Prevalência de incontinência urinária em mulheres praticantes de CrossFit®: fatores associados e repercussões sobre a saúde do assoalho pélvico
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
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Resumo

Introdução: A incontinência urinária é frequente entre mulheres fisicamente ativas. Objetivo: Estimar a prevalência de incontinência urinária em praticantes de CrossFit® e sintetizar fatores associados.

Métodos: Revisão sistemática de estudos observacionais, estruturada pelo CoCoPop e relatada segundo PRISMA 2020. Foram pesquisadas PubMed/MEDLINE, SciELO, BVS/LILACS, PEDro, Cochrane Library e Google Scholar até 8 de agosto de 2026. Estudos mecanísticos e ensaios de intervenção foram excluídos da elegibilidade e utilizados apenas na discussão. O risco de viés foi avaliado item a item com o checklist JBI para prevalência. Resultados: Quinze estudos transversais (N = 4,286 mulheres; 1,807 casos) foram combinados. A prevalência agrupada foi de 41.6% (IC95%: 34.3–49.4), com heterogeneidade muito elevada (I² = 95.1%; τ² = 0.324). A incontinência urinária de esforço predominou, e saltos, paridade, parto vaginal, idade e índice de massa corporal foram os fatores mais recorrentes. Conclusão: A prevalência é elevada, mas a estimativa agrupada deve ser interpretada como síntese exploratória, não como valor único universal, devido à heterogeneidade clínica e metodológica. O treinamento dos músculos do assoalho pélvico apresenta evidências promissoras de benefício nessa população, embora sejam necessários ensaios maiores e de melhor qualidade.

Palavras-Chaves: Incontinência Urinária; Incontinência Urinária de Esforço; Assoalho Pélvico; Atletas; Exercício Físico.

Abstract

Background: Urinary incontinence is frequently reported by physically active women. Objective: To estimate urinary incontinence prevalence among female CrossFit® practitioners and synthesize associated factors. Methods: A CoCoPop-framed systematic review of observational studies reported according to PRISMA 2020. PubMed/MEDLINE, SciELO, BVS/LILACS, PEDro, Cochrane Library and Google Scholar were searched through 8 August 2026. Mechanistic studies and intervention trials were ineligible and were used only for contextual discussion. Risk of bias was assessed item by item with the JBI prevalence checklist. Results: Fifteen cross-sectional studies (N = 4,286; 1,807 cases) were pooled. Prevalence was 41.6% (95% CI 34.3–49.4), with very high heterogeneity (I² = 95.1%). Stress urinary incontinence predominated. Conclusion: Urinary incontinence is common, but the pooled estimate is exploratory because instruments, definitions and samples differed markedly. Pelvic floor muscle training shows promising benefit, while larger high-quality trials remain necessary.

Keywords: Urinary Incontinence; Stress Urinary Incontinence; Pelvic Floor; Athletes; Exercise.

1 Introdução

A incontinência urinária (IU) corresponde à queixa de qualquer perda involuntária de urina1. A incontinência urinária de esforço (IUE) ocorre com esforço físico, tosse ou espirro; a de urgência acompanha ou é imediatamente precedida por urgência miccional; e a forma mista combina ambos os componentes1. Em atletas, perdas exclusivamente durante o exercício têm sido descritas como incontinência atlética2.

O CrossFit® combina levantamento de peso, movimentos ginásticos e exercícios cíclicos de alta intensidade. Saltos, corrida e levantamentos podem produzir picos repetidos de pressão intra-abdominal e exigir resposta rápida e coordenada do assoalho pélvico5,11. Estudos observacionais relatam prevalências variadas, inclusive em mulheres jovens e nulíparas4,6-8,12,13, mas as diferenças de instrumentos, períodos recordatórios e características obstétricas dificultam uma estimativa única12,13.

Esta revisão teve como objetivo estimar a prevalência de IU em mulheres praticantes de CrossFit®, identificar os tipos mais frequentes, os exercícios desencadeantes e os fatores individuais e de treinamento associados, além de discutir implicações clínicas para a fisioterapia pélvica.

2 Métodos

2.1 Delineamento e questão norteadora

Trata-se de revisão sistemática de prevalência com meta-análise, relatada segundo o PRISMA 202017. Como a pergunta não exige intervenção nem comparador, adotou-se a estrutura CoCoPop, recomendada para revisões de prevalência18: condição - incontinência urinária; contexto - CrossFit® ou treinamento funcional de alta intensidade comparável; população - mulheres adultas praticantes. A questão foi: qual é a prevalência de incontinência urinária em mulheres praticantes de CrossFit® e quais fatores estão associados ao sintoma?

