RESUMO
A Educação Física e a aptidão física no âmbito do serviço operacional do policial militar desempenham um papel fundamental na preparação física deste profissional, considerando as exigências físicas e psicológicas inerentes à atividade policial, compreendendo-se o grau de importância em ocorrências de maior complexidade, que exigem maior esforço físico, mental e agilidade, além de ocorrências que demandam muitas horas em uma mesma posição física. O exercício da função pode envolver, entre outros, perseguições, deslocamentos prolongados, abordagens enérgicas, contenção de indivíduos, patrulhamento e atuação em situações de risco, que, além de o militar ter que pensar rápido, exigem força, resistência cardiorrespiratória, velocidade, agilidade, coordenação motora e equilíbrio. Nesse contexto, ao analisar textos, artigos, regulamentos e orientações referentes à aptidão física e à relação com o trabalho operacional do policial militar, conclui-se que a prática regular e orientada de exercícios físicos contribui para o desenvolvimento das capacidades físicas necessárias à melhora significativa no desempenho das atividades operacionais, favorecendo a eficiência profissional, a segurança individual e coletiva e a capacidade de resposta diante de situações adversas. Além disso, a prática regular de exercícios físicos pode auxiliar na prevenção de lesões, na redução dos efeitos do sedentarismo e na promoção da saúde e da qualidade de vida do policial militar. Sendo assim, a Educação Física, portanto, não deve ser compreendida apenas como uma atividade complementar, mas como parte integrante de suma importância da formação, do aperfeiçoamento e da valorização profissional, o incentivo por parte da instituição ao treinamento físico planejado, a testes de aptidão física regulares traz melhora no desempenho operacional e contribui para a prestação de um serviço de segurança pública mais eficiente e seguro.
Palavras-chave: Aptidão física. Policial militar. Desempenho operacional. Educação física.
ABSTRACT
Physical education and physical fitness play a fundamental role in the physical preparation of military police officers for operational duty, given the physical and psychological demands inherent to police work—particularly in complex incidents requiring significant physical and mental effort and agility, or in situations requiring officers to remain in a single physical position for extended periods. Performing these duties may involve, among other things, pursuits, prolonged movement, forceful interventions, suspect restraint, patrolling, and operating in high-risk situations; these tasks require not only quick thinking but also strength, cardiorespiratory endurance, speed, agility, motor coordination, and balance. An analysis of texts, articles, regulations, and guidelines regarding physical fitness and its relationship to operational police work reveals that regular, guided physical exercise fosters the development of the physical capabilities needed to significantly improve operational performance, thereby enhancing professional efficiency, individual and collective safety, and the ability to respond to adverse situations. Furthermore, regular physical exercise can help prevent injuries, mitigate the effects of a sedentary lifestyle, and promote the health and quality of life of military police officers. Therefore, physical education should not be viewed merely as a supplementary activity but as a vital, integral component of training, professional development, and career enhancement; institutional encouragement of planned physical training and regular fitness testing improves operational performance and contributes to the delivery of more efficient and safer public security services.
Keywords: Physical fitness. Military police officer. Operational performance. Physical education.
1. INTRODUÇÃO
A segurança pública constitui uma atividade essencial de proteção de toda a sociedade e de manutenção da ordem pública, a qual é desempenhada por profissionais que são submetidos a diferentes demandas físicas, técnicas e também operacionais. Entre esses profissionais, os policiais militares exercem variadas atividades que podem envolver deslocamentos rápidos, patrulhamento, abordagens, acompanhamento e contenção de indivíduos, prisões, atuação em ocorrências de maior complexidade e utilização de equipamentos que podem aumentar a exigência física durante o serviço. Diante disso entende-se a importância da preparação deste profissional, a qual não se limita apenas ao domínio técnico e tático, mas abrange também condições físicas compatíveis com as demandas próprias da atividade policial.
A aptidão física pode ser compreendida como um conjunto de diversas características, as quais estão relacionadas à capacidade do indivíduo de realizar atividades físicas e desempenhar determinadas tarefas desde as mais simples, até aquelas que requerem maior aptidão do sujeito. No contexto policial, diferentes componentes da aptidão física assumem esta importância, incluindo força muscular, resistência muscular, capacidade cardiorrespiratória, potência, velocidade, agilidade e flexibilidade, além de proatividade e rapidez na tomada de decisão. Componentes estes são elementos frequentemente avaliados na profissão, destacando a relevância de programas destinados à manutenção ou melhoria da aptidão física para a saúde e para o desempenho de tarefas específicas da atividade desempenhada pelo policial.
