Artroplastia: fatores associados à falha precoce do implante
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
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Resumo

Objetivo: Analisar os principais fatores associados à falha precoce de implantes em artroplastias, considerando suas implicações clínicas e estratégias para prevenção de complicações e melhora da sobrevida protética. Métodos: Realizou-se uma revisão bibliográfica integrativa nas bases PubMed, SciELO, Revista Brasileira de Ortopedia, NIH, Medscape e Google Acadêmico. Foram incluídos estudos publicados entre 2019 e 2026, nos idiomas português e inglês, utilizando os descritores “artroplastia”, “falha do implante”, “falha precoce do implante”, “complicações” e “fatores de risco”. Após a aplicação dos critérios de elegibilidade e exclusão, 35 artigos compuseram a amostra final. Resultados: A falha precoce foi caracterizada principalmente por perda de fixação, instabilidade ou afrouxamento asséptico no primeiro ano após a cirurgia. Os fatores associados incluíram infecção periprotética, qualidade óssea inadequada, posicionamento incorreto do implante, sobrecarga mecânica precoce e baixa estabilidade primária. Sexo masculino, maior demanda funcional e presença de patógenos de difícil erradicação também foram associados ao insucesso. Conclusão: A falha precoce dos implantes em artroplastias apresenta etiologia multifatorial, envolvendo aspectos biológicos, mecânicos, técnicos e clínicos. O planejamento cirúrgico rigoroso, a seleção adequada do implante e a identificação precoce dos fatores de risco são fundamentais para reduzir complicações, evitar revisões e melhorar os resultados clínicos.

Palavras-Chave

Artroplastia, Falha do implante, Falha precoce do implante, Complicações, Fatores de risco.

Abstract

Objective: To analyze the main factors associated with early implant failure in arthroplasty, considering clinical implications and strategies to prevent complications and improve prosthetic survival. Methods: An integrative literature review was conducted using the PubMed, SciELO, Revista Brasileira de Ortopedia, NIH, Medscape, and Google Scholar databases. Studies published between 2019 and 2026 in Portuguese and English were included, using the keywords "arthroplasty," "implant failure," "early implant failure," "complications," and "risk factors." After applying eligibility and exclusion criteria, 35 articles comprised the final sample. Results: Early failure was characterized primarily by loss of fixation, instability, or aseptic loosening within the first year post-surgery. Associated factors included periprosthetic infection, inadequate bone quality, incorrect implant positioning, early mechanical overload, and low primary stability. Male gender, higher functional demand, and the presence of pathogens that are difficult to eradicate were also associated with failure. Conclusion: Early implant failure in arthroplasty has a multifactorial etiology involving biological, mechanical, technical, and clinical aspects. Rigorous surgical planning, appropriate implant selection, and early identification of risk factors are essential to reduce complications, avoid revision surgeries, and improve clinical outcomes.

Keywords

Arthroplasty, Implant failure, Early implant failure, Complications, Risk factors

1 Introdução

A artroplastia é um procedimento cirúrgico altamente complexo, que visa substituir uma articulação danificada por componentes protéticos artificiais e tem como objetivo a restauração da mobilidade, alívio da dor e promoção da qualidade de vida para um paciente que sofre de doenças articulares progressivamente degenerativas.1 A técnica envolve a remoção das estruturas articulares danificadas e sua substituição por equipamentos protéticos que restituem a funcionalidade da articulação.1

As indicações para o procedimento vão desde a osteoartrite, artrite reumatoide, osteonecrose ou mesmo fraturas de colo do fêmur, no caso das artroplastias totais de quadril, quando não puderem ser adequadamente tratadas por outros métodos.2,3 Além dessas, as deformidades congênitas, sequelas de luxações ou mesmo o histórico de traumas pode necessitar da substituição da articulação.2

A artroplastia unicompartimental do joelho consolidou-se como uma alternativa cirúrgica eficaz à artroplastia total em pacientes criteriosamente selecionados, oferecendo vantagens biomecânicas e funcionais relevantes.4 Entretanto, apesar da evolução nos critérios de indicação, no desenho dos implantes e no refinamento das técnicas cirúrgicas, a ocorrência de falha do implante permanece uma preocupação clínica significativa.4

