Uso da sutura intradérmica em cirurgia de pequenos animais: revisão de literatura
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
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RESUMO

A sutura intradérmica é uma técnica utilizada para o fechamento cutâneo em procedimentos cirúrgicos de pequenos animais, caracterizada pela permanência do fio no interior da derme e pela ausência de material de sutura exposto na superfície da pele. O presente trabalho teve como objetivo abordar a utilização da sutura intradérmica em cirurgias de pequenos animais, destacando seus aspectos técnicos, materiais empregados, resultados de cicatrização, vantagens e limitações. Foi realizada uma revisão narrativa da literatura, utilizando artigos científicos relacionados à aplicação da técnica em cães e gatos, com ênfase em estudos que avaliaram diferentes padrões e materiais de sutura, aspectos clínicos, cosméticos, histológicos e propriedades mecânicas. Os estudos analisados demonstram que diferentes materiais podem ser empregados na realização da sutura intradérmica, apresentando diferenças principalmente quanto ao tempo de execução e às características mecânicas. A técnica também apresentou resultados satisfatórios quanto à cicatrização em diferentes estudos, embora sua execução exija adequado posicionamento da agulha, aproximação das bordas cutâneas e controle da tensão do fio. Dessa forma, a sutura intradérmica constitui uma alternativa aplicável ao fechamento cutâneo em pequenos animais, devendo sua utilização ser determinada de acordo com as características do procedimento, do paciente e do material empregado.

Palavras-chave: cirurgia veterinária; sutura intradérmica; fechamento cutâneo; cães; gatos.

ABSTRACT

Intracutaneous suture is a technique used for skin closure in surgical procedures in small animals, characterized by the placement of the suture material within the dermis and the absence of exposed suture material on the skin surface. This study aimed to address the use of intracutaneous sutures in small animal surgery, highlighting technical aspects, materials used, wound healing outcomes, advantages, and limitations. A narrative literature review was conducted using scientific articles related to the application of the technique in dogs and cats, with emphasis on studies evaluating different suture patterns and materials, as well as clinical, cosmetic, histological, and mechanical aspects. The studies analyzed demonstrate that different materials can be used for intracutaneous closure, with differences mainly related to execution time and mechanical properties. The technique also showed satisfactory healing outcomes in different studies, although its proper execution requires adequate needle placement, appropriate approximation of the skin edges, and proper control of suture tension. Therefore, intracutaneous suturing represents an applicable alternative for skin closure in small animals, and its use should be determined according to the characteristics of the surgical procedure, patient, and suture material.

Keywords: veterinary surgery; intracutaneous suture; skin closure; dogs; cats.

1. Introdução

A síntese adequada das bordas de uma ferida cirúrgica é fundamental para favorecer a cicatrização e a recuperação do paciente, sendo a escolha da técnica de sutura influenciada por fatores como localização da incisão, características dos tecidos envolvidos, material empregado e objetivo do fechamento. Em cirurgias de pequenos animais, diferentes padrões de sutura podem ser utilizados para a aproximação cutânea, entre eles as técnicas interrompidas e contínuas, com a sutura intradérmica constituindo uma alternativa utilizada principalmente no fechamento de incisões cirúrgicas eletivas (GOULETSOU et al., 2020).

A sutura intradérmica consiste na passagem do fio no interior da derme, permitindo a aproximação das bordas cutâneas sem a exposição contínua do material de sutura na superfície da pele. Essa característica pode favorecer um resultado estético mais uniforme e reduzir a necessidade de manipulação da ferida no período pós-operatório. Entretanto, a execução da técnica exige adequado posicionamento das bordas da incisão e controle da tensão aplicada ao fio, uma vez que falhas na aposição podem comprometer o resultado do fechamento (GOULETSOU et al., 2020; IOCOLANO et al., 2026).

A escolha do material de sutura também apresenta importância no desempenho da técnica. Estudos realizados em cães demonstram que diferentes fios podem ser empregados no fechamento intradérmico, apresentando diferenças quanto à facilidade de execução, tempo necessário para a sutura e características da resposta tecidual. Balomenos, Gouletsou e Galatos (2023), ao compararem materiais absorvíveis e não absorvíveis utilizados em suturas intradérmicas, observaram que ambas as abordagens avaliadas foram capazes de proporcionar resultados adequados de cicatrização, embora apresentassem diferenças relacionadas à execução e ao tempo necessário para o procedimento.

