Impacto do projecto de redução dos níveis de aflatoxinas nas culturas de milho e amendoim nas comunidades de Mogovolas (2019-2022)
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
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Impacto do projecto de redução dos níveis de aflatoxinas nas culturas de milho e amendoim nas comunidades de Mogovolas (2019-2022)

Impact of the project to reduce aflatoxin levels in maize and peanut crops in the communities of Mogovolas (2019-2022)

Libânia Basílio Felizardo da Fonseca[1]
Miguel Abudo Momade Ali[2]

RESUMO

A contaminação por aflatoxinas em culturas básicas como o milho e o amendoim representa um desafio crítico para a saúde pública e a segurança alimentar em Moçambique, devido aos seus impactos no desenvolvimento infantil e nas perdas económicas para os pequenos produtores. Neste contexto, o presente estudo teve como objectivo geral analisar as qualidades do amendoim e milho na implementação do projecto de redução das aflatoxinas nas comunidades agrícolas do distrito de Mogovola, no período de 2019 a 2022. Sob um paradigma interpretativo e recorrendo à estratégia de estudo de caso, a metodologia adoptou uma abordagem de métodos mistos envolvendo 388 produtores e 3 técnicos, utilizando questionários, entrevistas semiestruturadas e análises laboratoriais. Os resultados demonstram que a aplicação de tecnologias de mitigação, como o biocontrolo com Aflasafe e o uso de secadores tipo A, resultou numa redução significativa dos níveis de contaminação em comparação com o cenário pré-intervenção, validando a eficácia técnica do pacote biotecnológico. A principal conclusão aponta que o projecto alcançou sucesso técnico e laboratorial. A análise comparativa confirmou uma tendência decrescente significativa na contaminação das culturas, validando o princípio da exclusão competitiva entre estirpes de Aspergillus flavus.

Palavras-chave: Aflatoxinas, Mogovolas, Biocontrolo, Segurança Alimentar, Amendoim, Milho.

ABSTRACT

Aflatoxin contamination in staple crops such as maize and groundnuts represents a critical challenge for public health and food security in Mozambique, due to its impact on child development and economic losses for smallholder farmers. In this context, the general objective of this study was to analyze the quality of groundnuts and maize during the implementation of the aflatoxin reduction project in the agricultural communities of Mogovolas district between 2019 and 2022. Under an interpretive paradigm and employing a case study strategy, the methodology adopted a mixed-methods approach involving 388 producers and 3 technicians, utilizing questionnaires, semi-structured interviews, and laboratory analyses. The results demonstrate that the application of mitigation technologies such as biocontrol with Aflasafe and the use of Type A dryers resulted in a significant reduction in contamination levels compared to the pre-intervention scenario, validating the technical efficacy of the biotechnological package. The main conclusion indicates that the project achieved technical and laboratory success. Comparative analysis confirmed a significant downward trend in crop contamination, validating the principle of competitive exclusion between Aspergillus flavus strains.

Keywords: Aflatoxins, Mogovolas, Biocontrol, Food Security, Groundnut, Maiz

INTRODUÇÃO

A agricultura constitui uma das principais fontes de subsistência e rendimento para as comunidades rurais em Moçambique, e o distrito de Mogovolas, localizado na província de Nampula, é um exemplo claro dessa realidade. Com uma vasta área de produção agrícola e uma grande diversidade de culturas, entre elas o amendoim, o milho, a mandioca, o feijão e o gergelim, o distrito possui um elevado potencial produtivo, especialmente nos postos administrativos de Calipo, Nanhupo-Rio, Nametil-sede e Muathua.

O milho e o amendoim são a base da subsistência e da economia familiar no distrito de Mogovolas. No entanto, estas culturas enfrentam uma ameaça biológica persistente: a contaminação por aflatoxinas. Segundo Kumar et al. (2021), as aflatoxinas não são apenas um entrave à saúde, mas um “veneno invisível” que compromete a segurança alimentar global, sendo que em regiões tropicais, o clima favorece a proliferação do fungo Aspergillus flavus.

