Acompanhamento clínico da dentição natal: desafios e condutas na odontopediatria. Estudo de caso clínico
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
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RESUMO

Os dentes natais e neonatais representam uma condição rara caracterizada pela erupção dentária ao nascimento ou nos primeiros dias de vida, podendo causar desconforto ao recém-nascido e preocupação aos pais. Embora de ocorrência incomum, esse fenômeno requer atenção clínica por suas possíveis implicações na amamentação, no risco de aspiração e na ocorrência de lesões orais, como a doença de Riga-Fede. Diante disso, este estudo tem como objetivo analisar as implicações da ausência de tratamento adequado dos dentes natais, destacando os desafios clínicos e as condutas recomendadas na odontopediatria. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, descritiva e exploratória, delineada na forma de relato de caso associado à revisão narrativa. Espera-se, com este estudo, reunir e sistematizar as evidências científicas disponíveis, contribuindo para o aprimoramento do conhecimento odontopediátrico e para a definição de protocolos clínicos mais seguros e eficazes. Os resultados esperados incluem a identificação das principais condutas recomendadas, a valorização da abordagem conservadora sempre que possível e o reforço da importância do acompanhamento profissional para garantir o desenvolvimento saudável da dentição decídua e permanente.

Palavras-chave: Dentes natais. Erupção dentária precoce. Manejo clínico.

ABSTRACT

Natal and neonatal teeth represent a rare condition characterized by tooth eruption at birth or during the first few days of life, potentially causing discomfort to the newborn and concern for parents. Although uncommon, this phenomenon requires clinical attention due to its potential implications for breastfeeding, the risk of aspiration, and the occurrence of oral lesions, such as Riga-Fede disease. Given this context, this study aims to analyze the implications of a lack of appropriate treatment for natal teeth, highlighting clinical challenges and recommended management strategies in pediatric dentistry. This is a qualitative, descriptive, and exploratory study, designed as a case report combined with a narrative review. The study seeks to gather and systematize available scientific evidence, contributing to the advancement of knowledge in pediatric dentistry and the definition of safer, more effective clinical protocols. Expected results include identifying key recommended management approaches, emphasizing conservative treatment whenever possible, and reinforcing the importance of professional monitoring to ensure the healthy development of both primary and permanent dentitions.

Keywords: Natal teeth. Early tooth eruption. Clinical management.

1 INTRODUÇÃO

O presente projeto tem como foco principal abordar e desenvolver a abordagem clínica dos dentes natais: desafios e condutas na odontopediatria. Este acompanhamento é uma prática crucial na área da saúde, considerando que os dentes natais correspondem aos elementos dentários já presentes no momento do nascimento. A erupção precoce desses dentes pode acarretar diferentes complicações, destacando-se a dor durante a amamentação para a mãe e a consequente recusa alimentar por parte da criança (Bertotti, 2018; Simões et al., 2014).

A referida condição repercute de forma negativa na saúde sistêmica do recém-nascido, ocasionando deformidades ou lesões na língua, além disso, favorece quadros de desidratação, desnutrição e até atrasos no crescimento e no padrão eruptivo dentário. Diante desse cenário, a identificação precoce de dentes natais ou neonatais, aliada à conduta terapêutica adequada, torna-se essencial, exigindo atuação conjunta entre o cirurgião-dentista e o médico pediatra (Mhaske et al., 2013).

A presente pesquisa justifica-se pela grande relevância teórica e social, pois, segundo a literatura, aproximadamente 95% dos dentes natais e neonatais pertencem à dentição decídua, enquanto apenas cerca de 5% correspondem a elementos supranumerários. Além disso, a ocorrência de dentes natais é relatada como três vezes mais frequente do que a de dentes neonatais, apresentando uma prevalência estimada de 1 caso a cada 3.000 nascimentos (Araújo et al., 2020).

A escolha desse tema se deu diante da inquietação das pesquisadoras, considerando que essas anomalias de erupção geram preocupação tanto para os pais quanto para os profissionais de odontopediatria, visto que tanto os dentes natais quanto os neonatais frequentemente apresentam mobilidade aumentada (Danelon et al., 2017). Além disso, esses dentes podem ser engolidos ou aspirados pela criança e provocar traumas e ulcerações na língua do recém-nascido, dificultando a lactação.

