Resumo
O câncer do colo do útero constitui importante problema de saúde pública e está associado, principalmente, à infecção persistente pelo papilomavírus humano (HPV) de alto risco oncogênico. Apesar da existência de estratégias de prevenção e rastreamento, persistem barreiras que dificultam a participação das mulheres nas ações de detecção precoce. Nesse contexto, o enfermeiro apresenta papel estratégico na Atenção Primária à Saúde, atuando na educação em saúde, acolhimento, realização de procedimentos, busca ativa e acompanhamento das usuárias. O presente estudo tem como objetivo identificar os principais fatores associados à não adesão das mulheres ao exame citopatológico e analisar estratégias de enfermagem capazes de ampliar a adesão ao rastreamento do câncer do colo do útero. As evidências disponíveis apontam que a não adesão apresenta caráter multifatorial, envolvendo fatores sociodemográficos, econômicos, culturais, emocionais e relacionados à organização dos serviços de saúde. Entre as principais estratégias destacam-se a educação em saúde, o acolhimento humanizado, a busca ativa, a flexibilização do acesso, a qualificação profissional e o acompanhamento longitudinal das mulheres. Conclui-se que a ampliação da adesão exige ações articuladas entre profissionais, serviços e comunidade, com destaque para a atuação do enfermeiro na redução das barreiras de acesso e no fortalecimento do vínculo entre mulheres e Atenção Primária à Saúde.
Palavras-chave: Exame Citopatológico; Instituto Nacional de Câncer; Enfermagem; Atenção Primária à Saúde; Adesão.
Abstract
Cervical cancer represents an important public health problem and is mainly associated with persistent infection by high-risk oncogenic,human papillomavirus (HPV). Despite the existence of prevention and screening strategies, barriers persist that hinder women’s participation in early detection activities. In this context, nurses play a strategic role in Primary Health Care, working in health education, patient reception, performing procedures, conducting active outreach, and monitoring users. The present study aims to identify the main factors associated with women’s nonadherence to cytopathological examination and to analyze nursing strategies capable of increasing adherence to cervical cancer screening. Available evidence indicates that non-adherence is multifactorial, involving sociodemographic, economic, cultural, emotional, and health-service-related factors. The main strategies include health education, humanized care, active outreach, increased flexibility in access to services, professional training, and longitudinal follow-up of women. It is concluded that increasing adherence requires coordinated actions among healthcare professionals, health services, and the community, with emphasis on the role of nurses in reducing barriers to access and strengthening the relationship between women and Primary Health Care.
Keywords: Women's Health; Cytopathological Examination; Brazilian National Cancer Institute; Nursing; Primary Health Care; Adherence.
- INTRODUÇÃO
O câncer do colo do útero constitui um relevante problema de saúde pública,principalmente por estar associado à infecção persistente pelo Papilomavírus Humano (HPV), considerado o principal fator relacionado ao desenvolvimento dessa neoplasia. A infecção por tipos oncogênicos do HPV pode provocar alterações celulares no colo uterino, denominadas lesões precursoras, que podem evoluir progressivamente para o câncer quando não identificadas e tratadas de maneira adequada. Entre os tipos de HPV de maior importância estão o HPV-16 e o HPV-18, considerados responsáveis por grande parte dos casos da doença. Nesse contexto, a identificação precoce dessas alterações apresenta grande importância, uma vez que as lesões precursoras, quando diagnosticadas e tratadas oportunamente, possuem elevada possibilidade de cura (INCA, 2023).
