RESUMO
Objetivo: Analisar a atuação da enfermagem no acolhimento de mulheres em situação de violência na Atenção Primária à Saúde, considerando as práticas assistenciais desenvolvidas, os desafios enfrentados pelos profissionais e suas implicações para a integralidade do cuidado. Métodos: Revisão integrativa da literatura, de abordagem qualitativa e caráter descritivo, realizada nas bases Biblioteca Virtual em Saúde, Scientific Electronic Library Online, MEDLINE/PubMed e Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde. A seleção dos estudos foi conduzida conforme critérios de elegibilidade previamente estabelecidos e orientada pela estratégia PICo, sendo os dados submetidos à análise temática. Resultados: Os estudos evidenciaram que a enfermagem desempenha papel essencial na identificação precoce da violência, no acolhimento humanizado, na escuta qualificada, na notificação e no encaminhamento das mulheres para a rede de proteção. Entretanto, persistem limitações relacionadas à insuficiente qualificação profissional, à sobrecarga de trabalho, à fragilidade da articulação intersetorial, à ausência de protocolos padronizados e à subnotificação dos casos, comprometendo a integralidade da assistência. Conclusão: A enfermagem ocupa posição estratégica no enfrentamento da violência contra a mulher na Atenção Primária à Saúde. Contudo, a efetividade dessa atuação depende do fortalecimento da educação permanente, da organização dos serviços, da implementação de protocolos assistenciais e da integração entre os diferentes componentes da rede de atenção, visando à oferta de um cuidado integral, humanizado e resolutivo.
Palavras-chave: Atenção à Saúde; Violência; Enfermagem no Acolhimento;
ABSTRACT
Objective: To analyze the role of nursing in the care of women experiencing violence within Primary Health Care, considering the care practices developed, the challenges faced by professionals, and their implications for comprehensive care. Methods: An integrative literature review with a qualitative and descriptive approach was conducted using the Virtual Health Library, Scientific Electronic Library Online, MEDLINE/PubMed, and Latin American and Caribbean Health Sciences Literature databases. The selection of studies followed previously established eligibility criteria and was guided by the PICo strategy. The data were synthesized through thematic analysis. Results: The findings demonstrated that nursing plays an essential role in the early identification of violence, humanized care, qualified listening, case notification, and referral of women to the support network. However, important barriers remain, including insufficient professional training, workload overload, weak intersectoral coordination, lack of standardized care protocols, and underreporting of cases, which compromise comprehensive health care. Conclusion: Nursing occupies a strategic position in addressing violence against women within Primary Health Care. However, the effectiveness of nursing interventions depends on strengthening continuing education, improving health service organization, implementing care protocols, and enhancing integration among the different components of the health care network to ensure comprehensive, humanized, and effective care.
Keyword: Health Care; Violence; Nursing Care in User Reception;
INTRODUÇÃO
A violência contra a mulher constitui um dos principais desafios contemporâneos para a saúde pública mundial e representa uma grave violação dos direitos humanos, produzindo repercussões físicas, psicológicas, sociais e econômicas que comprometem a saúde, a autonomia e a qualidade de vida das vítimas. Estimativas da Organização Mundial da Saúde indicam que aproximadamente uma em cada três mulheres já sofreu violência física e/ou sexual ao longo da vida, evidenciando a elevada magnitude desse fenômeno e a necessidade de respostas intersetoriais capazes de prevenir sua ocorrência e minimizar seus impactos.¹
No Brasil, embora avanços legislativos e políticas públicas tenham fortalecido os mecanismos de proteção às mulheres, os indicadores permanecem preocupantes. Segundo o Atlas da Violência⁵, a taxa de homicídios femininos manteve-se praticamente estável nos últimos anos, contrastando com a redução observada nos homicídios da população geral, demonstrando que as mulheres continuam expostas a elevados níveis de violência letal. Em 2023, foram registrados 3.903 homicídios de mulheres, correspondendo a uma taxa de 3,5 mortes por 100 mil mulheres, além da persistência de elevados índices de feminicídio e outras formas de violência de gênero.² Esses dados evidenciam que os avanços normativos ainda não foram suficientes para modificar de forma expressiva esse cenário.³
A violência contra a mulher também permanece fortemente presente na percepção da população feminina. Dados da 11ª Pesquisa Nacional de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, realizada pelo DataSenado em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência, demonstram que 46% das brasileiras afirmam que as mulheres não são tratadas com respeito no país, enquanto 77% apontam a violência e a segurança pública como os principais problemas enfrentados pelas mulheres brasileiras.⁴ Esses resultados revelam que a violência extrapola os indicadores epidemiológicos, constituindo uma preocupação permanente no cotidiano feminino e refletindo desigualdades estruturais ainda presentes na sociedade.
