A educação como ato filosófico: A influência do pensamento de Paulo Freire na prática pedagógica contemporânea
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
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A educação como ato filosófico: A influência do pensamento de Paulo Freire na prática pedagógica contemporânea

Education as a Philosophical Act: The Influence of Paulo Freire’s Thought on Contemporary Pedagogical Practice

Noêmia Moraes da Silva[1] Suzy Mara Aidar Pereira [2]

RESUMO

A pedagogia freireana, fundamentada na crítica à educação tradicional e bancária, propõe uma abordagem emancipatória que valoriza o diálogo, a conscientização e a construção coletiva do conhecimento. Este trabalho teve como objetivo geral apresentar de que forma o pensamento filosófico de Paulo Freire influência práticas pedagógicas contemporâneas orientadas por princípios dialógicos, críticos e emancipatórios. Os objetivos específicos foram: discutir a crítica de Paulo Freire à educação bancária sob uma perspectiva filosófica; refletir sobre os conceitos de diálogo e conscientização como fundamentos de sua pedagogia, os desafios e possibilidades de aplicação da pedagogia principalmente relacionada ao opressor e ao oprimido e investigar como esses princípios estão sendo aplicados ou reinterpretados em práticas educativas atuais. A pesquisa se embasa em uma revisão crítica da literatura, enfatizando a atualidade e o potencial transformador das propostas de Freire frente às demandas da educação no século 21. As considerações finais deste estudo destacam a importância das contribuições de Paulo Freire para a educação atual, defendendo uma prática pedagógica que priorize o diálogo e a conscientização como meio de emancipar os educandos. A análise evidencia que a educação deve ser entendida como um ato político e ético, capaz de transformar a sociedade, mesmo diante de desafios como a resistência institucional. Por fim, integrarem-se os princípios freirianos nas práticas educativas é essencial para formar indivíduos críticos e construir uma sociedade mais justa e consciente.

Palavras-Chaves: Pedagogia Freirena. Educação Bancária. Dialogo e

Conscientização. Perspectiva Filosófica.

ABSTRACT

The freirean pedagogy, grounded in a critique of traditional and banking education, proposes an emancipatory approach that values dialogue, awareness, and collective knowledge construction. This work aimed to present how Paulo Freire's philosophical thought influences contemporary pedagogical practices oriented by dialogical, critical, and emancipatory principles. The specific objectives were to discuss Freire's critique of banking education from a philosophical perspective; reflect on the concepts of dialogue and awareness as the foundations of his pedagogy, the challenges and possibilities for applying pedagogy mainly related to the oppressor and the oppressed; and investigate how these principles are being applied or reinterpreted in current educational practices. The research is based on a critical literature review, emphasizing the relevance and transformative potential of Freire's proposals in the face of the demands of 21st-century education. The final considerations of this study highlight the importance of Paulo Freire's contributions to contemporary education, advocating for a pedagogical practice that prioritizes dialogue and awareness as a means of emancipating learners. The analysis demonstrates that education should be understood as a political and ethical act capable of transforming society, even in the face of challenges such as institutional resistance. Finally, integrating Freirean principles into educational practices is essential to forming critical individuals and constructing a more just and conscious society.

Keywords: Freirean Pedagogy. Banking Education. Dialogue and Awareness.

Philosophical Perspective.

1. INTRODUÇÃO

A educação transcende um simples ato técnico, sendo uma prática filosófica que pode combater a desumanização, ao explorar a relação entre ser humano, mundo e sociedade. Paulo Freire oferece uma perspectiva dualista sobre opressores e oprimidos, defendendo que ensinar é um ato político e ético onde educadores e estudantes co-criam conhecimento a partir de uma análise crítica da realidade (Carlos, 2017).

Freire provoca uma reflexão sobre os objetivos da educação, destacando que a opressão está enraizada em cada indivíduo, revelando que o opressor reside também no oprimido, que assimila essa condição como normal. Ele propõe uma abordagem pedagógica que valoriza o diálogo, essencial para formar indivíduos críticos e conscientes (Borges, 2019). A educação, portanto, vai além da mera transmissão de conteúdos; deve questionar a vida e promover a convivência social.

Quando os indivíduos são tratados com dignidade, a educação pode ser um vetor contra a desumanização, levando à compreensão e melhoria da vida (Lima, 2016). Ainda persiste um modelo rígido onde o educador é a única fonte de conhecimento e o aluno um receptor passivo. Freire enfatiza a necessidade de reavaliar o propósito da educação, as formas de ensinar e aprender, e a importância do diálogo. Ao compartilhar ideias e refletir juntos, as pessoas se tornam mais críticas e conscientes, capazes de transformar o mundo ao seu redor (Oliveira, 2017).

Através dessa contextualização do problema de investigação, chegamos à pergunta central: Como o pensamento filosófico de Paulo Freire pode ser integrado nas práticas pedagógicas contemporâneas para promover uma educação mais dialógica, crítica e emancipatória, considerando as realidades sociais e políticas atuais?

Este feito, junto ao problema de investigação, nos trouxe algumas outras perguntas que nortearam essa investigação:

  1. De que maneira a crítica de Paulo Freire à educação bancária se relaciona com as práticas educativas atuais?
  2. Quais desafios os educadores enfrentam na implementação dos conceitos de diálogo e conscientização da pedagogia freireana, considerando a dinâmica entre opressor e oprimido nas práticas pedagógicas atuais?

Contudo, espera-se que a pesquisa revele informações que acrescentem ou subtraiam alguma suposição (S).

  1. A crítica de Freire à educação bancária continua relevante, e muitos educadores contemporâneos reconhecem a necessidade de transformar essa abordagem em práticas mais dialógicas.
  2. Os educadores enfrentam resistência institucional e falta de formação crítica para implementar a pedagogia freireana, o que dificulta a promoção do diálogo e da conscientização. Além disso, a persistência da relação entre opressor e oprimido nas salas de aula impacta impactando a implementação da pedagogia crítica.

