Histerectomia por condições ginecológicas benignas e sua relação com as disfunções do assoalho pélvico em mulheres: uma revisão narrativa da literatura
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
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RESUMO

Introdução: A histerectomia é uma opção de tratamento para condições ginecológicas benignas. Os estudos sobre seus efeitos no assoalho pélvico apresentam resultados diferentes conforme a população, a medida avaliada e o tempo de acompanhamento. Objetivo: Descrever as possíveis repercussões da histerectomia por condições ginecológicas benignas sobre a função do assoalho pélvico feminino, com ênfase nas alterações urinárias e no prolapso de órgãos pélvicos (POP). Materiais e métodos: Revisão narrativa descritiva de artigos publicados entre 2016 e 2026, identificados em PubMed/MEDLINE, BVS/LILACS, SciELO e PEDro, com consulta complementar ao Portal CAPES. Foram consideradas 44 publicações, das quais 27 estudos originais integraram a análise. Os resultados foram organizados em quatro eixos: urinário, prolapso, função objetiva e anorretal/defecatório. Resultados: Predominaram estudos observacionais. Registros de longo prazo identificaram associações com cirurgia posterior por incontinência urinária de esforço e POP. Estudos clínicos também registraram melhora, estabilidade ou aparecimento de novos sintomas. As comparações entre vias cirúrgicas não apontaram superioridade uniforme. Medidas musculares diretas e resultados intestinais foram menos estudados. Conclusão: Os resultados variaram conforme o estado pré-operatório, a indicação cirúrgica, o instrumento e o tempo de acompanhamento. Não demonstram piora funcional uniforme nem comprovam que a cirurgia seja a causa das alterações. Para a Fisioterapia, sustentam uma avaliação que reúna sintomas, impacto na vida diária e medidas objetivas, além da necessidade de estudos prospectivos com melhor controle dos fatores que podem influenciar as associações.

Palavras-chave: histerectomia; incontinência urinária; assoalho pélvico; prolapso de órgãos pélvicos; Ciências da Saúde.

ABSTRACT

Background: Hysterectomy is a treatment option for benign gynecological conditions. Studies of its pelvic floor effects report different results depending on the population, outcome assessed and follow-up duration. Objective: To describe potential pelvic floor repercussions following hysterectomy for benign gynecological conditions, emphasizing urinary changes and pelvic organ prolapse (POP). Methods: A descriptive narrative review of articles published between 2016 and 2026, identified through PubMed/MEDLINE, BVS/LILACS, SciELO and PEDro, with supplementary consultation of the CAPES Portal. Forty-four publications were considered, and 27 original studies were included in the analysis. Results were organized into four domains: urinary outcomes, prolapse, objective function, and anorectal/defecatory outcomes. Results: Observational studies predominated. Long-term registry studies identified associations with subsequent surgery for stress urinary incontinence and POP. Clinical studies also reported improvement, stability or new-onset symptoms. Comparisons between surgical routes showed no consistent superiority. Direct muscle assessments and bowel outcomes were less frequently studied. Conclusion: Results varied according to preoperative status, surgical indication, assessment instrument and follow-up duration. They do not demonstrate uniform functional deterioration or establish that surgery causes the changes. For physiotherapy, the findings support an assessment combining symptoms, daily-life impact and objective measures, alongside prospective studies with better control of factors that may influence the associations.

Keywords: hysterectomy; urinary incontinence; pelvic floor; pelvic organ prolapse; Health Sciences.

1 INTRODUÇÃO

Miomas uterinos, endometriose, adenomiose e sangramento uterino anormal estão entre as condições que podem motivar tratamento ginecológico. Os miomas são tumores benignos do útero e podem causar sangramento intenso, dor e pressão na região pélvica. Em algumas mulheres, também se relacionam a alterações urinárias ou intestinais (Giuliani; As-Sanie; Marsh, 2020).

A endometriose envolve tecido semelhante ao endométrio fora do útero; na adenomiose, esse tecido está no miométrio, a camada muscular uterina. Ambas podem apresentar manifestações dolorosas (International Working Group of AAGL, ESGE, ESHRE and WES, 2021). O sangramento uterino anormal, por sua vez, corresponde a mudanças na quantidade, duração, frequência ou regularidade do sangramento menstrual. Como pode ter diferentes causas, exige investigação da condição responsável (Lebduska; Beshear; Spataro, 2023).

