Como critérios de exclusão, foram desconsiderados estudos observacionais, revisões de literatura, relatos de caso e pesquisas que não apresentavam intervenção com treinamento resistido ou que não envolviam pacientes com insuficiência cardíaca. O processo de seleção dos estudos foi realizado em etapas, incluindo triagem inicial por título e resumo, seguida da leitura na íntegra dos artigos potencialmente elegíveis. O fluxo de seleção dos estudos foi organizado e apresentado em forma de fluxograma, conforme as recomendações do PRISMA.
Após a extração dos dados, estes foram organizados para a elaboração de tabelas contendo informações como título, ano de publicação, autores, tamanho da amostra, protocolo de intervenção, descrição do treinamento e principais resultados encontrados em cada estudo.
RESULTADOS
Os resultados desta revisão foram estruturados de modo a sintetizar criticamente as evidências disponíveis na literatura recente. Os estudos incluídos são apresentados de forma sistematizada, considerando delineamento, características amostrais, protocolos de intervenção e principais desfechos clínicos e funcionais. A partir dessa organização, torna-se possível identificar padrões de resposta ao treinamento resistido, bem como divergências metodológicas que influenciam a interpretação dos achados.
Autor | Título | Amostra | Protocolo Utilizado | Resultados |
|---|---|---|---|---|
Alshamari et al. 2023 | Does the Addition of Strength Training Program Benefit More |
Ensaio clínico randomizado 44, Pacientes 35 Homens |
O estudo realizou o treinamento dividido em dois grupos, um grupo realizou treinamento intervalado de alta intensidade | Os efeitos do treinamento resistido foram benéficos aos pacientes de ambos os grupos, havendo melhora no pico de consumo previsto de oxigênio, limiar anaeróbico, pico de ventilação minuto, taxa de pico de trabalho e fração de ejeção. Destacando o grupo que realizou treino de força associado que teve melhores resultados nos índices de função muscular das extremidades superiores (1RM e resistência muscular) em comparação ao outro grupo. |
De Andrade et al. 2021 |
Home- program in patients with chronic heart failure and reduced ejection fraction: a randomized pilot study |
Estudo piloto randomizado. 23 pacientes (sem distinção) |
Os pacientes foram submetidos a 12 semanas de treinamento aeróbico (60%-70% de reserva de frequência cardíaca) sendo dividido em dois grupos, um grupo realizou caminhada e o outro ciclismo supervisionado, ambos combinados com treinamento de resistência (50% de 1RM). |
Ambos obtiveram melhorias semelhantes no pico de captação de oxigênio e ventilação máxima. Mas destaca-se diferenças significativas entre os grupos: o grupo que realizou caminhada associado com treinamento de resistência foi mais eficaz na melhora da pressão inspiratória máxima e melhores resultados no TC6. |
Autor | Título | Amostra | Protocolo Utilizado | Resultados |
|---|---|---|---|---|
Thomaz et al. 2024 |
Improving cardiorespiratory fitness and quality of life among heart failure patients: A Comparative study of circuit Resistance training |
Ensaio clínico randomizado. 38 pacientes (sem distinção) |
Os participantes realizaram o Treinamento de Resistência em Circuito (CRT) realizando 2 circuitos de 8 exercícios três vezes por semana durante três meses ou CRT+ Técnicas de liberação miofascial (MRT) recebendo uma combinação de intervenções de CRT e 6 MRT uma vez por semana. |
Os participantes dos grupos TRC apresentaram resultados significativos em certas variáveis, como na melhora do pico de consumo de oxigênio, pulso de oxigênio e inclinação VE/VCO2. No CRT+MRT não se encontrou diferença significativa. Destacando que o Treinamento de Resistência por si só é suficiente para melhorar a função cardiorrespiratória e a capacidade muscular. |
Donelli et al. 2020 |
High-intensity interval training is effective and superior to moderate continuous training in patients with heart failure with preserved ejection fraction: A randomized clinical trial |
