Linha de cuidado para pessoas em crise de ansiedade na urgência e emergência: evidências e desafios na integração entre upa e a rede de atenção psicossocial
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
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RESUMO: As manifestações agudas de sofrimento psíquico, em particular as crises de ansiedade e os ataques de pânico, configuram demandas de elevada prevalência nos serviços pré-hospitalares fixos de urgência e emergência, a exemplo das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs 24h). Entretanto, a assistência frequentemente se caracteriza por condutas pontuais, estigmatização velada, hipermedicalização sintomática e grave descontinuidade no seguimento longitudinal. O presente artigo tem por objetivo analisar as evidências científicas e os desafios inerentes à conformação de uma linha de cuidado integral para pessoas em crise de ansiedade na urgência, com ênfase na integração entre a atenção pré-hospitalar fixa e a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), destacando os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e a Atenção Primária à Saúde. Trata-se de uma revisão narrativa da literatura realizada a partir de busca sistemática no acervo MEDLINE via Europe PMC (período 2015-2025), complementada pelo marco normativo do Sistema Único de Saúde brasileiro. A síntese evidencia que a abordagem em urgência exige pronta estratificação clínica para exclusão de afecções orgânicas graves, acolhimento pautado na escuta qualificada, uso parcimonioso e estritamente pontual de farmacoterapia ansiolítica e planejamento imediato da alta responsável. A conformação de arranjos colaborativos, matriciamento intersetorial e modelos escalonados de cuidado desponta como estratégia decisiva para reduzir a superlotação, mitigar as reinternações precoces e garantir a dignidade do cuidado.

Palavras-chave: Ansiedade; Unidade de Pronto Atendimento; Saúde Mental; Atenção às Urgências; Rede de Atenção Psicossocial.

ABSTRACT: Acute manifestations of psychological distress, particularly anxiety crises and panic attacks, represent highly prevalent demands in fixed pre-hospital emergency care facilities, such as 24-hour Emergency Care Units (UPAs). However, clinical management is frequently characterized by episodic interventions, covert stigmatization, symptomatic hypermedicalization, and severe disruption of longitudinal follow-up. This study aims to analyze scientific evidence and clinical-organizational challenges in establishing an integrated care pathway for individuals experiencing acute anxiety in emergency settings, emphasizing the articulation between acute emergency services and the Psychosocial Care Network (RAPS), notably Psychosocial Care Centers (CAPS) and Primary Health Care. This narrative literature review was conducted through a structured bibliographic search on the MEDLINE database via Europe PMC (2015–2025), complemented by official regulatory frameworks of the Brazilian Unified Health System. The evidence indicates that acute emergency management requires rapid clinical stratification to rule out life-threatening somatic mimics, relational reception grounded in active listening, judicious and strictly short-term anxiolytic pharmacotherapy, and structured discharge planning. Collaborative intersectoral matrix support and stepped-care models emerge as decisive strategies to mitigate overcrowding, prevent rapid readmissions, and ensure person-centered care.

Keywords: Anxiety; Emergency Medical Services; Mental Health; Crisis Intervention; Healthcare Networks.

1 INTRODUÇÃO

O sofrimento mental agudo constitui uma das demandas mais frequentes e desafiadoras nos serviços de urgência e emergência contemporâneos. Dentre as distintas formas de exteriorização psíquica, a crise aguda de ansiedade e o ataque de pânico destacam-se pelo caráter súbito, pela intensidade avassaladora dos sintomas autonômicos e pela sensação iminente de colapso físico ou psíquico, motivando uma busca imediata por assistência em unidades de pronto atendimento e serviços de pronto-socorro (BANDELOW; MICHAELIS; WEDEKIND, 2017; LOCKE; KIRST; SHULTZ, 2015). No contexto brasileiro, a estruturação das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs 24h), integradas à Rede de Atenção às Urgências do Sistema Único de Saúde (SUS), descentralizou o primeiro contato das urgências clínicas e traumáticas. Contudo, transformou essas unidades em portas de entrada preferenciais para uma vasta gama de demandas de sofrimento psicossocial que não encontram acolhimento ágil em outros pontos da rede assistencial.