Nesse sentido, o objetivo geral é apresentar de que forma o pensamento filosófico de Paulo Freire influência práticas pedagógicas contemporâneas orientadas por princípios dialógicos, críticos e emancipatórios. Os objetivos específicos deste estudo são:

  1. Discutir a crítica de Paulo Freire à educação bancária sob uma perspectiva filosófica;
  2. Refletir sobre os conceitos de diálogo e conscientização como fundamentos de sua pedagogia, os desafios e possibilidades de aplicação da pedagogia principalmente relacionada ao opressor e ao oprimido;
  3. Investigar como esses princípios estão sendo aplicados ou reinterpretados em práticas educativas atuais.

A escolha pelo estudo do pensamento de Paulo Freire se justifica pela atualidade e os ensinamentos da filosofia, como prática de educação que este aborda, que vai além da simples transmissão de conteúdos. As ideias de Paulo Freire permanecem relevantes devido à profundidade de sua proposta educacional, que ultrapassa a simples transmissão de conteúdos.

Essa perspectiva permite uma reavaliação do papel da escola, do docente e do discente, atribuindo-lhes uma função ativa no processo formativo. A pedagogia freireana coopera para a comunicação ao valorizar o diálogo, a compreensão e a problematização dos fatos reais como cerne medial das práticas educacionais. O exame e o estudo destas convicções são perceptíveis e imprescindíveis para o alicerce de uma educação mais apreciativa, civilizatória e revolucionária (Silva, 2015).

No âmbito acadêmico, a análise do pensamento filosófico de Paulo Freire e sua influência nas práticas pedagógicas contemporâneas é de suma importância para a formação crítica e reflexiva dos educadores e estudantes. Segundo Borges (2019) a educação bancária, criticada por Freire, ainda permeia muitas instituições de ensino, e compreender suas implicações filosóficas é essencial para o desenvolvimento de abordagens pedagógicas mais dialogadas e emancipadoras.

Este estudo contribui para a ampliação do conhecimento sobre as práticas educativas, promovendo a construção de uma base teórica sólida que favorece a discussão e aplicação de métodos ativos e participativos de ensino.

No contexto profissional, a incorporação dos princípios freireanos na formação de educadores se torna relevante diante dos desafios encontrados nas salas de aula contemporâneas. Educadores que entendem e aplicam conceitos como diálogo e conscientização estão mais aptos a lidar com a diversidade dos alunos e a promover um ambiente de aprendizagem inclusivo e crítico. Portanto, este estudo se apresenta como uma importante contribuição para o campo da educação, almejando impactar tanto a formação de educadores quanto a formação de uma sociedade mais crítica e consciente.

A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, que possibilita uma análise minuciosa e interpretativa dos conceitos e práticas pedagógicas defendidas por Paulo Freire. Para alcançar os objetivos propostos, foram utilizados os métodos e procedimentos, organizados nas seguintes etapas:

A metodologia deste trabalho consiste em quatro etapas principais:

  • Revisão Bibliográfica: Levantamento e análise das principais obras de Paulo Freire e literatura relevante, com foco na sua aplicação contemporânea e críticas à educação bancária.
  • Análise do Conteúdo: Realização de uma análise temática das obras, identificando conceitos-chave como diálogo, conscientização e as críticas à educação tradicional, além de suas implicações sociais e éticas.
  • Reflexão Crítica: Promoção de uma reflexão sobre a filosofia educacional de Freire em relação às demandas atuais, identificando dificuldades e oportunidades na aplicação de seus princípios.
  • Síntese e Proposta: Apresentação das contribuições de Freire para a educação contemporânea, destacando a relevância de seus ensinamentos e os desafios a serem superados na prática pedagógica atual.

A pesquisa, por meio dessas etapas metodológicas, buscou não apenas reafirmar a atualidade da obra de Paulo Freire, mas também contribuir para o fortalecimento de práticas pedagógicas que priorizem o diálogo, a reflexão crítica e a emancipação dos sujeitos no contexto educacional. Dessa forma, pretende-se colaborar com a função social, pedagógica e filosófica da educação, homenageando a importância dos ensinamentos de Freire na formação de sujeitos capazes de intervir eticamente na realidade que os cerca.

2. FUNDAMENTAÇÃO FILOSÓFICA DA EDUCAÇÃO EM PAULO FREIRE

Este trabalho analisa as bases filosóficas da pedagogia freireana, destacando a importância da reflexão sobre a prática educativa por meio de seus fundamentos antropológicos e cosmológicos. A abordagem de Paulo Freire enfatiza a conscientização, o diálogo e a libertação, propondo a educação como um processo transformador tanto social quanto pessoal (Santos, 2018). Freire define a educação como um instrumento de construção de identidade, fundamentada na liberdade e no diálogo, onde a conscientização crítica é central. Inicialmente focado na alfabetização de adultos, seu método vai além da simples transmissão de conhecimento, enfatizando a necessidade de uma conscientização que empodere os educandos (Zanella, 2007).

A pesquisa propõe uma análise detalhada dos conceitos que sustentam a obra de Freire, explorando a crítica à "educação bancária", que reduz o aprendizado a um mero depósito de informações, negligenciando o potencial transformador da interação crítica e dialógica (Romão, 2024). A teoria do conhecimento de Freire se centra nas relações dialéticas entre a consciência e o mundo, onde o verdadeiro aprendizado ocorre por meio da reflexão crítica, levando à descoberta da identidade e da condição social do indivíduo.

Além disso, a gênese ideológica da obra de Freire se alimenta de diversas fontes filosóficas, incluindo pensadores como Tristão de Atayde e Jacques Maritain, além do neomarxismo de Eric Fromm e as ideias educacionais de Antonio Gramsci, enriquecendo assim a compreensão da educação como um fenômeno social e político (Chaui, 1998). O estudo revela que a educação e a alfabetização podem transformar realidades, proporcionando instrumentos para o desenvolvimento de uma leitura crítica do mundo (Gadotti, 1989).