Outro aspecto que merece destaque refere-se à persistente subnotificação dos casos. Apesar do aumento dos registros oficiais, estudos apontam que uma parcela significativa das situações de violência permanece invisível aos sistemas de informação⁵, seja pelo receio das vítimas em denunciar seus agressores, pela dependência econômica e emocional ou pelas dificuldades encontradas pelos próprios serviços de saúde na identificação e notificação dos casos.²,⁶ Essa realidade limita a compreensão da verdadeira dimensão do problema, compromete o planejamento das políticas públicas e dificulta a implementação de estratégias mais efetivas de prevenção e assistência.
Nesse contexto, a Atenção Primária à Saúde (APS) assume papel estratégico por constituir a principal porta de entrada do Sistema Único de Saúde e desenvolver ações fundamentadas na longitudinalidade do cuidado, territorialização e construção de vínculo com a comunidade. Essas características favorecem a identificação precoce de situações de violência frequentemente não verbalizadas durante as consultas, possibilitando intervenções oportunas e o encaminhamento das mulheres para a rede de proteção social e jurídica.⁷,⁸
Entre os profissionais inseridos nesse nível de atenção, a enfermagem destaca-se pelo contato contínuo com as usuárias e pela atuação em diferentes etapas do cuidado, incluindo acolhimento, escuta qualificada, avaliação clínica, notificação compulsória e articulação com os demais serviços da rede assistencial. A literatura nacional e internacional demonstra que uma abordagem humanizada, associada ao estabelecimento de vínculo e à comunicação terapêutica, favorece a identificação dos casos e fortalece a assistência integral às mulheres em situação de violência.⁹,¹⁰
Entretanto, embora o protagonismo da enfermagem seja amplamente reconhecido, a literatura evidencia que a efetividade dessas práticas ainda é influenciada por limitações relacionadas à qualificação profissional, insegurança na condução dos casos, insuficiência de protocolos assistenciais, sobrecarga de trabalho e fragilidade da articulação intersetorial.11 Além disso, observa-se que a produção científica concentra-se predominantemente na descrição das atribuições profissionais, existindo menor aprofundamento acerca dos fatores organizacionais e institucionais que condicionam a qualidade do acolhimento na Atenção Primária à Saúde. Essa lacuna demonstra a necessidade de estudos que analisem criticamente a atuação da enfermagem, contribuindo para o fortalecimento das práticas assistenciais e para o aprimoramento das políticas públicas voltadas ao enfrentamento da violência contra a mulher.12,13
Diante desse contexto, o presente estudo teve como objetivo analisar criticamente a atuação da enfermagem no acolhimento de mulheres em situação de violência na Atenção Primária à Saúde, considerando as práticas desenvolvidas, os entraves existentes e seus reflexos na integralidade da assistência.¹²,¹³
MÉTODOS
Tipo do estudo
Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, com abordagem qualitativa, caráter descritivo e exploratório, desenvolvida com o objetivo de analisar a atuação da enfermagem no acolhimento de mulheres em situação de violência na Atenção Primária à Saúde. A revisão foi conduzida em etapas sistematizadas de definição da questão norteadora, busca bibliográfica, seleção dos estudos, extração dos dados, análise e síntese das evidências, tomando-se como referência o procedimento metodológico empregado por Lima et al.⁶ O processo de identificação e seleção dos estudos foi apresentado por meio de fluxograma, sendo o relato estruturado de acordo com as recomendações do PRISMA 2020.
População e amostra
A população do estudo foi constituída por publicações científicas relacionadas à violência contra a mulher e à atuação da enfermagem na Atenção Primária à Saúde.
A amostra foi composta pelos estudos que atenderam aos critérios de elegibilidade previamente estabelecidos. Foram incluídos artigos científicos disponíveis na íntegra, publicados nos idiomas português, inglês e espanhol, entre 2016 e 2024 que abordassem a atuação da enfermagem no acolhimento de mulheres em situação de violência no contexto da Atenção Primária à Saúde.
Foram excluídos artigos duplicados, estudos sem relação direta com o objetivo da pesquisa, editoriais, cartas ao editor, relatos de experiência, dissertações, teses, capítulos de livros e publicações que não apresentassem rigor metodológico ou informações suficientes para responder à questão norteadora do estudo.
