RESUMO
A morte encefálica (ME), reconhecida legalmente no Brasil pela Resolução CFM nº 2.173/2017, representa um desafio técnico, ético e emocional no contexto hospitalar, especialmente diante da possibilidade de doação de órgãos. Nesse cenário, a atuação do enfermeiro torna-se essencial, não apenas na assistência clínica, mas também na comunicação com a família, manutenção do potencial doador e articulação com a Comissão Intra-hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (CIHDOTT). Este trabalho teve como objetivo analisar a atuação do enfermeiro frente ao paciente em morte encefálica com potencial para doação de órgãos, destacando suas responsabilidades assistenciais, éticas e comunicacionais. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, de abordagem qualitativa e descritiva, utilizando as bases de dados SCIELO e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), incluindo LILACS, BDENF e Medline. Foram utilizados os descritores: Enfermagem, Morte Encefálica e Doação de Órgãos, com recorte temporal de 2015 a 2025. Os resultados evidenciaram que a capacitação técnica e a habilidade comunicacional do enfermeiro são fundamentais para o êxito no processo de doação. Identificaram-se, ainda, desafios como a recusa familiar, a escassez de profissionais treinados e a falta de protocolos institucionais claros. Conclui-se que investir na formação contínua do enfermeiro e fortalecer o trabalho multiprofissional são estratégias essenciais para ampliar o número de doações e garantir a humanização do cuidado no processo de morte e doação. A valorização do enfermeiro nesse contexto contribui significativamente para a efetivação de políticas públicas de transplantes no Brasil.
Palavras-chave: Assistência de Enfermagem. Bioética. Capacitação profissional. Empatia. Humanização.
ABSTRACT
Brain death (BD), legally recognized in Brazil by CFM Resolution No. 2,173/2017, represents a technical, ethical, and emotional challenge in the hospital setting, especially in the context of organ donation. In this scenario, the nurse's role becomes essential, not only in clinical care but also in communication with the family, maintenance of the potential donor, and coordination with the Intrahospital Commission for Organ and Tissue Donation for Transplants (CIHDOTT). This study aimed to analyze the nurse's performance in the care of brain-dead patients with potential for organ donation, highlighting their assistance, ethical, and communicational responsibilities. This is an integrative literature review with a qualitative and descriptive approach, using the SCIELO and Virtual Health Library (VHL) databases, including LILACS, BDENF, and Medline. The descriptors used were: Nursing, Brain Death, and Organ Donation, with a time frame from 2015 to 2025. The results showed that the nurse's technical training and communication skills are essential for success in the donation process. Challenges such as family refusal, shortage of trained professionals, and lack of clear institutional protocols were also identified. It is concluded that investing in the continuous training of nurses and strengthening multidisciplinary work are essential strategies to increase the number of donations and ensure the humanization of care in the process of death and donation. The appreciation of nurses in this context significantly contributes to the implementation of public transplant policies in Brazil.
Keywords: Nursing care. Bioethics. Professional training. Empathy. Humanization.
1. INTRODUÇÃO
A morte encefálica (ME) representa um desafio complexo no contexto hospitalar, tanto no aspecto técnico quanto ético e emocional. Reconhecida como critério legal de morte no Brasil desde a Resolução CFM (Conselho Federal de Medicina) nº 2.173/2017, a morte encefálica é caracterizada pela perda completa e irreversível das funções cerebrais, mesmo diante da manutenção artificial das funções cardiorrespiratórias. Nesse cenário, o papel da equipe de saúde torna-se fundamental para garantir que o processo de diagnóstico seja conduzido com rigor científico, respeito à legislação vigente e sensibilidade humana, especialmente quando se trata da possibilidade de doação de órgãos.