No Brasil, a ocorrência do câncer do colo do útero permanece expressiva entre as mulheres. Conforme dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA), foram estimados 17.010 casos novos da doença para cada ano do triênio 2023–2025, correspondendo a uma taxa bruta de incidência de 15,38 casos para cada 100 mil mulheres. Entre as regiões brasileiras, a maior incidência foi observada na Região Norte, com 20,48 casos por 100 mil mulheres, seguida pela Região Nordeste, com 17,59 casos por 100 mil. Na Região Centro-Oeste, a taxa estimada foi de 16,66 casos por 100 mil mulheres, enquanto as Regiões Sul e Sudeste apresentaram taxas de 14,55 e 12,93 casos por 100 mil, respectivamente (INCA, 2023). Esses dados demonstram a existência de diferenças regionais importantes na distribuição da doença e reforçam a necessidade de estratégias de prevenção e rastreamento que considerem as características e necessidades de cada população.
A mortalidade associada à doença também representa uma preocupação para a saúde pública brasileira. Segundo o INCA, em 2021 foram registrados 6.606 óbitos por câncer do colo do útero no país, correspondendo a uma taxa ajustada de mortalidade de 4,51 mortes por 100 mil mulheres. A Região Norte apresentou a maior taxa de mortalidade, alcançando 9,07 óbitos por 100 mil mulheres, sendo o câncer do colo do útero a primeira causa de morte por câncer entre mulheres nessa região. Nas Regiões Nordeste e Centro-Oeste, as taxas foram de 5,61 e 4,60 óbitos por 100 mil mulheres, respectivamente. Já as Regiões Sul e Sudeste apresentaram as menores taxas, correspondentes a 4,47 e 3,27 óbitos por 100 mil mulheres (INCA, 2023). Ainda de acordo com o Instituto, aproximadamente 70% da mortalidade relacionada ao câncer do colo do útero concentra-se historicamente entre mulheres de 25 a 64 anos, faixa etária diretamente relacionada às estratégias de rastreamento.
Diante desse cenário, o exame citopatológico do colo do útero, conhecido popularmente como exame preventivo ou Papanicolau, constitui uma importante ferramenta para a identificação precoce de alterações celulares. De acordo com o Ministério da Saúde, o exame é indicado para mulheres de 25 a 64 anos que já iniciaram a vida sexual, mesmo quando não apresentam sintomas. A recomendação tradicional de rastreamento estabelece a realização anual do exame inicialmente e, após dois resultados consecutivos negativos, o intervalo pode ser ampliado para três anos (BRASIL, 2023). A realização periódica do exame possibilita o reconhecimento de alterações antes que evoluam para formas invasivas da doença, contribuindo para o tratamento oportuno e para a redução da mortalidade. Dessa forma, a adesão das mulheres ao acompanhamento preventivo constitui um dos elementos fundamentais para o controle do câncer do colo do útero.
Apesar da disponibilidade do exame citopatológico e das estratégias de prevenção, a baixa adesão das mulheres ao rastreamento ainda representa um desafio para a saúde pública. Nesse contexto, o presente estudo tem como objetivo analisar os principais fatores relacionados à não adesão ao exame de Papanicolau, bem como destacar o papel da enfermagem na promoção do acesso, da prevenção e da detecção precoce, contribuindo para a melhoria da saúde da mulher.
- METODOLOGIA
O presente artigo trata-se de um estudo de revisão integrativa da literatura, de caráter descritivo e abordagem qualitativa. O desenho metodológico seguiu rigidamente as seis etapas estabelecidas por Mendes, Silveira e Galvão (2008): formulação da pergunta norteadora; busca e amostragem na literatura; categorização dos estudos; avaliação dos dados incluídos; interpretação dos resultados; e síntese do conhecimento.
Para guiar a busca bibliográfica, utilizou-se a estratégia PICo (População, Interesse e Contexto). Definiu-se como População (P) as mulheres em idade de rastreamento; Interesse (I) os fatores de não adesão ao exame citopatológico e as estratégias do enfermeiro; e Contexto (Co) as ações de rastreamento do câncer de colo do útero na Atenção Primária à Saúde. Assim, estabeleceu-se a seguinte pergunta norteadora: “Quais são as evidências científicas acerca dos fatores associados à não adesão das mulheres ao exame citopatológico e quais estratégias podem ser implementadas pelo enfermeiro para ampliar a cobertura desse rastreamento?”