A relação entre preparação física e atividade profissional merece destaque e atenção pois as tarefas policiais apresentam características importantes e diferentes das atividades ocupacionais convencionais tendo em vista o fato de que o policial pode permanecer durante períodos prolongados em situação de baixa demanda física e, posteriormente, necessitar executar uma ação de elevada intensidade em curto espaço de tempo, devido às exigências do trabalho, em situações de risco ao próprio policial e à sociedade. Dessa maneira, compreende-se a importância da preparação física do profissional de segurança pública, a qual precisa considerar não apenas a condição física geral, mas também as características específicas das tarefas que são desenvolvidas no cotidiano profissional. Observa-se em revisões da literatura sobre profissionais de segurança que destacam a utilização de avaliações que contemplam tanto componente geral da aptidão física além de testes que procuram reproduzir tarefas relacionadas à atividade policial que são de grande valia neste contexto. O profissional de segurança pública precisa estar sempre pronto para intervir e resolver demandas, muitas ocorrências evoluem rapidamente colocando o policial em risco e algumas vezes infelizmente deixando sequelas permanentes.
Nesse cenário, a Educação Física apresenta papel de grande relevância na preparação profissional, uma vez que dispõe de conhecimentos relacionados à avaliação, prescrição e acompanhamento do exercício físico, aliado à alimentação saudável, o cuidado com o físico permite, além de uma boa forma física do profissional, qualidade de vida e hábitos saudáveis. A atuação sistematizada nessa área contribui para o desenvolvimento das capacidades físicas necessárias ao desempenho profissional, além da manutenção da condição física ao longo da carreira.
Além do desempenho operacional, a preparação física e o condicionamento físico devem ser analisados sob a perspectiva da saúde e da prevenção de lesões. Um recente estudo realizado com policiais militares em formação no Estado de São Paulo acompanhou profissionais de segurança pública deste estado por 54 semanas em treinamento físico e verificou melhora em indicadores como consumo máximo de oxigênio, resistência muscular localizada, força e velocidade. Entretanto, o presente estudo também registrou algumas ocorrências de lesões musculoesqueléticas durante o período analisado, demonstrando que a relação entre treinamento, aptidão física e prevenção de lesões exige planejamento e acompanhamento adequados conforme o autor (ARAÚJO et al., 2017).
A questão referente à preparação física do policial militar não deve ser compreendida exclusivamente de maneira a ser uma exigência relacionada ao desempenho em testes de aptidão física, sendo assim é importante compreender que se trata de um processo que pode envolver a promoção da saúde, a manutenção da capacidade funcional, além da preparação para demandas ocupacionais específicas e ainda redução de fatores que possam comprometer a continuidade e melhoria do exercício profissional. Nesse sentido, destaca-se a necessidade de implementar programas de saúde e condicionamento físico destinados a policiais, considerando indicadores de saúde e desempenho ao longo da carreira.
A literatura científica em questão referente à segurança pública demonstra uma preocupação crescente com a saúde dos agentes de segurança. Uma revisão sistemática global sobre os profissionais da área de segurança pública evidenciou que a maior parte das pesquisas se concentra na força e na capacidade cardiorrespiratória dos agentes (Marins et al., 2019). Complementando esse cenário, é importante analisar a realidade europeia; Massuça et al. (2022) apontaram a necessidade urgente de padronizar testes que avaliem não apenas a aptidão física, mas também indicadores de saúde cardiovascular ao longo da carreira de profissionais da área de segurança pública. Em contrapartida no cenário brasileiro, essa preocupação se justifica na prática: o acompanhamento de alunos em formação conduzido por Araújo et al. (2017) revelou os seguintes dados: embora o treinamento melhore a valência física, este gera uma taxa expressiva de 45,3% de lesões musculoesqueléticas.
Diante desse contexto, compreende-se a relevância do cuidado com a aptidão física e desempenho operacional de policiais militares, considerando a contribuição da Educação Física para a preparação profissional, que, aliada aos cuidados básicos com a saúde preventiva e alimentação, contribui para melhoria significativa no desempenho físico do policial.
2. DESENVOLVIMENTO
A atuação do policial na segurança pública impõe uma rotina de elevado estresse psicofisiológico, o que faz com que os programas institucionais de promoção da saúde sejam uma necessidade premente para a longevidade da carreira dos agentes do estado. Avaliando os impactos de um programa de bem-estar direcionado a forças policiais, Lockie, Dawes e Orr (2022) constataram que, embora a maioria dos profissionais apresentasse níveis satisfatórios de aptidão física (força e capacidade aeróbica) em comparação à população geral, uma parcela alarmante (entre 74% e 86%) exibia níveis pressóricos acima da normalidade. Diante deste resultado tem-se a necessidade de que o papel da Educação Física na segurança pública deva transcender o mero ganho de performance física e condicionamento físico, mas a realização de atividades físicas deve ser contínua com monitoramento e controle de fatores de risco cardiovasculares agravados pelo estresse tático e ocupacional.