Entre os profissionais diretamente envolvidos nesse processo, destaca-se a atuação do enfermeiro, cuja função extrapola os cuidados assistenciais e se estende à gestão, comunicação e apoio à família do potencial doador. O enfermeiro participa ativamente na identificação precoce do paciente com sinais de morte encefálica, na manutenção hemodinâmica do potencial doador, no suporte emocional à família e na articulação com a Comissão Intra-hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (CIHDOTT). Sua presença constante na unidade de terapia intensiva (UTI) o posiciona como figura-chave na humanização desse processo tão sensível (SANTOS et al., 2020).
A abordagem ética e empática com os familiares é uma das etapas mais delicadas do processo de doação. Muitas vezes, a notícia da morte encefálica gera confusão e descrença, principalmente pela aparência "viva" do corpo mantido por aparelhos. Nesse contexto, o enfermeiro é peça central na construção de um ambiente acolhedor, informativo e respeitoso, contribuindo para a aceitação do diagnóstico e, consequentemente, para uma possível autorização da doação por parte da família (SILVA et al., 2019).
Além disso, o enfermeiro deve estar capacitado tecnicamente para a manutenção do potencial doador, garantindo estabilidade clínica e viabilidade dos órgãos para transplante. Essa atuação envolve conhecimento específico em fisiologia, farmacologia, ventilação mecânica, reposição volêmica, controle da temperatura corporal, entre outros aspectos. A manutenção adequada do doador é diretamente proporcional ao sucesso dos transplantes realizados, o que reforça a responsabilidade técnica e ética desse profissional (BRASIL, 2020).
Apesar dos avanços nas políticas públicas e da estruturação dos programas de doação, muitos desafios ainda persistem, como a escassez de profissionais capacitados, a recusa familiar e a ausência de protocolos bem definidos em algumas instituições. Dessa forma, investir na formação continuada e na valorização do papel do enfermeiro neste contexto é essencial para fortalecer a cultura da doação e ampliar o número de transplantes no país (GOMES et al., 2021).
Diante desse cenário, o presente trabalho tem como objetivo analisar a atuação do enfermeiro frente ao paciente em estado de morte encefálica com potencial para doação de órgãos, destacando suas responsabilidades assistenciais, éticas e comunicacionais, bem como os desafios enfrentados na prática cotidiana. Espera-se, com isso, contribuir para a reflexão sobre a importância da formação profissional e do trabalho multidisciplinar na efetivação do processo de doação de órgãos no Brasil.
2. METODOLOGIA
Trata-se de um estudo de revisão integrativa da literatura, de natureza qualitativa descritiva, uma metodologia de pesquisa que tem como objetivo reunir e analisar dados de várias fontes para obter uma visão abrangente de um tema de interesse. Para o desenvolvimento dessa revisão foi seguido alguns passos, sendo eles: escolha do tema; identificação da questão norteadora; identificação dos descritores, determinando os critérios de inclusão e exclusão; categorização dos estudos; avaliação crítica desses estudos; discussão e interpretação dos resultados; apresentação e síntese do conhecimento (MENDES et al., 2018).
Foi utilizada a estratégia PICO (Paciente, Intervenção, Comparação e Desfecho) para a elaboração da pergunta norteadora: “Qual o papel do enfermeiro no paciente em morte encefálica e potencial doador de órgãos?”. A busca dos dados bibliográficos foi realizada no mês de abril de 2025, nas bases de dados Scientific Electronic Library Online (SCIELO) e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), em que se incluiu as bases LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde), BDENF (Banco de dados em Enfermagem) e Medline (Medical Literature Analysis and Retrieval System Online). Os descritores utilizados para a pesquisa, tanto na SCIELO como na BVS foram: Enfermagem, Morte Encefálica, Doação de Órgãos, sendo o operador booleano utilizado para formulação da estratégia de busca com o operador booleano AND. Entre os critérios de elegibilidade adotados, incluíram-se os estudos com texto completo, que se adequaram ao objetivo do trabalho, e aqueles que estavam empreendidos no período delimitado da pesquisa, 2015 a 2025, na língua portuguesa.