O tratamento pode incluir acompanhamento clínico, medicamentos e procedimentos cirúrgicos, inclusive alternativas que preservam o útero. A escolha considera a condição ginecológica, a intensidade dos sintomas e as necessidades de cada mulher. A histerectomia consiste na retirada cirúrgica do útero e é uma das opções para algumas dessas condições. Pode ser realizada pelas vias abdominal, vaginal ou laparoscópica, esta última também com assistência robótica. A técnica é escolhida conforme as características clínicas do caso e a avaliação da equipe responsável.

As mudanças nas estruturas pélvicas após a cirurgia motivaram estudos sobre a função do assoalho pélvico. Entre os resultados investigados estão a incontinência urinária, ou perda involuntária de urina, os sintomas do trato urinário inferior, o prolapso de órgãos pélvicos, que envolve a descida desses órgãos, e a função dos músculos dessa região (Kuittinen et al., 2023; Chen et al., 2025).

Esta revisão narrativa tem como objetivo descrever as possíveis repercussões da histerectomia por condições ginecológicas benignas sobre a função do assoalho pélvico feminino, com ênfase nas alterações urinárias e no prolapso de órgãos pélvicos.

2 MATERIAIS E MÉTODOS

Foi realizada uma revisão narrativa da literatura, de caráter descritivo, para reunir e analisar estudos sobre a função do assoalho pélvico após histerectomia por condições ginecológicas benignas.

2.1 Fontes e estratégias de busca

As fontes consultadas foram PubMed/MEDLINE, Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), com seleção da coleção LILACS, SciELO e PEDro. O Portal de Periódicos CAPES foi utilizado como fonte complementar. Foram consideradas publicações de 2016 até as datas das consultas em 2026, nos idiomas português, inglês ou espanhol.

A organização da seleção foi registrada em 28 de agosto de 2026, e o conjunto foi fechado em 31 de agosto. As buscas foram conferidas em 15 de setembro de 2026.

As buscas combinaram termos para a cirurgia — hysterectomy, histerectomia e histerectomía — com termos para os resultados de interesse, chamados de desfechos nos estudos: pelvic floor, assoalho pélvico, suelo pélvico, urinary incontinence, stress urinary incontinence, incontinência urinária, pelvic organ prolapse, prolapso de órgãos pélvicos, lower urinary tract symptoms, constipation, defecatory symptoms e fecal incontinence.

O operador AND relacionou a cirurgia aos desfechos, e OR reuniu termos equivalentes ou relacionados. As combinações foram adaptadas aos recursos de cada fonte. O Quadro 1 apresenta as combinações e os filtros registrados. Na PEDro, a expressão adaptada foi “hysterectomy AND incontinence”.

Na conferência de 15 de setembro, foram registrados 3.067 resultados no PubMed, com filtros de período, humanos e sexo feminino; 41 na BVS/LILACS, com seleção da coleção e do período; e três na PEDro, para publicações desde 2016. SciELO e CAPES foram consultados com várias combinações, sem um total único consolidado. Essas contagens descrevem as consultas por fonte e não foram somadas. O percurso dos 44 registros considerados na seleção está no Quadro 2 e na Figura 1.

2.2 Critérios de seleção e população analisada

Foram selecionados estudos originais, no período e nos idiomas definidos, com resultados sobre mulheres submetidas à histerectomia por condições ginecológicas benignas. Os artigos deveriam apresentar pelo menos um desfecho urinário, de POP, de função objetiva ou biomecânica do assoalho pélvico, ou anorretal e defecatório. Revisões, publicações sem esses resultados e estudos de câncer ou histerectomia radical sem subgrupo benigno separável ficaram fora da análise principal.

Quando o artigo permitia separar os grupos, foram utilizados os resultados pertinentes ao objetivo da revisão. Isso ocorreu com a histerectomia simples benigna de Selcuk et al. (2016), as mulheres sem POP como indicação em Lykke et al. (2017) e Vermeulen et al. (2021), e o grupo de outras indicações benignas não relacionadas a POP ou incontinência urinária de Kuittinen et al. (2026), denominado non-POPUI.

A interpretação considerou tanto a indicação da histerectomia quanto os procedimentos realizados junto com ela. Sempre que os dados permitiram, os resultados de mulheres operadas por POP ou submetidas a cirurgias associadas para POP ou incontinência foram distinguidos dos demais. A Tabela 1 informa a população de cada estudo e o detalhamento disponível desses procedimentos.

