O papel do enfermeiro estomaterapeuta na indicação, manejo e acompanhamento da terapia por pressão negativa em pacientes do SUS
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
PDF

RESUMO

As feridas complexas representam um desafio persistente para o cuidado de enfermagem dentro do Sistema Único de Saúde, exigindo conhecimento técnico especializado diante da escassez estrutural de recursos na Atenção Básica. A Terapia por Pressão Negativa surgiu como recurso terapêutico capaz de acelerar a cicatrização e reduzir complicações associadas a lesões extensas ou infectadas, exigindo indicação criteriosa e acompanhamento contínuo por profissional habilitado. O trabalho teve como objetivo analisar a atuação do enfermeiro estomaterapeuta na indicação, no manejo e no acompanhamento da Terapia por Pressão Negativa em pacientes atendidos pelo Sistema Único de Saúde, identificando protocolos assistenciais e resultados obtidos por essa prática especializada. Caracterizou-se como revisão integrativa, de abordagem qualitativa, com buscas realizadas nas bases de dados Lilacs, Periódicos Capes e Scielo, no período de 2022 a 2026, considerando artigos que discutiam diretamente a atuação do estomaterapeuta nesse contexto terapêutico. Os resultados evidenciaram que a Terapia por Pressão Negativa consolidou-se como método adjuvante eficaz no manejo de feridas complexas, ainda que a escassez de recursos, a falta de capacitação profissional e a ausência de protocolos padronizados comprometam sua plena aplicação dentro da rede pública. A atuação do estomaterapeuta revelou-se determinante para garantir segurança clínica e continuidade assistencial ao paciente. Concluiu-se que o avanço técnico dessa prática depende da articulação entre formação profissional continuada, disponibilidade de recursos tecnológicos acessíveis e construção de diretrizes institucionais claras, capazes de reduzir a variabilidade entre serviços e fortalecer a qualidade do cuidado prestado a pacientes com feridas complexas atendidos pelo Sistema Único de Saúde.

Palavras-chave: Curativo a vácuo. Ostomia. Ferida crônica.

ABSTRACT

Complex wounds represent a persistent challenge for nursing care within the Brazilian Unified Health System (SUS), demanding specialized technical knowledge amid the structural shortage of resources in Primary Care. Negative Pressure Wound Therapy emerged as a therapeutic resource capable of accelerating healing and reducing complications associated with extensive or infected wounds, requiring careful indication and continuous monitoring by a qualified professional. This study aimed to analyze the role of the stomatherapy nurse in the indication, management, and monitoring of Negative Pressure Wound Therapy in patients treated within the Unified Health System, identifying care protocols and outcomes obtained through this specialized practice. It was characterized as an integrative review, with a qualitative approach, with searches conducted in the Lilacs, Periódicos Capes, and Scielo databases, covering the period from 2022 to 2026, considering articles that directly addressed the stomatherapy nurse's role in this therapeutic context. The results showed that Negative Pressure Wound Therapy has become established as an effective adjuvant method in the management of complex wounds, although the shortage of resources, lack of professional training, and absence of standardized protocols compromise its full application within the public health network. The stomatherapy nurse's role proved decisive in ensuring clinical safety and continuity of care for the patient. It was concluded that the technical advancement of this practice depends on the articulation between continuing professional education, availability of accessible technological resources, and the establishment of clear institutional guidelines, capable of reducing variability between services and strengthening the quality of care provided to patients with complex wounds treated within the Unified Health System.

Keywords: Vacuum-assisted closure. Ostomy. Chronic wound.

1. INTRODUÇÃO

As feridas complexas comprometem a autonomia funcional dos pacientes e exigem abordagem técnica especializada dentro da rede pública de saúde. O Sistema Único de Saúde enfrenta desafios constantes na oferta de tratamentos avançados para lesões de difícil cicatrização (Moura, 2024).

A Terapia por Pressão Negativa surgiu como recurso terapêutico capaz de acelerar a cicatrização e reduzir complicações associadas a feridas extensas ou infectadas. Sua aplicação exige conhecimento técnico rigoroso, planejamento individualizado e monitoramento contínuo por profissional habilitado (Silva Júnior, 2023).

O enfermeiro estomaterapeuta assume papel central na indicação, no manejo e no acompanhamento da Terapia por Pressão Negativa dentro do Sistema Único de Saúde, onde a escassez de recursos exige decisões precisas. Questiona-se qual a contribuição desse profissional para a efetividade do cuidado prestado.