A literatura também demonstra que o desempenho da sutura intradérmica deve ser analisado em comparação com outras técnicas de fechamento cutâneo. Em estudo experimental com cães, Gouletsou et al. (2020) verificaram diferenças entre padrões intradérmicos e simples interrompidos quanto ao tempo de execução e às características clínicas e histológicas da incisão ao longo do período de cicatrização. Os resultados indicam que a escolha do padrão deve considerar não apenas a aparência final da ferida, mas também aspectos relacionados à técnica e às características do procedimento cirúrgico.

Mais recentemente, estudos clínicos também têm investigado a ocorrência de alterações na ferida após o emprego de técnicas subcuticulares. Em cães submetidos à ovariohisterectomia, uma técnica subcuticular sem nós apresentou menor frequência de reações superficiais da ferida quando comparada à sutura cutânea cruciada, embora os próprios autores ressaltem a necessidade de estudos maiores para confirmar esses resultados (HAKIM; MANSIA; BARTLE, 2026).

Dessa forma, o conhecimento das características, indicações, vantagens e limitações da sutura intradérmica é relevante para a escolha da técnica de fechamento cutâneo em procedimentos cirúrgicos de cães e gatos. Assim, o presente trabalho tem como objetivo abordar a utilização da sutura intradérmica em cirurgias de pequenos animais, destacando seus principais aspectos técnicos, materiais empregados, vantagens, limitações e possíveis aplicações na rotina cirúrgica veterinária.

2. Revisão de literatura

2.1 Sutura intradérmica e fechamento cutâneo

A sutura intradérmica contínua é uma técnica utilizada para o fechamento da pele em procedimentos cirúrgicos de pequenos animais, sendo empregada tanto em procedimentos eletivos quanto em outras intervenções que necessitam de aproximação das bordas cutâneas. Diferentemente das técnicas percutâneas, o fio permanece posicionado no interior da derme, permitindo que a linha de sutura permaneça sem exposição significativa na superfície cutânea (BALOMENOS; GOULETSOU; GALATOS, 2023; IOCOLANO et al., 2026).

A técnica pode ser realizada utilizando fios absorvíveis, com o enterramento dos nós no tecido, ou materiais não absorvíveis, nos quais a sutura pode ser fixada externamente por meio de clipes. No estudo conduzido por Balomenos, Gouletsou e Galatos (2023), foram comparados o poliglecaprone 25, de característica absorvível e com nós enterrados, e o polipropileno, não absorvível, fixado por clipes. Os autores observaram que ambas as técnicas apresentaram resultados adequados para o fechamento intradérmico em cães.

A utilização de uma sutura intradérmica enterrada apresenta algumas características relacionadas ao fechamento cutâneo. Como o material não permanece exposto na superfície da pele, a técnica pode eliminar a necessidade de retirada de pontos quando são empregados fios absorvíveis. Além disso, a ausência de material de sutura exposto reduz a possibilidade de contato direto do fio com o ambiente e pode diminuir o trauma provocado pelo próprio animal sobre a incisão (BALOMENOS; GOULETSOU; GALATOS, 2023).

Entretanto, a sutura intradérmica apresenta maior exigência técnica quando comparada a alguns padrões de sutura cutânea convencionais. A execução adequada depende da correta passagem da agulha pela derme e da manutenção de uma tensão apropriada ao longo da linha de sutura. Segundo Iocolano et al. (2026), falhas na inclusão adequada da derme, espaços sem aproximação entre os pontos e tensão inadequada podem comprometer a aposição das bordas da incisão.

2.2 Aspectos técnicos da execução

Na sutura intradérmica contínua, a agulha é conduzida horizontalmente através da derme, buscando manter o fio no interior do tecido e evitar sua passagem pela epiderme. A correta aproximação das superfícies dérmicas é um dos principais fatores relacionados ao resultado da técnica. Iocolano et al. (2026) destacam que o posicionamento da agulha deve permitir a inclusão adequada da derme em cada passagem, evitando segmentos de tecido que não sejam incorporados à linha de sutura.

