Inclusão desportiva em atletas com síndrome de down: revisão integrativa.
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
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Resumo

Introdução: A inclusão desportiva envolve função, pertencimento e reconhecimento social de pessoas com síndrome de Down. Objetivo: Analisar benefícios, barreiras, facilitadores e implicações para a Fisioterapia. Materiais e métodos: Revisão integrativa no PubMed, SciELO e SciSpace, com busca complementar, de publicações entre janeiro de 2021 e 13 de setembro de 2026. Resultados: Dos 98 registros identificados, 15 estudos foram incluídos. Foram descritos benefícios físico-funcionais, aprendizagem motora, autonomia e pertencimento. Apoio familiar, formação profissional e adaptações favoreceram a participação; oferta restrita e capacitismo constituíram barreiras. Predominaram estudos observacionais e qualitativos, com limitações metodológicas. Conclusão: O esporte pode ampliar função e participação. A Fisioterapia deve integrar avaliação funcional, segurança e adaptações aos objetivos do atleta, considerando os limites das evidências.

Palavras-chave: Síndrome de Down. Esportes para pessoas com deficiência.

Participação social. Fisioterapia. Inclusão social.

Abstract

Background: Sports inclusion encompasses function, belonging, and social recognition for people with Down syndrome. Objective: To analyze benefits, barriers, facilitators, and implications for physiotherapy. Methods: An integrative review searched PubMed, SciELO, and SciSpace, with supplementary searching, for publications from January 2021 to September 13, 2026. Results: Of 98 identified records, 15 studies were included. Findings described physical and functional benefits, motor learning, autonomy, and belonging. Family support, professional preparation, and adaptations facilitated participation; restricted provision and ableism were barriers. Observational and qualitative studies predominated, with methodological limitations. Conclusion: Sport may enhance function and participation. Physiotherapy should integrate functional assessment, safety, and adaptations with athletes ’goals while considering the limitations of the evidence.

Keywords: Down syndrome. Sports for persons with disabilities. Social participation. Physiotherapy. Social inclusion.

INTRODUÇÃO

A síndrome de Down é uma condição genética decorrente da presença de material adicional do cromossomo 21 e se associa a um perfil clínico heterogêneo. Hipotonia, frouxidão ligamentar, menor força muscular, alterações de equilíbrio e coordenação e menor aptidão cardiorrespiratória podem influenciar a mobilidade e a participação, embora a expressão funcional varie amplamente entre indivíduos (ANTONARAKIS et al., 2020; SHIELDS, 2021). Por isso, intervenções em saúde precisam reconhecer potencialidades, preferências e contextos de vida, em vez de reduzir a pessoa ao diagnóstico.

A participação em atividade física é recomendada ao longo da vida e produz benefícios à saúde quando adaptada às condições individuais (BULL et al., 2020). Entretanto, a inclusão desportiva é um fenômeno mais amplo que a prescrição de exercício: envolve acesso contínuo a modalidades reconhecíveis, aprendizagem de habilidades, pertencimento a equipes, relações sociais, autonomia, possibilidade de competição e reconhecimento como atleta. Essa compreensão aproxima o esporte de um direito de participação social previsto na Lei Brasileira de Inclusão (BRASIL, 2015).

Crianças, adolescentes e adultos com síndrome de Down permanecem menos ativos que seus pares e encontram barreiras ambientais, atitudinais e organizacionais. Falta de programas, custos, transporte, receio de lesões, baixa expectativa de desempenho e insuficiente preparação de profissionais podem interromper trajetórias esportivas. Em contrapartida, apoio familiar, treinadores responsivos, adaptações graduais, ambientes acolhedores e experiências prazerosas favorecem a adesão (WENTZ et al., 2021).

Para a Fisioterapia, o esporte pode funcionar simultaneamente como contexto de participação e meio para desenvolver capacidade funcional. A avaliação de força, equilíbrio, coordenação, resistência, mobilidade e resposta ao esforço ajuda a identificar necessidades, orientar progressões e reduzir riscos. Contudo, uma abordagem estritamente terapêutica pode apagar dimensões igualmente relevantes, como escolha, identidade atlética, vínculos e visibilidade pública.

