Resumo
O emprego de equinos no policiamento ostensivo expõe esses animais a estressores físicos, sociais e ambientais que podem comprometer seu bem-estar. Este estudo teve como objetivo analisar, por meio de revisão narrativa da literatura, os principais aspectos relacionados ao bem-estar de equinos empregados no policiamento montado, discutindo suas implicações e perspectivas para o Regimento de Polícia Montada da Polícia Militar do Pará (RPMont/PMPA). Foram consultadas as bases PubMed/MEDLINE, SciELO, Scopus, Web of Science e Portal de Periódicos CAPES, com seleção de artigos científicos revisados por pares. A literatura indica que o alojamento individual prolongado, a restrição de forragem e o isolamento social estão associados a comportamentos anormais, cólicas e claudicações em equinos policiais. Estudos com monitoramento de frequência cardíaca sugerem que o trabalho policial rotineiro, quando precedido de treinamento adequado, produz respostas de estresse moderadas. O temperamento individual mostrou-se relevante para a seleção de animais aptos à função. No contexto paraense, o clima tropical úmido amazônico acrescenta o risco de estresse térmico, pois a alta umidade reduz a eficiência da dissipação de calor por evaporação. Conclui-se que a produção científica sobre os equinos da PMPA ainda é incipiente, restrita a um estudo hormonal, bioquímico e hematológico realizado em Santarém, o que configura lacuna relevante. Recomenda-se a adoção de protocolos de avaliação baseados no Modelo dos Cinco Domínios, o monitoramento de índices térmicos e a revisão de práticas de alojamento, alimentação e seleção.
Palavras-Chave: bem-estar animal; equinos; policiamento montado; estresse térmico; Polícia Militar do Pará.
Abstract
The use of horses in mounted police operations exposes these animals to physical, social, and environmental stressors that may compromise their welfare. This study aimed to analyze, through a narrative literature review, the main aspects related to the welfare of horses employed in mounted policing, discussing their implications and perspectives for the Mounted Police Regiment of the Military Police of Pará (RPMont/PMPA). The PubMed/MEDLINE, SciELO, Scopus, Web of Science, and CAPES Journal Portal databases were consulted, with the selection of peer-reviewed scientific articles. The literature indicates that prolonged individual housing, forage restriction, and social isolation are associated with abnormal behaviors, colic, and lameness in police horses. Studies involving heart rate monitoring suggest that routine police work, when preceded by adequate training, produces moderate stress responses. Individual temperament was found to be relevant for selecting animals suitable for this function. In the context of Pará, the humid tropical Amazonian climate adds the risk of heat stress, as high humidity reduces the efficiency of heat dissipation through evaporation. It is concluded that scientific research on PMPA horses remains incipient, being limited to a hormonal, biochemical, and hematological study conducted in Santarém, which represents a relevant research gap. The adoption of assessment protocols based on the Five Domains Model, monitoring of thermal indices, and review of housing, feeding, and selection practices are recommended.
Keywords: animal welfare; horses; mounted policing; heat stress; Military Police of Pará.
1 Introdução
O policiamento montado constitui uma modalidade de emprego operacional presente em diferentes corporações policiais, especialmente em ações de patrulhamento urbano, policiamento de grandes eventos, atuação em praças esportivas e controle de distúrbios civis. Nesse contexto, o equino não desempenha apenas a função de meio de deslocamento, mas integra diretamente a capacidade operacional da tropa, contribuindo para a mobilidade, a presença ostensiva e a atuação policial em diferentes cenários. Assim, a efetividade do binômio cavaleiro-cavalo está relacionada não apenas ao preparo técnico do policial, mas também às condições físicas, comportamentais e de bem-estar do animal.
Os equinos empregados no policiamento estão sujeitos, de forma recorrente, a situações de elevada exigência física e potencialmente estressantes, incluindo a presença de multidões, ruídos intensos, movimentação de objetos e transporte frequente. Nesse contexto, a seleção e o treinamento específicos desses animais são fundamentais para favorecer um desempenho adequado e contribuir para a segurança e o bem-estar tanto dos cavalos quanto de seus cavaleiros (MUNSTERS et al., 2013a). Complementarmente, a avaliação e a quantificação da carga de trabalho constituem aspectos relevantes para o manejo desses animais, uma vez que podem contribuir para a prevenção de problemas comportamentais, a redução do descarte precoce e a manutenção de condições adequadas de bem-estar (MUNSTERS et al., 2013b).