O trabalho tem como objetivo analisar a atuação do enfermeiro estomaterapeuta na indicação, no manejo e no acompanhamento da Terapia por Pressão Negativa em pacientes atendidos pelo Sistema Único de Saúde, buscando identificar critérios clínicos, protocolos assistenciais e resultados obtidos por essa prática especializada no cuidado de feridas complexas.

A discussão sobre esse tema contribui para qualificar a assistência prestada a pacientes com feridas complexas na rede pública, ampliando o entendimento sobre o papel técnico do estomaterapeuta. O aprofundamento científico nessa área fortalece protocolos institucionais e orienta decisões clínicas mais seguras dentro do sistema público de saúde.

O estudo caracteriza-se como uma revisão integrativa, de abordagem qualitativa, com buscas realizadas nas bases de dados Lilacs, Periódicos Capes e Scielo, no período de 2022 a 2026. Foram incluídos artigos que discutiam diretamente a atuação do estomaterapeuta na Terapia por Pressão Negativa, excluindo-se estudos duplicados ou sem relação direta com o tema proposto.

2. MATERIAL E MÉTODOS

A pesquisa caracterizou-se como uma revisão integrativa, de abordagem qualitativa, por permitir a análise aprofundada de estudos já publicados sobre a atuação do enfermeiro estomaterapeuta na Terapia por Pressão Negativa. Essa escolha metodológica possibilitou reunir evidências dispersas em diferentes fontes científicas e organizá-las de forma crítica.

O levantamento bibliográfico abrangeu o período de 2022 a 2026, priorizando produções recentes capazes de refletir avanços técnicos e protocolos atualizados no manejo de feridas complexas. As palavras-chave utilizadas foram: estomaterapia, terapia por pressão negativa e Sistema Único de Saúde.

As buscas foram realizadas nas bases de dados Lilacs, Periódicos Capes e Scielo, reconhecidas pela confiabilidade científica e pela abrangência de publicações voltadas à enfermagem e à saúde pública. Essa seleção garantiu maior consistência aos achados reunidos e discutidos ao longo do trabalho.

Foram adotados como critérios de inclusão artigos publicados em português no período delimitado e estudos que abordassem diretamente a prática do estomaterapeuta na indicação ou no manejo da terapia. Como critérios de exclusão, descartaram-se estudos duplicados entre bases e artigos sem relação direta com o tema proposto.

Lima e Mioto (2007) afirmam que a pesquisa bibliográfica permite ao pesquisador conhecer o que já foi produzido sobre determinado tema, evitando repetições desnecessárias e ampliando a base teórica disponível. Essa perspectiva orientou a organização metodológica adotada neste estudo, sustentando a escolha pela revisão integrativa como caminho investigativo.

A condução da revisão integrativa seguiu etapa estruturada, orientada pela questão norteadora: qual a contribuição do enfermeiro estomaterapeuta na indicação, no manejo e no acompanhamento da Terapia por Pressão Negativa em pacientes atendidos pelo Sistema Único de Saúde? A estratégia de busca combinou os descritores estomaterapia, terapia por pressão negativa e Sistema Único de Saúde, associados pelo operador booleano AND, nas bases de dados citadas. A seleção dos estudos ocorreu em duas etapas, com leitura de títulos e resumos seguida de leitura integral dos artigos pré-selecionados, aplicando-se os critérios de inclusão e exclusão descritos. A extração dos dados considerou autor, ano, tipo de estudo, objetivo e principais achados de cada produção, organizados no Quadro 1. A avaliação dos estudos observou a relevância metodológica e a relação direta com o objetivo proposto, e a síntese dos resultados foi construída de forma descritiva e comparativa entre os autores selecionados.

3. FERIDAS COMPLEXAS E O CUIDADO DE ENFERMAGEM NO SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE

As feridas complexas expõem uma fragilidade estrutural do cuidado ofertado na Atenção Básica: exigem tempo, insumos e conhecimento técnico que nem sempre a rede pública consegue sustentar. Barbosa (2025) demonstra que a escassez de recursos e a falta de capacitação profissional dificultam diretamente o processo cicatricial dessas lesões.

O cuidado de enfermagem a essas feridas não pode ser reduzido à troca mecânica de curativos, pois envolve avaliação clínica contínua e decisões que impactam a qualidade de vida do paciente. Essa complexidade assistencial exige protocolos claros e articulação entre níveis de atenção (Moura, 2024).

A ausência de fluxos bem definidos entre a Atenção Primária e os serviços especializados compromete a continuidade do tratamento das feridas crônicas. Mohr (2024) identifica que enfermeiros da rede pública enfrentam limitações estruturais e sobrecarga de trabalho, o que fragiliza o acompanhamento sistemático dessas lesões.