2.1. ENSINO EDUCACIONAL NA AÇÃO DA LIBERDADE

Paulo Freire, fundamentalmente um educador, desenvolveu uma visão singular da educação, entendida como um meio de libertação e um processo dialético de conscientização. As particularidades do conceito de educação estão intimamente ligadas à sua identidade, uma vez que Freire dedica sua vida a essa causa, tornando-a o cerne de suas ações e convicções (Campos; Mesquida; Kira, 2022).

Sua vocação para educar emergiu e se fortaleceu através de suas diversas experiências no Nordeste do Brasil, onde um grande número de pessoas enfrentava a realidade do analfabetismo e da pobreza extrema. Esse contexto de exclusão e privação colocava os indivíduos em uma situação de subalternidade, tratando-os como objetos, desprovidos de agência e valor humano. Dentro desse cenário, muitos perdiam a noção de sua própria consciência, encerrando-se em um estado de anonimato, massificação e alienação (Campos; Mesquida; Kira, 2022).

Ao se reduzir a uma condição de "coisa", o ser humano cancela sua identidade ontológica, ou seja, sua capacidade de ser o sujeito ativo de suas escolhas e de sua trajetória histórica. Freire, portanto, enfatiza que a educação deve ser um caminho para a reivindicação da subjetividade e da emancipação, resgatando o potencial de cada indivíduo para definir sua história e seu destino (Jorge, 1979).

Libertar, pois, o homem oprimido desta realidade desumanizante, desta “coisificação”, desta situação de “objetos”, de ser “menos”, para ser “mais”, isto é, adquirir a própria dignidade humana perdida, realizar a sua vocação histórica, tornou-se o objetivo principal de Paulo Freire e o ideal de sua luta. (Jorge, 1979, p. 24).

Paulo Freire propõe um método educacional que visa libertar os indivíduos da manipulação, restituindo-lhes a sua essência humana. Para ele, a educação se configura como um caminho que possibilita a prática da liberdade. Essa ideia central de Freire revela sua profunda compreensão do processo educativo, que deve permitir que os oprimidos se tornem protagonistas de suas histórias e ações.

Rossetti (1997) destaca que o contexto social em que Freire atuou, principalmente no Nordeste do Brasil, muitos eram reduzidos a meras condições de objetos, vivendo em situações de analfabetismo e pobreza, o que os tornava invisíveis e alienados.

Freire argumenta que quando o ser humano se transforma em "coisa", ele anula sua capacidade de agir ativamente e assumir seu papel na história. Para superar essa opressão, é necessário despertar a consciência crítica, uma vez que, ao se reconhecer como sujeito de sua história, ele pode tomar decisões que promovam a transformação de sua realidade (Rossetti,1997).

Neste sentido, a filosofia de Paulo Freire revoluciona a educação ao designála como uma prática de libertação, propondo que os educandos não sejam apenas receptores passivos de conhecimento, mas agentes ativos em seu processo de aprendizado.

Rossi (1982) aponta que Freire desenvolve sua pedagogia a partir da ideia de que a educação deve ser um ato dialético e consciente, que envolve o reconhecimento mútuo entre educador e educando, proporcionando a conscientização necessária para entender e transformar a realidade,

A proposta educacional de Freire se distancia da educação tradicional, que ele critica como “educação bancária”, onde o saber é depositado nos alunos sem a oportunidade de questionamento. Torres (1979) disserta que nos moldes de Freire, a educação libertadora é problematizadora, pois não se limita a transmitir verdades absolutas, mas promove a reflexão e o debate, incentivando a busca por soluções coletivas.

Portanto, Freire inverte a perspectiva educacional ao afirmar que a alfabetização não é apenas ensinar a ler e escrever, mas é uma ferramenta de transformação social, essencial para que os indivíduos se tornem agentes de mudança em suas vidas e comunidades (Torres,1979).

Observa-se que o método de alfabetização de Paulo Freire vai além do ensino de habilidades linguísticas, enfatizando a importância do conhecimento da realidade e da conscientização crítica.

Freire propõe que a educação deve partir do vocabulário e das experiências dos aprendizes, utilizando palavras geradoras que promovam discussões e reflexões. O objetivo é capacitar os indivíduos a reconhecer e transformar suas realidades, evidenciando a relação entre educação e mudança social.

Sua filosofia, fundamentada em ideias como diálogo, conscientização e crítica à opressão, busca resgatar a humanização do ser na educação, colocando o indivíduo no papel de autor e executor de sua própria história, assim, facilitando não só a leitura da realidade, mas também a possibilidade de reescrevê-la (Freire, 1979).

É isto que leva a dizer que Paulo Freire não tem apenas preocupações pedagógicas, mas é também movido por intenções políticas. Aliás, um repórter do Jornal da República de Recife, aos 31/08/79, interrogou Paulo Freire [...] a respeito de eventual filiação a partido político; o que respondeu o mestre: “Faço política através da pedagogia” (Freire, 1979, p. 109).

O conceito de educação libertadora de Paulo Freire desafia as visões tradicionais que vinculam a educação à mera transmissão de conhecimentos e valores, muitas vezes valorizando hábitos positivos dentro de uma estrutura que prioriza a razão (Freire, 1979). Freire critica o que denomina "educação bancária", caracterizada por uma relação em que o educador detém todo o conhecimento e o aluno é um receptor passivo, evidenciando uma estrutura social opressora e dominante (Jorge, 1979).

A educação é então vista como uma prática de liberdade, que provoca questionamentos e fomenta a conscientização crítica, servindo como um mecanismo de transformação social e pessoal (Freire, 1975). O diálogo é fundamental nesse processo, promovendo uma prática educativa que emerge das experiências coletivas e do contexto histórico dos educandos (Freire, 1975).

O método de alfabetização de Freire vai além do ensino de habilidades linguísticas, focando também no conhecimento da realidade e na conscientização crítica, utilizando palavras geradoras que incentivam a reflexão e a transformação das realidades dos indivíduos (Bittencourt, 1981). A verdadeira educação, para Freire, deve ser um meio de libertação e transformação cultural, permitindo que os educandos compreendam as condições opressoras em que vivem e atuem como agentes de sua própria libertação (Rossi, 1982).

