Resumo
A sarcobesidade caracteriza-se pela coexistência entre o acúmulo excessivo de tecido adiposo e o declínio progressivo da massa e do desempenho muscular esquelético, configurando um fenótipo clínico de elevado impacto sobre a integridade osteomioarticular da pessoa idosa. Quando associada à osteoartrite de joelho, tal afecção potencializa a perda funcional e o quadro álgico. Este estudo teve como objetivo analisar as evidências científicas acerca da interação entre a sarcobesidade e a osteoartrite de joelho, identificando suas repercussões biomecânicas, vias inflamatórias e condutas terapêuticas fisioterapêuticas. Realizou-se uma revisão integrativa da literatura orientada pelo referencial de Whittemore e Knafl, abrangendo buscas nas bases de dados PubMed, SciELO e LILACS entre 2019 e 2026. Foram selecionados dez artigos submetidos à classificação de nível de evidência e avaliação crítica pelos instrumentos do Joanna Briggs Institute. Os achados indicam que a atrofia e a dinapenia do quadríceps reduzem a estabilização articular ativa, sobrecarregando a cartilagem patelofemoral e tibiofemoral diante do peso corporal aumentado, ao passo que a adiposidade retroalimenta mediadores inflamatórios articulares. As abordagens fisioterapêuticas embasadas no treinamento resistido, associado ao aporte multiprofissional, atenuam perdas funcionais e preservam a massa magra durante o controle ponderal. Conclui-se que o manejo direcionado à sarcobesidade na osteoartrite requer protocolos integrados que aliem o fortalecimento muscular à reabilitação biomecânica precoce no âmbito do cuidado contínuo em saúde.
Palavras-chave: Sarcobesidade; osteoartrite de joelho; fisioterapia; biomecânica; capacidade funcional.
Abstract
Sarcopenic obesity is characterized by the coexistence of excess adipose tissue and progressive decline in skeletal muscle mass and performance, establishing a clinical phenotype with substantial repercussions on joint health in older adults. When combined with knee osteoarthritis, this clinical condition exacerbates functional impairments and pain. This study aimed to analyze scientific evidence regarding the interaction between sarcopenic obesity and knee osteoarthritis, identifying biomechanical impacts, inflammatory pathways, and physical therapy interventions. An integrative literature review was conducted according to the Whittemore and Knafl framework, screening PubMed, SciELO, and LILACS databases between 2019 and 2026. Ten studies were selected and appraised using the Joanna Briggs Institute critical appraisal tools and evidence level hierarchy. The findings indicate that quadriceps atrophy and dynapenia impair active joint stability, transferring excessive mechanical loading to articular surfaces in the presence of elevated body mass, while expanding adipose tissue releases pro-inflammatory mediators. Therapeutic interventions centered on progressive resistance training, combined with dietary control, attenuate functional decline and preserve lean mass. In conclusion, managing sarcopenic obesity in knee osteoarthritis demands multimodal programs combining muscular strengthening and biomechanical stabilization within comprehensive healthcare strategies.
Keywords: Sarcopenic obesity; knee osteoarthritis; physical therapy; biomechanics; functional capacity.
1 Introdução
O envelhecimento populacional e as alterações nos padrões de estilo de vida têm impulsionado a prevalência de doenças crônicas não transmissíveis de caráter musculoesquelético e metabólico. Dentre essas condições, a obesidade sarcopênica — comumente referida como sarcobesidade — destaca-se como uma síndrome clínica complexa caracterizada pela coexistência de excesso de adiposidade corporal e redução concomitante da massa, força e desempenho muscular esquelético (CRUZ-JENTOFT et al., 2019; DONINI et al., 2022). Em indivíduos idosos, esse fenótipo manifesta-se com acentuada perda de autonomia funcional, ampliação da vulnerabilidade física e maior incidência de quedas e institucionalização.
Concomitantemente, a osteoartrite de joelho figura como a desordem articular degenerativa mais prevalente na população geriátrica global, acometendo a integridade da cartilagem hialina articular, do osso subcondral, da membrana sinovial e das estruturas ligamentares e capsulares adjacentes (HUNTER; BIERMA-ZEINSTRA, 2019). O quadro clínico clássico envolve dor persistente, rigidez articular matinal de curta duração, crepitação, deformidades angulares e limitação progressiva das atividades cotidianas que exigem suporte de carga corporal, como deambulação, subida e descida de escadas e transferências posturais.