O bem-estar animal é entendido como o estado de um indivíduo em relação às suas tentativas de lidar com o ambiente (BROOM, 1986). Em equinos, esse estado crônico reflete a percepção subjetiva do animal sobre sua situação e deve ser avaliado por indicadores cientificamente validados (LESIMPLE, 2020). Para instituições públicas, o tema tem dupla relevância. De um lado, há o dever ético de assegurar condições adequadas aos animais sob sua guarda. De outro, animais com bem-estar comprometido tendem a apresentar mais doenças, menor vida útil e maior risco de acidentes em serviço, com impacto direto sobre custos e eficiência operacional.
No Brasil, estudos com equinos da Polícia Militar de Minas Gerais registraram elevada ocorrência de comportamentos anormais e de cólicas (SCHORK; AZEVEDO; YOUNG, 2018), enquanto pesquisas no Paraná avaliaram indicadores clínicos, etológicos e endócrinos de bem-estar em cavalos de policiamento (GONTIJO et al., 2014). Esses achados indicam que o problema não é hipotético e justificam o estudo da temática na literatura como uma contribuição direta à Polícia Militar do Pará. Embora o emprego de equinos por instituições policiais seja uma prática consolidada em diferentes contextos, a discussão sobre bem-estar desses animais precisa considerar as especificidades das condições de trabalho, manejo e ambiente. No contexto paraense, essa discussão assume particularidades relacionadas ao clima amazônico e às características institucionais do policiamento montado.
O estado do Pará situa-se predominantemente na zona climática tropical, com tipos climáticos úmidos e subúmidos segundo a classificação de Köppen (ALVARES et al., 2013). A combinação de temperatura e umidade elevadas limita a dissipação de calor por evaporação do suor, principal mecanismo termorregulador do equino em exercício (KANG et al., 2023). As pesquisas brasileiras disponíveis sobre equinos policiais concentram-se nas regiões Sudeste e Sul, de clima distinto. Nas buscas realizadas para esta revisão, foi localizado apenas um estudo com equinos de patrulhamento da PMPA, conduzido em Santarém e restrito a parâmetros hormonais, bioquímicos e hematológicos (RICARTE et al., 2024); não foram encontrados estudos que avaliassem de forma abrangente o bem-estar dos equinos do RPMont/PMPA. Diante desse cenário, formula-se a seguinte questão: quais aspectos do manejo, do trabalho e do ambiente são apontados pela literatura científica como determinantes do bem-estar de equinos empregados no policiamento ostensivo, e que implicações esses achados têm para o Regimento de Polícia Montada da Polícia Militar do Pará?
Para responder a questão o objetivo deste estudo é analisar, por meio de revisão narrativa da literatura, os principais aspectos relacionados ao bem-estar de equinos empregados no policiamento montado, discutindo suas implicações e perspectivas para o Regimento de Polícia Montada da Polícia Militar do Pará. Como objetivos específicos (i) Apresentar os marcos conceituais de bem-estar animal aplicáveis a equinos de trabalho; (ii) Identificar os fatores de manejo, trabalho e ambiente associados ao bem-estar de equinos policiais; (iii) Discutir o estresse térmico como fator de risco em clima tropical úmido e por fim; (iv) Propor perspectivas e diretrizes de pesquisa e gestão para o RPMont/PMPA.
2 Fundamentação Teórica
Broom (1986) definiu o bem-estar como o estado de um indivíduo em relação às suas tentativas de lidar com o ambiente. Essa definição desloca o foco dos recursos oferecidos ao animal para a resposta do próprio animal. Lesimple (2020) aprofunda essa perspectiva ao tratar o bem estar como estado crônico, diferenciando indicadores confiáveis, como lesões corporais, apatia, agressividade e comportamentos estereotipados, de sinais temporários ligados a dor aguda, emoção ou estresse pontual.