Freire critica a transmissão de certezas como prática educativa que perpetua desigualdades (Leal; Nascimento, 2019). Para ele, a educação deve ser uma "Prática da Liberdade", iniciando-se no diálogo que empodera os educandos e os capacita a se tornarem protagonistas de suas histórias (Freire, 1979). Através desse processo dialético, os educadores e educandos colaboram, construindo uma educação emancipatória que fomenta a conscientização crítica e a atuação social (Pilleti, 1995). Ao valorizar as experiências dos aprendizes e incentivar a reflexão crítica, a educação freireana se torna um meio de transformação, desejando não apenas alfabetizar, mas libertar (Japiassu, 1983; Machado, 2019). Os princípios de problematização e diálogo na obra de Freire configuram uma filosofia de vida que busca uma transformação social radical.

3. A AVALIAÇÃO NOS MOLDES DA EDUCAÇÃO BANCÁRIA

Paulo Freire utiliza a expressão “educação bancária” como uma metáfora para descrever um conjunto de práticas educacionais que se caracterizam por serem autoritárias. Em sua obra mais renomada, Pedagogia do Oprimido (2018), ele aborda essa ideia para criticar a educação tradicional que se opõe a uma abordagem emancipadora e libertadora do ser humano (Freire, 2018).

Freire explica que, segundo essa concepção bancária, a educação é vista como um processo de depósito de informações, onde se transferem valores e conhecimentos de maneira superficial, impossibilitando qualquer tipo de superação. Em vez de promover a conscientização, essa abordagem reflete a sociedade opressora e alimenta a chamada “cultura do silêncio”, perpetuando contradições e desajustes sociais (Freire, 2018).

O conceito de educação libertadora de Paulo Freire critica a visão tradicional que entende a educação como mera transmissão de conhecimentos, caracterizada pela "educação bancária", onde o professor é visto como detentor do saber e o aluno, um recebedor passivo (Freire, 1979). Essa abordagem, segundo Freire, desumaniza os educandos, que se tornam "cadáveres" intelectuais, incapazes de questionar e refletir sobre seu aprendizado. Freire propõe uma educação que rompe com essas estruturas opressoras, favorecendo um diálogo ativo entre educador e educando, onde ambos se tornam sujeitos do processo educativo e aprendem em conjunto (Freire, 1975).

Freire defende que a verdadeira educação deve ser uma prática de liberdade que estimula a formação de uma consciência crítica, promovendo a problematização das realidades sociais (Freire, 1975). Para ele, o diálogo é fundamental nesse processo, pois permite que o conhecimento emergente seja fruto de uma concepção coletiva, respeitando as experiências e vivências dos educandos (Bittencourt, 1981). O método proposto por Freire é voltado não apenas para o desenvolvimento de habilidades linguísticas, mas também para a conscientização crítica e a transformação social, permitindo que os indivíduos compreendam as opressões que enfrentam e busquem sua libertação (Rossi, 1982).

Freire também critica a tendência atual de transformações no sistema educacional, onde a abordagem gerencial prevalece e a educação básica é influenciada por agentes do capital, solidificando a visão bancária (Luckesi, 2018). Ele observa que, nas últimas duas décadas, a diversidade nas concepções de avaliação se ampliou consideravelmente, dificultando a categorização das obras disponíveis e gerando um cenário complexo para a educação e avaliação da aprendizagem (Luckesi, 2021). Em suma, a proposta educacional de Freire busca promover a emancipação dos indivíduos, transformando-os em agentes ativos em suas realidades, enquanto desafia a desumanização propiciada pela educação tradicional.

Cabe questionar por que a avaliação educacional, que antes não figurava nas preocupações dos educadores e acadêmicos, se tornou um tema tão relevante na atualidade. Se, há duas décadas, esse tema não estava presente nos currículos das instituições formadoras de educadores, não aparecia nas pautas dos congressos de educação, e não era um foco de interesse nas pesquisas de renomados estudiosos; se, além disso, não havia uma literatura robusta a respeito — podendo-se contar os trabalhos sobre a avaliação nos dedos das mãos e a maioria sendo traduções de textos técnicos —, como podemos entender essa repentina ascensão do tema da avaliação na educação? Assim sendo, como já abordado anteriormente (Romão, 1998), surgem algumas perguntas:

O que fez a avaliação educativa se tornar um tema de destaque nas últimas décadas?

Quem estabelece as tendências na educação?

Quais são as intenções por trás da disseminação dessas modas educacionais?

Atualmente, por diversas razões, tanto os defensores da abordagem Gerencial quanto os da Político-Pedagógica enfatizam a relevância da avaliação, o que a tornou um tópico recorrente. Assim, de maneira resumida, pode-se afirmar que os primeiros favorecem uma avaliação de caráter classificatório, enquanto os últimos defendem uma avaliação diagnóstica, correspondendo, respectivamente, à "Avaliação Somativa" e à "Avaliação Formativa". De forma geral, os proponentes da Concepção Gerencial acreditam que a avaliação, especialmente no contexto da aprendizagem, deve ser utilizada para distinguir aqueles que apresentam bom desempenho dos que não o fazem (Romão,1998).

Em contrapartida, os adeptos da concepção Político-Pedagógica enxergam a avaliação como um meio de identificar desempenhos e, a partir das discrepâncias, atualizar o planejamento e as metodologias pedagógicas, com o objetivo de ajudar aqueles que enfrentam maiores dificuldades a alcançar um desempenho mais elevado. (Trindade, 2007).

No que tange à segunda questão, é importante destacar que, ao contrário do que se poderia pensar, não são os órgãos relacionados à educação os responsáveis por estabelecer o padrão da avaliação no cenário educacional. Na verdade, são as agências multilaterais de desenvolvimento econômico, como o Banco Mundial e a OCDE, que têm liderado a introdução e o manejo das tendências educacionais. Esse fenômeno é similar ao que ocorreu com "planejamento", "currículo", "avaliação" e, mais recentemente, "metodologias ativas" (Verhine, 2012).

