RESUMO
Os transtornos mentais relacionados ao trabalho constituem importante problema de saúde pública, associado a riscos psicossociais, sofrimento emocional e perda de capacidade laboral. Este estudo analisou o perfil epidemiológico das notificações de transtornos mentais relacionados ao trabalho no município do Recife, Pernambuco, entre 2015 e 2025. Foi realizado estudo epidemiológico, descritivo, retrospectivo, com dados secundários do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), disponibilizados pelo DATASUS e apresentados em tabelas municipais anexadas. Foram examinadas notificações segundo ano, diagnóstico específico, sexo, raça/cor, faixa etária e escolaridade. Identificaram-se 527 notificações no período; os transtornos neuróticos, relacionados ao estresse e somatoformes representaram 281 registros (53,3%) e os transtornos do humor afetivos, 203 (38,5%), seguido pela síndrome de Burnout, 22 (4,2%). Houve predominância do sexo feminino (345; 65,5%), da raça/cor branca (262; 49,7%), da faixa etária de 20 a 39 anos (302; 57,3%) e da educação superior completa (300; 56,9%). Os resultados descrevem o padrão de notificações, não estimam prevalência populacional nem permitem inferir causalidade. Conclui-se que o fortalecimento da vigilância, da qualificação dos registros e das ações de prevenção de riscos psicossociais é necessário no Recife.
Palavras-chave: Vigilância em Saúde do Trabalhador; Saúde Mental; Sofrimento Emocional; Transtornos Mentais; Vigilância Epidemiológica; Recife.
ABSTRACT
Work-related mental disorders are an important public health problem associated with psychosocial risks, emotional distress and loss of work capacity. This study analyzed the epidemiological profile of notifications of work-related mental disorders in Recife, Pernambuco, Brazil, from 2015 to 2025. A descriptive, retrospective epidemiological study was conducted using secondary data from the Notifiable Diseases Information System (SINAN), made available by DATASUS and presented in the attached municipal tables. Notifications were examined by year, specific diagnosis, sex, race/skin color, age group and schooling. A total of 527 notifications were identified; neurotic, stress-related and somatoform disorders accounted for 281 records (53.3%), while affective mood disorders accounted for 203 (38.5%). Female sex predominated (345; 65.5%), as did white race/skin color (262; 49.7%), the 20-39 age group (302; 57.3%) and completed higher education (300; 56.9%). The results describe the notification pattern and do not estimate population prevalence or establish causality. Strengthening surveillance, improving data quality and preventing psychosocial risks are necessary in Recife.
Keywords: Occupational health; Mental health; Mental disorders; Epidemiological surveillance; Recife.
- INTRODUÇÃO
A saúde mental relacionada ao trabalho resulta da interação entre características da atividade, organização laboral, relações socioprofissionais e condições sociais mais amplas. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece que o trabalho pode proteger a saúde mental, mas também pode produzir danos quando marcado por sobrecarga, baixo controle, insegurança, discriminação, violência, assédio ou jornadas inflexíveis. As diretrizes internacionais recomendam intervenções organizacionais, capacitação de gestores e trabalhadores, apoio individual e estratégias de retorno ao trabalho [1,2].
No Brasil, o Ministério da Saúde define o transtorno mental relacionado ao trabalho como sofrimento emocional em suas diferentes manifestações, incluindo tristeza, medo excessivo, irritabilidade, nervosismo e doenças psicossomáticas, sempre considerando a relação entre o agravo e o contexto laboral [3]. A vigilância desses eventos é relevante porque os registros podem orientar o diagnóstico da realidade epidemiológica e o planejamento de intervenções em áreas geográficas específicas [4].
Recife, capital de Pernambuco e município com 1.488.920 habitantes no Censo Demográfico de 2022 [5], concentra serviços, atividades econômicas e uma população trabalhadora heterogênea. Entretanto, a produção de análises municipais baseadas em notificações de transtornos mentais relacionados ao trabalho ainda é limitada. Assim, este estudo teve como objetivo descrever o perfil epidemiológico desses agravos no Recife, entre 2015 e 2025, segundo características temporais, diagnósticas e sociodemográficas.
- REVISÃO DA LITERATURA
Os riscos psicossociais compreendem aspectos do desenho, da organização e da gestão do trabalho que podem afetar o bem-estar e a saúde mental. Entre os fatores descritos pela OMS estão cargas e ritmos excessivos, subdimensionamento de equipes, falta de autonomia, assédio, discriminação, insegurança laboral e conflitos entre trabalho e vida familiar [2]. Portanto, o adoecimento não deve ser reduzido a uma característica individual do trabalhador: sua interpretação exige considerar o contexto de trabalho e as desigualdades que estruturam a exposição.
