RESUMO
Objetivo: Analisar os fatores relacionados ao sentido atribuído ao trabalho policial e compreender elementos associados ao fortalecimento ou enfraquecimento do propósito. Método: Foi realizada uma revisão integrativa da literatura mediante buscas em PubMed/MEDLINE, Scopus, Web of Science, Embase, SciELO e Biblioteca Virtual em Saúde, considerando estudos publicados entre janeiro de 2021 e setembro de 2026, em português, inglês e espanhol. Foram incluídos estudos originais relacionados à experiência profissional de policiais, considerando aspectos como identidade ocupacional, satisfação, engajamento no trabalho, motivação, apoio organizacional, estresse, desgaste e equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. O processo de seleção foi apresentado mediante um fluxograma baseado no PRISMA 2020, com 19 estudos incluídos. Resultados: Os achados demonstraram que o sentido do trabalho é influenciado por fatores individuais, relacionais e institucionais. A identidade profissional, o reconhecimento, o apoio organizacional, a justiça, a autonomia, a satisfação e a resiliência estiveram associados a experiências mais positivas, enquanto a sobrecarga, o estresse, as exigências emocionais, os conflitos entre trabalho e vida pessoal e as dificuldades organizacionais estiveram relacionados ao desgaste e ao enfraquecimento do vínculo com a atividade. Conclusão: A perda de propósito não deve ser entendida apenas como ausência de motivação individual, mas como um fenômeno relacionado às condições concretas de exercício da função. O fortalecimento do apoio institucional, a valorização profissional, a organização das jornadas e a atenção à saúde ocupacional podem favorecer a manutenção do significado atribuído ao trabalho policial e favorecer relações profissionais mais saudáveis.
Palavras-chave: Sentido do trabalho. Trabalho policial. Identidade profissional. Saúde ocupacional. Estresse laboral.
ABSTRACT
Objective: To analyze factors related to the meaning attributed to police work and understand elements associated with strengthening or weakening the perception of purpose in the role. Method: An integrative literature review was conducted through searches in PubMed/MEDLINE, Scopus, Web of Science, Embase, SciELO, and the Virtual Health Library, considering studies published from January 2021 to September 2026 in Portuguese, English, and Spanish. Original studies addressing police officers’ professional experiences were included, considering occupational identity, job satisfaction, work engagement, motivation, organizational support, stress, occupational strain, and work-life balance. Study selection was presented using a flowchart based on PRISMA 2020, resulting in 19 included studies. Results: Findings showed that the meaning of work is influenced by individual, relational, and institutional factors. Professional identity, recognition, organizational support, organizational justice, autonomy, satisfaction, and resilience were associated with more positive work experiences, whereas workload, stress, emotional demands, work-family conflicts, and organizational difficulties were associated with occupational strain and weakening of the bond with the activity. Conclusion: Loss of purpose should not be understood solely as a lack of individual motivation, but as a phenomenon related to the concrete conditions under which police work is performed. Strengthening institutional support, professional recognition, work schedule organization, and occupational health care may contribute to maintaining the meaning attributed to police work and sustaining healthier and more meaningful professional relationships throughout the career. Such measures may reduce the distance between professional expectations and everyday work experiences in diverse institutional contexts and at different stages of professional trajectories over time.
Keywords: Meaning of work. Police work. Professional identity. Occupation.