O vínculo entre enfermeiro e paciente funciona como elemento decisivo na adesão ao tratamento, especialmente quando a ferida provoca dor persistente e isolamento social. Esse aspecto relacional nem sempre recebe atenção suficiente nos protocolos institucionais, ainda que determine boa parte do sucesso terapêutico (Silva Júnior, 2023).

A dor crônica associada às feridas complexas ultrapassa a dimensão física e atinge diretamente a saúde mental do paciente, produzindo tristeza, desesperança e afastamento do convívio social. Barbosa (2025) evidencia esse sofrimento como consequência direta da falta de resolutividade no cuidado ofertado pela Atenção Básica.

A responsabilidade pelo tratamento das feridas na rede pública recai, com frequência, sobre técnicos de enfermagem, que mobilizam o enfermeiro apenas diante de sinais de agravamento. Essa divisão informal de tarefas revela uma hierarquia de cuidado que nem sempre garante avaliação técnica adequada (Moura, 2024).

A escuta ativa e o contato regular entre enfermeiro e paciente favorecem a identificação precoce de complicações e ampliam a adesão ao plano terapêutico proposto. Mohr (2024) sustenta que essa proximidade cotidiana constitui um diferencial relevante para o desfecho clínico das feridas crônicas na Atenção Primária.

A fragmentação entre os serviços de saúde produz descontinuidade no cuidado e sobrecarrega o paciente, que muitas vezes assume sozinho o manejo da própria lesão diante da ausência de suporte familiar qualificado. Esse cenário reforça o papel técnico do enfermeiro como articulador do cuidado (Silva Júnior, 2023).

O aprimoramento da capacitação profissional surge como caminho necessário para qualificar o cuidado de feridas complexas dentro da rede pública, reduzindo a variabilidade nas condutas adotadas por diferentes equipes. Barbosa (2025) reconhece a educação permanente como estratégia capaz de transformar essa realidade assistencial.

O enfrentamento das feridas complexas no Sistema Único de Saúde depende, portanto, de investimento técnico, articulação entre serviços e reconhecimento da dimensão subjetiva do paciente que convive com a lesão. Moura (2024) argumenta que somente essa integração sustenta um cuidado efetivamente resolutivo na Atenção Primária.

3.1 Terapia por pressão negativa como recurso terapêutico no manejo de feridas

A Terapia por Pressão Negativa consolidou-se como recurso adjuvante capaz de acelerar a reparação tecidual e preparar o leito da lesão para procedimentos definitivos de cobertura. Farias (2025) demonstra que o método reduz o tempo de cicatrização ao estimular a formação de tecido de granulação em feridas crônicas de diferentes etiologias.

O mecanismo terapêutico da técnica combina remoção contínua de exsudato, redução de edema e estímulo à angiogênese local, fatores que juntos favorecem a evolução clínica da ferida tratada. Essa ação combinada explica por que a terapia se tornou referência em serviços especializados de todo o país (Schiavo, 2025).

A escolha por esse recurso não pode ser feita de forma genérica, pois cada ferida exige avaliação criteriosa quanto à profundidade, ao grau de contaminação e à viabilidade tecidual presente. Souza (2023) reconhece que a indicação inadequada compromete a eficácia do tratamento e pode agravar o quadro clínico do paciente.

A disponibilidade de equipamentos comerciais ainda representa uma barreira relevante para a expansão da terapia dentro da rede pública, especialmente em unidades com orçamento limitado. Alternativas tecnológicas de menor custo surgem como resposta a essa limitação estrutural (Oliveira, 2024).

O desenvolvimento de dispositivos adaptados a partir de materiais hospitalares comuns ampliou o acesso da população à técnica sem comprometer sua segurança clínica. Souza (2023) descreve que a implantação desse modelo alternativo permitiu reduzir o tempo de internação em pacientes atendidos pela rede pública de saúde.

Essa adaptação tecnológica não elimina, contudo, a necessidade de protocolos rigorosos de monitoramento da pressão exercida sobre a ferida, já que falhas nesse controle geram riscos ao paciente. Farias (2025) evidencia que a padronização dos parâmetros técnicos constitui condição indispensável para a segurança da terapia.

A literatura científica reconhece a Terapia por Pressão Negativa como método bem estabelecido no manejo de feridas complexas, sobretudo diante da escassez de alternativas eficazes para lesões extensas ou infectadas. Esse reconhecimento consolidou a técnica como padrão assistencial em diversos centros especializados (Schiavo, 2025).