Alguns artigos incluíram populações que não correspondem integralmente ao recorte de condições benignas sem POP. Bohlin et al. (2017) incluíram POP como indicação, mas excluíram cirurgias associadas para POP ou incontinência. He et al. (2016) incluíram neoplasia intraepitelial cervical grau 3 (CIN3), uma alteração pré-cancerosa do colo do útero, e hiperplasia não especificada. Hiperplasia significa aumento do número de células de um tecido. Forsgren e Johannesson (2025) incluíram displasia cervical, isto é, alterações nas células do colo do útero, e hiperplasia. Esses artigos foram mantidos para contextualizar a evolução dos sintomas em populações predominantemente não oncológicas. CIN3 e displasia cervical não foram consideradas condições benignas clássicas; os resultados desses grupos mistos não foram apresentados como estimativas exclusivas de mulheres operadas por condições benignas sem POP.

2.3 Seleção e priorização das publicações

A seleção considerou 44 publicações: duas revisões utilizadas na conferência bibliográfica e 42 estudos originais. Entre os estudos originais, sete foram utilizados como apoio à avaliação do tema e um foi excluído. Restaram 34 publicações candidatas à síntese. A escolha entre publicações relacionadas levou aos 27 artigos analisados. O Quadro 2 apresenta as quantidades por origem de identificação, a Figura 1 mostra as etapas e o Apêndice A identifica as sete candidatas não selecionadas e as razões das escolhas.

A escolha entre publicações relacionadas considerou o tempo de acompanhamento e os desfechos abordados. Na coorte Forsgren, foi mantido o acompanhamento mais longo; na FINHYST 2006, a avaliação de vários componentes aos dez anos; e na POP-UP, a publicação principal sobre POP e vias cirúrgicas. Nos registros de Taiwan, foi escolhida a análise de sintomas do trato urinário inferior; nos da Coreia, a de bexiga hiperativa. Essas decisões delimitam os temas representados na revisão e não constituem uma classificação formal da qualidade dos artigos.

Publicações que usam o mesmo registro não foram automaticamente consideradas duplicatas, pois a fonte comum não comprova que as participantes sejam as mesmas. Os 27 artigos foram contados como publicações, sem presumir 27 populações independentes. Os tamanhos das amostras não foram somados.

2.4 Extração e síntese dos resultados

De cada estudo, foram extraídos autor e ano, país, tipo de estudo, amostra, indicação, via ou técnica cirúrgica, grupos de comparação, tempo de acompanhamento, instrumentos, desfechos e principais resultados. A extração foi realizada a partir dos artigos e dos materiais científicos disponíveis. Foram diferenciadas mulheres incluídas, respondentes e subgrupos, mantendo a base de cálculo de cada resultado.

A síntese foi organizada em quatro eixos: alterações urinárias e sintomas do trato urinário inferior; POP; função objetiva, muscular ou biomecânica; e alterações anorretais ou defecatórias. As comparações consideraram a condição antes da cirurgia, a indicação, os procedimentos associados, o instrumento e o tempo de acompanhamento.

Não foi realizada metanálise, isto é, combinação estatística dos resultados dos estudos. Também não houve classificação formal do risco de viés — possibilidade de distorções nos resultados — ou da certeza da evidência. As Tabelas 1 e 2 apresentam os 27 artigos analisados. As demais referências fundamentam a introdução ou identificam publicações relacionadas à seleção, sem acrescentar estudos à amostra analisada.

3 RESULTADOS

A análise incluiu 27 artigos publicados entre 2016 e 2026, conduzidos em 12 países, com maior representação da Dinamarca e da Turquia. Predominaram estudos observacionais, incluindo coortes clínicas, que acompanham grupos de mulheres, e análises de registros populacionais. Três artigos foram descritos como ensaios clínicos randomizados. Neles, o sorteio definiu a via cirúrgica ou a técnica de fechamento da cúpula vaginal, e não a realização da histerectomia em comparação à ausência de cirurgia.

As amostras variaram de pequenas coortes a grandes registros nacionais. O número de mulheres incluídas nem sempre correspondia ao de respondentes ou ao dos subgrupos analisados. As avaliações ocorreram desde 6–8 semanas até mais de quatro décadas em alguns registros. A Tabela 1 apresenta as características dos estudos, e a Tabela 2 reúne seus resultados e a interpretação adotada nesta revisão.

Abreviaturas clínicas: AP, assoalho pélvico; IU, incontinência urinária; IUE, incontinência urinária de esforço; POP, prolapso de órgãos pélvicos; LUTS, sintomas do trato urinário inferior; OAB, bexiga hiperativa; PVR, resíduo pós-miccional, ou urina que permanece na bexiga após urinar; Qmax, fluxo urinário máximo; sEMG, eletromiografia de superfície, que registra a atividade elétrica muscular; POP-Q, sistema de quantificação do prolapso de órgãos pélvicos.