O profissional de segurança pública atua diariamente sob estresse, dentro e fora da instituição, o fato de estar o tempo todo em estado de vigilância, sempre atento e pronto em qualquer situação e qualquer momento, o sistema nervoso do policial militar "aprende" a nunca desligar, mantendo o corpo em estado de alerta e inundado de cortisol e adrenalina mesmo em momentos de folga ou com a família, ou seja, o profissional não desliga o que gera o estresse ocupacional, sobrecarregando a saúde cardiovascular e a necessidade de exercícios físicos regenerativos (LOCKIE, 2022).
A atividade policial militar caracteriza-se por apresentar variadas demandas físicas, psicológicas e cognitivas que exigem do profissional preparo e aptidão adequados para o desempenho de suas atividades. Ao exercer a atividade operacional, o policial pode ser submetido a situações que envolvem agilidade, deslocamentos rápidos, perseguições, abordagens, contenção física, condução de indivíduos, transposição de obstáculos, exercícios que demandam força e permanência prolongada em determinadas posições e situações, além de atuação em ambientes adversos. Diante disso, estar bem fisicamente constitui um dos elementos fundamentais para que o policial militar possa desempenhar suas funções com segurança e eficiência reduzindo assim risco de lesões.
Estar bem fisicamente vai além do fato de ser uma exigência institucional, mas como parte integrante da preparação profissional, o policial militar é visto 24 horas por dia e a população tem confiança em que se houver alguma situação fora da normalidade é este profissional que vai resolver a situação, incluindo as mais variadas situações de risco. Diferentemente de atividades ocupacionais predominantemente sedentárias, onde há pouca observância às necessidades de ter uma boa aptidão física, o trabalho policial pode exigir respostas físicas imediatas e imprevisíveis. Um exemplo clássico é aquela ocorrência aparentemente simples que pode vir a evoluir rapidamente para uma situação de perseguição ou confronto, exigindo do profissional agilidade, capacidade de correr, mudar de direção, superar obstáculos, controlar fisicamente um indivíduo e permanecer em ocorrências delicadas durante longos períodos.
A aptidão física está diretamente relacionada à capacidade de realizar atividades físicas e tarefas cotidianas com eficiência, sem fadiga excessiva, sendo influenciada por fatores relacionados à condição física e ao estilo de vida (NAHAS, 2017). Nesse contexto, estar bem fisicamente melhora a capacidade do indivíduo de realizar suas atividades cotidianas e profissionais com eficiência e eficácia, apresentando condições para responder adequadamente às demandas impostas pelo ambiente. São muitos os fatores relacionados ao desempenho físico, pode-se destacar como um conjunto de componentes sendo a resistência cardiorrespiratória, força muscular, resistência muscular, flexibilidade, velocidade, agilidade, coordenação motora e composição corporal. Quando se trata do policial militar, o desenvolvimento equilibrado dessas capacidades pode contribuir para uma melhor resposta diante das exigências específicas da atividade operacional desempenhada por este.
A força muscular, por exemplo, é um componente essencial no desempenho da atividade policial operacional, tendo em vista situações como contenção e condução de indivíduos, transposição de obstáculos, deslocamento de equipamentos e manutenção de determinadas posições corporais. Da mesma forma, a resistência cardiorrespiratória é de suma importância em situações que demandam resistência e maior fôlego como por exemplo, em situações que exigem deslocamentos prolongados ou esforços sucessivos, possibilitando que o policial mantenha sua capacidade de atuação mesmo após períodos de maior exigência física.
A agilidade e a velocidade também constituem capacidades relevantes no desempenho do profissional. Em uma perseguição a pé, por exemplo, o profissional pode precisar acelerar, reduzir a velocidade, realizar mudanças rápidas de direção, movimentos bruscos, superar obstáculos e adaptar-se às características do terreno e do ambiente ao qual foi exposto. Situações estas demonstram que estar preparado fisicamente deve considerar não apenas exercícios realizados de maneira isolada, mas também atividades com maior intensidade que apresentem características próximas às demandas encontradas no serviço policial.