Diferentemente das falhas tardias atribuídas à progressão da osteoartrose ou à infecção periprotética, uma parcela substancial dos insucessos da AUJ ocorre na ausência de causas clássicas bem definidas, sugerindo a influência de mecanismos ainda não completamente elucidados.5 A falha precoce do implante, frequentemente manifestada nos primeiros anos após o procedimento, apresenta-se predominantemente como afrouxamento asséptico dos componentes femoral ou tibial, desgaste acelerado do polietileno e dor persistente no compartimento anteromedial.6

Esses eventos adversos têm sido descritos mesmo em pacientes com perfil demográfico ideal, alinhamento coronal pós-operatório adequado e técnica cirúrgica aparentemente correta.5,6 A ampla variação nas taxas de falha precoce relatadas na literatura reforça a hipótese de que fatores adicionais, além dos tradicionalmente reconhecidos, exercem papel determinante na sobrevida do implante.7

Nesse contexto, o posicionamento tridimensional dos componentes protéticos emerge como um elemento crítico na compreensão da falha do implante na AUJ.3,4,5 Evidências recentes sugerem que o sucesso do procedimento não depende exclusivamente do alinhamento coronal, mas também da restauração precisa da linha articular e da correta relação espacial dos componentes nos planos sagital e axial.6,7

Alterações sutis nesses parâmetros podem comprometer a distribuição de cargas, alterar a cinemática do joelho e favorecer micromovimentos na interface osso–implante, contribuindo para a falha precoce mesmo na ausência de causas biomecânicas ou biológicas evidentes.8 Dentre as principais complicações precoces do procedimento, estão a trombose venosa profunda, infecção da ferida cirúrgica, rigidez articular, afrouxamento asséptico da prótese e fraturas periprotéticas, as quais pode elevar os custos com saúde, levar à incapacidade do paciente e ao óbito.3

O presente estudo tem como objetivo avaliar os fatores que influenciam no resultado do implante, buscando analisar sua associação com a falha precoce do procedimento e quais são os meios disponíveis para prevenir sua ocorrência.


2 Revisão da Literatura

Conceitos de artroplastia e a importância do implante

A artroplastia reversa do ombro (ARO) foi desenvolvida para o manejo da artropatia do manguito rotador, sobretudo em pacientes idosos. A técnica consiste na inversão da anatomia do ombro, alterando sua biomecânica de modo a permitir que o músculo deltoide compense a insuficiência do manguito rotador.9 Recentemente, as indicações da técnica foram ampliadas, passando a abranger casos de osteoartrite (OA) associada à subluxação posterior e glenoide bicôncava. Também passaram a ser incluídas situações como sequelas pós-infecciosas e luxações crônicas.8

A artroplastia de quadril consiste em uma intervenção ortopédica amplamente difundida, capaz de promover redução expressiva da dor, recuperação funcional do membro e melhora global da qualidade de vida.1 A artroplastia total do quadril (ATQ) configura-se como um procedimento cirúrgico frequente no manejo da artrite. Nas próximas décadas, projeta-se um aumento expressivo da demanda por ATQ, em decorrência do envelhecimento da população e da elevação das taxas de obesidade.5

Ao longo das últimas décadas, a artroplastia total do tornozelo (ATT) passou a ser reconhecida como uma opção terapêutica eficaz e segura em substituição à artrodese no manejo da osteoartrite terminal do tornozelo.6,7 Evidências biomecânicas e clínicas demonstram que a substituição do tornozelo proporciona melhor manutenção da mobilidade do complexo articular, associada a maior alívio da dor e melhores resultados funcionais no período pós-operatório quando comparada à artrodese.7,8

Adicionalmente, verificou-se que a artroplastia total do tornozelo (ATT) está associada a menor incidência radiográfica de degeneração das articulações adjacentes, comumente observada após a artrodese do tornozelo, uma vez que preserva o movimento articular e reduz a carga imposta às articulações vizinhas.2