O uso do recurso exige, ainda, conhecimento técnico aprofundado sobre indicações e contraindicações, já que feridas com tecido necrótico extenso ou sangramento ativo demandam avaliação prévia rigorosa. Oliveira (2024) argumenta que a ausência dessa análise técnica compromete diretamente a segurança do procedimento aplicado.

A redução do número de trocas de curativo representa um dos benefícios mais valorizados pelos pacientes submetidos à terapia, já que diminui a dor associada aos procedimentos convencionais. Souza (2023) sustenta que esse ganho amplia a adesão terapêutica e melhora a experiência assistencial vivida.

A viabilidade econômica da técnica permanece como ponto de tensão entre sua comprovada eficácia clínica e os custos elevados dos dispositivos comerciais disponíveis no mercado nacional. Essa contradição impulsiona pesquisas voltadas à criação de soluções tecnológicas mais acessíveis (Oliveira, 2024).

O emprego da terapia em feridas de pé diabético tem apresentado resultados relevantes na prevenção de amputações, ao favorecer a cicatrização de lesões historicamente resistentes a tratamentos convencionais. Farias (2025) identifica esse achado como um dos mais consistentes entre os estudos analisados na revisão integrativa.

A capacitação técnica das equipes de enfermagem constitui fator determinante para o sucesso da terapia, já que o manuseio incorreto do dispositivo pode gerar complicações evitáveis ao paciente tratado. Schiavo (2025) reconhece a formação continuada como estratégia essencial para qualificar essa prática assistencial.

A ausência de protocolos institucionais padronizados dificulta a disseminação da técnica entre diferentes serviços de saúde, gerando variabilidade nos resultados obtidos por equipes distintas. Souza (2023) argumenta que a construção de diretrizes claras poderia reduzir essa disparidade assistencial observada na prática.

O avanço tecnológico direcionado à criação de equipamentos portáteis e de baixo custo amplia as possibilidades de uso da terapia fora de ambientes hospitalares tradicionais. Oliveira (2024) evidencia que essa portabilidade favorece o acompanhamento de pacientes em domicílio ou em unidades básicas de saúde.

A consolidação da Terapia por Pressão Negativa como recurso terapêutico depende, portanto, da articulação entre inovação tecnológica, capacitação profissional e protocolos assistenciais bem definidos. Schiavo (2025) defende que somente essa integração garante resultados clínicos consistentes no manejo de feridas complexas.

3.2 Atuação do enfermeiro estomaterapeuta na indicação e no acompanhamento da terapia

O enfermeiro estomaterapeuta assume função técnica decisiva na indicação da Terapia por Pressão Negativa, já que essa escolha exige avaliação criteriosa das condições clínicas da lesão. Souza (2023) demonstra que essa especialidade transformou o tratamento de feridas em campo que exige protocolos técnicos padronizados e respaldo científico consistente.

Na prática da indicação, o estomaterapeuta realiza avaliação sistemática da ferida, considerando etiologia, dimensões, profundidade, tipo de tecido presente no leito, volume e característica do exsudato, condição da pele perilesional, perfusão tecidual e presença de sinais de infecção. Com base nesses achados, o profissional define os objetivos terapêuticos a serem alcançados, avalia contraindicações específicas e determina a real necessidade de instituir a Terapia por Pressão Negativa, etapa que sustenta tecnicamente toda a indicação clínica realizada.

A atuação desse profissional ultrapassa a execução do curativo, pois envolve monitoramento contínuo da evolução tecidual e ajuste dos parâmetros da terapia conforme a resposta do paciente. Esse acompanhamento sistemático reduz complicações evitáveis e fortalece a segurança do tratamento oferecido (Peres, 2025).

O manejo de lesões periestomais representa um dos maiores desafios enfrentados pelo estomaterapeuta, uma vez que essas complicações comprometem diretamente a adesão do paciente ao dispositivo coletor. Peres (2025) identifica que a capacitação técnica constante constitui fator determinante para reduzir a incidência dessas complicações na prática assistencial.

A formação especializada do enfermeiro estomaterapeuta amplia sua capacidade de indicar corretamente a terapia, evitando aplicações inadequadas que agravam o quadro clínico do paciente. Stolberg (2023) reconhece o papel crucial desse profissional, cuja formação específica favorece uma assistência integral e qualificada.

O acompanhamento contínuo exercido pelo estomaterapeuta fortalece o vínculo terapêutico e amplia a confiança do paciente diante de um tratamento que exige tempo prolongado e adaptação constante. Cortez (2024) constata que essa relação de confiança influencia diretamente os resultados clínicos obtidos ao longo do tratamento.