RESUMEN
Objetivo: Analizar los factores relacionados con el sentido atribuido al trabajo policial y comprender elementos asociados al fortalecimiento o debilitamiento del propósito. Método: Se realizó una revisión integrativa de la literatura mediante búsquedas en PubMed/MEDLINE, Scopus, Web of Science, Embase, SciELO y la Biblioteca Virtual en Salud, considerando estudios publicados entre enero de 2021 y septiembre de 2026, en portugués, inglés y español. Se incluyeron estudios originales relacionados con la experiencia profesional de policías, considerando aspectos como identidad ocupacional, satisfacción, compromiso laboral, motivación, apoyo organizacional, estrés, desgaste y equilibrio entre trabajo y vida personal. El proceso de selección se presentó mediante un diagrama de flujo basado en PRISMA 2020, con 19 estudios incluidos. Resultados: Los hallazgos demostraron que el sentido del trabajo está influido por factores individuales, relacionales e institucionales. La identidad profesional, el reconocimiento, el apoyo organizacional, la justicia, la autonomía, la satisfacción y la resiliencia se asociaron con experiencias más positivas, mientras que la sobrecarga, el estrés, las exigencias emocionales, los conflictos entre trabajo y vida personal y las dificultades organizacionales se relacionaron con el desgaste y el debilitamiento del vínculo con la actividad. Conclusión: La pérdida de propósito no debe entenderse únicamente como ausencia de motivación individual, sino como un fenómeno relacionado con las condiciones concretas de ejercicio de la función. El fortalecimiento del apoyo institucional, la valoración profesional, la organización de las jornadas y la atención a la salud ocupacional pueden favorecer el mantenimiento del significado atribuido al trabajo policial y favorecer relaciones profesionales más saludables.
Palabras clave: Sentido del trabajo. Trabajo policial. Identidad profesional. Salud ocupacional. Estrés laboral.
INTRODUÇÃO
O trabalho constitui uma dimensão central da vida social, não apenas por possibilitar a obtenção de renda e a inserção econômica, mas também por contribuir para a construção da identidade, das relações sociais, da autoestima, do sentimento de realização e da percepção de pertencimento. A Organização Mundial da Saúde reconhece que o trabalho pode favorecer saúde mental quando proporciona condições adequadas, relações positivas, participação e percepção de propósito, enquanto ambientes marcados por condições inadequadas podem produzir efeitos adversos sobre o bem-estar e o funcionamento ocupacional (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2022).
Carga excessiva, baixa autonomia, insegurança, horários prolongados ou imprevisíveis, dificuldades de comunicação, ausência de apoio, conflitos interpessoais e oportunidades limitadas de desenvolvimento profissional constituem fatores capazes de modificar a relação estabelecida entre o indivíduo e sua atividade laboral. A Organização Internacional do Trabalho destaca que os riscos psicossociais estão relacionados ao desenho e à gestão do trabalho, incluindo carga e ritmo laboral, controle sobre as atividades, cultura organizacional, relações interpessoais, clareza das funções e desenvolvimento profissional (INTERNATIONAL LABOUR ORGANIZATION, 2022).
Ao mesmo tempo em que essas atividades podem produzir percepção de utilidade social e identificação com a função, a exposição contínua a demandas operacionais e organizacionais pode modificar a experiência subjetiva do trabalho ao longo da trajetória profissional. Estudos recentes demonstram que fatores organizacionais e operacionais constituem importantes determinantes do desgaste ocupacional entre policiais, evidenciando que a experiência profissional não pode ser compreendida somente a partir dos eventos críticos enfrentados durante o serviço (ALVES et al., 2023; FULLER et al., 2024).
A percepção de apoio e justiça dentro da instituição também pode interferir na relação estabelecida pelo policial com seu trabalho. Quando os profissionais percebem que decisões, procedimentos e relações hierárquicas são conduzidos de maneira justa e que existe suporte institucional para o cumprimento das atribuições, determinados efeitos negativos dos estressores ocupacionais podem ser reduzidos. Pesquisa realizada com 437 policiais de oito agências norte-americanas identificou associação entre estressores relacionados à carga de trabalho e atitudes favoráveis à chamada corrupção por causa nobre, enquanto a percepção de justiça organizacional modificou essa relação. Embora o estudo não permita estabelecer causalidade nem possa ser generalizado para todas as instituições policiais, seus resultados demonstram que a maneira como a organização administra demandas e estabelece relações de justiça constitui componente relevante da experiência profissional e da conduta dos trabalhadores (LAWSON et al., 2022).