Local do estudo
O estudo foi desenvolvido em ambiente virtual mediante consulta às bases de dados Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Scientific Electronic Library Online (SciELO), MEDLINE/PubMed, Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e Base de Dados em Enfermagem (BDENF). Também foram consultados documentos oficiais do Ministério da Saúde, Organização Mundial da Saúde e demais instituições reconhecidas na produção de evidências científicas relacionadas ao tema.
Coleta de dados
A coleta dos dados foi realizada entre novembro de 2025 e março de 2026. A estratégia de busca foi estruturada utilizando a ferramenta PICo, definindo como questão norteadora: Como ocorre a atuação da enfermagem no acolhimento de mulheres em situação de violência no âmbito da Atenção Primária à Saúde?
Os componentes da estratégia foram definidos da seguinte forma:
Quadro 1 – Componentes de estratégia PICo utilizados para elaboração da questão de pesquisa
Foram utilizados descritores controlados dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e do Medical Subject Headings (MeSH), incluindo "Violência contra a mulher", "Enfermagem", "Atenção primária à saúde", "Saúde da mulher" e "Assistência integral à saúde", combinados pelos operadores booleanos AND e OR. O processo de seleção ocorreu em etapas sucessivas, compreendendo a identificação dos estudos, exclusão de duplicidades, leitura dos títulos e resumos, avaliação dos textos completos e aplicação dos critérios de elegibilidade.
Fluxograma 1 – Fluxo do processo de seleção dos estudos incluídos na revisão
Fonte: (Page MJ, McKenzie JE, Bossuyt PM, et al. The PRISMA 2020 statement).
Além dos estudos científicos incluídos na revisão, foram consultados 09 documentos normativos e institucionais para subsidiar a contextualização teórica e a discussão dos resultados. Esses documentos não integraram a amostra final da revisão.
Análise dos dados
Os estudos selecionados foram submetidos à leitura analítica e interpretativa. As informações extraídas contemplaram autor, ano de publicação, objetivo, delineamento metodológico, população estudada e principais resultados.
Posteriormente, realizou-se síntese narrativa das evidências, permitindo identificar convergências, divergências e lacunas relacionadas à atuação da enfermagem no acolhimento de mulheres em situação de violência na Atenção Primária à Saúde.
Aspectos éticos
Por se tratar de uma revisão integrativa da literatura, desenvolvida exclusivamente com dados secundários disponíveis em publicações científicas e documentos de domínio público, não houve participação direta de seres humanos, não sendo necessária a submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa nem a obtenção de Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE). Durante todas as etapas da pesquisa foram observados os princípios da integridade científica, garantindo-se a correta citação das fontes consultadas, a fidedignidade das informações apresentadas e o respeito à propriedade intelectual dos autores.
RESULTADOS
CARACTERIZAÇÃO DOS ESTUDOS INCLUÍDOS
A estratégia de busca resultou na identificação das publicações relacionadas à atuação da enfermagem no acolhimento de mulheres em situação de violência na Atenção Primária à Saúde. Após a aplicação dos critérios de elegibilidade e exclusão das duplicidades, foram selecionados os estudos que compuseram a amostra final da revisão. As publicações incluídas apresentaram predominância de pesquisas qualitativas desenvolvidas no Brasil, além de estudos internacionais que abordaram a organização dos serviços, o acolhimento às vítimas e os desafios enfrentados pelos profissionais de enfermagem. Os estudos analisados foram publicados entre 2017 e 2026, contemplando diferentes contextos assistenciais, com destaque para a Atenção Primária à Saúde, serviços de urgência e emergência e redes especializadas de atenção às mulheres em situação de violência. De forma geral, as pesquisas investigaram aspectos relacionados ao acolhimento, identificação dos casos, notificação compulsória, encaminhamento para a rede de proteção e qualificação profissional.
Quadro 2 – Caracterização dos estudos incluídos na revisão
Fonte: Elaborado pelos autores com base nos estudos selecionados para revisão.
Quadro 3. Documentos normativos e institucionais utilizados na discussão
Elaborado pelos autores com base em Enander et al. (2017), Leite (2022), Brasil (2006; 2023), Instituto Patrícia Galvão (2026).
Violência contra a mulher como problema de saúde pública
Os estudos demonstraram que a violência contra a mulher permanece como importante problema de saúde pública¹⁴, produzindo repercussões que ultrapassam os danos físicos imediatos e comprometem a saúde mental, emocional e social das vítimas. As evidências apontaram elevada frequência de transtornos psicológicos, sofrimento emocional, limitações funcionais e impacto negativo sobre a qualidade de vida.