Outro aspecto importante é a manutenção da tensão do fio durante a execução. A tensão deve ser suficiente para promover a aproximação das bordas, mas sem produzir excesso de compressão do tecido. Os autores também descrevem a importância de realizar movimentos de retorno da agulha quando necessário, evitando que determinados segmentos da derme sejam ignorados durante a passagem do fio (IOCOLANO et al., 2026).

O enterramento adequado dos nós constitui outro ponto relevante. Nós expostos ou inadequadamente posicionados podem interferir na cicatrização da incisão. Dessa forma, a orientação dos componentes utilizados para a formação do nó e seu correto posicionamento no espaço existente junto à incisão são aspectos técnicos que devem ser considerados durante a realização do padrão intradérmico (IOCOLANO et al., 2026).

Apesar de apresentar vantagens relacionadas ao fechamento da pele, a técnica intradérmica pode demandar mais tempo para sua execução. No estudo de Gouletsou et al. (2020), realizado em dez cães, a sutura simples interrompida foi executada em tempo significativamente menor do que a sutura intradérmica. Os autores também observaram que a avaliação estética não apresentou diferença estatisticamente significativa entre todas as técnicas analisadas.

2.3 Escolha do material de sutura

A escolha do fio constitui um dos fatores que podem influenciar o comportamento da sutura intradérmica. Entre os materiais avaliados em cães encontram-se fios monofilamentares absorvíveis e não absorvíveis, apresentando características distintas quanto à permanência do material no tecido, necessidade de remoção e forma de fixação (BALOMENOS; GOULETSOU; GALATOS, 2023).

Balomenos, Gouletsou e Galatos (2023) compararam o poliglecaprone 25, utilizado com nós enterrados, e o polipropileno, utilizado com clipes. O polipropileno apresentou aplicação mais rápida e simples no estudo, com diferença significativa no tempo necessário para a execução da técnica. Apesar disso, não foram observadas diferenças estatisticamente significativas entre os grupos nas avaliações cosméticas, clínicas, ultrassonográficas e histológicas realizadas ao longo do período experimental.

Os mesmos autores observaram que a remoção antecipada do polipropileno não resultou em benefício adicional sobre a cicatrização ou a aparência da cicatriz quando comparada ao poliglecaprone 25. Dessa forma, ambos os materiais avaliados foram considerados adequados para a realização de sutura intradérmica em cães nas condições estudadas (BALOMENOS; GOULETSOU; GALATOS, 2023).

A resistência mecânica também pode variar conforme o material utilizado. Regier, Smeak e McGilvray (2019) avaliaram, em feridas produzidas em cadáveres caninos, suturas intradérmicas realizadas com monofilamento convencional e fio farpado unidirecional. O monofilamento convencional apresentou maior carga máxima e maior deslocamento até a falha, enquanto o fio farpado apresentou menor volume de líquido extravasado no teste de vedação. Os resultados demonstram que diferentes materiais podem apresentar propriedades mecânicas distintas, devendo sua escolha considerar as características desejadas para o fechamento.

2.4 Cicatrização e resultados da sutura intradérmica

A resposta da ferida ao padrão intradérmico pode ser avaliada por diferentes parâmetros, incluindo aparência cosmética, características clínicas e alterações histológicas. Gouletsou et al. (2020) acompanharam a cicatrização de incisões cutâneas em cães submetidos a diferentes padrões de sutura e observaram que os aspectos cosméticos, clínicos e histológicos das incisões apresentaram melhora ao longo do tempo, independentemente da técnica empregada.

No mesmo estudo, a sutura intradérmica realizada com poliglecaprone 25 4-0 apresentou resultados superiores em determinados parâmetros cosméticos, clínicos e histológicos quando comparada à sutura simples interrompida e à própria sutura intradérmica realizada com fio 3-0. Entretanto, os autores ressaltam que as diferenças observadas nos primeiros períodos de avaliação diminuíram ao longo do acompanhamento, demonstrando que o resultado da cicatrização também sofre influência do tempo decorrido após o procedimento (GOULETSOU et al., 2020).