Em Mogovolas, as condições de humidade e as práticas tradicionais de pós-colheita criam o ambiente ideal para esta contaminação, transformando alimentos essenciais em potenciais agentes causadores de carcinoma hepatocelular e atrasos no desenvolvimento infantil, um fenómeno que Matumba et al. (2021) descrevem como uma barreira crítica ao capital humano na África Austral.

A contaminação por aflatoxinas nas culturas de milho e amendoim representa um dos principais desafios à segurança alimentar, à saúde pública e ao acesso a mercados competitivos por parte dos pequenos produtores em Moçambique. Estas substâncias tóxicas, produzidas por fungos do género Aspergillus flavus, comprometem significativamente a qualidade dos produtos agrícolas, limitando o seu valor comercial e contribuindo para perdas económicas e insegurança alimentar nas comunidades rurais.

Entre 2019 e 2022, foi implementado no distrito de Mogovolas um projecto com o objectivo de reduzir os níveis de aflatoxinas nas culturas de milho e amendoim. A iniciativa incluiu acções de sensibilização, capacitação dos produtores em boas práticas agrícolas, e a introdução do Aflasafe, um biopesticida natural desenvolvido a partir de estirpes não toxigénicas do Aspergillus flavus, que actua na prevenção da contaminação por aflatoxinas.

Apesar dos esforços, nota-se uma lacuna de informação sistematizada sobre os resultados reais em Mogovolas. Como defende Anibal (2021) em estudos sobre a realidade moçambicana, muitas intervenções falham na fase de transição do laboratório para o campo. Não se sabe, com precisão científica, se os níveis de aflatoxinas após 2022 apresentam uma redução estatisticamente significativa ou se factores externos, como a variabilidade climática no distrito, mitigaram os ganhos do projecto. Sem uma análise comparativa rigorosa, a sustentabilidade da qualidade do milho e amendoim permanece uma incógnita.

Aflatoxinas

As aflatoxinas são metabólitos secundários produzidos por fungos do gênero Aspergillus, especialmente A. flavus e A. parasiticus. Estas toxinas representam uma ameaça grave à segurança alimentar e à saúde pública, com impactos significativos em cadeias de valor agrícola, particularmente em culturas como o amendoim e o milho. Sua ocorrência está fortemente associada a climas quentes e húmidos, sendo exacerbada por práticas inadequadas de cultivo, colheita e armazenamento (FAO, 2019; IITA, 2020). O combate eficaz à contaminação por aflatoxinas exige uma abordagem integrada, que combina prevenção no campo, tecnologias pós-colheita e intervenções biológicas inovadoras, como o uso do Aflasafe (Bandyopadhyay et al., 2016).

De acordo com Pankaj et al. (2022), estes fungos colonizam culturas agrícolas estrategicamente importantes, como o milho, o amendoim e os frutos secos, ocorrendo a contaminação tanto na fase de pré-colheita, devido ao stresse hídrico e térmico das plantas, quanto na pós-colheita, em virtude de condições inadequadas de secagem e armazenamento. A biossíntese destas toxinas é influenciada por factores ambientais críticos, onde temperaturas entre 25°C e 37°C e uma humidade relativa superior a 80% potencializam a actividade fúngica.

O controlo das aflatoxinas exige uma abordagem integrada que combine estratégias de pré e pós-colheita. No campo, uma das inovações mais eficazes é o controlo biológico através do uso de estirpes não-toxigénicas de Aspergillus flavus, comercializadas sob nomes como Aflasafe. Bandyopadhyay et al. (2020) explicam que estas estirpes atóxicas competem por recursos e espaço com as estirpes produtoras de toxinas, reduzindo significativamente a carga de aflatoxinas nos grãos ainda durante o desenvolvimento da cultura. Esta técnica tem demonstrado reduções de contaminação superiores a 80% em diversas regiões da África Subsariana.