Também foram identificados elevados índices de feminicídio e outras formas de violência de gênero, evidenciando a persistência do problema mesmo após a implementação de políticas públicas voltadas à proteção das mulheres.¹⁵ Os estudos destacaram ainda que parte expressiva dos casos permanece invisível aos sistemas oficiais de informação em decorrência da subnotificação e das dificuldades enfrentadas pelas vítimas para formalizar denúncias.
Tabela 1 – Evolução dos registros de feminicídio no Brasil entre 2022 e 2025.
Fonte: Adaptado do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2024) e Instituto Patrícia Galvão (2025).
Nota: variação relativa calculada em relação ao ano anterior (n ano atual – n ano anterior/n ano anterior x 100), variação do período calculada em relação a 2022.
Atuação da enfermagem no acolhimento às mulheres em situação de violência
Os estudos analisados evidenciaram que a enfermagem desempenha papel fundamental no acolhimento às mulheres em situação de violência, especialmente na Atenção Primária à Saúde. Entre as principais atribuições identificadas destacaram-se a escuta qualificada, identificação precoce dos sinais de violência, acolhimento humanizado, registro das informações, notificação compulsória e encaminhamento para os serviços da rede de proteção.
As publicações também demonstraram que a construção do vínculo entre profissional e usuária favorece o reconhecimento das situações de violência, sobretudo quando as mulheres procuram os serviços apresentando apenas manifestações clínicas inespecíficas, sem relatar espontaneamente as agressões sofridas.
Principais desafios identificados na literatura
Os estudos apontaram diferentes fatores que dificultam a atuação da enfermagem no acolhimento às mulheres em situação de violência. Entre os aspectos mais frequentemente mencionados destacaram-se a insuficiente capacitação profissional, insegurança durante a abordagem dos casos, sobrecarga de trabalho, fragilidade da articulação intersetorial e subnotificação das ocorrências.
Também foram identificadas limitações relacionadas ao desconhecimento dos fluxos de encaminhamento, ausência de protocolos institucionais padronizados e dificuldades na comunicação entre os serviços que compõem a rede de atenção.
Quadro 4 – Principais dificuldades identificadas na literatura para atuação da enfermagem
Fonte: Elaborado pelos autores (2026) com base em Enander et al. (2017), Lima et al.(2023) e demais estudos selecionados.
Nota: os percentuais foram calculados em relação ao total de estudos incluídos na revisão (n = 9); como cada estudo relata mais de uma dificuldade, a soma das proporções ultrapassa a 100%. Posições empatadas recebem a mesma colocação.
Quadro 5 – Serviços da rede de proteção e respectivas contribuições para o cuidado às mulheres em situação de violência.
De forma geral, os estudos convergiram ao demonstrar que a qualificação profissional, a organização dos serviços e o fortalecimento da articulação entre os diferentes componentes da rede de proteção constituem elementos frequentemente associados à melhoria da assistência prestada às mulheres em situação de violência.
DISCUSSÃO
Os resultados desta revisão evidenciaram que a enfermagem ocupa posição estratégica no acolhimento de mulheres em situação de violência no contexto da Atenção Primária à Saúde¹⁶, principalmente em razão do contato contínuo estabelecido com a população e da possibilidade de desenvolver ações fundamentadas na longitudinalidade do cuidado. Os estudos analisados convergem ao demonstrar que o acolhimento, associado à escuta qualificada e ao estabelecimento de vínculo, favorece a identificação precoce de situações de violência frequentemente ocultadas pelas usuárias, permitindo intervenções oportunas e articulação com os serviços da rede de proteção.¹⁷
Essa constatação reforça que o cuidado de enfermagem ultrapassa a execução de procedimentos técnicos e incorpora competências relacionais indispensáveis para a assistência às mulheres em situação de violência. D’Oliveira et al.¹⁸ destacam que a qualidade do acolhimento está diretamente relacionada à capacidade dos profissionais de reconhecer sinais indiretos de violência e estabelecer uma relação de confiança capaz de favorecer o relato espontâneo das vítimas. Da mesma forma, Alcântara et al.² demonstram que práticas centradas na escuta ativa, no respeito à autonomia e na humanização do cuidado contribuem para ampliar o acesso das mulheres aos serviços especializados e fortalecer a continuidade da assistência.
