Resumo
Objetivo: analisar evidências sobre estratégias sociais, comunitárias e remotas usadas para preservar vínculos, bem-estar e qualidade de vida de pessoas idosas durante a pandemia da COVID-19. Método: revisão integrativa orientada por PICo, com busca no PubMed/MEDLINE (2020–2026) e recuperação complementar de estudos brasileiros na SciELO, realizada em 26 de setembro de 2026. A seleção e a apreciação crítica foram conduzidas por um revisor, com síntese temática e instrumentos JBI adequados ao desenho. Resultados: 23 estudos originais compuseram a amostra. Telefonemas proativos, grupos virtuais facilitados, apoio entre pares, redes de vizinhança e continuidade de serviços comunitários favoreceram contato, suporte percebido e, em alguns ensaios, reduziram solidão ou sintomas depressivos. Estudos observacionais registraram associações desfavoráveis com maior uso de videochamadas, indicando que quantidade de contato digital não equivale à qualidade do vínculo. Conclusão: estratégias remotas podem ampliar a continuidade do cuidado e da convivência, desde que combinadas a apoio familiar e territorial e a alternativas acessíveis para pessoas digitalmente excluídas. A heterogeneidade metodológica e a busca não exaustiva limitam a generalização.
Palavras-chave: pessoa idosa; apoio social; COVID-19; solidão; qualidade de vida.
Abstract
Objective: to analyze evidence on social, community, and remote strategies used to preserve social ties, well-being, and quality of life among older adults during the COVID-19 pandemic. Methods: integrative review guided by PICo, with a PubMed/MEDLINE search (2020–2026) and complementary retrieval of Brazilian studies from SciELO on September 26, 2026. One reviewer conducted selection and critical appraisal using design-appropriate JBI tools and thematic synthesis. Results: 23 original studies were included. Proactive phone calls, facilitated virtual groups, peer support, neighborhood networks, and continuity of community services supported contact and perceived support; some trials found reductions in loneliness or depressive symptoms. Observational studies reported unfavorable associations with more frequent video calls, suggesting that digital contact volume does not capture relationship quality. Conclusion: remote strategies can maintain support and social participation when combined with family and territorial networks and accessible options for digitally excluded older adults. Methodological heterogeneity and the non-exhaustive search limit generalization.
Keywords: older adults; social support; COVID-19; loneliness; quality of life.
1 Introdução
O envelhecimento populacional amplia a necessidade de políticas e serviços capazes de sustentar autonomia, participação e proteção social em situações de crise. Durante a pandemia da COVID-19, a maior gravidade clínica da infecção em faixas etárias avançadas justificou medidas de proteção, mas o distanciamento também restringiu atividades coletivas, visitas, circulação no bairro e encontros com familiares. Essas perdas tiveram sentidos distintos conforme a condição de saúde, a composição do domicílio, a renda e o suporte disponível. A pesquisa com idosos escoceses de Tomaz et al. (2021) registrou aumento percebido da solidão e redução dos contatos, ao mesmo tempo em que redes mais amplas e apoio percebido se associaram a melhor bem-estar.
Solidão, isolamento social e distanciamento físico designam fenômenos diferentes. A primeira expressa insuficiência subjetiva da relação; o segundo, redução objetiva dos vínculos; o terceiro, uma medida temporária de proteção sanitária. A distinção importa porque uma chamada pode manter contato sem assegurar intimidade ou reciprocidade. No inquérito norte-americano de Choi et al. (2022), menor contato presencial e maior frequência de videochamadas se associaram a aumento de solidão, resultado compatível com a hipótese de que a comunicação virtual foi intensificada justamente por quem mais perdeu convivência. Assim, associações transversais não autorizam concluir que a tecnologia cause dano.
A interrupção de centros de convivência, serviços territoriais e visitas presenciais obrigou equipes, famílias e organizações a adaptar a forma de acompanhar pessoas idosas. Telefonemas de busca ativa, apoio entre pares, grupos por vídeo e encaminhamento para recursos materiais passaram a integrar as respostas. Ao mesmo tempo, idade avançada, perda sensorial, acesso à internet, custo dos dispositivos e letramento digital limitaram a participação em alternativas online. Balki et al. (2023) mostraram que facilidade de uso, segurança e utilidade percebida interferiram na adoção de meios digitais; Zhang et al. (2023) identificaram obstáculos adicionais entre pessoas com deficiência auditiva ou visual.