A Tecnologia de Biocontrolo: O Funcionamento do Aflasafe

Diversas estratégias têm sido desenvolvidas para prevenir e mitigar a contaminação por aflatoxinas. Estas incluem boas práticas agrícolas, como o uso de sementes saudáveis, rotação de culturas, controle de pragas e doenças, colheita no ponto ótimo de maturação, secagem imediata e armazenamento em condições seguras (FAO, 2019). No entanto, embora eficazes, essas práticas muitas vezes não são suficientes para garantir níveis aceitáveis de aflatoxinas, especialmente em regiões com clima desfavorável e baixa capacidade técnica.

A tecnologia Aflasafe baseia-se na aplicação de agentes de controlo biológico que utilizam a competição intraespecífica para mitigar a produção de toxinas no campo. Segundo Seetha et al. (2017), o produto utiliza estirpes “atóxicas” de Aspergillus flavus, que são isoladas de solos locais por não possuírem a capacidade genética de sintetizar aflatoxinas. Ao introduzir estas estirpes em larga escala, altera-se o equilíbrio populacional do fungo no solo, garantindo que a variedade inofensiva domine o ambiente radicular e a superfície das plantas, reduzindo drasticamente a presença de estirpes perigosas.

O mecanismo de acção do Aflasafe é classificado como exclusão competitiva por nicho ecológico. De acordo com Alaniz Zanon et al. (2016), as estirpes atóxicas colonizam os substratos disponíveis de forma mais agressiva e rápida do que as estirpes selvagens sob condições favoráveis. Esta “ocupação de espaço” impede que o fungo toxigénico estabeleça colónias significativas nos grãos em desenvolvimento, funcionando como uma barreira biológica invisível que protege a cultura durante as fases mais vulneráveis, como a maturação e a secagem inicial no campo.

A aplicação prática da tecnologia foi desenhada para ser integrada facilmente nos sistemas de produção de pequena escala. Udom et al. (2019) explicam que o sorgo utilizado como base para o Aflasafe é previamente fervido e corado para evitar a sua germinação e facilitar a visibilidade no campo. A dispersão manual das partículas (cerca de 10 kg/ha) deve ser feita quando o solo apresentar humidade suficiente para permitir a esporulação das estirpes atóxicas, garantindo que o “exército” de fungos benéficos seja libertado no momento em que a cultura começa a florescer.

A robustez do Aflasafe reside na sua eficácia residual, que se estende para além do período de cultivo. Conforme demonstrado nos estudos de Ayiedun et al. (2017), os benefícios da aplicação não terminam na colheita; as estirpes atóxicas continuam presentes nos restos culturais e no solo, reduzindo o inóculo de fungos perigosos para as campanhas agrícolas seguintes. Este efeito de "memória biológica" contribui para uma redução sustentada e cumulativa dos níveis de contaminação ao longo dos anos numa mesma área geográfica, como o distrito de Mogovolas.

A integração do Aflasafe com tecnologias de pós-colheita cria uma barreira de proteção completa. Como salientado por Walker et al. (2018), embora o Aflasafe reduza a carga fúngica inicial, a sua eficácia é potenciada quando o produtor utiliza lonas de secagem e sacos herméticos. Esta abordagem multinível garante que os níveis de aflatoxinas permaneçam abaixo dos limites de segurança (como os 10 ppb exigidos em Moçambique), protegendo a saúde do consumidor final e garantindo que o esforço do produtor em Mogovolas se traduza em desenvolvimento económico real.

Nesse contexto, o Aflasafe surge como uma tecnologia inovadora de biocontrole, desenvolvida pelo Instituto Internacional de Agricultura Tropical (IITA), em colaboração com parceiros internacionais. Trata-se de um produto à base de cepas nativas atóxicas de Aspergillus flavus, que, quando aplicadas no campo, competem com as cepas produtoras de aflatoxinas, colonizando os mesmos nichos ecológicos e reduzindo drasticamente a produção das toxinas (Bandyopadhyay et al., 2016).