Entretanto, observa-se que a efetividade dessas ações depende não apenas da atuação individual do enfermeiro¹⁹, mas também da organização dos serviços e do suporte institucional disponível. Dessa forma, o acolhimento deve ser compreendido como um processo compartilhado entre equipe, gestão e rede intersetorial, sendo insuficiente responsabilizar exclusivamente o profissional pelos resultados obtidos.
Entraves que comprometem a efetividade da assistência
Embora a literatura reconheça o protagonismo da enfermagem no enfrentamento da violência contra a mulher, os resultados desta revisão evidenciaram que diferentes fatores estruturais e organizacionais limitam a efetividade das intervenções desenvolvidas na Atenção Primária à Saúde.
Entre os obstáculos mais frequentemente identificados destacam-se a insuficiente qualificação profissional, a insegurança durante a abordagem dos casos, a sobrecarga assistencial, a ausência de protocolos padronizados e a fragilidade da articulação entre os componentes da rede de atenção. Esses achados corroboram os resultados descritos por Enander et al., que demonstraram que as maiores dificuldades enfrentadas pelos enfermeiros não estavam relacionadas aos procedimentos técnicos, mas à condução das relações interpessoais com as vítimas e seus familiares.²⁰
Entretanto, atribuir exclusivamente à falta de capacitação a baixa resolutividade da assistência representa uma interpretação limitada da problemática. Os estudos analisados demonstram que profissionais capacitados continuam enfrentando dificuldades quando inseridos em serviços sobrecarregados, com escassez de recursos humanos, ausência de privacidade para o atendimento e fragilidade dos fluxos assistenciais. Esses elementos evidenciam que a violência contra a mulher constitui uma demanda complexa, cuja abordagem exige mudanças organizacionais e institucionais, além da qualificação técnica dos profissionais.
A importância da rede intersetorial no enfrentamento da violência
Outro aspecto amplamente evidenciado na literatura refere-se à necessidade de fortalecimento da atuação intersetorial. Os estudos analisados demonstram que a assistência prestada às mulheres em situação de violência torna-se mais efetiva quando os serviços de saúde atuam de forma articulada com a assistência social, psicologia, segurança pública, sistema de justiça e instituições comunitárias.
Entretanto, verificou-se que a comunicação entre esses setores ainda apresenta importantes fragilidades, dificultando a continuidade do cuidado e favorecendo a fragmentação da assistência²¹. Em muitos serviços, os profissionais desconhecem os fluxos de encaminhamento ou encontram dificuldades para acessar os recursos disponíveis na rede de proteção, comprometendo a integralidade do cuidado.
Esses resultados sugerem que o fortalecimento da rede intersetorial depende não apenas da existência formal dos serviços, mas também da construção de fluxos assistenciais bem definidos, da comunicação permanente entre as equipes e da definição clara das responsabilidades de cada componente da rede.
Implicações para a prática da enfermagem
Os achados desta revisão indicam que o aprimoramento da assistência às mulheres em situação de violência requer investimentos permanentes em educação continuada, protocolos assistenciais e fortalecimento das políticas públicas voltadas à proteção das mulheres.
Entretanto, os resultados também demonstram que a qualificação profissional, embora indispensável, não constitui solução isolada para os desafios identificados. A melhoria da assistência depende igualmente de condições adequadas de trabalho, suporte institucional, redução da sobrecarga assistencial e fortalecimento das redes de apoio.
Nesse sentido, a enfermagem assume papel central não apenas na identificação dos casos, mas também na coordenação do cuidado, no acompanhamento longitudinal das usuárias e na articulação entre os diferentes serviços envolvidos na assistência. Dessa forma, investir na qualificação da enfermagem representa estratégia relevante para ampliar a resolutividade da Atenção Primária à Saúde e fortalecer as ações de enfrentamento da violência contra a mulher.
Limitações do estudo
Este estudo apresenta limitações inerentes ao delineamento metodológico adotado, por tratar-se de uma revisão integrativa da literatura baseada em dados secundários. A heterogeneidade metodológica dos estudos incluídos, bem como as diferenças entre os cenários de investigação e os instrumentos utilizados pelos autores, limitaram comparações diretas entre alguns resultados. Além disso, a ausência de coleta de dados primários impossibilitou explorar a percepção dos profissionais e das mulheres atendidas nos serviços de Atenção Primária à Saúde.