A exposição a essas perdas também dependeu da história relacional anterior à pandemia. Uma pessoa que já frequentava grupos ou mantinha rotina de visitas podia perder rapidamente fontes diversas de contato, enquanto outra, com rede pequena antes de 2020, talvez não fosse alcançada pelas propostas emergenciais anunciadas pela internet. No estudo de Ottoni et al. (2022), vizinhos e organizações do bairro favoreceram o pertencimento, mas parcela relevante dos entrevistados continuou muito solitária. Esse contraste mostra que um serviço precisa reconhecer quem ficou fora das redes visíveis e que a existência de iniciativas comunitárias não assegura cobertura universal.
A pandemia também alterou o modo como profissionais encontravam e acompanhavam usuários. Quando o atendimento presencial é reduzido, contato telefônico pode servir simultaneamente para escutar, identificar uma demanda urgente e orientar o acesso a recursos. São funções diferentes: escuta relacional exige continuidade e confiança; encaminhamento exige uma rede com resposta concreta; atividade coletiva exige oportunidade de participação e troca. O estudo de Hodges et al. (2023) tornou essa combinação particularmente nítida ao registrar necessidades emocionais e materiais durante contatos de agentes comunitários com usuários idosos vulneráveis.
A relevância desses arranjos vai além da comunicação. O contato pode sinalizar necessidades de alimentação, transporte, cuidado e proteção; o grupo pode oferecer pertencimento; e a rede de vizinhança pode mobilizar ajuda sem substituir serviços. Estudo com agentes comunitários nos Estados Unidos documentou apoio emocional e conexão a recursos entre usuários vulneráveis (Hodges et al., 2023). No Brasil, um Círculo de Cultura virtual com participantes de centro de convivência registrou simultaneamente falta do convívio presencial e sensação de cuidado mesmo à distância (Luzardo et al., 2021).
Embora existam estudos sobre intervenções específicas, sua diversidade dificulta responder quais mecanismos de suporte parecem mais úteis e em que condições. É necessário distinguir efeitos demonstrados em ensaios de percepções qualitativas e de associações observacionais, sobretudo para não transportar resultados de serviços de saúde ou de outros países diretamente para a assistência social brasileira. Esta revisão tem como objetivo analisar as evidências disponíveis acerca das estratégias de suporte social, comunitário e remoto utilizadas para preservar a qualidade de vida, o bem-estar e os vínculos sociais de pessoas idosas durante a pandemia da COVID-19.
2 Método
Trata-se de revisão integrativa, conduzida pelas etapas de identificação do problema, busca, avaliação dos estudos, análise e apresentação propostas por Whittemore e Knafl (2005). O relato do fluxo de registros segue princípios de transparência do PRISMA 2020 (Page et al., 2021), sem classificar o trabalho como revisão sistemática. O protocolo foi definido para esta revisão e não foi registrado prospectivamente.
A pergunta norteadora foi: quais estratégias de suporte social, comunitário e/ou remoto foram utilizadas para preservar qualidade de vida, vínculos sociais e bem-estar de pessoas idosas durante a pandemia da COVID-19? No PICo, P corresponde a pessoas idosas; I, a suporte social, familiar, comunitário, socioassistencial ou remoto; e Co, ao contexto pandêmico. Solidão, isolamento, participação, vínculo, bem-estar, saúde mental e qualidade de vida foram tratados como desfechos conceituais, sem pressupor equivalência entre escalas.
A busca foi realizada em até 25 de setembro de 2026, cobrindo publicações de 2020 a essa data. No PubMed/MEDLINE, três estratégias adaptadas combinaram COVID-19/SARS-CoV-2, aged/older adults/elderly e blocos de suporte, participação, solidão, qualidade de vida, serviços e comunicação remota, com descritores MeSH e palavras em título/resumo. As três buscas retornaram, respectivamente, 581, 959 e 1.360 registros; os identificadores foram exportados e deduplicados por PMID. Uma busca complementar direcionada a páginas do domínio SciELO, com termos em português, recuperou dois artigos brasileiros para leitura integral; essa recuperação não fornece contagem total auditável da base. As expressões completas do PubMed constam do Apêndice A. A interface de busca da BVS/LILACS não devolveu registros exportáveis nesta sessão; Scopus, Web of Science, Embase e CINAHL não estavam acessíveis. Não se atribuiu contagem a essas bases.
