O papel do enfermeiro frente à violência obstétrica: uma revisão integrativa.
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
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RESUMO

Introdução: A violência obstétrica ainda se faz presente em diversos serviços de saúde, configurando-se como um importante problema de saúde pública e uma violação dos direitos das mulheres, especialmente durante o período gravídico-puerperal. Essa prática pode ocasionar impactos físicos e psicológicos tanto para a mulher quanto para o recém-nascido, evidenciando a necessidade de uma assistência mais humanizada e baseada em evidências. Objetivo Geral: Analisar o papel do enfermeiro frente à violência obstétrica. Metodologia: Revisão de literatura, de caráter descritivo e exploratório, com abordagem qualitativa, realizada por meio de buscas na BVS e na SciELO e nas bases de dados LILACS e ção profissional, da educação permanente e do comprometimento de toda a equipe multiprofBDENF. Resultados e discussão: os achados evidenciaram que o enfermeiro desempenha papel fundamental na prevenção e no enfrentamento da violência obstétrica, por meio do acolhimento, escuta qualificada, orientação, respeito à autonomia e garantia dos direitos da mulher. Destacaram-se ainda a necessidade de qualificação profissional, educação permanente, comunicação efetiva e atuação multiprofissional para fortalecer práticas humanizadas e reduzir condutas violentas na assistência obstétrica. Considerações Finais: Conclui-se, portanto, que a prevenção da VO depende não apenas da atuação individual do enfermeiro, mas também da atuação dos demais profissionais de saúde, para o fortalecimento de uma cultura institucional comprometida com o respeito, a autonomia, a dignidade e a segurança da mulher.

Palavras-Chave: Enfermagem; Violência; Saúde da Mulher; Obstetrícia; Humanização da Assistência.

ABSTRACT

Introduction: Obstetric violence is still present in various healthcare services, constituting an important public health problem and a violation of women's rights, especially during the pregnancy, childbirth, and postpartum period. This practice can cause physical and psychological impacts on both women and newborns, highlighting the need for more humanized and evidence-based care. General Objective: To analyze the role of nurses in addressing obstetric violence. Methodology: A descriptive and exploratory literature review with a qualitative approach, conducted through searches in the Virtual Health Library (VHL) and SciELO, as well as in the LILACS and BDENF databases. Results and Discussion: The findings demonstrated that nurses play a fundamental role in the prevention and management of obstetric violence through welcoming care, active listening, guidance, respect for women's autonomy, and the protection of their rights. The need for professional qualification, continuing education, effective communication, and multidisciplinary collaboration was also highlighted to strengthen humanized practices and reduce violent practices in obstetric care. Final Considerations: It is therefore concluded that the prevention of obstetric violence (OV) depends not only on the individual actions of nurses but also on the involvement of other healthcare professionals in strengthening an institutional culture committed to respecting women's autonomy, dignity, and safety.

Keywords: Nursing; Violence; Women's Health; Obstetrics; Humanization of Care.

RESUMEN

Introducción: La violencia obstétrica continúa presente en diversos servicios de salud, constituyéndose en un importante problema de salud pública y en una vulneración de los derechos de las mujeres, especialmente durante el período de embarazo, parto y puerperio. Esta práctica puede ocasionar impactos físicos y psicológicos tanto en la mujer como en el recién nacido, lo que pone de manifiesto la necesidad de una atención más humanizada y basada en evidencias. Objetivo general: Analizar el papel del enfermero frente a la violencia obstétrica. Metodología: Revisión de la literatura, de carácter descriptivo y exploratorio, con enfoque cualitativo, realizada mediante búsquedas en la Biblioteca Virtual en Salud (BVS) y SciELO, así como en las bases de datos LILACS y BDENF. Resultados y discusión: Los hallazgos evidenciaron que el enfermero desempeña un papel fundamental en la prevención y el enfrentamiento de la violencia obstétrica, mediante la acogida, la escucha cualificada, la orientación, el respeto a la autonomía y la garantía de los derechos de la mujer. También se destacó la necesidad de cualificación profesional, educación permanente, comunicación efectiva y actuación multidisciplinaria para fortalecer las prácticas humanizadas y reducir las conductas violentas en la atención obstétrica. Consideraciones finales: Se concluye, por lo tanto, que la prevención de la violencia obstétrica (VO) depende no solo de la actuación individual del enfermero, sino también de la participación de los demás profesionales de la salud, con el fin de fortalecer una cultura institucional comprometida con el respeto, la autonomía, la dignidad y la seguridad de la mujer.

Palabras-clave: Enfermería; Violencia; Salud de la Mujer; Obstetricia; Humanización de la Atención.

Introdução

A gestação, o parto e o período puerperal constituem momentos que exigem uma assistência pautada no acolhimento, na segurança e na preservação da dignidade feminina. Apesar disso, ainda são observadas situações nas quais mulheres vivenciam condutas inadequadas, negligência ou tratamento desrespeitoso nos serviços de saúde. Essas ocorrências podem assumir maior relevância durante o trabalho de parto e o nascimento, etapas nas quais a mulher pode apresentar maior vulnerabilidade física e emocional (Lins et al., 2023).

Nesse contexto, a violência obstétrica (VO) pode ser compreendida como um conjunto de práticas, comportamentos e intervenções inadequadas que podem ocorrer durante a gestação, o parto ou o puerpério e ocasionar prejuízos físicos, emocionais ou psicológicos à mulher. Entre as situações relacionadas a esse fenômeno estão procedimentos sem indicação adequada, comunicação desrespeitosa, realização de condutas sem consentimento e desconsideração da capacidade da mulher de participar das decisões referentes ao próprio cuidado (Maklouf et al., 2022).

A ocorrência da violência obstétrica não se restringe a uma única forma de manifestação. Ela pode estar relacionada a situações de maus-tratos, omissão de cuidados, intervenções invasivas sem justificativa clínica e comportamentos profissionais que desconsideram as preferências, os direitos e a autonomia da mulher. Além de interferirem negativamente na experiência do parto, essas práticas podem produzir consequências relevantes para o bem-estar físico e emocional da parturiente e também repercutir sobre o recém-nascido (Lins et al., 2023).

No Brasil, determinadas intervenções realizadas durante a assistência obstétrica, especialmente quando não apresentam indicação clínica devidamente fundamentada, demonstram a permanência de um modelo de atenção marcado pela excessiva medicalização do nascimento. Entre essas intervenções encontram-se a realização de cesarianas sem indicação adequada, o uso de ocitocina, a episiotomia e outros procedimentos que podem ser utilizados de maneira inadequada. Esse cenário reforça a importância de discutir modelos de assistência que valorizem a humanização e o protagonismo feminino no processo de nascimento (Ferreira et al., 2025).

Embora tenham ocorrido avanços na elaboração de políticas públicas destinadas à proteção da saúde da mulher e à qualificação da assistência obstétrica, situações de violência ainda podem permanecer ocultas. Muitas mulheres não reconhecem determinadas condutas como formas de violência ou não encontram condições adequadas para relatar o que vivenciaram. A insuficiência de informações sobre os direitos durante o ciclo gravídico-puerperal, associada à ausência de suporte institucional, pode favorecer a manutenção dessas práticas nos serviços de saúde (Maklouf et al., 2022). Nesse sentido, iniciativas que ampliem o conhecimento das mulheres sobre seus direitos e promovam uma assistência baseada no respeito, no acolhimento e na participação da gestante, incluindo a contribuição das doulas, podem fortalecer a humanização do cuidado obstétrico (Brasil, 2026).

As políticas públicas voltadas à assistência obstétrica têm buscado modificar práticas tradicionais de cuidado, estimulando a adoção de condutas fundamentadas em evidências científicas e na valorização da mulher como participante ativa das decisões relacionadas ao nascimento. A perspectiva da humanização procura, portanto, favorecer uma assistência que considere as necessidades individuais da gestante, proporcione segurança e reduza intervenções desnecessárias durante o parto e o nascimento (Ferreira et al., 2025).