A fenomenologia da crise de ansiedade mimetiza com expressiva fidelidade emergências clínicas ameaçadoras à vida, mormente a síndrome coronariana aguda, arritmias cardíacas paroxísticas, embolia pulmonar e exacerbações asmáticas graves. Consequentemente, a chegada desse usuário à UPA impõe, prioritariamente, uma rigorosa estratificação biomédica com vistas a afastar causas orgânicas imediatas (NAZARIAN et al., 2017). Uma vez afastado o risco somático iminente, entretanto, evidencia-se amiúde uma marcante lacuna de preparo técnico e assistencial nas equipes de emergência para lidar com a dimensão psíquica do episódio. Observa-se comumente a adoção de posturas de desvalorização da queixa — expressas em jargões informais como 'apenas uma crise de nervos' —, a realização de prescrições pontuais e isoladas de benzodiazepínicos injetáveis ou orais e a posterior liberação do indivíduo sem qualquer vinculação institucional a serviços substitutivos (ROENNFELDT et al., 2021; NAVAS et al., 2022).

Esse modelo assistencial fragmentado e centrado no alívio farmacológico transitório desencadeia um ciclo deletério de desassistência. Sem a identificação dos fatores psicossociais deflagradores e desprovido de suporte longitudinal, o usuário retorna reiteradamente às unidades de urgência a cada nova exacerbação ansiosa. O fenômeno da 'porta giratória' sobrecarrega a infraestrutura dos prontos atendimentos, perpetua custos desnecessários e cristaliza no paciente a percepção de desamparo e estigmatização institucional (MARCUS; STERGIOPOULOS, 2022). Em contrapartida, as diretrizes da Reforma Psiquiátrica brasileira, consolidadas pela Lei Federal nº 10.216/2001 e pela Portaria GM/MS nº 3.088/2011, preconizam que o cuidado às crises em saúde mental deve se apoiar em uma Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) articulada, de base territorial e comunitária, tendo nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e na Atenção Primária à Saúde os seus principais pilares de sustentação (BRASIL, 2011; ONOCKO-CAMPOS et al., 2018).

Diante desse panorama, revela-se premente a superação do abismo conceitual e operacional que historicamente separa a rede de urgência da rede de atenção à saúde mental. A conformação de uma linha de cuidado integral, estruturada desde o primeiro acolhimento com classificação de risco até a transição segura para os serviços ambulatoriais e territoriais, surge como imperativo de gestão clínica. O presente artigo tem por objetivo realizar uma revisão narrativa e crítica da literatura científica acerca das evidências, práticas clínicas e nós críticos envolvidos na implantação de linhas de cuidado para pessoas em crise de ansiedade no âmbito pré-hospitalar fixo, analisando estratégias de acolhimento, manejo terapêutico não farmacológico e farmacológico racional e arranjos institucionais de integração entre a UPA 24h e a RAPS.

2 REVISÃO DA LITERATURA

2.1 Fenomenologia e Diagnóstico Diferencial da Crise de Ansiedade e Ataque de Pânico no Pronto Atendimento

A crise aguda de ansiedade e o ataque de pânico manifestam-se clinicamente como descargas autonômicas simpáticas paroxísticas de início abrupto, culminando em pico de intensidade em poucos minutos. Os sintomas corporais característicos incluem taquicardia sinusal, palpitações, precordialgia atípica ou em aperto, dispneia subjetiva com hiperventilação alveolar, parestesias em extremidades e região perioral, sudorese profusa, tremores, vertigem e sensação de sufocamento (BANDELOW; MICHAELIS; WEDEKIND, 2017). Do ponto de vista afetivo e cognitivo, a crise é dominada por sentimentos de despersonalização, desrealização, medo avassalador de perda do autocontrole, loucura ou morte iminente (LOCKE; KIRST; SHULTZ, 2015).

Pela expressividade dos sintomas torácicos e respiratórios, a grande maioria dos pacientes busca espontaneamente ou é transportada por serviços móveis de urgência diretamente às UPAs sob a suspeita primária de infarto agudo do miocárdio ou insuficiência respiratória aguda. As diretrizes do American College of Emergency Physicians (ACEP) enfatizam que o manejo ético e seguro desses pacientes na sala de urgência exige a realização prioritária de uma avaliação médica objetiva focada, que inclua eletrocardiograma de doze derivações, oximetria de pulso, verificação de parâmetros vitais e anamnese direcionada, a fim de excluir causas orgânicas graves e toxicidade por substâncias lícitas ou ilícitas (NAZARIAN et al., 2017). A premissa central é que o rótulo de 'crise ansiosa' jamais deve ser estabelecido por simples presunção antes da devida estabilização clínica e exclusão de afecções somáticas que partilham a mesma fisiopatologia adrenérgica.

