Resumo
Objetivo: descrever o perfil clínico-cirúrgico e as complicações registradas após correção de hérnias da parede abdominal em um hospital público e explorar associações com condições clínicas documentadas.
Métodos: análise retrospectiva de 284 procedimentos efetivamente realizados, referentes a 2024–2025. O composto incluiu seroma, hematoma, infecção de sítio cirúrgico e dor crônica. A contagem clínica somou marcações positivas de hipertensão, diabetes, obesidade, tabagismo e DPOC. Foram realizadas regressões logísticas com ajuste por idade e sexo, mantendo a codificação original dos campos desconhecidos como zero.
Resultados: a idade média registrada foi de 51,7 anos, e 69,0% dos registros eram de homens. O composto ocorreu em 22/284 procedimentos (7,7%), com 13 reinternações e três altas por óbito. Sua frequência foi de 4,8%, 6,8% e 20,0% nos grupos com zero, uma e duas ou mais condições positivas. A OR ajustada para duas ou mais foi 4,30 (IC95% 1,65–11,19). O seguimento estava registrado em 45 procedimentos, com elevada incompletude dos campos clínicos.
Conclusão: duas ou mais condições clínicas documentadas estiveram associadas a maior chance de complicações locais, após ajuste por idade e sexo. Os procedimentos de urgência apresentaram maior permanência hospitalar. A incompletude dos registros e o seguimento limitado exigem interpretação exploratória e reforçam a importância da documentação perioperatória padronizada.
Palavras-chave: Hérnia abdominal; Herniorrafia; Comorbidade; Complicações pós-operatórias; Sistema Único de Saúde.
Abstract
Objective: To describe the clinical and surgical profile and documented complications after abdominal wall hernia repair in a public hospital, and explore associations with recorded clinical conditions.
Methods: Retrospective analysis of 284 surgical procedures confirmed as performed and assigned to 2024– 2025. The composite included seroma, hematoma, surgical site infection, and chronic pain. The clinical count summed positive entries for hypertension, diabetes, obesity, smoking, and COPD. Logistic regressions adjusted for age and sex were fitted using the original coding of unknown entries as zero.
Results: Recorded mean age was 51.7 years, and 69.0% of records concerned men. The composite was present in 22/284 records (7.7%), with 13 readmissions and three discharges recorded as death. Composite frequencies were 4.8%, 6.8%, and 20.0% for zero, one, and at least two positive conditions. The adjusted odds ratio for at least two conditions was 4.30 (95% CI 1.65–11.19). Follow-up was documented for 45 procedures, with substantial missing clinical information.
Conclusion: Two or more documented clinical conditions were associated with higher odds of local complications after adjustment for age and sex. Emergency procedures were associated with longer hospital stays. Incomplete records and limited follow-up warrant an exploratory interpretation and underscore the importance of standardized perioperative documentation.
Keywords: Abdominal hernia; Herniorrhaphy; Comorbidity; Postoperative complications; Public health.
Introdução
O reparo das hérnias da parede abdominal integra a rotina dos serviços de cirurgia geral. A decisão terapêutica exige considerar a anatomia do defeito, as condições clínicas do paciente e os recursos disponíveis. As diretrizes para hérnias inguinais e a literatura sobre hérnias ventrais ressaltam que apresentações distintas demandam estratégias específicas de reparo e de avaliação dos resultados.¹,²
No Sistema Único de Saúde (SUS), conhecer a casuística de cada serviço pode apoiar o planejamento da assistência. Dados nacionais mostram a relevância das internações de urgência por hérnia inguinal para a mortalidade e os custos hospitalares.³ Contudo, indicadores administrativos não substituem a avaliação clínica dos prontuários, e comparações de desempenho exigem populações, definições e períodos de observação compatíveis.
Este estudo descreve o perfil clínico-cirúrgico dos procedimentos de correção de hérnias da parede abdominal do HRS, classificados no período de 2024–2025, e explora associações entre condições clínicas documentadas, complicações locais, regime de atendimento e uso de tela.