A identificação organizacional e o sentimento de pertencimento também merecem atenção quando se investiga por que trabalhadores podem se distanciar do significado atribuído à própria profissão. A relação entre indivíduo e organização é construída a partir de experiências concretas de reconhecimento, apoio, participação, justiça, autonomia e coerência entre valores pessoais e institucionais. Em estudo realizado com membros da Guarda Nacional Republicana de Portugal, variáveis relacionadas à justiça organizacional e à identificação com a organização foram analisadas em conjunto com fatores psicossociais, empatia e autocuidado na compreensão do burnout policial. Os resultados reforçam a necessidade de analisar o desgaste profissional considerando simultaneamente aspectos individuais e características do contexto de trabalho, evitando explicações que reduzam o fenômeno a fragilidades pessoais do policial (CORREIA et al., 2023).
Nesse sentido, a perda de propósito no trabalho policial pode ser compreendida como uma questão relacionada à transformação da experiência profissional e não simplesmente como ausência de vocação ou desinteresse individual pela carreira. Um profissional pode continuar desempenhando formalmente suas atribuições e, simultaneamente, experimentar redução do envolvimento, distanciamento emocional, menor percepção de realização ou dificuldade de reconhecer significado naquilo que executa diariamente. A literatura sobre saúde mental ocupacional indica que trabalhos significativos podem favorecer realização e bem-estar, enquanto tarefas percebidas como fragmentadas ou sem significado, baixa autonomia, relações organizacionais inadequadas e exposição prolongada a riscos psicossociais podem comprometer essa experiência. Para os policiais, compreender essa possível ruptura entre a função exercida e o significado atribuído a ela exige, portanto, examinar conjuntamente as condições concretas de trabalho, os vínculos organizacionais, as exigências emocionais e operacionais e as possibilidades de reconhecimento e apoio institucional (BRUNETTO et al., 2023; DEBRABANDER et al., 2026).
O presente estudo tem como objetivo analisar o sentido atribuído ao trabalho por policiais, buscando compreender os fatores que podem interferir na construção, manutenção ou enfraquecimento do significado atribuído à função policial. Pretende-se examinar de que maneira as condições organizacionais e operacionais, as relações hierárquicas e interpessoais, o reconhecimento profissional, o suporte institucional, o desgaste ocupacional e a identificação com a atividade exercida podem repercutir na percepção de propósito e realização no trabalho. A análise busca ainda compreender como as experiências vivenciadas no cotidiano profissional podem modificar a relação do policial com os valores, expectativas e finalidades que inicialmente orientaram sua escolha ou permanência na carreira.
METODOLOGIA
Este estudo foi desenvolvido por meio de uma revisão integrativa da literatura, método que permite reunir, analisar e sintetizar resultados de pesquisas sobre determinado fenômeno, possibilitando uma compreensão ampliada do conhecimento produzido e a identificação de diferentes perspectivas presentes na literatura científica. A escolha dessa abordagem mostrou-se adequada ao objetivo do estudo, uma vez que o sentido atribuído ao trabalho policial envolve dimensões organizacionais, psicossociais e profissionais que podem ser investigadas a partir de diferentes delineamentos de pesquisa. A revisão foi conduzida de maneira sistematizada, buscando reunir evidências recentes sobre os fatores relacionados à construção, manutenção ou enfraquecimento do significado atribuído ao trabalho pelos policiais (SOUZA; SILVA; CARVALHO, 2010).
A questão norteadora foi elaborada a partir da necessidade de compreender quais fatores presentes na experiência profissional podem interferir no sentido atribuído ao trabalho policial e na percepção de propósito em relação à função exercida. Para sua construção, considerou-se a estratégia PICo, na qual a população corresponde aos policiais, o fenômeno de interesse está relacionado ao sentido, significado, propósito e experiência do trabalho, e o contexto compreende o ambiente e as condições do trabalho policial. A questão definida foi: quais fatores relacionados ao contexto profissional podem influenciar o sentido do trabalho e a percepção de propósito entre policiais? A utilização dessa estrutura permitiu delimitar o fenômeno investigado sem restringir a busca exclusivamente a um tipo de exposição, intervenção ou desfecho.
