Efeitos sobre a saúde bucal do uso das canetas emagrecedoras: revisão integrativa da literatura
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
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RESUMO

O uso de agonistas do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1 (GLP-1), popularmente conhecidos como “canetas emagrecedoras”, tem aumentado no tratamento da obesidade, despertando interesse quanto às suas possíveis repercussões sobre a saúde bucal. O objetivo deste estudo foi analisar, por meio de uma revisão integrativa da literatura, as principais alterações bucais associadas ao uso de semaglutida, liraglutida e tirzepatida, bem como suas implicações para a prática odontológica. Foi realizada uma revisão integrativa utilizando a estratégia PEO, com buscas nas bases PubMed/MEDLINE e LILACS, por meio da Biblioteca Virtual em Saúde, considerando publicações entre 2016 e 2026. Foram identificados 3.560 artigos, dos quais 107 foram selecionados após aplicação dos filtros e, posteriormente, quatro estudos foram incluídos na revisão. Os achados apontaram a xerostomia como uma das manifestações mais frequentemente relatadas, além de alterações gengivais, lesões aftosas ou erosivas e possíveis repercussões relacionadas a náuseas, vômitos e refluxo gastroesofágico, que podem favorecer a erosão dentária. Entretanto, as evidências sobre halitose, candidose oral e doença periodontal ainda são limitadas, não permitindo estabelecer relação causal direta. Conclui-se que as repercussões dos agonistas de GLP-1 sobre a saúde bucal ainda não estão completamente esclarecidas, sendo necessária maior investigação clínica. O cirurgião-dentista desempenha papel importante na identificação precoce de alterações e no acompanhamento preventivo desses pacientes.

Palavras-chave: Agonistas do receptor de GLP-1. Saúde bucal. Xerostomia. Erosão dentária. Doenças periodontais.

ABSTRACT

The use of glucagon-like peptide type 1 (GLP-1) receptor agonists, popularly known as “slimming pens”, has increased in the treatment of obesity, arousing interest regarding their possible repercussions on oral health. The objective of this study was to analyze, through an integrative literature review, the main oral changes associated with the use of semaglutide, liraglutide and tirzepatide, as well as their implications for dental practice. An integrative review was carried out using the PEO strategy, with searches in the PubMed/MEDLINE and LILACS databases, through the Virtual Health Library, considering publications between 2016 and 2026. 3,560 articles were identified, of which 107 were selected after applying the filters and, subsequently, four studies were included in the review. The findings pointed to xerostomia as one of the most frequently reported manifestations, in addition to gingival changes, aphthous or erosive lesions and possible repercussions related to nausea, vomiting and gastroesophageal reflux, which can favor dental erosion. However, the evidence on halitosis, oral candidosis and periodontal disease is still limited, not allowing a direct causal relationship to be established. It is concluded that the repercussions of GLP-1 agonists on oral health are not yet completely understood, and further clinical investigation is necessary. The dentist plays an important role in the early identification of changes and preventive monitoring of these patients.

Keywords: GLP-1 receptor agonists. Oral health. Xerostomia. Dental erosion. Periodontal diseases.

1 INTRODUÇÃO

Nos últimos anos, a pesquisa sobre os efeitos sobre a saúde bucal do uso das canetas emagrecedoras tem ganhado destaque devido à sua relevância para a odontologia, particularmente porque as repercussões desses medicamentos na cavidade oral permanecem pouco exploradas na literatura, apesar da expansão expressiva de seu uso e do papel central do cirurgião-dentista no reconhecimento precoce dessas alterações (Zheng et al., 2024).

Os medicamentos para emagrecimento, popularmente chamados de "canetas emagrecedoras", tornaram-se tema recorrente na busca contemporânea pelo corpo idealizado. Embora seu efeito mais visível seja a redução do peso corporal, esses fármacos também promovem melhora do controle glicêmico e do perfil lipídico; contudo, seu uso indiscriminado e sem supervisão médica pode representar risco à saúde do paciente (Zheng et al., 2024).

O peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1 (GLP-1) é um hormônio incretínico endógeno, secretado pelas células L do epitélio intestinal, que estimula a secreção de insulina e reduz a liberação de glucagon, contribuindo para o controle glicêmico (Anandhakrishnan et al., 2016). Seus receptores (GLP-1R) distribuem-se no trato gastrointestinal, nas ilhotas pancreáticas e em fibras aferentes viscerais, participando também da regulação lipídica, com potencial terapêutico que se estende a doenças metabólicas, cardiovasculares e neurodegenerativas (Zheng et al., 2024). Nessa mesma linha, Henriques et al. (2026), em revisão de escopo, identificaram que os agonistas do receptor de GLP-1 reduzem a sinalização pró-inflamatória e a reabsorção óssea alveolar por meio das vias NF-κB/MAPK e Wnt/β-catenina; entretanto, ressaltam que essas evidências permanecem restritas a estudos pré-clínicos, sem confirmação em ensaios clínicos com humanos.

Os agonistas do receptor de GLP-1 (arGLP-1) semaglutida, liraglutida e tirzepatida foram inicialmente desenvolvidos para o diabetes mellitus tipo 2, mas passaram a ser amplamente empregados no manejo da obesidade (Costa et al., 2021; De Paulo et al., 2021), promovendo saciedade e retardo do esvaziamento gástrico (Barros et al., 2021), além de benefícios cardiometabólicos (Carvalho et al., 2016). A popularização desses fármacos para fins estéticos, muitas vezes por prescrição off-label, tem levantado preocupações quanto à segurança do paciente (Oliveira, 2023; Rodrigues & Silva, 2024). Corroborando esse cenário, Lacerda Leopoldino et al. (2025), em estudo umbrella, associaram o uso indiscriminado desses fármacos a desnutrição, desequilíbrios eletrolíticos e hipoglicemia, sendo a tirzepatida o agente de maior eficácia e também de maior incidência de efeitos adversos.

Entre os efeitos adversos mais relatados estão náuseas, vômitos, diarreia e refluxo gastroesofágico (Frías et al., 2021; Rubino et al., 2022), fatores que podem comprometer o equilíbrio do meio bucal e predispor a xerostomia, erosão dentária, halitose, disgeusia, candidose oral e agravamento da doença periodontal (Dos Santos, 2025). Esse quadro é reforçado pelos achados de Lacerda Leopoldino et al. (2025), quanto às repercussões nutricionais sistêmicas, e de Henriques et al. (2026), quanto à plausibilidade biológica de efeitos diretos sobre o tecido periodontal.

Diante disso, o objetivo deste estudo é realizar uma revisão integrativa da literatura sobre as principais repercussões orais associadas ao uso de análogos do GLP-1 no tratamento farmacológico da obesidade, bem como suas implicações clínicas para a prática odontológica, visando à elaboração de estratégias preventivas, diagnósticas e terapêuticas adequadas.

2 METODOLOGIA

Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, buscando a sintetização metodológica e visando a garantia da qualidade do estudo, formulou-se a questão norteadora segundo a estratégia PEO, considerando como população indivíduos com sobrepeso ou obesidade em tratamento farmacológico; como exposição, o uso de semaglutida, liraglutida ou tirzepatida; e como desfecho, as repercussões sobre a saúde bucal, incluindo xerostomia, alterações do fluxo salivar, erosão dentária, halitose, candidose oral e doenças periodontais. A questão estabelecida foi: “Quais são as repercussões sobre a saúde bucal associadas ao uso de agonistas do receptor de GLP-1 e agonistas duais GIP/GLP-1 em pacientes submetidos ao tratamento farmacológico da obesidade e do sobrepeso?”

