Resumo
Antecedentes: A síndrome congênita do zika vírus (SCZV) leva a comprometimento neuromuscular grave com disfunção substancial dos membros superiores. Métodos: Estudo transversal incluindo 23 crianças com SCZV confirmada. Foram realizadas avaliações morfológicas e funcionais de mãos e punhos. Resultados: A hipotrofia tenar, as deformidades do punho e a rigidez passiva foram associadas à redução do controle motor ativo. Conclusões: As anomalias morfofuncionais da mão são determinantes chave do comprometimento funcional, apoiando estratégias ortopédicas e de reabilitação precoces.
Palavras-chave: Atrofias ; zika vírus : síndrome.
Abstract
Background: Congenital Zika Virus Syndrome (CZVS) leads to severe neuromuscular impairment with substantial upper limb dysfunction. Methods: Cross-sectional study including 23 children with confirmed CZVS. Morphological and functional assessments of hands and wrists were performed. Results: Thenar hypotrophy, wrist deformities, and passive rigidity were associated with reduced active motor control. Conclusions: Morphofunctional abnormalities of the hand are key determinants of functional impairment, supporting early orthopedic and rehabilitative strategies.
Keywords: Atrophies; Zika virus; syndrome.
Introdução
A síndrome congênita do Zika vírus (SCZV) é caracterizada por lesão do sistema nervoso central com repercussões motoras relevantes. Embora o comprometimento neurológico seja amplamente descrito, as consequências ortopédicas distais, especialmente nas mãos e punhos, permanecem subexploradas. A função manual é essencial para independência funcional, e alterações estruturais e neuromusculares podem comprometer significativamente o desempenho.
Métodos
Estudo observacional transversal com 23 crianças (3–7 anos) com diagnóstico confirmado de SCZV. Foram avaliados trofismo muscular (tênar/hipotênar), deformidades estruturais, desvios de punho, mobilidade ativa e passiva e amplitude de movimento por goniometria. A análise estatística incluiu teste de Mann-Whitney, teste exato de Fisher e regressão linear simples (p<0,05).
Resultados
Variável | n | % |
|---|---|---|
Hipotrofia tênar | 10 | 43,5 |
Hipotrofia hipotênar | 9 | 39,1 |
Deformidades estruturais | 11 | 47,8 |
Desvio ulnar | 8 | 34,8 |
Desvio radial | 2 | 8,7 |
Observou-se elevada prevalência de alterações estruturais, com predominância de desvios ulnares, sugerindo padrão biomecânico associado à hipertonia.
Mobilidade ativa | n | % |
|---|---|---|
Sem movimento | 8 | 34,8 |
Sem controle | 11 | 47,8 |
Com controle | 4 | 17,4 |
A maioria das crianças apresentou comprometimento motor significativo, com baixa taxa de controle funcional.
Mobilidade passiva | n | % |
|---|---|---|
Com rigidez | 13 | 56,5 |
Sem rigidez | 10 | 43,5 |
A rigidez articular foi frequente, correlacionando-se com menor amplitude de movimento e maior risco de deformidades fixas.
Discussão
A disfunção da mão na SCZV está fortemente associada a alterações estruturais e neuromusculares decorrentes de lesão central. A espasticidade promove desequilíbrio muscular e deformidades progressivas. A hipotrofia tênar compromete a oposição do polegar e a função de pinça, enquanto o desvio ulnar altera a biomecânica, reduzindo eficiência de preensão. A rigidez passiva indica evolução para contraturas. Comparativamente à paralisia cerebral, observa-se envolvimento distal mais precoce e frequentemente mais grave. Clinicamente, os achados sustentam intervenção precoce com terapia ocupacional, uso de órteses e seguimento ortopédico para prevenção de deformidades.
Conclusão
As alterações morfofuncionais das mãos são determinantes importantes de incapacidade funcional em crianças com SCZV. A identificação precoce desses fatores deve orientar estratégias terapêuticas e ortopédicas.
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