Falha precoce do implante

O estudo de Mozella et al. (2024), que analisou o número de cirurgias de revisão de artroplastia total do joelho (RATJ) em 80 pacientes, demonstrou que a infecção periprotética articular foi a principal causa de RATJ, correspondendo a 47,73% dos casos. Em segundo lugar, o afrouxamento asséptico de um ou mais componentes da articulação representou 35,23% dos casos. A limitação a amplitude de movimento configurou a terceira causa de RATJ, com 5,68% das cirurgias. As demais causas em ordem decrescente foram: instabilidade (4,55%), falha devido à ruptura do mecanismo extensor (2,27%) e dor atribuída a não substituição da cartilagem patelar (1,14%).

Outro estudo, sobre a artroplastia reversa do ombro (RSA), de Baskaran e seu grupo (2025), demonstra que as taxas de complicações são variáveis entre os estudos realizados até hoje, mas, qual seja, mostram que há intensa relação entre si. Dessa forma, as principais complicações da RSA são a instabilidade (0,4% a 49%), infecção (3% a 4%), falha na placa de base (0,9% em procedimentos primários e 3,6% em casos de revisão), entalhe escapular (4,6% a 50,8%), fraturas do acrômio e da espinha da escápula (0,8% a 11,2%) e complicações neurovasculares (1% a 4%). Segundo Shah et al, vários fatores influenciam as taxas de complicações, incluindo fatores específicos do paciente, como idade, nível de atividade e comorbidades.

3 Metodologia

O presente trabalho foi elaborado a partir de uma revisão bibliográfica integrativa da literatura, realizada por meio de consultas a bases de dados científicas de ampla relevância na área da saúde. Entre as fontes utilizadas destacam-se o Public Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (PubMed), a Revista Brasileira de Ortopedia (RBO), a National Institutes of Health (NIH), Medscape, Scientific Eletronic Library Online (Scielo), Google Acadêmico, além de outras plataformas pertinentes, com o intuito de garantir uma busca abrangente e representativa dos estudos disponíveis sobre o tema.

A definição da estratégia de busca baseou-se na utilização de descritores previamente selecionados, incluindo os termos “Artroplastia”, “Falha do implante”, “Falha precoce do implante”, “Complicações” e “Fatores de risco”. Com o objetivo de ampliar o alcance da pesquisa e incorporar evidências internacionais, esses descritores também foram aplicados em língua inglesa, utilizando-se as expressões “Arthroplasty", "Implant failure", "Early implant failure", "Complications" e "Risk factors".

Foram considerados elegíveis para análise os artigos publicados no período entre 2019 e 2026, priorizando-se estudos recentes e alinhados às evidências científicas contemporâneas. Foram excluídas publicações com dados incompletos, insuficientes para a abordagem proposta, bem como estudos duplicados identificados em mais de uma base de dados.

Com base nesses critérios, foi estabelecido um processo metodológico de triagem e seleção dos estudos, guiado tanto pelos descritores definidos quanto pela relevância científica e qualidade metodológica das publicações. Ao término das etapas de identificação, seleção e elegibilidade, 35 artigos compuseram a amostra final e fundamentaram a elaboração do corpo do presente estudo, conforme demonstrado no fluxograma apresentado na Figura 1.

Figura 1 – Fluxo metodológico para obtenção da base literária.


Fonte: Autoria própria.



4 Resultados e Discussão

Em um estudo realizado por Farkash et al. (2023),8 nos anos iniciais da casuística, o implante MAÏA™ (Groupe Lépine, França)9 foi o dispositivo predominantemente empregado, sendo posteriormente incorporada, a partir de 2018, a prótese Touch® (KERIMEDICAL, Suíça).10 A definição do tipo de implante e da via de acesso cirúrgico ficou a cargo do cirurgião responsável.8

A maioria das cirurgias foi executada por via dorsal, embora uma proporção relevante tenha sido realizada por acesso radiopalmar, o que pode influenciar a estabilidade inicial do implante e a distribuição de cargas sobre o trapézio.8