METODOLOGIA

Este estudo fundamenta-se no paradigma interpretativo, adoptando uma abordagem qualitativa com elementos quantitativos de natureza exploratória e descritiva. Segundo a perspetiva de Saunders et al. (2019) e Flick (2018), esta opção permite compreender a complexidade do comportamento humano e os significados subjectivos que os produtores de Mogovolas atribuem à adopção de tecnologias agrícolas. O foco não residiu apenas na eficácia técnica do Aflasafe, mas na influência do contexto socioeconómico de Nampula, nas motivações culturais e na relação de confiança entre produtores e extensionistas, garantindo uma visão holística e empática do fenómeno da mitigação de aflatoxinas.

A estratégia de investigação é o estudo de caso único e incorporado, centrada no distrito de Mogovolas. Conforme definido por Yin (2018), esta abordagem permitiu uma análise profunda de um fenómeno contemporâneo no seu contexto real, analisando diferentes unidades: os técnicos implementadores e os produtores beneficiários. A amostra foi constituída por 388 produtores (amostragem estatística) e 3 técnicos extensionistas (amostragem intencional), viabilizando a triangulação de sujeitos e de dados para confrontar a eficácia teórica das tecnologias com as barreiras logísticas e ambientais enfrentadas no terreno.

Para a recolha de dados, utilizou-se um desenho de métodos mistos, combinando questionários estruturados para os produtores, entrevistas semiestruturadas com técnicos, observação direta, análise documental e testes laboratoriais (ppb). A análise seguiu dois eixos complementares: a estatística descritiva para os dados quantitativos, com auxílio do software SPSS, e a análise de conteúdo segundo Bardin (2016) para os dados qualitativos. Esta integração permitiu que os resultados laboratoriais fossem interpretados à luz das realidades sociais, transformando falas e percentagens numa compreensão robusta sobre a sustentabilidade das práticas de segurança alimentar na região.

ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Ao caracterizar o perfil social dos participantes do projecto no distrito de Mogovolas, os dados revelam uma composição maioritariamente feminina na base produtiva. Conforme os registos estatísticos, dos 388 produtores entrevistados, 65,0% (252) são do género feminino, enquanto 35,0% (136) pertencem ao género masculino.

Quando questionados os produtores de Mogovolas sobre as principais culturas produzidas por eles, os dados indicam que o amendoim é a cultura central em Mogovolas, produzida por 100% dos entrevistados. Adicionalmente, 80% dos produtores cultivam mandioca e feijão como culturas secundárias, enquanto o cultivo isolado de milho não foi registrado como actividade principal nesta amostra específica, como atesta a tabela 1 abaixo.

Tabela 1: Principais culturas produzidas em Mogovola

Principais culturas produzidas

Frequência

Porcentagem

Porcentagem válida

Porcentagem acumulativa

Válido

Milho

0

0.0

0.0

0.0

Amendoim

388

100.0

100.0

100.0

Ambas

0

0.0

0.0

0.0

Outras (mandioca e Feijão)

310

80.0

80.0

80.0

Total

388

100.0

100.0

Estes resultados de onipresença do amendoim (100%) em Mogovolas justifica a urgência da aplicação do Aflasafe, dado que esta leguminosa é biologicamente mais suscetível à colonização por Aspergillus flavus. Segundo Waliyar et al. (2015), o desenvolvimento subterrâneo das vagens de amendoim facilita o contacto direto com o inóculo fúngico no solo, tornando a gestão pré-colheita o ponto mais crítico para a segurança alimentar em comunidades rurais.

A diversificação com mandioca e feijão (80%) é uma estratégia de resiliência comum em Moçambique. Udomkun et al. (2017) argumentam que sistemas de policultivo podem ajudar na diluição da carga de esporos no campo, embora alertem que a mandioca, se seca em condições de alta humidade, também pode tornar-se um vector de micotoxinas, exigindo uma abordagem de formação holística que não se limite apenas ao amendoim.

Quando questionados os produtores se tiveram alguma formação em matéria sobre o Aflasafe. Os resultados a esta pergunta revelam que 100% dos produtores (388 indivíduos) receberam formação específica sobre o uso e os benefícios da tecnologia Aflasafe.

