Resumo
Introdução: A dispareunia é caracterizada pela presença de dor associada à relação sexual e pode repercutir negativamente na qualidade de vida e na função sexual feminina. Entre as abordagens conservadoras, destaca-se a fisioterapia do assoalho pélvico, especialmente o treinamento dos músculos do assoalho pélvico (TMAP) associado ao biofeedback. Objetivo: Analisar as evidências científicas acerca dos efeitos do biofeedback associado ao TMAP na redução da dor e na melhora da função sexual em mulheres com dispareunia. Materiais e métodos: Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, com buscas realizadas nas bases PubMed/MEDLINE, SciELO e PEDro. Foram utilizados descritores relacionados à dispareunia, biofeedback, assoalho pélvico, TMAP e função sexual, combinados pelos operadores booleanos AND e OR. Foram considerados estudos publicados entre 2021 e 2026 e, após aplicação dos critérios de elegibilidade, 20 estudos compuseram a síntese final. Resultados: Os estudos demonstraram resultados predominantemente favoráveis para redução da dor, melhora do controle muscular e funcionalidade do assoalho pélvico. O TMAP apresentou benefícios em diferentes populações e o biofeedback mostrou-se um recurso complementar promissor, embora os resultados referentes à função sexual tenham sido heterogêneos. Conclusão: O biofeedback associado ao TMAP apresenta potencial para auxiliar no manejo fisioterapêutico da dispareunia, principalmente na redução da dor e na reeducação muscular. Entretanto, a heterogeneidade dos protocolos evidencia a necessidade de estudos mais padronizados para determinar sua contribuição específica.
Palavras-chave: Dispareunia. Biofeedback. Assoalho pélvico. Função sexual.
Fisioterapia.
Abstract
Background: Dyspareunia is characterized by pain associated with sexual intercourse and may negatively affect women's quality of life and sexual function.
Among conservative approaches, pelvic floor physical therapy stands out, particularly pelvic floor muscle training (PFMT) associated with biofeedback. Purpose: To analyze scientific evidence regarding the effects of biofeedback associated with PFMT on pain reduction and improvement of sexual function in women with dyspareunia. Methods: This is an integrative literature review based on searches conducted in PubMed/MEDLINE, SciELO, and PEDro. Descriptors related to dyspareunia, biofeedback, pelvic floor, pelvic floor muscle training, and sexual function were combined using the Boolean operators AND and OR. Studies published between 2021 and 2026 were considered and, after applying the eligibility criteria, 20 studies comprised the final synthesis. Results: The studies showed predominantly favorable results regarding pain reduction, improved muscle control, and pelvic floor functionality. PFMT demonstrated benefits in different populations, and biofeedback emerged as a promising complementary resource, although findings regarding sexual function were heterogeneous. Conclusion: Biofeedback associated with PFMT has potential as an adjunct in the physical therapy management of dyspareunia, particularly for pain reduction and muscle re-education. However, the heterogeneity of the protocols highlights the need for more standardized studies to determine its specific contribution.
Keywords: Dyspareunia. Biofeedback. Pelvic floor. Sexual function. Physical therapy.
- INTRODUÇÃO
A dispareunia é caracterizada pela presença de dor associada à relação sexual e pode provocar repercussões na qualidade de vida, no bem-estar e na função sexual feminina. Sua origem é multifatorial e pode envolver alterações musculoesqueléticas, emocionais e relacionais, sendo as disfunções dos músculos do assoalho pélvico um dos componentes considerados na avaliação e no tratamento fisioterapêutico. Nesse contexto, a fisioterapia pélvica tem apresentado resultados favoráveis principalmente para redução da dor e melhora de aspectos funcionais em mulheres com dispareunia (FERNÁNDEZ-PÉREZ et al., 2023; DEL FORNO et al., 2021).
Entre as estratégias fisioterapêuticas, destaca-se o treinamento dos músculos do assoalho pélvico (TMAP), empregado para aprimorar percepção, controle, coordenação e funcionalidade muscular. Evidências demonstram relação entre a função dessa musculatura e diferentes componentes da resposta sexual feminina. Jorge et al. (2024) identificaram melhora no escore total do Female Sexual Function Index e em domínios como excitação, orgasmo, satisfação e dor após o TMAP, enquanto Faucher et al. (2024) encontraram associação entre características funcionais dos músculos do assoalho pélvico e a função sexual (JORGE et al., 2024; FAUCHER et al., 2024).
