocial, Espigão do Oeste, RO. E-mail: analine.amaral@hotmail.com ↑
Mestre em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofaciais, Docente no Programa de Residência
Multiprofissional em Saúde da Família, atua como Mestre em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofaciais - Pronto Socorro Odontológico de Cacoal/RO. E-mail: marcoabvasques@hotmail.com ↑
Enfermeira, Especialista em Programa Saúde da Família e Comunidade, atua como enfermeira no CAPS – Centro de Atenção Psicossocial – Regismar Cardoso de Araújo, Espigão do Oeste, RO. E-mail: enfer.michelebackes@gmail.com ↑
Médica, formada pela Faculdade de Medicina Nova Esperança, 2024. Atuando como médica na Atenção Básica e Saúde da Família, Espigão do Oeste, RO. E-mail: maisa.mourarosa@gmail.com ↑

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