A qualificação desse cuidado também depende da garantia de condições para que a mulher receba informações claras, participe das decisões relacionadas ao parto e tenha sua autonomia respeitada pelos profissionais de saúde. Dessa forma, a assistência obstétrica deve ser organizada de modo a prevenir situações de discriminação, negligência, constrangimento ou violência institucional, valorizando uma relação profissional baseada no respeito e na comunicação adequada (De Souza et al., 2021).

Nesse cenário, o enfermeiro ocupa uma posição relevante, considerando sua participação no acompanhamento da mulher ao longo do ciclo gravídico-puerperal e sua inserção direta nos diferentes momentos da assistência. A atuação profissional pode contribuir para o reconhecimento de situações de violência, para a orientação das gestantes sobre seus direitos e para a adoção de práticas que favoreçam o cuidado humanizado. Assim, compreender como a enfermagem pode atuar diante desse problema mostra-se relevante para o aprimoramento da assistência oferecida às mulheres.

Diante dessa problemática, a presente pesquisa apresenta como questão norteadora: Qual é o papel do enfermeiro no cuidado à mulher na prevenção da violência obstétrica?

A escolha dessa temática está relacionada à permanência da violência obstétrica como questão relevante para a saúde pública e à necessidade de ampliar as discussões sobre a qualidade e a humanização da assistência prestada às mulheres. Nesse processo, o enfermeiro desempenha papel significativo, uma vez que mantém contato próximo com a gestante e participa de diferentes ações de cuidado durante a gestação, o parto e o puerpério. Dessa forma, conhecer as estratégias empregadas pela enfermagem para prevenir e identificar situações de violência pode favorecer a construção de práticas assistenciais mais acolhedoras, seguras e comprometidas com os direitos femininos.

Evidências recentes indicam que a violência obstétrica continua sendo observada em diferentes contextos de atenção à saúde. Além de representar uma violação dos direitos das mulheres, essa problemática pode produzir repercussões negativas sobre sua saúde física e psicológica e também afetar a experiência relacionada ao nascimento e ao cuidado do recém-nascido (Silva et al., 2025). A identificação dessas situações exige, portanto, profissionais preparados para reconhecer condutas inadequadas e intervir de maneira ética e qualificada.

A análise da produção científica sobre o tema pode contribuir para ampliar a compreensão acerca das formas de manifestação da violência obstétrica e das possibilidades de atuação da enfermagem diante desse problema. Nesse sentido, torna-se importante reunir conhecimentos sobre práticas assistenciais, medidas preventivas e estratégias profissionais que favoreçam a proteção dos direitos das mulheres e a qualificação do cuidado durante a gestação, o parto e o puerpério.

Dessa maneira, este estudo realiza uma revisão integrativa da literatura com a finalidade de analisar a atuação do enfermeiro diante da violência obstétrica, considerando as práticas assistenciais e as estratégias de cuidado que podem contribuir para uma assistência ética, segura e humanizada à mulher durante o ciclo gravídico-puerperal.

Objetivos

Objetivo geral

Analisar, por meio de uma revisão integrativa da literatura, a atuação do enfermeiro diante da violência obstétrica, com ênfase nas estratégias capazes de favorecer uma assistência humanizada, segura e fundamentada no respeito aos direitos da mulher.

Objetivos específicos

Identificar, na produção científica, as principais formas de manifestação da violência obstétrica nos serviços de saúde.

Descrever as possibilidades de atuação do enfermeiro na identificação, prevenção e enfrentamento da violência obstétrica.

Apresentar estratégias de cuidado humanizado que possam contribuir para a prevenção e redução de situações de violência obstétrica.

Metodologia

O estudo desenvolvido corresponde a uma revisão integrativa da literatura, conduzida por meio de abordagem qualitativa, com caráter exploratório e descritivo. Esse tipo de investigação possibilita reunir produções científicas sobre determinada temática, permitindo a análise e síntese das evidências disponíveis acerca do assunto pesquisado (Souza; Silva; Carvalho, 2010).

O caráter descritivo do estudo está relacionado à intenção de apresentar e detalhar a VO e a atuação da enfermagem nesses casos. Já a abordagem exploratória permite ampliar a compreensão sobre o tema, proporcionando maior aprofundamento teórico e favorecendo reflexões críticas acerca da problemática investigada (Guerra, 2024).

A escolha pela abordagem qualitativa ocorreu devido à possibilidade de interpretar criticamente os dados encontrados nos estudos selecionados, considerando aspectos relacionados às experiências, significados e práticas presentes na assistência obstétrica (Guerra, 2024).

O desenvolvimento desta revisão integrativa ocorreu em etapas, incluindo a definição da questão norteadora, seleção das bases de dados, aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, leitura dos estudos selecionados, análise das evidências encontradas e organização dos resultados obtidos, conforme proposto na literatura (Souza; Silva; Carvalho, 2010).

Para estruturar a pergunta norteadora do estudo, utilizou-se a estratégia PICO, método frequentemente empregado em pesquisas científicas e revisões integrativas para auxiliar na formulação da questão investigativa e direcionar a busca de evidências nas bases de dados, facilitando a definição dos descritores, a organização da busca nas bases de dados e a seleção dos estudos científicos mais relevantes. O acrônimo PICO corresponde a: P (População ou Problema), I (Intervenção), C (Comparação ou Controle) e O (Outcome ou Desfecho). A utilização dessa estratégia contribui para maior objetividade e direcionamento metodológico durante o desenvolvimento da pesquisa científica (Dantas et al., 2022).

Na aplicação da estratégia PICO, consideraram-se os seguintes elementos: P — gestantes; I — assistência de enfermagem; C — não aplicável; e O — qualidade da assistência relacionada à prevenção da violência obstétrica.

QUADRO 1 – Descrição da estratégia PICO

Acrônimo

Definição

Descrição no estudo

P (Population)

População ou problema de interesse

Gestantes em período gravídico-puerperal, consideradas em situação de vulnerabilidade durante a assistência ao parto

I (Intervention)

Intervenção ou exposição

Assistência de enfermagem, com foco em práticas humanizadas e baseadas em evidências científicas

C (Comparison)

Comparação ou controle

Não se aplica, pois não há comparação

O (Outcome)

Desfecho ou resultado esperado

Qualidade da assistência prestada, com redução da violência obstétrica e promoção do cuidado seguro e humanizado

Fonte: Autores (2026)

A próxima etapa foi o levantamento bibliográfico, realizado nas plataformas Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e Scientific Electronic Library Online (SciELO), nas bases LILACS, MEDLINE e BDENF, visando ampliar a identificação de estudos relacionados à temática proposta.

Para a estratégia de busca, utilizaram-se descritores cadastrados nos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS), associados por meio do operador booleano AND, permitindo maior refinamento dos resultados encontrados nas bases pesquisadas, sendo estes: “Enfermagem”, “Violência”, “Saúde da Mulher”, “Obstetrícia” e “Humanização da Assistência”, combinados entre si, com o objetivo de ampliar e refinar os resultados encontrados, conforme quadro 2.

Foram estabelecidos como critérios de inclusão: artigos disponíveis na íntegra, publicados no idioma português, publicados durante o período de 2018 a 2025. Foram excluídos estudos duplicados, produções que não respondiam à questão de pesquisa, bem como dissertações, resumos simples.