Foram elegíveis estudos originais quantitativos, qualitativos ou mistos, em português, inglês ou espanhol, publicados desde 2020, que incluíssem participantes de 60 anos ou mais ou população explicitamente denominada older adults/elderly pelos autores, investigassem suporte ou formas de interação durante a pandemia e apresentassem resultados sobre vínculos, isolamento, solidão, bem-estar, saúde mental ou qualidade de vida. Excluíram-se editoriais, cartas, protocolos, revisões, resumos sem artigo completo, duplicatas, estudos sem população idosa identificável e estudos apenas clínicos da infecção.
A triagem inicial dos títulos recuperados no PubMed usou uma regra textual documentada de termos relativos a intervenção, apoio, conexão social, telefone, meios digitais, participação, solidão e ativação comportamental. Essa etapa reduziu 2.329 registros com metadados recuperáveis a 192 títulos potencialmente pertinentes. Os 192 resumos e os dois registros SciELO foram examinados em seguida; 171 não foram encaminhados à leitura integral por não descreverem de forma suficientemente direta estratégia/exposição de suporte e desfecho pertinente ou por apresentarem publicação não original. Os 23 textos retidos foram lidos integralmente e incluídos. A triagem, a extração e a decisão final foram feitas por um revisor; trata-se, portanto, de seleção focada, com risco de omissão de estudos relevantes.
A deduplicação utilizou o PMID para registros do PubMed e a comparação de título e DOI para os dois artigos SciELO. Dos 2.900 retornos brutos no PubMed, 564 repetiam identificadores entre estratégias; sete registros não tiveram metadados recuperados na exportação XML e foram removidos antes da triagem. O fluxograma apresenta separadamente essas perdas operacionais. Na leitura integral, a prioridade foi identificar o que de fato foi feito com ou para pessoas idosas, o contexto temporal e a natureza do desfecho. Uma exposição observada, como frequência de videochamadas, foi diferenciada de intervenção planejada, como um programa de telefonemas; ambas podem responder à pergunta, mas sustentam conclusões de força distinta.
Em planilha de extração foram registrados autores, país, ano, delineamento, amostra, estratégia/exposição, desfechos, resultados e limitações. Os estudos foram agrupados por mecanismo de suporte, e as conclusões foram graduadas na interpretação conforme o desenho. Para a apreciação crítica, foram utilizados os domínios dos instrumentos JBI correspondentes a ensaios aleatorizados, estudos quase experimentais, transversais e qualitativos (JBI, 2026). O julgamento foi narrativo, sem soma de escores ou exclusão automática. Examinaram-se, quando pertinentes, seleção dos participantes, comparabilidade dos grupos, mensuração de exposição e desfechos, perdas, controle de confundimento e coerência da análise qualitativa. A heterogeneidade de desenhos e medidas afastou metanálise.
Figura 1 – Fluxo de identificação e seleção dos estudos, adaptado do PRISMA 2020
Fonte: elaboração própria.
3 Resultados
As três estratégias do PubMed produziram 2.900 registros brutos. A deduplicação eliminou 564 identificadores repetidos e sete registros não tiveram metadados recuperáveis na exportação. Com dois artigos adicionais da SciELO, 2.331 registros chegaram à triagem de títulos. A regra textual reteve 194 para leitura de resumos; 171 não foram encaminhados à leitura integral. Os 23 textos completos avaliados compuseram a síntese. A Figura 1 explicita cada etapa e suas contagens.
A amostra final reuniu 23 estudos publicados entre 2021 e 2025: 21 identificados no PubMed/MEDLINE e dois na SciELO. Houve ensaios aleatorizados, estudos quase experimentais e pré/pós, inquéritos observacionais, pesquisas qualitativas e métodos mistos. As amostras variaram de pequenos grupos de intervenção a inquéritos com mais de duas mil pessoas. Predominaram estudos realizados nos Estados Unidos e em países europeus, com pesquisas de Hong Kong, Taiwan, Malásia e Brasil. Em Joo et al. (2025) e Zhang et al. (2023), o limite inferior de idade foi, respectivamente, 50 e 55 anos; ambos se autodefiniram como estudos de pessoas idosas, e esta diferença foi considerada na interpretação.
As estratégias agrupam-se em cinco eixos, não mutuamente exclusivos: contato telefônico proativo e acompanhamento; grupos virtuais facilitados; apoio entre pares e intergeracional; redes familiares e de bairro; e continuidade remota de serviços comunitários. Os desfechos mais frequentes foram solidão, sintomas depressivos, apoio percebido e conexão social. Qualidade de vida foi aferida formalmente em menos estudos que solidão e saúde mental, dificultando concluir que ganhos em contato se traduzam automaticamente em melhor qualidade de vida global.