O fluxo de seleção aconteceu da seguinte forma: a primeira seleção aconteceu com base nos descritores e ano de publicação, a segunda com base no título da obra e a terceira levando em consideração o resumo. Foram excluídos estudos secundários, artigos duplicados, estudos que não estavam disponíveis no formato online e incompletos, bem como aqueles que tangenciavam ao objetivo do trabalho. Dessa forma, após aplicação dos critérios acima citados e da leitura do título e do resumo dos estudos, foram selecionados 14 artigos que posteriormente foram discutidos.
3. RESULTADOS
Para a realização da análise e discussão dos dados identificados após leitura dos artigos, levou-se em consideração o enfoque temático, periódico/autor/ano/país de publicação, metodologia/nível de evidência e objetivo do estudo. Assim, configurou-se a tabela a seguir de modo a categorizar os artigos selecionados e analisados, de acordo com as seguintes características: Título; Autor; Ano de publicação; objetivo do estudo e resultados dos mesmos.
Os trabalhos analisados enfocam o papel da assistência de enfermagem no processo de doação de órgãos e transplantes, a contribuição da assistência de enfermagem na decisão familiar e capacitação e educação continuada aos profissionais que atuam na assistência de enfermagem ao potencial doador de órgãos (Tabela 1).
Tabela 1: Quadro sinóptico dos artigos selecionados.
Fonte: (AUTORAS, 2026).
A Tabela 2 apresenta a seleção e organização dos assuntos abordados e desenvolvidos ao longo de diversos artigos, permitindo a identificação dos temas mais relevantes relacionados ao conteúdo em questão. Para facilitar a análise e discussão, os resultados foram sintetizados e agrupados em categorias temáticas.
Tabela 2: Quadro sinóptico de apresentação dos resultados
Fonte: (AUTORAS, 2026).
4. DISCUSSÃO
4.1 Confirmação da morte encefálica e o potencial doador de órgãos
A morte encefálica representa um processo clínico e fisiopatológico complexo, que compromete de forma irreversível as estruturas encefálicas superiores (telencéfalo e diencéfalo) e o tronco encefálico, levando à cessação definitiva das funções neurológicas, e, consequentemente, à morte do indivíduo, conforme definido na Resolução CFM nº 2.173/2017. Embora os critérios diagnósticos estejam bem estabelecidos, a evolução clínica que culmina na ME envolve uma série de alterações sistêmicas graves, que devem ser prontamente reconhecidas e manejadas para preservar a viabilidade dos órgãos em caso de possível doação (SIQUEIRA, 2016).
Segundo o autor, o processo de ME envolve eventos fisiopatológicos como disautonomia, disfunção miocárdica, disfunção endócrina, hipotermia, coagulopatias e inflamação sistêmica. Essas alterações decorrem, entre outros fatores, do aumento da pressão intracraniana, que culmina na herniação transtentorial e interrupção completa da circulação cerebral. O manejo adequado dessas condições se mostra essencial para garantir a manutenção do potencial doador e a boa evolução dos enxertos após o transplante. De fato, cada etapa não identificada ou mal-conduzida pode resultar na perda da oportunidade de doação ou na redução da sobrevida do órgão transplantado (SIQUEIRA, 2016).
Além do cuidado clínico, destaca-se a importância da estruturação legal do processo de doação. A legislação brasileira, por meio da Lei nº 9.434/1997, regulamentada pelo Decreto nº 9.175/2017, estabelece que a retirada de órgãos só pode ser realizada após o diagnóstico de ME e mediante autorização expressa da família. Tal exigência reforça a necessidade de abordagens humanizadas e éticas por parte da equipe de saúde, especialmente no momento da entrevista familiar. Conforme previsto no decreto, os médicos que realizam o diagnóstico de morte encefálica não podem participar das equipes de retirada e transplante, garantindo maior imparcialidade ao processo (BRASIL, 2017 apud BRASIL, 1997).
