RESUMO
Objetivo: Analisar o uso precoce da toxina botulínica em procedimentos estéticos, destacando seus benefícios, riscos e implicações para a saúde e para os padrões de beleza socialmente construídos. Método: Revisão bibliográfica, de abordagem qualitativa e caráter exploratório, realizada nas bases SciELO, PubMed e LILACS via Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), utilizando os descritores “Toxina botulínica”; “Uso indiscriminado”; “Saúde pública”; “Segurança em procedimentos estéticos” (DeCS/MeSH). Foram incluídos estudos publicados entre 2020 e 2025 que abordassem o uso preventivo da toxina botulínica, com análise da eficácia, segurança e impacto estético. Resultados: A toxina botulínica tipo A mostrou-se eficaz na prevenção de rugas e no rejuvenescimento facial, com resultados naturais e duradouros quando aplicada em microdoses. Complicações leves, como dor, edema e assimetria, são frequentes, enquanto eventos graves são raros, reforçando a importância da técnica adequada e do conhecimento anatômico. O uso precoce (“Baby Botox”) carece de estudos a longo prazo, principalmente sobre efeitos fisiológicos e emocionais. Conclusão: O uso preventivo da toxina botulínica oferece benefícios estéticos, melhora a autoestima e contribui para o bem-estar dos pacientes. Contudo, é fundamental aplicação individualizada, conhecimento técnico do profissional e realização de pesquisas longitudinais para avaliar efeitos a longo prazo. O estudo contribui para orientar práticas seguras e conscientes na estética facial.
Palavras-chaves: Toxina botulínica, Segurança clínica, Efeitos adversos); Estética facial.
ABSTRACT
Objective: To analyze the early use of botulinum toxin in aesthetic procedures, highlighting its benefits, risks, and implications for health and socially constructed beauty standards. Method: A bibliographic review with a qualitative and exploratory approach was conducted using the SciELO, PubMed, and LILACS via the Virtual Health Library (VHL) databases, with the descriptors “Botulinum Toxin,” “Indiscriminate Use,” “Public Health,” and “Safety in Aesthetic Procedures” (DeCS/MeSH). Studies published between 2020 and 2025 addressing the preventive use of botulinum toxin, with an analysis of its efficacy, safety, and aesthetic impact, were included. Results: Botulinum toxin type A proved effective in wrinkle prevention and facial rejuvenation, delivering natural and long-lasting results when applied in microdoses. Mild complications, such as pain, edema, and asymmetry, are common, while severe events are rare, emphasizing the importance of proper technique and anatomical knowledge. Early use (“Baby Botox”) lacks long-term studies, particularly regarding physiological and emotional effects. Conclusion: Preventive use of botulinum toxin offers aesthetic benefits, improves self-esteem, and contributes to patient well-being. However, individualized application, technical expertise, and longitudinal studies are essential to assess long-term effects. This study contributes to guiding safe and responsible practices in facial aesthetics.
Keywords: (Botulinum toxin); (Clinical safety); (Adverse effects); (Facial aesthetics)
INTRODUÇÃO
A busca pelo padrão de beleza estabelecido socialmente tem levado um número cada vez maior de pessoas a recorrerem a tratamentos estéticos voltados ao rejuvenescimento, sobretudo facial. Ao longo dos anos, diversas alternativas surgiram no mercado com o propósito de retardar ou minimizar os sinais do envelhecimento, entre as quais se destaca a toxina botulínica (TB). No Brasil, observa-se o uso cada vez mais precoce da toxina botulínica, especialmente entre jovens adultos de 20 a 30 anos, como medida preventiva antes mesmo do surgimento das rugas (Freitas; Oliveira, 2021).
Nesse contexto, levanta-se a seguinte questão norteadora: de que maneira o uso indiscriminado da toxina botulínica, especialmente em faixas etárias mais jovens, pode impactar a saúde, a estética e os aspectos psicossociais dos indivíduos? A relevância desse estudo justifica-se diante do crescimento expressivo da procura por procedimentos estéticos e da necessidade de compreender não apenas os benefícios, mas também os riscos associados ao uso precoce e excessivo dessa substância.