Entre os ensaios, o maior estudo selecionado, conduzido em Hong Kong com pessoas idosas de baixa renda e exclusão digital, encontrou redução de solidão na escala UCLA com ativação comportamental e atenção plena por telefone em comparação ao contato de amizade aos três meses (Kwok et al., 2024). O BASIL+ encontrou melhora de sintomas depressivos no curto prazo com ativação comportamental telefônica (Gilbody et al., 2024), enquanto o piloto anterior foi principalmente uma demonstração de viabilidade e apontou possível redução de solidão sem efeito conclusivo na qualidade de vida (Gilbody et al., 2021). Em contraste, o ensaio de Joo et al. (2025) não encontrou superioridade do apoio por pares em relação à interação social oferecida por não pares.
Na dimensão comunitária, agentes, voluntários e organizações locais sustentaram a identificação de necessidades e a conexão com recursos (Hodges et al., 2023; Rorai et al., 2021; Fuller et al., 2022). Estudos qualitativos mostraram que a reciprocidade e a continuidade dos contatos importavam para a experiência subjetiva de vínculo (Masoud et al., 2021; Sen et al., 2024). Os achados observacionais, porém, foram heterogêneos: contatos digitais foram úteis em certos subgrupos (Zhang et al., 2023), ao passo que frequência maior de videochamadas acompanhou maior solidão ou ansiedade em outros levantamentos (Choi et al., 2022; Robbins et al., 2023).
Os estudos de instituições e serviços especializados acrescentaram outra dimensão. O piloto português de reminiscência em grupo registrou menor solidão e melhora afetiva entre residentes, embora as instituições comparadas fossem diferentes desde o início (Morgado et al., 2023). Em Taiwan, a continuidade remota de um centro comunitário para pessoas com demência se associou a melhor bem-estar de usuários e cuidadores durante o fechamento presencial (Lai et al., 2022). Esses resultados dizem respeito a contextos assistenciais específicos, com mediação profissional e infraestrutura própria. Já no estudo brasileiro de Janhaque et al. (2022), a associação entre apoio afetivo e funcionamento familiar descreveu um recurso relacional presente na vida cotidiana, e não uma intervenção formal.
Quadro 1 – Características e achados dos 23 estudos incluídos
Fonte: elaboração própria com base nos estudos citados. Estudos observacionais descrevem associações; relatos de implementação e pesquisas qualitativas não estimam eficácia causal.
3.1 Apreciação crítica dos estudos
A leitura orientada pelos itens JBI mostrou maior segurança para inferências de curto prazo nos ensaios com comparação explícita e desfechos padronizados; ainda assim, a generalização depende da seleção e do contexto. No ensaio de Kwok et al. (2024), randomização e análise por intenção de tratar foram pontos fortes, mas cerca de metade da amostra não completou o seguimento de três meses. Gilbody et al. (2024) usaram avaliadores mascarados e recrutamento multicêntrico, porém a população incluía pessoas com multimorbidade e sintomas depressivos, o que restringe extrapolação para idosos sem esses critérios. O BASIL piloto teve pequeno tamanho e tempo de avaliação inicialmente inadequado para a conclusão da intervenção (Gilbody et al., 2021). Shapira et al. (2021) recrutaram participantes já capazes de usar internet, e o grupo controle foi menor; Joo et al. (2025) compararam duas formas ativas de contato, o que fortalece a interpretação da ausência de superioridade dos pares, mas dificulta estimar o efeito de ter contato versus não o ter.
Nos estudos pré/pós e quase experimentais, a ausência de controle ou a não equivalência inicial dos grupos limita a atribuição de mudança à estratégia. Isso afeta especialmente Gabarrell-Pascuet et al. (2024), Juszko et al. (2022), Ibrahim et al. (2021) e Morgado et al. (2023). Em Lai et al. (2022), a análise de diferenças em diferenças melhora a comparação temporal, mas permanece sujeita a tendências não paralelas e alterações concomitantes no serviço. Nos inquéritos de Choi et al. (2022), Robbins et al. (2023), Janhaque et al. (2022) e Tomaz et al. (2021), a temporalidade e o confundimento residual impedem inferência causal; seleção online e autorrelato também podem sub-representar idosos sem acesso digital. Zhang et al. (2023) combinaram informação sensorial anterior à pandemia com contato e humor posteriores, mas o uso das tecnologias não foi aleatorizado.