O biofeedback pode ser associado ao TMAP como recurso auxiliar para favorecer a percepção da atividade muscular e o aprendizado adequado da contração e do relaxamento. Cyr et al. (2022) utilizaram exercícios dos músculos do assoalho pélvico com biofeedback dentro de uma intervenção multimodal destinada a mulheres com dispareunia, observando modificações favoráveis na função muscular. Cavalcanti et al. (2025), ao analisarem protocolos de TMAP destinados a mulheres com dispareunia e condições relacionadas, também identificaram o biofeedback entre as modalidades frequentemente associadas ao treinamento muscular (CYR et al., 2022; CAVALCANTI et al., 2025).
Apesar dos resultados promissores, ainda existem divergências quanto aos efeitos das intervenções sobre a função sexual e quanto à contribuição específica do biofeedback. Fernández-Pérez et al. (2023) encontraram resultados mais consistentes para redução da dor e melhora da qualidade de vida do que para função sexual, enquanto Jorge et al. (2024) identificaram benefícios do TMAP sobre diferentes componentes da função sexual, porém com limitações na certeza das evidências. Além disso, Cavalcanti et al. (2025) destacaram a heterogeneidade dos protocolos, dificultando estabelecer parâmetros terapêuticos uniformes (FERNÁNDEZ-PÉREZ et al., 2023; JORGE et al., 2024; CAVALCANTI et al., 2025).
Diante disso, apresenta-se como questão norteadora: quais são as evidências científicas acerca dos efeitos do biofeedback associado ao treinamento dos músculos do assoalho pélvico na redução da dor e na melhora da função sexual em mulheres com dispareunia? Assim, o objetivo deste estudo é analisar, por meio de uma revisão integrativa da literatura, as evidências científicas acerca dos efeitos do biofeedback associado ao treinamento dos músculos do assoalho pélvico na redução da dor e na melhora da função sexual em mulheres com dispareunia.
- MATERIAIS E MÉTODO
Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, desenvolvida com o objetivo de reunir e analisar evidências científicas acerca do biofeedback associado ao treinamento dos músculos do assoalho pélvico (TMAP) na redução da dor e melhora da função sexual em mulheres com dispareunia. A busca bibliográfica foi realizada nas bases PubMed/MEDLINE, Scientific Electronic Library Online (SciELO) e Physiotherapy Evidence Database (PEDro) considerando publicações do período de 2021 a 2026.
Para a estratégia de busca, foram utilizados descritores e termos relacionados ao tema, em português e inglês: “dispareunia” (dyspareunia), “biofeedback”, “assoalho pélvico” (pelvic floor), “treinamento dos músculos do assoalho pélvico” (pelvic floor muscle training) e “função sexual” (sexual function). Os termos foram combinados por meio dos operadores booleanos AND e OR, utilizando estratégias como: “dyspareunia AND biofeedback”; “dyspareunia AND pelvic floor muscle training”; “biofeedback AND pelvic floor muscle training AND sexual function”; e “dyspareunia AND (biofeedback OR pelvic floor muscle training)”. A utilização desses operadores possibilitou combinar os conceitos centrais e ampliar ou restringir os resultados conforme a estratégia empregada.
Foram considerados elegíveis artigos publicados entre 2021 e 2026, nos idiomas português, inglês ou espanhol, envolvendo mulheres adultas com dispareunia ou condições relacionadas à dor sexual e às disfunções do assoalho pélvico. Foram incluídos estudos que investigaram TMAP, biofeedback e outras intervenções fisioterapêuticas pertinentes ao tema e que apresentassem desfechos relacionados à dor, função sexual e/ou funcionalidade dos músculos do assoalho pélvico. Foram excluídos estudos duplicados, pesquisas exclusivamente com homens, publicações sem relação com a questão norteadora, estudos que não contemplassem os desfechos de interesse, editoriais, cartas ao editor, resumos de eventos e materiais sem informações suficientes para análise.
A seleção foi realizada inicialmente pela identificação das publicações nas bases consultadas, seguida da exclusão das duplicatas e da análise dos títulos e resumos. Posteriormente, os estudos potencialmente elegíveis foram avaliados na íntegra, considerando os critérios previamente estabelecidos. Ao final do processo, 20 estudos compuseram a síntese desta revisão integrativa, sendo organizados conforme autoria, ano, delineamento/população, intervenção ou foco e principais resultados. O processo de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão dos estudos encontra-se apresentado no Fluxograma 1.
Os dados foram analisados de forma descritiva e comparativa, buscando identificar convergências e divergências relacionadas à redução da dor, função sexual e funcionalidade do assoalho pélvico, com atenção especial ao TMAP e à utilização do biofeedback como recurso associado.
