Resumo
A religião constitui um fenômeno histórico, cultural e psicológico de grande relevância, exercendo influência significativa na organização social, na constituição da subjetividade e na elaboração simbólica do sofrimento humano. Contudo, observa-se que, em determinados contextos, práticas religiosas vivenciadas de forma rígida ou dogmática podem contribuir para processos de submissão, dependência emocional e intensificação do sofrimento psíquico, especialmente quando se sobrepõem ao cuidado psicológico especializado. Diante desse cenário, este artigo problematiza a interface entre religião, subjetividade e saúde mental, questionando em que medida a religiosidade pode atuar simultaneamente como fator de proteção psíquica e como elemento potencialmente gerador de sofrimento. A justificativa do estudo fundamenta-se na crescente demanda por abordagens interdisciplinares que articulem Psicologia, Psicanálise e estudos da religião, especialmente frente ao aumento de quadros de ansiedade, depressão e comportamento suicida. O objetivo geral consiste em analisar criticamente os efeitos ambivalentes da experiência religiosa na constituição psíquica do sujeito, à luz da Psicologia e da Psicanálise da Religião. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa de natureza qualitativa, do tipo revisão de literatura, baseada na análise de obras clássicas e contemporâneas da Psicologia da Religião, Psicanálise, documentos diagnósticos e relatórios internacionais de saúde mental. Conclui-se que a religião não deve ser compreendida de forma reducionista, mas como um fenômeno complexo, capaz tanto de oferecer sentido, pertencimento e suporte emocional quanto de produzir sofrimento quando associada a práticas coercitivas ou à negação do cuidado clínico. Defende-se, assim, a necessidade de uma articulação ética entre fé e ciência no cuidado integral da saúde mental.
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