A literatura recente reúne ensaios, estudos observacionais, investigações qualitativas e relatos de experiência em modalidades como natação, futebol, basquetebol e ginástica. A diversidade metodológica dificulta comparações diretas, mas também permite integrar efeitos mensuráveis e experiências vividas. Nesse cenário, a revisão integrativa é adequada por acolher diferentes delineamentos e organizar uma compreensão ampla do fenômeno.

Diante disso, formulou-se a seguinte questão: quais evidências publicadas entre 2021 e 13 de setembro de 2026 demonstram benefícios, barreiras, facilitadores e implicações para a Fisioterapia relacionados à inclusão desportiva de pessoas com síndrome de Down? O objetivo foi analisar e sintetizar essas evidências, identificando resultados físico-funcionais e psicossociais, condições que favorecem ou restringem a participação e contribuições para a prática fisioterapêutica inclusiva.

MATERIAIS E MÉTODO

Trata-se de revisão bibliográfica integrativa, desenvolvida conforme as seis etapas propostas por Mendes, Silveira e Galvão (2008) e Souza, Silva e Carvalho (2010): identificação do tema e formulação da questão; definição dos critérios e busca; extração e categorização; avaliação crítica; interpretação; e apresentação da síntese. A escolha permitiu reunir estudos experimentais, quase-experimentais, observacionais, qualitativos e relatos de experiência.

A questão norteadora foi: quais evidências publicadas entre 2021 e 13 de setembro de 2026 demonstram benefícios, barreiras, facilitadores e implicações para a Fisioterapia relacionados à inclusão desportiva de pessoas com síndrome de Down? Foram consultados PubMed, SciELO e SciSpace em 13 de setembro de 2026. No PubMed, combinaram-se termos para síndrome de Down com Sports, sport*, athlete*, football, soccer, swimming, basketball, aquatic, gymnast* e Special Olympics, aplicando-se data e exclusão de revisões. Na SciELO, combinaram-se termos em português e inglês. No SciSpace, realizou-se consulta semântica em inglês; a janela temporal e os idiomas foram conferidos na triagem. A conferência dos registros e a recuperação complementar de textos estenderam-se até 16 de setembro de 2026, sem alteração do limite de publicação. Houve rastreamento complementar de referências e busca dirigida por título. As estratégias integrais permanecem registradas na aba “Busca e método” da planilha que acompanha o artigo.

Incluíram-se artigos originais em português, inglês ou espanhol, publicados desde 1º de janeiro de 2021, que investigaram pessoas com síndrome de Down em modalidade esportiva organizada, adaptada, recreativa ou competitiva. Admitiram-se familiares, treinadores e dirigentes quando seus dados se referiam diretamente à participação esportiva dessa população. Excluíram-se revisões, metanálises, editoriais, cartas, protocolos, resumos, estudos com animais, publicações fora do período, exercício sem modalidade esportiva identificável e populações mistas sem resultados separáveis para síndrome de Down.

A triagem ocorreu por títulos e resumos e, depois, por leitura integral. Foram identificados 98 registros: 75 no PubMed, sete na SciELO, dez no SciSpace e seis por métodos complementares. Uma duplicata foi removida; 97 registros foram triados; 65 foram excluídos; 32 textos foram procurados; 15 não foram recuperados; 17 foram avaliados integralmente; e dois foram excluídos: um por examinar exergame domiciliar e outro por investigar jogos educativos, ambos sem modalidade esportiva definida. Quinze estudos compuseram a síntese.

Extraíram-se autores, ano, país, objetivo, delineamento, amostra, modalidade, contexto, intervenção ou exposição, desfechos, resultados, barreiras, facilitadores, segurança, limitações e implicações fisioterapêuticas. O nível de evidência seguiu Souza, Silva e Carvalho (2010): I, metanálises de ensaios; II, estudo experimental individual; III, quase-experimental; IV, descritivo, observacional ou qualitativo; V, relato de caso ou experiência; e VI, opinião de especialista. O nível foi tratado separadamente da qualidade metodológica.