A convergência clínica entre a sarcobesidade e a osteoartrite de joelho desencadeia um ciclo deletério singular. Tradicionalmente, o impacto da obesidade sobre a articulação do joelho foi interpretado sob prisma puramente mecânico, decorrente da sobrecarga estática e dinâmica imposta às superfícies articulares. Todavia, investigações contemporâneas consolidaram a compreensão de que o tecido adiposo atua como um órgão endócrino ativo, secretando adipocinas e citocinas pró-inflamatórias que aceleram os mecanismos proteolíticos e a degradação da matriz cartilaginosa (ZHANG et al., 2022). Quando associado à fraqueza do complexo extensor do joelho gerada pela sarcopenia, o aparato articular perde sua principal linha de proteção mecânica ativa (HURLEY, 1999).
Apesar do reconhecimento crescente dessa sinergia patológica, a literatura científica ainda exibe heterogeneidade substancial no tocante aos parâmetros diagnósticos aplicados na prática clínica e à delimitação das melhores condutas fisioterapêuticas para esse subgrupo de pacientes. Diante disso, delineou-se a seguinte questão norteadora: quais são as evidências científicas disponíveis acerca das implicações biomecânicas, inflamatórias e terapêuticas da sarcobesidade em pacientes portadores de osteoartrite de joelho?
O presente artigo teve como objetivo analisar as evidências científicas indexadas sobre a interação mútua entre a sarcobesidade e a osteoartrite de joelho, identificando os reflexos biomecânicos na articulação femorotibial e femoropatelar, as vias imuno metabólicas subjacentes e a efetividade das abordagens fisioterapêuticas voltadas à reabilitação e preservação da capacidade funcional.
2 Metodologia
Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, delineamento metodológico que possibilita a síntese rigorosa de pesquisas com abordagens metodológicas diversificadas para subsidiar a prática profissional baseada em evidências. Adotou-se o modelo estrutural proposto por Whittemore e Knafl (2005), sistematizado operacionalmente em seis fases consecutivas: delimitação da pergunta de pesquisa, formulação da estratégia de busca e amostragem, categorização dos estudos primários, avaliação crítica da qualidade metodológica, interpretação analítica dos resultados e síntese integrada do conhecimento.
A estratégia de localização das produções acadêmicas contemplou levantamentos nas bases de dados eletrônicas PubMed/MEDLINE, Scientific Electronic Library Online (SciELO) e Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS). Utilizaram-se cruzamentos booleanos padronizados a partir dos vocabulários controlados MeSH (Medical Subject Headings) e DeCS (Descritores em Ciências da Saúde), englobando as terminologias: Sarcopenic Obesity, Sarcobesity, Osteoarthritis, Knee, Biomechanics, Inflammation e Physical Therapy Modalities, bem como seus correspondentes em língua portuguesa.
Definiram-se como critérios de inclusão: artigos originais de pesquisa empírica (ensaios clínicos randomizados, estudos de coorte e transversais analíticos) e revisões sistemáticas de escopo específico que investigassem a relação entre sarcobesidade (ou sarcopenia combinada à obesidade) e osteoartrite de joelho; publicações indexadas no período de 2019 a 2026; nos idiomas português e inglês. Foram excluídos resumos publicados em anais de congressos, capítulos de livros, editoriais sem revisão por pares, relatos de casos isolados, estudos exclusivamente in vitro ou em modelos murinos e protocolos que não contemplassem desfechos articulares, funcionais ou biomecânicos pertinentes à articulação do joelho.
O processo de triagem e seleção bibliográfica foi conduzido por pares independentes, em conformidade com as diretrizes do protocolo PRISMA (PAGE et al., 2021). A extração dos dados estruturou-se por meio de matriz analítica contendo: autoria, ano de publicação, país de origem, delineamento metodológico, tamanho e perfil da amostra, critérios diagnósticos adotados, principais achados e desfechos funcionais.
A avaliação da força das evidências observou a hierarquia proposta por Melnyk e Fineout-Overholt (2019), classificando os delineamentos em níveis de 1 a 7. A avaliação crítica da qualidade metodológica e do risco de viés de cada estudo primário foi efetuada mediante a aplicação dos checklists oficiais padronizados pelo Joanna Briggs Institute (JBI), adotando instrumentos específicos para ensaios clínicos controlados, estudos de coorte, transversais analíticos e sínteses sistemáticas. Os dados categorizados foram sintetizados de forma qualitativa e descritiva em três eixos temáticos: implicações biomecânicas, vias metabólicas-inflamatórias e intervenções fisioterapêuticas.