Para a definição da conduta terapêutica adequada, é fundamental que o paciente seja submetido a anamnese detalhada, exame clínico e avaliação radiográfica. Quando os dentes apresentarem condições normais, recomenda-se a manutenção e preservação, associadas a orientações de higiene bucal e acompanhamento periódico. Por outro lado, caso o diagnóstico revele lesões no bebê, como a doença de Riga-Fede, sintomas de dor durante a sucção, sinais de desnutrição ou risco de aspiração/deglutição, o cirurgião-dentista poderá optar pela exodontia do dente, prevenindo complicações mais graves e preservando a saúde da criança.

Dessa forma, o presente projeto tem como finalidade abordar a temática de um acompanhamento clínico da dentição natal enfocando os desafios e condutas na odontopediatria associados a essas anomalias de erupção. O estudo busca analisar a detecção precoce, diagnóstico correto e definição de condutas terapêuticas, considerando a preservação ou exodontia dos dentes, conforme o caso. Além disso, objetiva discutir a importância de estratégias baseadas em evidências para orientar práticas seguras e eficientes no manejo desses casos.

Nesse contexto, questiona-se: quais são as consequências de não tratar os dentes natais adequadamente?

2 RELATO DE CASO

Paciente L.V.S.A, do gênero feminino com 08 dias de nascida (idade) compareceu à clínica de odontopediatria da Faculdade Metropolitana, acompanhada por seus pais, apresentando um encaminhamento da unidade de saúde básica para avaliação. Após a avaliação, foi diagnosticada com dente neonatal e iniciou-se a organização para o procedimento cirúrgico.

A queixa principal partiu da mãe da paciente, que relatava dor e inflamação intensa na região do seio mamário, devido ao atrito causado pelo dente presente na cavidade oral do bebê. Essa condição dificultava o aleitamento materno e prejudicava tanto o descanso da mãe quanto o sono do bebê, causando desconforto significativo durante as noites.

Figura 1 – Atendimento RN – L.V.S.A


Fonte:
Próprio Autor, 2026

Durante a anamnese, foram colhidas informações relevantes sobre o histórico de saúde da paciente, que não apresentava nenhuma doença prévia, sendo considerado um bebê saudável, sem intercorrências clínicas anteriores. Como o dente neonatal era visível a olho nu, não foi necessária a realização de exames complementares, como radiografia.

O diagnóstico clínico foi de dente pré-natal, ou seja, um dente que já estava presente no momento do nascimento. Diante da sintomatologia relatada e da dificuldade para a amamentação, optou-se pela remoção cirúrgica do dente. O procedimento foi realizado na clínica odontológica, sob anestesia local com uso de lidocaína (midocaína). Para a extração, utilizou-se o fórceps cirúrgico odontológico, de forma precisa e segura.

No pós-operatório, observou-se uma evolução clínica satisfatória. Uma semana após a cirurgia, constatou-se cicatrização completa da área operada, sem sinais de infecção, inflamação ou dor. A mãe relatou melhora significativa, tanto no processo de amamentação quanto na qualidade do sono do bebê e dela própria. A cicatrização ocorreu de maneira natural, sem necessidade de prescrição medicamentosa, sendo favorecida pelo leite materno.

Figura 2 - Procedimento Operatório

Fonte: Próprio Autor, 2026

A mãe da paciente assinou o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e também um termo de autorização de uso de imagem, permitindo a filmagem e fotografia do procedimento para fins acadêmicos e científicos, incluindo utilização em Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC) e artigos científicos.

Durante todo o acompanhamento clínico, não houve nenhuma intercorrência. Foram fornecidas orientações pós-operatórias à mãe, com o objetivo de garantir uma recuperação segura e eficaz. O caso foi conduzido com responsabilidade, ética e atenção integral à saúde do RN, respeitando os princípios do atendimento humanizado e odontopediátrico.

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO

O presente estudo de caso revelou um cenário clínico peculiar e desafiador na prática odontopediátrica: a presença de um dente neonatal em recém-nascido (RN), evidenciado já no momento do nascimento. Essa condição, embora rara, tem sido relatada na literatura odontológica como uma anomalia de erupção precoce dentária que exige avaliação criteriosa e abordagem clínica individualizada. Segundo Cunha et al. (2020), dentes neonatais ocorrem em aproximadamente 1 a cada 2.000 a

3.000 nascimentos, podendo causar desconforto à mãe e ao bebê, principalmente durante a amamentação.

Durante o atendimento, foi possível observar a importância do acolhimento humanizado, da escuta ativa e da avaliação integral da saúde do neonato. A queixa principal da mãe, dor e inflamação mamária causadas pelo atrito com o dente, direcionou o plano terapêutico, destacando a relevância do vínculo entre clínica e queixas maternas. Conforme destacam Silva et al. (2019), o cuidado centrado na família é fundamental nos primeiros dias de vida do RN, especialmente diante de situações clínicas que impactam diretamente na amamentação.