As pesquisas qualitativas de Hodges et al. (2023), Fuller et al. (2022), Ottoni et al. (2022), Masoud et al. (2021), Sen et al. (2024) e Luzardo et al. (2021) descrevem mecanismos e barreiras contextuais. Os registros de agentes comunitários em Hodges et al. (2023) foram codificados por mais de um pesquisador, mas não equivalem a entrevistas diretas com todos os usuários; em Masoud et al. (2021), a participação de apenas cinco pessoas com demência limita a representação de experiências dos próprios residentes. O relato de programa de Rorai et al. (2021) documenta alcance e necessidades detectadas, mas não mede solidão antes e depois. Essas diferenças foram incorporadas à síntese, sem converter percepções ou associações em provas de eficácia.
4 Discussão
4.1 O que torna o suporte remoto efetivo
Os ensaios sugerem que uma intervenção remota depende menos da plataforma isolada do que de propósito, regularidade e mediação. O grupo por Zoom de Shapira et al. (2021) combinou espaço de partilha com técnicas cognitivas, e a intervenção espanhola de Gabarrell-Pascuet et al. (2024) uniu expressão de experiências, apoio entre pares e treino de relações. Ambos relataram menor solidão emocional, mas apenas o primeiro teve grupo comparador. De forma semelhante, o BASIL+ transformou a chamada telefônica em planejamento de atividades significativas e socialmente recompensadoras, indo além da simples verificação de segurança (Gilbody et al., 2024).
A comparação mais instrutiva veio de Kwok et al. (2024): três braços receberam chamadas de voluntários idosos, mas a ativação comportamental e a atenção plena produziram vantagem em uma das escalas de solidão aos três meses. A diferença não apareceu da mesma forma na outra escala, e as perdas de seguimento foram grandes. O resultado aponta para possível valor adicional do conteúdo estruturado, sem eliminar o benefício do contato amigável. No estudo de Joo et al. (2025), tanto o apoio por pares quanto a interação por não pares se associaram à melhora, sem superioridade do primeiro. A convergência é parcial: manter uma relação regular parece relevante, enquanto o efeito incremental de técnicas ou identidade do apoiador depende da população, da comparação e do desfecho.
Os programas de telefonemas têm uma vantagem prática: chegam a pessoas que não dispõem de banda larga ou habilidades digitais. O estudo de Hong Kong recrutou explicitamente idosos excluídos digitalmente (Kwok et al., 2024). Em Detroit, a busca telefônica alcançou 1.204 pessoas idosas negras e permitiu identificar necessidades de informação e serviços (Rorai et al., 2021). O alcance, contudo, não demonstra redução de solidão. A distinção entre cobertura e efetividade é essencial para planejamento de serviços: um indicador informa quantos foram contatados; outro deve verificar se o contato foi apropriado, repetido e percebido como suporte.
A intervenção com mulheres idosas convertida de encontros presenciais para suporte remoto manteve estáveis os escores de depressão durante 2020, mas não tinha grupo comparador (Juszko et al., 2022). Também no exercício virtual da Malásia, a implementação foi possível, sem evidência clara de melhora depressiva e com perdas no seguimento (Ibrahim et al., 2021). Esses estudos ajudam a compreender a continuidade operacional, mas não permitem tratar ausência de piora como efeito comprovado. Em emergências, a manutenção de uma rotina de contato pode ser valiosa mesmo quando não se detecta mudança em escala clínica; essa utilidade deve ser descrita pelo indicador que de fato foi medido.
Os desfechos escolhidos modificam a leitura de um programa. Solidão emocional capta carência de vínculo íntimo, enquanto uma escala de sintomas depressivos responde a outra dimensão do sofrimento; apoio percebido e qualidade de vida incluem ainda elementos sociais e funcionais. Por isso, não surpreende que os estudos do BASIL tenham produzido sinais distintos conforme o tempo de avaliação e o instrumento. O piloto encontrou diferença favorável em solidão no terceiro mês, mas não evidência conclusiva para qualidade de vida (Gilbody et al., 2021); o ensaio maior confirmou benefício para depressão de curto prazo (Gilbody et al., 2024). Dizer apenas que a estratégia “funcionou” ocultaria essa variação. Para serviços, faz sentido combinar indicadores de contato, solidão, participação e satisfação do usuário, sem transformá-los em um único número.