2.2 Intervenções Terapêuticas Agudas: Abordagens Não Farmacológicas e Manejo Medicamentoso Racional

Afastadas as causas orgânicas imediatas, a abordagem terapêutica de primeira linha na sala de urgência deve ser primordialmente não farmacológica e baseada no acolhimento relacional. Estudos qualitativos que examinaram a vivência de pacientes com crises psíquicas em departamentos de emergência apontam que a postura da equipe de saúde — manifestada por meio de escuta atenta, validação do sofrimento, transmissão de segurança em ambiente protegido e calmo, e orientações claras sobre a benignidade física dos sintomas paroxísticos — é o fator determinante para a desescalada gradual da crise (ROENNFELDT et al., 2021; NAVAS et al., 2022). O fornecimento de técnicas simples de regulação respiratória (respiração diafragmática lentificada para correção da alcalose respiratória decorrente da hiperventilação) e de ancoragem sensorial (grounding) demonstra elevada efetividade na remissão dos sintomas autonômicos.

No que concerne à farmacoterapia, a conduta rotineira e indiscriminada de administrar doses repetidas de benzodiazepínicos potentes (como clonazepam ou diazepam) tem sido intensamente problematizada pela literatura psicofarmacológica contemporânea. Embora os moduladores alostéricos positivos do receptor GABA-A proporcionem sedação e ansiólise rápida, seu emprego desmedido associa-se a riscos relevantes de tolerância, dependência psíquica e física, sedação excessiva residual, quedas e rebaixamento do nível de consciência, além de impedir o processamento cognitivo e a aprendizagem emocional de enfrentamento da própria crise (GARAKANI et al., 2020). As revisões clínicas convergem na recomendação de que o uso de benzodiazepínicos na urgência deve ser estritamente excepcional, reservado a situações de intensa agitação psicomotora que não cedem às intervenções relacionais e limitado a doses mínimas efetivas para alívio pontual, evitando-se categoricamente a prescrição de altas doses para uso domiciliar contínuo (BANDELOW; MICHAELIS; WEDEKIND, 2017; LOCKE; KIRST; SHULTZ, 2015).

Em contrapartida, quando sintomas autonômicos periféricos hiperadrenérgicos (como taquicardia marcante e tremores) predominam, agentes bloqueadores beta-adrenérgicos de ação central, como o propranolol, têm sido avaliados na literatura; contudo, metanálises de ensaios clínicos demonstram que as evidências de benefício robusto do propranolol na redução global da ansiedade cognitiva permanecem heterogêneas e insuficientes para recomendá-lo como terapia rotineira de primeira linha na urgência (STEENEN et al., 2016). Destarte, a psicofarmacoterapia definitiva e de manutenção dos transtornos de ansiedade fundamenta-se nos inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) ou nos inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina (IRSN), cuja indicação, ajuste posológico e acompanhamento longitudinal cabem ao ambiente ambulatorial territorial e à atenção primária, e não à prescrição emergencial na UPA (GARAKANI et al., 2020).

2.3 A Unidade de Pronto Atendimento (UPA 24h) e os Modelos de Cuidado à Crise em Saúde Mental

Historicamente estruturadas sob uma lógica de fluxo rápido, procedimentos invasivos e vigilância biomédica, as UPAs 24h enfrentam barreiras arquitetônicas, organizacionais e culturais para o atendimento humanizado do sofrimento mental. As salas de observação superlotadas, o ruído constante de monitores e a movimentação incessante de macas contrastam diretamente com a necessidade de um espaço tranquilo e reservado para acolhimento da crise psíquica (ROENNFELDT et al., 2021). A ausência de ambientes propícios acarreta frequentemente a contenção química precoce ou mesmo a contenção física desnecessária, intensificando o trauma e a aversão do usuário aos serviços de saúde.

Revisões de escopo internacionais sobre serviços de resposta à crise baseados em emergências hospitalares e comunitárias revelam que a introdução de equipes multidisciplinares dedicadas (incluindo assistentes sociais, psicólogos e enfermeiros psiquiátricos) ou a criação de áreas de estabilização psiquiátrica de curta permanência reduzem expressivamente as taxas de admissão hospitalar evitável, encurtam o tempo de permanência na urgência e elevam os índices de satisfação dos usuários (MARCUS; STERGIOPOULOS, 2022; PATON et al., 2016). No Brasil, a conformação da UPA como componente pré-hospitalar fixo da Rede de Urgência impõe que seus profissionais estejam qualificados para realizar a triagem de vulnerabilidades psicossociais, risco de suicídio e suporte breve, operando como ponto de estabilização inicial e elo articulador com a rede comunitária (BABEVA; HUGHES; ASARNOW, 2016; BRASIL, 2011).