Outro aspecto importante refere-se à composição corporal, onde o excesso de gordura corporal e a baixa quantidade de massa muscular podem comprometer a eficiência dos movimentos executados e aumentar a sobrecarga sobre estruturas musculoesqueléticas durante a realização de esforços físicos. Por outro lado, quando há uma composição corporal adequada, associada ao desenvolvimento das diferentes capacidades físicas, esta pode favorecer a mobilidade, a resistência e a execução das tarefas profissionais com maior eficiência.
A manutenção de bons níveis de aptidão física e bom preparo físico também possui relação com a prevenção de lesões. O policial militar está sujeito a variadas situações como movimentos bruscos, corridas, quedas, deslocamentos em diferentes tipos de terreno e esforços físicos inesperados. Quando este profissional é bem acondicionado fisicamente, tende a apresentar melhores condições para suportar essas demandas. Nesse sentido, praticar atividade física regularmente pode contribuir não somente para o desempenho durante as ocorrências, mas também para a preservação da capacidade laboral ao longo da carreira.
É importante destacar, ainda, que estar fisicamente preparado não significa apenas estar apto ou apresentar bons resultados em testes de aptidão física. O preparo físico deve ser contínuo e compatível com as necessidades reais da atividade profissional. O policial precisa desenvolver capacidades físicas que possam ser utilizadas de maneira funcional durante o serviço e as atividades atinentes, considerando as características de sua rotina, o tipo de policiamento realizado, os equipamentos utilizados, fardamento e as diferentes situações às quais está sujeito.
A Educação Física possui papel fundamental nesse processo. Por meio da atuação do profissional de Educação Física, é possível realizar avaliações, identificar limitações, estabelecer objetivos individuais, realizar um plano de treinamento adequado às necessidades dos policiais. O planejamento sistemático é de suma importância neste contexto pois permite trabalhar diferentes componentes da aptidão física, respeitando os princípios do treinamento e as características individuais de cada profissional.
A prática regular de atividade física vai além dos benefícios relacionados ao desempenho operacional, pode contribuir para a manutenção da qualidade de vida do policial. A rotina profissional de um policial pode envolver jornadas diferenciadas, períodos prolongados em serviço, exposição a situações de estresse e exigências físicas e emocionais. A atividade física, atualmente indispensável à qualidade de vida, tem muitos fatores positivos melhorando o humor, promovendo sensação de prazer e realização quando realizada de maneira adequada, constitui uma importante estratégia de promoção da saúde e manutenção da capacidade funcional (NAHAS, 2017).
Portanto, a aptidão física deve ser compreendida como parte essencial da preparação do policial militar para o dia a dia. Estar fisicamente preparado significa possuir melhores condições para responder às demandas do serviço, proteger a própria integridade física, auxiliar na segurança dos colegas, melhorar a saúde cardiorrespiratória e motora, além de atuar de maneira mais eficiente em benefício da sociedade. Dessa forma, o treinamento físico não deve ser visto como uma atividade complementar ou secundária, mas como componente primordial e permanente da formação, capacitação e manutenção profissional do policial militar.
Nesse sentido, pode-se compreender a importância de investir na preparação física dos policiais, a qual representa também um investimento institucional. Policiais com melhores níveis de aptidão física podem apresentar melhores condições para enfrentar as demandas operacionais, maior produtividade, reduzir determinados riscos relacionados à execução das atividades, promovendo maior segurança a si e à equipe à qual pertencem e preservar sua capacidade de trabalho durante a carreira. Assim, a Educação Física assume papel estratégico na preparação profissional deste policial, contribuindo para que o mesmo esteja não apenas tecnicamente capacitado, mas também fisicamente preparado para as situações que poderá enfrentar no exercício de sua função diariamente.
3. METODOLOGIA
O presente estudo caracteriza-se por ser uma pesquisa de natureza qualitativa, de caráter descritivo e abordagem bibliográfica, foi desenvolvido com o objetivo de analisar a importância da aptidão física para o desempenho das atividades profissionais dos policiais militares, além da questão de como compreender a contribuição da Educação Física para a preparação e manutenção da capacidade operacional desses profissionais no dia a dia. A pesquisa bibliográfica foi realizada a partir de informações, levantamento e da análise de produções científicas relacionadas à aptidão física, além do treinamento físico, desempenho profissional, atividade policial militar, saúde ocupacional e preparação física de profissionais de segurança pública. Diante de materiais analisados, foram considerados livros, artigos científicos, trabalhos acadêmicos, documentos institucionais, obras e publicações relacionadas à área de Educação Física e Segurança Pública (BRASIL, 2023).