A decisão pela exodontia foi baseada na dificuldade de aleitamento, no desconforto noturno relatado e na mobilidade do dente, o que leva ao risco imediato de aspiração, uma das principais preocupações associadas aos dentes neonatais (Martins & Costa, 2021). Ainda assim, a literatura aponta que a exodontia só deve ser considerada quando houver comprometimento das funções vitais ou risco de complicações, como reforçam Araújo et al. (2020), destacando que a conduta conservadora deve ser priorizada sempre que possível.

O procedimento cirúrgico foi realizado de forma segura, utilizando anestesia local com lidocaína, conforme protocolo clínico vigente. O uso da lidocaína em bebês, com dosagem controlada, é respaldado por estudos como o de Oliveira et al. (2022), que reconhecem sua eficácia e segurança quando administrada por profissionais treinados. A escolha por um procedimento ambulatorial, com fórceps cirúrgico odontológico, respeitou os princípios de mínima intervenção e cuidado técnico, condizente com as orientações de prática clínica preconizadas pelo Ministério da Saúde (2021).

O sucesso do procedimento foi evidenciado na fase pós-operatória, marcada por rápida cicatrização, ausência de complicações e melhora substancial na qualidade de vida da mãe e do RN. O leite materno, além de sua função nutricional, possui propriedades imunológicas e cicatrizantes que favorecem a recuperação da mucosa oral, como descrevem Mendes et al. (2021). Nesse contexto, a não utilização de medicamentos no pós-operatório reforça a relevância da amamentação como parte do processo terapêutico.

A participação ativa da mãe, que assinou os termos de consentimento e autorizou o uso de imagens para fins acadêmicos, evidenciou o compromisso ético que deve nortear a prática clínica. Esse cuidado está em consonância com os princípios de bioética, autonomia e respeito aos direitos do paciente, como bem abordado por Lima & Barros (2018), ao discutirem a relação entre ética, pesquisa clínica e odontologia pediátrica.

No que se refere ao acompanhamento clínico, a ausência de intercorrências e a evolução positiva do quadro clínico destacam a importância do monitoramento contínuo, da orientação clara e da escuta ativa da família. A literatura é enfática ao recomendar o seguimento regular em casos odontopediátricos, sobretudo em situações que envolvam intervenções cirúrgicas em neonatos, como defendem Borges et al. (2023), reforçando que o sucesso terapêutico depende não apenas da técnica executada, mas também da comunicação e do apoio à família.

Além disso, o relato destaca a importância de os profissionais estarem capacitados para identificar e manejar condições incomuns, como dentes neonatais, com competência técnica e sensibilidade ética. De acordo com Gouvêa et al. (2020), a formação continuada em odontopediatria e o conhecimento das anomalias do desenvolvimento dentário são fundamentais para garantir um cuidado resolutivo e humanizado.

Algumas abordagens de autores trazem um estudo evidenciado, de acordo com Cunha et al. (2020), a reabsorção excessiva do tecido ósseo pode antecipar a erupção dos dentes. Além disso, certas condições maternas, como distúrbios endócrinos relacionados à hipófise, tireoide e gônadas, febres durante a gestação e sífilis congênita, também são fatores associados ao surgimento desses dentes.

Para confirmar o diagnóstico de dentes natais ou neonatais, é essencial realizar uma investigação clínica completa, incluindo exames físicos e radiográficos. Por meio das imagens, é possível determinar se o dente é supranumerário ou se pertence à dentição decídua normal (MENDES et al., 2021). É importante também realizar o diagnóstico diferencial para excluir outras alterações bucais, como os nódulos de Bohn e os cistos da lâmina dentária.

Os cistos da lâmina dentária e os nódulos de Bohn são pequenas lesões esbranquiçadas ou amareladas, medindo de 1 a 3 mm, geralmente agrupadas entre duas e seis lesões, mas podem aparecer isoladamente. A diferença entre eles está na localização: os cistos da lâmina dentária se formam nas cristas alveolares dos recém-nascidos, devido à proliferação de fragmentos da lâmina dentária que permanecem após a formação dos dentes. Já os nódulos de Bohn surgem na parte vestibular e lingual das gengivas e são remanescentes das glândulas salivares (ORTIZ; MENDEZ, 2022). Essas lesões são normalmente assintomáticas e não causam incômodo ao bebê.