A busca bibliográfica foi realizada nas bases de dados PubMed/MEDLINE, Scopus, Web of Science, Embase, SciELO e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), considerando sua relevância para a recuperação de estudos nacionais e internacionais relacionados à saúde ocupacional, psicologia do trabalho, segurança pública e atividade policial. Foram utilizados descritores controlados e termos livres relacionados aos conceitos de policial, trabalho, significado, sentido, propósito, burnout, estresse ocupacional, satisfação profissional, engajamento e identificação organizacional. Os termos foram combinados por meio dos operadores booleanos AND e OR, permitindo ampliar a recuperação de estudos que utilizassem diferentes denominações para fenômenos semelhantes. As estratégias de busca foram adaptadas às especificidades de cada base, preservando os conceitos centrais definidos para a investigação.
Foram considerados elegíveis artigos científicos publicados entre janeiro de 2021 e setembro de 2026, nos idiomas português, inglês e espanhol, que apresentassem resultados relacionados à experiência de trabalho de policiais e aos fatores capazes de interferir no significado, propósito, satisfação, identificação, engajamento ou relação estabelecida com a atividade profissional. Foram incluídos estudos originais disponíveis na íntegra e que apresentassem informações suficientes para responder à questão norteadora. A delimitação temporal buscou contemplar evidências contemporâneas sobre as transformações nas condições de trabalho, nas relações organizacionais e nas demandas psicossociais presentes na atividade policial, evitando que resultados muito antigos fossem utilizados como representação predominante da realidade ocupacional atual.
Foram excluídos artigos duplicados, revisões de literatura, revisões sistemáticas, metanálises, editoriais, cartas ao editor, protocolos, relatos de experiência, trabalhos acadêmicos não publicados como artigos científicos, estudos sem texto completo disponível e publicações que não apresentassem relação direta com o fenômeno investigado. Também foram retirados estudos concentrados exclusivamente em aspectos clínicos ou diagnósticos da saúde mental dos policiais quando não estabeleciam relação com o trabalho, suas condições de realização, a percepção profissional ou os elementos associados ao sentido e significado da função. Essa delimitação permitiu diferenciar pesquisas que apenas descreviam sintomas ou transtornos daqueles que contribuíam efetivamente para compreender a relação do policial com sua atividade laboral.
O processo de identificação e seleção dos estudos ocorreu em etapas sucessivas. Inicialmente, foram identificadas as publicações recuperadas nas bases selecionadas, seguindo-se a remoção dos registros duplicados. Na etapa posterior, os títulos e resumos foram examinados de acordo com os critérios previamente estabelecidos, sendo excluídas as publicações que não apresentavam correspondência com a questão norteadora. Os estudos potencialmente elegíveis foram posteriormente avaliados mediante leitura do texto completo, verificando-se sua adequação à população, ao fenômeno de interesse, ao contexto e aos demais critérios definidos. Ao final, os artigos que atenderam integralmente aos critérios foram incluídos na síntese qualitativa da revisão.
Para garantir maior transparência na descrição das etapas de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão, o processo de seleção foi apresentado por meio de um fluxograma baseado nas recomendações PRISMA 2020 (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses). Embora o PRISMA tenha sido desenvolvido principalmente para melhorar a qualidade do relato de revisões sistemáticas, suas recomendações de apresentação do fluxo de identificação e seleção dos estudos podem contribuir para tornar o percurso metodológico mais claro e rastreável. No fluxograma foram registrados o número de estudos identificados nas bases de dados, os registros duplicados removidos, os estudos submetidos à triagem, os textos completos avaliados, as publicações excluídas após a leitura integral e a quantidade final de artigos incluídos na revisão.