A padronização das práticas clínicas surge como instrumento essencial para reduzir a variabilidade entre diferentes serviços de saúde que oferecem a terapia dentro da rede pública. Sem essa uniformidade técnica, os resultados assistenciais tornam-se inconsistentes e dependentes da experiência individual de cada profissional (Souza, 2023).

O suporte psicossocial oferecido pelo estomaterapeuta durante o acompanhamento da terapia contribui para reduzir a angústia associada à convivência prolongada com a ferida complexa. Peres (2025) sustenta que essa dimensão relacional do cuidado não pode ser dissociada da competência técnica exigida pela função.

A educação em saúde conduzida por esse profissional orienta o paciente e seus familiares sobre cuidados básicos que evitam agravamentos entre as sessões de acompanhamento da terapia. Stolberg (2023) argumenta que essa orientação contínua reduz a sobrecarga assistencial sobre os serviços especializados de saúde.

A escassez de profissionais especializados em estomaterapia dentro do Sistema Único de Saúde limita o acesso da população a um acompanhamento verdadeiramente qualificado. Cortez (2024) reconhece que essa lacuna assistencial compromete diretamente a integralidade do cuidado oferecido aos pacientes atendidos.

A prática avançada de enfermagem tem se mostrado promissora para qualificar o acompanhamento de pacientes submetidos à terapia, especialmente diante da complexidade crescente das lesões tratadas na rede pública. Essa abordagem amplia a autonomia técnica do estomaterapeuta perante a equipe multiprofissional (Cortez, 2024).

O acompanhamento longitudinal exercido pelo enfermeiro permite identificar precocemente sinais de infecção ou de resposta inadequada à terapia, evitando complicações que prolongariam desnecessariamente o tratamento. Souza (2023) evidencia que essa vigilância técnica constitui elemento central da atuação estomaterapêutica.

A avaliação periódica da pele periestomal e do leito da ferida exige do estomaterapeuta conhecimento técnico aprofundado sobre sinais de alerta que indicam necessidade de intervenção imediata. Peres (2025) argumenta que essa competência avaliativa diferencia a atuação especializada do cuidado genérico de enfermagem.

A articulação entre o estomaterapeuta e demais membros da equipe multiprofissional fortalece a continuidade do cuidado e evita fragmentação nas condutas adotadas ao longo do tratamento. Stolberg (2023) defende que essa integração constitui condição indispensável para a assistência integral ao paciente ostomizado.

A indicação criteriosa da terapia, sustentada por conhecimento técnico e experiência clínica, reduz riscos desnecessários e otimiza os recursos disponíveis dentro da rede pública de saúde. Cortez (2024) reconhece essa criteriosidade como elemento que diferencia a prática especializada da assistência convencional.

A atuação do enfermeiro estomaterapeuta consolida-se, portanto, como eixo central para garantir segurança, efetividade e humanização no manejo da Terapia por Pressão Negativa em pacientes atendidos pelo Sistema Único de Saúde. Peres (2025) sustenta que essa centralidade técnica sustenta os avanços observados na qualidade assistencial.

3.3 Indicações e contraindicações da Terapia por Pressão Negativa

A indicação segura da Terapia por Pressão Negativa depende do reconhecimento claro das situações clínicas em que o método é recomendado e daquelas em que seu uso deve ser evitado ou realizado com precaução, cabendo ao estomaterapeuta essa avaliação individualizada.

Indicações:

  • Feridas complexas de difícil cicatrização
  • Feridas traumáticas
  • Deiscências cirúrgicas
  • Feridas cirúrgicas com perda de substância
  • Úlceras selecionadas conforme etiologia e estadiamento
  • Pé diabético em situações específicas
  • Preparação do leito da ferida para cobertura definitiva
  • Controle de exsudato excessivo

Contraindicações e precauções:

  • Necrose não adequadamente desbridada
  • Sangramento ativo não controlado
  • Estruturas vasculares expostas sem proteção adequada
  • Malignidade na ferida, conforme avaliação do contexto clínico
  • Fístulas não entéricas ou de trato não explorado
  • Osteomielite não tratada
  • Situações em que o dispositivo não possa ser adequadamente monitorado

Essas indicações e contraindicações não devem ser interpretadas como listas absolutas, uma vez que a decisão pela instituição da terapia depende da etiologia da ferida, da condição clínica do paciente e da avaliação especializada do estomaterapeuta em cada caso.

3.4 Diferenciação entre a atuação do enfermeiro assistencial e do enfermeiro estomaterapeuta

O papel do enfermeiro estomaterapeuta precisa ser diferenciado do papel do enfermeiro generalista, uma vez que a especialização em Estomaterapia agrega competências técnicas que ampliam a segurança e a efetividade do cuidado prestado ao paciente com ferida complexa.

