RESUMO
Este estudo analisou as evidências científicas acerca da aplicação da cinesioterapia sobre o quadro álgico e o restabelecimento da capacidade funcional em idosos diagnosticados com osteoartrite de joelho (gonartrose). Trata-se de uma revisão integrativa da literatura desenvolvida sob a estratégia mnemônica SPIDER e recomendações metodológicas do PRISMA. O levantamento bibliográfico foi conduzido nas bases de dados MEDLINE/PubMed, PEDro, SciELO e LILACS, elegendo ensaios clínicos e estudos de intervenção publicados entre 2020 e 2024 que abrangeram participantes com idade igual ou superior a 60 anos submetidos a programas de exercícios terapêuticos ativos. Após triagem e análise qualitativa em duplicata, selecionaram-se dez publicações originais que atenderam a todos os critérios de inclusão. Os resultados evidenciaram que protocolos fundamentados no fortalecimento progressivo do quadríceps e estabilizadores pélvicos, sobretudo executados em cadeia cinética fechada e conjugados a treinos sensório-motores, proporcionaram redução estatisticamente significante na intensidade dolorosa (avaliada por meio da Escala Visual Analógica e domínio de dor do índice WOMAC) e ganho de mobilidade atestado pelos testes de sentar-levantar, caminhada de 6 minutos e Timed Up and Go. Notou-se, adicionalmente, atenuação expressiva da cinesiofobia e retração na demanda crônica por fármacos analgésicos e anti-inflamatórios. Conclui-se que a cinesioterapia estruturada e supervisionada atua como conduta conservadora primordial na gonartrose geriátrica, embora se verifique a necessidade de novos ensaios longitudinais focados no automanejo para consolidar a durabilidade dos efeitos terapêuticos a longo prazo.
Palavras-chave: Idoso; Osteoartrite do Joelho; Terapia por Exercício; Dor Crônica; Desempenho Físico Funcional.
ABSTRACT
This study analyzed scientific evidence regarding the effects of kinesiotherapy on pain modulation and functional capacity recovery among older adults diagnosed with knee osteoarthritis (gonarthrosis). An integrative literature review was conducted according to the SPIDER framework and PRISMA statement recommendations. The bibliographic survey encompassed MEDLINE/PubMed, PEDro, SciELO, and LILACS databases, screening clinical trials and interventional studies published between 2020 and 2024 that evaluated individuals aged 60 years or older submitted to active therapeutic exercise protocols. Following duplicate independent screening and qualitative appraisal, ten original investigations met all eligibility criteria and composed the final synthesis. The findings demonstrated that structured regimens based on progressive strengthening of the quadriceps femoris and pelvic stabilizers, particularly when utilizing closed kinetic chain exercises combined with sensorimotor routines, yielded statistically significant reductions in pain intensity (measured by Visual Analogue Scales and WOMAC pain subscores) as well as substantial enhancements in physical performance assessed via Timed Up and Go, 6-minute walk, and 30-second sit-to-stand tests. Furthermore, attenuation of kinesiophobia and decreased reliance on systemic analgesic and anti-inflammatory medications were noted. It is concluded that supervised kinesiotherapy represents a cornerstone conservative intervention in geriatric gonarthrosis, although future long-term longitudinal studies focusing on hybrid self-management models are warranted to ensure the sustainability of therapeutic outcomes.
Keywords: Aged; Osteoarthritis, Knee; Exercise Therapy; Chronic Pain; Physical Functional Performance.
1 INTRODUÇÃO
O prolongamento da expectativa de vida e a consequente transição demográfica global têm imposto transformações substanciais ao perfil nosológico populacional, destacando a elevação acelerada de afecções musculoesqueléticas degenerativas no contingente geriátrico. Nesse panorama, a osteoartrite de joelho, denominada tecnicamente de gonartrose, desponta como uma das principais fontes de morbidade crônica, perda de autonomia motora e busca por serviços de reabilitação articular na atenção primária e secundária. Estima-se que a enfermidade atinja centenas de milhões de pessoas no cenário mundial, com prevalência que ultrapassa 30% na faixa etária superior aos 65 anos, recaindo de forma acentuada sobre o público feminino e figurando entre as principais causas de aposentadorias por incapacidade e restrições funcionais no Brasil.