Ensaio clínico randomizado. 19 pacientes (sem distinção) | O estudo contou com dois grupos divididos em 10 pacientes submetidos ao Treinamento Intervalado de Alta Intensidade (HIIT) e 9 no treinamento contínuo moderado (MCT) durante um período de 12 semanas. | Após o tempo de treinamento previsto ambos os grupos apresentaram melhora na eficiência ventilatória, capacidade funcional, função diastólica e qualidade de vida. O grupo que realizou o HIIT se destaca por apresentar maior aumento do VO pico (22%) comparado ao treinamento contínuo (11%. Conclui-se que o Treinamento Intervalado de Alta Intensidade é uma modalidade de exercício benéfica para pacientes com insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada |
Autor | Título | Amostra | Protocolo Utilizado | Resultados |
|---|---|---|---|---|
Machado et al. 2024 |
Strength training improves functional capacity of individuals with chronic heart failure: Randomized clinical trial |
Ensaio clínico randomizado. 13 pacientes 10 homens 3 mulheres |
O estudo realizou o treinamento de 24 semanas em dois grupos sendo subdivididos em grupo de treinamento aeróbico (ATG - 6 pacientes) e grupo de treinamento de força (STG - 7 pacientes) sendo submetidos a teste de exercício cardiopulmonar, teste máximo de uma repetição (1RM) e Minnesota Living with Heart Failure Questionnaire (MLHFQ). |
Foi observado melhorias significativas na força muscular em ambos os grupos, mas apenas o grupo STG teve resultados benéficos na melhora do consumo máximo de oxigênio demonstrando que a implementação de treinamento de força melhora a capacidade funcional e força muscular de pacientes com insuficiência cardíaca. |
Edelmann et al. 2025 |
Combined Endurance and resistance exercise training in heart failure with preserved ejection fraction: a randomized controlled trial |
Ensaio clínico 130 homens 192 mulheres |
O estudo teve duração de 12 meses onde foi realizado a divisão em dois grupos de pacientes que realizaram treinamento aeróbico em conjunto com exercício resistido e o outro grupo realizou cuidados habituais supervisionados para fim de comparação de dados clínicos e funcionais. |
Evidencia que treinamento aeróbico combinado com exercício de resistência não resultou em uma pontuação de Packer modificada significativamente melhor, mas resultou em melhorias em parâmetros clínicos importantes, como pico VO e classe NYHA, em comparação com o grupo que realizou cuidados habituais, ressaltando que o treinamento é seguro, mas não reduziu significativamente mortalidade ou hospitalizações quando comparado aos cuidados habituais. |
De maneira geral, os achados evidenciam que o treinamento resistido promove benefícios consistentes em pacientes com insuficiência cardíaca, especialmente no que se refere à melhora da força muscular e da capacidade funcional. A distribuição dos principais desfechos melhorados, bem como a comparação entre diferentes protocolos de treinamento, está apresentada na Figura 1.
Figura 1. Comparação dos efeitos do treinamento resistido isolado e combinado sobre desfechos clínicos e funcionais em pacientes com insuficiência cardíaca.
Observa-se que o treinamento combinado (aeróbico + resistido) apresenta superioridade em desfechos cardiorrespiratórios, especialmente no VO
pico e na capacidade funcional. O treinamento resistido isolado demonstra maior impacto na força muscular, e resultados positivos na capacidade funcional e qualidade de vida, enquanto ambos os protocolos apresentam efeitos limitados sobre desfechos clínicos robustos.
Além disso, a análise temporal dos estudos demonstra uma progressão gradual das adaptações fisiológicas ao longo do período de intervenção, especialmente no que se refere ao consumo máximo de oxigênio e à capacidade funcional, conforme ilustrado na Figura 2.
Figura 2. Evolução do VO
pico e da capacidade funcional ao longo do período de intervenção em pacientes com insuficiência cardíaca.
De acordo com o gráfico, observa-se uma evolução progressiva dos parâmetros ao longo do tempo de intervenção em pacientes com insuficiência cardíaca.