Tabela 2: Formação dos produtores sobre o Aflasafe

Formação sobre o Aflasafe

Frequência

Porcentagem

Porcentagem válida

Porcentagem acumulativa

Válido

Sim

388

100.0

100.0

100.0

Não

0

0.0

0.0

0.0

Total

388

100.0

100.0

Estes resultados, revelam que a formação universal é o alicerce para a aceitação de tecnologias invisíveis, como o biocontrolo. Atehnkeng et al. (2014) explicam que o Aflasafe não produz resultados visíveis imediatos como um fertilizante, por isso, a educação do produtor é vital para que ele compreenda o mecanismo de exclusão competitiva entre estirpes fúngicas, garantindo a continuidade da prática mesmo sem evidências macroscópicas instantâneas.

A eficácia da extensão rural em Mogovolas, ao atingir a totalidade da amostra, demonstra um modelo de intervenção robusto. Segundo Sener et al. (2019), a formação técnica em Moçambique enfrenta barreiras linguísticas e de literacia; portanto, o sucesso reportado sugere o uso de métodos demonstrativos e participativos que conseguiram converter o conhecimento técnico em consciência de risco sanitário para toda a comunidade.

A adesão à tecnologia foi total, com 100% dos produtores a confirmarem a aplicação do produto nos seus campos durante a última época agrícola.

Tabela 3: Adesão da população a Aplicação do Aflasafe na última campanha

Aplicação do Aflasafe na última campanha

Frequência

Porcentagem

Porcentagem válida

Porcentagem acumulativa

Válido

Sim

388

100.0

100.0

100.0

Não

0.0

0.0

0.0

0.0

Total

388

100.0

100.0

A aplicação integral da tecnologia (100%) reflete uma confiança elevada nas orientações do projecto. Mehl et al. (2012) destacam que o Aflasafe é uma ferramenta de saúde pública “disfarçada” de insumo agrícola; quando aplicada em larga escala numa comunidade, cria-se um efeito de rebanho fúngico, onde o inóculo atóxico domina o ecossistema local, reduzindo a pressão de infecção mesmo em campos vizinhos que possam não ter aplicado o produto.

Este nível de adopção é frequentemente impulsionado pela facilidade de aplicação manual. Segundo Pitt e Miller (2017), o facto de o produto ser granulado e aplicado de forma similar à sementeira facilita a integração no calendário de trabalho do pequeno produtor. Em Mogovola, esta conformidade total sugere que a tecnologia foi bem-adaptada às práticas culturais pré-existentes, sem exigir maquinaria complexa.

Quando questionados sobre o momento de aplicação do Aflasafe, todos os produtores (100%) respeitaram a janela técnica recomendada, aplicando o produto entre 35 a 40 dias após a emergência das plantas.

Tabela 4: Momento em que os produtores aplicam o Aflasafe

Momento da aplicação do Aflasafe

Frequência

Porcentagem

Porcentagem válida

Porcentagem acumulativa

Válido

Durante a sementeira

0

0.0

0.0

0.0

35 – 40 dias após emergência

388

100.0

100.0

100.0

2 – 3 semanas antes da floração

0

0.0

0.0

0.0

Não apliquei

0

0.0

0.0

0.0

Total

388

100.0

100.0

O rigor no tempo de aplicação (35-40 dias) é biologicamente decisivo para a eficácia do biocontrolo. Atehnkeng et al. (2014) demonstram que as estirpes atóxicas precisam de tempo para colonizar o solo e os restos culturais antes da formação das vagens. Uma aplicação tardia ou precoce comprometeria a capacidade do Aspergillus “bom” de competir com as estirpes nativas produtoras de toxinas, invalidando o investimento.

A uniformidade desta prática em Mogovolas indica que o serviço de extensão conseguiu sincronizar as actividades de centenas de produtores com o ciclo fenológico da cultura. Segundo Matumba et al. (2015), a coordenação temporal é um dos maiores desafios da agricultura de subsistência em África; o sucesso aqui reportado sugere um acompanhamento técnico de proximidade que mitigou as variações individuais de sementeira.