Métodos
Desenho e participantes
Estudo observacional retrospectivo do HRS/SES-DF, com 284 procedimentos cirúrgicos efetivamente realizados. Cada registro corresponde a uma operação e foi considerado uma unidade independente de análise, conforme informação da pesquisadora responsável. Todos os procedimentos foram mantidos. O trabalho de origem informa 287 registros identificados e três exclusões; os motivos dessas exclusões não estão discriminados na planilha analítica. Os resultados são apresentados por procedimento, sem equiparar o total de operações ao número de pacientes únicos. O relato segue os itens aplicáveis do STROBE.⁴
Variáveis e desfechos
Foram extraídos idade, sexo, raça/cor, hipertensão, diabetes, obesidade, tabagismo, DPOC, ASA, tipo de hérnia, regime, via, tela e permanência. A contagem clínica foi reproduzida somando “Sim” nos cinco campos hipertensão, diabetes, obesidade, tabagismo e DPOC. Tabagismo inclui ativo ou ex-tabagista no dicionário. “NI” e branco foram codificados como zero para reproduzir a análise original; zero significa nenhuma marcação positiva, não ausência clínica confirmada. O campo livre de outras comorbidades não integra essa contagem.
O composto foi a presença de pelo menos um “Sim” em seroma, hematoma, ISC superficial, ISC profunda e dor crônica. O dicionário define dor crônica como persistência superior a três meses; a categoria de ISC profunda também abrange órgão/espaço, exigindo harmonização. Não há janela uniforme para o composto. Uma linha sem qualquer informação dos cinco componentes foi mantida como zero apenas na reprodução original e excluída em sensibilidade. O óbito corresponde à condição de alta; a mortalidade em 30 dias não pode ser estabelecida.
Classificação e dados ausentes
O regime clínico informado na planilha foi utilizado, conforme a definição de urgência por complicação aguda do dicionário e a operacionalização descrita no TCC. Houve dois regimes ausentes e 13 registros sem informação de tela. ASA foi informada em 206 linhas, permanência em 237 e tempo de seguimento em 40. A coluna mês de coleta aloca 125 registros a 2024 e 159 a 2025, mas três datas cirúrgicas apresentam formato inválido ou divergência de ano. As datas não foram corrigidas sem conferência documental.
Análise estatística e ética
Foram descritas contagens, proporções, média/DP e mediana/IIQ. Reproduziram-se Fisher bicaudal e Mann– Whitney. Na tabela 3 × 2, o Pearson foi complementado por Fisher–Freeman–Halton exato bicaudal, somando probabilidades condicionais não maiores que a observada. Dois modelos logísticos de máxima verossimilhança avaliaram a contagem por unidade e ≥ 2 versus < 2, com idade e sexo. IC95% e p dos modelos foram calculados por Wald; os IC da figura, por Wilson. Os modelos convergiram e consideraram independência entre procedimentos. As análises usaram Python, NumPy e SciPy, sem ajuste por multiplicidade.
Resultados
Perfil da amostra e dos procedimentos
Foram analisados 284 procedimentos efetivamente realizados, dos quais 196 (69,0%) registravam sexo masculino. A idade média foi 51,7 anos (DP 14,0), com mediana 53 (IIQ 43–62) e variação 16–85 anos. A classificação por mês de coleta compreende 125 registros de 2024 e 159 de 2025, sujeita à reconciliação das datas. As características estão na Tabela 1.
Tabela 1. Características clínicas e operatórias
Denominadores por registro. ASA ausente em 78/284 (27,5%); regime em 2/284 (0,7%); via e tela em 13/284 (4,6%) cada. Condições positivas são marcações “Sim”; desconhecidos não foram tratados como negativos clínicos. ASA: classificação do estado físico; DPOC: doença pulmonar obstrutiva crônica.
Entre os 271 registros com informação de tela, 197 indicavam uso (72,7%). Desses, 180 tinham descrições compatíveis com polipropileno/Prolene/Marlex, um informava “Proceed” e 16, “NI”. Não se sustenta afirmar prótese uniforme nos 197 casos. Entre 271 registros de via, 262 eram abertos (96,7%), três laparoscópicos e seis convertidos.
Complicações e comparações entre grupos
O composto foi positivo em 22/284 registros (7,7%); com exclusão da linha inteiramente desconhecida, em 22/283 (7,8%). Houve 13 marcações de reinternação em 30 dias e três altas por óbito. Os componentes não são mutuamente exclusivos (Tabela 2). A permanência foi registrada em 237 linhas, com mediana 1 dia (IIQ 1– 3).