A busca pelos manuscritos foi realizada em outubro de 2026, por meio do portal da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), selecionando-se as seguintes bases de dados: Base de Dados de Enfermagem (BDENF), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e SciELO.
Os critérios de inclusão definidos foram: artigos científicos originais, disponíveis na íntegra de forma gratuita, publicados nos idiomas português, inglês ou espanhol, compreendidos no recorte temporal de 2022 a 2026, que respondessem diretamente à pergunta condutora do estudo. Foram excluídos textos duplicados nas bases de dados, notas prévias, resumos de congressos, dissertações, teses, monografias, capítulos de livros e artigos que não guardavam estrita relação com o objeto do estudo.
A seleção dos materiais ocorreu em duas etapas independentes. Inicialmente, realizou-se a triagem por meio da leitura dos títulos e resumos. Em seguida, os artigos pré-selecionados foram lidos na íntegra para a confirmação dos critérios de elegibilidade.
Por fim, os achados foram submetidos à análise descritiva e categorizados em dois eixos temáticos centrais: 1) Barreiras individuais e institucionais que influenciam a não realização do exame citopatológico; e 2) Intervenções e estratégias da enfermagem para a captação e adesão do público-alvo. Por se tratar de uma pesquisa conduzida exclusivamente com dados secundários e de domínio público, dispensou-se a submissão e avaliação pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP).
- RESULTADOS E DISCUSSÃO
O interesse pela temática emergiu da observação empírica durante as práticas clínicas, no qual foi observada uma baixa procura pelo exame preventivo na comunidade acompanhada. Ao longo das atividades desenvolvidas, também foi possível perceber que parte da população apresentava dificuldades em compreender a finalidade do exame, sua importância para a prevenção do câncer do colo do útero e a necessidade de sua realização periódica. Essa vivência despertou o interesse em aprofundar a compreensão sobre os fatores relacionados à baixa adesão ao exame, levando à busca por pesquisas acadêmicas que abordassem a temática e possibilitassem relacionar a realidade observada no estágio às evidências disponíveis na literatura científica.
A análise das pesquisas acadêmicas demonstrou que a baixa adesão ao exame citopatológico não está relacionada a um único fator, sendo influenciada por diferentes aspectos individuais, sociais e relacionados aos serviços de saúde. Entre os fatores descritos nos estudos estão o conhecimento insuficiente sobre o exame e sua importância, o medo, a vergonha e o constrangimento, além de dificuldades de acesso aos serviços de saúde e experiências anteriores com o atendimento. As pesquisas também destacam a importância das ações de educação em saúde para ampliar o conhecimento da população e favorecer a realização do rastreamento. Dessa forma, os achados da literatura apresentaram relação com a realidade observada durante o estágio, reforçando a percepção de que a baixa procura pelo exame constitui uma questão relevante para a saúde das mulheres.
A compreensão dessa problemática foi ampliada a partir da análise dos dados epidemiológicos divulgados pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA). As novas estimativas para o período de 2026 a 2028 apontam para aproximadamente 19,3 mil novos casos de câncer do colo do útero por ano no Brasil, representando um crescimento de cerca de 13% em relação ao triênio anterior. Para o mesmo período, o INCA estima aproximadamente 781 mil novos casos de câncer por ano no país, correspondendo a um aumento de cerca de 10% em comparação com o triênio 2023 –2025. Esses dados demonstram que, embora o número de casos de câncer apresente crescimento de maneira geral, o aumento estimado para o câncer do colo do útero é ainda mais expressivo.