Medidas estatísticas: HR, razão de riscos instantâneos, medida que compara o risco de ocorrência de um evento ao longo do acompanhamento; aHR, essa razão após ajuste para fatores considerados no estudo; IC95%, intervalo de confiança de 95%, que expressa a precisão da estimativa. Um resultado sem diferença estatisticamente significativa não comprova que os grupos sejam equivalentes. Mediana é o valor central de um conjunto de valores ordenados.

Instrumentos: PFDI-20, inventário de incômodo por disfunções pélvicas; PFIQ-7, questionário de impacto dessas disfunções; UDI-6, inventário de sintomas urinários; IIQ-7, questionário de impacto da incontinência; ICIQ-FLUTS, questionário de sintomas do trato urinário inferior feminino; ICIQ-VS, questionário de sintomas vaginais. As escalas Wexner de constipação e de incontinência anal medem resultados diferentes. Nos tipos de estudo, prospectivo indica acompanhamento planejado a partir de uma avaliação inicial; retrospectivo utiliza dados anteriores. Pareamento aproxima grupos segundo características consideradas no estudo; randomização é a distribuição por sorteio.

Técnicas e grupos: TAH/AH, histerectomia abdominal total/abdominal; TLH/LH, histerectomia laparoscópica total/laparoscópica; VH, vaginal; NDVH, vaginal sem descenso (sem descida do útero); LAVH, vaginal assistida por laparoscopia; vNOTES, cirurgia endoscópica transluminal por orifício natural via vaginal; TCRE, ressecção transcervical do endométrio; non-POPUI, outras indicações benignas sem POP/IU; HUH, Helsinki University Hospital; FINHYST, coorte finlandesa de histerectomia. Nas tabelas, “de novo” indica sintomas novos, ausentes antes da cirurgia; “basal” indica a avaliação inicial. Histerectomia total retira útero e colo; a subtotal mantém o colo. “vs.” significa comparação entre os grupos.

3.1 Repercussões urinárias e sintomas do trato urinário inferior

Os estudos de registros identificaram associações com diferentes eventos urinários. Christoffersen et al. (2023) observaram maior risco de cirurgia posterior por IUE, com aHR de 2,6 (IC95% 2,4–2,8). Li, Huang e Ding (2019) encontraram maior ocorrência de LUTS de novo, ou seja, sintomas novos em mulheres sem esses sintomas antes da cirurgia, com aHR de 1,57 (IC95% 1,46–1,70).

O aparecimento de IU também foi registrado em estudos que compararam vias cirúrgicas ou acompanharam a evolução dos sintomas. Atakul et al. (2019) relataram IU de novo em 20,9% das participantes, sem diferença significativa entre as vias abdominal e vaginal. Bohlin et al. (2017) observaram novos casos, desaparecimento de sintomas prévios e persistência de IU. As porcentagens desse estudo correspondem a categorias e bases de cálculo próprias, em uma população que também incluía POP como indicação.

As associações não foram iguais para todos os desfechos urinários. Yuk e Lee (2023) não identificaram aumento significativo de bexiga hiperativa, com ocorrência de 0,3% em cada grupo. Christiansen et al. (2017) também não observaram diferença significativa na prevalência ou incidência de IU em 10–13 anos. A prevalência descreve a proporção de mulheres com o sintoma em determinado momento; a incidência se refere ao aparecimento de novos casos.

Pålsson et al. (2017) mostraram que uma comparação global pode esconder diferenças em subgrupos. Não houve diferença global de LUTS entre procedimentos em grupos com tamanho uterino comparável. Entretanto, entre mulheres com tamanho uterino equivalente a ≤8 semanas gestacionais, a IU de novo ocorreu em 7,6% após histerectomia e em 3,2% após histeroscopia. O estudo também registrou melhora dos sintomas já presentes antes da cirurgia.

A melhora dos sintomas e de seu impacto foi registrada em diferentes estudos clínicos. Hsiao et al. (2025) observaram redução das pontuações UDI-6 e IIQ-7 no primeiro ano. Ekanayake et al. (2020) relataram melhora urinária nas três vias avaliadas, sem diferença significativa entre elas. Em Forsgren e Johannesson (2025), o impacto urinário na vida diária diminuiu, mas não houve redução significativa de IUE ou IU de urgência.