O Modelo dos Cinco Domínios, em sua versão de 2020, organiza a avaliação em cinco domínios: nutrição, ambiente físico, saúde, interações comportamentais e estado mental (MELLOR et al., 2020). Os quatro primeiros domínios reúnem fatores que geram experiências afetivas negativas ou positivas, as quais se expressam no quinto domínio. A atualização de 2020 incluiu expressamente as interações entre humanos e animais no quarto domínio (MELLOR et al., 2020). Essa inclusão é especialmente pertinente ao policiamento montado, no qual o equino convive diariamente com cavaleiros, tratadores e o público.
Os comportamentos anormais repetitivos, como aerofagia com apoio, dança do urso e andar em círculos na baía, são reconhecidos como sinais de problemas de adaptação de equinos estabulados (COOPER; MASON, 1998). Estudos epidemiológicos associaram essas alterações a fatores de manejo, como menor oferta de forragem, reduzido contato social e tipo de cama (MCGREEVY et al., 1995; BACHMANN; AUDIGÉ; STAUFFACHER, 2003). O tipo de trabalho executado também pode contribuir para o surgimento de distúrbios comportamentais (HAUSBERGER et al., 2009).
Indicadores fisiológicos complementam a observação comportamental, a frequência cardíaca e sua variabilidade também têm sido usadas para avaliar respostas a objetos desafiadores e à interação com o cavaleiro (MUNSTERS et al., 2012). A razão entre os valores de cortisol ao longo do ciclo circadiano foi proposta como um indicador potencialmente simples para a identificação de equinos sob estresse e com maior risco de ocorrência de cólica (LEAL et al., 2011).
O Quadro 1 apresenta uma síntese dos estudos revisados por pares que avaliaram diretamente aspectos relacionados ao bem-estar de equinos.
Quadro 1 – Estudos científicos com equinos empregados no policiamento
Fonte: elaborado pelos autores (2026), com base nos estudos citados.
Equinos adultos saudáveis mantêm a temperatura corporal em torno de 37,5 °C a 38,5 °C em condições de termoneutralidade, estabelecidas entre aproximadamente 5 °C e 25 °C (KANG et al., 2023). Durante o exercício, a produção de calor metabólico aumenta significativamente, tornando a dissipação por meio da evaporação do suor um dos principais mecanismos de termorregulação (GUTHRIE; LUND, 1998). Em condições de temperatura e umidade elevadas, entretanto, a eficiência da evaporação é reduzida, favorecendo a retenção de calor e o aumento da temperatura corporal (HODGSON; DAVIS; MCCUTCHEON, 1994; KANG et al., 2023).
Entre as condições associadas ao exercício em ambientes quentes está a doença térmica de esforço, descrita principalmente em equinos submetidos a atividades atléticas de elevada demanda (BROWNLOW; DART; JEFFCOTT, 2016). No policiamento montado, ainda que as demandas físicas possam diferir daquelas observadas em competições equestres, fatores como a duração prolongada dos turnos, a exposição à radiação solar, a movimentação contínua e o uso de equipamentos podem contribuir para o aumento da carga térmica. Nesse contexto, a aclimatação progressiva ao calor constitui um aspecto relevante do manejo, uma vez que equinos submetidos regularmente ao exercício em ambientes quentes e úmidos podem desenvolver adaptações fisiológicas que favorecem a termorregulação (GEOR; MCCUTCHEON; LINDINGER, 1996).
3 Metodologia
Trata-se de uma revisão narrativa da literatura, de caráter descritivo e analítico, destinada a reunir e discutir conhecimentos científicos relacionados ao bem-estar de equinos empregados em atividades de trabalho, com ênfase naqueles utilizados em policiamento montado. Esse delineamento é apropriado para descrever e discutir o estado da arte de um tema sob ponto de vista teórico ou contextual, sem a exigência de um protocolo sistemático de busca (ROTHER, 2007; GREEN; JOHNSON; ADAMS, 2006). A revisão narrativa foi escolhida por permitir a integração de evidências de naturezas distintas, como estudos observacionais, experimentais e revisões, e sua interpretação à luz de um contexto institucional específico (GRANT; BOOTH, 2009; SUKHERA, 2022)
As buscas foram realizadas nas bases PubMed/MEDLINE, SciELO, Scopus, Web of Science e Portal de Periódicos CAPES. Para a identificação dos estudos pertinentes, foram utilizados descritores em português e inglês, combinados por meio de operadores booleanos (AROMATARIS; RIITANO, 2014). As estratégias de busca incluíram os termos ("police horses" OR "mounted police") AND (welfare OR stress); ("cavalos de polícia" OR "equinos de policiamento" OR "polícia montada") AND ("bem-estar" OR estresse); horse AND ("heat stress" OR thermoregulation) AND (humid OR tropical); e horse AND welfare AND (indicators OR assessment OR stereotypy). Complementarmente, as listas de referências dos artigos selecionados foram examinadas com o objetivo de identificar estudos adicionais potencialmente relevantes, estratégia reconhecida como eficiente para localizar evidências em temas complexos e dispersos na literatura (GREENHALGH; PEACOCK, 2005).