Conforme apresentado no Quadro 2, a estratégia de busca nas bases de dados seguiu os critérios estabelecidos pelo método PRISMA, utilizando descritores associados relacionados à enfermagem, violência, obstetrícia, saúde da mulher e humanização da assistência. O cruzamento dos descritores “Enfermagem”, “Violência” e “Obstetrícia” resultou em 24 estudos na BVS, 13 na LILACS, 01 na MEDLINE, 07 na BDENF e 04 na SciELO. Já os descritores “Saúde da Mulher”, “Obstetrícia” e “Humanização da Assistência” identificaram 43 estudos na BVS, 23 na LILACS, nenhum na MEDLINE, 18 na BDENF e 02 na SciELO. Por fim, o cruzamento entre “Enfermagem”, “Humanização da Assistência” e “Violência” encontrou 36 estudos na BVS, 17 na LILACS, nenhum na MEDLINE, 15 na BDENF e 04 na SciELO. Dessa forma, observa-se maior concentração de publicações nas bases BVS e LILACS, evidenciando ampla produção científica relacionada à temática pesquisada.

QUADRO 2- Estratégia de busca nas bases de dados

DESCRITORES ASSOCIADOS

LILACS

MEDLINE

BDENF

SciELO

(Enfermagem) AND (Violência) AND (Obstetrícia)

13

01

07

04

(Saúde da Mulher) AND (Obstetrícia) AND (Humanização da Assistência)

23

00

18

02

(Enfermagem) AND (Humanização da Assistência) AND (Violência)

17

00

15

04

Fonte: Autores (2026)

A seleção dos estudos ocorreu em etapas, iniciando-se pela leitura dos resumos, seguida da leitura completa dos artigos selecionados. Esse processo segue recomendações metodológicas para revisões integrativas e pode ser representado por meio do fluxograma PRISMA, garantindo maior transparência e reprodutibilidade. (Page et al., 2021).

O fluxograma PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses) é uma ferramenta utilizada para demonstrar, de forma clara e organizada, todas as etapas do processo de seleção dos estudos incluídos na revisão, desde a identificação dos artigos nas bases de dados até a inclusão final da amostra analisada. Além disso, o método contribui para a transparência, rastreabilidade e reprodutibilidade das revisões científicas, favorecendo maior rigor metodológico no desenvolvimento da pesquisa (Page et al., 2021).

Figura 1 – Fluxograma PRISMA

Fonte: Autores (2026)

Por se tratar de uma pesquisa baseada em dados secundários, disponíveis em publicações científicas de acesso público, não foi necessária a submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, conforme estabelece a Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde. Ainda assim, foram respeitados os princípios éticos, especialmente no que se refere à fidelidade das informações e à correta citação das fontes utilizadas.

Resultados

Para a organização dos dados, foi elaborada em um quadro contemplando informações como título, autoria, ano de publicação, objetivos, metodologia e principais resultados dos estudos. A padronização desse instrumento contribui para a sistematização das informações e minimiza possíveis vieses durante a análise (Souza; Silva; Carvalho, 2010).

QUADRO 3 – Artigos selecionados

TÍTULO

AUTOR

ANO

OBJETIVOS

MÉTODO

RESULTADOS

1

Atribuições do enfermeiro frente à prevenção da violência obstétrica

MAKLOUF, C. C. et al.

2022

Realizar uma busca na literatura sobre a atuação do enfermeiro mediante a violência

obstétrica, em conjunto com a adoção de possíveis medidas preventivas adotadas por esse profissional.

Estudo descritivo, com abordagem metodológica qualitativa, utilizando como técnica a

Revisão Integrativa de Literatura

No que tange a violência obstétrica e os cuidados para prevenção

desses casos, torna-se necessário conceituar sobre as violências que acontece antes, durante e após o parto, sendo de

suma importância o cuidado especial para essas mulheres vítimas de abuso.

2

Conhecimento de enfermeiros da atenção primária acerca da violência obstétrica

SILVA, M. I. et al.

2020

Investigar o conhecimento de enfermeiros da atenção primária à saúde acerca da violência obstétrica.

Estudo de caráter descritivo-exploratório com abordagem qualitativa, desenvolvido com sete enfermeiros de duas unidades básicas de saúde do Distrito Federal, Brasil.

A abordagem do tema acontece de forma incipiente e muitas vezes sem a qualidade esperada. Identificou-se ainda que existe despreparo dos profissionais sobre o assunto para que haja uma boa fonte de informações para as gestantes durante o acompanhamento pré-natal.

3

Violência Obstétrica no Contexto do Parto e Nascimento.

FERREIRA, B. E. S. et al.

2025

Descrever a produção científica sobre o papel do enfermeiro na prevenção da violência obstétrica no contexto parto e

nascimento.

Trata-se de uma Revisão Integrativa, norteada pela pergunta: “Qual o papel do enfermeiro diante a Violência

Obstétrica no contexto parto e nascimento?” Os dados foram coletados em abril de 2023, na Biblioteca Virtual de Saúde (BVS)

nas bases de dados eletrônico BDENF, LILACS E MEDLINE

Destaca-se o papel fundamental do enfermeiro neste momento delicado e importante da vida das gestantes e puérperas, uma

vez que explicita tanto o conhecimento quanto o trabalho para prevenção da violência obstétrica é de suma importância para um

atendimento de excelência.

4

Violência obstétrica: o papel da enfermagem na promoção de uma assistência humanizada.

SILVA, L. G. et al.

2025

Analisar o papel da enfermagem na assistência humanizada frente à violência obstétrica.

Trata-se de uma revisão integrativa da literatura realizada nas bases SciELO, LILACS e PubMed, utilizando os descritores “violência obstétrica”, “parto humanizado”, “causas de violência obstétrica” e “assistência de enfermagem”.

Os estudos indicam que a violência obstétrica é frequente e gera impactos emocionais, físicos e sociais duradouros. Persistem fragilidades na humanização do parto e na qualificação profissional, evidenciando a necessidade de educação permanente e conscientização nos serviços de saúde.

5

Violência obstétrica: uma revisão integrativa

LINS, K. Z. et al.

2023

Identificar, no cenário obstétrico, as formas de violência vivenciadas por mulheres durante o pré-natal, parto e pós-parto, como também a visão e a contribuição da enfermagem nesse processo.

Este artigo resulta de um trabalho de revisão integrativa, realizada entre os meses de abril a agosto de 2022, nas bases de dados online SciELO (Scientific Electronic Library Online), LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde), BVS (Biblioteca Virtual em Saúde), e MEDLINE (Medical Literature Analysis and Retrieval System Online).

Após a leitura dos artigos, surgiram as seguintes categorias temáticas: As formas mais comuns de violência obstétrica nos serviços de saúde, a visão da enfermagem frente a violência obstétrica, a contribuição do enfermeiro na prevenção da violência obstétrica e o conhecimento das parturientes sobre violência obstétrica.

6

A percepção da enfermagem obstetra acerca da violência obstétrica no cotidiano da assistência materna

ARAÚJO, E. P. et al.

2024

Compreender a percepção de enfermeiras obstétricas sobre a violência obstétrica no seu cotidiano no campo do parto e nascimento. Métodos: trata-se de um estudo descritivo e qualitativo, com 25 enfermeiros obstétricos da Associação Brasileira de Obstetrizes e Enfermeiros Obstétricos e Neonatologistas secional Pará, mediante entrevista semiestruturada de setembro de 2020 a março de 2021, com a gravação e transcrição na íntegra e submissão à análise de conteúdo.

Trata-se de um estudo descritivo e qualitativo, com 25 enfermeiros obstétricos da Associação Brasileira de Obstetrizes e Enfermeiros Obstétricos e Neonatologistas secional Pará, mediante entrevista semiestruturada de setembro de 2020 a março de 2021, com a gravação e transcrição na íntegra e submissão à análise de conteúdo.

A formação e o conhecimento científico-técnico sobre a violência obstétrica permitem a real ressignificação sobre a forma de cuidar na saúde materna.