Balomenos, Gouletsou e Galatos (2023), por sua vez, acompanharam as incisões durante um período prolongado e verificaram melhora progressiva dos parâmetros cosméticos, clínicos, ultrassonográficos e histológicos avaliados. Não foram identificadas diferenças estatisticamente significativas entre o poliglecaprone 25 e o polipropileno nas avaliações realizadas, indicando que os dois materiais apresentaram comportamento semelhante nas condições experimentais do estudo.

Os resultados disponíveis demonstram, portanto, que a avaliação da sutura intradérmica não deve considerar apenas a aparência imediata da incisão. O processo de cicatrização sofre modificações ao longo do tempo, e características como reação tecidual, espessamento cutâneo, eritema, largura da cicatriz e alterações histológicas podem variar durante o período pós-operatório (BALOMENOS; GOULETSOU; GALATOS, 2023; GOULETSOU et al., 2020).

2.5 Vantagens e limitações

Entre as características consideradas favoráveis à utilização da sutura intradérmica estão a ausência de material de sutura exposto na superfície cutânea e, quando utilizados fios absorvíveis, a possibilidade de evitar a retirada dos pontos. A técnica também está associada à adequada aposição das bordas da pele quando executada corretamente (BALOMENOS; GOULETSOU; GALATOS, 2023).

Por outro lado, a técnica apresenta limitações. Sua execução pode ser mais demorada e tecnicamente mais exigente do que determinados padrões convencionais. Além disso, a qualidade do fechamento depende da correta inclusão da derme, da manutenção da tensão adequada e do posicionamento dos nós (GOULETSOU et al., 2020; IOCOLANO et al., 2026).

A escolha entre a sutura intradérmica e outros métodos de fechamento deve, portanto, considerar as características do procedimento, o material disponível, a experiência do cirurgião e as condições da ferida. Os estudos disponíveis não sustentam que uma única técnica seja universalmente superior em todas as situações. Os resultados variam de acordo com o padrão de sutura, material empregado e parâmetro utilizado para avaliar a cicatrização (GOULETSOU et al., 2020; REGIER; SMEAK; MCGILVRAY, 2019; BALOMENOS; GOULETSOU; GALATOS, 2023).

2.6 Aplicações em cães e gatos

A sutura intradérmica contínua é utilizada especialmente em procedimentos cirúrgicos eletivos de pequenos animais. Iocolano et al. (2026) descrevem sua utilização em procedimentos como ovariohisterectomia e orquiectomia em cães e gatos. O trabalho também ressalta que, embora seja uma técnica comum para o fechamento cutâneo, sua execução pode ser desafiadora e demandar mais tempo que algumas alternativas.

Em cães, estudos experimentais demonstraram resultados satisfatórios da técnica utilizando diferentes materiais de sutura. Entretanto, grande parte das evidências experimentais disponíveis concentra-se nessa espécie, sendo necessário considerar essa limitação ao extrapolar os resultados para gatos ou para diferentes condições clínicas. Dessa maneira, a aplicação da sutura intradérmica deve ser individualizada de acordo com o paciente, o procedimento e as características da incisão.

De forma geral, a literatura demonstra que a sutura intradérmica constitui uma alternativa viável para o fechamento cutâneo em pequenos animais. Entretanto, seus resultados estão relacionados à execução correta da técnica e à seleção adequada do material, sendo necessários conhecimento anatômico, controle da tensão e adequada aproximação das bordas dérmicas para obtenção de um fechamento satisfatório.

3. Metodologia

O presente trabalho consiste em uma revisão narrativa da literatura sobre a utilização da sutura intradérmica em cirurgias de pequenos animais. A pesquisa bibliográfica foi realizada por meio de bases de dados científicas, com ênfase no PubMed e na literatura disponível em periódicos especializados em cirurgia e medicina de pequenos animais.

Para a busca dos estudos, foram utilizados os termos “intradermal suture”, “intradermal skin closure”, “subcuticular suture”, “dogs”, “cats” e suas combinações. Foram priorizados artigos científicos publicados em periódicos especializados que abordassem a utilização da sutura intradérmica, os materiais empregados, aspectos técnicos da execução, cicatrização, características clínicas e possíveis complicações relacionadas ao fechamento cutâneo em cães e gatos.