Para tanto, foram realizadas buscas on-line na Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), com acesso às bases PubMed/MEDLINE e LILACS, utilizando descritores dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS), combinados pelos operadores booleanos AND e OR. Foram utilizados os descritores: “Agonistas do Receptor de Peptídeo Semelhante ao Glucagon-1”, “Saúde Bucal”, “Xerostomia”, “Erosão Dentária”, “Doenças Periodontais”, “Halitose”, “Candidíase Bucal” e “Obesidade”.

Para a seleção dos artigos foram estabelecidos critérios de inclusão e exclusão, a saber, critérios de inclusão: artigos disponíveis gratuitamente na íntegra, pertinentes ao objetivo do estudo no período de 2016 a 2026, que fizessem referência inicialmente no seu título sobre a temática do estudo. Como critério de exclusão, optou-se por não incluir os achados não condizentes com a temática, duplicados, com ano de publicação fora do estabelecido; ainda, foi realizada inicialmente a leitura nos resumos.

A partir das buscas foram identificados 3.560 artigos, nas bases e bancos de dados citados, posteriormente selecionados 107 artigos após a aplicação de filtros disponíveis nos sites de busca. Decorrente do processo metodológico, buscando maior e melhor qualidade dos resultados, foi feita a leitura minuciosa nos resumos e artigos na íntegra, desse modo 4 artigos foram selecionados para a construção da revisão de literatura.

Deste modo a revisão de literatura que emergiu dos estudos discute sobre o uso das canetas emagrecedoras e suas repercussões na saúde bucal desses pacientes.

3 DESENVOLVIMENTO

3.1 Fisiologia do GLP-1 e agonistas do receptor de GLP-1

O glucagon-like peptide-1 (GLP-1) é um hormônio incretínico envolvido na regulação da glicemia, do apetite e do metabolismo energético. Seus agonistas (GLP-1RAs), como semaglutida e liraglutida, mimetizam e prolongam a ação do GLP-1 endógeno, promovendo aumento da secreção de insulina dependente da glicose, redução do glucagon, maior saciedade e retardo do esvaziamento gástrico, contribuindo para o controle glicêmico e a redução do peso corporal (Da Silva et al., 2026; Camargo et al., 2026).

Além dos efeitos metabólicos, os GLP-1RAs apresentam ações anti-inflamatórias, antioxidantes e imunomoduladoras, potencialmente relevantes para os tecidos periodontais. A ativação do receptor de GLP-1 também está associada a vias intracelulares, como cAMP/CREB, PKA e PI3K/Akt, relacionadas à função e à viabilidade celular (Ahmad et al., 2025). Dessa forma, seus efeitos sistêmicos podem interferir em processos inflamatórios periodontais, especialmente em indivíduos com alterações metabólicas, embora essa relação ainda esteja em investigação.

3.2 Uso terapêutico dos análogos do GLP-1 no tratamento da obesidade

A obesidade constitui uma doença crônica e multifatorial e representa uma das principais indicações para o uso terapêutico dos agonistas do receptor de GLP-1. Esses medicamentos atuam principalmente por meio da redução do apetite, do aumento da saciedade e do retardamento do esvaziamento gástrico, promovendo redução da ingestão energética e, consequentemente, do peso corporal. Camargo et al. (2026) identificaram reduções de aproximadamente 10% a 20% do peso corporal entre indivíduos com indicação terapêutica apropriada, resultados considerados clinicamente relevantes em comparação às terapias farmacológicas antiobesidade de gerações anteriores.

Entre os principais medicamentos utilizados nesse contexto encontram-se a liraglutida e a semaglutida, além de fármacos mais recentes, como a tirzepatida. Camargo et al. (2026) relatam que a semaglutida e a tirzepatida apresentam elevada eficácia na redução do peso corporal e na melhora de parâmetros cardiometabólicos, contribuindo para a ampliação das possibilidades farmacológicas disponíveis para o tratamento da obesidade.