7

O papel do enfermeiro no ciclo gravídico-puerperal frente à violência obstétrica: uma revisão integrativa

SOUZA, J. P. S. et al.

2021

Buscar na literatura o que as evidências científicas abordam sobre os tipos de violências obstétricas e o papel do enfermeiro.

Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, de caráter exploratório e cunho qualitativo Foram utilizados os descritores: "assistência de enfermagem”, “prática de enfermagem” combinados às palavras: “violência obstétrica”, selecionando artigos publicados no período de 2015 a 2021 na base de dados Medline, LILACS e Acervo+.

Visto que é de suma importância mudanças no modelo de assistência obstétrica no Brasil, há uma grande necessidade de expor para as parturientes a importância de se manterem informadas sobre a violência obstétrica, sendo orientadas e tratadas como donas do próprio corpo.

8

Importância do enfermeiro frente à prevenção da violência obstétrica

JESUS, F. S. et al.

2025

Analisar a produção científica sobre violência obstétrica, identificando as intervenções e o papel do enfermeiro na prevenção desse tipo de violência.

Trata-se de uma revisão integrativa, realizada na BVS, nas bases de dados LILACS e BDENF.

Foram utilizados 11 artigos que respondiam à questão norteadora. Foi evidenciado a partir da análise dos artigos a importância da capacitação e medidas de prevenção dos profissionais da enfermagem.

9

O papel do enfermeiro no enfrentamento a violência obstétrica

SILVA, N. D. A. et al.

2023

Identificar quais os cuidados de enfermagem frente a violência obstétrica, durante o trabalho de parto, ampliando a visão em relação à assistência humanizada.

Revisão integrativa dos artigos publicados relacionados ao tema nas bases de dados LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde), MEDLINE (Sistema Online de Busca e Análise de Literatura Médica) através da BVS (Biblioteca Virtual em Saúde), e BDENF (Base de Dados de Enfermagem), publicados nos últimos 5 anos.

O papel do enfermeiro é essencial no enfrentamento da violência obstétrica, pois é ele quem está diretamente ligado na assistência, esta que deve ser pautada no cuidado transpessoal, apoiando, informando, proporcionando um ambiente confortável, criando um relacionamento de ajuda-confiança.

10

Atuação do enfermeiro na prevenção da prática de violência obstétrica: reflexões a partir da literatura

KASSIS, E. W. E. et al.

2024

Analisar as evidências científicas sobre o papel do enfermeiro na prevenção da violência obstétrica.

Trata-se de uma revisão integrativa desenvolvida de acordo as recomendações do Preferred Reporting Items for Systematic reviews and Meta-Analyses (PRISMA) nas bases de dados Scientific Electronic Library Online (SciELO), Literatura da América Latina e Caribe (LILACS), National Center for Biotechnology Information (NCBI) e Google Acadêmico.

Identificou-se como fatores relacionados à atuação do enfermeiro na prevenção da violência obstétrica: respeito aos valores, crenças e sentimentos da gestante; promoção de dignidade, autonomia e autocuidado; acolhimento e respeito à gestante e família; redução da prática de procedimentos invasivos desnecessários e permissão para que a parturiente expresse sensações e sentimentos durante todo o processo de parto.

11

Representações sociais de puérperas

sobre violência obstétrica nos cenários do parto e do nascimento

LEITÃO, K. R. S. et al.

2024

Analisar as representações sociais atribuídas pelas puérperas sobre violência obstétrica nos cenários do parto e do nascimento.

Estudo qualitativo fundamentado na TRS com puérperas atendidas em um hospital universitá­rio da região Nordeste do Brasil.

As repre­sentações sociais foram destacadas pela vulnerabilidade, falta de informação e desrespeito à autonomia. Fazem-se necessárias discussões sobre o tema nos cenários de saúde e na formação profissional para fortalecer as boas práticas de assistência ao parto e nascimento.

12

Violência obstétrica: reflexão sobre a notificação para alcance

dos objetivos de desenvolvimento sustentável

ILDEFONSO, E. M. et al.

2025

Explanar sobre violência obstétrica, suas consequências e importância da

notificação compulsória para alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

Estudo reflexivo embasado em referências e na expertise das pesquisadoras sobre a

temática.

A subnotificação dos casos de violência obstétrica compromete negativamente o alcance dos

Objetivos de Desenvolvimento Sustentável – especificamente no que refere ao objetivo 5

“Igualdade de Gênero” e aos objetivos 3 “Saúde e Bem-estar”, 10 “Redução das Desigualdades”,

porém é possível notificar.

13

A atuação da equipe multidiciplinar na prevenção da violência obstétrica

GARCIA, R. R. et al.

2023

Buscar evidências na literatura que corroborem com a

ideia de que a atuação de uma equipe multidisciplinar

minimize a ocorrência da violência obstétrica fortalecendo

o conceito de que o parto é uma continuidade

do estreitamento da relação mãe e filho.

Esse estudo tratou de uma revisão de literatura baseada

na busca de artigos indexados nas bases de

dados LILACS, MEDLINE/PUBMED, SciELO e PEDro.

A análise dos resultados revelou que ainda existem

muitas divergências entre os tratamentos proporcionados

às gestantes e puérperas.

14

Violência obstétrica no processo do abortamento

MOREIRA, M. A. et al.

2023

Analisar as práticas assistenciais de saúde no processo do abortamento tipificadas como violência obstétrica.

Estudo qualitativo e descritivo, realizado em um hospital público no Brasil com 15 profissionais de saúde de nível médio e superior.

Evidenciou-se que as práticas que denotam violência obstétrica relacionam-se a alocação das mulheres em processo de abortamento no mesmo ambiente que gestantes e puérperas e ao emitirem juízos de valor no momento da assistência às mulheres.

15

VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA E O ATUAL

MODELO OBSTÉTRICO, NA PERCEPÇÃO

DOS GESTORES EM SAÚDE

PAULA, E. et al.

2020

Compreender a percepção dos gestores das maternidades públicas da Região Metropolitana II do

estado do Rio de Janeiro acerca da violência obstétrica e as medidas para o seu enfrentamento visando à

garantia da qualidade da assistência.

Estudo descritivo, exploratório, com abordagem qualitativa, realizado com 16 gestores de saúde

de cinco maternidades da Região Metropolitana II do estado do Rio de Janeiro. Os dados foram coletados

por meio de entrevistas, aplicadas no período de maio de 2017 a maio de 2018, e submetidos à análise de

conteúdo na modalidade temática.

A pesquisa apontou o não acolhimento, princípios tecnocráticos do parto, impedimento do

acompanhante, desrespeito às práticas humanizadas centradas na fisiologia e na escolha da mulher,

necessidade da formação em saúde como norteador da política de humanização e da gestão das unidades

de saúde, despreparo profissional para atuação e falta de envolvimento de profissionais com mais tempo de

serviço para modificar práticas no cuidado obstétrico.

16

Percepção das parturientes sobre violência

obstétrica: A dor que querem calar

TEIXEIRA, P. C. et al.

2020

Identificar o conhecimento das parturientes sobre violência obstétrica, levantar se conseguem identificar

as principais ações presentes na violência obstétrica, detectar os impactos físicos e psicológicos da violência obstétrica. Os

Foi realizado um estudo do tipo descritivo, exploratório

com abordagem quali-quantitativa.

As mulheres possuem um conhecimento limitado acerca

da violência obstétrica, podendo estar relacionado à falta de informação durante o pré-natal.

17

Violência obstétrica no estado do Rio

de Janeiro: Pesquisa Nascer no Brasil II

LEITE, T. H. et al.

2025

Estimar a prevalência e o perfil de coocorrência de violência obstétrica em mulheres

internadas por motivos de parto no estado do Rio de Janeiro, bem como sua distribuição

de acordo com características demográficas, socioeconômicas e referentes à gestação atual.