Dessa forma, este trabalho tem como objetivo analisar o uso precoce da toxina botulínica em procedimentos estéticos, destacando seus benefícios, riscos e implicações para a saúde e para os padrões de beleza socialmente construídos.
MÉTODO
O presente estudo é uma revisão bibliográfica com abordagem exploratória de caráter qualitativo, a qual possibilitou uma análise abrangente sobre o uso indiscriminado da toxina botulínica e suas implicações na saúde. Esse método permite reunir, analisar e interpretar produções acadêmicas relacionadas ao tema, buscando identificar tendências, discussões e lacunas presentes na literatura. A abordagem qualitativa visa realizar uma análise crítica e interpretativa dos conteúdos, a fim de obter uma compreensão dos significados e contextos apresentados nos estudos (Cardoso; Oliveira; Ghelli, 2021).
Para a investigação, foram selecionados artigos científicos disponíveis em bases de dados reconhecidas, como Scientific Electronic Library Online (SciELO), PubMed e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), além de manuais, diretrizes e documentos oficiais emitidos por órgãos como o Ministério da Saúde e a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Para a seleção dos estudos, foram utilizadas as seguintes palavras-chave: Toxina botulínica; Uso indiscriminado; Saúde pública; Segurança em procedimentos estéticos. Como critérios de inclusão, foram priorizadas publicações dos últimos cinco anos (2020– 2025), garantindo informações recentes e alinhadas às práticas clínicas, regulamentações e políticas de saúde. Também foram priorizados documentos que apresentassem dados ou evidências sobre complicações associadas ao uso inadequado, estratégias de prevenção e diretrizes de boas práticas no uso da toxina botulínica. Além disso, foram consideradas revisões sistemáticas, estudos de caso e pesquisas sobre efeitos clínicos e impactos estéticos.
Foram descartados os estudos que tinham foco em substâncias estéticas diferentes da toxina botulínica, artigos de opinião e estudos duplicados. A análise dos dados partiu da interpretação das evidências encontradas na literatura, relacionando-as às normas e diretrizes vigentes para a segurança em saúde e prática clínica.
Para a apresentação dos dados, foi elaborado um quadro no Microsoft Word com as informações dos estudos selecionados, organizado em colunas de Autor/Ano, Título, Objetivo e Principais Resultados. Essa organização permite uma visualização comparativa das pesquisas, facilitando a identificação de tendências, lacunas e contribuições sobre o uso da toxina botulínica no meio estético.
Quanto aos aspectos éticos, todas as citações diretas ou indiretas estão devidamente referenciadas segundo as normas disponibilizadas no manual da revista. Não foi necessária a aprovação por comitê de ética em pesquisa, pois o estudo se baseou exclusivamente em revisão bibliográfica, sem experimentação direta com seres humanos.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A partir da busca inicial, foram identificados 56 artigos na LILACS, 631 na PubMed e 378 no SciELO relacionados à aplicação da toxina botulínica em procedimentos estéticos, suas complicações e uso preventivo no aparecimento de rugas. Após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, o número de publicações foi reduzido para somente onze artigos (BVS= 04, PubMed=05, SciELO= 02), os quais foram lidos, analisados e utilizados para compor a revisão bibliográfica, fornecendo dados sobre eficácia, segurança, técnicas de aplicação e repercussões na autoestima e bem-estar dos pacientes (Figura 1).
Figura 1 - Fluxograma da seleção dos artigos
Fonte: Elaborado pelos autores
O Quadro 1 a seguir apresenta a categorização detalhada dos estudos selecionados, utilizados como base para a análise e discussão, destacando objetivos, principais resultados e contribuições de cada pesquisa para a compreensão do uso precoce da toxina botulínica em procedimentos estéticos para evitar marcas do envelhecimento como marcas de expressão e rugas.