A utilização desses medicamentos deve, entretanto, estar vinculada a critérios clínicos adequados. Liraglutida, semaglutida e tirzepatida apresentam evidências para o manejo do peso em determinadas populações com obesidade ou sobrepeso associado a comorbidades. Dessa maneira, os resultados obtidos em indivíduos com indicação terapêutica não devem ser automaticamente extrapolados para pessoas eutróficas que utilizam esses medicamentos exclusivamente para fins estéticos. Camargo et al. (2026) ressaltam a importância dessa diferenciação, considerando as limitações existentes quanto à segurança e aos efeitos em longo prazo fora das populações estudadas.

3.3 Repercussões sobre a saúde bucal associadas ao uso de análogos do GLP-1

Embora o uso dos agonistas do receptor de GLP-1 tenha se ampliado no tratamento da obesidade e das alterações metabólicas, as evidências sobre suas repercussões na saúde bucal ainda são limitadas. Jankowska et al. (2025), em estudo com 339 usuários, identificaram xerostomia, dor gengival, queilite angular, lesões aftosas ou erosivas, sangramento e edema gengival entre as manifestações relatadas, sendo a xerostomia a mais frequente (46,6%). A semaglutida foi o fármaco mais utilizado na amostra.

Apesar de esses achados sugerirem possíveis repercussões sobre a saúde bucal, a utilização de dados autorrelatados e a ausência de avaliação odontológica objetiva limitam a inferência de causalidade. Dessa forma, são necessários estudos clínicos com avaliação odontológica e parâmetros salivares objetivos para esclarecer a associação entre os agonistas de GLP-1 e as alterações bucais observadas.

3.4 Xerostomia e alterações do fluxo salivar

A xerostomia foi a manifestação bucal mais frequente no estudo de Jankowska et al. (2025), sendo relatada por 46,6% dos 339 participantes. Entretanto, como não houve mensuração objetiva do fluxo salivar, os achados representam percepção subjetiva de boca seca, não permitindo caracterizar hipossalivação ou estabelecer relação causal direta com os agonistas de GLP-1.

A distinção é clinicamente relevante, pois alterações quantitativas ou qualitativas da saliva podem comprometer sua função de lubrificação, tamponamento ácido e proteção dos tecidos bucais, potencialmente aumentando a suscetibilidade à cárie e a alterações periodontais. Portanto, pacientes com sintomas persistentes devem receber acompanhamento odontológico preventivo, sendo necessários estudos com avaliação objetiva do fluxo e da composição salivar para esclarecer essa associação (Dler; Ujam, 2026; Jankowska et al., 2025).

3.5 Erosão dentária associada ao refluxo gastroesofágico e aos vômitos

Os efeitos gastrointestinais, especialmente náuseas, vômitos e refluxo gastroesofágico, estão entre os eventos adversos associados aos agonistas de GLP-1 e aos agonistas duais GIP/GLP-1, sobretudo durante a adaptação ao tratamento e o aumento das doses (Camargo et al., 2026). A ocorrência recorrente de vômitos ou refluxo pode favorecer a erosão dentária por exposição ao ácido gástrico, comprometendo progressivamente as estruturas mineralizadas dos dentes (Dler; Ujam, 2026).

É importante diferenciar essa condição das lesões aftosas ou erosões da mucosa oral relatadas por Jankowska et al. (2025), que ocorreram em 8,9% dos participantes, pois o estudo não estabeleceu associação dessas manifestações com erosão dentária decorrente de refluxo ou vômitos.

3.6 Halitose

As evidências disponíveis não estabelecem associação direta ou causal entre o uso de agonistas do GLP-1 e a ocorrência de halitose ou disgeusia. Embora xerostomia e alterações gastrointestinais possam interferir no ambiente bucal, os estudos analisados não apresentam dados clínicos específicos que confirmem essas manifestações como efeitos adversos dos medicamentos. Assim, halitose e disgeusia permanecem lacunas na literatura, sendo necessários estudos clínicos com avaliação objetiva e controle de fatores de confusão, como higiene oral, alimentação, condições sistêmicas e uso concomitante de medicamentos (Jankowska et al., 2025).