Trata-se de uma coorte perinatal. Os dados utilizados foram obtidos no segundo

seguimento telefônico da Pesquisa Nascer no Brasil II referente ao estado do Rio de Janeiro.

A prevalência total de violência obstétrica total foi de 65,3%. Os tipos de violência

obstétrica mais prevalentes foram toques vaginais inadequados (46,2%), negligência

(31,5%) e abuso psicológico (21,7%).

18

A violência obstétrica no contexto do parto e nascimento

RODRIGUES, D. P. et al.

2018

analisar as práticas consideradas violentas na atenção obstétrica.

revisão integrativa, com coleta de dados nas bases de dados Web of Science, CINAHL, Scopus, MEDLINE, LILACS e a biblioteca virtual SciELO, com artigos dos últimos cinco anos, em idioma inglês, espanhol e português, obtendo 13 artigos selecionados que foram submetidos à técnica de Análise de Conteúdo, na modalidade Análise Temática.

Foram identificadas as seguintes categorias <<Violência obstétrica: tipologia, definições, legislação>>; <<A violência obstétrica na percepção da equipe obstétrica>>; <<A violência obstétrica na percepção das usuárias>>

Fonte: Autores (2026)

A análise dos estudos evidencia que o enfermeiro desempenha papel fundamental na prevenção e no enfrentamento da VO, sobretudo por sua atuação direta e contínua junto à mulher durante o período aqui abordado. Os achados demonstram que a assistência de enfermagem não deve se restringir à execução de procedimentos técnicos, mas envolver ações de acolhimento, escuta, orientação, respeito à autonomia e garantia dos direitos da gestante e da parturiente.

Desta forma, pode-se entender que a prevenção da VO está diretamente relacionada à adoção de práticas assistenciais humanizadas e à capacidade do profissional de reconhecer situações que possam comprometer a dignidade e a segurança da mulher.

Os resultados encontrados por Maklouf et al. (2022) apontam que a atuação do enfermeiro diante da VO envolve tanto o reconhecimento das diferentes formas de violência quanto a adoção de medidas preventivas durante a assistência. Esse entendimento é relevante, considerando que a VO pode ocorrer de maneira explícita, por meio de condutas agressivas ou procedimentos sem indicação, mas também de forma menos evidente, como a negligência, a ausência de informações e o desrespeito às escolhas da mulher.

Essa perspectiva também é observada por Lins et al. (2023), cujos achados identificaram diferentes formas de VO durante o pré-natal, parto e pós-parto, além de destacarem a contribuição da enfermagem para sua prevenção. A presença desses diferentes aspectos demonstra que o enfrentamento da VO não depende exclusivamente da conduta individual do profissional, mas envolve também o nível de informação da mulher e as características do modelo de assistência adotado pelos serviços de saúde.

Silva et al. (2020), ao investigarem o conhecimento de enfermeiros da atenção primária, observaram que a abordagem da VO ocorria de maneira incipiente, sendo identificadas dificuldades na preparação dos profissionais para fornecer informações adequadas às gestantes durante o pré-natal. Esse resultado permite compreender que a prevenção da VO deve começar antes mesmo do trabalho de parto, uma vez que o acompanhamento pré-natal constitui oportunidade importante para orientar a mulher sobre seus direitos, esclarecer dúvidas e favorecer sua participação nas decisões relacionadas ao processo de parto.

A necessidade de qualificação profissional também aparece nos estudos de Silva et al. (2025) e Jesus et al. (2025), estes identificam a permanência de fragilidades relacionadas à humanização da assistência e à qualificação dos profissionais, além de destacarem a capacitação dos profissionais de enfermagem como uma das principais medidas de prevenção da VO. Esses achados indicam que a formação profissional representa um componente essencial para a transformação das práticas obstétricas, especialmente porque o conhecimento científico pode contribuir para que o enfermeiro reconheça intervenções desnecessárias, identifique situações de desrespeito e desenvolva estratégias de cuidado fundamentadas em evidências.

Essa compreensão é reforçada por Araújo et al. (2024), que, ao analisarem a percepção de enfermeiras obstétricas, destacaram que a formação e o conhecimento científico-técnico sobre a VO permitem um novo olhar sobre a maneira de cuidar na saúde materna.

Souza et al. (2021) destacam a necessidade de mudanças no modelo de assistência obstétrica e ressaltam a importância de manter as parturientes informadas sobre a VO, orientando-as e reconhecendo-as como protagonistas de seu próprio corpo. Em complemento, Leitão et al. (2024) identificam, nas representações sociais de puérperas, elementos relacionados à vulnerabilidade, à falta de informação e ao desrespeito à autonomia. Esses resultados sugerem que a ausência de informação pode ampliar a vulnerabilidade da mulher diante das práticas assistenciais, dificultando o reconhecimento de situações abusivas e reduzindo sua participação nas decisões relacionadas ao próprio cuidado.

Dito isto, o enfermeiro pode atuar como importante mediador entre a mulher, sua família e a equipe de saúde, contribuindo para que as informações sejam apresentadas de forma clara e compreensível e para que as escolhas da gestante sejam consideradas sempre que clinicamente possíveis. Kassis et al. (2024) reforçam essa perspectiva ao apontarem, entre os fatores relacionados à prevenção da violência obstétrica, o respeito aos valores, crenças e sentimentos da gestante, a promoção da dignidade, autonomia e autocuidado, o acolhimento da mulher e de sua família, além da redução de procedimentos invasivos desnecessários.

Essa atuação mediadora torna-se ainda mais relevante quando se considera que a VO não está relacionada apenas a comportamentos individuais, mas também às condições institucionais e ao próprio modelo de assistência adotado. Paula et al. (2020), ao avaliarem a percepção de gestores de maternidades públicas do estado do Rio de Janeiro, identificaram problemas relacionados ao não acolhimento, à permanência de princípios tecnocráticos no parto, ao despreparo profissional e à dificuldade de modificar práticas já incorporadas ao cotidiano dos serviços. Os autores destacam que o enfrentamento da VO exige mudanças estruturais, com fortalecimento da formação profissional, da gestão participativa e de práticas fundamentadas em evidências científicas.

Rodrigues et al. (2018) identificaram práticas como episiotomia, manobra de Kristeller, medicalização do parto e realização de procedimentos sem o conhecimento e consentimento da mulher. Os autores também relacionaram a ocorrência dessas práticas ao modelo hospitalar tradicional e tecnocrático, ao despreparo profissional e às condições institucionais dos serviços, destacando a necessidade de mudanças na formação e na assistência obstétrica.

Essa perspectiva apresenta continuidade em Paula et al. (2020), que identificaram, entre gestores de maternidades públicas do estado do Rio de Janeiro, dificuldades relacionadas ao não acolhimento, à permanência de princípios tecnocráticos e ao despreparo profissional, reforçando que o enfrentamento da VO requer mudanças tanto na formação quanto na organização dos serviços.

Nesse sentido, os achados de Garcia et al. (2023) ampliam a compreensão sobre a responsabilidade dos profissionais, demonstrando que a prevenção da VO não deve ser atribuída exclusivamente a uma categoria profissional. Os autores defendem a atuação de uma equipe multiprofissional capacitada desde o pré-natal até o nascimento, considerando que o conhecimento sobre a VO e a atuação articulada dos diferentes profissionais são fundamentais para reduzir situações de desrespeito e favorecer uma assistência mais humanizada. Além disso, os resultados evidenciam que a falta de preparo profissional, a escassez de recursos e a elevada demanda dos serviços podem favorecer a reprodução de práticas inadequadas, reforçando que o problema também possui dimensão institucional.