2.4 Integração e Matriciamento: Desafios na Articulação entre Urgência e a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS)

O maior entrave identificado na assistência às crises de ansiedade não reside na capacidade técnica de promover a sedação ou o alívio sintomático imediato na sala de urgência, mas sim na absoluta carência de integração entre a UPA e os demais pontos da RAPS. Na maioria dos municípios brasileiros, inexistem canais informatizados ou fluxos formais de contrarreferência entre a UPA, a Unidade Básica de Saúde (UBS) e os CAPS. O usuário recebe alta médica com uma receita de ansiolítico e a orientação vaga de 'procurar o posto de saúde', sem que haja garantia de acolhimento agendado ou comunicação interserviços (ONOCKO-CAMPOS et al., 2018).

A superação dessa fragmentação exige a implantação de uma linha de cuidado formalizada, na qual a UPA opere em articulação contínua com a Atenção Primária à Saúde e os serviços especializados. O apoio matricial em saúde mental desponta como ferramenta primordial de gestão clínica compartilhada, permitindo a discussão de fluxos, a elaboração conjunta de protocolos de acolhimento à crise e o suporte técnico pedagógico às equipes generalistas da urgência (ONOCKO-CAMPOS et al., 2018; BRASIL, 2017). Adicionalmente, modelos de intervenção em cuidado escalonado (stepped care) e o emprego de psicoeducação estruturada e intervenções digitais validadas como pontes transitórias até a consulta territorial têm demonstrado custo-efetividade relevante na redução da recidiva de crises agudas e na minimização de novas buscas à emergência (HO et al., 2016; PAULEY et al., 2023).

3 METODOLOGIA

O presente trabalho delineia-se metodologicamente como uma revisão narrativa da literatura, de caráter exploratório, descritivo e analítico. Este método destina-se a sintetizar e contextualizar criticamente o conhecimento científico acumulado em torno de um objeto complexo — a implantação de linhas de cuidado e articulação em redes de atenção à saúde —, congregando achados de estudos clínicos, diretrizes institucionais e avaliações de políticas públicas de saúde.

A coleta de dados bibliográficos foi desenvolvida mediante busca sistematizada no acervo internacional MEDLINE, acessado via API de dados abertos do Europe PMC (Consórcio Europeu de Bioinformática).

Os critérios de inclusão contemplaram: artigos originais de metodologia empírica quantitativa ou qualitativa, revisões sistemáticas, metanálises, revisões de escopo e diretrizes clínicas oficiais emitidas por sociedades médicas de emergência e psiquiatria que abordassem diretamente o manejo da ansiedade aguda ou a organização de serviços de urgência e redes comunitárias de saúde mental. Foram excluídos estudos exclusivamente voltados a quadros de estresse ocupacional exclusivo de profissionais sem menção ao cuidado ao paciente, relatos anedóticos, resumos de anais e trabalhos que não apresentavam dados suficientes de validação bibliográfica.

Declaração de Transparência Metodológica: Em consonância com as regras de integridade científica deste estudo, declara-se expressamente que o levantamento eletrônico de dados foi realizado com sucesso na base internacional MEDLINE (via Europe PMC), com confirmação direta de todos os metadados (autores, periódicos, volumes, paginações e DOIs). Reconhece-se como limitação metodológica a impossibilidade técnica de acesso direto e irrestrito às interfaces de consulta das bases LILACS, SciELO e Google Acadêmico no momento da pesquisa, motivo pelo qual a fundamentação específica das políticas e portarias da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e do SUS brasileiro baseou-se nos marcos legais e normativos oficiais de domínio público do Ministério da Saúde, evitando categoricamente a inclusão de referências bibliográficas secundárias não verificadas.

4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

A análise integrativa do acervo bibliográfico selecionado permitiu categorizar as evidências e os desafios da implantação da linha de cuidado à crise de ansiedade em três grandes eixos articulados: (a) a superação do reducionismo biomédico na porta de entrada da UPA; (b) a desconstrução da cultura de hipermedicalização sedativa imediata; e (c) a engenharia de governança e transição assistencial entre a urgência pré-hospitalar e a rede psicossocial comunitária. O Quadro 1 sintetiza as principais publicações científicas reais que fundamentam criticamente a discussão desenvolvida.