Responder à terceira questão exige uma análise política clara, dado que a Concepção Gerencial tem como objetivo estrutural a criação de um modelo de sociedade que favorece uma minoria enquanto marginaliza a maioria. Essa abordagem de avaliação não apenas exclui os alunos com menor desempenho, mas também os responsabiliza por suas falhas, evitando assim contestação ou resistência mais significativa (Romão, 1998).

Pesquisas recentes sobre avaliação mostram uma riqueza de concepções, refletindo uma diversidade que, embora superficial em alguns casos, revela a busca de cada autor em deixar sua marca na discussão sobre o tema. Ao aprofundar a análise, é possível notar que essas concepções de avaliação estão ligadas a visões específicas de educação, que, por sua vez, derivam de distintas visões de mundo. Infelizmente, a avaliação tem se concentrado mais em reafirmar acertos, servindo aos interesses da meritocracia, da discriminação e, em última análise, da exclusão. Assim, sua função tem se aproximado mais da de um veredicto, aplicando julgamentos severos sobre os desempenhos dos estudantes que se encontram em situação de vulnerabilidade ou marginalização.

3.1. CONCEPÇÃO DA EDUCAÇÃO BANCÁRIA E PROBLEMATIZADORA DA

EDUCAÇÃO

A educação bancária fundamenta-se em processos de memorização, onde o educador atua como um agente que deposita conhecimento nos educandos. Nesse modelo, conforme a visão de Freire (1987), os educandos são vistos como recipientes que precisam ser preenchidos. A ideia é que o educador é considerado o melhor quando consegue "encher" mais, enquanto os educandos são valorizados por se deixarem encher. “Desta maneira, a educação se torna um ato de depositar, em que os educandos são os depositários e o educador o depositante” (Freire, 1987).

O conceito de educação libertadora de Paulo Freire critica a abordagem tradicional de ensino, chamada de "educação bancária", que se baseia na memorização e na repetição de conteúdos, onde o educador exerce controle como um depositário de conhecimento e os educandos são vistos como receptáculos passivos. Essa dinâmica reflete uma estrutura social opressora, onde os alunos não conseguem desenvolver a consciência crítica necessária para interagir com o mundo (Freire, 1987).

Freire argumenta que essa forma de educação não eleva o ser humano, mas o desumaniza, criando uma relação onde os educandos são considerados objetos em vez de sujeitos. Essa postura passiva é alimentada por interesses que buscam impedir o desenvolvimento do pensamento crítico (Borges, 2019). Para superar essa opressão, Freire propõe uma educação problematizadora, que visa a libertação dos educandos por meio do diálogo e da interação efetiva, tendo o educador e o educando como colaboradores no processo de aprendizado (Freire, 1987). A educação problematizadora busca romper com a verticalidade das relações educacionais, transformando a dinâmica entre educador e educando em uma relação horizontal, conhecida como educador-educando. Essa abordagem dialogal promove a humanização e a construção conjunta do conhecimento, onde ambos participam ativamente de sua formação (Freire, 1987). Assim, a verdadeira educação se torna um espaço de liberdade, reflexão e transformação social, possibilitando que os educandos se tornem protagonistas de suas próprias histórias. Assim, os educandos tornam-se participantes ativos do conhecimento, permitindo-se refletir criticamente sobre o que conhecem, por meio da investigação, reflexão e diálogo. Em contraste com a prática bancária, que tolhe a capacidade criativa dos educandos, Freire ressalta que “[...] a educação problematizadora, de caráter autenticamente reflexivo, implica num constante ato de desvelamento da realidade” (Freire, 1987, p.40).

Brighente e Mesquida (2016) destacam que a educação bancária exerce um papel opressor, uma vez que não visa a conscientização dos educandos, mas sim transforma indivíduos em seres inconscientes, sujeitos a regras impostas de maneira vertical e autoritária. Nesse modelo, não é permitido realizar críticas, assim como não se deve questionar e nem duvidar do professor (Brighente; Mesquida, 2016, p. 7). O educador, sendo o detentor do conhecimento, o deposita nos "vasos" vazios dos alunos.

Além disso, os autores apontam que a educação brasileira, caracterizada por ser autoritária, acrítica e antidialógica, carrega a herança dos primeiros educadores, como os jesuítas, marcada por um estilo de ensino vertical e sem a participação ativa do sujeito no processo educacional (Azevedo, 2010).

Assim, a educação bancária está intimamente ligada à falta de experiências democráticas na sociedade brasileira. Segundo o pensamento de Freire (1979), essa inexperiência democrática se relaciona à ausência de participação política das classes menos favorecidas na resolução dos problemas comuns.

Assim, Paulo Freire (1979) argumenta que a educação pode promover uma transição de uma consciência ingênua para uma consciência crítica, desde que se baseie em uma abordagem problematizadora, que esteja em sintonia com a pedagogia dos oprimidos, e não com a dos grupos dominantes, que é caracterizada como bancária, assistencialista e controladora.

4. CONSCIENTIZAÇÃO E DIÁLOGO COMO PRÁTICAS PEDAGÓGICAS

A conscientização é um conceito fundamental no contexto da pedagogia crítica proposta por Paulo Freire. Essa conscientização pode ser entendida como um processo dialético que integra a ação e a reflexão, com o objetivo de emancipar os indivíduos. Na visão de Freire (1988a), ela representa um esforço profundo no qual as pessoas transcendem a condição de objetos dominados para se tornarem sujeitos ativos na produção do conhecimento. Além disso, Freire afirma que “a 'conscientização é exigência humana'” (Id., 2001, p. 60), e que essa conscientização é essencial para que se viabilizem as possibilidades de uma construção do conhecimento genuinamente autêntica e autônoma.

Brandão (1981) descreve a conscientização em Freire como “um processo de transformação do modo de pensar” (p. 65), enfatizando que esse processo é um contínuo resultado do trabalho colaborativo, que se dá por meio de uma prática política reflexiva e pela construção de “uma nova lógica e de uma nova compreensão de mundo: crítica, criativa e comprometida” (Ibid., p. 65).