Foram incluídos artigos científicos publicados em periódicos revisados por pares, nos idiomas português ou inglês, que abordassem aspectos relacionados ao bem-estar, estresse, comportamento, termorregulação ou manejo de equinos, com prioridade para estudos envolvendo equinos policiais ou utilizados em atividades de trabalho. Não foi estabelecida restrição rígida quanto ao período de publicação, considerando-se que estudos clássicos permanecem relevantes como referências conceituais e metodológicas para a compreensão do bem-estar de equinos. Foram excluídos textos jornalísticos, páginas institucionais, materiais de divulgação sem revisão por pares e trabalhos cujo conteúdo não apresentasse acesso ao resumo ou ao texto completo.
Os estudos selecionados foram analisados integralmente ou, quando necessário, a partir de seus resumos, sendo posteriormente agrupados em eixos temáticos relacionados a alojamento e nutrição, carga de trabalho e treinamento, temperamento e seleção, relação humano-cavalo e estresse térmico. A interpretação das evidências foi orientada pelo Modelo dos Cinco Domínios, proposto por Mellor et al. (2020), utilizado como matriz conceitual para relacionar os achados da literatura às condições de manejo e utilização dos equinos no Regimento de Polícia Montada da Polícia Militar do Pará (RPMont/PMPA). O modelo avalia o bem-estar a partir de quatro domínios físicos e funcionais (nutrição, ambiente físico, saúde e interações comportamentais) e de um quinto domínio, o estado mental, que integra as experiências afetivas do animal (MELLOR, 2017; MELLOR et al., 2020).
O corpus final foi composto por 22 estudos publicados entre 1995 e 2026, dos quais nove correspondem a estudos experimentais, oito a estudos observacionais e cinco a revisões de literatura. Do total, 11 investigaram especificamente equinos empregados em policiamento montado, enquanto os demais abordaram equinos utilizados em esporte, lazer ou produção, cujos achados foram considerados pela possibilidade de extrapolação ao contexto policial. Quanto à distribuição temática, oito estudos referiram-se a alojamento e nutrição, dez a carga de trabalho, treinamento e emprego operacional, três a temperamento e relação humano-cavalo e três a estresse térmico, sendo que alguns contemplaram mais de um eixo. Apenas um estudo foi conduzido com equinos da PMPA e em condições de clima tropical úmido amazônico (Ricarte et al., 2024), o que evidencia lacuna relevante para o contexto do RPMont/PMPA.
Em razão de sua natureza, a revisão narrativa não segue um protocolo sistemático de seleção dos estudos nem realiza avaliação formal da qualidade metodológica das publicações incluídas. Dessa forma, não se pode excluir a possibilidade de viés de seleção, e os achados devem ser interpretados como uma síntese crítica da literatura disponível, e não como uma estimativa quantitativa de efeitos (FERRARI, 2015; BAETHGE; GOLDBECK-WOOD; MERTENS, 2019). Essa característica metodológica também requer cautela na extrapolação das evidências para o contexto específico do RPMont/PMPA, especialmente diante da escassez de estudos diretamente conduzidos com os equinos empregados pela corporação.