Do ponto de vista técnico, a confirmação da ME exige a observância de três fases: preparatória, de exames clínicos e de exames complementares, seguidas pela documentação formal do diagnóstico (Siqueira, 2016). A adequada formação dos profissionais que conduzem esse processo é imprescindível, assim como o alinhamento com as normativas do Sistema Nacional de Transplantes (SNT), que regulamenta e organiza a logística da captação e distribuição dos órgãos. Segundo Tannous et al., (2018), após o protocolo ser concluído e a doação autorizada, a comunicação com a Central Estadual de Transplantes (CET) é essencial para acionar as equipes transplantadoras e viabilizar o procedimento em tempo hábil.
A literatura científica também destaca a importância de capacitação técnica e sensibilização das equipes assistenciais, com foco tanto na precisão do diagnóstico quanto no manejo adequado do doador. Gardiner et al., (2012) e Domínguez-Gil et al., (2011) enfatizam que a uniformização dos critérios de diagnóstico, aliada a cuidados intensivos adequados, pode melhorar significativamente a taxa de conversão de potenciais em doadores efetivos. Em especial, a atuação da enfermagem tem papel central na manutenção hemodinâmica e no apoio familiar ( CORRÊA, et al., 2021 apud CAVALCANTE, et al., 2014).
Dessa forma, a integração entre conhecimento clínico, respaldo legal e sensibilidade ética é fundamental para o sucesso do processo de doação. A ME, enquanto critério legal de morte, exige não apenas acurácia diagnóstica, mas também acolhimento humanizado, comunicação transparente e envolvimento interdisciplinar. Avançar nessa direção contribui para o fortalecimento das políticas de transplante e para o aumento da confiança social na doação de órgãos, impactando positivamente milhares de vidas.
4.2 O conhecimento do enfermeiro e sua atuação no processo de morte encefálica com vistas a doação de orgãos
O enfermeiro desempenha um papel essencial no processo de doação de órgãos e tecidos, sendo responsável por planejar, coordenar, executar e supervisionar os procedimentos de enfermagem relacionados aos potenciais doadores, conforme estabelecido pela Resolução nº 229/2004 do Conselho Federal de Enfermagem (COFEN). A esse profissional cabe também a coordenação da equipe multiprofissional e a identificação ativa de potenciais doadores, bem como a notificação dos casos e a implementação do processo de Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) (MARIGO, et al., 2022).
Sua atuação vai além dos aspectos técnicos, envolvendo também habilidades de comunicação e acolhimento fundamentais para o esclarecimento e o apoio às famílias. A entrevista com familiares ou responsáveis legais é realizada pelo enfermeiro, que fornece orientações claras, suporte emocional e psicológico, esclarecendo as etapas do diagnóstico de morte encefálica (ME) e os trâmites para a possível doação de órgãos. É imprescindível que esse contato inicial ocorra de forma cuidadosa, ética e respeitosa, considerando o momento de luto e sofrimento dos envolvidos (MARIGO, et al., 2022).
Segundo Filho et al., (2024), o enfermeiro é peça-chave na desconstrução de preconceitos e desinformações sobre o processo de doação. O conhecimento técnico e ético é a melhor ferramenta contra fake news e mitos. Quando a família compreende que a doação pode beneficiar até oito pessoas, há uma maior propensão à aceitação do processo, o que impacta diretamente nos índices de captação e transplantes no país.
Além disso, é fundamental que o enfermeiro esteja devidamente capacitado para atuar nesse contexto. A formação continuada, por meio de cursos, treinamentos e atualizações em legislação, comunicação em situações críticas, diagnóstico de ME e manutenção do potencial doador, é indispensável para a prática segura e humanizada. O enfermeiro precisa conhecer profundamente as diretrizes do Ministério da Saúde, as exigências legais e os protocolos assistenciais que regem o processo de doação e transplante de órgãos, assegurando uma atuação eficaz e ética.