Em "Pedagogia do Oprimido", Freire (1988a) sustenta que a conscientização permite aos indivíduos obter uma compreensão mais profunda de sua realidade sociocultural e de sua capacidade de transformá-la. Dessa forma, os educandos se tornam comprometidos com suas circunstâncias e assumem um papel ativo na transformação do mundo.

Oliveira e Carvalho (2007) ressaltam que a conscientização é um elemento crucial na educação freireana, pois ela fomenta a capacidade de agir criticamente. É relevante mencionar que o conceito de conscientização sofreu distorções, levando Freire a eventualmente evitar seu uso. Em sua definição original, a conscientização representava uma ação, estabelecendo uma conexão entre o pensar e o agir (Ibid., p. 224). Contudo, na "Pedagogia da Autonomia", Freire (2001) revisita este conceito, destacando que a conscientização não deve ser vista como uma solução mágica, mas como um esforço para aplicar um conhecimento crítico do mundo.

Quando se analisa a concepção que o educador pernambucano atribui à consciência, torna-se evidente que ele fundamenta seu pensamento nas interações dialéticas entre consciência e mundo. Segundo Jorge (1979) a consciência e o mundo existem em um processo simultâneo; enquanto o mundo é externamente relacionado à consciência, a consciência também é essencialmente relativa ao mundo.

É a partir dessas conexões que ambos se validam mutuamente. Assim, Paulo Freire enfatiza a importância da consciência, argumentando que não se pode considerar uma consciência isolada do mundo que a rodeia; ambos estão em constante relação. Essa dinâmica dialética implica que os seres humanos são, ao mesmo tempo, conscientes de si e da realidade em que estão inseridos (Jorge, 1979).

Freire, reconhecido por introduzir conceitos como "conscientização" e "conscientizar" na pedagogia, é frequentemente creditado como o responsável pela popularização dessas expressões. O uso dessas terminologias no vocabulário de diversos idiomas, como francês e alemão, é notável, especialmente em contextos que tradicionalmente relutam em aceitar neologismos (Torres,1979a).

Hoje, a conscientização é um termo amplamente difundido, sendo utilizado tanto por aqueles que têm familiaridade com a obra de Freire quanto por aqueles que pouco conhecem sobre sua filosofia. Mas o que realmente significa conscientização dentro do contexto da obra de Freire? De acordo com o próprio Freire, atribuir a invenção do conceito de conscientização exclusivamente a ele é um equívoco.

Na América Latina e nos Estados Unidos, acredita-se que fui eu quem batizou esta palavra. Porém, a verdade é outra. Ela nasceu de uma série de reflexões que uma equipe de professores desenvolveu no ISEB (Instituto Superior de Estudos do Brasil). [...] A palavra foi criada por um dos professores daquela época, eu não saberia dizer qual; porém, o fato é que nasceu de suas reflexões em equipe [...]. Eu convivia com todos eles e foi precisamente no ISEB que ouvi, pela primeira vez, a palavra conscientização. Ao ouvi-la, percebi, imediatamente, a profundidade de seu significado, pois estava absolutamente convencido de que a educação como prática da liberdade é um ato de conhecimento, uma aproximação crítica da realidade. Necessariamente, então, esta palavra começou a participar do universo vocabular com que expressei minhas posições pedagógicas e, facilmente, passou a ser considerada criação minha. (Torres, 1979, p. 93-94a).

Na obra "Pedagogia do Oprimido", Freire descreve a conscientização como um processo de aprofundamento da compreensão do mundo. Essa transformação pela qual passa o indivíduo envolve uma maior clareza sobre a sua própria realidade e a das opressões que enfrenta. Em essência, a conscientização implica um desenvolvimento da autoconsciência e uma análise crítica das condições sociais, levando o sujeito a reconhecer-se como agente ativo e capaz de participar na modificação de sua situação.

[...] este aprofundamento é um ir além da fase espontânea da apreensão da realidade a uma fase crítica [...] é a exploração da realidade nas suas estruturas [...] é um compromisso no tempo [...] é um compromisso de caráter histórico [...] uma inserção de maneira crítica na história (Jorge, 1979, p. 54).

A conscientização, entendida como o aprofundamento da tomada de consciência, é um processo que envolve um conhecimento crítico da realidade. Esse conhecimento não é meramente informativo, mas requer que o indivíduo atue de forma transformadora sobre as condições que o oprimem.

Ou seja, a conscientização consiste em dois aspectos fundamentais: reconhecer para poder mudar. Um indivíduo só alcançará esse nível de conscientização quando tiver um entendimento real da situação à sua volta e estiver preparado para agir de maneira que humanize e transforme sua realidade (Jorge,1979).

De acordo com Freire, o primeiro passo para a libertação é a percepção de que se está oprimido; isso significa identificar a opressão que impede o desenvolvimento pleno do ser humano, levando-o a passar de uma condição de "menos" para "mais", onde ele retoma sua dignidade e potencial histórico. Essa libertação se concretiza quando o indivíduo se compromete com a transformação das estruturas que geram opressão (Jorge,1979).

Dessa forma, a conscientização envolve o reconhecimento da opressão e a busca por formas de mudar essa realidade, que não pode ser feita apenas em um nível mental ou idealista; é necessário atuar também na prática. A educação proposta por Freire é um meio de alcançar essa conscientização, distorcendo a lógica da educação bancária, que falha em promover autonomia e liberdade (Jorge,1979).

Durante a análise proposta, ficou evidente que o diálogo serve como um veículo para a libertação, constituindo-se como o método que propicia a comunhão entre os indivíduos e facilitando a conexão humana.

Muita gente leva, certamente, um grande susto ou tem talvez uma grande decepção quando, lendo os escritos de Paulo Freire e procurando neles o instrumento para a libertação do mundo, encontra o diálogo. Por certo, como comenta Jesus Arroyo, tais pessoas teriam desejado, seguramente, que Paulo Freire apresentasse outros instrumentos para a libertação, instrumentos violentos como guerras, sangue, no estilo de tantos outros “revolucionários”. Não. Tais instrumentos não aparecem no pensamento de Freire. Para ele, o real instrumento da libertação é o diálogo. (Jorge, 1979, p. 33).