3.7 Candidose oral

A literatura analisada não demonstra associação direta entre o uso de agonistas do GLP-1 e a ocorrência de candidose oral. Embora Jankowska et al. (2025) tenham relatado manifestações como queilite angular, descamação da mucosa, herpes recorrente e lesões aftosas ou erosivas, não houve diagnóstico clínico ou microbiológico específico de infecção por Candida. Portanto, essas manifestações não podem ser atribuídas à candidose oral, permanecendo necessária maior investigação clínica para esclarecer essa possível associação.

3.8 Doença periodontal

A relação entre os agonistas do GLP-1 e a doença periodontal ainda apresenta evidências limitadas e heterogêneas. Jankowska et al. (2025) observaram maior ocorrência de manifestações gengivais entre usuários, porém o caráter observacional do estudo não permite estabelecer causalidade.

Por outro lado, evidências experimentais sugerem possíveis efeitos anti-inflamatórios, antioxidantes e osteoprotetores dos GLP-1RAs. Estudos in vitro e em animais indicaram estímulo à diferenciação osteogênica e redução da inflamação e da reabsorção óssea alveolar. Dados clínicos preliminares também sugerem menor perda óssea em pacientes tratados com GLP-1RAs. Entretanto, a predominância de evidências experimentais limita sua aplicação clínica, sendo necessários ensaios clínicos randomizados para confirmar esses efeitos e avaliar medicamentos mais recentes, como semaglutida e tirzepatida (Ahmad et al., 2025).

3.9 Mecanismos fisiopatológicos e implicações clínicas orais para a odontologia

Os possíveis efeitos dos agonistas do GLP-1 sobre os tecidos periodontais envolvem mecanismos anti-inflamatórios, imunomoduladores e antioxidantes, além da modulação do metabolismo ósseo. Estudos experimentais indicam que a liraglutida pode reduzir a atividade de macrófagos M1, atenuando a resposta inflamatória periodontal e favorecendo um ambiente potencialmente mais adequado à reparação tecidual (Ahmad et al., 2025).

Além disso, a redução do estresse oxidativo e a possível estimulação da diferenciação osteogênica, do remodelamento ósseo e da osseointegração podem contribuir para efeitos potencialmente protetores sobre os tecidos periodontais. Entretanto, essas evidências são predominantemente experimentais e ainda não permitem estabelecer benefícios clínicos definitivos em humanos, sendo necessários estudos clínicos para confirmar esses mecanismos (Ahmad et al., 2025).

4 RESULTADOS E DISCUSSÕES

A análise dos estudos selecionados demonstra que as repercussões orais associadas ao uso dos agonistas do receptor de GLP-1 constituem um campo que vem se expandindo na odontologia. Embora a eficácia desses medicamentos no tratamento da obesidade e das alterações metabólicas esteja bem estabelecida, as evidências sobre seus efeitos na cavidade oral ainda são limitadas, apresentando diferenças quanto à frequência e à causalidade das manifestações observadas. Camargo et al. (2026) destacam a eficácia da semaglutida e da tirzepatida na redução do peso corporal e na melhora dos parâmetros cardiometabólicos, enquanto Silva Neto et al. (2026) ressaltam seus efeitos sistêmicos, incluindo ações cardioprotetoras, nefroprotetoras e anti-inflamatórias. Entretanto, os estudos reforçam que as repercussões especificamente relacionadas à saúde bucal permanecem pouco investigadas.

Entre as repercussões descritas, a xerostomia apresenta destaque. Jankowska et al. (2025), ao avaliarem 339 usuários de análogos de GLP-1, identificaram relato de boca seca em 46,6% dos participantes. Contudo, como o estudo foi baseado em questionário e não realizou mensuração objetiva do fluxo salivar, esse resultado não permite estabelecer a presença de hipossalivação ou relação causal direta com os medicamentos. Nesse contexto, Dler e Ujam (2026) destacam que a redução da função salivar pode comprometer mecanismos de proteção da cavidade oral, favorecendo cárie dentária, desconforto da mucosa e alterações periodontais. Dessa forma, mesmo diante das limitações existentes, a identificação de sintomas de xerostomia deve receber atenção durante o atendimento odontológico.