O VO2 pico apresenta aumento contínuo durante todo o período, saindo de valores iniciais mais baixos e atingindo níveis significativamente maiores, esse comportamento indica melhora consistente da capacidade cardiorrespiratória, com ganhos já perceptíveis a partir da 4ª semana e mais acentuados entre a 8ª e a 12ª semana.
De forma semelhante, a capacidade funcional (avaliada em metros, como no teste de caminhada) também demonstra uma evolução positiva e progressiva. Nota-se que os aumentos são graduais, porém constantes, refletindo melhora na tolerância ao esforço e empenho funcional dos pacientes.
De modo geral, os estudos analisados evidenciam que o treinamento resistido promove melhora consistente da força muscular, configurando-se como o desfecho mais uniforme entre as pesquisas incluídas. Adicionalmente, observou-se incremento significativo da capacidade funcional, especialmente demonstrado pelo aumento do consumo máximo de oxigênio (VO
pico) e pela melhora no desempenho em testes funcionais, como o teste de caminhada de seis minutos.
No que se refere à qualidade de vida, a maioria dos estudos reportou melhorias relevantes, associadas à redução dos sintomas e ao aumento da autonomia funcional dos pacientes. Ademais, intervenções que combinaram treinamento aeróbico e resistido apresentaram resultados superiores quando comparadas às abordagens isoladas, particularmente em relação aos parâmetros cardiorrespiratórios.
DISCUSSÃO
De acordo com Thomaz et al. (2024), no artigo intitulado “Improving
cardiorespiratory fitness and quality of life among heart failure patients”, o treinamento resistido em circuito está associado a melhorias significativas na capacidade funcional, evidenciadas pelo aumento do VO
pico, além de benefícios na qualidade de vida e nos sintomas depressivos. Esses achados consolidam o treinamento resistido como componente relevante na reabilitação da insuficiência cardíaca. No entanto, uma análise crítica indica que tais efeitos decorrem predominantemente de adaptações periféricas, como o aumento da eficiência muscular e o aprimoramento do metabolismo oxidativo, havendo evidências ainda limitadas ou inconsistentes quanto à sua influência sobre o remodelamento cardíaco estrutural.
Em contrapartida, Edelmann et al. (2025), no estudo intitulado “Combined endurance and resistance exercise training in heart failure with preserved ejection fraction”, demonstraram que intervenções combinadas, envolvendo exercício aeróbico e resistido, promovem ganhos consistentes em parâmetros funcionais, incluindo VO
pico e classe funcional segundo a New York Heart Association, especialmente em indivíduos com insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada. Entretanto, tais melhorias não se traduziram em reduções estatisticamente significativas em desfechos clínicos mais robustos, como mortalidade e hospitalizações. Nesse contexto, a relação entre melhora funcional e impacto prognóstico ainda não está completamente estabelecida, embora haja indícios de benefícios indiretos mediados pela melhora da capacidade funcional e da qualidade de vida.
A interpretação desses achados requer a consideração das diferenças fisiopatológicas entre os fenótipos da insuficiência cardíaca. A forma com fração de ejeção reduzida caracteriza-se predominantemente por disfunção sistólica e remodelamento ventricular. Por outro lado, a forma com fração de ejeção preservada envolve disfunção diastólica, redução da complacência ventricular e importante comprometimento periférico, incluindo disfunção endotelial e aumento da rigidez vascular. Nesse cenário, o treinamento resistido tende a exercer maior impacto relativo em pacientes com fração de ejeção preservada, devido à sua atuação direta sobre o sistema musculoesquelético e periférico. Já na forma com fração de ejeção reduzida, seus efeitos parecem mais limitados quando aplicados de maneira isolada, o que reforça a necessidade de associação com o treinamento aeróbico para otimização das adaptações cardiorrespiratórias.