A questão da utilização do diálogo no processo de libertação é central para o entendimento da ótica de Paulo Freire. Ao analisar o pensamento freireano, percebe-se que a forma de libertação que se busca é a emancipação dos seres humanos, e não de objetos ou coisas. Assim, o caminho para alcançar essa libertação deve ser, em sua essência, profundamente humano. Nesse contexto, o diálogo emerge como o principal instrumento, sendo considerado a melhor maneira de humanizar o ser humano. “O diálogo é a condição fundamental para a verdadeira humanização dos homens” (Jorge, 1975, p. 160).

O diálogo é constituído pela palavra, que representa o que o ser humano possui de mais essencial. Na perspectiva freireana, a libertação é impossível sem a expressão verbal dos indivíduos. “Esta palavra tornada diálogo existencial - comunicação e intercomunicação, ação e interação, relação - implica um compromisso: a humanização do mundo de todos os homens. Daí que, segundo

Freire, os homens não podem se humanizar senão humanizando o mundo” (Jorge, 1979, p. 34).

Portanto, para Freire, o diálogo é o instrumento que possibilita a libertação, sendo a própria palavra um meio crucial para essa interação entre as pessoas. É durante o diálogo genuíno e consciente que a transformação do mundo pode acontecer (Torres,1979 b).

A relação dialógica, que é a essência da proposta freireana, envolve um eu e um tu, ambos reconhecendo e se apropriando do mesmo objeto, que neste caso é a libertação. Assim, a mediação do mundo e sua percepção tornam-se fundamentos do diálogo verdadeiramente libertador. Para Freire, essa mediação é um encontro que busca dar nome ao mundo, permitindo que os indivíduos se tornem agentes ativos de sua realidade.

A missão de transformar o mundo não é só um dever, mas um compromisso que todos os homens devem assumir. Segundo Freire, essa transformação não deve ser feita por meio da violência, mas sim pela denúncia de um mundo injusto e pelo chamado à criação de um mundo mais justo e equânime.

O homem tem a responsabilidade de desenvolver sua consciência crítica e agir, não apenas anunciando a mudança, mas também sendo parte ativa dela. Através da palavra, o ser humano é chamado a ser protagonista de sua história, criando e recriando a realidade ao seu redor (Romão,1998).

Por meio da problematização, o homem vai se transformando em sujeito consciente de sua própria história e capaz de reescrever o mundo à sua volta. Na perspectiva freireana, a palavra não é apenas um meio de comunicação, mas sim um elemento essencial que, quando se torna diálogo, promove a verdadeira humanização (Santos, 2018). Assim, a palavra autêntica e transformadora é um poderoso instrumento de libertação, com o objetivo de humanizar o mundo.

4.1 A APLICAÇÃO CONTEMPORÂNEA DA PEDAGOGIA FREIREANA

A abordagem pedagógica de Paulo Freire, reconhecida por sua postura dialógica e crítica, tem demonstrado um impacto significativo nas práticas educativas contemporâneas. Freire (1979) destaca que a educação deve ser uma prática de liberdade, capacitando os alunos a se tornarem participantes ativos na construção do conhecimento, ao invés de simples receptores passivos. Oliveira (2017) corroborou essa ideia ao mostrar que a prática de diálogo crítico em sala de aula resulta em melhorias nas habilidades de pensamento crítico e resolução de problemas dos estudantes.

Freire enfatizava que a educação é um meio de promover a inclusão social, especialmente em contextos de desigualdade, onde muitos alunos enfrentam barreiras para acessar e permanecer na educação formal (Borges, 2019). Ele defendia que a alfabetização deve ir além da mera memorização de palavras, capacitando os indivíduos a interpretarem o mundo (Freire, 1970). Apesar dos desafios enfrentados, a pedagogia freiriana permanece uma ferramenta poderosa na transformação educacional, sendo fundamental na recuperação da autoestima e identidade cultural das comunidades marginalizadas.

A pedagogia de Freire associa educação e liberdade, propondo uma visão que desafia paradigmas tradicionais sobre o aprendizado e promove a formação de cidadãos críticos e reflexivos (Azevedo, 2010). Além disso, suas contribuições são imensuráveis no campo educacional, onde enfatiza a necessidade de um aprendizado dinâmico e crítico, comprometido com a transformação social (Carlos, 2017). Ele nos ensina que a educação deve ser um processo de conscientização, onde educadores e alunos se engajam em uma troca dialógica que visa transformar a realidade social.

Nesse sentido, o modelo pedagógico de Freire não somente estimula o engajamento ativo dos alunos, mas também melhora seu desempenho acadêmico e fomenta habilidades de pensamento crítico, promovendo uma educação voltada à justiça social e à equidade (Carvalho, 2021). Dessa forma, a proposta de Freire continua a ser essencial e relevante, evidenciando a necessidade de um compromisso constante com uma educação crítica e transformadora.

4.2 APLICAÇÕES PRÁTICAS E RESULTADOS DA ABORDAGEM DE PAULO

FREIRE

Nesta seção, serão exploradas as aplicações práticas dos princípios pedagógicos de Paulo Freire, evidenciando como eles se traduzem nas dinâmicas educacionais e os resultados que essas práticas têm provocado em diversos contextos analisados na pesquisa.

A pedagogia de Paulo Freire destaca-se pela ênfase na dialogicidade e na aprendizagem significativa, sendo particularmente eficaz em projetos de alfabetização para adultos. A utilização de "palavras geradoras", que refletem o contexto cultural dos alunos, demonstrou ser uma estratégia valiosa para aumentar o engajamento dos participantes no processo educativo. Esse método vai além do simples aprendizado de leitura e escrita, promovendo a conscientização dos alunos sobre sua realidade e os transformando em agentes ativos em suas comunidades (Lima, 2016).