Nas comparações específicas, Peker et al. (2026) não detectaram diferença na mudança do UDI-6 entre histerectomia laparoscópica total (TLH) e cirurgia endoscópica transluminal por orifício natural via vaginal (vNOTES), com p=0,41. Selcuk et al. (2016), por sua vez, encontraram maiores pontuações de sintomas urinários irritativos no subgrupo de histerectomia simples benigna em relação aos controles. Os resultados do grupo de cirurgia radical não foram atribuídos ao subgrupo benigno.

He et al. (2016) avaliaram a função de 4.685 respondentes, de uma coorte de 4.895 mulheres, antes da cirurgia e aos 12 meses. A comparação global de IUE na Tabela 4 do estudo não mostrou diferença significativa entre as vias laparoscópica e abdominal (p=0,298), apesar da interpretação mais favorável à laparoscopia no resumo do artigo.

Em Kuittinen et al. (2026), 102 das 426 respondentes non-POPUI apresentaram IU aos dez anos (23,9%). Essa frequência descreve a presença do sintoma naquele momento; não demonstra, por si só, quantos casos surgiram após a cirurgia nem que a histerectomia os tenha causado.

3.2 Prolapso de órgãos pélvicos

Registros de longo prazo identificaram associações entre histerectomia e POP que recebeu tratamento. Aagesen et al. (2023) encontraram maior risco de cirurgia por POP, com aHR de 1,4 (IC95% 1,3–1,5), sobretudo no compartimento posterior (aHR 2,2; IC95% 2,0–2,3). Husby et al. (2022) observaram maior risco de cirurgia por POP em nulíparas, isto é, mulheres que não tiveram partos, com aHR de 1,6 (IC95% 1,0–2,5). Yuk (2024) avaliou POP tratado por cirurgia ou pessário, dispositivo de suporte colocado na vagina, e encontrou HR de 1,403 (IC95% 1,026–1,919), com associação mais elevada para histerectomia total.

Nas avaliações anatômicas e nas comparações de vias, os resultados foram diferentes. Koroglu et al. (2018) não observaram diferença significativa no POP-Q entre histerectomia abdominal e laparoscópica em um ano. Vermeulen et al. (2021), entre mulheres sem POP como indicação, encontraram prevalência semelhante de prolapso de cúpula vaginal — a parte superior da vagina após a retirada do útero — após laparoscopia e via vaginal (4,4% e 5,8%; p=0,707).

López Ruiz et al. (2025) identificaram POP anatômico global em 21,74% das mulheres aos cinco anos, POP sintomático em 7,54% e prolapso de cúpula em 0,58%, sem diferença significativa entre as vias abdominal, vaginal e laparoscópica. Lykke et al. (2017) observaram que as diferenças entre técnicas diminuíram quando a análise ficou restrita às mulheres sem POP no momento da histerectomia.

Dois estudos avaliaram técnicas relacionadas ao suporte da cúpula vaginal. Bonde et al. (2019) não observaram redução significativa de cirurgia posterior por POP com suspensão profilática, realizada com finalidade preventiva, em dois anos (HR ajustado 2,1; IC95% 0,8–5,3; p=0,13). Edmonds et al. (2026) não detectaram diferença na mudança média do ponto C do POP-Q em um ano: 1,22 cm com fechamento laparoscópico e 1,63 cm com fechamento vaginal (p=0,48). O sorteio definiu a técnica de fechamento, e 33 mulheres foram avaliadas nesse momento.

O acompanhamento de sintomas e o registro de reoperações também forneceram resultados distintos. Kuittinen et al. (2026) registraram 14 reoperações por POP (2,3%) no grupo non-POPUI, com base de cálculo diferente das 426 respondentes aos questionários. Forsgren e Johannesson (2025) observaram menor impacto global e menor incômodo relacionado a POP em cinco anos.

3.3 Função objetiva, muscular e biomecânica do assoalho pélvico

Poucos estudos avaliaram diretamente a atividade muscular. Chen et al. (2025) combinaram PFDI-20, ultrassonografia 4D e eletromiografia de superfície aos seis meses. Houve melhora do PFDI-20 (p<0,001) e aumento da descida do colo vesical (p=0,024), enquanto a maioria dos demais parâmetros permaneceu estável. A melhora dos sintomas, nesse estudo, coexistiu com uma mudança anatômica.