As falhas do implante (Tabela 1), observadas em uma pequena fração dos procedimentos, estiveram associadas principalmente a fatores mecânicos e estruturais do osso hospedeiro.8,11 Dificuldades intraoperatórias na fixação do componente no trapézio, frequentemente relacionadas à fratura óssea durante a implantação, levaram à necessidade de conversão imediata para trapezectomia em alguns casos.8,12

Em situações tardias, a revisão cirúrgica foi motivada por soltura precoce do copo, luxações recorrentes não responsivas a ajustes protéticos, fraturas do trapézio secundárias a trauma e infecção profunda.8 Além disso, dor persistente na base do polegar, mesmo na ausência de alterações detectáveis em exames clínicos ou de imagem, também foi considerada indicativa de falha funcional do implante, reforçando a importância da qualidade óssea, da estabilidade inicial e do correto posicionamento protético como determinantes críticos do sucesso a longo prazo.8

Tabela 1

Fonte: Adaptada de Siegmund, et al. (2025).

A falha precoce do implante em artroplastias foi definida como perda de fixação, afrouxamento asséptico ou instabilidade do componente protético no intervalo de até um ano após o procedimento.13 A maioria dos casos apresentou insucesso antes da completa integração funcional da prótese.13,14 As principais causas identificadas incluíram infecção periprotética, aplicação excessiva de força ou torque durante a implantação, falhas técnicas relacionadas ao posicionamento do implante com comprometimento ósseo adjacente, necrose térmica óssea intraoperatória e sobrecarga mecânica precoce.15

Outros fatores associados foram doença degenerativa ou inflamatória em estruturas articulares adjacentes, proximidade inadequada do implante a áreas ósseas críticas, baixa adesão às orientações pós-operatórias, além de condições sistêmicas como osteoporose ou qualidade óssea insuficiente.13 Em alguns casos, a etiologia da falha não pôde ser claramente determinada.13

Dentre os fatores associados à sobrevivência precoce dos implantes em artroplastia, diversas variáveis clínicas e cirúrgicas foram analisadas quanto à influência na taxa de sobrevivência precoce dos implantes articulares.14,15 Diferenças estatisticamente significativas foram observadas entre os sexos, com discreta vantagem para o sexo feminino.15 A localização anatômica da artroplastia também impactou os resultados, sendo regiões submetidas a maiores cargas biomecânicas associadas a taxas mais elevadas de falha.15

A qualidade óssea mostrou-se determinante, com osso de alta densidade apresentando maior risco de falha precoce, possivelmente devido à maior dificuldade técnica de preparo e fixação adequada.16 Implantes de menor comprimento ou menor área de contato ósseo demonstraram maior susceptibilidade à instabilidade precoce.16,17 Estratégias cirúrgicas como a necessidade de reconstrução óssea, uso de implantes não convencionais, carga precoce e técnicas que exigiram maior agressão tecidual estiveram associadas a piores taxas de sobrevivência inicial.17

Na análise de regressão logística multivariável, permaneceram como fatores de risco independentes para falha precoce do implante em artroplastia a qualidade óssea desfavorável, a necessidade de procedimentos reconstrutivos associados, a aplicação de carga funcional precoce e o uso de implantes com menor estabilidade primária.16 Em contrapartida, a escolha de técnicas que favorecem melhor fixação inicial, a adequada preparação do leito ósseo e o controle rigoroso do ambiente biológico local atuaram como fatores protetores.13,18

Pacientes em faixa etária intermediária apresentaram maior risco de falha precoce quando comparados a pacientes mais idosos, possivelmente em função de maior demanda funcional no pós-operatório.19

A falha do implante em artroplastia, especialmente quando ocorre de forma precoce, representa um evento multifatorial, envolvendo aspectos biológicos, mecânicos e técnicos.13,19 A presença de infecção periprotética, instabilidade inicial, preparo inadequado do leito ósseo e sobrecarga precoce são reconhecidos como os principais determinantes do insucesso precoce. A qualidade óssea exerce papel central, uma vez que tanto o osso excessivamente denso quanto o osso de baixa densidade podem comprometer a integração e a estabilidade do implante.13,20