No campo da saúde pública, as notificações do SINAN não equivalem ao total de casos existentes. Elas dependem da identificação, do atendimento, do reconhecimento do nexo com o trabalho e do preenchimento adequado da ficha. O próprio sistema tem a finalidade de apoiar o diagnóstico dinâmico da ocorrência dos agravos, a identificação de riscos e o planejamento de ações, mas seus registros devem ser analisados como eventos notificados, sujeitos a subnotificação e incompletude [4].
A literatura e os documentos técnicos brasileiros apontam que os transtornos mentais relacionados ao trabalho constituem um problema de magnitude crescente e incluem, entre outros, transtornos relacionados ao estresse, transtornos do humor e síndrome de burnout [3,6]. A interpretação das diferenças por sexo, raça/cor, idade e escolaridade deve, contudo, evitar conclusões deterministas, pois os grupos possuem diferentes composições ocupacionais, padrões de acesso aos serviços e probabilidades de notificação.
- METODOLOGIA
Trata-se de um estudo epidemiológico, descritivo e retrospectivo, realizado com dados secundários de notificações de transtornos mentais relacionados ao trabalho registradas no SINAN Net para o município de notificação 261160 - Recife, no período de 2015 a 2025. Foram utilizadas as tabelas anexadas, extraídas do DATASUS/TABNET e identificadas como dados do Ministério da Saúde/SVSA - Sistema de Informação de Agravos de Notificação - SINAN Net.
As variáveis analisadas foram ano da notificação, diagnóstico específico, sexo, raça/cor, faixa etária e escolaridade. Foram calculadas frequências absolutas e relativas, tomando-se como denominador o total de 527 notificações. Os percentuais foram arredondados para uma casa decimal. Não foram calculadas taxas de incidência ou prevalência porque não foi fornecido, no conjunto analisado, o denominador populacional ou ocupacional correspondente; também não foram aplicados testes inferenciais.
Foram respeitados os limites dos dados secundários agregados. As categorias 'ignorado/branco', 'não se aplica' e 'CID não preenchido' foram mantidas quando presentes. A pesquisa utiliza dados públicos e agregados, sem identificação individual, não envolvendo abordagem direta de participantes. A interpretação foi orientada pelos princípios de transparência, reprodutibilidade e não extrapolação dos achados.
- RESULTADOS E DISCUSSÃO
Entre 2015 e 2025, foram registradas 527 notificações no Recife. O maior volume ocorreu em 2016 (81; 15,4%), seguido de 2015 (72; 13,7%) e 2017 (69; 13,1%). O menor número foi observado em 2020 (24; 4,6%), enquanto 2025 apresentou 64 notificações (12,1%). A variação anual não deve ser interpretada isoladamente como aumento ou redução real da ocorrência, pois pode refletir mudanças na capacidade de detecção, registro, acesso aos serviços e atualização do banco (Gráfico 1).
Quanto ao diagnóstico específico CID 10, os transtornos neuróticos, transtornos relacionados com o estresse e transtornos somatoformes (F40-F48) concentraram 281 notificações (). Os transtornos do humor [afetivos] (F30-F39) totalizaram 203 (). A síndrome de burnout (Z73.0) apresentou 22 registros (); as demais categorias foram individualmente pouco frequentes. A concentração nesses dois grandes grupos é compatível com a centralidade dos estressores e das alterações afetivas no debate sobre saúde mental no trabalho, mas não permite concluir que o estresse seja a causa dos registros (Gráfico 2).
Observou-se predominância feminina, com 345 notificações (65,5%), frente a 182 masculinas (34,5%). Esse achado pode estar relacionado à composição dos grupos ocupacionais notificados, às diferenças na exposição a demandas laborais e domésticas, à busca por cuidado e ao reconhecimento do sofrimento. Não é possível, com os dados agregados, separar esses mecanismos ou calcular risco específico por sexo (Gráfico 3).
Na distribuição por raça/cor (Gráfico 4), registraram-se 262 notificações entre pessoas brancas (49,7%), 188 entre pardas (35,7%), 55 entre pretas (10,4%), 17 entre amarelas (3,2%), uma entre indígenas (0,2%) e quatro com informação ignorada ou em branco (0,8%). Esses resultados devem ser comparados com a composição da população trabalhadora do Recife e com a completude dos registros antes de qualquer inferência sobre desigualdades de risco. A OMS ressalta que discriminação e desigualdade podem constituir riscos psicossociais no trabalho [2].