Contribuições para a área
Os resultados desta revisão contribuem para ampliar a compreensão sobre a atuação da enfermagem no acolhimento de mulheres em situação de violência, evidenciando fatores que favorecem e dificultam a assistência na Atenção Primária à Saúde. As evidências sintetizadas podem subsidiar processos de educação permanente, elaboração de protocolos assistenciais, organização dos fluxos de atendimento e fortalecimento da articulação intersetorial. Além disso, o estudo oferece subsídios para gestores, docentes e profissionais de enfermagem na implementação de estratégias voltadas ao cuidado integral, humanizado e baseado em evidências, fortalecendo a prática assistencial e contribuindo para o aprimoramento das políticas públicas direcionadas ao enfrentamento da violência contra a mulher.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo teve como objetivo analisar a atuação da enfermagem no acolhimento às mulheres vítimas de violência no contexto da Atenção Primária à Saúde. A partir da revisão da literatura científica e da análise dos documentos normativos relacionados à temática, foi possível compreender a relevância da enfermagem no enfrentamento desse fenômeno, bem como identificar os principais desafios e potencialidades envolvidos na assistência prestada.
Os resultados obtidos permitiram responder ao problema de pesquisa e atender aos objetivos propostos, evidenciando que a atuação da enfermagem na Atenção Primária à Saúde exerce papel fundamental no acolhimento de mulheres em situação de violência, atuando desde a identificação dos sinais e sintomas associados à violência até o acolhimento, orientação, notificação e encaminhamento das vítimas para os serviços especializados.²² A proximidade desses profissionais com a comunidade favorece a construção de vínculos e possibilita uma abordagem mais humanizada, contribuindo para a identificação de situações que muitas vezes permanecem ocultas ou não são relatadas espontaneamente pelas mulheres.
Verificou-se também que o acolhimento constitui uma das principais ferramentas de atuação da enfermagem, sendo fundamental para o estabelecimento de relações de confiança e para a promoção de um ambiente seguro, capaz de favorecer a escuta e o compartilhamento das experiências vivenciadas pelas vítimas. Nesse sentido, a assistência prestada deve estar fundamentada nos princípios da humanização, da integralidade e do respeito à autonomia da mulher, reconhecendo a complexidade das situações de violência e as particularidades de cada contexto social, familiar e emocional.
Entretanto, a literatura analisada revelou a existência de importantes fragilidades que ainda limitam a efetividade da assistência. Entre elas, destacam-se a insuficiente capacitação profissional, a insegurança dos trabalhadores diante de situações complexas, a sobrecarga de trabalho, a subnotificação dos casos e as dificuldades relacionadas à articulação entre os diferentes serviços que compõem a rede de proteção à mulher. Tais fatores podem comprometer a identificação precoce das situações de violência e dificultar a implementação de intervenções mais resolutivas e abrangentes.
Outro aspecto relevante identificado refere-se à necessidade de fortalecimento da atuação intersetorial. O enfrentamento da violência contra a mulher não deve ser compreendido como responsabilidade exclusiva dos serviços de saúde, mas como uma ação compartilhada entre diferentes setores, incluindo assistência social, psicologia, educação, segurança pública e sistema de justiça. Nesse contexto, a enfermagem assume papel fundamental na articulação da rede de cuidado, favorecendo o acesso das mulheres aos recursos disponíveis e contribuindo para a promoção de sua proteção e autonomia.
Os achados desta revisão reforçam as evidências de que a atuação da enfermagem exerce papel estratégico no acolhimento às mulheres em situação de violência na Atenção Primária à Saúde. No entanto, a efetividade dessa atuação depende diretamente da qualificação profissional, do suporte institucional, da existência de protocolos assistenciais adequados e do fortalecimento das redes de atenção e proteção.
Dessa forma, torna-se indispensável investir em processos permanentes de capacitação dos profissionais de enfermagem, promovendo o desenvolvimento de competências técnicas, éticas e relacionais que possibilitem uma abordagem mais segura, acolhedora e resolutiva. Além disso, é fundamental que os serviços de saúde fortaleçam estratégias voltadas à educação permanente, à implementação de protocolos assistenciais e à ampliação das ações interdisciplinares, contribuindo para a melhoria da qualidade da assistência prestada às mulheres vítimas de violência.
Por fim, espera-se que este estudo contribua para ampliar a reflexão sobre a importância da enfermagem no enfrentamento da violência contra a mulher, estimulando o aprimoramento das práticas assistenciais e o fortalecimento das políticas públicas voltadas à proteção dos direitos femininos. Recomenda-se, ainda, a realização de novas pesquisas, especialmente estudos de campo e investigações qualitativas junto aos profissionais da Atenção Primária à Saúde, a fim de aprofundar a compreensão sobre os desafios enfrentados na prática cotidiana e subsidiar a construção de estratégias mais efetivas de cuidado e acolhimento.