3 Resultados e Discussão
A aplicação dos critérios de seleção culminou na inclusão final de 10 produções científicas indexadas entre os anos de 2019 e 2026. Quanto aos delineamentos metodológicos, a amostra contemplou dois ensaios clínicos randomizados (nível de evidência 2), um estudo de coorte prospectivo (nível 4), duas revisões sistemáticas com metanálise de dados observacionais (nível 5), três estudos transversais analíticos (nível 6) e duas revisões narrativas de literatura (nível 7). Conforme sintetizado no Quadro 1, a maior parte dos estudos concentrou-se nos níveis 5 a 7, refletindo a necessidade de expansão de investigações prospectivas com desenhos de intervenção direta nessa população.
3.1 Critérios diagnósticos e heterogeneidade operacional
A análise dos artigos revelou expressiva discrepância nas definições operacionais empregadas para classificar a sarcobesidade. Embora o consenso estabelecido pela European Society for Clinical Nutrition and Metabolism (ESPEN) em parceria com a European Association for the Study of Obesity (EASO) preconize uma avaliação sequencial que une redução da força funcional à alteração da composição corporal ajustada (DONINI et al., 2022), sua aplicabilidade clínica uniforme ainda é incipiente.
No estudo SARCOB, conduzido por Razaq, Kara e Özçakar (2023), os autores empregaram o algoritmo ISarcoPRM correlacionando a espessura ultrassonográfica do músculo quadríceps femoral com o índice de massa corporal (IMC). Em contrapartida, Godziuk et al., (2026) empregaram métricas baseadas na força de preensão manual relativa ao IMC e percentual de gordura via densitometria ou bioimpedância, ressaltando que as taxas de prevalência oscilaram de 0% a 60% na mesma coorte amostral unicamente em virtude do critério de corte estipulado. Tal inconsistência diagnóstica foi corroborada pela metanálise de Chen et al., (2025), evidenciando a urgência da padronização dos pontos de corte para evitar o subdiagnóstico da perda de qualidade muscular em idosos obesos com dores no joelho.
3.2 Implicações biomecânicas da interação articular
No eixo biomecânico, constatou-se que a interação patológica decorre primordialmente da perda de amortecimento ativo proporcionado pelo complexo quadríceps associada ao incremento de sobrecarga passiva exercida pela massa corpórea. O músculo quadríceps femoral atua fisiologicamente como o principal estabilizador dinâmico do membro inferior durante a fase de apoio da marcha, dissipando as forças de reação do solo antes de sua transmissão ao compartimento femorotibial (HURLEY, 1999).
Quando a infiltração mioesteatótica e a atrofia de fibras musculares do tipo II se instalam na sarcobesidade, essa capacidade atenuadora torna-se comprometida (LEXELL, 1995; MITCHELL et al., 2012). Conforme demonstrado por Negm et al. (2025), pacientes com sarcobesidade em estágio avançado de osteoartrite apresentam alterações espaciais e temporais na marcha, caracterizadas por cadência reduzida, menor velocidade e alteração no momento adutor do joelho em relação a indivíduos obesos não sarcopênicos.
Ademais, os dados prospectivos de Misra et al., (2019) confirmam que indivíduos sarcobesos enfrentam risco substancialmente maior de osteoartrite de joelho radiográfica incidente, ao mesmo tempo em que a preservação de índices satisfatórios de força muscular atua como fator de proteção mecânica frente à degeneração da cartilagem.
3.3 Vias metabólicas-inflamatórias
No domínio imunometabólico, os estudos ratificam que a articulação do joelho não é afetada apenas pela compressão física contínua. O tecido adiposo disfuncional secreta citocinas inflamatórias sistêmicas como interleucina 6 (IL-6), fator de necrose tumoral alfa (TNF-α) e adipocinas reguladoras, predominantemente a leptina e a adiponectina (BATSIS; VILLAREAL, 2018; ZHANG et al., 2022).
De acordo com o modelo mecanístico descrito por Zhang et al. (2022), a hiperleptinemia e o recrutamento de vias intracelulares dependentes de NF-κB e MAPK estimulam a expressão de metaloproteinases de matriz (MMP-1, MMP-3 e MMP-13) e agrecanases (ADAMTS-4 e ADAMTS-5) nos condrócitos e células sinoviais. Essa cascata bioquímica inibe a síntese de colágeno do tipo II e proteoglicanos, desestruturando a matriz extracelular da cartilagem.