A avaliação crítica examinou tamanho e seleção da amostra, adequação do delineamento, comparadores, instrumentos, confundidores e coerência entre resultados e conclusões. Não houve dupla triagem independente documentada. As limitações foram registradas individualmente na matriz, sem aplicação de um escore global de qualidade. A síntese empregou redução dos dados, exposição em matriz, comparação, elaboração de conclusões e verificação nos textos primários, conforme Whittemore e Knafl (2005). A heterogeneidade de delineamentos, modalidades e desfechos inviabilizou a metanálise. Textos metodológicos e de contextualização, inclusive anteriores a 2021, foram usados fora da amostra analítica. Os achados foram organizados em quatro categorias: benefícios físico-funcionais e aprendizagem motora; participação, autonomia, identidade e bem-estar; barreiras, facilitadores e visibilidade competitiva; e implicações para a Fisioterapia e limites das evidências.

Figura 1 – Fluxograma do processo de identificação e seleção dos estudos

Fonte: elaboração própria (2026), com dados da busca.

RESULTADOS

Os 15 estudos foram publicados entre 2021 e 2026: quatro em 2021, um em 2022, cinco em 2023, um em 2024, dois em 2025 e dois em 2026. Houve diversidade geográfica e de modalidades, com maior presença de natação e atividades aquáticas, seguidas por futebol, basquetebol e ginásticas. As amostras variaram de casos únicos a 310 famílias.

Quanto ao nível de evidência, dois estudos foram classificados no nível II, dois no nível III, dez no nível IV e um no nível V. Predominaram estudos observacionais e qualitativos. A síntese físico-funcional concentrou-se em composição corporal, aptidão cardiorrespiratória, força, equilíbrio, coordenação e habilidades específicas. A síntese psicossocial reuniu qualidade de vida, autonomia, identidade atlética, pertencimento, apoio e visibilidade.

Quadro 1 – Características e principais resultados dos estudos incluídos

Autor/ano

Delineamento, amostra e nível

Modalidade/cont exto

Principais resultados e ressalvas

Sollerhed e Hedov (2021)

Transversal; 310 famílias; NE IV

Participação esportiva regular

Sessenta e nove por cento praticavam esportes regularmente. Atividade dos pais, irmãos e melhor locomoção associaram-se à participação; o autorrelato de atividade diária foi menor.

Camacho et al. (2021)

Transversal; 39 pessoas com SD e 39 informantes; NE IV

Futebol organizado

Atletas apresentaram maior qualidade de vida autorreferida, especialmente inclusão social e autodeterminação; informantes externos não identificaram diferença entre grupos.

Naczk,

Gajewska e

Naczk (2021)

Ensaio randomizado; n = 22; NE II

Natação, 33 semanas

Houve melhora de composição corporal, VO₂ relativo, preensão, resistência abdominal e habilidades aquáticas; adesão superior a 90%.

Dalla Déa et al. (2021)

Estudo qualitativo e documental com dirigentes; NE IV

Esporte competitivo; Paralimpíadas

A classificação e a baixa visibilidade limitaram a presença paralímpica; competições específicas ampliaram oportunidades, mas não eliminaram a segregação competitiva.

Cai e Baek (2022)

Estudo experimental; n = 22; NE II

Basquetebol, 24 semanas

Reduziu massa e cintura e melhorou flexibilidade, força, equilíbrio, resistência e habilidades do basquetebol; adesão de 96,7%, sem eventos adversos graves.

Aydogan e

Demirok (2023)

Sujeito único, sondas múltiplas; n = 4; NE III

Basquetebol; modelagem em

vídeo

Arremesso, passe e drible evoluíram de aproximadamente 15–25% para 80 a 95%, com manutenção e generalização das habilidades.

Querido et al. (2023)

Transversal; n = 37; NE IV

Natação competitiva

Nadadores apresentaram menor adiposidade e melhor força, resistência, velocidade, flexibilidade e equilíbrio que pares não treinados; o desenho não permite causalidade.

Autor/ano

Delineamento, amostra e nível

Modalidade/cont exto

Principais resultados e ressalvas

Kremer e

Rubinstein

(2023)

Relato de experiência; uma atleta; NE V

Ginástica artística inclusiva

Formação docente, instruções simples e gestuais, demonstração, adaptação individual, apoio dos pares e segurança favoreceram progressão até a competição.