Sob a ótica fisiopatológica, a gonartrose afeta a articulação como um órgão funcional integral, envolvendo o desgaste degenerativo da cartilagem hialina, a esclerose reacional do osso subcondral, a sinovite persistente de baixo grau e o afrouxamento ligamentar. A degradação contínua da matriz extracelular condrocitária e a sobrecarga biomecânica produzem atrito artrocinemático anômalo, deflagrando quadros de dor mecânica recorrente, rigidez ao repouso e progressiva inibição muscular artrogênica sobre o músculo quadríceps femoral. Essa limitação contrátil culmina em instabilidade dinâmica durante a marcha humana e restrições acentuadas para a execução de padrões motores do cotidiano, como sentar-se, levantar de planos baixos e transpor desníveis, propulsionando o idoso ao sedentarismo e ao isolamento psicossocial.
Diante dos riscos inerentes ao manejo estritamente farmacológico — o qual submete o organismo senescente aos perigos da polifarmácia e a danos renais e gastrointestinais decorrentes do consumo rotineiro de anti-inflamatórios —, diretrizes clínicas mundiais consagram intervenções não medicamentosas ativas como condutas primárias de eleição. A cinesioterapia ganha protagonismo nesse cenário através da mecanotransdução tecidual gerada pela contração muscular, atenuando a nocicepção por vias neurofisiológicas inibitórias e restabelecendo o alinhamento das forças vetoriais de contato articular.
Não obstante sua indicação inconteste, a rotina profissional depara-se com expressiva heterogeneidade no tocante à prescrição dosimétrica, aos benefícios comparativos entre modalidades em cadeia cinética aberta ou fechada e à persistência dos efeitos analgésicos e funcionais a longo prazo. Formulou-se, portanto, a presente questão norteadora: quais são as evidências científicas contemporâneas acerca dos impactos da cinesioterapia sobre o controle da intensidade álgica e a restauração da capacidade funcional em pessoas idosas acometidas por osteoartrite de joelho? Com efeito, o objetivo desta investigação consistiu em sintetizar e discutir criticamente os achados metodologicamente estruturados da literatura nacional e internacional a respeito dessa abordagem terapêutica.
2 METODOLOGIA
Esta pesquisa delineia-se metodologicamente como uma Revisão Integrativa da Literatura (RIL), de natureza qualitativa e caráter descritivo-exploratório, estruturada segundo o rigor do modelo de seis etapas analíticas concebido por Mendes, Silveira e Galvão e sintetizado conforme os preceitos de Bardin (2016). A elaboração da pergunta norteadora pautou-se na estratégia mnemônica SPIDER:
- S (Sample): idosos (≥ 60 anos) com diagnóstico clínico ou radiográfico de osteoartrite de joelho;
- PI (Phenomenon of Interest): programas de cinesioterapia estruturados (treinamento resistido, mobilidade, flexibilidade e propriocepção);
- D (Design): ensaios clínicos randomizados e estudos quase-experimentais;
- E (Evaluation): mensuração dos escores de dor (escalas analógicas ou numéricas) e desfechos de capacidade funcional motora (WOMAC, mobilidade articular, testes de locomoção e equilíbrio);
- R (Research type): pesquisas empíricas originais.
O levantamento bibliográfico foi executado mediante busca em quatro bases indexadas de relevância na área da saúde: Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE/PubMed), Physiotherapy Evidence Database (PEDro), Scientific Electronic Library Online (SciELO) e Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS/BVS). Utilizaram-se descritores controlados selecionados no vocabulário MeSH e nos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS), associados por operadores booleanos: ("Aged" OR "Elderly" OR "Aging") AND ("Osteoarthritis, Knee" OR "Knee Osteoarthritis" OR "Gonarthrosis") AND ("Exercise Therapy" OR "Kinesiotherapy" OR "Resistance Training" OR "Therapeutic Exercise") AND ("Pain" OR "Chronic Pain" OR "Physical Functional Performance" OR "Functional Capacity").