Após a seleção definitiva, os estudos foram submetidos à leitura analítica e à extração padronizada das informações relevantes. Para cada publicação, foram registrados dados referentes à autoria, ano de publicação, país de realização, objetivo, delineamento metodológico, população ou amostra investigada, principais aspectos relacionados ao contexto de trabalho policial e resultados associados ao sentido, significado, propósito, satisfação, engajamento, identificação organizacional, estresse ou desgaste profissional. A organização dessas informações possibilitou comparar os diferentes estudos e identificar aproximações e divergências entre os resultados, evitando que a análise fosse baseada apenas na descrição isolada de cada publicação.
A síntese dos achados foi realizada de forma qualitativa e descritiva, considerando a convergência temática dos resultados encontrados. Os estudos foram comparados quanto aos fatores associados à experiência profissional e à maneira como esses elementos podem favorecer ou dificultar a percepção de significado e propósito no trabalho policial. A análise considerou especialmente aspectos relacionados às condições organizacionais, demandas operacionais, relações hierárquicas, reconhecimento, suporte institucional, justiça organizacional, identificação profissional, satisfação e desgaste ocupacional. Os resultados foram posteriormente agrupados em categorias temáticas construídas a partir dos próprios achados dos estudos selecionados, permitindo discutir como diferentes dimensões do trabalho podem interagir na construção ou transformação do significado atribuído à função policial.
Por se tratar de uma investigação baseada exclusivamente em dados secundários provenientes de estudos científicos já publicados, não houve contato direto com participantes nem coleta de informações pessoais. Dessa forma, o estudo não envolveu intervenção ou experimentação com seres humanos. Ainda assim, foram observados os princípios de rigor científico, transparência metodológica, fidelidade às informações apresentadas nos estudos selecionados e adequada identificação das fontes utilizadas. A apresentação dos resultados e da síntese da literatura foi realizada de modo a preservar o conteúdo original das pesquisas e distinguir os achados dos estudos das interpretações desenvolvidas pelos autores da presente revisão.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Foram incluídos 19 estudos, publicados entre 2021 e 2026, realizados em diferentes países e contextos policiais. Predominaram pesquisas quantitativas, além de estudos qualitativos e longitudinais, abordando satisfação profissional, engajamento, identidade ocupacional, motivação para o serviço público, suporte organizacional, estresse, burnout e equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. De modo geral, os estudos demonstraram que a relação do policial com sua função é influenciada tanto pelas características individuais quanto pelas condições em que o trabalho é organizado e realizado (PIOTROWSKI; RAWAT; BOE, 2021; MUMFORD; LIU; O’LEARY, 2025).
Os estudos sobre sentido do trabalho e identidade profissional indicaram que a percepção sobre a própria função está relacionada aos valores, responsabilidades e ao sentimento de pertencimento à instituição. Headley (2022) identificou conflitos e aproximações entre identidade pessoal e profissional, enquanto Carvalho et al. (2025) verificaram relação entre identidade ocupacional, trabalho emocional e engajamento. Esses resultados mostram que a forma como o policial se reconhece na profissão pode interferir no envolvimento com as atividades desenvolvidas (HEADLEY, 2022; CARVALHO et al., 2025).
Quanto à satisfação e à motivação profissional, os achados demonstraram influência de fatores relacionados à própria organização do trabalho. White, Kyle e Schafer (2022) encontraram associação entre motivação para o serviço público, ajuste entre profissional e organização e satisfação no trabalho. Rohwer et al. (2022) observaram que mudanças na organização dos turnos estiveram relacionadas a melhorias na satisfação profissional e no equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, evidenciando a influência das condições concretas da jornada sobre a experiência ocupacional (WHITE; KYLE; SCHAFER, 2022; ROHWER et al., 2022).