Nigosky et al. (2023)

Fenomenológico; uma atleta de 19 anos; NE IV

Nado artístico

A experiência esportiva fortaleceu identidade, pertencimento, vínculos e reconhecimento social, sustentada por treinadores, equipe e oportunidades de apresentação.

Singuran et al. (2023)

Intervenção pré–pós; n = 15; NE III

Natação e exercícios aquáticos

Todos os dez itens de esquema corporal melhoraram, com resultado global significativo, sugerindo ganhos de coordenação e consciência corporal.

Silva, Corrêa e

Carbinatto

(2024)

Fenomenológico; uma atleta de 32 anos; NE IV

Ginástica rítmica adaptada

Pertencimento, identidade atlética, apoio técnico, liderança e reconhecimento coexistiram com experiências anteriores de capacitismo.

Puszczałowska-

Lizis et al.

(2025)

Transversal; 60 meninos; NE IV

Futebol, exposição de dois anos

Praticantes tiveram melhores resultados em salto, abdominais, arremesso e equilíbrio; o grupo não treinado foi mais rápido nos 25 m.

Febriani e

Akbar (2025)

Fenomenológico; cinco mães e um treinador; NE IV

Natação inclusiva

Os relatos convergiram em desenvolvimento físico, regulação emocional e aquisição de habilidades

sociais; a oferta local restrita apareceu como limite de acesso.

González-Rivas et al. (2026)

Qualitativo; duas mães; NE IV

Basquetebol

As narrativas indicaram autonomia, relações sociais, pertencimento, disciplina e reconhecimento simbólico por uniforme e medalhas.

Querido et al. (2026)

Transversal

biomecânico; n = 9;

NE IV

Natação competitiva

Nadadores com SD foram mais lentos nas repetições finais e exibiram coordenação predominantemente catch-up; antropometria e amostra mínima limitam generalizações.

Fonte: elaboração própria (2026). SD: síndrome de Down; NE: nível de evidência.

DISCUSSÃO

BENEFÍCIOS FÍSICO-FUNCIONAIS E APRENDIZAGEM MOTORA

Os resultados indicam que programas esportivos estruturados podem produzir ganhos mensuráveis, sobretudo quando são frequentes e prolongados. No ensaio de Naczk, Gajewska e Naczk (2021), 33 semanas de natação melhoraram a composição corporal, consumo relativo de oxigênio, preensão manual, resistência abdominal e domínio aquático. De modo convergente, Cai e Baek (2022) observaram, após 24 semanas de basquetebol, redução de massa corporal e cintura e melhora de flexibilidade, força, equilíbrio, resistência e habilidades específicas. Adesão superior a 90% nos dois estudos sugere que modalidades com significado esportivo podem sustentar exposição suficiente para adaptação fisiológica.

As comparações observacionais apoiam essa tendência, mas exigem prudência causal. Nadadores competitivos apresentaram menor adiposidade e melhor desempenho em força, resistência, velocidade, flexibilidade e equilíbrio que pessoas não treinadas (QUERIDO et al., 2023). Jovens futebolistas também superaram pares não treinados em salto, abdominais, arremesso e equilíbrio, embora tenham sido mais lentos na corrida de 25 m (PUSZCZAŁOWSKA-LIZIS et al., 2025). Seleção prévia, motivação, composição corporal e diferenças basais podem explicar parte das associações; portanto, não se deve atribuir todo o contraste ao treinamento.

Estudos de menor escala mostram que a adaptação pedagógica é um componente do efeito. A modelagem em vídeo elevou o desempenho de quatro adolescentes em passe, drible e arremesso, com manutenção e generalização (AYDOGAN; DEMIROK, 2023). Na água, um programa com 15 crianças melhorou os dez itens avaliados de esquema corporal (SINGURAN et al., 2023). Em conjunto, esses achados reforçam o uso de demonstração visual, instruções breves, repetição, progressão por etapas e feedback positivo.