Fonte: Elaborado pelas autoras (2026).
3 RESULTADOS
A análise dos estudos selecionados evidenciou diferentes abordagens fisioterapêuticas direcionadas à dispareunia, à dor sexual, à função sexual e às alterações dos músculos do assoalho pélvico. A amostra final foi constituída por 20 estudos, incluindo ensaios clínicos, estudos prospectivos e observacionais e revisões sistemáticas, com destaque para intervenções envolvendo treinamento dos músculos do assoalho pélvico (TMAP), biofeedback e outras modalidades fisioterapêuticas associadas.
Os estudos apresentaram diferenças quanto às populações investigadas, duração das intervenções, protocolos empregados e instrumentos utilizados para avaliação. De modo geral, foram observados resultados favoráveis principalmente para redução da dor, melhora do controle muscular e funcionalidade do assoalho pélvico, enquanto os achados relacionados à função sexual apresentaram maior heterogeneidade. As características e os principais resultados dos estudos incluídos encontram-se apresentados no Quadro 1.
Quadro 1 – Síntese dos estudos selecionados sobre fisioterapia pélvica, biofeedback, dor e função sexual feminina.
Nº | Autor/Ano | Delineamento / população | Intervenção ou foco | Principais resultados |
|---|---|---|---|---|
1 | Del Forno et al. (2021) | Ensaio clínico randomizado; 34 mulheres com endometriose infiltrativa profunda e dispareunia superficial | Fisioterapia dos músculos do assoalho pélvico | Demonstrou efeitos sobre parâmetros relacionados ao relaxamento dos músculos do assoalho pélvico em mulheres com dispareunia. |
2 | Franco et al. (2021) | Ensaio clínico randomizado; 77 mulheres pós menopáusicas | TMAP supervisionado durante 12 semanas | O protocolo reduziu a proporção de mulheres classificadas com disfunção sexual, embora não tenham ocorrido diferenças significativas em todos os escores do FSFI. |
3 | Wu et al. (2021) | Estudo com 75 primíparas após laceração perineal de segundo grau | TMAP assistido por biofeedback eletromiográfico | Não identificou benefício adicional significativo do biofeedback para a função sexual no período pós-parto, mostrando que os resultados desse recurso não são uniformes entre populações. |
4 | Gumussoy et al. (2021) | Ensaio clínico randomizado; 51 mulheres | TMAP guiado por biofeedback eletromiográfico, com ou sem estimulação magnética | Investigou função sexual, força muscular, qualidade de vida e sintomas urinários; ambos os grupos receberam treinamento muscular com biofeedback. |
|---|---|---|---|---|
5 | JahshanDoukhy e Bornstein (2021) | Estudo de acompanhamento ; mulheres com vulvodínia provocada | Fisioterapia do assoalho pélvico | Identificou benefícios de longo prazo após fisioterapia em condição intimamente relacionada à dispareunia de entrada. |
6 | Miles e Miles (2021) | Análise retrospectiva; 26 mulheres com dispareunia | Terapia com dilatadores integrada à fisioterapia pélvica | A dor média diminuiu de 8,3 para 1,3, e 58% das participantes relataram resolução completa da dispareunia. |
7 | Cyr et al. (2022) | Estudo prospectivo; 31 sobreviventes de câncer ginecológico com dispareunia | Educação + exercícios do assoalho pélvico com biofeedback + terapia manual + exercícios domiciliares | Foram verificadas alterações favoráveis na morfometria e na função muscular após 12 sessões de fisioterapia multimodal. |
8 | Cyr et al. (2022) | Estudo de acompanhamento de 1 ano; 31 mulheres com Dispareunia após câncer ginecológico. | Fisioterapia pélvica multimodal | Os benefícios relacionados à dor e aos desfechos psicosexuais foram mantidos no acompanhamento de um ano. |
9 | Cyr et al. (2022) | Estudo qualitativo; 28 sobreviventes de câncer ginecológico com dispareunia | Fisioterapia multimodal do assoalho pélvico | As participantes relataram boa aceitabilidade do tratamento e satisfação com os efeitos percebidos. |
|---|---|---|---|---|
10 | Van Reijn- Baggen et al. (2022) | Revisão sistemática sobre hipertonia do assoalho pélvico | Fisioterapia pélvica | Evidenciou benefícios da fisioterapia em condições associadas à hipertonia, incluindo vulvodínia e dispareunia, embora tenha apontado necessidade de estudos de melhor qualidade. |
11 | Celenay, Karaaslan e Ozdemir (2022) | Ensaio randomizado; mulheres com bexiga hiperativa | TMAP durante 6 semanas | Houve melhora dos domínios do FSFI, inclusive dor sexual, além de melhora da força muscular do assoalho pélvico. |