Assim, conclui-se que o fortalecimento da assistência às mulheres em situação de violência exige não apenas a qualificação dos profissionais de enfermagem, mas também o compromisso contínuo dos gestores, instituições e formuladores de políticas públicas na consolidação de redes de cuidado capazes de garantir acolhimento, proteção, autonomia e acesso aos direitos fundamentais das mulheres.
REFERÊNCIAS
- Boehm C. Número de vítimas de feminicídio supera em 38% registros oficiais [Internet]. Brasília: Agência Brasil; 2026 mar 2 [citado 2026 mar 19]. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2026-03/numero-de-vitimas-de-feminicidio-supera-em-38-registros-oficiais
- Alcântara PPT, Carneiro FF, Pessoa VM, Pinto AGA, Machado MFAS. Atendimento integral para mulheres vítimas de violência. Cien Saude Colet. 2024;29(9):e08992023. doi:10.1590/1413-81232024299.08992023.
- Amarijo CL, Barlem ELD, Acosta DF, Marques SC. Assimilação teórica e prática da violência doméstica: profissionais de enfermagem atendendo vítimas na atenção primária. Rev Enferm UERJ. 2018;26:e33874. doi:10.12957/reuerj.2018.33874.
- Begnini M, Santos EL, Vanini SM, Silvestri APS, Santos LL, Prigol AC. A atuação do enfermeiro frente à violência contra a mulher na Atenção Primária em Saúde. Res Soc Dev. 2022;11(5):e19911528054. doi:10.33448/rsd-v11i5.28054
- Instituto Patrícia Galvão. Violência contra a mulher em dados [Internet]. São Paulo: Instituto Patrícia Galvão; 2026 [citado 2026 fev 5]. Disponível em: https://dossies.agenciapatriciagalvao.org.br/violencia-em-dados/
- Lima EM, Macedo LC, Durand MK, Ildefonso EM, Martins IM. Atuação da enfermagem para notificação dos casos de violência contra a mulher: revisão integrativa. Divers@!. 2023;16(2):281-293. doi: 10.5380/diver.v16i2.92697.
- Brasil. Lei nº 8.080, de 19 de setembro de 1990. Dispõe sobre as condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde. Diário Oficial da União. 1990 set 20.
- Brasil. Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006. Cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher. Diário Oficial da União. 2006 ago 8.
- Brasil. Ministério da Saúde. Atenção integral à saúde de mulheres em situação de violência: normas e manuais técnicos. Brasília: Ministério da Saúde; 2011.
- Brasil. Ministério das Mulheres. Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (RASEAM). Brasília: Ministério das Mulheres; 2025.
- Brasil. Ministério da Saúde. Política Nacional de Atenção Básica. Brasília: Ministério da Saúde; 2017.
- Brasil. Ministério da Saúde. Linha de cuidado para a atenção integral à saúde de pessoas em situação de violência: orientação para gestores e profissionais de saúde. Brasília: Ministério da Saúde; 2023.
- d’Oliveira AFPL, Pereira S, Bacchus LJ, Feder G, Schraiber LB, Aguiar JM, et al. Are we asking too much of the health sector? Exploring the readiness of Brazilian primary healthcare to respond to domestic violence against women. Int J Health Policy Manag. 2022;11(7):961-972. doi: 10.34172/ijhpm.2020.237.
- Minayo MCS. Violência social sob a perspectiva da saúde pública. Cad Saude Publica. 2000;16(Suppl 1):7-18. doi:10.1590/S0102-311X2000000100013.
- Fórum Brasileiro de Segurança Pública. 18º Anuário Brasileiro de Segurança Pública: 2024 [Internet]. São Paulo: Fórum Brasileiro de Segurança Pública; 2024 [citado 2026 jun 09]. ISSN 1983-7364. Disponível em: https://publicacoes.forumseguranca.org.br/items/f62c4196-561d-452d-a2a8-9d33d1163af0
- Souza MAR, Peres AM, Mafioletti TM. Educação permanente na rede de atenção às mulheres em situação de violência. Rev Enferm Referência. 2020;5(2):e20003. doi:10.12707/RV20003.
- Leite PMG. Nurses' performance in primary care for women victims of domestic violence: an integrative review. Res Soc Dev. 2022;11(3):e39911326728. doi:10.33448/rsd-v11i3.26728.