Quadro 1 – Categorização dos estudos
A partir dos resultados encontrados, compreende-se que a toxina botulínica tipo A (TXB-A) é uma neurotoxina produzida pela bactéria Clostridium botulinum, cujo mecanismo de ação envolve o bloqueio da liberação de acetilcolina nas terminações nervosas colinérgicas. Esse processo ocorre por meio da inibição de proteínas envolvidas na fusão das vesículas sinápticas, reduzindo a transmissão neuromuscular e, consequentemente, a contração dos músculos tratados. Na aplicação estética, essa redução da atividade muscular contribui para a suavização temporária de linhas de expressão relacionadas à movimentação facial (Affonso et al., 2024).
Desde sua introdução na prática clínica, a toxina botulínica passou a ser utilizada em diferentes condições médicas e, posteriormente, ampliou sua aplicação para fins estéticos. Inicialmente empregada no tratamento do estrabismo, sua utilização foi expandida para diversas indicações terapêuticas e cosméticas, devido à capacidade de promover redução localizada e temporária da atividade muscular (Rocha; Baiense, 2023).
No contexto estético, a aplicação da toxina botulínica é realizada por meio de injeções intramusculares ou intradérmicas em pontos previamente definidos, de acordo com a avaliação individual do paciente, considerando aspectos anatômicos, funcionais e o padrão de contração muscular. O procedimento apresenta início de ação geralmente entre três e quatro dias após a aplicação, com efeito máximo em aproximadamente duas semanas e duração média de três a seis meses. Dessa forma, a manutenção dos resultados depende de novas aplicações, realizadas de acordo com a avaliação clínica e a resposta individual ao tratamento (Pimentel; Andrade, 2023).
O mecanismo de ação da TXB-A inicia-se após sua ligação aos receptores presentes no terminal pré-sináptico, seguida da internalização da toxina e da inibição da liberação de acetilcolina. Dessa forma, ocorre interrupção temporária da transmissão neuromuscular, sem impedir a produção da substância. Após determinado período, a atividade neuromuscular é gradualmente restabelecida, estando esse processo relacionado à formação de novos brotamentos nervosos e à recuperação funcional das terminações nervosas (Affonso et al., 2024).
A literatura analisada demonstra resultados favoráveis da TXB-A principalmente na redução temporária de linhas de expressão relacionadas à atividade muscular. Entretanto, é necessário distinguir esse efeito terapêutico da hipótese de prevenção do aparecimento futuro de rugas. A diminuição de linhas faciais já presentes após a aplicação não constitui, isoladamente, evidência de que o procedimento impeça ou retarde o surgimento de novas rugas em indivíduos que ainda não apresentam sinais visíveis de envelhecimento. Portanto, embora a finalidade preventiva seja frequentemente associada ao uso precoce da TXB-A, a comprovação de seus benefícios em médio e longo prazo permanece limitada (Rocha; Baiense, 2023; Freitas et al., 2025).
Nesse contexto, o termo “Baby Botox” é utilizado na prática estética para caracterizar aplicações de TXB-A realizadas em indivíduos mais jovens, frequentemente associadas ao emprego de menores quantidades do produto e à busca por resultados sutis. Entretanto, essa expressão não corresponde a uma classificação clínica padronizada e não estabelece, por si só, uma idade específica, dose determinada ou indicação preventiva. Assim, para fins desta discussão, é mais adequado diferenciar os conceitos de uso precoce e uso preventivo. O uso precoce refere-se à realização do procedimento em indivíduos jovens, enquanto o uso preventivo corresponde à aplicação com a finalidade declarada de retardar ou evitar o aparecimento futuro de rugas, especialmente quando os sinais de envelhecimento ainda são pouco evidentes (Freitas et al., 2025).