Para a fundamentação do presente estudo, também foram consultados documentos legais, sites e normativos relacionados à formação e à atividade profissional dos policiais militares, e profissionais da área de segurança pública buscando compreender de que maneira a preparação física está inserida no contexto da formação e do exercício profissional. A utilização de documentos sobre o tema em questão permite relacionar os conhecimentos produzidos pela literatura científica às exigências institucionais da atividade policial.
A seleção do material bibliográfico para estudo e formação de dados considerou como critérios de inclusão publicações que apresentassem relação direta ou indireta com os seguintes temas: aptidão física, capacidades físicas, treinamento físico, desempenho operacional, atividade policial, atividade física, saúde e qualidade de vida do policial militar e Educação Física aplicada à preparação profissional. Foram priorizadas fontes científicas e institucionais consideradas pertinentes ao objetivo da pesquisa dos últimos dez anos, sendo conteúdos que abrangem diretamente o profissional de segurança pública com ênfase na atividade policial militar.
Além da literatura científica, que faz referência ao tema, foram analisados documentos legais e normativos relacionados à formação e ao exercício profissional dos policiais militares. A Lei nº 14.751, de 12 de dezembro de 2023, que institui a Lei Orgânica Nacional das Polícias Militares e dos Corpos de Bombeiros Militares, estabelece diretrizes relacionadas à formação, ao treinamento e ao aperfeiçoamento dos integrantes dessas instituições, reforçando a necessidade de compreender a preparação profissional de maneira ampla e permanente (BRASIL, 2023).
Como critérios de exclusão, foram desconsiderados materiais que não apresentassem relação com a temática proposta, arquivos, obras e publicações antigas, além de publicações sem informações suficientes para sua utilização acadêmica e conteúdos cuja abordagem não contribuísse para a compreensão da relação entre preparação física e atividade policial. A análise do material que foi selecionado ocorreu por meio da leitura exploratória, seletiva e analítica das fontes encontradas, sendo que, inicialmente, realizou-se a identificação das publicações relacionadas ao tema; e em sequência, foram selecionados os conteúdos considerados relevantes para os objetivos do presente estudo. As informações foram organizadas em categorias temáticas, de maior relevância, permitindo discutir a importância da aptidão física, as principais capacidades físicas necessárias ao trabalho policial e a contribuição do treinamento físico sistematizado para o desempenho do profissional.
A abordagem qualitativa possibilitou interpretar os conhecimentos encontrados na literatura, além de buscar compreender a relação entre a condição física do policial e as demandas correlacionadas no exercício de suas funções. Dessa maneira, o estudo sobre a aptidão física e o desempenho operacional dos policiais militares não se restringiu à análise quantitativa de índices de desempenho, mas procurou compreender a aptidão física como um componente da preparação profissional, incluindo a capacidade operacional do policial militar. Por se tratar de uma pesquisa bibliográfica e documental, sem realização de entrevistas, ou aplicação de questionários ou intervenção direta com seres humanos, o presente estudo não envolveu coleta de dados primários junto a policiais militares. A análise foi desenvolvida exclusivamente a partir das fontes bibliográficas, científicas, obras, livros e documentais selecionadas.
Sendo assim, a metodologia adotada pela autora permitiu reunir e analisar diferentes contribuições teóricas sobre o tema exposto, incluindo a preparação física dos profissionais de segurança pública e possibilitando uma reflexão acerca da importância da Educação Física na formação, capacitação e manutenção da aptidão física dos policiais militares. A partir dessa análise, compreende-se a importância de estar se exercitando regularmente, almejando maior qualidade de vida e segurança para o profissional, seus dependentes e colegas de trabalho, buscou-se demonstrar que o desenvolvimento das capacidades físicas pode constituir um elemento relevante de grande importância para o desempenho operacional, para a segurança durante o serviço e para a manutenção da capacidade funcional ao longo da carreira policial e após a aposentadoria.
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise das produções científicas, materiais bibliográficos e dos documentos selecionados permitiu identificar que a aptidão física constitui um importante componente da preparação profissional do policial militar. Os estudos analisados nos permitem compreender e entender as características da atividade policial, que exigem diferentes capacidades físicas do profissional, especialmente força muscular, resistência cardiorrespiratória, resistência muscular, velocidade e agilidade. Tais capacidades estão relacionadas à possibilidade de o policial responder adequadamente de forma rápida e precisa às situações operacionais que podem surgir durante o exercício de suas funções.