O enfermeiro assistencial atua na avaliação inicial da ferida, na execução dos cuidados prescritos, no acompanhamento rotineiro do paciente, na identificação de alterações no quadro clínico e na educação em saúde voltada ao autocuidado.

O enfermeiro estomaterapeuta, além dessas competências, realiza avaliação especializada da ferida, toma decisões clínicas relacionadas à indicação e à progressão do tratamento, seleciona e indica tecnologias específicas, exerce manejo avançado da lesão, define objetivos terapêuticos, acompanha sistematicamente a resposta à terapia, participa da elaboração e implantação de protocolos assistenciais, conduz educação permanente da equipe, articula-se com a equipe multiprofissional, monitora indicadores de qualidade e segurança do paciente, e avalia a custo-efetividade das condutas adotadas.

Essa comparação evidencia por que o papel do estomaterapeuta, destacado no título deste trabalho, ultrapassa a assistência de enfermagem generalista, justificando a centralidade desse profissional na indicação, no manejo e no acompanhamento da Terapia por Pressão Negativa.

3.5 Desafios da Terapia por Pressão Negativa no contexto do Sistema Único de Saúde

Embora o Sistema Único de Saúde componha o contexto assistencial deste trabalho, seus desafios específicos para a aplicação da Terapia por Pressão Negativa vão além da escassez de recursos já discutida, envolvendo múltiplas dimensões operacionais e institucionais.

Entre esses desafios, destacam-se:

  • disponibilidade limitada de equipamentos comerciais;
  • dificuldades na aquisição contínua de insumos;
  • manutenção técnica dos equipamentos em uso;
  • capacitação insuficiente das equipes envolvidas;
  • ausência ou fragilidade de protocolos institucionais;
  • descontinuidade do tratamento entre níveis de atenção;
  • limitações para o atendimento domiciliar;
  • fragilidade nos fluxos de referência e contrarreferência;
  • custo elevado da terapia frente ao orçamento disponível;
  • eventual judicialização do acesso ao tratamento;
  • desigualdade de acesso entre diferentes serviços da rede;
  • necessidade de segurança reforçada na utilização de dispositivos adaptados.

O enfrentamento conjunto dessas dimensões constitui condição indispensável para que a Terapia por Pressão Negativa se consolide como recurso amplamente acessível e seguro dentro da rede pública de saúde.

4 RESULTADOS E DISCUSSÕES

O quadro a seguir reúne a caracterização das produções científicas utilizadas ao longo deste artigo, organizadas por autor, título, objetivo, ano de publicação, tipo de estudo e amostra ou contexto investigado.

Quadro 1 – Caracterização dos estudos selecionados


Fonte: Autora (2026).

O quadro a seguir sintetiza os principais achados de cada estudo e sua contribuição específica para a atuação do enfermeiro estomaterapeuta, subsidiando a discussão desenvolvida na sequência.

Quadro 2 – Resultados e contribuições para a atuação do enfermeiro estomaterapeuta

Fonte: Autora (2026).

A eficácia da Terapia por Pressão Negativa aparece consolidada na literatura, mas os estudos analisados revelam divergências quanto às condições estruturais necessárias para sua aplicação segura. Farias (2025) demonstra resultados clínicos consistentes na cicatrização de feridas crônicas, enquanto Schiavo (2025) evidencia que a falta de capacitação técnica ainda compromete a efetividade prática dessa mesma tecnologia.

A fragilidade estrutural da Atenção Básica atravessa diferentes recortes metodológicos sem perder sua centralidade explicativa. Barbosa (2025) atribui essa fragilidade à escassez de recursos e ao despreparo profissional, posição que Mohr (2024) complementa ao identificar sobrecarga de trabalho como fator adicional que fragiliza o acompanhamento sistemático das lesões.

A construção de protocolos assistenciais divide opiniões quanto ao alcance real dessas ferramentas dentro da prática cotidiana da enfermagem. Moura (2024) sustenta que protocolos bem estruturados organizam a assistência prestada, posição que contrasta com Silva Júnior (2023), para quem o vínculo relacional entre enfermeiro e paciente pesa mais do que qualquer padronização técnica isolada.

As soluções tecnológicas de baixo custo surgem como resposta comum a limitações orçamentárias, ainda que por caminhos distintos de execução. Souza (2023) descreve a adaptação de materiais hospitalares já disponíveis como estratégia viável, enquanto Oliveira (2024) aposta na criação de equipamentos portáteis totalmente novos para ampliar o acesso à terapia.