4 DISCUSSÃO
4.1 Alojamento, nutrição e comportamentos anormais
O alojamento é o fator mais recorrente na literatura sobre bem-estar de equinos policiais, no estudo de Schork, Azevedo e Young (2018), os 46 equinos da Polícia Militar de Minas Gerais eram mantidos em baias individuais de alvenaria com 2 m × 2,5 m, piso de cimento e sem cama. Quando não estavam em patrulha, os animais permaneciam nas baias sem outras atividades. Nessas condições, os autores identificaram dez comportamentos anormais distintos, relacionados a fatores como dieta e falta de contato social.
Os registros veterinários do mesmo plantel somaram 131 casos de cólica e 25 de claudicação, e apenas 12 dos 46 animais não tinham histórico de doença (SCHORK; AZEVEDO; YOUNG, 2018). Esses dados são coerentes com a literatura internacional, que associa a restrição de forragem, o isolamento social e o confinamento prolongado a estereotipias (MCGREEVY et al., 1995; COOPER; MASON, 1998; BACHMANN; AUDIGÉ; STAUFFACHER, 2003).
Resultados semelhantes foram descritos em equinos de patrulhamento urbano de Medellín, na Colômbia. Em observação contínua de 48 horas, 65% dos 20 animais avaliados apresentaram distúrbios comportamentais e 55% manifestaram estereotipias, como dança do urso, andar em círculos na baia e aerofagia, o que os autores interpretaram como indicativo de estresse crônico (ZULUAGA et al., 2018).
O tempo diário de confinamento repercute também no comportamento em serviço, Pessoa et al. (2016) compararam equinos de patrulha montada mantidos em confinamento total com animais soltos parcialmente e verificaram, no primeiro grupo, frequência cardíaca mais elevada em períodos de descanso durante as patrulhas e maior concentração média de cortisol, que atingiu 14,57 ng/mL após o patrulhamento, contra 6,46 ng/mL nos animais com soltura parcial. Os autores concluíram que a soltura diária é prática simples e eficaz para promover o bem-estar e influenciar positivamente o comportamento durante as patrulhas. De modo convergente, Rivera et al. (2002) observaram que equinos mantidos a pasto se adaptaram melhor ao treinamento inicial do que animais mantidos em baias.
A manutenção em grupo ou, ao menos, com contato visual e tátil entre animais aparece como alternativa que favorece o comportamento social natural da espécie (HARTMANN; SØNDERGAARD; KEELING, 2012). No contexto policial, essa opção precisa ser compatibilizada com a segurança dos animais, a rotina de escalas e a infraestrutura disponível.
4.2 Carga de trabalho, treinamento e estresse operacional
Os resultados referentes às respostas dos equinos às situações simuladas de trabalho policial foram menos expressivos em termos de estresse associados à atividade. Munsters et al. (2013a) avaliaram 12 equinos, sendo seis experientes e seis inexperientes, submetidos a quatro testes que reproduzem situações da rotina policial. Os animais apresentaram respostas comportamentais de baixa magnitude, e os autores observaram pouca evidência de estresse durante as situações que simulavam condições usuais de trabalho policial. Além disso, não foram identificadas diferenças relevantes entre os animais experientes e inexperientes quanto às respostas aos estímulos avaliados, embora o reduzido tamanho da amostra deva ser considerado na interpretação desses resultados.
No contexto amazônico, Ricarte et al. (2024) avaliaram dez equinos machos empregados no patrulhamento policial em Santarém, Pará, submetidos a patrulhas de aproximadamente 10 km, realizadas predominantemente ao passo. A concentração de cortisol não se alterou de forma significativa, mas a taxa do ritmo circadiano do cortisol apresentou-se reduzida. Lactato, lactato desidrogenase e creatinoquinase permaneceram dentro dos valores de referência, enquanto a relação neutrófilo/linfócito esteve alterada durante todo o período de amostragem. Esses resultados indicam demanda metabólica compatível com a atividade, mas sugerem sinais de estresse que os autores associam, entre outros fatores, às características climáticas da região. Trata-se do único estudo localizado nesta revisão realizado com equinos da PMPA.
Esses achados sugerem que o trabalho de rua, quando o animal está adequadamente selecionado e treinado, não é necessariamente a principal fonte de comprometimento do bem-estar. A análise conjunta com Schork, Azevedo e Young (2018) indica que o período fora do serviço, passado em confinamento, pode ter peso maior que o próprio patrulhamento.
