Resumo: O presente estudo discutiu as transformações do jornalismo contemporâneo a partir das novas tecnologias da informação, tendo como ponto de partida a resenha Jornalismo e novas tecnologias da informação: do digital ao dialógico, de Rocha (2017), sobre o livro de Sandano (2015). Analisa-se como fundamentos clássicos da prática jornalística, como objetividade, neutralidade e autonomia, vêm sendo ressignificados em um contexto marcado pela digitalização e pela ampliação da participação do público. Parte-se da hipótese de que as tecnologias digitais não apenas alteram os modos de produção e circulação da informação, mas também redefinem os próprios princípios epistemológicos do jornalismo, conduzindo-o de uma lógica centrada na transmissão para uma lógica dialógica e interativa. Conclui-se que o campo jornalístico passa por uma reconfiguração paradigmática, exigindo novas formas de atuação profissional e teórica que considerem a complexidade do ambiente comunicacional contemporâneo, sem perder o compromisso com a qualidade da informação e com a democracia.
Palavras-chave: jornalismo digital; mídias digitais; evolução do jornalismo.
Abstract: This study discusses the transformations of contemporary journalism brought about by new information technologies, taking as its starting point Rocha’s (2017) review Journalism and New Information Technologies: From Digital to Dialogical, concerning Sandano’s (2015) book. It analyzes how classical foundations of journalistic practice, such as objectivity, neutrality, and autonomy, have been redefined in a context marked by digitalization and the expansion of public participation. The study is based on the hypothesis that digital technologies not only alter the modes of production and circulation of information but also redefine the epistemological principles of journalism itself, shifting it from a transmission-centered logic to a dialogical and interactive one. It concludes that the journalistic field is undergoing a paradigmatic reconfiguration, requiring new forms of professional and theoretical practice that take into account the complexity of the contemporary communication environment without losing its commitment to information quality and democracy.
Keywords: digital journalism; digital media; evolution of journalism.
1 Introdução
No contexto das tecnologias digitais, observa-se a intensificação da circulação de conteúdo, a descentralização da produção informativa e o surgimento de novos desafios, como a desinformação e a crise de credibilidade dos meios tradicionais.
Diante desse cenário, Rocha (2017), ao resenhar a obra de Sandano (2015), sintetiza essas mudanças na ideia de uma passagem “do digital ao dialógico”, na qual o jornalismo assume um papel mais interativo, relacional e participativo.
Com base nessa resenha e em autores do campo da comunicação e do jornalismo, este estudo discute as transformações do jornalismo contemporâneo a partir das novas tecnologias da informação.
Busca-se compreender como fundamentos clássicos da prática jornalística, como objetividade, neutralidade e autonomia, vêm sendo ressignificados em um contexto marcado pela digitalização e pela ampliação da participação do público. A hipótese é a de que as tecnologias digitais não apenas alteram os modos de produção e circulação da informação, mas também redefinem princípios epistemológicos do jornalismo, deslocando-o de uma lógica centrada na transmissão para uma lógica dialógica e interativa.
O estudo se justifica na relevância de compreender as mudanças no campo jornalístico diante da crescente complexidade do ambiente comunicacional contemporâneo, especialmente frente aos desafios da desinformação, da crise de credibilidade dos meios tradicionais e da ampliação do papel do público na construção das narrativas informativas.
O objetivo geral foi analisar de que modo as novas tecnologias da informação têm reconfigurado os fundamentos do jornalismo contemporâneo, evidenciando a transição de uma lógica digital para uma perspectiva dialógica.
Os objetivos específicos foram: compreender o impacto das tecnologias digitais nas práticas jornalísticas contemporâneas; analisar a ressignificação dos conceitos de objetividade e neutralidade; discutir o papel da participação do público na construção da informação; e identificar os desafios enfrentados pelo jornalismo no ambiente comunicacional atual.
2 Revisão de Literatura
Tecnologias da informação e reconfiguração do jornalismo
A emergência da sociedade em rede transforma as relações comunicacionais, estabelecendo uma lógica baseada em fluxos descentralizados de informação (CASTELLS, 2013). No jornalismo, esse processo promove a aceleração da circulação de conteúdos e a multiplicação de atores informativos, reduzindo o monopólio dos meios tradicionais.