A atuação do enfermeiro acontece predominantemente nas Unidades de Terapia Intensiva, ambientes especializados no cuidado de pacientes com condições clínicas graves, que demandam monitoramento contínuo e tecnologia de ponta. Essas unidades contam com equipes multidisciplinares em regime de plantão de 12 horas, envolvendo também profissionais como dentistas, psicólogos e fonoaudiólogos, conforme assegurado pela Resolução nº 7, de 24 de fevereiro de 2010 (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2023; OUCHI, et al., 2019).
Dessa forma, o enfermeiro, ao combinar competência técnica, sensibilidade humana e preparo ético, fortalece a cultura da doação de órgãos no país e contribui significativamente para salvar vidas por meio do transplante.
4.3 Cuidados do enfermeiro ao paciente potencial doador de órgãos
O cuidado de enfermagem prestado ao paciente com diagnóstico de morte encefálica possui especificidades que o diferenciam do cuidado curativo tradicional. Nesse contexto, o foco do enfermeiro desloca-se para a manutenção da viabilidade dos órgãos a serem doados, requerendo uma assistência altamente especializada e sistematizada. O profissional de enfermagem torna-se um elo fundamental entre a preservação da integridade fisiológica do potencial doador e a efetivação da doação de múltiplos órgãos (MOURA, 2020).
Entre os principais desafios enfrentados está a instabilidade hemodinâmica, comum nos pacientes em ME, que exige intervenções rápidas e eficazes, especialmente em relação à manutenção da pressão arterial, da temperatura corporal, do equilíbrio ácido-básico e da função respiratória (SANTOS, 2022). O enfermeiro, portanto, deve aplicar protocolos bem definidos para estabilizar essas condições, a fim de evitar a deterioração dos órgãos, o que inviabilizaria a captação. Após a confirmação da ME e a anuência da família, é crucial que o paciente seja encaminhado com brevidade ao centro cirúrgico para a retirada dos órgãos (SANTOS, 2022).
As ações da enfermagem incluem a monitorização contínua dos sinais vitais, controle rigoroso do balanço hídrico, ajustes na ventilação mecânica para garantir adequada oxigenação tecidual, e o controle de parâmetros laboratoriais como glicemia, eletrólitos e função renal (MAGALHÃES, et al., 2019). Além disso, o enfermeiro atua na prevenção de infecções, manejo de drogas vasoativas, acompanhamento da diurese e avaliação da necessidade de transfusões sanguíneas.
Conforme descrito por Moura (2020), a atuação inicial do enfermeiro envolve a revisão das prescrições médicas, posicionamento adequado do paciente (incluindo a elevação da cabeceira a 30º), aspiração das vias aéreas, verificação dos dispositivos de acesso, cuidados com a higiene corporal e ocular (com o uso de compressas umedecidas sobre os olhos fechados para preservar as córneas). A hipotensão arterial, um achado frequente, deve ser inicialmente tratada com expansão volêmica; na persistência do quadro, faz-se necessário o uso de drogas vasoativas, sempre sob monitoramento contínuo da resposta hemodinâmica e, se necessário, com a realização de eletrocardiograma.
Outro aspecto crítico é a ventilação mecânica, que deve ser cuidadosamente monitorada para assegurar a oxigenação ideal, essencial para a preservação da função dos órgãos. A equipe de enfermagem precisa estar vigilante durante a mobilização do paciente, evitando desconexões do ventilador e assegurando a coleta adequada de amostras sanguíneas para análise de gases arteriais e do equilíbrio ácido-básico (MOURA, 2020).
Diante dessas exigências, é evidente que o enfermeiro precisa de formação continuada, capacitação técnica e domínio de protocolos clínicos e legais relacionados à ME e à doação de órgãos. Sua atuação deve ser pautada por competência científica, ética profissional e compromisso com a qualidade da assistência.