12 | SCHÜTZE et al. (2022) | Estudo prospectivo randomizado; 300 primíparas, com 200 participantes avaliadas no seguimento. | Treinamento e percepção dos músculos do assoalho pélvico no período pós-parto. | Houve aumento da força dos músculos do assoalho pélvico, porém o treinamento supervisionado não apresentou vantagem significativa sobre o grupo controle em relação à função sexual. |
13 | Fernández- Pérez et al. (2023) | Revisão sistemática e meta-análise; 19 artigos | Fisioterapia para dispareunia | Encontrou benefícios especialmente sobre dor e qualidade de vida; os resultados para função sexual foram menos consistentes. |
|---|---|---|---|---|
14 | NASCIMEN TO et al. (2024) | Revisão sistemática; 7 estudos envolvendo 477 mulheres com vulvodínia. | Intervenções fisioterapêuticas, incluindo biofeedback eletromiográfico, exercícios e outros recursos terapêuticos. | As intervenções apresentaram resultados favoráveis para redução da dor e para alguns aspectos da função sexual, embora tenha sido observada heterogeneidade entre os estudos. |
15 | Faucher et al. (2024) | Revisão sistemática e meta-análise; 33 estudos | Papel dos músculos do assoalho pélvico na resposta e função sexual | Dez dos 14 estudos de intervenção demonstraram efeito significativo de modalidades direcionadas ao assoalho pélvico; também houve associação entre força muscular e função sexual. |
16 | Jorge et al. (2024) | Revisão sistemática e meta-análise; 21 ensaios clínicos | TMAP para disfunção sexual feminina | O treinamento melhorou escore total do FSFI e domínios como excitação, orgasmo, satisfação e dor, porém com baixa certeza da evidência. |
17 | Wang, Wang e Li (2024) | Estudo prospectivo; 73 mulheres após histerectomia total | TMAP isolado versus TMAP associado a biofeedback EMG | O grupo com biofeedback apresentou melhora maior no FSFI do que o grupo submetido apenas ao treinamento muscular. |
18 | CALAFIORE et al. (2024) | Revisão sistemática e meta-análise; 9 estudos, 332 pacientes | Diferentes modalidades de reabilitação | A análise global demonstrou redução da dor associada à vulvodínia, reforçando o papel de intervenções conservadoras em condições que cursam com dor sexual. |
19 | LAU; SU; HWANG (2024) | Estudo observacional; 61 mulheres | TMAP com biofeedback e eletroestimulação intravaginal | Houve melhora significativa da função muscular, mas não da função sexual global, mostrando divergência entre melhora muscular e resposta sexual. |
20 | Cavalcanti et al. (2025) | Revisão sistemática; 17 estudos e 963 mulheres | Protocolos de TMAP em mulheres com dispareunia, vulvodínia, dor pélvica e/ou disfunção sexual | Evidenciou grande heterogeneidade dos protocolos e identificou o biofeedback como a terapia associada ao TMAP mais frequentemente relatada. |
Fonte: Elaborado pelas autoras (2026).
Os estudos demonstraram resultados predominantemente favoráveis para a redução da dor, melhora do controle muscular e funcionalidade do assoalho pélvico. Del Forno et al. (2021) e Cyr et al. (2022) identificaram benefícios relacionados à função e ao relaxamento muscular, enquanto Fernández-Pérez et al. (2023) encontrou resultados favoráveis das intervenções fisioterapêuticas principalmente para dor e qualidade de vida.
Quanto à função sexual, os achados foram heterogêneos. Jorge et al. (2024) identificaram melhora de diferentes domínios após o TMAP, enquanto outros estudos não observaram benefícios significativos em todas as populações avaliadas. O biofeedback mostrou-se um recurso complementar promissor, porém seus efeitos variaram de acordo com as características das participantes e dos protocolos empregados (WU et al., 2021; WANG; WANG; LI, 2024; CAVALCANTI et al., 2025).
- DISCUSSÃO
Os estudos analisados demonstram que a fisioterapia direcionada ao assoalho pélvico apresenta resultados relevantes no manejo da dispareunia, sobretudo quanto à redução da dor e à melhora da funcionalidade muscular. Del Forno et al. (2021) identificaram alterações favoráveis no relaxamento dos músculos do assoalho pélvico, enquanto Cyr et al. (2022) observaram melhora de parâmetros musculares após intervenção multimodal. Esses resultados são compatíveis com Fernández-Pérez et al. (2023), que encontraram evidências favoráveis principalmente para dor e qualidade de vida (DEL FORNO et al., 2021; CYR et al., 2022; FERNÁNDEZ-PÉREZ et al., 2023).