O monitoramento objetivo dessas respostas tem sido favorecido por novas ferramentas, Norton et al. (2018) empregaram tecnologia vestível para monitorar em tempo real a frequência cardíaca e a atividade de equinos policiais, e Lelláková et al. (2021) utilizaram a frequência de piscadas e de movimentos palpebrais como indicador de estresse antes e após o treinamento policial. Janošíková et al. (2026), por sua vez, apontaram o cortisol salivar como marcador confiável e não invasivo de estresse agudo em equinos policiais, ao comparar seus níveis durante operações de busca e transporte com os valores do ritmo circadiano de cada animal.
O treinamento, contudo, merece atenção, no plantel mineiro, o treinamento para enfrentar multidões e ruídos durava um ano e começava aos dois anos de idade, fase em que os potros naturalmente desenvolvem vínculos sociais (SCHORK; AZEVEDO; YOUNG, 2018). Métodos baseados em habituação e dessensibilização progressiva a estímulos assustadores foram comparados experimentalmente por Christensen, Rundgren e Olsson (2006), o que oferece base para protocolos menos aversivos. Munsters et al. (2013b) ressaltam ainda que o transporte, o treinamento antidistúrbio e as patrulhas noturnas devem ser quantificados para ajustar a carga de trabalho.
No emprego em controle de distúrbios civis, a exposição de equinos da polícia montada ao gás lacrimogêneo (ortoclorobenzalmalonitrilo, CS) não produziu efeitos análogos aos descritos em humanos (CRUZ et al., 2022). Da mesma forma, animais expostos ao spray de pimenta (oleoresina de capsicum, OC) não apresentaram alterações clinicamente relevantes em sinais vitais, gasometria ou achados oculares (CRUZ; DORNBUSCH, 2024).
4.3 Temperamento, seleção e relação humano-cavalo
A personalidade individual influencia a resposta do equino ao ambiente policial, Schork, Azevedo e Young (2018) encontraram correlações entre traços de personalidade, expressão de comportamentos anormais e ocorrência de claudicação. Animais descritos como curiosos, brincalhões e inteligentes foram os mais suscetíveis a comportamentos anormais e claudicação, enquanto os passivos, obstinados e confiantes mostraram-se mais aptos às exigências da função. Os próprios autores alertam que essas associações precisam ser validadas por estudos de longo prazo.
A qualidade das interações com humanos molda a percepção que o equino desenvolve sobre as pessoas e influencia sua segurança no manejo (HAUSBERGER et al., 2008). No policiamento montado, essa relação é constante e envolve cavaleiros, tratadores, veterinários e o público. O Modelo dos Cinco Domínios passou a tratar essas interações como componente explícito da avaliação de bem-estar (MELLOR et al., 2020). Além disso, Munsters et al. (2013b) investigaram a influência do cavaleiro sobre o medo e a frequência cardíaca do cavalo, o que reforça a necessidade de capacitação continuada dos policiais montados.
4.4 Estresse térmico e clima amazônico
O clima é o fator que mais distingue o contexto paraense dos contextos estudados na literatura sobre equinos policiais. O equilíbrio térmico do equino se rompe em exercício de alta intensidade ou em exercício submáximo prolongado sob calor acima de 30 °C e umidade relativa acima de 90% (KANG et al., 2023). Nessas condições, o suor deixa de evaporar com eficiência e escorre pelo corpo, e a perda de calor por essa via passa a ser pequena (KANG et al., 2023).
O acesso à sombra é uma medida de baixo custo e eficácia comprovada, equinos mantidos sem sombra em ambiente quente e ensolarado apresentaram maior frequência respiratória, temperatura retal, taxa de sudorese e temperatura da pele do que animais com sombra (HOLCOMB; TUCKER; STULL, 2013). Quando o estresse térmico já está instalado, o resfriamento com água fria, associado ou não à ventilação forçada, é a intervenção mais indicada (KANG et al., 2023). Índices térmicos como a temperatura de globo e bulbo úmido (IBUTG, ou WBGT em inglês) já são usados em competições equestres internacionais para definir restrições de atividade (KANG et al., 2023).