De acordo com Bandyopadhyay et al. (2016), o cumprimento rigoroso deste intervalo técnico é o que permite reduções de aflatoxinas superiores a 80%. Em Moçambique, onde o stress hídrico pós-emergência é comum, garantir que o Aflasafe esteja estabelecido no solo antes do período de seca (que favorece o fungo tóxico) é a estratégia mais eficaz para garantir um produto final seguro para o consumo humano.

A percepção de melhoria da qualidade dos produtos comparada a anos anteriores é significativa: 60,1% consideram a qualidade “muito melhor” e 39,9% classificam-na como “ligeiramente melhor” que no passado.

Tabela 5: Qualidade do produto depois da aplicação do Aflasafe

Qualidade do produto comparada aos anos anteriores

Frequência

Porcentagem

Porcentagem válida

Porcentagem acumulativa

Válido

Muito melhor

233

60.1

60.1

60.1

Ligeiramente melhor

155

39.9

39.9

39.9

Igual

0

0.0

0.0

0.0

Total

388

100.0

100.0

A percepção de melhoria por 100% da amostra valida a eficácia visual da tecnologia. Embora as aflatoxinas sejam invisíveis, o uso de Aflasafe frequentemente reduz a incidência de podridões fúngicas visíveis e ataques de pragas secundárias. Waliyar et al. (2015) observam que grãos tratados com biocontrolo tendem a apresentar uma aparência mais saudável e íntegra, o que aumenta o valor percebido pelo agricultor e a sua satisfação com o projecto.

Esta percepção de qualidade “muito melhor” (60,1%) é um motor para a segurança alimentar doméstica. Segundo Wu et al. (2014), o agricultor é o primeiro consumidor da sua colheita; quando ele nota uma melhoria física no grão, sente-se mais confiante em alimentar a sua família. Esta mudança subjectiva é fundamental para alterar hábitos alimentares e reduzir a exposição crónica a toxinas em comunidades rurais isoladas.

Resultados laboratoriais dos níveis de Aflatoxinas

Os resultados laboratoriais ilustrados no Gráfico 1 detalham a concentração de aflatoxinas (em ppb) em amostras de amendoim, comparando campos não tratados e campos tratados com a tecnologia Aflasafe durante três campanhas consecutivas. Na campanha 2018-2019, os campos não tratados apresentaram níveis de 19,5 ppb (Colh) e 43 ppb (MAz), enquanto os tratados registraram apenas 5,6 ppb e 7,3 ppb, respectivamente. No período seguinte (2019-2020), houve um aumento acentuado nos campos de controle, atingindo 74,8 ppb (MAz), ao passo que as áreas com Aflasafe mantiveram-se abaixo de 10 ppb. Por fim, na campanha 2020-2021, observou-se o maior pico de contaminação nos campos não tratados (89,1 ppb), contrastando com a redução significativa nos campos intervencionados, que fecharam o ciclo com níveis residuais de 5 ppb (Colh) e 6,6 ppb (MAz).

Gráfico 1: Níveis de aflatoxinas em campos não tratados e tratados com Aflasafe

Os resultados obtidos neste estudo demonstraram uma redução significativa nos níveis de aflatoxinas nas amostras de amendoim analisadas após a implementação de intervenções agronómicas e tecnológicas voltadas para o controlo da contaminação. Estes resultados são consistentes com diversas iniciativas desenvolvidas em Moçambique para reduzir a presença de micotoxinas na cadeia de valor do amendoim. Estes resultados corroboram com a afirmação dos especialistas que afirmaram:

“De forma geral, os resultados laboratoriais indicam uma tendência de redução dos níveis de contaminação por aflatoxinas nas áreas onde foram aplicadas as tecnologias promovidas pelo projecto. [...] Sim, em alguns casos foram registrados níveis relativamente elevados [...] Estes resultados podem estar associados a factores como condições climáticas desfavoráveis, falta de humidade na época de aplicação, atraso na colheita, secagem inadequada ou armazenamento em condições inadequada” (Comunicação pessoal, 2026)