Os resultados encontrados durante o estudo sobre a atividade física e a relação direta com atividade do policial militar na literatura demonstram que a preparação física sistematizada pode produzir efeitos positivos nas atividades sobre o desempenho dos policiais. Araújo et al. (2017), no presente estudo ao analisarem policiais militares submetidos a um período prolongado de treinamento físico, atividade física, identificaram melhorias em diferentes componentes da aptidão física, destacando-se o consumo máximo de oxigênio, força, resistência muscular e agilidade. Esse resultado obtido através deste estudo reforça a importância de programas de treinamento estruturados e contínuos para a preparação profissional. A atividade policial possui características distintas de outras profissões, onde o cenário do trabalho pode sofrer mudanças em questão de segundos, determinadas ocorrências exigem respostas físicas rápidas e eficientes, respostas estas que são fatores determinantes para o sucesso da missão, seja para salvar uma vida, ou para evitar um fato catastrófico. Situações como perseguições, abordagens, contenção de indivíduos, deslocamentos em terrenos irregulares, salvar vidas, transposição de obstáculos e atendimento de ocorrências de maior complexidade podem exigir elevado nível de esforço físico e mental do profissional. Dessa forma, conclui-se que os resultados da literatura indicam que a condição física do profissional pode representar um fator relevante para sua capacidade de atuação determinando maior eficácia e melhor resultado de uma ocorrência.
Entre as diversas capacidades físicas analisadas, a resistência cardiorrespiratória apresenta grande importância. O policial pode permanecer durante determinado período em atividade, e durante o atendimento da ocorrência deslocar-se rapidamente ou realizar esforços sucessivos durante esta ocorrência, uma adequada capacidade cardiorrespiratória ajuda este profissional na manutenção do desempenho durante esforços prolongados que exigem maior esforço cardiorrespiratório e pode contribuir para uma recuperação mais eficiente após atividades de elevada intensidade.
A força muscular também é um fator de grande necessidade de aperfeiçoamento e treinamento, esta apresenta relação direta com diferentes tarefas desempenhadas pelo policial militar. As principais atividades que demandam a força muscular são contenção e condução de indivíduos, transposição de obstáculos, deslocamento de equipamentos e manutenção do controle corporal, as quais podem exigir níveis adequados de força. Nesse sentido, treinamento de força muscular para desenvolvimento da força constitui importante componente da preparação física policial.
A velocidade e a agilidade, por sua vez, são elementos relevantes especialmente em situações que exigem deslocamentos rápidos e mudanças de direção. Em uma perseguição a pé, por exemplo, o policial precisa estar atento e ao mesmo tempo ser rápido, pode necessitar acelerar, desacelerar, realizar mudanças de direção e superar obstáculos. Sendo assim, a preparação física deve priorizar exercícios que desenvolvam essas capacidades de maneira integrada e funcional. O esforço físico intenso deve ser avaliado com brevidade, pois este pode provocar alterações fisiológicas capazes de comprometer determinadas habilidades necessárias à atuação do policial. SILVA et al. (2017) descrevem que estudos envolvendo policiais militares demonstram o quanto é importante analisar a relação entre esforço físico e desempenho em atividades operacionais, situações que demandam atividades físicas extremas precisam ser avaliadas e tratadas na sequência da ocorrência, incluindo situações que exigem precisão e controle motor. Diante do exposto, não basta que o policial seja capaz de realizar uma atividade fisicamente exigente de forma excelente, também é necessário que consiga manter os níveis adequados de desempenho mesmo após determinado grau de esforço.
Os estudos analisados na presente pesquisa também evidenciam a importância da Educação Física no processo de formação e capacitação dos policiais militares. A atuação do profissional de Educação Física é de suma importância neste contexto pois possibilita realizar avaliações da condição física, identificar necessidades individuais e elaborar programas de treinamento compatíveis com as características individuais de cada profissional. Dessa maneira, destaca-se a importância e eficácia da Educação Física, a qual assume uma função que ultrapassa a simples prática de exercícios, contribuindo para a preparação funcional e profissional do policial, melhorando seu desempenho e eficiência no cumprimento da missão.
Outro resultado relevante está relacionado à saúde e à qualidade de vida do policial. A atividade policial pode envolver jornadas diferenciadas, longos períodos de serviço, exposição a situações de estresse, ocorrências de maior estresse e exigências físicas e emocionais. A prática de atividade física regularmente pode contribuir para a manutenção da capacidade funcional e para a adoção de hábitos de vida mais saudáveis. Sendo assim, a preparação física e a manutenção da atividade física devem ser compreendidas tanto sob a perspectiva do desempenho operacional quanto da preservação da saúde do profissional.