Corroborando essa perspectiva, Donelli da Silveira et al. (2020), no estudo intitulado
“High intensity interval training is effective and superior to moderate continuous training in patients with heart failure with preserved ejection fraction”, evidenciaram que o treinamento intervalado de alta intensidade promove maiores ganhos no VO
pico em comparação ao treinamento contínuo de intensidade moderada. Esses resultados destacam a intensidade do estímulo como variável central na indução de adaptações cardiorrespiratórias. Nesse sentido, embora o treinamento resistido desempenhe papel fundamental na melhora da força e da função muscular, sua aplicação isolada pode ser insuficiente para maximizar tais adaptações, devendo ser compreendido como estratégia complementar ao treinamento aeróbico.
Adicionalmente, Andrade et al. (2021), no estudo intitulado “Home based training program in patients with chronic heart failure and reduced ejection fraction”, demonstraram que programas combinados realizados em ambiente domiciliar são capazes de promover ganhos funcionais relevantes. No entanto, intervenções supervisionadas apresentaram melhores resultados, especialmente em desfechos relacionados à qualidade de vida e à função muscular respiratória. Esses achados evidenciam que fatores como supervisão, adesão e controle das variáveis de treinamento influenciam diretamente os resultados clínicos observados.
Do ponto de vista mecanístico, o treinamento resistido promove predominantemente adaptações periféricas, incluindo hipertrofia muscular, aumento da densidade capilar e melhora da eficiência mitocondrial. Essas adaptações contribuem para a redução da fadiga e para o aumento da tolerância ao exercício, aspectos particularmente relevantes em pacientes com insuficiência cardíaca, nos quais a limitação funcional possui caráter multifatorial. Contudo, a menor magnitude de efeitos sobre mecanismos centrais reforça a necessidade de sua integração com o treinamento aeróbico para obtenção de respostas fisiológicas mais abrangentes.
A segurança do treinamento resistido, quando adequadamente prescrito, é amplamente respaldada na literatura. A baixa incidência de eventos adversos reforça sua aplicabilidade clínica. Ainda assim, essa segurança depende diretamente da individualização da prescrição, incluindo o controle rigoroso da intensidade, do volume, da frequência e da progressão, especialmente em indivíduos com maior comprometimento clínico.
Por fim, destaca-se como limitação relevante a heterogeneidade metodológica entre os estudos disponíveis. Observa-se considerável variabilidade nos protocolos de treinamento, incluindo diferenças na intensidade relativa, no número de séries, na duração das intervenções e nas combinações de modalidades. Essa ausência de padronização limita a comparabilidade entre os achados e dificulta a consolidação de recomendações mais precisas para a prática clínica.
Dessa forma, o treinamento resistido deve ser compreendido como componente essencial, porém complementar, na reabilitação da insuficiência cardíaca, apresentando benefícios consistentes na capacidade funcional, na força muscular e na qualidade de vida. Entretanto, seu impacto sobre desfechos clínicos de longo prazo ainda não está plenamente estabelecido. Assim, sua aplicação deve ocorrer preferencialmente no contexto de programas multimodais, cuidadosamente individualizados e alinhados às particularidades fisiopatológicas de cada fenótipo da doença.
CONCLUSÃO
Com base nos estudos analisados, o treinamento resistido (TR) mostrou-se uma intervenção segura e útil no tratamento de pacientes com insuficiência cardíaca (IC). Os principais achados indicam melhora da força muscular, da capacidade funcional e da qualidade de vida, além de ganhos em parâmetros como o consumo de oxigênio (VO
pico) e função muscular periférica.
Observou-se também que a combinação do treinamento resistido com exercícios aeróbicos tende a gerar resultados mais consistentes quando comparada ao uso isolado de uma única modalidade. No entanto, os estudos não demonstraram evidências claras de redução da mortalidade ou das hospitalizações, indicando que os benefícios do TR estão mais relacionados à melhora funcional do que ao prognóstico da doença.
Além disso, a variação entre os protocolos utilizados dificulta a definição de um modelo padrão de aplicação, reforçando a importância da individualização do treinamento conforme as condições de cada paciente.
Dessa forma, o treinamento resistido pode ser recomendado como parte da reabilitação cardiovascular, desde que bem orientado e associado a outras estratégias terapêuticas.
REFERÊNCIAS
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