Teixeira et al. (2020) identificaram que 64% das participantes de seu estudo não haviam recebido informações adequadas durante o pré-natal, enquanto parte das mulheres também relatou ausência de explicações e de autorização antes da realização de procedimentos. Os autores ressaltam que o profissional responsável pelo acompanhamento pré-natal, com destaque para o enfermeiro, possui importante função na oferta de informações individuais e coletivas, esclarecimento de dúvidas e redução de medos e ansiedades, favorecendo o exercício da autonomia feminina. Dessa maneira, a educação em saúde durante o pré-natal pode ser compreendida como uma estratégia preventiva, uma vez que mulheres informadas apresentam melhores condições para participar das decisões relacionadas ao próprio corpo e reconhecer situações que violem seus direitos.

A importância da comunicação também é evidenciada por Paula et al. (2020), cujos resultados apontam que uma relação baseada no diálogo, no respeito e no tratamento digno constitui elemento essencial para uma assistência obstétrica humanizada. Os autores defendem a ruptura com o modelo tecnocrático e a adoção de uma perspectiva na qual a mulher ocupe posição central nas decisões relacionadas ao cuidado. Dessa forma, a comunicação não deve ser compreendida apenas como uma habilidade complementar à assistência, mas como um instrumento de proteção da autonomia, de prevenção de conflitos e de redução de práticas que possam configurar VO.

Entretanto, é necessário reconhecer que a atuação da enfermagem também apresenta desafios e contradições. Os dados da Pesquisa Nascer no Brasil II, realizada no estado do Rio de Janeiro, demonstraram prevalência de 65,3% de VO entre as mulheres analisadas, sendo os toques vaginais inadequados, a negligência e o abuso psicológico as manifestações mais frequentes. O estudo também identificou que profissionais da enfermagem foram os mais citados pelas mulheres como perpetradores das violências relatadas. Esse resultado não diminui a relevância da enfermagem no enfrentamento do problema; ao contrário, evidencia a necessidade de fortalecer a formação ética, técnica e científica desses profissionais, especialmente porque sua presença contínua junto à mulher amplia tanto sua responsabilidade na prevenção quanto a possibilidade de identificação e interrupção de práticas inadequadas.

A magnitude do problema no estado do Rio de Janeiro também merece atenção. Leite et al. (2025) identificam que, além da elevada prevalência geral, mulheres com menor escolaridade, sem trabalho remunerado, beneficiárias de programas sociais, primíparas e aquelas submetidas ao parto financiado pelo sistema público apresentaram maior ocorrência de determinadas formas de violência obstétrica. Esses achados indicam que a assistência obstétrica deve considerar as desigualdades sociais que atravessam a experiência da gestação e do parto, exigindo do enfermeiro uma postura livre de julgamentos, discriminação e preconceitos.

A dimensão da violência também pode ultrapassar o momento do parto e alcançar outras situações relacionadas à saúde sexual e reprodutiva. Moreira et al. (2023), ao evidenciarem práticas assistenciais no processo de abortamento, identificaram situações de julgamentos, preconceitos, negligência, quebra de privacidade, imposição de valores e procedimentos realizados sem consentimento. Os autores destacam a necessidade de ampliar a formação dos profissionais para que a assistência seja pautada no acolhimento, respeito, resolutividade e melhores evidências científicas. Embora o foco do presente estudo esteja direcionado à VO no ciclo gravídico-puerperal, esses achados reforçam que a proteção da mulher deve estar presente em diferentes pontos da atenção à saúde, especialmente em situações de maior vulnerabilidade.

Diante disso, a educação permanente configura-se como uma das principais estratégias para qualificar a atuação da enfermagem e da equipe multiprofissional. Paula et al. (2020) ressaltam que a formação contínua possibilita o desenvolvimento de conhecimentos, habilidades e atitudes necessárias para transformar práticas institucionais e enfrentar situações de violência obstétrica. Da mesma forma, Garcia et al. (2023) identificaram que o desconhecimento sobre a violência obstétrica permanece entre profissionais e pode dificultar tanto o reconhecimento quanto o enfrentamento dessas situações, reforçando a necessidade de preparo permanente das equipes.

A existência de práticas violentas pode ser mantida quando os profissionais não reconhecem determinadas condutas como inadequadas ou quando situações presenciadas no cotidiano são naturalizadas pela equipe. Garcia et al. (2023) observam que agressões presenciadas por profissionais podem permanecer encobertas em razão do receio de conflitos no ambiente de trabalho. Assim, o enfermeiro também possui papel importante na identificação, registro, comunicação e encaminhamento de situações de violência, contribuindo para que a assistência não seja apenas reativa, mas organizada de maneira preventiva.

Portanto, os estudos analisados permitem compreender que a prevenção da VO exige uma atuação que ultrapasse a execução de procedimentos e incorpore competências relacionadas à comunicação, educação em saúde, escuta qualificada, defesa dos direitos, tomada de decisão ética e trabalho em equipe. A atuação do enfermeiro deve estar articulada à construção de uma cultura institucional baseada no respeito à autonomia feminina e nas melhores evidências científicas. Nesse cenário, a qualificação profissional, a educação permanente, o fortalecimento do trabalho multiprofissional e a participação ativa das mulheres constituem estratégias fundamentais para transformar o modelo de assistência e reduzir a ocorrência de práticas violentas.

Discussão

Após a leitura dos artigos, os estudos foram sintetizados por similaridade de conteúdo, formando três categorias: Tipos e Manifestações da Violência Obstétrica no Cenário Assistencial; Atuação e os desafios da enfermagem na identificação e enfrentamento da VO; Estratégias para o cuidado humanizado e práticas baseadas em evidências para a segurança materna.

Tipos e Manifestações da Violência Obstétrica no Cenário Assistencial.

A VO constitui uma problemática que pode se manifestar em diferentes momentos da assistência à saúde reprodutiva, não se restringindo exclusivamente ao trabalho de parto e ao nascimento. Na perspectiva apresentada pelos profissionais de enfermagem obstétrica, esse fenômeno envolve diferentes dimensões, entre elas a negligência, a discriminação e as violências física, psicológica, verbal, sexual, institucional e estrutural. Dessa maneira, sua compreensão exige considerar não apenas as ações diretamente realizadas sobre o corpo da mulher, mas também as relações estabelecidas entre usuárias, profissionais e instituições de saúde (Araújo et al., 2024).

No âmbito assistencial, a violência física pode estar relacionada à realização de intervenções ou procedimentos sem necessidade clínica, consentimento adequado ou respeito ao processo fisiológico do parto. Entre as práticas descritas na literatura encontram-se a episiotomia realizada de maneira rotineira, a manobra de Kristeller, os toques vaginais excessivos, o uso inadequado de ocitocina e a utilização de fórceps sem adequada justificativa. Essas condutas podem representar formas de desrespeito à integridade corporal da mulher quando realizadas de maneira indiscriminada ou sem participação da parturiente nas decisões relativas ao seu cuidado (Araújo et al., 2024; Ferreira et al., 2025).

Entre as intervenções frequentemente discutidas encontra-se a episiotomia, procedimento cirúrgico realizado na região perineal, que pode ser empregado de forma inadequada quando incorporado à rotina sem avaliação individualizada. A manobra de Kristeller também aparece nos estudos como prática relacionada à tentativa de acelerar o nascimento por meio da aplicação de pressão sobre a região uterina. Além dessas intervenções, são mencionados exames vaginais repetitivos, uso rotineiro de ocitocina e outras condutas destinadas a acelerar o trabalho de parto, desconsiderando o tempo fisiológico e as necessidades individuais da mulher (Araújo et al., 2024; Ferreira et al., 2025).