Nesse contexto, compreende-se que a aptidão física também pode ser relacionada à prevenção de lesões, a prática de atividades físicas contribui para o fortalecimento muscular, desenvolvimento da resistência e melhora da coordenação dos movimentos, além de melhorar a parte cardiorrespiratória, aumentando a resistência pulmonar, favorecendo a capacidade do organismo de suportar determinadas demandas físicas. Entretanto, é importante levar em consideração que o treinamento deve respeitar os princípios da individualidade biológica, progressão e especificidade, evitando cargas inadequadas que possam aumentar o risco de lesões, cada indivíduo deve respeitar seus limites e suas particularidades.
A análise da legislação relacionada às instituições militares neste contexto demonstra a importância da formação e do aperfeiçoamento profissional. A Lei nº 14.751/2023, que estabelece a Lei Orgânica Nacional das Polícias Militares e dos Corpos de Bombeiros Militares, contempla aspectos relacionados à formação, ao aperfeiçoamento e à capacitação dos integrantes dessas instituições (BRASIL, 2023). Nesse sentido, tem-se a importância da preparação física, a qual pode ser compreendida como parte do processo mais amplo de desenvolvimento profissional do policial militar.
Diante disso os resultados encontrados permitem compreender, portanto, que a aptidão física não deve ser considerada somente como requisito para ingresso na carreira ou para a realização de testes de aptidão física dentro das instituições de segurança pública. Trata-se de uma condição que precisa ser mantida durante toda a trajetória profissional, estar bem preparado fisicamente favorece o bom andamento do trabalho policial, aumentando a segurança deste e dos demais, uma vez que as demandas físicas do serviço permanecem presentes ao longo da carreira. A manutenção da capacidade física de forma constante deve, dessa forma, integrar as políticas institucionais de formação, capacitação e valorização profissional.
Outra questão importante que deve ser levada em consideração é o fato da necessidade de individualização dos programas de treinamento, levando em consideração as necessidades e peculiaridades de cada profissional, os policiais apresentam diferentes idades, níveis de condicionamento, experiências profissionais e características físicas e atividades desempenhadas. Dessa forma, é importante observar as necessidades de cada um de forma individual, programas padronizados podem não atender adequadamente às necessidades de todos os profissionais. A avaliação física periódica tem feito com que na maioria os profissionais busquem estar bem fisicamente, além de permitir identificar limitações e potencialidades, possibilitando que o treinamento seja ajustado às características individuais.
Diante do estudo e materiais analisados, observa-se que a relação entre aptidão física e desempenho operacional é multidimensional. Não se trata da questão de afirmar que um policial fisicamente condicionado necessariamente apresentará melhor desempenho em todas as situações, ou que este irá se destacar mais que um policial que esteja bem fisicamente, uma vez que a atividade policial também depende de conhecimentos técnicos, habilidades cognitivas, treinamento tático, equilíbrio emocional e tomada de decisão. No entanto, estar bem fisicamente constitui uma das bases que favorecem a execução eficiente e segura das atividades profissionais, apresentando melhores resultados e consequentemente, diminuindo risco de lesões em ocorrências.
Assim, concluímos com base nos resultados da pesquisa a importância da Educação Física como componente permanente da preparação policial militar. Diante disso, a adoção de programas sistematizados de treinamento em conjunto com a avaliação periódica da aptidão física pode contribuir para o desenvolvimento das capacidades necessárias ao serviço e também nas atividades diárias do profissional que contribuem significativamente para a manutenção da capacidade funcional dos profissionais.
Dessa maneira, diante dos dados bibliográficos analisados concluímos que os resultados da literatura analisada permitem afirmar que investir na preparação física dos policiais militares representa um grande diferencial não apenas uma estratégia de melhoria do desempenho operacional, mas também uma medida de valorização profissional e de promoção da saúde deste profissional. A preparação adequada e a manutenção da atividade física regularmente podem favorecer melhores condições para enfrentar as exigências do serviço, contribuindo para a segurança do próprio policial, de seus colegas e da população atendida.