O suporte organizacional e a justiça institucional também apareceram como fatores relacionados ao envolvimento com o trabalho. Piotrowski, Rawat e Boe (2021) identificaram associação positiva entre suporte, justiça organizacional e engajamento profissional. Hansson e Padyab (2023) observaram que a disponibilidade e a adequação do suporte social estavam relacionadas à saúde mental dos policiais, indicando que o apoio recebido dentro e fora da estrutura hierárquica interfere na experiência profissional (PIOTROWSKI; RAWAT; BOE, 2021; HANSSON; PADYAB, 2023).
Em relação ao estresse e ao desgaste ocupacional, os estudos apontaram influência tanto de fatores operacionais quanto organizacionais. Hopkins, Dowell e Flitton (2023) encontraram associação entre trabalho emocional e burnout, enquanto Mumford, Liu e O’Leary (2025) identificaram relações entre estresse, satisfação profissional, desempenho e resiliência. Os resultados mostram que a exposição contínua às exigências da função pode repercutir sobre a forma como o profissional vivencia o trabalho e percebe sua realização ocupacional (HOPKINS; DOWELL; FLITTON, 2023; MUMFORD; LIU; O’LEARY, 2025).
A conciliação entre trabalho e vida pessoal também foi recorrente nos estudos analisados. Sousa et al. (2023) identificaram conflitos entre as demandas policiais e a vida familiar, enquanto Xu, Wang e Sun (2024) relacionaram horas extras, pressão profissional e características da cultura policial aos conflitos entre trabalho e família. Esses achados indicam que as exigências da carreira podem ultrapassar o ambiente institucional e afetar outras dimensões da vida cotidiana do trabalhador (SOUSA et al., 2023; XU; WANG; SUN, 2024).
Os resultados também revelaram fatores capazes de favorecer ou dificultar a manutenção de uma relação positiva com o trabalho. Suporte institucional, justiça, identidade profissional, autonomia, satisfação e resiliência apareceram como recursos associados a melhores experiências ocupacionais, enquanto sobrecarga, estresse, exposição a situações críticas e dificuldades organizacionais estiveram relacionados ao desgaste. Tehrani e Hesketh (2024) destacaram ainda a autonomia e a possibilidade de reorganização das atividades como aspectos associados ao bem-estar no contexto policial (BĄK; OGIŃSKA-BULIK, 2025; TEHRANI; HESKETH, 2024).
Quadro 1: Artigos selecionados para o estudo.
Fonte: Autores, 2026.
De forma geral, os 19 estudos indicaram que o sentido atribuído ao trabalho policial não é estático, podendo ser modificado pelas experiências acumuladas durante a carreira e pelas condições institucionais encontradas pelo profissional. A identificação com a função e o engajamento podem ser favorecidos por reconhecimento, suporte e condições adequadas de trabalho, enquanto estressores persistentes, desgaste emocional e dificuldades organizacionais podem acompanhar o enfraquecimento dessa relação. Assim, os achados sustentam uma compreensão multidimensional do fenômeno, na qual o significado da função é construído e reconstruído a partir da interação entre trabalhador, organização e contexto profissional.
Os resultados demonstram que o sentido atribuído ao trabalho policial não pode ser compreendido apenas pela escolha da profissão ou pela identificação inicial com a função. A experiência profissional é continuamente modificada pelas condições encontradas durante a carreira, pelas relações estabelecidas na instituição e pelas possibilidades de reconhecimento e realização. Nesse sentido, a identidade profissional não permanece necessariamente estável, podendo ser fortalecida ou tensionada conforme o policial percebe maior ou menor correspondência entre aquilo que considera importante na profissão e aquilo que consegue efetivamente realizar no cotidiano (HEADLEY, 2022; CARVALHO et al., 2025).