Conforme explicado por Freitas e Oliveira (2021), as rugas faciais estão relacionadas, entre outros fatores, à repetição dos movimentos musculares ao longo do tempo. Nesse contexto, a TXB-A reduz temporariamente a atividade muscular e pode promover a suavização das linhas de expressão. As regiões mais frequentemente tratadas incluem testa, glabela e região periocular, além de outras áreas faciais selecionadas de acordo com a avaliação individual. Segundo Faria, Suguihara e Muknicka (2023), pacientes submetidos a aplicações repetidas podem apresentar satisfação com os resultados e intervalos diferenciados entre os procedimentos, embora a duração do efeito possa variar de acordo com características individuais, técnica utilizada e resposta ao tratamento.
As alterações relacionadas ao envelhecimento cutâneo envolvem modificações progressivas na estrutura e na função da pele, incluindo redução da atividade dos fibroblastos, alterações na produção de colágeno e elastina e diminuição da capacidade de renovação celular. Essas mudanças podem favorecer a perda gradual de elasticidade, firmeza e hidratação, contribuindo para o aparecimento de linhas finas e rugas, especialmente em regiões de maior mobilidade facial (Pimentel; Andrade, 2023). Entretanto, esses processos não são completamente interrompidos pela aplicação da TXB-A, uma vez que seu mecanismo de ação está relacionado principalmente à redução temporária da atividade muscular.
Dessa forma, a indicação do procedimento não deve ser determinada exclusivamente pela idade cronológica. Características individuais, padrão de movimentação muscular, presença de linhas de expressão, expectativas do paciente e avaliação clínica devem ser considerados na decisão terapêutica. Embora a procura pelo procedimento possa ocorrer a partir da terceira década de vida, a literatura analisada não estabelece uma idade universal para início das aplicações com finalidade estética (Pimentel; Andrade, 2023).
Lima, Rodrigues e Butzke (2023) destacam que a TXB-A apresenta perfil de segurança favorável quando utilizada adequadamente, sendo a maioria dos eventos adversos descritos de caráter leve e transitório. Os autores também relatam resultados satisfatórios relacionados ao rejuvenescimento facial e à suavização das linhas de expressão. A utilização de menores quantidades de toxina pode ser empregada com o objetivo de preservar a movimentação facial e produzir resultados mais sutis, especialmente em regiões como testa e área periocular.
Pimentel e Andrade (2023) relatam que a aplicação da TXB-A pode apresentar resultados perceptíveis poucos dias após o procedimento, com duração aproximada de três a seis meses. Entretanto, a necessidade de reaplicação deve ser avaliada individualmente, não sendo adequado estabelecer a manutenção como uma regra fixa para todos os pacientes. Além disso, a repetição do procedimento não deve ser interpretada como evidência de prevenção do envelhecimento cutâneo, uma vez que a toxina atua predominantemente sobre a atividade muscular e não sobre todos os mecanismos envolvidos no envelhecimento da pele.
Apesar dos resultados favoráveis relacionados à redução das linhas de expressão, o uso precoce e repetido da TXB-A apresenta aspectos que ainda requerem investigação. Freitas et al. (2025) apontam possíveis consequências relacionadas à diminuição excessiva da atividade muscular, incluindo alterações na expressão facial e possível atrofia muscular. Também é descrita a possibilidade de formação de anticorpos neutralizantes em alguns indivíduos, o que pode reduzir a resposta ao tratamento. Esses aspectos reforçam a necessidade de avaliar a indicação, a dose e a frequência das aplicações individualmente.
No que se refere à pele, a TXB-A também apresenta limitações quanto ao seu mecanismo de ação. Embora a redução da movimentação muscular possa diminuir a aparência de linhas dinâmicas, a toxina não promove diretamente a reposição de componentes estruturais da pele, como colágeno e elastina. Dessa maneira, outros processos relacionados ao envelhecimento cutâneo continuam ocorrendo, podendo resultar em alterações de textura, flacidez e perda de volume que não são corrigidas exclusivamente pela aplicação da toxina (Freitas; Oliveira, 2021).