Outros instrumentos avaliaram suporte anatômico ou função miccional. O POP-Q, utilizado por Koroglu et al. (2018), Vermeulen et al. (2021), Edmonds et al. (2026) e López Ruiz et al. (2025), mede o suporte dos órgãos pélvicos, não a força muscular. Sukgen e Türkay (2020) não detectaram diferença entre as vias abdominal total e laparoscópica total no esvaziamento vesical em oito semanas. Polat et al. (2016) também não encontraram diferença entre essas vias nas principais medidas urodinâmicas, que avaliam o funcionamento do trato urinário, em 12 semanas.

Abouelgreed et al. (2022) observaram estabilidade da maioria dos parâmetros, mas aumento das pontuações dos sintomas urinários nas duas vias. A hiperatividade detrusora, relacionada a contrações involuntárias do músculo da bexiga, foi registrada em 9/45 mulheres da via vaginal e 3/45 da laparoscópica. Esses resultados foram interpretados conforme o componente medido: função miccional, suporte anatômico ou atividade muscular.

3.4 Repercussões anorretais e defecatórias

Os resultados intestinais foram menos estudados e incluíram medidas diferentes. He et al. (2016) observaram constipação em 12,1% das mulheres após via laparoscópica e em 24,6% após via abdominal (p=0,002). Peker et al. (2026) encontraram redução numérica na escala Wexner de constipação, mas sem diferença significativa entre as mudanças dos grupos (p=0,48).

Forsgren e Johannesson (2025) identificaram menor impacto colorretal nas atividades, sem mudança significativa no incômodo específico. Selcuk et al. (2016) utilizaram a escala Wexner para incontinência anal, mas não foi confirmada uma conclusão estatística específica para esse desfecho no subgrupo benigno. Em Kuittinen et al. (2026), 90 das 426 respondentes non-POPUI relataram constipação aos dez anos (21,1%). Por medirem sintomas e impactos diferentes, esses resultados não foram combinados.

Os desfechos urinários e de POP concentraram a maior parte dos resultados da amostra. As avaliações musculares diretas e os desfechos intestinais tiveram menor representação, como detalhado nas Tabelas 1 e 2.

4 DISCUSSÃO

Os estudos não indicam uma evolução única da função do assoalho pélvico após histerectomia. A interpretação depende de quem foi avaliado, do resultado medido e do tempo de acompanhamento.

O tempo de acompanhamento ajuda a entender por que os resultados podem parecer contraditórios. Estudos de semanas ou meses, como Polat et al. (2016), Sukgen e Türkay (2020) e Chen et al. (2025), descrevem a recuperação precoce. Registros de vários anos ou décadas, como Christoffersen et al. (2023), Aagesen et al. (2023), Husby et al. (2022), Yuk (2024) e Lykke et al. (2017), permitem identificar eventos tardios. Uma avaliação precoce não responde à mesma pergunta que um registro de cirurgia posterior.

O tempo, porém, não explica sozinho as diferenças. No eixo urinário, Hsiao et al. (2025) e Ekanayake et al. (2020) observaram melhora em períodos mais próximos à cirurgia. Pålsson et al. (2017) mostraram que a ausência de diferença global pode coexistir com IU de novo mais frequente em um subgrupo. A condição antes da cirurgia, o tamanho uterino, o desfecho e o grupo de comparação também modificam a interpretação.

Os resultados de Bohlin et al. (2017) mostram por que a condição anterior à cirurgia precisa ser conhecida: algumas mulheres desenvolveram IU, outras deixaram de apresentar sintomas prévios e outras permaneceram com incontinência. Obesidade e parto vaginal estiveram associados a IU de novo nesse estudo. Christoffersen et al. (2023) também observaram maior associação com cirurgia posterior por IUE em mulheres com histórico de parto vaginal. Esses fatores individuais e obstétricos podem influenciar a evolução dos sintomas e a interpretação da associação com histerectomia.

Os desfechos urinários também precisam ser diferenciados. A ausência de associação com bexiga hiperativa em Yuk e Lee (2023) não exclui associações com IUE tratada por cirurgia ou outros LUTS em estudos diferentes. Selcuk et al. (2016) identificaram maiores pontuações de sintomas irritativos no subgrupo benigno em relação aos controles. Já Forsgren e Johannesson (2025) observaram menor impacto urinário na vida diária sem redução significativa de IUE ou IU de urgência. Frequência dos sintomas, incômodo e necessidade de tratamento descrevem aspectos diferentes da evolução urinária.