Segundo a literatura, aproximadamente 95% dos dentes natais e neonatais pertencem à dentição de leite, enquanto 5% são supranumerários. A ocorrência de dentes natais é três vezes maior do que a de dentes neonatais, com uma prevalência estimada de 1 caso a cada 3.000 nascimentos (ARAÚJO et al., 2020).

Normalmente, esses dentes são menores, com formato cônico e coloração amarelada, mas em alguns casos, podem apresentar aparência e tamanho semelhantes aos dentes normais. Do ponto de vista histológico, costumam apresentar esmalte hipoplásico, dentina imatura com túbulos dispostos de forma irregular, polpa ampla e rica em vasos, além de raízes pouco desenvolvidas ou ausentes.

A erupção precoce está frequentemente ligada a problemas de mineralização do esmalte, o que resulta em uma coloração opaca e amarelada. Esses dentes geralmente aparecem em pares e, por vezes, são móveis, o que representa um risco de aspiração ou deglutição acidental pelo bebê (PALMEIRA et al., 2017).

Quando o dente está bem formado ou quase completamente desenvolvido, é classificado como maduro, com boas chances de permanecer na boca. Por outro lado, dentes imaturos, que apresentam estruturas incompletas ou mal formadas, costumam ter um prognóstico desfavorável para a sua manutenção.

Outro aspecto importante evidenciado no caso é a valorização da escuta materna e da dor relatada pela paciente cuidadora, algo que deve ser central em qualquer plano terapêutico envolvendo neonatos. O aleitamento materno, além de sua função nutricional, representa um importante momento de vínculo afetivo e conforto. Quando esse processo é comprometido, como neste caso, as intervenções clínicas devem considerar não apenas o impacto físico, mas também emocional. Segundo Ramos et al. (2020), o desmame precoce ou dificultado por razões anatômicas pode gerar impactos negativos no desenvolvimento psicoemocional do bebê e no bem-estar da mãe.

Com base nisso, é possível afirmar que o objetivo terapêutico foi plenamente alcançado: a resolução do desconforto físico, a preservação do vínculo da amamentação e a devolução da tranquilidade ao binômio mãe-bebê. O caso também reforça a importância de protocolos bem definidos e de uma abordagem ética e integralizada no atendimento odontopediátrico, como preconiza o Conselho Federal de Odontologia (CFO, 2023), ao enfatizar que o profissional deve atuar com empatia, respeito à individualidade e compromisso com a saúde integral da criança.

Este relato contribui para a literatura ao exemplificar, de forma prática, a condução adequada de um caso de dente neonatal, desde o diagnóstico até o pós-operatório, enfatizando a importância da atenção especializada, do cuidado centrado na família e da escuta qualificada. Ele reitera que a odontologia pediátrica exige não apenas conhecimento técnico, mas também sensibilidade para atuar em contextos complexos e delicados como o da primeira infância.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente trabalho alcançou plenamente seu objetivo ao abordar, por meio de um estudo de caso, a exodontia de dente neonatal em recém-nascido atendido na Clínica Odontológica da Faculdade Metropolitana. A investigação permitiu compreender, de forma prática e fundamentada, os desafios clínicos, éticos e terapêuticos relacionados a essa condição rara, porém relevante na odontopediatria. O caso analisado demonstrou como a presença de dentes neonatais pode interferir diretamente na qualidade do aleitamento materno e no bem-estar do binômio mãe-bebê, exigindo, portanto, uma intervenção segura, rápida e eficaz.

A conduta adotada, pautada em diagnóstico clínico preciso, acolhimento humanizado e protocolo cirúrgico adequado, reforça a importância da abordagem individualizada e baseada em evidências. O sucesso da intervenção, com a resolução do desconforto materno, melhora da amamentação e cicatrização satisfatória, evidencia a eficácia da exodontia em casos clinicamente indicados, como também realça a relevância de se preservar o aleitamento, prática vital nos primeiros meses de vida.

Além disso, o relato contribui para a literatura acadêmica ao exemplificar a importância da escuta ativa da família, da ética profissional e do compromisso com a saúde integral da criança. A valorização da queixa materna e a condução cuidadosa do caso mostram que o cuidado odontológico na infância ultrapassa a técnica, exigindo sensibilidade, empatia e preparo multidisciplinar.

Por fim, este estudo fortalece a compreensão de que os dentes natais e neonatais, embora incomuns, devem ser prontamente reconhecidos e avaliados por profissionais capacitados, garantindo uma conduta clínica segura, baseada no respeito ao desenvolvimento infantil e na promoção de práticas que assegurem qualidade de vida ao recém-nascido e sua família.

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