Em relação às complicações, Santos e Andrade (2023) e Almeida e Couto (2023) destacam que, embora sejam pouco frequentes quando o procedimento é realizado adequadamente, algumas intercorrências podem apresentar maior gravidade. Por esse motivo, o conhecimento da anatomia facial, a avaliação individualizada, a seleção adequada dos pontos de aplicação e o domínio da técnica são aspectos relevantes para reduzir os riscos associados ao procedimento.
Os achados de Mafra et al. (2026), em uma revisão integrativa da literatura que analisou 12 estudos, dos quais cinco abordavam a TXB-A, também evidenciam a ocorrência de diferentes eventos adversos relacionados aos procedimentos estéticos faciais. Entre as complicações associadas à aplicação da TXB-A foram descritas ptose palpebral, cefaleia, dor no local da aplicação, assimetria facial e paralisia muscular. A revisão também identificou relatos de reações alérgicas graves, incluindo anafilaxia, embora esses eventos apresentem características e frequências distintas. Esses achados demonstram que, apesar do perfil de segurança geralmente favorável da TXB-A, a aplicação não está isenta de riscos.
As complicações relacionadas à aplicação da TXB-A podem variar em intensidade e localização. Entre os eventos descritos na literatura estão dor, edema, assimetria, equimose, hematoma e infecção. Também podem ocorrer complicações relacionadas à difusão da toxina para estruturas próximas, como ptose palpebral, alterações da posição das sobrancelhas, lagoftalmo, ectrópio, xeroftalmia, estrabismo e diplopia. A ocorrência dessas intercorrências está relacionada, entre outros fatores, à região tratada, à dose utilizada, à técnica de aplicação e às características individuais do paciente (Faria; Suguihara; Muknicka, 2023; Santos; Andrade, 2023; Freitas; Oliveira, 2021).
Segundo Affonso et al. (2024), as aplicações cosméticas de TXB-A nas regiões glabelar e frontal apresentam perfil de segurança favorável, sendo a maioria das complicações relatadas de caráter leve e transitório. Os autores identificaram ocorrência geral de complicações de 16%, sem diferenças significativas entre as formulações avaliadas. Esse resultado reforça que, embora a maioria das intercorrências seja de menor gravidade e transitória, a possibilidade de ocorrência de eventos adversos deve ser considerada durante a avaliação do procedimento.
Faria, Suguihara e Muknicka (2023) ressaltam a importância da avaliação da musculatura facial em repouso e movimento, do registro fotográfico prévio, da delimitação adequada das áreas de aplicação e da utilização de doses compatíveis com o objetivo terapêutico. O reconhecimento precoce das intercorrências também permite a adoção de medidas específicas de manejo. Dessa forma, a prevenção das complicações está relacionada tanto à técnica empregada quanto à avaliação anatômica e funcional realizada antes do procedimento.
Em relação à finalidade preventiva, os resultados analisados devem ser interpretados com cautela. Embora a redução da atividade muscular possa diminuir temporariamente a formação ou a intensificação de determinadas linhas dinâmicas, os estudos que demonstram melhora de rugas faciais já existentes não permitem concluir, por si só, que a aplicação da TXB-A em indivíduos sem rugas visíveis impeça o desenvolvimento futuro dessas alterações. A ausência de estudos longitudinais suficientes sobre indivíduos submetidos ao procedimento exclusivamente com finalidade preventiva limita a possibilidade de estabelecer benefícios de longo prazo (Pimentel; Andrade, 2023; Freitas et al., 2025).
No aspecto psicológico, o interesse pelo uso precoce da TXB-A pode estar relacionado à preocupação com a aparência e à percepção dos primeiros sinais de envelhecimento. Entretanto, a satisfação do paciente com o resultado estético não deve ser interpretada diretamente como evidência de melhora da autoestima, da confiança ou da percepção da autoimagem (Mafra et al., 2026).
Embora estudos possam relatar satisfação após o procedimento, ainda são limitadas as evidências sobre os efeitos psicológicos em médio e longo prazo, especialmente entre indivíduos jovens que realizam aplicações com finalidade preventiva. Assim, estudos com acompanhamento prolongado e instrumentos específicos de avaliação psicológica são necessários para estabelecer possíveis relações entre o procedimento e esses desfechos (Freitas et al., 2025).