A atuação do estomaterapeuta no cuidado ao paciente ostomizado reúne consenso quanto à sua relevância, mas diverge quanto ao foco prioritário dessa assistência. Cortez (2024) enfatiza a educação em saúde como eixo central do cuidado, enquanto Stolberg (2023) reconhece a formação técnica especializada como condição determinante para a integralidade assistencial.

O manejo das lesões periestomais expõe tensões entre abordagens centradas na técnica e abordagens centradas na experiência subjetiva do paciente estomizado. Peres (2025) defende a capacitação constante como resposta às complicações mais recorrentes, ao passo que Souza (2023) recupera a importância do suporte emocional prestado durante o tratamento das feridas.

A pesquisa bibliográfica utilizada neste artigo apoiou-se na perspectiva metodológica que orienta a construção do conhecimento científico a partir de produções já existentes. Lima e Mioto (2007) argumentam que esse caminho investigativo evita repetições desnecessárias, fundamento que sustenta a leitura crítica realizada entre os autores confrontados nesta discussão.

O confronto entre essas produções revela que a Terapia por Pressão Negativa e a atuação do estomaterapeuta avançaram tecnicamente, mas ainda dependem de investimento estrutural e formação continuada para alcançar plena efetividade dentro do Sistema Único de Saúde. Farias (2025) e Cortez (2024) convergem nesse ponto, ainda que partam de objetos de estudo distintos.

Para a decisão clínica do estomaterapeuta, esse confronto de evidências significa que a indicação da terapia não pode se apoiar apenas na comprovação técnica do método, mas precisa considerar as condições reais de capacitação, disponibilidade de equipamentos e continuidade assistencial do serviço em que o paciente está inserido. Os achados de Farias (2025) sustentam a eficácia clínica da terapia, mas só se traduzem em segurança para o paciente quando articulados às limitações identificadas por Schiavo (2025) e Barbosa (2025); da mesma forma, a valorização do vínculo relacional apontada por Silva Júnior (2023) não substitui, mas complementa, a padronização técnica defendida por Moura (2024). É essa leitura integrada das evidências, e não a adesão isolada a um único achado, que deve orientar a decisão do estomaterapeuta sobre quando, como e em que condições instituir a Terapia por Pressão Negativa.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O estudo permitiu compreender que a atuação do enfermeiro estomaterapeuta ultrapassa a dimensão técnica do cuidado, consolidando-se como elemento estratégico na indicação segura da Terapia por Pressão Negativa dentro do Sistema Único de Saúde. Essa centralidade profissional sustentou toda a análise desenvolvida ao longo do trabalho.

A diferenciação estabelecida entre a atuação do enfermeiro assistencial e a do estomaterapeuta, associada à definição criteriosa das indicações e contraindicações da terapia, confirmou que a especialização técnica é condição determinante para a segurança da indicação, respondendo diretamente ao objetivo proposto por este trabalho.

A revisão integrativa evidenciou que feridas complexas exigem avaliação criteriosa, planejamento individualizado e monitoramento constante, elementos que dependem diretamente da qualificação técnica do profissional responsável pelo tratamento. Sem essa formação especializada, os resultados clínicos tornam-se inconsistentes e vulneráveis a complicações evitáveis.

A escassez de recursos na Atenção Básica revelou-se um obstáculo recorrente para a plena aplicação da terapia, ainda que soluções tecnológicas adaptadas tenham demonstrado potencial para ampliar o acesso da população a esse tratamento. Essa tensão entre limitação estrutural e inovação prática atravessou diferentes momentos da discussão.

O acompanhamento contínuo prestado pelo estomaterapeuta mostrou-se determinante para a adesão do paciente ao tratamento, especialmente diante do sofrimento físico e emocional provocado por feridas de longa duração. Essa dimensão relacional do cuidado se firmou como tão relevante quanto a competência técnica exigida pela função.

A análise confirmou que a padronização de protocolos assistenciais e a capacitação profissional constante representam caminhos necessários para reduzir a variabilidade observada entre diferentes serviços de saúde. Essa padronização fortalece a segurança do paciente e amplia a efetividade da terapia oferecida.

O confronto entre os autores discutidos demonstrou que, apesar dos avanços tecnológicos e científicos alcançados, a consolidação plena dessa prática ainda depende de investimento estrutural contínuo por parte da gestão pública. Essa constatação reforça a urgência de políticas voltadas à qualificação da rede assistencial.

O trabalho contribui, assim, para ampliar o entendimento sobre o papel técnico e humano do enfermeiro estomaterapeuta, abrindo caminho para novas investigações que aprofundem a relação entre formação profissional, inovação tecnológica e qualidade do cuidado prestado aos pacientes do Sistema Único de Saúde.