A VO, entretanto, não se limita às intervenções realizadas sobre o corpo. A dimensão verbal e psicológica também assume relevância, podendo ocorrer por meio de gritos, ameaças, humilhações, julgamentos, comentários depreciativos e atitudes que desconsideram as manifestações de dor, medo ou ansiedade apresentadas pela mulher. Estudos com profissionais que atuam na assistência obstétrica relatam situações em que expressões emocionais das parturientes são desvalorizadas, contribuindo para experiências marcadas pelo constrangimento e pela perda de dignidade durante o atendimento (Araújo et al., 2024; Jesus et al., 2025).

Outra dimensão identificada é a violência sexual, relacionada à violação da intimidade e da integridade sexual e reprodutiva da mulher. Entre as situações descritas na literatura estão exames vaginais realizados de forma invasiva, repetitiva ou agressiva, procedimentos realizados sem consentimento informado e condutas que desconsideram a privacidade da parturiente. A violência institucional, por sua vez, pode estar relacionada à própria organização dos serviços e à dificuldade de acesso ou garantia de direitos, incluindo situações de impedimento da presença do acompanhante, restrições à liberdade de movimento e omissão de informações necessárias para que a mulher possa participar das decisões sobre seu cuidado (Ildefonso et al., 2025).

A relação entre profissional e parturiente também merece atenção. A literatura aponta que a assimetria de poder existente no ambiente obstétrico pode interferir na autonomia da mulher, especialmente quando decisões sobre seu corpo são tomadas predominantemente pelos profissionais. O reconhecimento do direito à escolha e à recusa informada ainda encontra dificuldades para se consolidar na cultura assistencial, o que pode favorecer a realização de intervenções sem participação efetiva da mulher (Ildefonso et al., 2025).

A VO também pode estar associada à organização do modelo de atenção ao parto. Paula et al. (2020), ao investigarem a percepção de gestores de maternidades públicas, identificaram problemas relacionados ao não acolhimento, à permanência de princípios tecnocráticos na assistência, ao impedimento do acompanhante, ao desrespeito às práticas humanizadas e ao despreparo profissional. Os autores compreendem que essas situações ultrapassam a relação individual entre profissional e usuária, apresentando também componentes estruturais e institucionais que precisam ser considerados na análise do fenômeno.

A literatura ainda evidencia que algumas mulheres podem não reconhecer determinadas situações como violência, especialmente quando procedimentos e comportamentos inadequados são compreendidos como parte habitual da assistência. Souza et al. (2021) observaram que muitas mulheres não possuem conhecimento suficiente para identificar práticas violentas, considerando normais determinadas condutas às quais são submetidas durante a assistência. Essa naturalização contribui para a invisibilidade do problema e reforça a importância da informação e da participação da mulher nas decisões relacionadas ao próprio corpo.

Dessa forma, a VO apresenta caráter multidimensional, envolvendo desde intervenções físicas desnecessárias até comportamentos que comprometem a autonomia, a dignidade, a privacidade e o direito de participação da mulher. A compreensão dessas diferentes manifestações é fundamental para que os profissionais de saúde possam reconhecê-las no cotidiano assistencial e desenvolver práticas capazes de preveni-las (Araújo et al., 2024; Ildefonso et al., 2025).

No âmbito legal, a proteção à mulher durante o ciclo gravídico-puerperal também encontra respaldo na legislação brasileira. O artigo 8º da Lei nº 8.069/1990 assegura às gestantes atenção humanizada durante a gravidez, o parto e o puerpério, além de acompanhamento integral no Sistema Único de Saúde, enquanto a Lei nº 11.108/2005 garante à parturiente o direito à presença de acompanhante de sua escolha durante o trabalho de parto, parto e pós-parto imediato (Brasil, 1990; Brasil, 2005). Esses dispositivos reforçam a necessidade de uma assistência obstétrica pautada no respeito, na autonomia, na segurança e na humanização, aspectos diretamente relacionados à prevenção da violência obstétrica.

Atuação e os desafios da enfermagem na identificação e enfrentamento da VO.

A enfermagem ocupa posição estratégica na assistência à mulher durante o ciclo gravídico-puerperal, especialmente por manter contato próximo e contínuo com a gestante e a parturiente. Nesse contexto, o enfermeiro pode contribuir para a identificação de situações que desrespeitem a autonomia, a dignidade e os direitos da mulher, bem como para a construção de uma assistência pautada no acolhimento, na escuta e na segurança. A literatura destaca que reconhecer mulheres em situação de vulnerabilidade e estabelecer uma relação de confiança são elementos importantes para a prevenção da VO (Kassis et al., 2024).

Apesar da existência de dispositivos legais voltados à proteção das gestantes e parturientes, a literatura evidencia que fatores institucionais, culturais e profissionais ainda contribuem para a ocorrência da VO. Entre eles, destacam-se condutas inadequadas, uso excessivo de intervenções sem respaldo científico e práticas assistenciais que desconsideram a individualidade e os direitos da mulher durante o parto (Silva et al., 2020).

A atuação do enfermeiro na prevenção envolve, entre outras ações, fornecer informações sobre os procedimentos que serão realizados, esclarecer dúvidas, ouvir as necessidades da mulher e estimular sua participação nas decisões. Jesus et al. (2025) ressaltam que o profissional de enfermagem deve explicar os procedimentos, evitar intervenções invasivas desnecessárias, promover o direito ao acompanhante, orientar sobre os direitos da gestante e manter-se atualizado para oferecer assistência qualificada.

A identificação da violência exige, portanto, que o profissional esteja atento não somente a agressões físicas evidentes, mas também a manifestações menos visíveis, como humilhações, ameaças, comunicação inadequada, ausência de informações, desconsideração das escolhas da mulher e realização de procedimentos sem explicação ou consentimento. Nesse sentido, a escuta ativa e a observação da relação estabelecida entre a equipe e a parturiente constituem instrumentos importantes para reconhecer situações de desrespeito no ambiente assistencial (Souza et al., 2021; Jesus et al., 2025).

Entretanto, a atuação da enfermagem ocorre em um contexto institucional que pode apresentar obstáculos à transformação das práticas obstétricas. Paula et al. (2020) identificaram a permanência de princípios tecnocráticos, o despreparo profissional e dificuldades para modificar práticas já estabelecidas nos serviços. Os resultados também apontaram a necessidade de formação em saúde voltada à humanização e de mudanças na gestão das unidades, indicando que o enfrentamento da violência obstétrica não depende exclusivamente da iniciativa individual dos profissionais.

Entre os desafios está a permanência de uma lógica intervencionista, na qual procedimentos podem ser incorporados ao cotidiano assistencial sem avaliação individualizada. Araújo et al. (2024) identificaram, a partir da percepção de enfermeiros obstetras, que práticas como episiotomia, manobra de Kristeller, toques excessivos, fórceps e utilização rotineira de ocitocina permanecem relacionadas ao modelo intervencionista de assistência. Para os autores, a transformação desse cenário requer mudanças no processo de trabalho e maior aproximação das práticas assistenciais com as recomendações fundamentadas em evidências científicas.

Nesse cenário, a discussão sobre autonomia profissional deve ser compreendida juntamente com a organização institucional e as relações de poder presentes na assistência obstétrica. Os estudos apontam que a autoridade profissional e a centralização das decisões podem reduzir a participação da mulher e dificultar a adoção de práticas compartilhadas. Assim, mais do que atribuir a ocorrência da violência a uma única categoria profissional, é necessário considerar a influência do modelo assistencial e das relações estabelecidas no serviço de saúde (Paula et al., 2020; Ildefonso et al., 2025).

Kassis et al. (2024) destacam a educação continuada como estratégia para melhorar a comunicação entre profissionais e usuárias e aproximar as práticas assistenciais das evidências científicas. Os autores também apontam que a formação em saúde pode contribuir para mudanças no cotidiano dos serviços e para a reorganização do processo de cuidado.