Além do aumento no número de casos, os dados do INCA evidenciam importantes desigualdades na distribuição da doença entre as regiões brasileiras. O câncer do colo do útero ocupa a segunda posição entre os tipos de câncer mais incidentes entre as mulheres nas regiões Norte e Nordeste, enquanto no Sudeste ocupa a quinta posição. Em estados das regiões Norte e Nordeste, as taxas de incidência podem chegar a aproximadamente o dobro das observadas em estados da região Sudeste. Esses dados evidenciam que o risco de adoecimento não se distribui de maneira homogênea no território brasileiro, revelando diferenças que podem estar relacionadas às condições socioeconômicas, ao acesso aos serviços de saúde e à cobertura das ações de prevenção e rastreamento.
Outro dado de grande relevância é a mortalidade provocada pela doença. O câncer do colo do útero é responsável por mais de 7,2 mil mortes anualmente no Brasil, demonstrando que permanece como um importante problema de saúde pública. A associação entre a baixa procura pelo exame observada durante o estágio, os fatores identificados nas pesquisas acadêmicas e os dados epidemiológicos do INCA permitiu compreender de forma mais ampla a dimensão da problemática. Os resultados reforçam a importância do fortalecimento das ações de educação em saúde, da ampliação do acesso ao exame citopatológico e da adoção de estratégias que favoreçam a adesão das mulheres ao rastreamento, especialmente em comunidades e regiões que apresentam maior vulnerabilidade.
Diante dos fatores relacionados à baixa adesão aos exames citopatológicos abordados anteriormente, torna-se necessário pensar em estratégias que aproximem a enfermagem das mulheres e facilitem o acesso à informação e aos serviços de prevenção. Nesse contexto, a atuação da enfermagem pode ultrapassar o espaço da unidade de saúde, utilizando diferentes ambientes, tecnologias e formas de comunicação para alcançar mulheres com diferentes realidades e necessidades.
Entre as estratégias, destacam-se a realização de palestras e atividades educativas em escolas, universidades e espaços comunitários, abordando desde a prevenção do HPV até a importância do exame citopatológico. A utilização da internet e das redes sociais também pode ser ampliada por meio de vídeos curtos, campanhas digitais, lives com profissionais de saúde, conteúdos interativos e divulgação de informações em linguagem simples. A criação de QR Codes em cartazes e materiais educativos pode direcionar as mulheres para informações confiáveis sobre o exame, locais de atendimento e formas de prevenção e agendamento.
4. REFERENCIAL TEÓRICO
Rastreamento do câncer do colo do útero e as novas diretrizes nacionais.
O câncer do colo do útero (CCU) permanece como um importante problema de saúde pública, especialmente em países de baixa e média renda, nos quais persistem desigualdades relacionadas ao acesso à vacinação contra o papilomavírus humano (HPV), ao rastreamento, ao diagnóstico e ao tratamento das lesões precursoras. No Brasil, o câncer do colo do útero continua entre as neoplasias mais incidentes na população feminina. Para o triênio de 2026 a 2028, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima a ocorrência de 19.310 casos novos por ano no país, correspondendo a uma taxa bruta de 17,59 casos por 100 mil mulheres.
A principal causa do câncer do colo do útero é a infecção persistente pelo papilomavírus humano (HPV) de alto risco oncogênico. Embora a infecção pelo vírus seja frequente e, na maioria dos casos, transitória, a persistência de determinados genótipos oncogênicos pode provocar alterações celulares progressivas, levando ao desenvolvimento de lesões precursoras e, posteriormente, ao câncer invasivo. Dessa forma, a prevenção da doença envolve estratégias integradas, incluindo a vacinação contra o HPV, a prevenção da infecção e o rastreamento sistemático da população elegível, com identificação e tratamento oportunos das lesões precursoras (INCA, 2025; WHO, 2026).