Além disso, procedimentos que exigem reconstruções ósseas aumentam o risco de complicações infecciosas e mecânicas, elevando a taxa de falha precoce.17,18,19 A correta indicação da artroplastia, aliada ao planejamento cirúrgico detalhado, à seleção adequada do implante e ao controle rigoroso do pós-operatório, é fundamental para reduzir a incidência de falhas.13,14,20 Embora a experiência do cirurgião não tenha se mostrado um fator isolado de risco, a complexidade crescente dos casos abordados pode influenciar negativamente os resultados iniciais.14,15,17

Tabela 2 – Fatores associados à falha precoce do implante em artroplastias e as principais características/mecanismos envolvidos

Fonte: Autoria própria.

Por fim, os achados reforçam que a prevenção da falha precoce do implante em artroplastia depende da integração entre avaliação criteriosa do paciente, domínio técnico-cirúrgico e compreensão aprofundada dos fatores biomecânicos e biológicos envolvidos, contribuindo para melhores desfechos clínicos e maior longevidade dos implantes.13,18

A revisão da artroplastia total do joelho em dois estágios é amplamente reconhecida como a estratégia cirúrgica com melhores resultados no manejo da infecção periprotética crônica do joelho.21 Ainda assim, a incidência de falha séptica precoce permanece elevada, tornando o tratamento dessa condição um desafio persistente na prática ortopédica especializada.22

Observou-se uma taxa expressiva de falha séptica precoce nos primeiros três anos após a reimplantação, atingindo 31,8% dos casos analisados.21,23 Esse percentual elevado pode ser parcialmente explicado pelo perfil dos centros terciários envolvidos, que concentram pacientes com maior complexidade clínica.22 Os índices de sucesso variaram de acordo com o perfil microbiológico identificado nas culturas intraoperatórias.21,22

Após o ajuste para potenciais fatores de confusão, três variáveis mostraram associação independente com maior risco de falha precoce do implante: positividade da cultura no momento da reimplantação, infecções causadas por fungos ou micobactérias e sexo masculino.24 A persistência de culturas positivas durante a fase de reimplantação destacou-se como um dos principais determinantes de falha séptica precoce.21

Pacientes com cultura positiva nesse momento apresentaram um risco aproximadamente quatro vezes maior de recorrência infecciosa, mesmo na presença de marcadores inflamatórios séricos dentro da normalidade. A taxa de positividade cultural observada foi semelhante à descrita na literatura.24 Esse achado pode refletir infecções polimicrobianas parcialmente tratadas, desbridamento cirúrgico incompleto ou emergência de microrganismos resistentes após antibioticoterapia prolongada, fatores que favorecem a persistência do biofilme e comprometem a erradicação infecciosa.24,25

Nesses casos, esquemas antibióticos supressivos prolongados e o uso de agentes com ação antibiofilme podem ser necessários para aumentar a chance de sucesso do implante.25 As infecções fúngicas e micobacterianas também se mostraram fatores de risco independentes para falha precoce após a ATJ de revisão em dois estágios.26 Esses patógenos são reconhecidamente difíceis de erradicar, apresentam crescimento lento e frequentemente não são identificados na primeira intervenção cirúrgica.27

Embora o número absoluto desses casos tenha sido limitado, a taxa de recorrência infecciosa foi desproporcionalmente elevada, reforçando a agressividade dessas infecções e seu impacto negativo na sobrevida do implante.21,15 O sexo masculino foi outro fator associado ao aumento do risco de falha séptica precoce.25 Estudos prévios já demonstraram maior incidência de complicações pós-operatórias, incluindo infecção periprotética, em homens submetidos à artroplastia total do joelho.26,27