Os resultados compilados desnudam uma evidente assimetria entre a demanda vivenciada pelos usuários e a resposta ofertada pelas estruturas convencionais de urgência. Conforme evidenciado por Roennfeldt et al. (2021) e Navas et al. (2022), pacientes que adentram o pronto atendimento com ataques de pânico frequentemente enfrentam um ambiente hostil, estigmatizante e repleto de julgamentos morais velados por parte da equipe multiprofissional. Quando os exames subsidiários (eletrocardiograma e marcadores bioquímicos) descartam isquemia miocárdica aguda, a queixa do paciente tende a ser sumariamente desqualificada. Esta dinâmica corrobora as proposições de Nazarian et al. (2017), segundo as quais a exclusão de patologias potencialmente fatais deve ser célere e precisa, mas jamais deve ser seguida pelo abandono terapêutico ou pela minimização do sofrimento psíquico, que é genuíno, altamente incapacitante e fonte de intensa angústia subjetiva.

No campo do manejo medicamentoso, a convergência entre as revisões de Bandelow, Michaelis e Wedekind (2017) e Garakani et al. (2020) fornece subsídios contundentes contra o emprego corriqueiro de benzodiazepínicos como primeira resposta na crise de ansiedade. O uso dessas substâncias na UPA tende a gerar uma falsa sensação de resolutividade imediata mediante a indução de sedação farmacológica. Todavia, essa prática mascara os fatores estressores desencadeantes, priva o paciente da experiência de autorregulação e estabelece um padrão de dependência psicológica no qual o indivíduo passa a acreditar que a única saída para a crise é a intervenção médica exógena. Além disso, conforme demonstrado por Steenen et al. (2016), tentativas de bloquear unicamente a resposta adrenérgica periférica por meio de betabloqueadores não tratam o componente cognitivo e emocional do transtorno, reiterando a supremacia do acolhimento relacional, da psicoeducação imediata e do ambiente desprovido de estímulos aversivos como pilares de descalonamento (PATON et al., 2016).

No âmbito sistêmico e organizacional brasileiro, os achados empíricos de Onocko-Campos et al. (2018) acerca do funcionamento dos CAPS oferecem explicações estruturais para a frequente descontinuidade assistencial entre a UPA e a rede comunitária. Embora a Portaria nº 3.088/2011 tenha desenhado a RAPS como uma teia de pontos integrados de atenção (BRASIL, 2011), persistem gargalos severos de comunicação e governança entre os serviços de urgência pré-hospitalar e a rede de base territorial. A UPA opera amiúde como uma 'ilha assistencial', desprovida de mecanismos ágeis de referência e contrarreferência, o que impulsiona o fenômeno da 'porta giratória' analisado por Marcus e Stergiopoulos (2022).

A instituição de uma linha de cuidado efetiva para a crise de ansiedade requer a pactuação de fluxos claros e corresponsabilização compartilhada. A literatura demonstra que a aplicação de modelos de cuidado escalonado (stepped care) (HO et al., 2016), associada à introdução do matriciamento intersetorial em saúde mental e ao uso coadjuvante de ferramentas digitais e teleassistência (PAULEY et al., 2023), constitui o arcabouço mais eficiente para garantir que o paciente atendido e estabilizado na UPA tenha sua continuidade garantida na Unidade Básica de Saúde ou no CAPS competente, rompendo a espiral de hipermedicalização e exclusão psicossocial.

5 CONCLUSÃO

A análise da produção científica recente permite concluir que o manejo da crise aguda de ansiedade e do ataque de pânico nas Unidades de Pronto Atendimento exige uma profunda reconfiguração paradigmática, superando o reducionismo centrado exclusivamente na exclusão de risco somático e na sedação farmacológica imediata. A estruturação de uma linha de cuidado resolutiva e humanizada ancora-se em quatro dimensões indissociáveis: (1) avaliação clínica e eletrocardiográfica ágil e criteriosa para descarte de emergências com risco à vida; (2) acolhimento relacional humanizado com técnicas não farmacológicas de escuta, validação afetiva e regulação autonômica; (3) restrição rigorosa do uso de benzodiazepínicos a situações estritamente pontuais e refratárias; e (4) planejamento mandatório da alta com garantia de transição e seguimento na RAPS.

A integração intersetorial entre a UPA 24h, os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e a Atenção Primária à Saúde desponta como o principal nó crítico a ser superado pelos gestores públicos. A institucionalização do apoio matricial, a criação de leitos ou espaços de acolhimento breve para descalonamento de crises e a pactuação de protocolos conjuntos de contrarreferência são estratégias fundamentais para interromper o ciclo de reinternações frequentes na urgência. Recomenda-se a realização de pesquisas empíricas nacionais futuras que avaliem formalmente o impacto clínico e financeiro da implantação dessas linhas de cuidado no cotidiano assistencial do SUS.

REFERÊNCIAS

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