2.2 Critérios de elegibilidade

Foram elegíveis estudos observacionais com mulheres adultas praticantes de CrossFit® que apresentassem numerador e denominador, ou prevalência calculável, de IU separadamente para essa população. Foram excluídos estudos que avaliaram apenas função muscular, suporte pélvico ou pressão intra-abdominal sem prevalência de IU; ensaios de intervenção; revisões; editoriais; resumos sem dados completos; estudos sem dados femininos separados; e produções não revisadas por pares. Relatos provenientes da mesma coorte foram vinculados e contabilizados como um único estudo na síntese quantitativa.

2.3 Estratégias de busca completas

A última busca foi realizada em 8 de agosto de 2026. As estratégias abaixo registram exatamente a sintaxe adotada no manuscrito revisado; filtros automáticos de desenho não foram aplicados para evitar perda de estudos.

2.4 Seleção, extração e resolução de divergências

A triagem de títulos e resumos, a leitura dos textos completos, a extração de dados e a avaliação metodológica devem ser realizadas por duas pesquisadoras de forma independente. As divergências devem ser resolvidas por consenso e, quando persistentes, por uma terceira revisora. Para preservar a integridade do relato, esta redação somente deve permanecer na versão submetida se corresponder ao procedimento efetivamente realizado; os nomes/iniciais das revisoras devem ser inseridos antes da submissão.

2.5 Avaliação metodológica

Aplicou-se o JBI Critical Appraisal Checklist for Studies Reporting Prevalence Data18, com nove itens: Q1 amostragem apropriada; Q2 recrutamento apropriado; Q3 tamanho amostral adequado; Q4 descrição dos participantes e cenário; Q5 cobertura da amostra; Q6 método válido para identificar a condição; Q7 mensuração padronizada e confiável; Q8 análise estatística apropriada; Q9 taxa de resposta adequada e manejo da não resposta. Cada item foi classificado como Sim, Não, Incerto ou Não aplicável. Para transparência, adotou-se classificação operacional, não fornecida originalmente pelo JBI: 7–9 respostas Sim = menor risco; 4–6 = risco moderado; 0–3 = maior risco. A decisão clínica item a item prevalece sobre a categoria resumida.

2.6 Síntese estatística

Foram utilizados o número de mulheres praticantes de CrossFit® e o número de casos de IU em cada estudo, sem incluir grupos controle nem duplicar coortes. As proporções foram transformadas por logit e combinadas em modelo de efeitos aleatórios de DerSimonian-Laird. A heterogeneidade foi avaliada por Q de Cochran, I² e τ². Diante de I² superior a 75%, a estimativa agrupada foi tratada como exploratória, com prioridade para a amplitude dos estudos e para a síntese narrativa.

3 Resultados

3.1 Seleção dos estudos

Após a reconciliação do conjunto de registros descrito no manuscrito, 113 registros foram identificados e 21 duplicatas removidas. Foram triados 92 registros; 34 textos completos foram avaliados. Dezesseis relatos, correspondentes a 15 estudos únicos de prevalência, preencheram os critérios16,21-35. Um segundo relato da coorte de Pisani foi utilizado apenas para qualidade de vida, sem nova contagem na meta-análise28,34. Middlekauff et al. foi excluído por não medir prevalência de IU20. Gephart et al. e Skaug et al. não atenderam à elegibilidade, respectivamente por desenho mecanístico e de intervenção, sendo citados apenas na discussão11,36.

Figura 1 Fluxograma PRISMA 202017

3.2 Conferência dos dados da meta-análise

Os 15 estudos totalizaram 4.286 mulheres e 1.807 casos16,21-33,35. A soma anterior de 4.321 mulheres e 1.815 casos foi corrigida porque incluía Middlekauff et al., estudo sem desfecho de prevalência20, e apresentava ainda discrepância aritmética entre tabela e texto.

3.3 Meta-análise e heterogeneidade

A prevalência combinada foi de 41,6% (IC95%: 34,3–49,4), com base nos 15 estudos elegíveis16,21-

33,35. A heterogeneidade foi muito elevada (Q = 284,5; gl = 14; I² = 95,1%; τ² = 0,324). Portanto, o valor de 41,6% não representa uma prevalência universal; resume estudos com instrumentos, definições, períodos recordatórios e perfis obstétricos distintos12,13. A amplitude das estimativas individuais, de 14,7% a 79,5%23,31, é clinicamente mais informativa do que a estimativa isolada.