O TMAP também apresenta relevância para a função sexual feminina. Jorge et al. (2024) identificaram melhora do escore total do Female Sexual Function Index e de domínios como excitação, orgasmo, satisfação e dor. Faucher et al. (2024) encontraram relação entre aspectos funcionais dos músculos do assoalho pélvico e a resposta sexual, enquanto Cavalcanti et al. (2025) verificaram a utilização do TMAP em diferentes protocolos destinados à dispareunia e condições relacionadas. Entretanto, a diversidade dos protocolos limita a generalização dos resultados (JORGE et al., 2024; FAUCHER et al., 2024; CAVALCANTI et al., 2025).
Em relação ao biofeedback, as evidências sugerem potencial como recurso complementar ao treinamento muscular. Cyr et al. (2022) empregaram exercícios associados ao biofeedback em uma intervenção multimodal, enquanto Wang, Wang e Li (2024) observaram maior melhora da função sexual com TMAP associado ao biofeedback eletromiográfico do que com treinamento isolado em outra população clínica. Em contrapartida, Wu et al. (2021) não identificaram benefício adicional significativo sobre a função sexual, demonstrando que a resposta pode variar conforme população e protocolo (CYR et al., 2022; WANG; WANG; LI, 2024; WU et al., 2021).
A redução da dor foi um dos achados mais consistentes. Miles e Miles (2021) observaram redução da intensidade da dor após terapia com dilatadores integrada à fisioterapia, enquanto Jahshan-Doukhy e Bornstein (2021) identificaram benefícios de longo prazo em mulheres com vulvodínia provocada. Fernández-Pérez et al. (2023) também encontraram resultados favoráveis para dor ao analisarem diferentes intervenções fisioterapêuticas, reforçando a importância das abordagens conservadoras direcionadas ao assoalho pélvico (MILES; MILES, 2021; JAHSHANDOUKHY; BORNSTEIN, 2021; FERNÁNDEZ-PÉREZ et al., 2023).
Os resultados relativos à função sexual foram menos uniformes. Jorge et al. (2024) identificaram benefícios após o TMAP, enquanto Del Forno et al. (2024) não observaram diferença significativa na função sexual global após fisioterapia pélvica em mulheres com endometriose profunda. Fernández-Pérez et al. (2023) também encontraram resultados menos consistentes para esse desfecho em comparação à redução da dor. Dessa forma, a melhora da função muscular e da dor não implica necessariamente melhora proporcional de todos os componentes da sexualidade feminina (JORGE et al., 2024; DEL FORNO et al., 2024; FERNÁNDEZ-PÉREZ et al., 2023).
Por fim, a heterogeneidade metodológica constitui uma importante limitação. Fernández-Pérez et al. (2023) identificaram diferenças entre técnicas, populações e instrumentos de avaliação; Jorge et al. (2024) apontaram limitações na certeza das evidências relacionadas ao TMAP e à função sexual; e Cavalcanti et al. (2025) verificaram variabilidade na prescrição dos exercícios e nas modalidades associadas. Assim, embora o biofeedback associado ao TMAP apresente potencial terapêutico, são necessários estudos com protocolos mais padronizados para determinar sua contribuição específica no tratamento da dispareunia (FERNÁNDEZ-PÉREZ et al., 2023; JORGE et al., 2024; CAVALCANTI et al., 2025).
- CONCLUSÃO
A análise das evidências demonstra que a fisioterapia direcionada ao assoalho pélvico apresenta resultados favoráveis no manejo da dispareunia, principalmente quanto à redução da dor e à melhora de aspectos funcionais da musculatura pélvica. O TMAP constitui uma importante estratégia terapêutica, enquanto o biofeedback apresenta potencial como recurso complementar para favorecer a percepção e o controle muscular. Entretanto, os resultados relacionados à função sexual permanecem heterogêneos.
Conclui-se que o biofeedback associado ao TMAP constitui uma estratégia promissora, porém as evidências disponíveis ainda não permitem estabelecer sua superioridade em relação ao treinamento isolado ou a outras intervenções. A heterogeneidade dos protocolos reforça a necessidade de novos estudos clínicos com métodos padronizados e avaliação específica da dor e da função sexual em mulheres com dispareunia.
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