- D'Oliveira AFPL, Schraiber LB, Pereira S, Bonin RG, Aguiar JM, Sousa PC, et al. Atenção Primária à Saúde: protocolo de atendimento a mulheres em situação de violência [Internet]. São Paulo: Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo; University of Bristol; 2019 [citado 2026 mar 1]. Disponível em: https://sites.usp.br/generoviolenciaesaude/wp-content/uploads/sites/748/2021/05/protocolo_de_atendimento.pdf
- Silva VG, Ribeiro PM. Violência contra as mulheres na prática de enfermeiras da atenção primária à saúde. Esc Anna Nery. 2020;24(4):e20190371.
- Feder GS, Hutson M, Ramsay J, Taket AR. Women exposed to intimate partner violence: expectations and experiences when they encounter health care professionals: a meta-analysis of qualitative studies. Arch Intern Med. 2006;166(1):22-37. doi: 10.1001/archinte.166.1.22.
- Vilar LM, Santos SMP, Batista MLP, Silva JEL, Mariz SR, Noronha JAF. Violence against women: possibilities and difficulties in the care network. Rev Enferm Atenção Saúde. 2025;14(1):e202570. doi:10.18554/reas.v14i1.8163.
- Giordani JMA, Unfer B, Merhy EE, Hilgert JB. Acolhimento na Atenção Primária à Saúde: revisão sistemática e metassíntese. Rev APS. 2020;23(1):16690. doi:10.34019/1809-8363.2020.v23.16690.
- Organização das Nações Unidas. ONU Mulheres. Uma mulher ou menina é morta a cada 10 minutos por parceiro íntimo ou familiar [Internet]. Brasília: ONU Mulheres; 2023 [citado 2026 mar 19]. Disponível em: https://www.onumulheres.org.br
- World Health Organization. Violence against women remains devastatingly pervasive and starts alarmingly young, shows WHO study [Internet]. Geneva: WHO; 2021 [citado 2026 mar 1]. Disponível em: https://www.who.int/news/item/09-03-2021-devastatingly-pervasive-violence-against-women
- Brasil. Secretaria de Políticas para as Mulheres. Política Nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres. Brasília: Secretaria de Políticas para as Mulheres; 2011.
- Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Fatores associados e motivações que levam à violência doméstica contra a mulher no mundo [Internet]. Porto Alegre: PUCRS; 2024 [citado 2026 jun 1]. Disponível em: https://ebooks.pucrs.br/edipucrs/anais/1422/assets/edicoes/2024/arquivos/15.pdf
- Santos SC, Barros PA, Delgado RFA, Silva LVL, Carvalho VPS, Alexandre ACS. Violência contra a mulher: como os profissionais na atenção primária à saúde estão enfrentando esta realidade? Saúde Pesqui. 2018;11(2):359-368. doi: 10.17765/1983-1870.2018v11n2p359-368.
- Santos GGR, Rezende KTA, Santos IF, Chirelli MQ, Tonhom SFR, Cardoso CP. Atenção Primária à Saúde diante da violência contra a mulher: revisão integrativa. New Trends Qual Res. 2023;18:e904. doi: 10.36367/ntqr.18.2023.e904.
Acadêmico de Enfermagem. Centro Universitário UniBRAS Montes Belos, enfermagem, Av. Hermógenes Coelho, n° 340, Setor Leste Universitário, São Luís de Montes Belos, Goiás, Brasil. E-mail para correspondência (autor principal): daniel_vs07@icloud.com ↑
Acadêmica de Enfermagem. Centro Universitário UniBRAS Montes Belos, enfermagem, Av. Hermógenes Coelho, n° 340, Setor Leste Universitário, São Luís de Montes Belos, Goiás, Brasil. ↑
Acadêmica de Enfermagem. Centro Universitário UniBRAS Montes Belos, enfermagem, Av. Hermógenes Coelho, n° 340, Setor Leste Universitário, São Luís de Montes Belos, Goiás, Brasil. ↑
Acadêmica de Enfermagem. Centro Universitário UniBRAS Montes Belos, enfermagem, Av. Hermógenes Coelho, n° 340, Setor Leste Universitário, São Luís de Montes Belos, Goiás, Brasil. ↑
Docente do curso de Enfermagem. Centro Universitário UniBRAS Montes Belos, enfermagem, Av. Hermógenes Coelho, n° 340, Setor Leste Universitário, São Luís de Montes Belos, Goiás, Brasil. ( Orientadora ). ↑

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.
Copyright (c) 2026 Daniel Vieira da Silva, Natália Acácia Cândido, Maria Luiza de Moraes Borges, Luana Santos de Jesus, Laís Araújo de Lima (Autor)