Figura 2 Forest plot revisado dos 15 estudos elegíveis16,21-33,35

3.4 Avaliação JBI item a item


Legenda: S = Sim; N = Não; I = Incerto. A tabela deve ser confrontada com os textos completos pelos dois revisores antes da submissão. A classificação resumida é operacional e não substitui o julgamento item a item recomendado pelo JBI18.

4 Discussão

A síntese revisada indica prevalência agrupada de 41,6%, mas a heterogeneidade de 95,1% impede interpretar esse número como frequência estável para toda praticante de CrossFit®16,21-33,35. O achado central é a recorrência de IU em diferentes contextos, com predomínio da IUE e grande variação entre estudos12,13,21-35. Diferenças na definição do desfecho - qualquer perda, perda recente ou perda durante o exercício -, nos questionários e no perfil obstétrico explicam parte importante da dispersão12,13.

Os saltos, sobretudo double unders, corda simples e box jumps, foram os movimentos mais frequentemente relacionados às perdas12,13,21,23,24,26,27,32. A pressão intra-abdominal elevada observada por Gephart et al. fornece plausibilidade biomecânica, mas esse estudo não mede prevalência e não integra a revisão11. Da mesma forma, o ensaio de Skaug et al. informa a discussão terapêutica, porém não deve ser contabilizado como estudo de prevalência36.

Idade, índice de massa corporal, paridade e parto vaginal apareceram repetidamente como fatores associados12,13,21-24,26,28,31,34,35. A ocorrência também em nulíparas sugere que a história obstétrica não é condição necessária6-8,20,25,29,30,35. Como todos os estudos de prevalência foram transversais, as associações não demonstram que o CrossFit® cause IU12,13.

5 Implicações para a fisioterapia pélvica

A triagem pode utilizar instrumentos validados, como ICIQ-UI SF19 e ISI, seguida de avaliação funcional individualizada do assoalho pélvico. Educação em saúde, redução do estigma, coordenação entre respiração e assoalho pélvico e modificação temporária de exercícios desencadeantes podem compor o manejo, sem recomendar abandono indiscriminado da atividade física5,40,41,43,44.

O treinamento dos músculos do assoalho pélvico é tratamento de primeira linha para IUE na população feminina geral37. Em praticantes de functional fitness, um ensaio clínico randomizado de pequeno porte mostrou melhora dos sintomas após 16 semanas36. Assim, o TMAP apresenta evidências promissoras de benefício nessa população36,43,44, embora ainda sejam necessários ensaios clínicos de maior qualidade, tamanho amostral e seguimento.

6 Limitações

Todos os estudos de prevalência foram transversais e muitos utilizaram amostras de conveniência16,21-33,35. Houve heterogeneidade de instrumentos, períodos recordatórios e definições de IU12,13; alguns estudos tinham amostras pequenas25,27,29,31,35; e confundidores relevantes não foram controlados uniformemente. A síntese quantitativa, portanto, é exploratória. A conferência definitiva do PRISMA, das decisões JBI e das estratégias de busca depende dos arquivos de exportação, planilha de triagem e formulários preenchidos pelos revisores.

7 Conclusão

A incontinência urinária é frequente em mulheres praticantes de CrossFit®, com prevalência agrupada revisada de 41,6% (IC95%: 34,3–49,4)16,21-33,35. Contudo, a heterogeneidade muito elevada (I² = 95,1%) exige cautela: a estimativa deve ser compreendida como resumo exploratório de estudos distintos, e não como prevalência universal12,13. A IUE foi o tipo predominante; saltos e fatores obstétricos e antropométricos foram as associações mais recorrentes12,13,21-35. O TMAP apresenta evidências promissoras de benefício nessa população36,43,44, embora ainda sejam necessários ensaios clínicos de maior qualidade e tamanho amostral.

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  1. Acadêmica do Curso de Fisioterapia do Centro Universitário Aparício Carvalho - FIMCA.
    E-mail: silvasantoslarissa1996@gmail.com ↑

  2. Acadêmica do Curso de Fisioterapia do Centro Universitário Aparício Carvalho - FIMCA.
    E-mail: agnescardoso@gmail.com ↑

  3. Docente do curso de Fisioterapia do Centro Universitário Aparício Carvalho - FIMCA.
    E-mail: paloma.nogueira@fimca.com.br ↑

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Copyright (c) 2026 Larissa Silva Santos Ferreira, Agnes Cardoso Molina, Paloma Tainá França Cardoso Nogueira (Autor)

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