Por fim, a discussão dos resultados deixa evidente o fato de que a aptidão física deve ser compreendida como parte integrante da competência profissional do policial militar. O desenvolvimento e a manutenção das capacidades físicas, de forma individualizada, associados à formação técnica e tática, contribuem para uma preparação mais completa e compatível com as exigências da atividade policial, melhorando os resultados e diminuindo os riscos de lesões e problemas relacionados. Nesse sentido, tem-se a importância da Educação Física, a qual apresenta papel estratégico na construção de uma preparação profissional contínua e eficaz capaz de acompanhar as demandas operacionais e preservar a capacidade funcional do policial ao longo de sua carreira, consequentemente chegando a uma aposentadoria com saúde e aptidão física para desfrutar desta aposentadoria.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A aptidão física é extremamente importante sendo um elemento fundamental para o desempenho operacional dos policiais militares, tendo em vista o fato de que as atividades desenvolvidas por esses profissionais exigem que estejam sempre prontos e preparados fisicamente, além de outros importantes elementos como resistência, força, agilidade, flexibilidade e capacidade de reação diante de situações que podem apresentar elevado grau de complexidade e risco e um bom preparo físico é fundamental para um bom resultado no atendimento destas ocorrências. Nesse contexto, compreende-se que a preparação física adequada contribui para o cumprimento das atribuições profissionais, favorecendo a segurança do próprio policial, dos componentes da equipe e da população atendida.
Ao longo deste estudo, verificou-se que a prática regular da atividade física em conjunto com a orientação profissional referente aos exercícios físicos representa um importante recurso para o desenvolvimento das capacidades físicas necessárias ao exercício da atividade policial militar, sendo que esta prática, quando feita regularmente pelo profissional, além de melhorar seu desempenho, ainda contribui para a qualidade de vida do mesmo, o treinamento pode auxiliar na prevenção de lesões, na manutenção da capacidade funcional e na promoção da saúde dos profissionais. Estar bem fisicamente vai contribuir para um bom desempenho e uma pronta resposta em situações críticas das atividades operacionais, que podem envolver longos períodos de serviço, deslocamentos, perseguições, abordagens, situações que exigem agilidade, força, constância, ocorrências críticas e necessidade de respostas rápidas em situações de emergência.
Dessa forma, compreende-se a importância de analisar a relação entre aptidão física e desempenho operacional onde o condicionamento físico integra a preparação profissional, a qual pode favorecer a execução mais eficiente e segura das atividades policiais. Entretanto, é importante destacar que, apesar da importância da atividade física para o desempenho operacional, este não depende exclusivamente da condição física, mas de um conjunto de fatores, pois também envolve preparo técnico, equilíbrio emocional, conhecimento da legislação, capacidade de tomada de decisão, treinamentos regulares exclusivos das forças de segurança, como treinamento tático e uso proporcional da força.
Nesse sentido, após análise de dados referentes à educação física e ao desempenho dos policiais militares, conclui-se que a Educação Física desempenha papel relevante na formação e no aperfeiçoamento dos policiais militares, uma vez que possibilita o planejamento de programas de treinamento compatíveis com as demandas profissionais, de forma ampla na corporação em alguns casos também de forma individualizada, de forma a suprir a demanda e a necessidade individual do policial. Para isso, torna-se necessário incentivar as boas práticas de maneira regular de exercícios físicos, além de realizar avaliações físicas periódicas e estabelecer programas individualizados, respeitando as condições e as limitações de cada profissional. A adoção dessas medidas pode ajudar a melhorar a qualidade de vida do profissional, contribuindo para melhoria da saúde física do indivíduo, contribuir para a manutenção da capacidade operacional ao longo da carreira e para a redução dos riscos associados ao despreparo físico.
Conclui-se, portanto, que quando a instituição policial detém programas que prezam pela saúde e manutenção física do profissional, dos policiais militares isto deve ser compreendido como parte da valorização profissional e da melhoria dos serviços prestados à sociedade. A manutenção de um efetivo fisicamente preparado traz melhores resultados operacionais, servidores tecnicamente capacitados e conscientes da importância do autocuidado faz com que favoreça o cumprimento das missões policiais com maior segurança, eficiência e responsabilidade por parte do policial militar.
Por fim, conclui-se que apesar de ser um assunto amplo e de destaque, ainda existem poucos artigos e pesquisas acadêmicas sobre o assunto, recomenda-se o desenvolvimento de novas pesquisas, sobre a relação aptidão física, educação física e função operacional das polícias militares, especialmente estudos de campo com policiais militares, que investiguem a relação entre indicadores de aptidão física, ocorrência de lesões, importância de estar bem fisicamente para suprir as demandas da atividade operacional, afastamentos do serviço e desempenho em atividades operacionais. Essas investigações poderão ampliar o conhecimento científico sobre o tema e contribuir para ele, além de fornecer subsídios para o aperfeiçoamento dos programas de treinamento físico no âmbito das instituições de segurança pública já existentes e fomentar a criação de novos projetos relacionados.
REFERÊNCIAS
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Eliziane Rossignollo de Conti Pós-graduada pela UNINA em Perícia criminal e Análise criminal- Pós-graduada em Gestão em Segurança Pública pela FAVENI
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