Em termos sociais e culturais, Souza e Avelino (2025) apontam que a expansão do uso precoce da toxina botulínica está relacionada às discussões sobre padrões contemporâneos de beleza e à valorização da aparência jovem. A crescente disponibilidade de procedimentos estéticos pode influenciar a percepção individual sobre o envelhecimento e sobre a necessidade de intervenções para modificar características consideradas naturais desse processo. Entretanto, essas questões não devem ser interpretadas exclusivamente a partir dos resultados clínicos do procedimento, sendo necessário considerar também as expectativas individuais, a influência sociocultural e o contexto no qual a decisão pela intervenção é tomada (Freitas et al., 2025; Santos; Andrade, 2023).
Diante dos resultados analisados, observa-se que a TXB-A apresenta evidências favoráveis para a redução temporária de linhas de expressão associadas à atividade muscular e possui perfil de segurança geralmente favorável quando utilizada de maneira adequada. Entretanto, as evidências disponíveis não permitem equiparar esses resultados à comprovação de prevenção do envelhecimento facial em indivíduos jovens sem rugas. Da mesma forma, a satisfação estética não deve ser considerada, isoladamente, como demonstração de benefício psicológico. Assim, o uso precoce ou preventivo da TXB-A deve ser compreendido como uma prática cuja indicação requer avaliação individualizada, considerando objetivos, características clínicas, expectativas e possíveis riscos. A realização de estudos longitudinais, especialmente com indivíduos que iniciam o tratamento antes do aparecimento de sinais expressivos de envelhecimento, poderá ampliar a compreensão sobre seus efeitos em médio e longo prazo (Lima; Rodrigues; Butzke, 2023; Freitas et al., 2025).
CONCLUSÃO
O presente estudo alcançou seu objetivo ao analisar o uso precoce da toxina botulínica tipo A (TXB-A) em procedimentos estéticos, abordando seus efeitos, riscos e implicações relacionadas à saúde e aos padrões de beleza contemporâneos. Os achados indicam que a TXB-A apresenta eficácia na redução temporária de linhas de expressão associadas à atividade muscular e perfil de segurança geralmente favorável quando utilizada de forma adequada e mediante avaliação individualizada. Entretanto, as evidências analisadas não permitem afirmar de forma conclusiva que sua utilização precoce previna o surgimento futuro de rugas em indivíduos que ainda não apresentam sinais visíveis de envelhecimento. Da mesma forma, a satisfação com os resultados estéticos não deve ser interpretada como comprovação de melhora da autoestima ou da percepção da autoimagem.
O estudo apresenta limitações relacionadas à quantidade de trabalhos disponíveis sobre o uso preventivo da TXB-A e, principalmente, à escassez de pesquisas longitudinais que acompanhem indivíduos submetidos ao procedimento com essa finalidade. Essa limitação restringe a compreensão dos possíveis efeitos clínicos, psicológicos e sociais associados à utilização contínua da toxina ao longo dos anos, especialmente entre pessoas jovens e com poucos sinais de envelhecimento. Dessa forma, os resultados devem ser interpretados considerando as características e limitações dos estudos analisados.
Os achados contribuem para a discussão sobre o uso precoce da TXB-A ao reunir evidências relacionadas à sua aplicação estética, aos possíveis eventos adversos e às limitações existentes quanto à finalidade preventiva. Ressalta-se a necessidade de avaliação individualizada, orientação adequada e utilização criteriosa do procedimento, considerando seus benefícios conhecidos e as incertezas relacionadas aos efeitos em médio e longo prazo. Para futuras pesquisas, recomenda-se a realização de estudos longitudinais que avaliem especificamente indivíduos submetidos à TXB-A com finalidade preventiva, contemplando desfechos clínicos, satisfação estética, aspectos psicológicos e repercussões sociais.
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