Foram considerados estudos experimentais, estudos ex vivo e estudos clínicos relacionados ao tema, incluindo trabalhos que comparassem a sutura intradérmica com outros padrões de fechamento cutâneo ou diferentes materiais de sutura. Foram excluídos trabalhos que não apresentassem relação direta com o fechamento intradérmico em pequenos animais, bem como publicações sem informações suficientes para a análise do tema.

Após a seleção dos estudos, as informações foram organizadas de acordo com os seguintes aspectos: características da técnica intradérmica, execução do padrão de sutura, materiais utilizados, tempo de realização, cicatrização, resposta tecidual, resultados clínicos e limitações. Posteriormente, os dados foram analisados de forma descritiva e comparativa, buscando reunir as principais evidências disponíveis sobre a aplicação da sutura intradérmica na cirurgia de pequenos animais.

4. Discussão

Os estudos avaliados demonstram que a sutura intradérmica constitui uma alternativa para o fechamento cutâneo em cães e gatos, apresentando características distintas em relação às técnicas de sutura convencionais. Entretanto, os resultados encontrados não permitem considerar a técnica universalmente superior, uma vez que seu desempenho depende do material empregado, da execução do padrão e do parâmetro utilizado para avaliação.

Gouletsou et al. (2020) compararam a sutura intradérmica contínua com a sutura simples interrompida em cães e observaram diferenças relacionadas ao tempo necessário para a execução dos padrões. A sutura simples interrompida foi realizada em menor tempo, enquanto determinados parâmetros cosméticos, clínicos e histológicos favoreceram a utilização de uma das técnicas intradérmicas avaliadas. Esses resultados demonstram que a escolha do padrão deve considerar não apenas a rapidez de execução, mas também o objetivo do fechamento e as características da cicatrização.

A questão do tempo de realização também foi observada por Balomenos, Gouletsou e Galatos (2023). No estudo, o polipropileno utilizado com clipes apresentou execução mais rápida quando comparado ao poliglecaprone 25 com nós enterrados. Apesar dessa diferença, os autores não identificaram diferenças estatisticamente significativas entre os grupos nos parâmetros cosméticos, clínicos, ultrassonográficos e histológicos avaliados. Dessa forma, a escolha do material pode ser influenciada por características práticas da técnica sem necessariamente resultar em diferenças importantes na cicatrização.

Outro aspecto relevante é a seleção do fio de sutura. Os materiais apresentam propriedades mecânicas e comportamentos distintos. Regier, Smeak e McGilvray (2019), ao comparar uma sutura intradérmica convencional com uma sutura utilizando fio farpado unidirecional em modelos ex vivo de pele canina, observaram diferenças na resistência e na capacidade de vedação entre os materiais. Esses achados reforçam que a escolha do fio deve considerar suas propriedades e as necessidades específicas do procedimento.

Além do material, a execução correta da técnica é fundamental para a obtenção de adequada aposição das bordas cutâneas. Iocolano et al. (2026) destacam que a realização da sutura intradérmica enterrada exige atenção ao posicionamento da agulha, à inclusão apropriada da derme e à manutenção de tensão adequada ao longo da linha de sutura. Falhas nesses aspectos podem resultar em áreas de aposição inadequada e comprometer o fechamento da incisão.

A ausência de material exposto na superfície cutânea constitui uma das características da técnica intradérmica, especialmente quando são utilizados fios absorvíveis. Balomenos, Gouletsou e Galatos (2023) utilizaram poliglecaprone 25 com nós enterrados e polipropileno fixado por clipes, demonstrando que ambas as estratégias foram capazes de produzir fechamento adequado nas condições avaliadas. A utilização de material absorvível pode ainda evitar a necessidade de remoção posterior do fio, o que representa uma característica relevante em procedimentos nos quais se busca minimizar a manipulação da ferida no período pós-operatório.

Em relação à cicatrização, os trabalhos avaliados demonstram que os resultados devem ser interpretados considerando o período de acompanhamento. Gouletsou et al. (2020) observaram alterações nos parâmetros clínicos, cosméticos e histológicos ao longo do processo de cicatrização, enquanto Balomenos, Gouletsou e Galatos (2023) também identificaram modificações progressivas nos parâmetros avaliados durante o acompanhamento. Portanto, a avaliação imediata da incisão não é suficiente para determinar o resultado da técnica.