4.4 Comunicação e apoio à família no processo de doação de órgãos
A comunicação com os familiares de pacientes em morte encefálica é uma das experiências mais desafiadoras enfrentadas pelas equipes de saúde. Transmitir más notícias, como a confirmação da morte e a possibilidade de doação de órgãos, exige habilidades interpessoais, preparo emocional e sensibilidade cultural e ética por parte dos profissionais envolvidos (RODRIGUES, 2019). Nesse processo, o enfermeiro desempenha um papel crucial, muitas vezes como o primeiro a acolher os familiares e a esclarecer os procedimentos subsequentes.
Quando a comunicação é conduzida de forma clara, empática e honesta, aumenta-se a confiança da família na equipe de saúde. Isso se reflete na percepção de que foram adotadas todas as medidas possíveis para salvar o paciente, proporcionando uma sensação de acolhimento e respeito, mesmo diante da irreversibilidade da situação clínica (RODRIGUES, et al., 2021). A construção dessa relação de confiança pode influenciar positivamente na aceitação da doação de órgãos, especialmente quando a equipe demonstra empenho e sensibilidade ao lidar com o luto iminente.
Durante a entrevista familiar para a autorização da doação, o momento é de extrema vulnerabilidade para todos os envolvidos. Os familiares vivenciam emoções intensas relacionadas à perda e ao desejo de honrar a memória do ente querido, enquanto a equipe de saúde enfrenta o desafio ético e emocional de apresentar a possibilidade da doação com empatia e clareza. Como afirmam Knihs, et al., (2022), essa interação demanda não apenas habilidades técnicas, mas também escuta ativa, acolhimento e respeito pela individualidade de cada família.
Para que esse processo seja conduzido com excelência, é necessário que os profissionais de saúde, especialmente os enfermeiros, estejam capacitados em estratégias de comunicação em situações críticas. Isso inclui a aplicação de protocolos como o SPIKES, utilizado na comunicação de más notícias, e o desenvolvimento de competências emocionais que permitam a condução de conversas delicadas de forma ética, compreensiva e humanizada.
Além disso, fatores culturais, religiosos e sociais devem ser levados em consideração, uma vez que influenciam diretamente na decisão da família quanto à doação de órgãos. A escuta sensível e o respeito às crenças dos familiares são elementos fundamentais para uma abordagem eficaz e respeitosa.
Em síntese, a comunicação eficaz com a família no contexto da doação de órgãos vai além da transmissão de informações técnicas. Ela envolve o cuidado com o sofrimento humano, o reconhecimento da dor do outro e o compromisso com uma assistência humanizada que dignifique a vida e a morte.
4.5 Desafios e perspectivas
A doação de órgãos e tecidos representa uma oportunidade de renovação da vida para inúmeros pacientes em situação crítica, contudo, sua efetivação está condicionada a diversos fatores clínicos, estruturais e socioculturais. O diagnóstico de morte encefálica depende não apenas do conhecimento técnico da equipe multiprofissional, mas também da disponibilidade de recursos físicos e tecnológicos adequados para a realização dos exames confirmatórios. A ausência ou insuficiência desses recursos, bem como o desconhecimento da fisiopatologia da ME, figura como um dos principais entraves à efetivação do processo de doação (MOURA, 2020).
Além das limitações técnicas, existem desafios logísticos que impactam diretamente a viabilidade da doação. Entre eles, destacam-se falhas na identificação precoce de potenciais doadores, lentidão na abertura das notificações de ME e ausência de protocolos institucionais padronizados. Magalhães et al. (2019) também ressaltam o impacto do esgotamento profissional e da carência de capacitação contínua dos profissionais envolvidos, fatores que comprometem o reconhecimento e o manejo adequado do potencial doador. A cultura da doação ainda não está plenamente consolidada no Brasil, o que contribui para a perda de oportunidades nas unidades de emergência e terapia intensiva.