Silva et al. (2020) e Camargo et al. (2026) apontam náuseas, vômitos e refluxo gastroesofágico entre os eventos adversos mais frequentes. A partir desses achados, Dler e Ujam (2026) estabelecem uma relação importante com a odontologia, uma vez que episódios recorrentes de vômitos e refluxo podem aumentar a exposição dos tecidos dentários ao ácido gástrico e, consequentemente, favorecer a erosão dentária. Nesse caso, a repercussão odontológica ocorre principalmente de forma indireta, decorrente das alterações gastrointestinais associadas ao tratamento.

Jankowska et al. (2025) observaram maior ocorrência de manifestações gengivais e úlceras aftosas durante períodos de gengivite ou doença periodontal, embora o delineamento observacional não permita estabelecer causalidade. Por outro lado, Polymeri et al. (2026) identificaram, principalmente em estudos in vitro e modelos animais, resultados que sugerem efeitos potencialmente benéficos dos agonistas de GLP-1, relacionados à redução da inflamação, modulação da resposta imune e favorecimento da reparação tecidual. Entretanto, os próprios autores ressaltam que as evidências em humanos ainda são escassas e que não existem, até o momento, ensaios clínicos que comprovem benefício periodontal direto desses medicamentos. Portanto, embora exista plausibilidade biológica para um efeito anti-inflamatório e reparador, não é possível afirmar que os agonistas de GLP-1 exerçam efeito terapêutico sobre a doença periodontal.

As repercussões orofaciais também foram abordadas por Motamedi e Minokadeh (2026), que descrevem manifestações como xerostomia, alterações periodontais e perda de volume perioral. Entretanto, os autores reconhecem que os achados disponíveis ainda são limitados, reforçando a necessidade de investigações clínicas específicas. De forma semelhante, Oyewole e Owosho (2026) relatam registros de eventos orofaciais, incluindo xerostomia, disfagia, estomatite e disgeusia, em sistemas de farmacovigilância. Contudo, destacam que a literatura ainda apresenta limitações importantes, principalmente pela presença de relatos isolados, pequenas observações clínicas e possíveis fatores de confusão.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Concluímos que a relação entre as chamadas “canetas emagrecedoras” e a saúde bucal ainda não está completamente esclarecida. Os estudos analisados apontam possíveis repercussões sobre a saliva, tecidos periodontais, mucosa oral e estruturas dentárias, mas muitas associações permanecem sem comprovação de causalidade. Assim, a discussão com os autores converge para um ponto central: o aumento da utilização desses medicamentos exige maior atenção do cirurgião-dentista. A anamnese deve contemplar o uso de agonistas de GLP-1, bem como a presença de xerostomia, vômitos, refluxo e alterações gengivais, permitindo a identificação precoce de fatores de risco e a adoção de medidas preventivas. Dessa maneira, o acompanhamento odontológico periódico e a atuação multiprofissional tornam-se fundamentais para garantir uma abordagem integral desses pacientes, enquanto novos estudos clínicos são necessários para estabelecer com maior precisão os efeitos dos agonistas de GLP-1 sobre a saúde bucal.

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  1. Acadêmica de odontologia do Centro Universitário da Amazônia – UNIESAMAZ. ↑

  2. Cirurgião-Dentista – Centro Universitário da Amazônia – UNIESAMAZ. ↑

  3. Especialista em saúde pública – ABO-PA. ↑

  4. Mestre em saúde coletiva – UFPA. ↑

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Copyright (c) 2026 Gabriele Cristina Oliveira Palheta, Juliane Santos Moraes, Raphaella Damasceno Araujo, Mayara Oliveira de Jesus, Maria Cristina Rolla Vilas Boas, Mayra Rolla Siqueira (Autor)

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