REFERÊNCIAS

BARBOSA, Adeilda Silva. Gestão do cuidado de feridas complexas na atenção primária. Acta Scientific Sciences. 2025. Disponível em: https://doi.org/10.64671/acta.v1i1.4. Acesso em: ago. 2026.

CORTEZ, Talya Silva. Atuação do enfermeiro nos cuidados a pacientes com estomias intestinais: uma revisão integrativa. Revista JRG de Estudos Acadêmicos. 2024. Disponível em: https://doi.org/10.55892/jrg.v7i15.1433. Acesso em: ago. 2026.

FARIAS, Brenda Araujo. Tratamento de feridas crônicas por pressão negativa: revisão integrativa. Revista Enfermagem Atual In Derme. 2025. Disponível em: https://doi.org/10.31011/reaid-2025-v.99-n.1-art.2399. Acesso em: ago. 2026.

LIMA, Telma Cristiane Sasso; MIOTO, Regina Célia Tamaso. Procedimentos metodológicos na construção do conhecimento científico: a pesquisa bibliográfica. Revista Katálysis, Florianópolis, v. 10, n. esp., p. 37-45, 2007.

MOHR, Helena Sophia Strauss. Cuidado de enfermagem à pessoa com ferida na Atenção Primária à Saúde: desafios e potências. Estima – Brazilian Journal of Enterostomal Therapy. 2024. Disponível em: https://doi.org/10.30886/estima.v22.1437_PT. Acesso em: ago. 2026.

MOURA, Guilherme Carlos Rodrigues. Protocolo de revisão de escopo: cuidados de enfermagem ao paciente com feridas crônicas na Atenção Primária. Contribuciones a las Ciencias Sociales. 2024. Disponível em: https://doi.org/10.55905/revconv.17n.6-309. Acesso em: ago. 2026.

OLIVEIRA, Reginaldo. Equipamento de terapia por pressão negativa de baixo custo: relato de experiência. Brazilian Journal of Health Review. 2024. Disponível em: https://ojs.brazilianjournals.com.br/ojs/index.php/BJHR/article/view/64993. Acesso em: ago. 2026.

PERES, Juliana Amaral. A importância do estomaterapeuta nas lesões periestomais: uma revisão integrativa da literatura. Revista FT. 2025. Disponível em: https://revistaft.com.br/a-importancia-do-estomaterapeuta-nas-lesoes-periestomais-uma-revisao-integrativa-da-literatura/. Acesso em: ago. 2026.

SCHIAVO, Vanessa. Terapia por pressão negativa no tratamento de feridas complexas: contribuições e desafios para a prática de enfermagem. Enfermagem Brasil. 2025. Disponível em: https://doi.org/10.62827/eb.v24i4.4083. Acesso em: ago. 2026.

SILVA JÚNIOR, José Antonio. Assistência de enfermagem a pessoas com feridas crônicas: uma experiência na atenção primária à saúde. Revista de Enfermagem e Atenção à Saúde. 2023. Disponível em: https://doi.org/10.18554/reas.v12i3.6102. Acesso em: ago. 2026.

SOUZA, Brenda Ramos. Implantação da técnica de terapia por pressão negativa adaptada. Revista Eletrônica Acervo Saúde. 2023. Disponível em: https://doi.org/10.25248/reas.e12096.2023. Acesso em: ago. 2026.

SOUZA, Érica Motta Moreira de. O cuidado e atuação do enfermeiro estomaterapeuta com pacientes submetidos a terapia de feridas. Revista FT. 2023. Disponível em: https://doi.org/10.5281/zenodo.8034676. Acesso em: ago. 2026.

STOLBERG, John Tarlison. A importância do enfermeiro estomaterapeuta na assistência integral ao ostomizado: uma revisão integrativa da literatura. RECIMA21 – Revista Científica Multidisciplinar. 2023. Disponível em: https://doi.org/10.47820/recima21.v4i7.3470. Acesso em: ago. 2026.

  1. Centro Universitário Cest - São Luís - MA - Brasil ↑

  2. Universidade Federal do Maranhão UFMA - São Luís - MA - Brasil. ↑

Creative Commons License
Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.

Copyright (c) 2026 Maria Aparecida Silva Franco, Michele Costa Gusmão, Marcia Regina Silva da Silva, Yanka de Cássia da Silva Feitosa, Mercia Maria Costa de Carvalho Claro (Autor)

Downloads

Os dados de download ainda não estão disponíveis.