Os impactos positivos das práticas freirianas foram observados especialmente em contextos socioeconômicos desafiadores, onde educadores que adotaram essas metodologias notaram uma significativa retenção de alunos e maior interesse nas aulas. A abordagem freiriana, fundamentada em princípios de empoderamento e relevância cultural, contribui para combater a evasão escolar, incentivando o interesse pela educação formal (Lima, 2016).

Além disso, entrevistas com educadores revelaram que essas práticas facilitam reflexões críticas sobre questões sociais, tornando os estudantes mais conscientes de suas capacidades de promover mudanças em suas comunidades (Pereira, 2018).

No entanto, a implementação prática dos princípios freirianos enfrenta desafios, como a resistência institucional e a rigidez do currículo, que dificultam a aplicação plena dessas metodologias. A pressão por resultados mensuráveis em avaliações em larga escala também complica a adoção de abordagens mais qualitativas e reflexivas (Nascimento, 2017). Para superar esses obstáculos, iniciativas inovadoras que combinam os princípios de Freire com a tecnologia educacional vêm surgindo, mas é essencial garantir suporte estrutural e formação contínua para os educadores (Borges, 2019). Em síntese, as práticas inspiradas por Paulo Freire têm o potencial de promover mudanças significativas no aprendizado dos estudantes e nas comunidades, valorizando a conscientização e a autonomia.

4.3 DESAFIOS E OPORTUNIDADES NA IMPLEMENTAÇÃO DA PEDAGOGIA

FREIRIANA NA ATUALIDADE

A pedagogia de Paulo Freire enfrenta desafios significativos na educação contemporânea, como revelam as entrevistas e análises documentais realizadas, que destacam tanto as limitações quanto às oportunidades de fortalecer essas práticas nas instituições de ensino (Santos, 2018). Um dos principais obstáculos é a resistência das instituições, que permanecem ancoradas em métodos tradicionais e hierárquicos, priorizando a transmissão de informações e avaliações padronizadas (Borges, 2019). Essa resistência é alimentada pelo medo do desconhecido e pela preocupação com resultados de avaliações que não consideram abordagens alternativas (Santos, 2018).

A falta de recursos também se mostra uma barreira significativa. Para que a pedagogia freiriana seja efetiva, é necessário um suporte político e material adequado, como infraestrutura escolar apropriada e materiais didáticos que reflitam a vivência dos educandos. Carlos (2017) destaca que, sem esse suporte, muitos educadores se sentem desmotivados para inovar, comprometendo a eficácia de seus métodos pedagógicos. No entanto, a pesquisa também apontou oportunidades para o avanço dessas práticas, principalmente em contextos que oferecem suporte institucional e valorização da formação contínua dos educadores. Martins (2016) sugere que investir na capacitação docente pode preparar os educadores para implementar a pedagogia freiriana de maneira eficaz.

Além disso, a inclusão de tecnologias educacionais pode ser uma estratégia efetiva para superar barreiras tradicionais. Ferramentas digitais e aprendizagem online permitem que os educandos se conectem com conteúdos relevantes, promovendo uma aprendizagem crítica (Alves, 2019). Freire também enfatizou a importância da educação em promover inclusão e diversidade, destacando que práticas pedagógicas que reconhecem diferentes culturas e contextos sociais favorecem um ambiente escolar mais respeitoso e inclusivo, contribuindo para a redução da discriminação (Martins, 2016).

A educação deve, portanto, ser vista como uma ferramenta emancipatória que permite aos indivíduos agir de maneira ativa na sociedade. Implementar políticas públicas que favoreçam abordagens críticas e valorizem a diversidade cultural é fundamental para uma educação transformadora (Nóvoa, 2009). Em suma, a pedagogia de Freire, com suas perspectivas desafiadoras e oportunidades, continua a ser uma orientação ética para educadores empenhados em construir uma sociedade mais justa e inclusiva, fomentando um diálogo constante entre teoria e prática (Freitas & Forster, 2016).

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

As considerações finais deste estudo ressaltam a relevância das contribuições de Paulo Freire para a educação contemporânea, enfatizando a necessidade de uma prática pedagógica que promova o diálogo, a conscientização e a emancipação dos educandos. A revisão da literatura e a análise dos conceitos centrais da pedagogia freireana, como opressor e oprimido, revelaram que a educação não deve ser vista apenas como um processo técnico, mas como um ato político e ético, capaz de transformar a realidade social e melhorar a vida dos indivíduos.

A educação se configura, portanto, não apenas como um meio de adquirir conhecimento, mas como uma ferramenta para a libertação e a promoção da cidadania.Os desafios vividos pelos educadores na implementação das práticas freirianas, como a resistência institucional e a rigidez dos currículos, são significativos, mas não intransponíveis. As metodologias que valorizaram as experiências e o contexto dos alunos mostraram ser eficazes, contribuindo para o engajamento e a retenção nas aulas.

A utilização de palavras geradoras e a adoção de uma abordagem dialogal levaram a resultados positivos, amplificando a consciência crítica dos alunos e sua capacidade de agir em suas comunidades. Contudo, é necessário um suporte mais robusto para a formação contínua dos educadores, a fim de que possam integrar esses princípios de maneira eficaz em suas práticas pedagógicas. Em suma, a filosofia educacional de Freire continua a ser um guia valioso para enfrentar os desafios da educação atual. Ao incentivar a reflexão crítica e a busca por uma educação que priorize a autonomia e a participação ativa, este estudo se propõe a contribuir para a construção de um ambiente de aprendizagem mais inclusivo e transformador.

A integração das ideias de Freire nas práticas pedagógicas contemporâneas não apenas enriquece a formação dos educadores, mas também promove uma sociedade mais justa e consciente, capaz de lutar contra as injustiças e desigualdades que ainda persistem. Portanto, é fundamental que as instituições educacionais adotem e adaptem os princípios freirianos para garantir uma educação verdadeiramente libertadora e transformadora.

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  1. Acadêmica do Curso de Filosofia da Fundação Universidade Federal de Rondônia- UNIR.

  2. Orientadora deste artigo e Professora do Curso de Filosofia da Fundação Universidade Federal de Rondônia- UNIR.

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