Apesar dos resultados favoráveis observados nos estudos, existem limitações importantes na literatura disponível. Parte das pesquisas foi realizada em condições experimentais, incluindo modelos ex vivo ou grupos relativamente pequenos de animais. Além disso, diferentes estudos empregaram materiais, padrões de sutura e métodos de avaliação distintos, dificultando a comparação direta entre os resultados.

Dessa maneira, a utilização da sutura intradérmica deve ser considerada dentro do contexto de cada procedimento cirúrgico. A localização da incisão, a tensão sobre a pele, o tipo de fio, a experiência do cirurgião e as condições individuais do paciente são fatores que podem interferir no resultado. Assim, a literatura disponível sustenta a utilização da técnica como uma alternativa para o fechamento cutâneo em pequenos animais, mas não permite estabelecer uma indicação única para todos os procedimentos.

5. Conclusão

A sutura intradérmica constitui uma alternativa para o fechamento cutâneo em cirurgias de pequenos animais, apresentando como principais características a permanência do fio no interior da derme e, quando empregados materiais absorvíveis, a possibilidade de evitar sua remoção após o procedimento.

Os estudos avaliados demonstram que diferentes materiais podem ser utilizados na técnica, apresentando diferenças quanto ao tempo de execução e às propriedades mecânicas, sem que necessariamente sejam observadas diferenças significativas na cicatrização. A adequada execução do padrão, especialmente quanto à inclusão da derme, à aposição das bordas e ao controle da tensão, é fundamental para o resultado do fechamento.

Embora a técnica apresente resultados satisfatórios em diferentes estudos, sua indicação deve ser individualizada de acordo com o procedimento cirúrgico, as características da incisão, o material disponível e a experiência do cirurgião. Além disso, são necessários estudos clínicos com maior número de animais e diferentes condições cirúrgicas para ampliar a evidência sobre a utilização da sutura intradérmica em cães e gatos.

Conclui-se, portanto, que a sutura intradérmica representa uma técnica aplicável à rotina cirúrgica de pequenos animais, mas sua escolha deve ser baseada nas características específicas de cada paciente e procedimento, e não na pressuposição de superioridade em relação aos demais padrões de fechamento cutâneo.

Referências

BALOMENOS, D. B.; GOULETSOU, P. G.; GALATOS, A. D. Comparison of absorbable and nonabsorbable sutures for intradermal skin closure in dogs. Veterinary Sciences, v. 10, n. 2, p. 105, 2023. DOI: 10.3390/vetsci10020105.

GOULETSOU, P. G.; PRASSINOS, N. N.; PAPAZOGLOU, L. G.; KOSTOULAS, P.; GALATOS, A. D. Comparison of continuous intradermal with simple interrupted suture pattern: an experimental study in dogs. Topics in Companion Animal Medicine, v. 41, p. 100454, 2020. DOI: 10.1016/j.tcam.2020.100454.

HAKIM, A. S.; MANSIA, Y. K.; BARTLE, T. Surgical wound reactions after ovariohysterectomy in dogs: comparing a knotless subcuticular suture technique to cruciate skin sutures for skin closure. New Zealand Veterinary Journal, v. 74, n. 4, p. 302–308, 2026. DOI: 10.1080/00480169.2026.2615840.

IOCOLANO, K. E.; JENNINGS, C.; FOLK, C. A.; LOPEZ, D. J. Six tips to improve apposition of the buried horizontal continuous intradermal suture pattern for skin closure in dogs and cats. Journal of the American Veterinary Medical Association, v. 264, n. 6, 2026. DOI: 10.2460/javma.25.11.0722.

REGIER, P. J.; SMEAK, D. D.; MCGILVRAY, K. C. Ex vivo comparison of intradermal closures with conventional monofilament suture vs unidirectional barbed suture in dogs. Veterinary Surgery, v. 48, n. 8, p. 1399–1405, 2019. DOI: 10.1111/vsu.13271

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