O rastreamento do câncer do colo do útero tem como finalidade identificar alterações precursoras ou neoplasias em estágios iniciais em pessoas assintomáticas, possibilitando intervenção antes da evolução para doença invasiva. Historicamente, o Brasil adotou a citologia cervical, conhecida como exame de Papanicolau, como principal método de rastreamento. Nesse modelo, a recomendação nacional estabelecia a realização do exame citopatológico em pessoas de 25 a 64 anos, com dois exames anuais inicialmente e, diante de resultados negativos consecutivos, repetição a cada três anos. Esse modelo foi fundamental para a organização das ações de prevenção do câncer do colo do útero no país.
Entretanto, evidências científicas acumuladas demonstraram maior sensibilidade dos testes moleculares para detecção do DNA do HPV oncogênico em comparação à citologia para identificação de lesões precursoras clinicamente relevantes. As diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) também passaram a recomendar estratégias de rastreamento baseadas em testes de HPV, considerando sua maior capacidade de redução da incidência e da mortalidade por câncer do colo do útero quando comparados a métodos citológicos isolados (WHO, 2021; WHO, 2026).
No contexto brasileiro, essa mudança tecnológica foi incorporada ao Sistema Único de Saúde (SUS) por meio da Portaria SECTICS/MS nº 3, de 7 de março de 2024, que tornou pública a decisão de incorporar os testes moleculares para detecção de HPV oncogênico por técnicas de amplificação de ácido nucleico baseadas em PCR, com genotipagem parcial ou estendida, para o rastreamento da população de risco padrão.
De acordo com as novas recomendações nacionais, o teste molecular de DNAHPV deve ser utilizado como exame primário de rastreamento para a população elegível. Para resultados negativos, o intervalo recomendado entre os exames passa a ser de cinco anos, em contraste com o intervalo de três anos anteriormente estabelecido para a citologia após exames iniciais normais. A mudança está relacionada à maior sensibilidade do teste molecular para a identificação da infecção por HPV oncogênico e das mulheres com maior risco de desenvolver lesões precursoras.
Nesse novo modelo, a citologia cervical não é simplesmente eliminada do processo assistencial. O exame citopatológico passa a desempenhar papel complementar no manejo das pessoas que apresentam resultado positivo no teste molecular, de acordo com o genótipo identificado e os critérios definidos pelo algoritmo nacional. Assim, a organização do rastreamento passa de uma estratégia predominantemente citológica para um modelo baseado na identificação molecular do HPV e na estratificação do risco de desenvolvimento de lesões precursoras.
A nova abordagem também reforça a importância de um rastreamento organizado, caracterizado pela definição da população-alvo, busca e convocação das pessoas elegíveis, registro dos resultados, acompanhamento dos casos positivos, confirmação diagnóstica e garantia de tratamento adequado. Dessa maneira, a efetividade do teste molecular não depende exclusivamente de sua maior capacidade diagnóstica, mas também da existência de uma rede assistencial capaz de assegurar a continuidade do cuidado desde o rastreamento até o diagnóstico e tratamento das lesões identificadas.
No âmbito da Atenção Primária à Saúde (APS), essa transição tecnológica implica mudanças importantes nos processos de trabalho dos profissionais envolvidos na prevenção do câncer do colo do útero. A APS ocupa posição estratégica na identificação da população elegível, na realização ou encaminhamento para o teste molecular, na orientação das usuárias, no registro dos resultados e, principalmente, no acompanhamento das pessoas com resultados alterados. Portanto, a incorporação do DNA-HPV exige atualização dos profissionais e reorganização dos fluxos assistenciais, de modo a garantir acesso oportuno ao diagnóstico e ao tratamento.
A atualização das diretrizes brasileiras está alinhada ao movimento internacional de eliminação do câncer do colo do útero como problema de saúde pública. A OMS destaca a necessidade de estratégias integradas que envolvam vacinação contra o HPV, rastreamento de alta qualidade e tratamento adequado das lesões precursoras e dos casos diagnosticados. Em 2026, a organização também publicou recomendações específicas sobre o uso da genotipagem do DNA-HPV como instrumento de estratificação de risco e definição do manejo de pessoas com resultado positivo.