Tabela 2. Desfechos registrados na amostra
ISC: infecção de sítio cirúrgico. São 30 marcações positivas em 22 linhas, com sobreposição. Uma linha tem os cinco componentes desconhecidos. Em outra, parte é desconhecida, mas a ISC superficial positiva define o composto. Percentuais sobre 284 reproduzem a análise original; não representam incidência padronizada nem pacientes únicos confirmados.
A comparação por regime incluiu 282 registros e a comparação por tela, 271. Os p de Fisher do composto foram 1,000 e 0,455. Para permanência, Mann–Whitney reproduziu p = 0,0009997 por regime e p = 0,1642 por tela (Tabela 3), com os denominadores de dados disponíveis indicados na nota.
Tabela 3. Desfechos segundo regime e uso de tela
Grupo 1: eletivo ou com tela; grupo 2: urgência ou sem tela. Para permanência, n = 204 e 33 por regime; n = 176 e 61 por tela. Fisher para os desfechos binários e Mann–Whitney para permanência. Os testes consideraram independência entre procedimentos.
O grupo com tela teve mais registros masculinos (74,6% versus 51,4%), maior mediana de idade (55 versus 48 anos) e mais tabagismo documentado (15,7% versus 1,4%). São comparações não ajustadas.
Condições clínicas registradas e complicações locais
O composto ocorreu em 8/166 registros sem marcação clínica positiva (4,8%), 5/73 com uma (6,8%) e 9/45 com duas ou mais (20,0%). Reproduziu-se Pearson χ² = 11,53, gl = 2 e p = 0,00314. O teste exato de Fisher– Freeman–Halton resultou em p = 0,00666. Nenhum deles é um teste específico de tendência; ambos pressupõem independência.
Figura 1. Proporção de registros com complicação segundo o número de condições positivas. Barras: IC95% de Wilson. A contagem inclui hipertensão, diabetes, obesidade, tabagismo e DPOC. Zero não significa ausência clínica confirmada.
A comparação ≥ 2 versus < 2 condições positivas foi 9/45 versus 13/239, com OR bruta 4,35. Os modelos originais foram reproduzidos por máxima verossimilhança, sem alteração das linhas ou da codificação original (Tabela 4).
Tabela 4. Modelos exploratórios para o composto de complicações locais
Modelos alternativos, cada um ajustado por idade e sexo, com 284 linhas e 22 compostos positivos. Modelos reproduzidos, com convergência numérica. No modelo B: idade OR 1,002 (IC95% 0,968–1,037; p = 0,924); sexo masculino OR 1,220 (0,449–3,315; p = 0,697). Interpretação exploratória em razão da incompletude clínica e da codificação dos campos desconhecidos.
Ao excluir a única linha com todos os componentes desconhecidos (n = 283), a OR por unidade foi 2,00 (IC95% 1,22–3,27; p = 0,0059), e a OR ≥ 2 foi 4,29 (1,65–11,16; p = 0,0029). Essa análise de sensibilidade não elimina as limitações da classificação das condições desconhecidas como zero.
Discussão
Nesta série de 284 procedimentos de correção de hérnias da parede abdominal, complicações locais foram registradas em 7,7% das operações. A presença de duas ou mais condições clínicas documentadas esteve associada a maior chance do desfecho composto após ajuste por idade e sexo. Os procedimentos foram considerados independentes na análise, conforme informação da pesquisadora responsável.
Interpretação da associação clínica
A frequência de 20,0% nas linhas com duas ou mais condições positivas, comparada a 5,4% nas demais, descreve um sinal associativo. Estudos de hérnias complicadas em idosos também relacionam condições clínicas e desfechos, mas não corrigem as limitações desta base nem fornecem validação externa direta.⁵ A interpretação deve distinguir doenças efetivamente ausentes de condições não registradas.
A OR ajustada foi de 2,00 por condição positiva adicional e de 4,30 para duas ou mais condições, em comparação com menos de duas. Esses resultados descrevem associações por procedimento. O ajuste por idade e sexo não elimina confundimento por gravidade, tipo de hérnia, técnica operatória ou outras características não incorporadas aos modelos. A contagem utilizada representa condições documentadas, e não uma medida validada da carga global de comorbidades.