Rocha (2017), ao resenhar Para além do código digital, mostra que Sandano (2015) examina a prática jornalística à luz das mudanças trazidas pelas novas tecnologias da informação e propõe revisar noções centrais do campo, como neutralidade, objetividade e autonomia. McQuail (2014) observa que, nesse contexto, os papéis clássicos de emissor e receptor tornam-se mais fluidos, exigindo novas formas de legitimação da prática jornalística, baseadas na transparência e na responsabilidade social.
Objetividade, neutralidade e mediação simbólica
Historicamente, a objetividade foi concebida como um ideal normativo do jornalismo, associado à credibilidade da informação. No entanto, Traquina (2005) afirma que esse conceito corresponde a uma convenção profissional, e não à eliminação da subjetividade. No contexto digital, essa concepção torna-se ainda mais problemática, dada a pluralidade de discursos e perspectivas em circulação.
Na leitura de Rocha (2017), Sandano (2015) não abandona a objetividade como valor cognitivo do jornalismo, mas critica sua adoção isolada de outros valores. Da articulação entre objetividade e empatia surge a noção de “neutralidade inclusiva”, oposta a uma “neutralidade restritiva”, de matriz positivista. Kovach e Rosenstiel (2004) reforçam que a responsabilidade do jornalismo reside na verificação rigorosa dos fatos e na contextualização das informações.
Sodré (2009) contribui para essa discussão ao entender o jornalismo como uma forma de mediação simbólica, responsável pela produção de sentidos e pela organização do espaço público. Assim, o jornalista não apenas transmite informações, mas participa ativamente da construção da realidade social.
A ampliação da participação do público constitui uma das marcas centrais do jornalismo contemporâneo. Comentários, compartilhamentos e produções colaborativas transformam os leitores em agentes ativos do processo comunicacional. Rocha (2017) registra, porém, que Sandano (2015) chama atenção para as chamadas “bolhas” de informação nas redes digitais, que reúnem usuários em grupos fechados que não dialogam entre si.
Entretanto, essa ampliação também intensifica desafios como a desinformação e a fragilização da autoridade jornalística. Bucci (2009) alerta que a crise de credibilidade do jornalismo está relacionada à dificuldade de preservar a autonomia editorial diante das pressões econômicas e políticas. Nesse sentido, reafirmar os fundamentos éticos da profissão torna-se imprescindível.
A expressão “do digital ao dialógico”, que dá título à resenha de Rocha (2017), sintetiza uma mudança paradigmática no jornalismo. Essa transição não elimina a mediação profissional, mas a redefine. Para Sandano (2015 apud ROCHA, 2017), o jornalista deve assumir a responsabilidade de mediador discursivo, e não agir como mero técnico que executa normas. Nessa direção, passa a atuar como mediador qualificado, responsável por organizar, contextualizar e problematizar o fluxo informacional (MCQUAIL, 2014).
Traquina (2005) destaca que os paradigmas jornalísticos se constroem historicamente em resposta a transformações sociais mais amplas. Assim, o jornalismo dialógico emerge como uma resposta à complexidade do ambiente comunicacional contemporâneo, preservando o compromisso com o interesse público e a democracia.
3 Metodologia
A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, de caráter bibliográfico e analítico, baseada na leitura crítica da resenha de Rocha (2017) sobre a obra de Sandano (2015), articulada com autores do campo da comunicação e do jornalismo, como Traquina (2005), Kovach e Rosenstiel (2004), Castells (2013), McQuail (2014), Sodré (2009) e Bucci (2009).
4 Resultados e discussão
A resenha de Rocha (2017) evidencia que, para Sandano (2015), a objetividade deixa de ser compreendida como ausência de subjetividade, passando a incorporar múltiplas perspectivas na construção da narrativa jornalística. Nesse sentido, destaca-se a noção de “neutralidade inclusiva”, que reconhece a impossibilidade de uma neutralidade absoluta e valoriza a diversidade de vozes no espaço público. Além disso, o jornalismo é entendido como uma prática com papel social e cognitivo, responsável não apenas pela transmissão de informações, mas também pela mediação de sentidos e pela construção da realidade social.