Para o RPMont/PMPA, essas evidências implicam planejar turnos, rotas e locais de descanso considerando a carga térmica, e não apenas a demanda operacional. A aclimatação gradual de animais adquiridos de regiões de clima mais ameno também deve ser considerada (GEOR; MCCUTCHEON; LINDINGER, 1996).
4.5 Perspectivas para o Regimento de Polícia Montada da PMPA
A escassez de estudos publicados sobre os equinos da PMPA, restritos até o momento à avaliação hormonal, bioquímica e hematológica de Ricarte et al. (2024), impede afirmar se os problemas comportamentais e clínicos descritos em outros estados se repetem no Pará. Ainda assim, a literatura permite identificar pontos de atenção e medidas viáveis, organizados no Quadro 2 segundo o Modelo dos Cinco Domínios.
Quadro 2 – Pontos de atenção e medidas sugeridas para o RPMont/PMPA, segundo o Modelo dos Cinco Domínios
Fonte: elaborado pelo autor (2026), com base nos estudos citados.
A adoção dessas medidas pode constituir uma possibilidade de aprimoramento da gestão estratégica da corporação. Indicadores relacionados ao bem-estar, como a incidência de cólicas, os dias de afastamento por claudicação e a ocorrência de estereotipias, poderiam ser sistematicamente acompanhados como parte da gestão do plantel, em conjunto com os indicadores relacionados ao emprego operacional. Essa perspectiva pode contribuir para aproximar a gestão dos equinos de uma abordagem orientada por evidências e ampliar a disponibilidade de informações para o planejamento e a avaliação das ações institucionais.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Esta revisão narrativa evidenciou que o bem-estar de equinos empregados no policiamento montado está relacionado principalmente às condições de alojamento, alimentação, interação social, treinamento e seleção dos animais, não sendo o trabalho de patrulha, isoladamente, o principal fator de comprometimento quando há preparação adequada. Para o RPMont/PMPA, o clima tropical úmido amazônico acrescenta o risco de estresse térmico, tornando relevantes medidas como oferta de sombra, resfriamento com água, adequação dos horários de trabalho e manejo alimentar.
Nesse contexto, o bem-estar dos equinos empregados no policiamento ultrapassa a dimensão do manejo e da saúde animal, assumindo também relevância operacional e institucional. Por integrarem diretamente o efetivo empregado em atividades de policiamento ostensivo, as condições físicas e comportamentais desses animais podem repercutir na segurança e na eficiência do binômio cavaleiro-equino. Dessa forma, práticas adequadas de seleção, treinamento, manejo, descanso e monitoramento da carga de trabalho constituem elementos relacionados à manutenção da capacidade operacional da tropa. Sob a perspectiva da defesa social, a atenção a esses aspectos contribui para que o emprego do policiamento montado ocorra de maneira segura, planejada e compatível com as atribuições institucionais de proteção da sociedade paraense.
A literatura também revelou lacunas importantes, especialmente o número reduzido de estudos específicos sobre o bem-estar dos equinos do RPMont/PMPA, a escassez de pesquisas sobre estresse térmico em equinos policiais em clima amazônico e a limitada produção nacional sobre o tema fora das regiões Sul e Sudeste. Nesse contexto, destaca-se a necessidade de pesquisas que avaliem indicadores comportamentais, clínicos e fisiológicos, bem como as condições de manejo e a ocorrência de agravos veterinários. A adoção do Modelo dos Cinco Domínios pode contribuir para estruturar essa avaliação e subsidiar estratégias de gestão do bem-estar animal no policiamento montado, aproximando a evidência científica das necessidades institucionais do RPMont/PMPA.
Referências
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1º Sargento da Polícia Militar do Pará – Santarém – Pará – Brasil. ↑
2º Sargento da Polícia Militar do Pará, Graduado em Engenharia Civil e Especialista em Gestão em Segurança Pública e Estruturas de Concreto armado - Santarém – Pará – Brasil. ↑
3º Sargento da Polícia Militar do Pará, Tecnólogo em Gestão Ambiental e Especialista em Políticas e Gestão em Segurança Pública – Santarém – Pará – Brasil. ↑
1º Sargento da Polícia Militar do Pará – Santarém – Pará – Brasil. ↑

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