A relação entre identidade profissional e engajamento merece destaque porque a identificação com a função pode favorecer a permanência de vínculos positivos com o trabalho. Quando o policial reconhece suas atividades como compatíveis com seus valores e percebe significado naquilo que realiza, tende a apresentar maior envolvimento com suas atribuições. Entretanto, a exposição prolongada a demandas que dificultam essa correspondência pode produzir distanciamento entre o profissional e a imagem que possui de sua própria função. Assim, a perda de propósito pode ser compreendida como um processo de enfraquecimento dessa conexão, e não necessariamente como abandono completo da identidade profissional (OLIVEIRA et al., 2023; GIERSZEWSKI; SOKOŁOWSKI; GUDZBELER, 2023).
Outro aspecto relevante é a influência das condições organizacionais sobre essa experiência. A atividade policial depende de estruturas hierárquicas, normas, escalas, recursos e formas de gestão que interferem diretamente na realização das tarefas. Quando o trabalhador percebe apoio, justiça e reconhecimento institucional, encontra condições mais favoráveis para manter seu envolvimento com a função. Por outro lado, dificuldades administrativas, baixa percepção de suporte e relações organizacionais desfavoráveis podem produzir insatisfação e enfraquecer o vínculo estabelecido com a instituição (PIOTROWSKI; RAWAT; BOE, 2021; HANSSON; PADYAB, 2023).
A satisfação profissional também aparece como elemento importante para compreender a permanência ou o enfraquecimento do significado atribuído ao trabalho. A satisfação não depende exclusivamente do conteúdo da atividade, mas envolve jornada, organização dos turnos, relações profissionais, reconhecimento e possibilidade de conciliar o trabalho com outras dimensões da vida. Dessa forma, mesmo um policial que inicialmente encontrou forte significado em sua função pode experimentar mudanças nessa percepção quando as condições concretas de trabalho dificultam sua realização profissional e pessoal (WHITE; KYLE; SCHAFER, 2022; ROHWER et al., 2022).
Os achados relacionados ao estresse e ao desgaste ocupacional permitem compreender outro possível mecanismo de afastamento do propósito. A exposição frequente a situações de tensão, associada à necessidade de controlar emoções e manter desempenho diante de acontecimentos difíceis, pode consumir recursos físicos e emocionais necessários para o envolvimento com o trabalho. O problema, portanto, não se restringe à presença de estresse, mas à possibilidade de sua manutenção prolongada modificar a forma como o profissional percebe suas atividades e sua própria relação com a carreira (HOPKINS; DOWELL; FLITTON, 2023; MUMFORD; LIU; O’LEARY, 2025).
A regulação emocional exigida pela atividade policial merece atenção específica nesse processo. O policial frequentemente precisa controlar manifestações emocionais durante interações com vítimas, suspeitos, familiares e colegas, mesmo quando vivencia situações de elevada tensão. Quando essa exigência ocorre continuamente, o trabalho emocional pode aumentar o desgaste e contribuir para o distanciamento em relação às próprias experiências. A literatura analisada indica que essa dimensão deve ser considerada na compreensão do significado atribuído à função, pois o trabalhador pode continuar executando suas atividades enquanto reduz progressivamente seu envolvimento subjetivo com aquilo que realiza (OLIVEIRA et al., 2023; HOPKINS; DOWELL; FLITTON, 2023).
A relação entre trabalho policial e vida pessoal também ajuda a explicar possíveis transformações no sentido atribuído à profissão. Jornadas extensas, escalas de trabalho e disponibilidade exigida pelo serviço podem reduzir o tempo destinado à família, ao descanso e às atividades pessoais. Quando essas interferências se tornam frequentes, o policial pode perceber que as exigências da carreira ultrapassam os limites inicialmente esperados, produzindo conflitos que afetam sua satisfação e sua percepção sobre a continuidade daquele modo de trabalho (SOUSA et al., 2023; XU; WANG; SUN, 2024).