A realização deste estudo justifica-se pela necessidade de compreender o papel do jornalismo em um cenário comunicacional marcado pela abundância informacional, pela desinformação e pela crise de credibilidade dos meios tradicionais. Segundo Bucci (2009), o jornalismo enfrenta o desafio de preservar sua função pública em um ambiente cada vez mais atravessado por interesses econômicos e pressões simbólicas. Nesse sentido, refletir sobre os fundamentos do jornalismo torna-se essencial para fortalecer sua contribuição democrática.
A análise realizada responde ao objetivo geral do estudo ao evidenciar que as novas tecnologias da informação reconfiguram profundamente os fundamentos do jornalismo contemporâneo. Conforme a leitura de Rocha (2017) sobre a obra de Sandano (2015), o jornalismo deixa de operar segundo uma lógica centrada exclusivamente na transmissão de informações e passa a adotar uma perspectiva dialógica, marcada pela interação, pela pluralidade e pela participação do público.
Observou-se que a objetividade e a neutralidade são ressignificadas, passando a ser compreendidas como compromissos metodológicos e éticos, e não como condições absolutas do discurso jornalístico (TRAQUINA, 2005; KOVACH; ROSENSTIEL, 2004).
O jornalismo afirma-se, assim, como uma prática de mediação simbólica e cognitiva, fundamental para a organização do debate público e para o fortalecimento da democracia (SODRÉ, 2009; BUCCI, 2009).
Para Campos (2025), garantir informação de qualidade ao público exige enfrentar obstáculos cada vez maiores, como a dificuldade de sustentar financeiramente os veículos, as pressões políticas, a censura e a circulação de fake news.
5 Conclusão
Conclui-se que o campo jornalístico enfrenta uma reconfiguração paradigmática, na qual se torna necessário repensar práticas, valores e modelos teóricos, sem abdicar do compromisso com a qualidade da informação e com a função social do jornalismo. Logo, as transformações tecnológicas e comunicacionais não eliminam os fundamentos do jornalismo, mas exigem sua atualização diante de um espaço público mais dinâmico, participativo e fragmentado. Dessa forma, em sintonia com Sandano (2015 apud ROCHA, 2017), o jornalismo reafirma-se como prática de mediação e de produção de conhecimento, contribuindo para a formação da opinião pública, para a circulação de informações e para o fortalecimento de uma sociedade mais democrática e participativa.
Referências
BUCCI, Eugênio. Sobre ética e imprensa. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
CAMPOS, Andréa. Desafios e reflexões para o jornalismo em 2025. Observatório da Comunicação Institucional, 15 jan. 2025. Disponível em: https://observatoriodacomunicacao.org.br/artigos/desafios-e-reflexoes-para-o-jornalismo-em-2025-por-andrea-campos/.
CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. 6. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2013.
KOVACH, Bill; ROSENSTIEL, Tom. Os elementos do jornalismo: o que os jornalistas devem saber e o público exigir. São Paulo: Geração Editorial, 2004.
MCQUAIL, Denis. Teoria da comunicação de massa. 6. ed. Porto Alegre: Penso, 2014.
ROCHA, Lygia Maria Silva. Jornalismo e novas tecnologias da informação: do digital ao dialógico. Galáxia, São Paulo, n. 36, p. 220-224, set./dez. 2017. Resenha da obra: SANDANO, Carlos. Para além do código digital: o lugar do jornalismo em um mundo interconectado. São Carlos: EdUFSCar, 2015. DOI: https://doi.org/10.1590/1982-2554234148.
SODRÉ, Muniz. A narração do fato: notas para uma teoria do acontecimento. Petrópolis: Vozes, 2009.
TRAQUINA, Nelson. Teorias do jornalismo: porque as notícias são como são. 2. ed. Florianópolis: Insular, 2005.

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