A biomecânica da natação também evidencia a necessidade de individualização. Querido et al. (2026) identificaram menor velocidade nas repetições finais e coordenação de braçadas predominantemente do tipo catch-up em nadadores com síndrome de Down, além de diferenças antropométricas importantes. Embora a amostra de quatro atletas com a síndrome impeça a generalização, o estudo mostra que parâmetros de desempenho devem orientar ajustes técnicos, manejo da fadiga e metas realistas, sem transformar diferenças corporais em critérios automáticos de exclusão.

PARTICIPAÇÃO, AUTONOMIA, IDENTIDADE E BEM-ESTAR

A inclusão desportiva mostrou efeitos que não são capturados apenas por testes motores. Pessoas que integravam equipe de futebol relataram maior qualidade de vida, inclusão social e autodeterminação que não atletas; a ausência de diferença nos relatos de informantes externos chama atenção para o valor da voz da própria pessoa com síndrome de Down (CAMACHO et al., 2021). A participação regular também esteve associada ao comportamento ativo dos pais e irmãos e à capacidade locomotora, o que posiciona a família como parte do ambiente facilitador, não apenas como responsável por transporte ou consentimento (SOLLERHED; HEDOV, 2021).

Os estudos fenomenológicos aprofundam esse resultado. No nado artístico, a trajetória de uma jovem foi marcada por pertencimento, vínculos, reconhecimento e construção da identidade de esportista (NIGOSKY et al., 2023). Na ginástica rítmica adaptada, uma atleta adulta descreveu liderança, apoio técnico e reconhecimento, ao mesmo tempo que experiências anteriores de capacitismo revelaram o peso das expectativas sociais (SILVA; CORRÊA; CARBINATTO, 2024). As narrativas maternas de atletas do basquetebol também indicaram autonomia, disciplina, relações sociais e valorização por símbolos como uniforme e medalhas (GONZÁLEZ-RIVAS et al., 2026).

Na natação inclusiva, mães e treinador perceberam mudanças físicas, melhor regulação emocional e aquisição de habilidades sociais (FEBRIANI; AKBAR, 2025). Embora relatos de familiares não substituam a perspectiva dos atletas, eles ajudam a identificar mudanças cotidianas e condições de acesso. A convergência entre estudos quantitativos e qualitativos sugere que o esporte pode ampliar repertórios funcionais e sociais quando a pessoa é reconhecida como participante ativa e possui oportunidades de escolha, convivência e progressão.

BARREIRAS, FACILITADORES E VISIBILIDADE COMPETITIVA

As barreiras encontradas ultrapassam características individuais. Dalla Déa et al. (2021) demonstraram que regras de elegibilidade, classificação e organização das competições influenciam a visibilidade de atletas com deficiência intelectual e síndrome de Down. A existência de eventos específicos amplia oportunidades, mas pode manter circuitos paralelos com menor projeção. Assim, a inclusão não deve ser medida somente pelo número de vagas, mas também pela qualidade da participação, continuidade do treinamento, possibilidade de competir e reconhecimento público.

Experiências bem-sucedidas convergiram em alguns facilitadores: preparação do professor ou treinador, instruções simples acompanhadas de gestos e demonstrações, alternativas individualizadas, apoio dos pares, progressão gradual e cuidado com a segurança. No relato de ginástica artística, esses recursos permitiram que a aluna avançasse até uma competição (KREMER; RUBINSTEIN, 2023). A oferta territorial também importa: quando um único clube fornece atividade aquática inclusiva, qualquer barreira de custo, deslocamento ou disponibilidade profissional pode inviabilizar a participação (FEBRIANI; AKBAR, 2025).

A síntese sugere que adaptações não devem reduzir permanentemente o desafio. Elas precisam funcionar como pontes para aprendizagem, autonomia e participação crescente. Metas construídas em conjunto, oportunidades reais de decisão e integração com colegas evitam que o esporte se transforme em atendimento segregado com aparência recreativa. Também é necessário acompanhar desistências e ausências, pois a elevada adesão dos ensaios pode refletir apoio intenso pouco disponível em serviços comuns.