A faixa etária de 20 a 39 anos reuniu 302 notificações (57,3%), enquanto a de 40 a 59 anos, 222 (42,1%), conforme mostra o gráfico 5 abaixo. As categorias 10 a 19 anos e 60 anos ou mais apresentaram uma notificação cada (0,2%). Excluído 01 caso notificado < 1 ano, por erro de digitação. A concentração entre adultos em idade laboral é esperada para um agravo definido pela relação com o trabalho, mas o pequeno número nas demais faixas exige cautela e pode refletir a própria estrutura da população trabalhadora e dos registros.
A escolaridade superior completa (Quadro 1) foi a categoria mais frequente, com 300 notificações (56,9%), seguida do ensino médio completo, com 122 (23,1%), e da educação superior incompleta, com 54 (10,2%). Somaram-se 31 registros ignorados ou em branco (5,9%). A maior frequência entre pessoas com ensino superior completo não significa maior risco individual, pois faltam denominadores por escolaridade, ocupação e setor econômico. Pode refletir composição ocupacional, maior acesso a serviços ou maior reconhecimento e registro do nexo com o trabalho.
A interpretação dos resultados deve considerar dois limites centrais. Primeiro, as notificações são eventos registrados, e não uma contagem censitária do adoecimento. Segundo, o período reúne anos com diferentes condições sanitárias, sociais e de organização do trabalho, inclusive a pandemia de COVID-19; por isso, oscilações anuais não devem ser atribuídas automaticamente a um único fator. As recomendações internacionais favorecem respostas combinadas, com prevenção organizacional, treinamento, apoio e retorno ao trabalho [1,2].
- CONCLUSÃO
O município do Recife registrou 527 notificações de transtornos mentais relacionados ao trabalho entre 2015 e 2025. Predominaram os transtornos neuróticos, relacionados ao estresse e somatoformes, seguidos dos transtornos de humor (afetivos). O perfil descritivo foi marcado por maior frequência de notificações entre mulheres, pessoas classificadas como brancas, adultos de 20 a 39 anos e indivíduos com ensino superior completo.
Os achados oferecem subsídios para a vigilância em saúde do trabalhador, mas não permitem estimar prevalência, risco ou causalidade. Recomenda-se ampliar a busca ativa e a qualificação do preenchimento, sobretudo das variáveis sociodemográficas e do diagnóstico, integrar os registros aos serviços de referência e desenvolver intervenções voltadas à redução de sobrecarga, assédio, discriminação, insegurança e baixa autonomia. A análise periódica dos dados do Recife pode apoiar a definição de prioridades e a avaliação das ações de promoção e proteção da saúde mental.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Ministério da Saúde. Análise das notificações de transtornos mentais relacionados ao trabalho. Boletim Informativo PNAIST, Brasília, DF, n. 1, [s.d.]. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/periodicos/boletim_informativo_pnaist_sus_n1.pdf. Acesso em: 21 ago. 2026.
BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria de Consolidação nº 4, de 28 de setembro de 2017. Consolidação das normas sobre os sistemas e os subsistemas do Sistema Único de Saúde. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2017. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saudede-a-a-z/z/zika-virus/legislacao/portaria-de-consolidacao-no-4-de-28-de-setembro-de2017.pdf/view. Acesso em: 21 ago. 2026.
BRASIL. Ministério da Saúde. Sistema de Informação de Agravos de Notificação - SINAN. Brasília, DF: Ministério da Saúde, [s.d.]. Disponível em: https://portalsinan.saude.gov.br/. Acesso em: 21 ago. 2026.
BRASIL. Ministério da Saúde. Transtorno mental relacionado ao trabalho. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/saude/ptbr/composicao/svsa/saude-do-trabalhador/vigilancia-em-saude-do-trabalhador-vigisat/doencas-eagravos-relacionados-ao-trabalho/transtorno-mental-relacionado-ao-trabalho. Acesso em: 21 ago. 2026.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Recife: panorama do Censo 2022. Rio de Janeiro: IBGE, 2023. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/pe/recife/pesquisa/10101/96387. Acesso em: 21 ago. 2026.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Guidelines on mental health at work. Geneva: WHO, 2022. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240053052. Acesso em: 21 ago. 2026.
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