A intervenção por pares também pede uma leitura menos linear. A comparação de Joo et al. (2025) sugere que, para uma população com depressão, a identidade de par pode não acrescentar ganho mensurável em relação a uma interação social ativa. Em Fuller et al. (2022), porém, pares atuaram como amigos flexíveis e a aceitação do programa dependia de pareamento cuidadoso e apoio contínuo aos voluntários. Os estudos respondem perguntas diferentes: o primeiro compara desfechos entre modelos de contato; o segundo explica condições de implementação. Uma organização comunitária pode aproveitar a experiência de pares sem presumir que apenas a condição de par produzirá resultado superior.
4.2 Relações familiares, vizinhança e participação
A rede familiar é uma fonte central de apoio, mas sua presença física não garante disponibilidade afetiva. Em Campinas, o apoio afetivo percebido se associou à funcionalidade familiar entre participantes de uma universidade aberta para idosos (Janhaque et al., 2022). A análise é transversal, em amostra com escolaridade relativamente elevada, e não mede mudança de qualidade de vida após intervenção. Ainda assim, evidencia que considerar a família apenas como unidade de cuidado material reduz uma dimensão importante do suporte. No Círculo de Cultura de Luzardo et al. (2021), idosos de centro de convivência falaram de saudade do encontro e de sentir-se amados por contatos à distância, mostrando coexistência de perdas e proteção.
As relações de bairro também operaram como infraestrutura social durante as restrições. Ottoni et al. (2022) identificaram encontros com vizinhos, organizações locais e espaços caminháveis como meios de conexão, mas 39% dos participantes ainda apresentavam solidão alta ou extrema. Tomaz et al. (2021) encontraram estratégias de contato online e com vizinhos entre idosos escoceses, com associação de suporte percebido a melhor bem-estar. Esses estudos convergem quanto ao papel de redes preexistentes, sem garantir que o território proteja igualmente quem mora só, apresenta mobilidade reduzida ou já tinha poucos laços antes da emergência.
Programas de apoio entre pares e intergeracional acrescentaram reciprocidade à lógica de atendimento. Fuller et al. (2022) observaram que pares eram percebidos como amigos e que o vínculo se apoiava em pareamento, supervisão e acesso a recursos comunitários. Sen et al. (2024) descreveram conversas semanais entre estudantes e idosos, com relatos de menor tédio e solidão, mas sem comparação padronizada pré e pós. Os cafés de memória virtuais estudados por Masoud et al. (2021) propiciaram interação para pessoas com demência e familiares, ao mesmo tempo em que evidenciaram limites relacionados ao acesso tecnológico e ao estágio da doença. A qualidade relacional, e não apenas o canal, aparece como eixo comum desses achados.
A família e a comunidade tampouco são redes substituíveis. Familiares podem oferecer cuidado e história compartilhada, mas a sobrecarga, o conflito e a distância geográfica limitam essa função. Vizinhos podem ajudar com compras ou perceber isolamento, porém não devem assumir responsabilidades que cabem a serviços públicos. O achado de Janhaque et al. (2022) associa apoio afetivo a melhor funcionalidade familiar em uma amostra vinculada a uma universidade aberta; não informa o que ocorre com famílias mais vulneráveis fora dessa rede. Já o estudo de Ottoni et al. (2022) mostra que espaços caminháveis e organizações locais dão oportunidades de encontros leves, difíceis de replicar em chamada programada. A articulação dessas escalas de vínculo oferece uma explicação mais plausível para resiliência social do que uma intervenção única.
4.3 Alcances e limites da inclusão digital
A aparente divergência entre estudos de intervenção e inquéritos sobre videochamadas exige cuidado. Choi et al. (2022) encontraram maior solidão em quem aumentou chamadas por vídeo e participação online, e Robbins et al. (2023) encontraram associação entre videochamadas frequentes e ansiedade. Nenhum desenho permite afirmar que a tecnologia causou esses resultados: pessoas com maior sofrimento podem ter buscado mais contato remoto, e os contatos digitais podem ter sido reação à perda de visitas presenciais. Em sentido diferente, Zhang et al. (2023) observaram associação protetora das videochamadas em pessoas com dificuldades sensoriais. Os contrastes sugerem que necessidade inicial, acessibilidade e função do contato modulam o resultado.