A incompletude clínica é substancial: desconhecidos em 171/284 registros para hipertensão, 209/284 para diabetes, 251/284 para obesidade, 148/284 para tabagismo e 270/284 para DPOC. Apenas seis linhas contêm “Sim” ou “Não” em todos os cinco campos, e nenhuma tem cinco respostas “Não”. Portanto, a categoria zero representa falta de marcação positiva, não um grupo comprovadamente sem comorbidades. A associação pode refletir diferenças de documentação, além de diferenças clínicas.
Regime de atendimento e permanência hospitalar
A permanência hospitalar foi maior nos procedimentos de urgência entre os 237 casos com esse dado. Dados brasileiros também mostram a relevância das internações de urgência por hérnia inguinal para custos e mortalidade.³ A ausência de diferença estatisticamente significativa nas complicações entre os regimes não demonstra equivalência, sobretudo diante do pequeno número de eventos.
Uso de tela e heterogeneidade cirúrgica
A decisão de usar tela depende da apresentação da hérnia e das condições clínicas. As diretrizes e revisões apresentam recomendações específicas.¹,² As diferenças de idade, sexo e tabagismo entre os grupos sugerem confundimento por indicação. Esta comparação não ajustada não estabelece o efeito causal da prótese.
Os materiais de tela registrados foram heterogêneos. Há um registro “Proceed” e 16 materiais desconhecidos entre as 197 linhas com tela. A marca, a composição e o plano devem ser confirmados na descrição operatória quando relevantes. A pequena quantidade de procedimentos laparoscópicos continua impedindo uma comparação informativa por via de acesso.
Seguimento e interpretação dos eventos
Seroma, hematoma e ISC podem coexistir no mesmo procedimento; sua soma não corresponde ao número de operações com qualquer complicação. A unidade de análise é a cirurgia efetivamente realizada. A comparação com outros serviços exige definições semelhantes de desfecho e uma janela pós-operatória uniforme.
O dicionário define dor crônica como duração > 3 meses, mas somente 45/284 linhas indicam seguimento disponível. O tempo é numérico em 40, com mediana 1,6 mês (IIQ 0,875–7,3; variação 0–22,6). Os dois registros positivos de dor não permitem estimar incidência confiável. A literatura sobre dor persistente reforça a necessidade de avaliação específica.⁶ A recidiva está positiva em 20 linhas, sendo 14 sem seguimento marcado; deve-se esclarecer se corresponde à hérnia já recidivada antes da operação ou à recidiva pós operatória.
As três marcações de óbito pertencem ao campo condição de alta. Elas não demonstram mortalidade em 30 dias, nem fornecem causas. Duas correspondem a registros eletivos, impedindo atribuir o total à urgência. O período de observação e a relação dos eventos com a operação índice precisam de confirmação.
Limitações e implicações
O delineamento retrospectivo e unicêntrico, a heterogeneidade das hérnias e o pequeno número de eventos limitam a generalização dos resultados. A análise considerou os 284 procedimentos independentes, conforme informação da pesquisadora responsável. A incompletude clínica, a codificação de campos desconhecidos como zero na contagem de condições documentadas, as divergências de datas e o seguimento limitado podem introduzir viés de classificação e subestimação de eventos. O ajuste restrito a idade e sexo não exclui confundimento residual.
Os achados oferecem um panorama assistencial do serviço e apontam prioridades para a qualidade do registro perioperatório. A distinção entre ausência de doença e informação desconhecida, a definição de janelas de acompanhamento e a coleta prospectiva padronizada podem ampliar a comparabilidade e a precisão de estudos futuros.
Conclusão
Em 284 procedimentos de correção de hérnias da parede abdominal, a frequência registrada de complicações locais foi de 7,7%. A presença de duas ou mais condições clínicas documentadas esteve associada a maior chance de complicações após ajuste por idade e sexo (OR 4,30; IC95% 1,65–11,19), e os procedimentos de urgência apresentaram maior permanência hospitalar. Esses achados apoiam a atenção às condições clínicas no planejamento perioperatório e a melhoria do registro e do acompanhamento pós-operatório. A natureza retrospectiva, os dados incompletos e o seguimento limitado exigem interpretação exploratória, sem estabelecer causalidade.
Referências
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