A atuação da enfermagem, portanto, envolve tanto a assistência direta quanto a defesa dos direitos da mulher. O enfermeiro pode atuar no acolhimento, na comunicação, na identificação de condutas inadequadas, na redução de procedimentos desnecessários e na articulação com a equipe multiprofissional. Essa atuação torna-se especialmente relevante quando fundamentada em conhecimento científico, princípios éticos e respeito à autonomia da parturiente (Kassis et al., 2024; Jesus et al., 2025).

Estratégias para o cuidado humanizado e práticas baseadas em evidências para a segurança materna.

O enfrentamento da VO requer mudanças na forma como o cuidado é organizado e desenvolvido, valorizando a mulher como participante ativa do processo de nascimento. A literatura destaca que a assistência humanizada deve estar fundamentada no respeito, na empatia, na escuta, na autonomia e na oferta de informações que permitam à gestante compreender e participar das decisões relacionadas ao seu cuidado (Kassis et al., 2024).

Entre as estratégias assistenciais destacam-se os métodos não farmacológicos para o manejo da dor. Os estudos citam recursos como banho de imersão ou aspersão, massagens lombares, bola de nascimento, posição do “cavalinho”, exercícios respiratórios, aromaterapia e musicoterapia. A utilização desses recursos pode favorecer maior conforto durante o trabalho de parto e contribuir para uma assistência menos centrada em intervenções invasivas (Jesus et al., 2025; Kassis et al., 2024).

O acolhimento constitui outra estratégia fundamental. Para Kassis et al. (2024), uma assistência adequada deve contemplar respeito, empatia, disponibilidade, apoio emocional, privacidade e liberdade para que a mulher expresse seus sentimentos. Nesse processo, a equipe de enfermagem pode contribuir por meio de uma abordagem acolhedora, estabelecendo vínculo com a gestante e sua família e proporcionando suporte físico e emocional durante o trabalho de parto (Kassis et al., 2024).

A comunicação terapêutica também se apresenta como ferramenta de proteção. Explicar previamente os procedimentos, utilizar linguagem compreensível, esclarecer dúvidas e permitir que a mulher manifeste suas preferências favorecem sua participação no cuidado. A informação contribui para reduzir incertezas e possibilita que a gestante tenha melhores condições de reconhecer seus direitos e participar das decisões sobre a assistência recebida (Jesus et al., 2025; Souza et al., 2021).

A garantia do acompanhante constitui igualmente uma estratégia relacionada à humanização e à proteção dos direitos da mulher. Os estudos analisados identificam o impedimento ou a restrição da presença do acompanhante como uma situação relacionada à violência institucional, ao mesmo tempo em que ressaltam a importância de garantir à parturiente a presença da pessoa de sua escolha durante o processo de parto (Ildefonso et al., 2025; Paula et al., 2020).

A educação em saúde durante o pré-natal também representa importante possibilidade de prevenção. Por meio de grupos, rodas de conversa e outras ações educativas, o enfermeiro pode abordar dúvidas, medos, direitos e aspectos relacionados ao processo de parto. Segundo Jesus et al. (2025), a educação em saúde permite ampliar o conhecimento das gestantes, reduzir incertezas e favorecer a construção da autonomia, do empoderamento e do protagonismo feminino (Jesus et al., 2025).

Nesse sentido, o estímulo à participação da mulher deve estar presente desde o acompanhamento pré-natal e permanecer durante o trabalho de parto, o parto e o puerpério. A assistência não deve restringir-se à execução de procedimentos, mas incluir diálogo, orientação e reconhecimento das necessidades individuais. Souza et al. (2021) ressaltam a importância de informar a mulher sobre seus direitos e de promover uma assistência humanizada ao longo de todo o ciclo gravídico-puerperal, favorecendo maior autonomia e participação no cuidado.

A reorganização do processo de trabalho também é necessária para que as estratégias humanizadas sejam incorporadas de maneira efetiva aos serviços. Araújo et al. (2024) destacam a necessidade de mudanças na gestão do cuidado e de fortalecimento de um modelo colaborativo e interprofissional, fundamentado em evidências científicas, humanização e garantia dos direitos sexuais, reprodutivos e humanos. A formação profissional constitui, nesse contexto, um dos elementos capazes de favorecer transformações no cotidiano da assistência (Araújo et al., 2024).

Assim, o cuidado humanizado configura-se como uma abordagem que articula acolhimento, comunicação, informação, apoio emocional, respeito à autonomia, participação da mulher nas decisões, utilização de métodos não farmacológicos e redução de intervenções desnecessárias. Para a enfermagem, essas estratégias representam possibilidades concretas de qualificar a assistência e contribuir para a prevenção da violência obstétrica, fortalecendo um modelo de cuidado centrado na mulher e fundamentado em práticas cientificamente sustentadas (Kassis et al., 2024; Jesus et al., 2025).

Considerações Finais

A atuação do enfermeiro frente à violência obstétrica mostra-se fundamental para a oferta de um cuidado mais humanizado e seguro, baseado no respeito, na autonomia feminina e na humanização da assistência durante o processo de parturição. O enfermeiro desempenha um papel relevante na prevenção e no enfrentamento da VO, especialmente por sua proximidade e contato contínuo com a mulher durante o ciclo gravídico-puerperal. Sua atuação não deve se limitar à realização de procedimentos técnicos, mas envolver acolhimento, escuta qualificada, comunicação efetiva, orientação sobre direitos, identificação de situações de desrespeito, estímulo à participação da mulher nas decisões e defesa de sua autonomia.

Os resultados deste estudo evidenciaram que a violência obstétrica apresenta desafios de caráter multidimensional e multiprofissional, podendo manifestar-se por meio de intervenções físicas desnecessárias, negligência, violência verbal e psicológica, procedimentos realizados sem consentimento, desrespeito à privacidade e à autonomia da mulher, além de situações relacionadas à organização institucional dos serviços de saúde. Os estudos também apontam a importância da educação permanente, da comunicação, da orientação durante o pré-natal, do acolhimento, da atuação multiprofissional e do respeito à autonomia feminina. Os objetivos propostos foram alcançados, uma vez que a literatura analisada permitiu identificar as principais manifestações da violência obstétrica, compreender a atuação e os desafios da enfermagem em sua prevenção e enfrentamento e apontar estratégias relacionadas ao cuidado humanizado e baseado em evidências.

A relevância do estudo para o campo profissional, acadêmico e social reforça que a atuação do enfermeiro deve estar fundamentada em princípios éticos, científicos e humanizados, articulando assistência, educação em saúde, comunicação e defesa dos direitos da mulher. Nesse sentido, a assistência de enfermagem contribui para que a mulher seja reconhecida como participante ativa do próprio cuidado.

Entre os desafios encontrados na pesquisa, destaca-se a necessidade de ampliar estudos que avaliem, de forma prática e sistemática, a efetividade das estratégias de enfermagem utilizadas na prevenção da VO. Dessa forma, novas pesquisas podem contribuir para a produção de evidências mais consistentes sobre intervenções capazes de transformar as práticas obstétricas e fortalecer uma assistência segura, ética e humanizada.

Conclui-se, portanto, que a prevenção da VO depende não apenas da atuação individual do enfermeiro, mas também da atuação dos demais profissionais de saúde, para o fortalecimento de uma cultura institucional comprometida com o respeito, a autonomia, a dignidade e a segurança da mulher. Nesse contexto, a qualificação profissional, a educação permanente, o trabalho multiprofissional e a participação ativa das mulheres constituem elementos importantes para a transformação das práticas obstétricas e para a construção de uma assistência mais segura, ética e humanizada.

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Copyright (c) 2026 Andrea Paula Vieira, Rafaella Silva de Moura, Rayana da Silva Pereira, Genilda Luana S. Almeida, Evanilda de Andrade Venâncio de Lima, Luana Duarte Rodrigues (Autor)

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