Por outro lado, os estudos mostram que existem recursos capazes de preservar uma relação positiva com o trabalho, entre eles suporte institucional, justiça organizacional, autonomia, resiliência, identificação profissional e satisfação. Esses elementos não eliminam as exigências próprias da atividade policial, mas podem modificar a maneira como elas são vivenciadas e enfrentadas. A existência de espaços de apoio, relações institucionais adequadas e possibilidades de participação pode favorecer a percepção de que as dificuldades fazem parte de uma atividade dotada de significado, em vez de serem interpretadas exclusivamente como fontes de desgaste (TEHRANI; HESKETH, 2024; BĄK; OGIŃSKA-BULIK, 2025).
Dessa maneira, os achados permitem compreender a perda de propósito como fenômeno potencialmente relacionado ao acúmulo de experiências profissionais que alteram a relação entre valores, expectativas e realidade cotidiana do trabalho. Não se trata necessariamente de deixar de reconhecer a relevância social da função policial, mas de apresentar dificuldades para encontrar, no cotidiano institucional, reconhecimento, coerência, satisfação e condições que sustentem esse significado. Essa distinção é importante porque um profissional pode continuar cumprindo suas atribuições mesmo quando sua percepção de realização e pertencimento se encontra reduzida (HEADLEY, 2022; CONTRERAS; NOVACO, 2026).
Assim, a discussão dos estudos analisados aponta que compreender o significado do trabalho policial exige ultrapassar explicações centradas exclusivamente no indivíduo. O propósito profissional é construído na interação entre aquilo que levou o sujeito à carreira e aquilo que ele encontra ao longo de sua trajetória: organização do trabalho, relações hierárquicas, reconhecimento, suporte, demandas emocionais, exposição a situações críticas e possibilidade de conciliar a profissão com a vida pessoal. A perda de significado, portanto, deve ser investigada como um processo relacionado à experiência concreta do trabalho, considerando tanto os fatores que favorecem o vínculo profissional quanto aqueles que podem enfraquecê-lo ao longo do tempo (PIOTROWSKI; RAWAT; BOE, 2021; CONTRERAS; NOVACO, 2026).
CONCLUSÃO
A revisão integrativa evidenciou que o sentido atribuído ao trabalho policial não permanece necessariamente estável ao longo da carreira, sendo influenciado pelas condições concretas em que a função é exercida. Identidade profissional, satisfação, reconhecimento, suporte institucional, justiça organizacional, autonomia e qualidade das relações de trabalho apareceram associados à manutenção do envolvimento com a atividade, enquanto estresse, sobrecarga, exigências emocionais, conflitos entre trabalho e vida pessoal e dificuldades institucionais estiveram relacionados ao desgaste e ao enfraquecimento da experiência profissional.
Os achados permitem compreender que a perda de propósito não deve ser reduzida à falta de vocação, comprometimento ou motivação individual. O afastamento do significado atribuído à função pode ocorrer quando existe uma distância persistente entre os valores associados à profissão e a realidade vivenciada no cotidiano de trabalho. Assim, compreender esse fenômeno exige considerar as experiências acumuladas pelo policial, as condições institucionais e as possibilidades concretas de reconhecimento, participação, apoio e realização profissional.
Conclui-se que a preservação do sentido do trabalho policial depende também de condições organizacionais capazes de sustentar o vínculo entre o profissional e a finalidade de sua atividade. Estratégias institucionais voltadas à melhoria da organização das jornadas, fortalecimento do suporte, valorização profissional, qualificação das relações hierárquicas e atenção à saúde ocupacional podem contribuir para reduzir fatores associados ao desgaste e favorecer uma relação mais consistente com o trabalho.
Embora os estudos analisados tenham ampliado a compreensão dos fatores relacionados à experiência profissional policial, permanece uma lacuna quanto à investigação direta da perda de propósito e do significado atribuído à função, especialmente no contexto brasileiro. Recomenda-se, portanto, a realização de estudos longitudinais e pesquisas qualitativas que acompanhem diferentes etapas da carreira e explorem como as experiências institucionais e operacionais modificam a percepção de sentido, pertencimento e realização no trabalho.
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