Adotaram-se como critérios de inclusão artigos científicos originais publicados entre os anos de 2020 e 2024, nos idiomas português, inglês ou espanhol, que contemplassem amostras compostas por idosos com gonartrose submetidos a exercícios cinesioterapêuticos ativos e com dados objetivos sobre os desfechos álgicos e funcionais. Excluíram-se produções duplicadas, relatos de caso, literatura cinzenta desprovida de crivo editorial estrito por pares (resumos de eventos, monografias, dissertações e teses), trabalhos com abordagens fundamentadas exclusivamente em modalidades eletrotermofototerapêuticas passivas, investigações direcionadas a reabilitações cirúrgicas de artroplastia e pesquisas sem estratificação específica da faixa etária geriátrica.
A triagem dos manuscritos seguiu o fluxo em quatro etapas recomendado pelo Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA), empregando-se o aplicativo Rayyan QCRI para exclusão de duplicatas e condução de triagem cega e independente por dois pesquisadores. As discordâncias de inclusão foram solucionadas consensualmente. A extração dos parâmetros primários operacionalizou-se via matriz estruturada (ano, autores, periódico, tamanho amostral, características da intervenção, instrumentos de testagem e desfechos). A qualificação metodológica dos ensaios clínicos fundamentou-se nos parâmetros da escala PEDro e no referencial hierárquico de evidências de Melnyk e Fineout-Overholt (2019).
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
3.1 Caracterização dos Estudos Incluídos
A busca sistemática inicial recuperou um montante de 456 registros. Após a eliminação de 98 referências duplicadas, procedeu-se ao exame de títulos e resumos das 358 produções remanescentes, das quais 314 foram afastadas por desvio temático ou metodológico. A avaliação aprofundada de 44 manuscritos na íntegra resultou na exclusão de 34 textos devido à ausência de dados segregados de idosos, associações com infiltrações farmacológicas sem controle isolado de exercício ou informações dosimétricas incompletas. Dessa maneira, dez artigos científicos originais compuseram a síntese final da revisão.
O conjunto selecionado concentrou ensaios clínicos controlados randomizados e ensaios quase-experimentais de expressivo rigor técnico, delineados entre 2020 e 2024 em âmbitos nacional e internacional. O Quadro 1 reúne a síntese dos estudos elegíveis e os parâmetros avaliados.
Quadro 1 – Síntese das características metodológicas e resultados dos estudos selecionados
Fonte: Autores (2026).
3.2 Modulação Biomecânica e Neurofisiológica da Dor
A análise integrada dos dados confirma que a cinesioterapia atua como indutora de hipoalgesia no organismo senescente. Essa resposta fundamenta-se na estimulação mecânica dos tecidos periarticulares durante o movimento controlado. A ativação repetida de mecanorreceptores e proprioceptores articulares de baixo limiar deflagra impulsos inibitórios nas lâminas do corno posterior da medula espinhal, interferindo diretamente na transmissão das mensagens nociceptivas ascendentes. Simultaneamente, a solicitação muscular progressiva desencadeia a síntese e a liberação sistêmica de substâncias opioides endógenas pelos centros encefálicos, promovendo a analgesia mediada pelo esforço e revertendo os estados de sensibilização central e periférica que comumente acompanham as desordens degenerativas articulares crônicas.
Ademais, ao fortalecer ativamente o complexo muscular do quadríceps e os estabilizadores da cintura pélvica, o exercício reduz as forças compressivas anômalas direcionadas às superfícies de contato ósseo desgastadas. A atenuação do quadro inflamatório sinovial e a regulação das citocinas catabólicas aliviam a irritação química persistente sobre as terminações nervosas livres presentes no osso subcondral, justificando a queda nos escores da Escala Visual Analógica e nas subescalas álgicas de instrumentos padronizados. Esse efeito biológico favorece a superação da cinesiofobia, encorajando o indivíduo a retomar posturas normais e a cessar comportamentos protetores que perpetuavam o ciclo vicioso de dor e rigidez motora.