Uma possível explicação envolve maior demanda funcional e níveis de atividade física mais elevados, o que pode favorecer micromovimentos do implante, comprometimento da interface osso–prótese e maior susceptibilidade à colonização bacteriana.27 O reconhecimento desse perfil de risco permite melhor estratificação pré-operatória e planejamento cirúrgico individualizado.24,26 O afrouxamento séptico radiológico, apesar de frequentemente associado à infecção crônica mediada por biofilme, não se configurou como fator de risco independente neste estudo.21

De forma semelhante, os casos de infecção periprotética com cultura negativa não apresentaram associação significativa com falha precoce.25,26 Em contrapartida, a presença de microrganismos viáveis identificados no momento da reimplantação mostrou-se mais relevante para o prognóstico do implante do que a simples ausência de crescimento bacteriano em fases anteriores do tratamento.21,23,27 Os desfechos da ATJ de revisão em dois estágios são influenciados por uma interação complexa entre fatores microbiológicos, condições do hospedeiro, estratégias antibióticas e variáveis cirúrgicas.24

Diante de pacientes com múltiplos fatores de risco, abordagens terapêuticas adicionais, como revisão em três estágios, troca intermediária do espaçador ou antibioticoterapia prolongada, devem ser consideradas.28 Além disso, métodos avançados de identificação microbiana, como o sequenciamento de nova geração, podem desempenhar papel fundamental na detecção precisa dos patógenos envolvidos.28,29

Em síntese, o sexo masculino, a presença de infecções fúngicas ou micobacterianas e a positividade cultural no momento da reimplantação foram identificados como fatores independentes associados à falha séptica precoce do implante após ATJ de revisão em dois estágios para infecção periprotética crônica, mesmo diante de marcadores inflamatórios normalizados.29,30

Esses resultados contribuem para o aprimoramento da avaliação pré-operatória e podem auxiliar na redução das taxas de falha precoce do implante (Tabela 3). Estudos prospectivos, multicêntricos e com maior rigor metodológico ainda são necessários para aprofundar a compreensão desses fatores de risco.30

Tabela 3 – Fatores associados à falha séptica precoce após artroplastia total do joelho de revisão em dois estágios

Fonte: Autoria própria



5 Conclusão

A falha precoce do implante em artroplastias apresenta etiologia multifatorial, envolvendo fatores biológicos, mecânicos, técnicos e clínicos que comprometem a estabilidade e a funcionalidade protética. Entre os principais fatores associados, destacam-se infecção periprotética, qualidade óssea inadequada, posicionamento incorreto dos componentes e sobrecarga mecânica precoce. Aspectos relacionados ao hospedeiro, como maior demanda funcional e presença de patógenos de difícil erradicação, também influenciam a sobrevida dos implantes. A prevenção exige planejamento cirúrgico rigoroso, seleção adequada dos pacientes e implantes, além da identificação precoce dos fatores de risco. Estudos prospectivos e multicêntricos são necessários para aprimorar as estratégias preventivas, reduzir revisões e melhorar os desfechos clínicos e a qualidade de vida dos pacientes.

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  1. Hospital de Base Dr. Ary Pinheiro – Porto Velho – RO – Brasil. ORCID: https://orcid.org/0009-0009-9782-7891 . E-mail: lukazmurer@icloud.com. ↑

  2. Hospital de Base Dr. Ary Pinheiro – Porto Velho – RO – Brasil. E-mail: amom.opo@gmail.com. ↑

  3. Hospital de Base Dr. Ary Pinheiro – Porto Velho – RO – Brasil. E-mail: clovison.carvalho15@gmail.com. ↑

  4. Universidade Federal de Rondônia – Porto Velho – RO – Brasil. E-mail: jhonatarmr@gmail.com. ↑

  5. Hospital de Base Dr. Ary Pinheiro – Porto Velho – RO – Brasil. ORCID: https://orcid.org/0009-0002-7348-7801. E-mail: idevaldo.gcf@gmail.com. ↑

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Copyright (c) 2026 Lucas Fernando Murer, Amom Mendes Fernandes Rocha, Clovison Carvalho Jardim, Jhonata Raimundo Martins Rodrigues, Idevaldo Galvão Costa Filho (Autor)

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