O estudo de Balki et al. (2023) oferece uma explicação de implementação: uso e aceitação dependiam da facilidade percebida, do propósito e de preocupações com privacidade. Idosos com deficiência auditiva ou visual usaram menos vídeo e mensagens do que seus pares sem essas limitações em Zhang et al. (2023). Em grupos virtuais, a própria seleção de quem consegue ingressar na plataforma cria uma amostra mais conectada, como ocorreu em Shapira et al. (2021) e no inquérito online de Tomaz et al. (2021). Portanto, oferta digital sem acompanhamento pode ampliar desigualdades na participação.
O teleatendimento de um centro comunitário para pessoas com demência, em Taiwan, manteve parte das atividades quando os centros fecharam e se associou a melhor bem-estar, mas também a pior funcionamento familiar em sua análise (Lai et al., 2022). O mecanismo dessa última associação não está esclarecido e não deve ser interpretado como efeito inevitável do serviço. O estudo lembra que continuidade remota e dinâmica familiar precisam ser monitoradas conjuntamente. Formatos híbridos, com suporte técnico, telefone e encontros presenciais seguros quando possíveis, parecem mais coerentes com a diversidade de capacidades, preferências e vínculos do que uma transição integral para plataformas digitais.
A exclusão digital não se limita à posse de aparelho. Para participar de um grupo, é necessário receber convite, conseguir abrir o aplicativo, ouvir e ver adequadamente, compreender a dinâmica e sentir-se seguro para falar. No estudo de Masoud et al. (2021), a experiência de pessoas com demência dependia da capacidade de engajamento no formato; em Ibrahim et al. (2021), o próprio recrutamento por mensagens restringiu quem poderia ingressar. Mesmo quando o dispositivo existe, privacidade, receio de fraude e necessidade de ajuda podem reduzir adesão, como indicaram as entrevistas de Balki et al. (2023). A avaliação de acesso deve, portanto, considerar funcionalidade e apoio para uso, e oferecer alternativa por telefone ou presença quando a tecnologia não servir à pessoa.
4.4 Implicações para serviços territoriais e socioassistenciais
Para serviços de base territorial, os resultados apoiam uma sequência prática: identificar pessoas que vivem sozinhas ou perderam atividades coletivas; manter contato proativo; registrar necessidades materiais e emocionais; mobilizar familiares, vizinhos e organizações; e oferecer oportunidades de participação adequadas à preferência e ao acesso de cada pessoa. Hodges et al. (2023) documentaram que agentes comunitários puderam associar escuta a conexão com recursos. Rorai et al. (2021) mostraram alcance de telefonemas em uma população historicamente menos atendida. Fuller et al. (2022) destacaram a necessidade de supervisão dos pares e de parcerias comunitárias. As três experiências indicam organização relacional e capacidade de encaminhamento, não apenas disponibilização de um número de telefone.
Essas implicações dialogam com a proteção social básica brasileira e com a finalidade de fortalecimento de vínculos de serviços como o Centro de Referência de Assistência Social. A aproximação é conceitual: as pesquisas citadas envolveram, em sua maioria, serviços de saúde, organizações de envelhecimento ou centros comunitários em outros sistemas nacionais. Não se pode inferir que um efeito observado nesses serviços ocorrerá da mesma maneira no CRAS. Para adaptação local, são relevantes a cobertura do território, o perfil de renda, a rede familiar, a disponibilidade de equipamentos, a articulação intersetorial e a capacidade de retomar convivência presencial com segurança.
O estudo brasileiro com centro de convivência reforça que atividades coletivas têm valor próprio como espaço de pertencimento e expressão (Luzardo et al., 2021). A busca ativa deve priorizar quem não participa de grupos digitais, e a comunicação acessível deve contemplar limitações sensoriais e cognitivas. Uma resposta preparada para futuras emergências pode combinar lista atualizada de usuários, contatos telefônicos consentidos, rotinas de acompanhamento, critérios para encaminhamento de vulnerabilidades e pequenos encontros presenciais quando o risco sanitário permitir. A avaliação do serviço deve perguntar se o idoso se sente ouvido e mantém vínculos, além de contar acessos ou mensagens enviados.