Nesse cenário, a transição do modelo citopatológico para o rastreamento molecular representa uma mudança relevante na política de prevenção do câncer do colo do útero no Brasil. Mais do que substituir uma tecnologia por outra, a nova estratégia modifica a lógica de organização do rastreamento, ampliando a capacidade de identificação das infecções oncogênicas e permitindo intervalos mais prolongados entre exames negativos. Sua efetividade, entretanto, está diretamente relacionada à implementação adequada das diretrizes, à qualificação dos profissionais, à garantia de acesso ao teste e à continuidade do cuidado na rede de atenção à saúde.
Dessa forma, o conhecimento e a aplicação das novas diretrizes nacionais tornam-se fundamentais para a atuação dos profissionais da Atenção Primária à Saúde, especialmente no contexto da prevenção e detecção precoce do câncer do colo do útero. A atualização dos fluxos de rastreamento e a incorporação do teste molecular de DNA-HPV representam, portanto, uma importante transformação na assistência ginecológica e na organização das ações de controle dessa neoplasia no Sistema Único de Saúde.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A realização desta revisão integrativa permitiu evidenciar que a não adesão das mulheres ao exame citopatológico é um fenômeno multifatorial. Constatou-se que as principais barreiras estão atreladas a fatores individuais — como o medo do diagnóstico, a vergonha da exposição corporal, o déficit de conhecimento sobre a gravidade da doença e mitos acerca do procedimento —, além de entraves institucionais, que incluem a dificuldade de acesso às unidades de saúde, horários de atendimento incompatíveis com a rotina de trabalho e a falta de insumos ou profissionais.
Diante desse cenário, as evidências apontam que o enfermeiro desempenha um papel central e estratégico na reversão desses indicadores. As intervenções de maior impacto identificadas na literatura concentram-se em ações de educação em saúde de base comunitária, na implementação da busca ativa de mulheres faltosas, na flexibilização do horário de atendimento para a coleta (como o terceiro turno) e, fundamentalmente, na construção de uma relação de acolhimento e escuta qualificada durante a consulta, o que reduz a ansiedade e desmistifica os mitos por trás do exame, bem como, detalha os riscos da não adesão.
Além disso, estratégias como ações educativas na comunidade, busca ativa, ampliação e flexibilização dos horários de atendimento e fortalecimento do vínculo entre profissionais e usuárias podem contribuir para reduzir barreiras relacionadas ao acesso e à adesão ao rastreamento. Entretanto, essas estratégias devem estar articuladas à organização da rede de atenção, garantindo que a identificação de um resultado positivo para HPV oncogênico seja acompanhada de encaminhamento, investigação diagnóstica e tratamento oportunos, evitando perdas no seguimento.
No contexto das novas diretrizes nacionais, o enfermeiro assume papel relevante não apenas na execução das ações de rastreamento, mas também na educação da população acerca do teste molecular de DNA-HPV, na organização dos fluxos da Atenção Primária à Saúde e na garantia da continuidade do cuidado. Dessa forma, a qualificação dos profissionais e a atualização permanente acerca das novas recomendações tornam-se fundamentais para que a incorporação do teste molecular se traduza em maior acesso, diagnóstico oportuno e redução da morbimortalidade relacionada ao câncer do colo do útero.
Conclui-se que, para ampliar a cobertura do rastreamento do câncer de colo do útero, a atuação da enfermagem deve ir além do procedimento técnico da coleta, consolidando-se em práticas educativas continuadas e na humanização do cuidado na Atenção Primária. Sugere-se, portanto, o desenvolvimento de novas pesquisas que explorem essas ferramentas tecnológicas como aliadas da enfermagem para o fortalecimento da adesão feminina ao rastreamento oncológico, devido ser uma ferramenta de detecção precoce do câncer relatado, permitindo o tratamento e redução dos riscos associados antes do agravamento.
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