As comparações entre vias não sustentam uma técnica superior para todos os resultados. Ekanayake et al. (2020), Sukgen e Türkay (2020), Polat et al. (2016) e Peker et al. (2026) não detectaram diferenças em seus principais desfechos. Abouelgreed et al. (2022), entretanto, registraram alterações específicas apesar da estabilidade de vários parâmetros. Em He et al. (2016), a diferença entre o resumo e os resultados tabulados exige cautela ao interpretar uma possível vantagem urinária da laparoscopia.

A escolha da via cirúrgica pode depender da anatomia, da indicação e da preferência do cirurgião ou da paciente. Nas comparações observacionais, esses fatores podem influenciar tanto a escolha da técnica quanto os resultados posteriores. Esse problema é chamado de confundimento por indicação: parte da associação observada pode estar relacionada à condição que motivou a cirurgia, e não apenas ao procedimento.

Lykke et al. (2017) ilustram esse problema ao mostrar que as diferenças entre técnicas diminuíram quando a análise ficou restrita às mulheres sem POP no momento da histerectomia. Por isso, os resultados de mulheres operadas por POP foram diferenciados dos resultados em que POP era um evento posterior. Essa distinção orientou o uso dos subgrupos de Lykke, Vermeulen e Kuittinen descritos nos métodos.

Mesmo quando POP não era a indicação, os registros identificaram associações com tratamento posterior. Aagesen et al. (2023) encontraram associação mais expressiva no compartimento posterior. Husby et al. (2022) observaram maior risco de cirurgia por POP em mulheres sem histórico de partos, o que reduz a possibilidade de explicar inteiramente o achado pelos partos anteriores. Yuk (2024) também registrou associação com POP tratado. Esses resultados se referem à cirurgia ou ao tratamento, não à presença de qualquer alteração anatômica.

A distinção entre POP anatômico, sintomático e tratado é visível em López Ruiz et al. (2025): POP anatômico ocorreu em 21,74%, POP sintomático em 7,54% e prolapso de cúpula em 0,58%. Vermeulen et al. (2021) encontraram prevalência semelhante de prolapso de cúpula entre laparoscopia e via vaginal no subgrupo sem POP como indicação. Koroglu et al. (2018) não observaram diferença significativa no POP-Q entre as vias abdominal e laparoscópica em um ano. Esses desfechos não representam o mesmo grau de comprometimento clínico.

A melhora do impacto relatado em Forsgren e Johannesson (2025) pode coexistir com associações de tratamento posterior por POP nos registros nacionais. Questionários de impacto, relatos de incômodo, exame anatômico e cirurgia medem componentes diferentes. Kuittinen et al. (2026) acrescentam outro cuidado: sintomas foram avaliados entre respondentes, e reoperações foram obtidas de registros, com bases de cálculo diferentes. Sem um grupo não histerectomizado e sem comprovação de ausência prévia de cada sintoma, os resultados aos dez anos não podem ser integralmente classificados como novos nem atribuídos apenas à cirurgia.

As avaliações de suporte da cúpula também têm alcance específico. Bonde et al. (2019) e Edmonds et al. (2026) não demonstraram superioridade das estratégias nos períodos e desfechos estudados, o que não estabelece ausência de benefício em outros contextos. Edmonds contou com 33 avaliações no primeiro ano e não alcançou a amostra planejada, limitando a capacidade de detectar diferenças. Além disso, comparou técnicas de fechamento após histerectomia laparoscópica, não a realização da cirurgia com sua ausência.

A atividade muscular direta foi pouco avaliada. Chen et al. (2025) combinaram questionário de sintomas, ultrassonografia 4D e eletromiografia de superfície. A melhora sintomática coexistiu com aumento da descida do colo vesical e estabilidade da maioria dos demais parâmetros. O resultado mostra que sentir melhora não significa, necessariamente, melhora de todas as medidas anatômicas ou musculares.

As medidas urodinâmicas exigem interpretação própria. Fluxo urinário, capacidade vesical e resíduo pós-miccional não medem diretamente a força ou a integridade dos músculos e dos nervos que os controlam. A estabilidade dessas medidas em Polat et al. (2016) e Sukgen e Türkay (2020) não exclui sintomas ou alterações do músculo da bexiga, como as registradas por Abouelgreed et al. (2022). A amostra oferece mais informações sobre função miccional e suporte anatômico do que sobre atividade muscular direta.

No eixo intestinal, constipação, incontinência anal, incômodo colorretal e impacto nas atividades não podem ser usados como medidas equivalentes. Peker et al. (2026) avaliaram constipação, e Selcuk et al. (2016), incontinência anal. Forsgren e Johannesson (2025) observaram menor interferência nas atividades sem mudança significativa no incômodo específico. O número reduzido de estudos e a variedade de instrumentos e tipos de estudo impedem definir uma evolução intestinal uniforme após histerectomia.