Apesar dos avanços tecnológicos e do aumento da conscientização da população quanto à importância da doação, o número de transplantes realizados ainda é insuficiente para atender à demanda. A lista de espera por órgãos permanece elevada, em grande parte devido à recusa familiar e à subnotificação de potenciais doadores, muitas vezes motivadas por falhas na comunicação entre equipe de saúde e familiares (CALIXTO, 2019; VENTURIN, AMARAL & MATIOLI, 2022).
A decisão pela doação envolve aspectos emocionais, morais, religiosos e sociais, sendo a recusa familiar um dos obstáculos mais significativos. Essa recusa pode estar relacionada ao luto recente, à falta de informação clara sobre a ME, ao desconhecimento do desejo prévio do falecido, e à forma como a abordagem para doação é realizada. Uma comunicação inadequada, percebida como fria, apressada ou pouco empática, tende a dificultar ainda mais a aceitação da família (LEMES, et al., 2023).
Diante desse cenário, a construção de um vínculo de confiança com os familiares do potencial doador é essencial. A equipe de saúde deve atuar com empatia, escuta ativa, clareza e sensibilidade, transmitindo informações de forma transparente e respeitosa. Nesse contexto, destaca-se a importância da implementação de programas de educação permanente voltados ao desenvolvimento de competências comunicativas, especialmente no que se refere à transmissão de más notícias e à abordagem sobre a doação de órgãos. Tais iniciativas têm o potencial de qualificar a atuação profissional e aumentar as taxas de consentimento familiar (MOURA, 2020).
Além disso, iniciativas intersetoriais que envolvam campanhas educativas, políticas públicas de incentivo à doação, e o fortalecimento das CIHDOTT são estratégias fundamentais para a consolidação de uma cultura de doação mais sólida e eficaz em nosso país.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A atuação do enfermeiro frente ao paciente em morte encefálica com potencial doador de órgãos revela-se essencial em todas as etapas do processo de doação, desde a identificação precoce da condição até o suporte à família e a manutenção clínica do doador. Este profissional se destaca por sua proximidade com o paciente e seus familiares, sendo peça-chave na condução ética, técnica e humanizada dessa prática tão sensível.
A revisão integrativa permitiu evidenciar que, apesar dos avanços nas políticas públicas e nos protocolos de diagnóstico da morte encefálica, persistem desafios significativos. A carência de capacitação profissional, a comunicação ineficaz com os familiares, a ausência de cultura de doação e as deficiências logísticas ainda comprometem a efetivação das doações. Soma-se a isso o impacto emocional sobre os profissionais de saúde, o que reforça a necessidade de suporte institucional e treinamentos contínuos.
Diante desse cenário, é fundamental investir na formação específica do enfermeiro, com foco na abordagem ética e empática aos familiares, na manutenção hemodinâmica adequada do potencial doador e na articulação com a CIHDOTT. A valorização do papel da enfermagem nesse processo, bem como o fortalecimento do trabalho interdisciplinar, são estratégias imprescindíveis para aumentar as taxas de doação e garantir a qualidade dos transplantes realizados no Brasil.
Portanto, fomentar uma cultura institucional voltada à doação de órgãos, aliada à capacitação técnica e emocional dos profissionais, representa um caminho promissor para transformar a realidade da doação e ampliar o número de vidas salvas por meio do transplante.
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Enfermeira residente em Manaus-AM. ↑
Enfermeira, Especialista em Terapia Intensiva (UVA-CE); Especialista em Docência do Ensino Superior (FAK-CE); Especialista em Saúde da Família (UVA-CE); Especialista em Qualidade e Segurança no Cuidado ao Paciente (Instituto Sírio Libanês-SP), Mestre em Terapia Intensiva (IBRATI-SP); Doutora em Terapia Intensiva (SOBRATISP). Docente da UNIFAMEC- Crato/ CE. Docente do Centro de Ensino em Saúde. ↑

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