IMPLICAÇÕES PARA A FISIOTERAPIA E LIMITES DAS EVIDÊNCIAS

A Fisioterapia pode contribuir em quatro frentes: avaliação funcional inicial; planejamento de adaptações e progressões; monitoramento de resposta, fadiga e segurança; e articulação com atleta, família, treinador, escola, clube e equipe de saúde. A avaliação deve combinar medidas de força, equilíbrio, coordenação, resistência e mobilidade com perguntas sobre preferências, autonomia, barreiras ambientais e objetivos esportivos. Condições clínicas associadas exigem triagem individual e comunicação interprofissional, sem presumir incapacidade com base no diagnóstico (SHIELDS, 2021).

Na prática, os achados favorecem programas de longa duração, frequência regular e conteúdo específico da modalidade, com instrução visual, tarefas graduadas e feedback compreensível. Para natação e esportes coletivos, podem ser monitorados condicionamento cardiorrespiratório, controle postural, eficiência técnica e participação nas decisões. O sucesso deve incluir não somente mudança em testes, mas permanência, prazer, confiança, participação em equipe e acesso a eventos.

A força da conclusão é limitada. Apenas dois estudos foram classificados no nível II; dois no nível III, dez no nível IV e um no nível V. Muitas amostras foram pequenas, masculinas ou compostas por casos únicos, e os estudos variaram quanto a idade, modalidade, duração, instrumentos e contexto. Os delineamentos transversais não demonstram causalidade, enquanto os relatos qualitativos não pretendem estimar magnitude de efeito. Além disso, quinze textos potencialmente relevantes não foram recuperados, o que pode ter reduzido a amplitude da síntese. A ausência de dupla triagem independente e a consulta semântica limitada a dez resultados no SciSpace também restringem a abrangência e a reprodutibilidade. As justificativas individuais de exclusão de 53 registros do PubMed não foram preservadas no registro inicial. Embora as contagens tenham sido reconciliadas, essa lacuna impede a auditoria completa da triagem e deve ser considerada na interpretação da revisão.

Ainda assim, a integração de métodos distintos é coerente com a questão proposta e revela um padrão consistente: benefícios físico-funcionais aparecem com maior clareza em intervenções estruturadas, enquanto pertencimento, autonomia e identidade dependem da organização social do esporte. Pesquisas futuras devem ampliar amostras, incluir mulheres e adultos mais velhos, relatar eventos adversos, descrever adaptações com precisão e incorporar resultados escolhidos pelos próprios atletas.

CONCLUSÃO

A revisão integrativa identificou que a inclusão desportiva de pessoas com síndrome de Down pode associar-se a ganhos de aptidão cardiorrespiratória, composição corporal, força, equilíbrio, coordenação e aprendizagem de habilidades. Os estudos também descreveram autonomia, qualidade de vida, vínculos, identidade atlética e pertencimento. Continuidade, significado para o participante, apoio e adaptações responsivas emergiram como condições relevantes, embora os delineamentos não permitam estabelecer sua contribuição relativa ou comparar a superioridade entre modalidades.

Os principais facilitadores foram apoio familiar e dos pares, treinadores preparados, recursos visuais, instruções simples, progressão individualizada e oportunidades reais de participação. Oferta restrita, capacitismo, baixa visibilidade e regras de classificação constituíram barreiras. Para a Fisioterapia, recomenda-se integrar avaliação funcional e segurança a metas escolhidas pelo atleta, articulando-se com família e equipe esportiva para sustentar participação ao longo do tempo.

A predominância de estudos observacionais, qualitativos e de pequena amostra impede estimativas definitivas de efeito. Portanto, os achados não autorizam protocolos universais, mas sustentam uma direção prática: ampliar oportunidades esportivas acessíveis e avaliar resultados corporais e sociais. Ensaios maiores, seguimento prolongado, participação equilibrada de mulheres e adultos e medidas definidas com os próprios atletas são necessários.

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DOI: https://doi.org/10.1111/j.1365-2648.2005.03621.x.

  1. Discente do Curso de Fisioterapia do Centro Universitário do Norte – UNINORTE. ↑

  2. Discente do Curso de Fisioterapia do Centro Universitário do Norte – UNINORTE. ↑

  3. Docente do Curso de Fisioterapia do Centro Universitário do Norte – UNINORTE. ↑

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Copyright (c) 2026 Anny Caroline Trovão de Moura da Silva, Lucas Andreo dos Santos Corrêa, Fabiano Barbosa de Souza (Autor)

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