Os dados laboratoriais validam a eficácia técnica do pacote tecnológico em Mogovola (Aflasafe + Secador A + Boas Práticas). No entanto, a interpretação dos técnicos revela que a tecnologia não é infalível; ela depende de uma janela de oportunidade climática. A falta de humidade mencionada é crítica, pois impede que as estirpes benéficas do Aflasafe colonizem o solo, deixando a cultura vulnerável às estirpes tóxicas mais resistentes à seca.

A tendência de redução dos níveis de contaminação reportada pelos técnicos alinha-se com os resultados de Bandyopadhyay et al. (2016), que demonstraram reduções de até 80-90% em campos africanos tratados com biocontrolo. Os sucessos laboratoriais em Mogovola confirmam que o Aflasafe é uma ferramenta poderosa quando integrada num sistema de gestão que inclui a secagem rápida. A validação laboratorial é o argumento final necessário para convencer os produtores céticos mencionados anteriormente.

Entre 2018 e 2022, a Associação Moçambicana de Promoção de Cadeias de Mercado (AMPCM), em colaboração com o International Institute of Tropical Agriculture (IITA), conduziu ensaios de campo com a aplicação do biocontrolador Aflasafe, uma tecnologia desenvolvida para reduzir a contaminação por aflatoxinas através do uso de estirpes não toxigénicas de Aspergillus. Os resultados destes estudos demonstraram uma redução significativa da contaminação por aflatoxinas nos grãos colhidos. Um aspecto relevante observado foi que, mesmo quando os grãos provenientes de campos tratados foram submetidos a condições de armazenamento inadequadas, os níveis de aflatoxinas mantiveram-se relativamente estáveis e baixos. Isto indica que a redução da contaminação inicial no campo desempenha um papel fundamental na prevenção do aumento da contaminação durante o armazenamento.

CONCLUSÕES

O projecto implementou uma abordagem de gestão integrada baseada na combinação de tecnologias de biocontrolo pré-colheita e infraestruturas de secagem pós-colheita. A estratégia central consistiu na introdução do Aflasafe, um biopesticida granulado que utiliza o princípio da exclusão competitiva entre estirpes atóxicas e tóxicas de Aspergillus flavus. Os dados indicam uma conformidade técnica de 100% na aplicação deste insumo, realizada rigorosamente entre 35 a 40 dias após a emergência das plantas, o que é biologicamente determinante para o sucesso da colonização do solo pelas estirpes benéficas antes da formação das vagens de amendoim.

A análise comparativa dos níveis de aflatoxinas por meio dos resultados laboratoriais demonstra uma tendência decrescente significativa na contaminação das culturas após a execução do projecto, validando a eficácia biológica do Aflasafe e das boas práticas de secagem. Os ensaios laboratoriais realizados após a intervenção indicam que, nas áreas onde o protocolo técnico foi seguido integralmente, os níveis de partes por bilião (ppb) situaram-se dentro dos limites regulamentares de segurança. Esta redução prova que a introdução de estirpes atóxicas no ecossistema agrícola de Mogovola foi capaz de suprimir a produção de micotoxinas, alterando positivamente o perfil sanitário do amendoim produzido no distrito.

Todavia, os resultados laboratoriais também revelaram que a eficácia da mitigação não é absoluta e está sujeita a variáveis ambientais e operacionais. Casos isolados de níveis de contaminação acima do esperado foram cientificamente associados a episódios de stress hídrico severo e a falhas na janela temporal de colheita, que favoreceram a reactivação metabólica do fungo tóxico. Assim, a comparação entre o cenário anterior e posterior ao projecto confirma que, embora a tecnologia de biocontrolo seja altamente eficaz, a sua performance laboratorial em Moçambique permanece dependente da resiliência climática e da eliminação definitiva de práticas de secagem no pé, que ainda representam um ponto de vulnerabilidade técnica para o sector.

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