Uma hipótese para a melhora observada em Hsiao et al. (2025), Ekanayake et al. (2020), Forsgren e Johannesson (2025) e parte dos resultados de Pålsson et al. (2017) é a redução dos sintomas da condição uterina que motivou a cirurgia. Essa explicação não demonstra causalidade. Muitos estudos não dispõem de um grupo com doença uterina semelhante tratado sem cirurgia, o que limita a separação entre o efeito do tratamento da doença e as mudanças relacionadas à histerectomia.

Registros administrativos identificam eventos diagnosticados ou tratados. Coortes clínicas acrescentam sintomas e avaliações funcionais, frequentemente com amostras menores e perdas no acompanhamento. Idade, número de partos, parto vaginal, obesidade, sintomas prévios, indicação e técnica podem influenciar as associações. Sem controle suficiente desses fatores, não se comprova que a histerectomia cause o resultado.

A seleção desta revisão também delimita suas conclusões. A escolha entre publicações relacionadas definiu quais desfechos ficaram representados, sem comprovar que os artigos mantidos fossem superiores ou que suas participantes fossem independentes. A análise foi narrativa, sem estimativa combinada de risco.

A população de alguns estudos exige cuidado adicional. Bohlin et al. (2017) incluíram POP como indicação; He et al. (2016), CIN3 e hiperplasia não especificada; e Forsgren e Johannesson (2025), displasia cervical e hiperplasia. Seus resultados ajudam a contextualizar a evolução pós-operatória, mas não representam exclusivamente mulheres operadas por condições benignas sem POP.

Para a Fisioterapia, os estudos mostram que sintomas, impacto na vida diária, suporte anatômico e atividade muscular podem evoluir de maneiras diferentes. A avaliação deve considerar a condição pré-operatória e reunir esses componentes, com medidas objetivas quando disponíveis. Melhora relatada e alteração anatômica precisam ser interpretadas junto aos demais resultados.

5 CONCLUSÃO

Esta revisão narrativa encontrou resultados diferentes sobre a função do assoalho pélvico após histerectomia por condições ginecológicas benignas. Registros de longo prazo identificaram associações com cirurgia posterior por IUE e POP. Estudos clínicos também registraram melhora, estabilidade e aparecimento de novos sintomas. Esses resultados não demonstram piora uniforme nem comprovam que a cirurgia, isoladamente, cause as alterações.

As comparações não permitiram estabelecer uma via cirúrgica superior para todos os desfechos. Além disso, sintomas, impacto na vida diária, suporte anatômico, função miccional e atividade muscular medem componentes diferentes. A menor quantidade de avaliações musculares diretas e de resultados intestinais restringe as conclusões sobre essas funções.

Para a Fisioterapia, os achados sustentam uma avaliação que considere a condição pré-operatória e reúna sintomas urinários, intestinais e de prolapso, impacto funcional e medidas objetivas quando disponíveis.

Para esclarecer as repercussões específicas, são necessários estudos prospectivos com avaliação antes da cirurgia, grupos de comparação adequados e acompanhamento prolongado. O controle da indicação cirúrgica e dos procedimentos associados também é necessário para distinguir sua influência nos resultados.

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  1. Jade Castro de Albuquerque. Centro Universitário do Norte (UNINORTE), Manaus – Amazonas – Brasil. ORCID: https://orcid.org/0009-0006-7044-7088 ↑

  2. Susiane Albuquerque Batista. Centro Universitário do Norte (UNINORTE), Manaus – Amazonas – Brasil. ORCID: https://orcid.org/0009-0006-8589-936X ↑

  3. Rossini Augusto Barbosa Lima. Centro Universitário do Norte (UNINORTE), Manaus – Amazonas – Brasil. ORCID: https://orcid.org/0009-0007-9215-7361 ↑

  4. Eliane Santos de Souza. Centro Universitário do Norte (UNINORTE), Manaus – Amazonas – Brasil. ORCID: https://orcid.org/0009-0003-8828-4967 ↑

  5. Shirley Maria Silva de Aquino. Centro Universitário do Norte (UNINORTE), Manaus – Amazonas – Brasil. ORCID: https://orcid.org/0009-0008-5500-7871 ↑

  6. Eliane dos Santos Levy. Centro Universitário do Norte (UNINORTE), Manaus – Amazonas – Brasil. ORCID: https://orcid.org/0009-0003-4554-5311 ↑

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