Importa ressaltar que nenhum dos estudos clínicos primários avaliados realizou a dosagem simultânea desses biomarcadores plasmáticos ou sinoviais especificamente em coortes exclusivas de sarcobesidade com osteoartrite, mantendo essa relação sustentada primordialmente por plausibilidade biológica e extrapolação mecanística indireta.
3.4 Repercussões clínico-funcionais e condutas fisioterapêuticas
O impacto combinado dessa tríade repercute diretamente na mobilidade física, no equilíbrio postural e na capacidade do indivíduo de manter-se funcionalmente independente. Godziuk et al. (2026) demonstraram que portadores de sarcobesidade e osteoartrite grave apresentaram um rendimento funcional 78,6 metros inferior no teste de caminhada de seis minutos quando comparados aos controles sem sarcopenia, associando-se a escores expressivamente piores nas escalas WOMAC de dor e rigidez e EQ-5D de qualidade de vida.
No tocante às abordagens terapêuticas, os ensaios clínicos demonstraram que o exercício físico resistido se estabelece como a principal ferramenta terapêutica para quebrar o ciclo vicioso de perda muscular e acúmulo adiposo (HSU et al., 2021; LIAO et al., 2020). Hsu et al. (2021) comprovaram que a implementação de treinamento de força resistido com elásticos, integrado ao acompanhamento nutricional estruturado, viabilizou diminuição significativa da gordura corporal e otimização relevante no tempo do teste de sentar e levantar da cadeira e do Timed Up and Go (TUG).
Similarmente, Liao et al., (2020) demonstraram que a aplicação precoce do exercício resistido progressivo no período pós-cirúrgico de artroplastia total de joelho resultou em ganhos funcionais substanciais, resguardando a integridade da musculatura do membro contralateral e prevenindo o declínio funcional típico da imobilidade.
Dessa forma, evidencia-se que intervenções fisioterapêuticas com foco puramente passivo ou restritas à perda ponderal desacompanhada de sobrecarga mecânica resistida tendem ao insucesso, pois podem culminar no agravamento da perda de massa livre de gordura. O manejo fisioterapêutico requer programas individualizados com treinamento resistido progressivo, exercícios proprioceptivos, controle sensório motor e reorganização dos padrões de marcha, assegurando estabilidade articular e controle da dor.
4 Conclusão
A presente revisão integrativa demonstra que a sarcobesidade potencializa a severidade da osteoartrite de joelho por meio do sinergismo entre fatores de estresse biomecânico e agressões inflamatórias-metabólicas. A atrofia do quadríceps fragiliza a proteção ativa das superfícies articulares sob um peso corporal aumentado, enquanto mediadores inflamatórios sintetizados pelo tecido adiposo aceleram o catabolismo cartilaginoso.
Do ponto de vista prático e assistencial, destaca-se que as estratégias de controle do peso não devem fundamentar-se unicamente na restrição calórica, sob pena de acentuar o quadro sarcopênico. Torna-se imperativa a prescrição de protocolos fisioterapêuticos estruturados em exercícios resistidos, combinados ao treinamento funcional, visando à hipertrofia adaptativa, melhora do recrutamento neuromuscular e estabilização patelofemoral e tibiofemoral. Tais achados reforçam a necessidade de programas de triagem diagnóstica precoce da composição corporal e intervenções multidisciplinares no âmbito da atenção à saúde do adulto e da pessoa idosa.
Referências
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Graduando em Fisioterapia pela Universidade Paulista (UNIP). Cametá – Pará – Brasil. ↑
Graduando em Fisioterapia pela Universidade Paulista (UNIP). Cametá – Pará – Brasil. ↑
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Graduando em Fisioterapia pela Universidade Paulista (UNIP). Cametá – Pará – Brasil. ↑
Graduando em Fisioterapia pela Universidade Paulista (UNIP). Cametá – Pará – Brasil. ↑
Docente do Curso de Fisioterapia da Universidade Paulista (UNIP); Fisioterapeuta do Hospital Regional de Cametá; Especialista em Fisioterapia Esportiva (COFFITO); Mestra em Teoria e Pesquisa do Comportamento pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Cametá – Pará – Brasil. ↑

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