3.3 Repercussões na Capacidade Funcional e Autonomia Física
Os parâmetros motores avaliados nos ensaios revelaram ganhos expressivos na mobilidade, na velocidade de deambulação e no equilíbrio postural. O restabelecimento da força do quadríceps femoral e a recuperação da flexibilidade em isquiotibiais e tríceps sural devolveram a extensão mecânica articular necessária para a fase terminal de apoio e propulsão da passada humana. Esse refinamento cinemático atenuou assimetrias na locomoção e ampliou de forma relevante os índices de tolerância ao esforço físico, conforme documentado no Teste de Caminhada de 6 Minutos e na escala funcional do WOMAC.
Destaca-se a superioridade clínica demonstrada pelas condutas executadas em cadeia cinética fechada quando o objetivo central é o resgate de padrões de transferência do cotidiano. Ao reproduzirem as exigências das forças de reação do solo e demandarem coativações musculares simultâneas, os exercícios em CCF aprimoram as respostas proprioceptivas antecipatórias e reativas de tronco e membros inferiores. Esse ganho de controle postural projeta benefícios diretos na redução do medo de quedas e na segurança para transpor degraus e assentos sem apoio auxiliar. Por sua vez, a preservação do uso de cadeias abertas mantém relevância no direcionamento analítico para fraquezas acentuadas em estágios iniciais, minimizando atritos femoropatelares em ângulos protegidos.
3.4 Parâmetros Dosimétricos e Lacunas na Manutenção a Longo Prazo
No tocante à posologia das intervenções, as investigações evidenciam que protocolos estruturados com frequência de duas a três sessões semanais, duração mínima de oito a dezesseis semanas e com incremento progressivo de carga proporcionam respostas de adaptação neuromuscular mais consistentes. A supervisão contínua exercida pelo fisioterapeuta mostra-se crucial para modular as cargas à tolerância biológica individual, evitando agudizações inflamatórias e promovendo alta aderência terapêutica. Outro desfecho de valor clínico reside na diminuição expressiva do uso diário de medicamentos analgésicos e anti-inflamatórios pelos idosos engajados nas intervenções, prevenindo complicações renais e cardiovasculares.
Não obstante tais avanços, a literatura científica evidencia uma limitação recorrente: a escassez de estudos com acompanhamento longitudinal posterior à interrupção das sessões presenciais supervisionadas. Os achados alertam que, após o encerramento do vínculo assistencial direto, idosos tendem a perder gradativamente os ganhos musculares e de mobilidade se não mantiverem rotinas de exercícios. Esse cenário reforça a necessidade de novos estudos e diretrizes voltadas à implementação de programas de automanejo contínuo e acompanhamento domiciliar híbrido, garantindo a sustentabilidade da autonomia funcional e a qualidade de vida no envelhecimento.
4 CONCLUSÃO
A síntese das evidências científicas confirma que a cinesioterapia atua como modalidade conservadora primária e resolutiva na abordagem terapêutica da osteoartrite de joelho em pessoas idosas. A execução de programas estruturados de exercícios resistidos — com ênfase no fortalecimento do quadríceps femoral e estabilizadores do quadril, preferencialmente em cadeia cinética fechada e conjugados a estímulos sensório-motores — promoveu reduções expressivas na intensidade da dor articular e melhorias significativas nos níveis de mobilidade, marcha e equilíbrio corporal.
A reabilitação funcional gerada pelo movimento rompe com padrões de desuso e cinesiofobia, restabelecendo a confiança física necessária para a autonomia nas tarefas de vida diária e possibilitando a redução no uso rotineiro de medicações sistêmicas. Constata-se, por fim, a premência de investigações futuras que contemplem seguimentos longitudinais estendidos e desenvolvam intervenções educativas de autocuidado domiciliar, consolidando práticas clínicas duradouras alinhadas aos preceitos da Fisioterapia Baseada em Evidências para a atenção à saúde geriátrica.
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Discente do Curso de Fisioterapia da Universidade Paulista (UNIP). Cametá – Pará – Brasil. ↑
Docente e Orientador do Curso de Fisioterapia da Universidade Paulista (UNIP). Cametá – Pará – Brasil. ↑
Docente e Coorientador do Curso de Fisioterapia da Universidade Paulista (UNIP). Cametá – Pará – Brasil. ↑

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