A continuidade desses arranjos depende de trabalho e governança. Voluntários e pares precisam de orientação para reconhecer demandas que excedem sua função, de supervisão e de um canal para encaminhamento; equipes precisam de registro que permita retomar contato sem reduzir a relação a um formulário. Fuller et al. (2022) descrevem a importância dessa estrutura de apoio aos pares, enquanto Hodges et al. (2023) mostram que respostas a necessidades materiais e emocionais surgem no mesmo acompanhamento. Para o CRAS, isso sugere coordenação com serviços de saúde e organizações locais, preservando competências específicas e proteção de dados pessoais. O desenho de uma rotina híbrida deve ser pactuado com os usuários, pois frequência ideal e canal preferido variam conforme autonomia, deficiência, risco e desejo de convívio.
5 Limitações
A interpretação é limitada pela heterogeneidade de populações, contextos e instrumentos. Solidão, depressão, apoio percebido, participação e qualidade de vida não são medidas intercambiáveis. Muitos estudos eram pequenos, observacionais ou sem comparação, e alguns recrutaram amostras com acesso digital ou escolaridade acima da média. As pesquisas com pessoas com demência e residentes em instituições respondem a necessidades distintas das de idosos independentes na comunidade. Ensaios mais robustos concentraram-se em poucos países e acompanharam principalmente efeitos de curto prazo. Mesmo entre eles, perdas de seguimento e comparadores diferentes dificultam comparação direta.
A própria revisão apresenta limites metodológicos. A seleção foi feita por um revisor e incluiu filtro textual inicial, capaz de não reter títulos relevantes formulados de outra maneira. A busca auditável concentrou-se no PubMed/MEDLINE, com recuperação complementar de apenas dois artigos na SciELO; não foi possível exportar resultados de LILACS/BVS nem acessar bases comerciais. Assim, o fluxo descreve a amostra efetivamente examinada, sem pretensão de exaustividade. A avaliação JBI foi narrativa e não constitui avaliação formal independente por dois revisores. Essas restrições recomendam cautela antes de usar a revisão como única base para diretrizes ou alegar cobertura integral da literatura.
6 Conclusão
As evidências reunidas indicam que a manutenção de vínculos de pessoas idosas durante a pandemia dependeu de contatos regulares com propósito, oportunidades de participação e acesso a redes capazes de responder a necessidades emocionais e materiais. Telefonemas estruturados, grupos virtuais facilitados, apoio entre pares, ações intergeracionais e articulação com serviços e vizinhança foram estratégias recorrentes. Ensaios sustentam redução de solidão ou sintomas depressivos em contextos específicos, sobretudo com conteúdo psicossocial estruturado; estudos qualitativos esclarecem como reciprocidade, escuta e continuidade produziram sentido de apoio. A qualidade de vida global foi menos diretamente avaliada, de modo que sua preservação não pode ser presumida a partir de qualquer contato.
Tecnologias ampliaram alternativas quando a convivência presencial foi interrompida, mas não substituíram automaticamente relações face a face nem alcançaram todos os idosos. Para futuras emergências, serviços comunitários e socioassistenciais devem combinar busca ativa, canais de baixa exigência tecnológica, apoio familiar, inclusão digital assistida e retomada segura de atividades coletivas, acompanhando solidão, participação e bem-estar com medidas apropriadas. A adaptação dessas estratégias ao CRAS exige avaliação no contexto do Sistema Único de Assistência Social e atenção às desigualdades territoriais.
Referências
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Apêndice A – Estratégias de busca e registro operacional
Consulta realizada em 26 set. 2026. Em todas as expressões PubMed aplicou-se o intervalo 2020:2026[dp]. O asterisco representa truncamento. Os totais brutos são contagens por consulta antes da deduplicação.BVS/LILACS: a interface não retornou resultados exportáveis na sessão. Scopus, Web of Science, Embase e CINAHL: sem acesso institucional. Não se atribuem números a essas bases. As referências foram gerenciadas por PMID e DOI; os registros SciELO foram conferidos por título e DOI.
Apêndice B – Síntese temática e julgamento metodológico
Os instrumentos JBI foram aplicados conforme o desenho, sem escore somatório e sem exclusão por qualidade. O quadro seguinte explicita o principal ponto que limitou a interpretação de cada estudo.
Doutoranda em Saúde Pública pela Christian Business School. E-mail: carmelitasilva11@hotmail.com. ↑
Doutor em Enfermagem pela Universidade Federal do Ceará (UFC). E-mail: prof.danilofersousa@gmail.com. ↑
Doutora em Ciências da Educação; Mestre em Ciências da Educação pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL). E-mail: rozineidepereira1975@gmail.com. ↑

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